Ontem, fiquei vagando pela velha biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp, onde pra mim tudo começou e onde tudo recomeça, batucando em Caronte ( meu laptop, o barqueiro do Inferno) a tese onde tudo terminou e onde tudo termina.
Muito confuso isso de escrever. Peguei da estante a minha velha dissertação de Sociologia, defendida, vejo na capa assinada pelos mestres tão queridos, em 20 de fevereiro de 2001; pego uma tese, de um conhecido, e a minha dissertação parece infantil e sem sentido, perto da dele. Mas leio a lista de agradecimentos, e percebo que a minha me comove também: retorno a ela e vejo quão doce, apesar de ingênua, era a menina que "agradeceu às muitas pessoas queridas que fizeram com que meu sonho de escrever um texto sobre Adorno se tornasse realidade"...
Vejo as estantes, inexpugnáveis; a estante das monografias, onde a minha repousa também e onde celebro a memória da minha avó e de meu pai; e penso que lá em Campos dos Goitacazes, norte do estado do Rio de Janeiro, em 1950, eles não tinham a mínima idéia de que alguém escreveria sobre música popular, paixão dos dois, e que isso viraria um objeto, numa estante entre outras, numa biblioteca erguida no que naquela época era mais um canavial.
A minha mente vaga no presente, passado e futuro, e se não fosse pelo Beto, que estva junto na labuta, moquifados os dois na mal fadada salinha da História da Arte, eu ficaria com a cabeça emperrada na coroa de um monstro da Divina Comédia, nos idos de 1481.
Hoje acordei e me deparei com o início da minha tese. É assim:
No silêncio, repousam as coisas. Elas, em alguns aspectos, vencem os homens que as produziram: vencem no tempo e no espaço, atravessam séculos e giram os continentes. Um livro, uma série de papéis desenhados, três ou quatro telas pintadas com tintas feitas com ovos: depois de seis séculos, tais coisas parecem pairar sobre as cabeças de quem ousa se aproximar delas, têm vidas próprias, perderam o status de coisas e se tornaram invencíveis.
Seria possível retornar, das coisas, às pessoas que as fizeram? Ou pior, chegar às intenções desses homens, nas suas mentes, no que tinham em vista quando resolveram arrumar pincéis, papéis e palavras? Porque, materialmente, o que nos sobrou, da época em que viveram, foi isso. Jacob Burckhardt, em suas Reflexões sobre História ( aqui puxa nota, mais uma, hahahaha), diz que uma das tarefas do historiador seria, entre dar aulas, comunicando fatos passados às gerações seguintes ( como os aedos na Grécia e as velhinhas contadoras de história, em todas as partes), escrever sobre essas coisas que sobraram, para compreender melhor os homens que as fizeram. Essa tese seria mais uma frustada tentativa de se chegar perto dos florentinos do século XV, melhor dizendo, de um florentino do século XV. Talvez a inutilidade da tentativa a faça patética e mesmo bela, como todas as tentativas dos historiadores, de hoje, ontem e agora.
Muito confuso isso de escrever. Peguei da estante a minha velha dissertação de Sociologia, defendida, vejo na capa assinada pelos mestres tão queridos, em 20 de fevereiro de 2001; pego uma tese, de um conhecido, e a minha dissertação parece infantil e sem sentido, perto da dele. Mas leio a lista de agradecimentos, e percebo que a minha me comove também: retorno a ela e vejo quão doce, apesar de ingênua, era a menina que "agradeceu às muitas pessoas queridas que fizeram com que meu sonho de escrever um texto sobre Adorno se tornasse realidade"...
Vejo as estantes, inexpugnáveis; a estante das monografias, onde a minha repousa também e onde celebro a memória da minha avó e de meu pai; e penso que lá em Campos dos Goitacazes, norte do estado do Rio de Janeiro, em 1950, eles não tinham a mínima idéia de que alguém escreveria sobre música popular, paixão dos dois, e que isso viraria um objeto, numa estante entre outras, numa biblioteca erguida no que naquela época era mais um canavial.
A minha mente vaga no presente, passado e futuro, e se não fosse pelo Beto, que estva junto na labuta, moquifados os dois na mal fadada salinha da História da Arte, eu ficaria com a cabeça emperrada na coroa de um monstro da Divina Comédia, nos idos de 1481.
Hoje acordei e me deparei com o início da minha tese. É assim:
No silêncio, repousam as coisas. Elas, em alguns aspectos, vencem os homens que as produziram: vencem no tempo e no espaço, atravessam séculos e giram os continentes. Um livro, uma série de papéis desenhados, três ou quatro telas pintadas com tintas feitas com ovos: depois de seis séculos, tais coisas parecem pairar sobre as cabeças de quem ousa se aproximar delas, têm vidas próprias, perderam o status de coisas e se tornaram invencíveis.
Seria possível retornar, das coisas, às pessoas que as fizeram? Ou pior, chegar às intenções desses homens, nas suas mentes, no que tinham em vista quando resolveram arrumar pincéis, papéis e palavras? Porque, materialmente, o que nos sobrou, da época em que viveram, foi isso. Jacob Burckhardt, em suas Reflexões sobre História ( aqui puxa nota, mais uma, hahahaha), diz que uma das tarefas do historiador seria, entre dar aulas, comunicando fatos passados às gerações seguintes ( como os aedos na Grécia e as velhinhas contadoras de história, em todas as partes), escrever sobre essas coisas que sobraram, para compreender melhor os homens que as fizeram. Essa tese seria mais uma frustada tentativa de se chegar perto dos florentinos do século XV, melhor dizendo, de um florentino do século XV. Talvez a inutilidade da tentativa a faça patética e mesmo bela, como todas as tentativas dos historiadores, de hoje, ontem e agora.

2 comments:
Vc ficaria brava se o meu comentário sobre sua tese não fosse nem um pouco acadêmico?
Vai lá mesmo assim: seu começo é fofo!
hehe
Tem uma certa fragilidade e humildade que, tenho certeza, servirá de contra-ponto para a excelência que virá! Deixa as pessoas relaxadas.
Beijinhos Paulinha!
Ah, não esquenta, pirações acontecem com todos... especialmente nessa época esquisita de escrita...
Sobre as pirações, post acima.
Eu tô completamente maluca.
Brigada pela força, carinho e pelos elogios. A última linha ficou uma miséria. Vou mudar, hehehe. Beijos, vá a National Gallery por mim, Clis! Vou visitar o seu bróugui, pó deixar.
Post a Comment