Minha mãe, quando eu era criança, pegava o que sobrava ( carne, frango, legume, sei lá), virava na farinha e tava pronto o famoso mexidinho, o restodontê, o clássico da culinária caseira beijomeliga. Às vezes a assistência, vulgo eu e meu irmão, reclamávamos, mas de outras feitas o mexidinho salvava a nossa brava fome, vindos da escola.
Um conto bonitinho da Adélia Prado também fala disso, da pessoa pegando o resto do molho, do arroz, virando na farinha, quebrando um ovo por cima e lascando na panela mesmo. Acontece com quem gosta de cozinhar, com quem precisa cozinhar, as duas coisas e com quem tem a consciência, maior, que sobrinha de comida vira coisa muito boa.
Uma vez, fui falar pra uma pessoa nefasta que eu julgava minha amiga que canja se faz com a carcaça do frango, arroz, muitas vezes sobra mesmo de arroz. Essa criatura me ridicularizou por anos, e pelas minhas costas dizia que eu precisava me tratar por dizer por aí que fazia comida com sobras. Para uma festinha na casa dessa pessoa, fiz uma vez uma torta de palmito com muito esmero, que foi devidamente ridicularizada por ser "torta de sobra de geladeira". Eu devia ter desconfiado do caráter da santa ali. Vai ser ignorante assim no raio que parta: qualquer indivíduo com um mínimo de bom senso na cabeça sabe que muitas coisas da culinária clássica surgiram da fome, da necessidade de comer, do resto, da carne de segunda e do caldo ralo de legumes.
Só pra constar nos autos, hoje minha omelete deu certo.

2 comments:
E o franqguinho desfiado com legumes de ontem virará a torta de liquidificador de hoje! Viva! ADORO!!! Comer faz bem e alimenta!
Jujuba.
AAAAA E o iogurte deu certo, não falei? BJomeliga!!! hihihihi
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