Thursday, February 22, 2007

Mais tese

Lá vai mais um trecho da minha introdução:



Em meio a tantos turistas que chegam a Florença, numa tarde fria de novembro adentrei na estação ferroviária de Santa Maria Novella, vinda de Pisa. Com uma bronquite crônica, enfrentei o frio e parte de minha desolação e espanto para entar na Galleria degli Uffizi e sua sala 16-B. Por ser um dia muito frio, cinzento e chuvoso, tudo parecia vazio, e o olhar dos personagens na Adoração Lama (fig.1) rebatia diretamente nos retábulos espetaculares, no outro lado do salão. Muitos historiadores afirmam que, na figura de manto amarelo à nossa direita, está Alessandro Marianni di Vanni Filipepi, conhecido pelos conterrâneos e por toda a posteridade Sandro Botticelli. Estudante precária da vida e obra do mestre florentino, bem sei que isso seria uma possibilidade entre tantas, uma aposta na tradição e na continuidade de certas formas e convenções. Se naquela tarde de novembro, eu me apresentei diante dos olhos argutos da figura de amarelo, e obtive uma resposta mínima, insignificante, mas uma resposta, vi reconhecido os esforços dispersos e desatentos que fizeram surgir essa tese.

Como historiadora, aprendi a escrever sobre coisas e acontecimentos. Mas tudo se perde numa névoa, quando se escreve sobre Botticelli. São poucos os documentos que atestam sua vida, poucos os que nos levam às suas realizações. E a minha tentativa, realizada no continente descoberto por um de seus contemporâneos, era mais canhestra que qualquer historiador poderia aceitar. Muitas vezes, nos anos desse doutoramento, tive que justificar minha escolha diante de interlocutores saudavelmente céticos, e diante de parte deles apresento os parcos resultados de minhas buscas. O meu consolo é que, no último exame de parte da bibliografia, percebi que não estava sozinha nas minhas incertezas e que pelo menos especialistas experientes e que puderam passar parte de suas vidas muito mais perto da Toscana do que eu, também incorreram em erros.

A idéia inicial das pesquisas surgiu da leitura de Visão do Paraíso, de Sérgio Buarque de Hollanda: o problema da visualidade do Renascimento, sua construção a partir da leitura e da transmissão de textos, e da produção de textos e experiências a partir dessa visualidade, me pareceu fascinante demais para permanecer no arquivo das leituras feitas por obrigações profissionais. Antes disso, tornou-se um norte, algo que sempre esteve no meu horizonte, mesmo quando tudo pareceu se esfacelar, por conta de vivências tristes. De Sérgio Buarque, passei para a tese de doutoramento de Aby Warburg, e o mundo da historiografia sobre o período se abriu.

4 comments:

Skywalker said...

Muito bom budubu! Continue que está bom...

Anonymous said...

Paula,
Sua sensibilidade estampada na escrita eh realmente contundente. Cada post sobre sua tese revela uma extrema qualidade, tanto da escrita em si, como do conteudo ao qual vc se dedicou por tanto tempo.
Eh espantosa sua docura, principalmente pq a Paula que infelizmente eu conheci era extremamente dura, grossa, brava, orgulhosa demais por muito pouco.
Eu fico feliz em saber que vc eh ainda algo muito alem que apenas isso.
Boa sorte em sua tese.
Y.

Maria said...

Eu concordo com vc, pequena Y., que eu sou de lascar. Essa tese me ensinou muita coisa: talvez mais na minha vida como um todo do que propriamente de História da Arte. A gente tá aqui pra melhorar, né? E a convivência com vcs no IA me ajudou muito a ser uma mulher mais legal. Beijos, queridos leitores-panda!

Maria said...

Ó só, desculpe o/a Y. daí de cima, achei que fosse a Ynaiá! Então é o seguinte, mesma coisa, mas sem o IA no meio. Beijo pra vc,leitor/a, espero que sua impressão de mim realmente tenha mudado.