Monday, March 12, 2007

Alvo lírio e rubra rosa

Outro dia, encontrei uma colega no café do IEL. Papo vai, papo vem, ela me diz que pesquisa a obra de um importante escultor brasileiro, 0 Rodolfo Bernardelli. Eu tenho um lado meio obsessivo: segundo minha mãe, padeço do mesmo mal do Roberto Carlos, ou seja, tenho TOC. Bom, pelo menos o Roberto canta bem pra cacete e compôs "Cama e Mesa", com TOC e tudo. Eu nem isso. Mas voltando.Lembrei que numa das minhas fases obsessivas, eu ia pro Centro de Documentação Alexandre Eulálio, aqui no IEL, e ficava lendo as revistas do final do século XIX e início do XX, caçando os artigos de crítica de artes plásticas. Porque eu fazia isso? Porque era pesquisadora voluntária num projeto de digitalização desses trens, que eu batizei carinhosamente de Projeto Pererê: o projeto era pobre, afro-descendente, com uma perna só e mesmo assim todo mundo queria engarrafá-lo. Uma professora tentou roubar a garrafa onde a gente guardava o nosso Saci, e fim. Botei minha obsessão no blog, em baixar música na internet e outras atividades.
Bom, eu lembrei de tudo isso porque nessa fase CEDAE, eu li um artigo ilustrado, de mais de dez páginas, sobre o Túmulo-Monumento do Carlos Gomes, na nossa combalida Campinas. O Túmulo-Monumento, situado na Praça Bento Quirino, na frente da Igreja do Carmo, é obra do Bernardelli. A Maria, minha colega, ficou louca. Hoje acordei cedíssimo, dentista no CECOM, delegacia de Barão, caronas, e resolvo desencavar o tal do artigo, pra fornecer a citação pra ela. Fui no Centro de Memória e a Ema me passou a data do tal monumento: corri no CEDAE e achei artigo, na revista Renascença, e boas. A revista é bem legal, ilustrada com fotos do Brasil inteiro, cheia de coisas interessantes que dariam ótimos artigos e viagens pra congressos. Esse eu dei de presente, outros me esperam. Mas eu achei outra coisa, e vou pôr aqui, uns poemas do Anacreonte, traduzidos por alguém chamado dr. Lireu de Almeida. Coloco em português castiço pra dar mais charme à coisa:
"Lyrica Ero-Archaica
Monostrophes de Anacreonte vertidas pelo Dr. Lireu de Almeida
A uma moça
Não m'enxotes, escarninha,
Pelo branco do cabêllo,
Porque a pelle já m'enruga,
Do inverno o frio gêlo,-/
Ao passo que tu,-ó bella!-
Na seiva da puberdade
Tens o negror nas madeixas
As lavas da tenra idade.../
Nos festões que a deusa Cypria,
Em lédas justas de Amôr,
Distribui, por entre risos,
Á gloria do vencedôr,/
Bem sabes, travêssa, esquiva,
M'escapando desdenhosa
Que, enlaçados, arfam juntos,
Alvo lyrio e rubra rosa."
A revista, Renascença, dirigida pelo Henrique Bernardelli, irmão do Rodolfo ( tá explicado a publicidade em cima do túmulo do maestro campineiro), setembro de 1909, tá aqui na coleção de periódicos do CEDAE. Esse alvo lírio e rubra rosa, mas não dá um samba do bom?

3 comments:

Skywalker said...

É lindissimo o poema, mas não soa nada parecido com o que eu já li do Anacreonte. Acho que o homem da Lira, o tal do doutor Lireu, que realmente deve ser pseudonimo, deu uma ligeira adaptada, se é que não inventou a coisa mesmo. Mas de qualquer forma, isso não tira o mérito do poema que, como eu disse, é lindo...

Baci amore,

Celo

Maria said...

Eu tô achando que isso é coisa de um dos parnasianos, um Alberto de Oliveira, que também publicava na revista. Coisa pro dr. Arnoni resolver! Beijos!

Unknown said...

Voltando a questão positivista, achei o barroco de minas maravilhoso sem desmerecer o Lireu...

putz, quanto tempo...