Ontem, fui dar aula no IA, com Paulo e André. O André falava sobre a arquitetura de Florença, Brunelleschi e a picaretagem mais linda do mundo ( a cúpula inacreditável da Catedral) e Alberti e a robustez romana. Olhando os slides de Santa Maria del Fiore, lembrei do dia que cheguei na Toscana, com o Giovanni, vinda de Milão. Paramos em Firenze Rifredi, uma estação antes de Santa Maria Novella. E o Giovanni me falou, mas tá lá algo óbvio pra você. No meio dos morrinhos azuis tipo Minas de Guignard, a cúpula. E lembrei do dia em que tomei coragem e parti de Pisa rumo a Florença, pra descer em Santa Maria Novella, a estação fascista e feia encostada na velha igreja dominicana. Fazia frio, e tudo era muito elegante pra mim: as vitrines das lojas de grife, as pessoas, os preços nas tabelas dos restaurantes. Perdida no meio da cidade, virei uma esquina qualquer e tive um dos piores ataques de asma da minha vida, quando me deparei com a Catedral. Ouvindo o André, lembrei que não existe nenhum recuo da Catedral pra cidade, ela é grande, possante, 120 metros de altura no meio de uma cidadezinha Legoland. E como chorei, desnorteada, quando vi as portas de bronze do Batistério, que eram chamadas, por Michelângelo, as portas do paraíso.
E lembrei do que sentia e das minhas esperanças nos dourados, frios, solitários e magníficos dias toscanos. E uma dor me transpassou inteira, o corpo inteiro, a alma inteira, até os ossos. Uma dor nunca sentida antes, um acúmulo de angústia, de desesperança e tristeza. Se tudo o que eu esperava, ansiava, desejava nos meus dias na Toscana, for em vão, só me restará a dor, essa mesma dor que ficou insuportável, no meio da chuva de ontem? Saí da sala. Essa semana, tive o azar de sempre sair e dar de cara com figuras nefastas ( por exemplo, a nega que batia na mãe, minha vizinha fofa, pra roubar dinheiro, lembram dela?), e assim foi. Eu sentia uma dor funda na clavícula esquerda, e sem perceber pus a mão em cima, pressionando e andando meio de lado. Uma figura que nem é tão nefasta assim, apenas equivocada, me disse, mas que horror, que que você tem? E eu, dor.
Consegui chorar depois, consegui lembrar que sentei na Basílica de Assis e pedi a São Francisco, cuja prece, comprada numa lojinha de lá, adorna minha vista nesse instante, paz, saúde, amor, consegui me lembrar que tem gente que me ama, me lembrei que perto do túmulo do santo, muitas mães colocam almofadinhas bordadas com o nome dos bebês pedidos ou salvos pelo Poverello, e numa delas eu li, Davi. E lembro que tinha um monge alemão falando coisas que pareciam ser interessantíssimas, mas eu não entendo alemão, daí entrei numa das capelas laterais da Basílica Inferior, as dos santos padroeiros ou ligados de alguma forma à fé franciscana, e caí bem na de Maria Madalena. E me lembrei que tudo o que eu mais quero na vida é algo simples. E que eu nunca vou esquecer do dia em que quase duvidei do que me é mais caro nesse mundo.

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