O post abaixo suscitou risadas saudosistas no Clis. Resolvi então prosseguir na memorialística da década perdida.
Nos longínquos anos 80, o herói dos filmes favoritos podia ser um ferrado, como você era, sem tirar nem pôr. Vide a Molly, a garota de rosa-schocking ( sim, o título em português ficou assim). A nega não tinha onde cair morta, e da primeira vez que sai com o bonitão pretendido, pede de forma brava que ele a deixe seis quarteirões da casa onde mora, pra que ele não veja o moquifo. Ou vide mesmo o Ferriss, que vai se formar e não sabe o que vai ser do Cameron, nem da namorada que ainda vai aguentar um ano naquele colégio do diretor psicopata.
Também acontecia do herói ter manias como as suas, como dançar na frente do espelho, se esconder no banheiro porque a roupa era muito ferrada, ter chulé e cabelo mal assentado. Hoje em dia, tudo é perfeito, todo mundo usa roupa de grife, os cabelos são de propaganda de xampu e ninguém tem problema: se você faz academia, é malhado, tem dinheiro pra comprar roupa de grife, toma anti-depressivo e segue as receitas de 128.3905 posições sexuais da revista Nova, você não tem problema. Então, pra que ouvir Echo and the Bunnymen e The Smiths? Na década de 80, a gente ouvia Echo and the Bunnymen e The Smiths quando tava na fossa, além de Bonnie Tyler, Rosana e Vinícius Cantuária ( falaê, agora desenterrei!).
Você sabia exatamente que era ferrado e looser, ouvia rádio o dia inteiro, adorava um moletom ( meu Deus, durante anos e anos da minha vida eu só usava moletom) e camisetona que ia até os pés, com calça fuseau e tênis. A camiseta até os pés era o básico, mas o mais legal era quando ela te enforcava no pescoço, ou deixava seus ombros de fora, num decote canoa gigante. Você adorava Paralamas, Titãs ou Legião, mas ouvia também Ursinho Blau Blau e música da Xuxa. Lá pelos treze anos você descobria que o mundo era complexo, porque beijar na boca não significava namorar, e sim ficar, e o que era ficar era algo amplo, que ia desde os finalmentes até bitoca em bailinho, e você nunca sabia quando era a hora de ir pros finalmentes nem quando era pra só dar bitoca e sair correndo, e geralmente você tentava fazer as duas coisas nas ocasiões erradas.
Você achava ótimo ir em bailinho, porque sempre ficava com a vassoura e chorava escondido depois, numa demonstração que sim, você era masoquista, porque só masoca pra curtir uma tortura dessas, dançar com vassoura de piaçava ao som de Take My Breath Away. E nos anos 80, sim, ser peituda era motivo de crises, usar moletom ( falei, falei) embaixo de 45 graus, andar encurvada e a mãe levar no ortopedista, que olhava e falava, olha, o busto da sua filha é meio grande ( naquela época, as mulheres não tinham peito, tinham era bunda) e o seu sonho dourado era fazer uma plástica, pra, olha só, DIMINUIR a comissão de frente, não aumentar, porque ninguém nesse mundo aguentava os coleguinhas chamando de Fafá de Belém.
Se você era menino, o seu sonho era ter o cabelo reco ( raspado dos lados e cheio em cima) e seu pai queria te matar, porque nos anos 60 o véio teve que ter cabelo reco porque ele era reco, servir o Exército pro seu pai tinha sido o fim da picada. Você esperava seus pais dormirem pra assistir duas coisas: o Acredite se Quiser, que passava tarde da noite na Manchete, depois da Maitê Proença pelada em Dona Beija ( essa aí seu pai assistia escondido), e o Perdidos na Noite, na Band, e sim, o Faustão era um cara super legal, e a abertura do programa era ao som de Tarzan Boy, do Baltimora. E seu sonho máximo era entrar pra equipe do TV Pirata ou chutar uma bolinha ao lado do velho Casa e do doutor Sócrates, ou conseguir afastar seu pai da frente da tv na hora que passava a Dona Beija!

2 comments:
hahaha! Um dia farei um post sobre a década perdida tb! Fiquei com vontade agora!
Nossa, realmente, desenterrou cada uma... engraçado como, falando com pessoas contemporâneas, surgem essas pérolas da nossa adolescência meio como experiências universais! Legal saber que as coisas que a gente passava outras pessoas também passavam.
Acho que talvez pelo fato de ser exatamente a época de adolescência, o egocentrismo era grande demais pra permitir ver que você não era o único que terminava a festa com a vassoura ouvindo aquelas músicas-fossa! hehe
E um dia eu mostro minhas fotos dos 80... cabelo pra cima. Nas festas, gel. Jaqueta de veludo com pêlo de carneiro (pelo menos era o que diziam-nos), camiseta OP gigante (até hoje não suporto camiseta apertada), e, em determinada época, boné verde fluorescente da Pakalolo!
Como os gostos mudam, não? Sobre os peitos das meninas, lembro mesmo que elas faziam redução e não o contrário. Mas, talvez essa seja uma invariante minha, ou talvez eu estivesse à frente do meu tempo, eu sempre achei isso um desperdício...
Beijinhos!!
Meu Deus, jaqueta de pele de carneiro falsa, é trash, Clis! Gel no cabelo também, hahahahaha! Boné fosforecente! A gente parecia uns aliens!
Os gostos mudam e o sobre o peito das meninas, rola discussão mesmo! Mas eu também acho desperdício! Não é de Deus! Beijo e muitas saudades...
obs) a tese continua no buraco mas o blog é um sucesso!
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