De Chuck Norris a panda passa para messer Leonardo. Esse bróugui é uma beleza! Abalou Bangu, abalou Bangu!
Então, eu costumo dizer pros meus alunos, olha, o "Código Da Vinci" é legal, bom entretenimento ( se bem que eu achei cacete, bobo e mal escrito, mas enfim), agora esqueçam disso quando a gente estuda a obra do grande toscano. Leonardo foi genial, sem dúvida. Leonardo sabia de milhões de coisas que a gente nunca vai passar perto, isso nem se discute. Mas quando a gente estuda História da Arte, entende que falar que Jesus foi casado com Maria Madalena é fichinha perto das realizações de Leonardo.
Os seus papéis desordenados são a prova de que a mente leonardiana era um esplendor. Conta de açougue, piadas ouvidas na rua, pequenas fábulas convivem com os desenhos espetaculares e a invenção do helicóptero, da bicicleta e receitas de sopas. Giorgio Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, nos conta da beleza excepcional de Leonardo, e de sua carreira como cortesão. Sim, messer Leonardo deixou de pintar e passava de corte em corte construindo catapultas, inventando danças, tocando músicas e escandalizando com suas túnicas curtas e de cores fortes. Amigo dos rapazes, Leonardo desenvolveu uma relação estranha com Salai, um de seus discípulos, e por onde passava deixava um cartão, um desenho, uma obra inacabada e consequentemente um rastro de destruição.
Eu amo com ardor o "Tratado da Pintura", compêndio de algumas anotações do mestre sobre a arte da pintura, que ele, de maneira heterodoxa e escandalosa, considerava maior que a poesia e a escultura. Agora, eu escrevo partes dos meus capítulos da tese, um trabalho cacete e horroroso, pra entregar como relatório à famigerada FAPESP. E Leonardo veio ao meu socorro, porque, como contemporâneo de messer Sandro ( os dois tinham três anos de diferença e estiveram juntos no ateliê de Andrea del Verocchio), alguma coisa poderia dizer sobre o embate entre poesia e pintura. O único artista que Leonardo cita no Tratado é justamente "o nosso Alessandro", de forma negativa: Leonardo critica o desinteresse de Botticelli pela paisagem, e diz que o pintor da Vênus afirmava que "para se fazer uma paisagem, era só molhar uma esponja com tinta e pronto". Mas é o único artista citado. E a primeira parte do Tratado, sobre o paragone ( a disputa) entre poesia e pintura... e toca citação do caso de Apeles, sendo que Alessandro foi o Apeles dos florentinos daquele tempo.
Na historiografia tradicional, século XIX, Leonardo passou como um homem do século XVI, e Botticelli, um artista um tanto quanto ultrapassado, do século XV, um homem ainda ligado ao gótico, ao decorativo e à tradição artesanal, quase nada perto da explosão de três das tartarugas-ninja ( a tríade Leonardo-Michelângelo-Rafael teria ofuscado os caminhos das gerações anteriores, incluindo Donatello. O que sempre me intrigou foi a escolha dos nomes das tartarugas-ninja....risos). Vasari contribui pra isso, porque coloca Botticelli na segunda fase da sua história das artes italianas, e Leonardo no início da terceira, com Giorgione ( um esquema bem bolado do biógrafo).
É duro ter que escrever sobre Leonardo, sendo que tanta besteira é dita sobre ele hoje em dia. Eu também vou escrever um monte de bobagem. Mas a minha idéia principal é que Botticelli e Leonardo estavam mais próximos do que usualmente se supõe.

5 comments:
Tá ficando mais claro mesmo...Continua que as idéias fazem sentido dudu. A idéia de usar as referências ao Apeles como forma de demonstrar o interesse e a admiração pelo titio Botti é uma boa. Veja como aparece a idéia de invenção no Apeles para o Plínio e para o titio Leo. Retórica é tudo...
Pois é, acho que você tem razão! O problema é correr atrás do Plínio e do Landino, dá vontade de dormir... Beijos!
Quando falei que retórica é tudo, quis dizer que provavelmente o commento do Botticelli deve estar inserido dentro de uma estrutura retórica. Talvez, se vc olhar por esse ponto de vista, fique mais fácil demonstrar a idéia principal...
Baci,
Celo
Bom, infelizmente eu não tenho intimidade suficiente com o assunto pra chamar ninguém de tio, nem nunca ouvi falar de Apeles.Mas seu post deixa o Dan Brown no chinelo...
Hihihi...
Beijo, coração!
Vai lá, alguém tem que ser o ignorante da história: o que diabos é Apeles?
Post a Comment