Wednesday, October 26, 2005

Piores momentos

Da série "o infortúnio nunca vem só e nunca avisa", problemas enfrentados por mim em Chicago:
1) o cara da Alfândega que resolveu me sortear, revistar todas as minhas malas e pôr tudo de pernas pro ar, sem sequer me ajudar a colocar a tralha toda no carrinho;
2)as duas noites sem dormir por conta de uma dor de dente. É, prosaico e infeliz, mas foi assim. Tenho uma obturação que fica muito perto da raiz do dente. No meu afã de perder os eternos quilinhos a mais, pedi salada e não deu outra, uma pequena partícula de alface entalou, eu fui retirar, cáspida! A minha dentista havia me informado que em clima frio o negócio ia doer. Vi estrelas. Uma semana depois, o dente dá sinal de vida de novo. Moral da história: depois de consultar sites na Internet, decidi tomar uma aspirina e boas. O dente até agora não incomodou mais, mas eu confesso que da salada parti pro omelete.
3)pedir o telefone. Já narrei o feito em outro post, mas só quero acrescentar que tudo ocorreu como narrei, Acredite se Quiser.
4)o pau no Caronte, narrado no post anterior, que tirou meu sono na noite de hoje.
5)fui comer num lugar aqui perto, chamado Tempo Café. E não é que pela primeira vez na vida eu não tinha dinheiro suficiente pra pagar a conta? Foi um sufoco. A minha sorte é que fui salva pela proverbial hospitalidade midwestern. As moças gentilmente confiaram em mim e pude vir buscar o que faltava.
6)na segunda-feira, fui para South Bend, Indiana. Narro no post seguinte, mas o fato é que o taxista escrotinho não aceitou meu Traveler Cheque. De novo, a dura aqui passou sufoco, mas novamente foi salva pela solidariedade feminina. Uma fofa menina que estava compartilhando o táxi comigo pagou o resto e se tornou minha nova amiga...
7)a insônia. Não sei se é trabalho demais, solidão demais, falta do dono do meu coração ( que ficou no Brasil), falta do Brasil, frio, sei lá. Só sei que estou com isso. Em plena Chicago, ninguém merece!

8)agora, a notícia triste e trágica da morte do professor Adriano, com certeza, meu pior momento em Chicago...

9) infelizmente, tenho um projeto de cunhado que não vale a pena comentar. Essa alma danada perturbou o sono do anjo doce que reina no meu coração. Jurei pelo Lago Michigan e pelo rio Chicago que teria vingança. Ótimo, um presente a menos pra levar pro Brasil.

Caronte, o barqueiro do Inferno

Tanto na Eneida quanto na Divina Comédia Caronte é o barqueiro que leva as almas dos recém-falidos à sua nova morada. Dante escreve ser Caronte um velho, "branco por antigo pêlo", que tira sarro do poeta por tentar atravessar o rio Aqueronte estando vivo. Enquanto isso, "Caron dimonio"bate com o remo nas almas indecisas, que não querem admitir que estão literalmente danadas.
Bom, o meu Caronte é meu laptop, que ontem, em plena madrugada fria, me levou ao Inferno. O Touch Pad desse demônio travou, e eu fiquei a noite toda tentando ressuscitá-lo, ou melhor, trazê-lo novamente para esta margem do Aqueronte. Segunda noite de insônia na terra do White Sox, time de baseball daqui que está ganhando e trazendo felicidade e gritos como os dos corinthianos ou ponte-pretanos.
Depois dessa noite infernal, em que Caronte recusava-se a funcionar ou mesmo desligar, às seis da manhã liguei para o Brasil, mais especificamente na casa da minha sogra, e tirei meu futuro cônjuge de seus doces sonhos. Este anjo da candura e do riso se apiedou desta pobre alma condenada e me informou ser necessário apertar o botão liga-desliga de Caronte num tempo maior. E, final e gloriosamente, Caron dimonio resolveu dar o ar da graça. É demais.

Saturday, October 22, 2005

Aldus Manutius, Vinho, Salame e Uma Baguete ( além de Gorgonzola, é claro)

Hoje vi a edição do Aldus Manutius da Comédia.

Pra quem não sabe( eu também não sabia), esse cidadão da Sereníssima República de Veneza foi o maior editor do Renascimento. Equivale dizer que foi o maior editor de todos os tempos.
Em 1502, essa pessoa editou uma Divina Comédia. Encomendou o texto ao cardeal Bembo, que corrigiu alguns erros das edições anteriores. Ao invés de fazer uma edição grande, como as outras, fez uma de bolso. Detalhe: em papel de qualidade, com letras lindas, texto impecável... e ilustrações feitas a mão, delicadas. Atrás do Virgílio, aparece uma aurora lindíssima. O livro tem as margens douradas, e decoração nas folhas.
Eu vi esse troço hoje. Na Newberry. Mostrei pra uma moça italiana que eu conheci lá, e ela me agradeceu muito. Fiquei tão feliz que fui comer uma macarronada no almoço, dormi um sono dos justos à tarde e à noite, fui no supermercado, lasquei um Lambrusco, salame, pão e prosciuto, na conta, e adicionei uvas e um bombom maravilhoso. Tudo não-diet. E brindei à saúde de Aldus Manutius.

Sunday, October 16, 2005

Oak Street Beach

Da série desta humilde escriba nas terras chicagoans.
Hoje eu fui ter com o velho Michigan. Moro a uns quatro quarteirões desta imensidão azul e que muda minha concepção de "gelado"... o "gelado" pode ser sempre mais "gelado", essa é a verdade.
Andando pela Lake Drive, achei os túneis para os pedestres irem para a praia. É, dá praia esse pedaço de geleira. No calor, o povo se joga mesmo, tudo nessa vida refresca. Agora, início de outono, a brisa gelada diz que o Michigan está respirando, e trazendo o frio. O dia, ensolarado, céu de brigadeiro, como se diz em aviação, convidavam ao passeio e às reflexões inúteis.
Você atravessa estes túneis, e dá com o Lago. Nas margens, um pouco de areia, pedras ou grandes degraus de cimento. Toda a segurança possível, etcs, etcs, estamos falando de EUA, enfim...
Tem um parque ao lado, com as inevitáveis árvores gigantescas, começando a amarelar. E depois, o tal Navy Pier, um parque de diversões também gigante. Tudo aqui é gigante...
Sentei-me às margens da divindade potawatomi e entreguei-me a uns dos piores pecados: a preguiça.
É que do outro lado, o skyline inteiro dessa cidade arrojada e elegante despontava, na orla. Senti aquela preguiça que a gente sente diante do que é bonito: no Rio, também tenho vontade de deitar e ficar vendo a vista. Roma, etcs, etcs, lugares bonitos dão preguiça. Depois de dias difícies, eu me encontro comigo mesma, com a cabeça numas músicas, entendendo essas músicas, e ouvindo o Lago resfolegar, se encrespar e ficar frio, muito frio.
Quando eu era muito jovem, mas muito jovem mesmo, li o Poder do Mito, do Campbell. Meus amigos antropólogos podem me desancar: esse livro é horrível, não presta, e tudo o mais. Mas me lembrei de uma história, aqui de uma nação indígena das terras que mais tarde deram nessa confusão de EUA. A história de uma moça que se casou com um cara, e descobriu que ele era um feiticeiro, que se transformava em cobra, como todos os parentes dele. Depois de várias peripércias, essa moça se dá conta que o cara não prestava, vamos dizer assim, estava a serviço do mal.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.

Thursday, October 13, 2005

Visão do Paraíso

Eu acho que alguém poderia prestar um serviço de utilidade pública e traduzir Visão do Paraíso, do velho patriarca Buarque de Hollanda, pro inglês. Ia vender que nem pão quente, modificar a historiografia anglo-saxã, ia vender mais que havaiana!
Estou falando. Se o pessoal da Newberry lesse o Sergião, eles iam ficar malucos...
Falando sério. Se não leu Visão do Paraíso, leia imediatamente. É um dos livros mais bonitos do mundo. Bem escrito, elegante, erudito, fantástico. Eu tenho um sonho: fazer uma edição ilustrada do Visão. Pode ser uma desculpa para ir na Torre do Tombo, essas coisas. Eu acho incrível ninguém, ainda, na universidade brasileira, ter prestado atenção de verdade nesse livro.
Logo no prefácio, o Sérgio desmonta a historiografia da arte vigente na época ( leia-se formalista) e advoga a favor da Escola de Warburg, o que equivale a assinar a tese que a visualidade renascentista não é clássica, mas sim uma classicização dos esquemas medievais. Uma bomba, para a época.
E a idéia de que uma certa visualidade comandava certos projetos de colonização, é muito atrante para ser tão desapercebida.

Only a Dream in Rio

Você se lembra dessa música? O James Taylor, quando veio pro Brasil, no Rock in Rio I, fez essa canção. Tem uma gravação linda, linda, do Milton Nascimento.

Eu ouvi essa música casualmente, hoje, e desatei a chorar. De saudade do Brasil. Engraçado que estava falando no msn com duas amigas, muito queridas, e as duas estavam naquele bode que só brasileiro consegue amarrar, em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida. Muita corrupção, muita injustiça social, muita mediocridade, muita falta do que fazer, muita falta de ética mesmo.
Não tem nem o que discutir, o Brasil está uma merda. Nesse momento, outubro de 2005, o Brasil está uma merda. Fazer o quê?
Mas eu pensei no Rio. Tão combalido, violento, palco de uma miséria braba. Pra me consolar, a música do Taylor me lembrou da vista do Redentor. E aí eu comecei a chorar.
Porque brasileiro sente falta desta merda de país no exterior?

Sunday, October 09, 2005

Profundezas

Hoje, um amigo no msn disse que viu um ex meu num bar, em São Paulo, com uma moça.
Essa notícia boba veio quando eu estava em papos complicadíssimos, no mesmo msn. Eu tensa, falando de umas coisas foda, e aí eu me lembrei de uma coisa.
Esse meu ex, quando quis dar tudo por encerrado, me disse que não me entendia. Que eu era muito pesada, que eu levava tudo muito a sério, que uma coisa que era pra ser leve, comigo virava procissão de Sexta-Feira Santa.
Esse comentário dele me marcou muito fundo. Tão fundo que os anos seguintes, me condenei à profundeza. Eu ainda fiquei apaixonada por ele, e sofria muito com sua indiferença. E achava que o meu jeito era o culpado por ele ter se afastado de mim.
Mas agora, eu acho que a profundeza é o que me salva. Ou melhor, a consciência da profundeza. Na época que ele me disse isso, eu passava por problemas de saúde, coisas péssimas na minha família, e ele era casado quando a gente se conheceu.
Isso me lembra outra história. Eu tinha nove anos quando mudamos pra Jundiaí. Meu pai era fiador de um irmão. Esse cara tentou dar um golpe na G&M, em São Bernardo, onde ele trabalhava, e descobriram. Ele fugiu e meu pai teve que pagar tudo. Na época, ele dava aulas num curso técnico num colégio de Jundiaí, e os padres de lá ofereceram ajuda.
Eu fui parar nesse colégio. Apesar do catolicismo do meu pai e da minha avó, eu havia sido uma pequena pagã até então. A minha profesora, na Páscoa, nos levou na capela do colégio, um lugar escuro, com lindos baixo-relevos em cor de marfim e moldura de madeira escura, com os Passos da Paixão. Ela nos contou dos sofrimentos de Cristo, e eu comecei a chorar, desesperada.
Dessa experiência veio a profundeza. Não consigo ver gente sofrendo. Sofro pelo mundo ser péssimo, e sou meio Cassandra. Sabe, a moça profetisa de Tróia, que ninguém acreditava? Sou eu mesma. Eu vejo buracos. Na relação entre as pessoas, nas pessoas. E, se eu amo a pessoa, falo do buraco. Mas isso é péssimo. Minha analista já me alertou claramente que isso é sinal de onipotência narcísica brava, que eu não vou salvar o mundo, e que preciso ver primeiro e sempre o meu buraco. Ela tem toda a razão. Mas que eu sou tensa, e vejo buracos, isso eu vejo mesmo. Que posso fazer?

Saturday, October 08, 2005

Internet em W Chestnut

Pra quem está estranhando minha volta à labuta blogueira. Agora tenho internet no lugar onde moro, na cidade potawatomi.
Daí a fúria escritiva, vocês me perdoem, mas estou entalada. Na biblioteca, nos dias de semana, sou da tese. Que está devidamente emperrada, diante dos últimos acontecimentos.
Ontem fui assistir, com um casal precioso que conheci aqui, o novo filme do Jim Jamursch. Chama-se "Broken Flowers", com o Bill Murray. É ótimo.
Essa semana foi de fortes emoções. Singrei a avenida Michigan, saudei o velho deus dos potawatomi e fui ter com minha nova divindade, The Art Institute of Chicago. Gente, o museu é incrível. O acervo é fantástico, a expografia perfeita e tudo o mais. Um MASP dando certo. Com licença, eu vou à luta!

Barbaridades no Orkut e mais protesto

Que o Orkut é uma bela droga, todo mundo sabe. E que a discussão sobre os limites da expressão das opiniões, sempre dá numa bela merda. Censura é uma merda, liberdade de idiotice, idem. Não sei o que pensar a respeito.
Enfim, comovida com o brutal assassinato do professor Adriano, busquei seu perfil no site, e encontrei na sua página de scraps muitos, muitos recados de alunos, amigos, vizinhos e familiares, se despedindo de forma linda dele.
Mas não é que, no meio, tem um idiota dizendo que "ser homossexual não é doença, mas mata"? E denegrindo a imagem da vítima de tão covarde e injustificada violência?
Isso me lembrou outro caso. No início do ano, uma aluna da PUCCAMP foi violentada por um grupo de colegas, que aproveitaram de sua inconsciência, chamaram vizinhos de república para assistir e ainda gravaram tudo e colocaram na internet.
A moça teve coragem de denunciar, e os bonitos foram presos. Mas não é que os colegas, no Orkut, defendem os estupradores com os argumentos mais idiotas possíveis, daqueles que qualquer leitura chulé de "Freud em quadrinhos" detonaria? Moças e rapazes defendendo os pobres injustiçados e culpando a vítima, denegrindo sua imagem, a ofendendo e assustando colegas revoltados. E fazendo passeata e missa em homenagem aos caras.
É demais. O que me causa espanto, náuseas, vergonha e vontade de matar é que a argumentação é arrogante, infundada, e que em outro país traria dores de cabeça homéricas, com guerras nos tribunais. O que me consola é que gente assim, medíocre, passa a vida inteira infeliz, no pior da caverna, vendo as sombras das sombras e achando tudo lindo, nas filas das boates decadentes da cidade de Campinas e região. Quanto aos criminosos, cadeia. Precisam pagar pelo que fizeram. Nos dois casos.

PROTESTO

Quero deixar aqui meu repúdio total, veemente, contra a violência sofrida por Carlos Adriano Thomaz, professor de Educação Física de Campinas, que foi brutal e covardemente assassinado por três alunos no distrito de Sousas. Leia a matéria no site do Correio Popular, seção Cidades, dia 5 passado.
Espero que seja feita justiça e que a memória do colega Adriano não se perca. Segundo as investigações, ele foi morto por preconceito, por ser assumidamente homossexual. Até quanto vamos suportar, nas cidades brasileiras, os crimes cometidos por jovens mal-educados no sentido mais amplo do termo?
Minha completa solidariedade aos colegas, alunos, família de Adriano.

Estou de saco cheio de...

- gente do mal. Quer enveredar pelo reino de Lúcifer? Vá, meu filho, vá fundo, só não leve ninguém junto. Lá, encontrará gente pior que você.
-classe média brasileira. Historicamente, precisa se desculpar pela Marcha por Deus, Família e Liberdade, e precisa ser mais inteligente. É burra demais.
-gente dizendo que o Brasil é uma merda. More na Suíça e se suicide, meu filho.
-gente do mal. Preciso repetir. Ou você se emenda, ou acaba mal. Está se lixando? Então dane-se.
-gente preconceituosa. Mané, aprenda: eu tenho preconceito com quem tem preconceito. Contra gay, mulher, gatinhos, plantas, crianças, idosos, seres humanos em geral, gente viva, gente morta, religiosos, ateus, pagãos e crentes. Em vez de ficar fuçando o lixo no quintal alheio, limpe o seu. E leia Freud.
-gente do mal. Meu, vai jogar uruca na sua casa, que deve ser um lixo.
-gente que bota regra. Queria escrever outro verbo, mas sou educada. Meu, porque você acha que eu tenho que pensar, vestir, agir, votar, como você? Vá me encontrar na esquina.
-gente do mal. Repito. Você é infeliz, coitado. Ou despiroque, ou faça um vodu para si mesmo.
-de ficar de saco cheio. Puta, ninguém merece!

Roberto Carlos

Uma vez, eu li um texto do Chico Buarque, acho que no Pasquim. Não, apesar de velha, não sou da época do Pasquim. Mas eu li alguns Pasquim. E li os lindos textos de Caetano exilado, e depois os de Caetano na volta, puto com a esquerda brasileira, que segundo ele, o preferia exilado. Tirando Paula Lavigne, revista Caras e apadrinhamento de gente medíocre, além de alguns discos muito ruins, Caetano estava certo.
Voltando. Eu li esse texto, não sei se foi uma declaração do Chico, que ele estava no aeroporto de Caracas, quando ouviu a voz de Roberto Carlos essoar pelo saguão, cantando Jesus Cristo ou qualquer coisa que o valha. E que, naquele momento, exilado, compreendeu que Roberto era o Brasil, que sua voz era o nosso país.
Exilados, Caetano e Gil embevecidos receberam a visita do Rei. Muita gente não foi visitá-los. E Caetano escreveu, num daqueles momentos de lucidez, que quando Roberto Carlos entrou na sala da casa inglesa, o Brasil entrou com eles.
Aqui estou eu. Não exilada, não por tanto tempo. Mas problemas familiares atingiram quem tem o mais caro do meu coração. Por acaso, no Terra Rádio, Roberto Carlos, e chorei muito, chorei horrores. O Brasil veio me visitar.
Meus pais eram suficientemente de esquerda para me dizer que Roberto Carlos era ruim, brega, vendido à ditadura e à Globo, sendo essa última muito pior que a segunda. Todos os anos, íamos nos Volkswagen da família ( primeiro o infalível Fusca branco, depois Voyages metálicos) para Campos dos Goytacazes. Depois de horas e horas de uma viagem cansativa, quente, enjoada mesmo, chegávamos na casa de dona Maria. Para o de sempre: Natal com meu pai ajudando minha avó, minha mãe brigando com as irmãs folgadas mas tias sempre carinhosíssimas e divertidas, meu pai e minha mãe brigando selvagemente entre eles, noite de Natal atribulada, com gente cozinhando todo tipo de comida, muita briga e baixaria, e TV ligada no especial do... Roberto Carlos.
Lembro de um Natal na casa de minha tia Maria José, depois que dona Maria se foi. Ela morava num apartamento muito pequeno, e cuidava da minha prima abandonada pelos pais. Armaram uma mesa na sala e outra na cozinha. Minha tia gostava muito da Xuxa e do Wando, o que deixava meus pais, fãs de Mílton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, de cabelo em pé.
Naquele ano, fizeram arroz à grega, tender, peru, nhoque (???) e meu pai começou a tirar sarro da minha tia servindo nhoque com arroz. Eu, de saco cheio, querendo estar em qualquer outro lugar que não ali, olho na TV e vejo a figura de branco cantando Jesus Cristo.
Os anos se passaram, eu sempre escutando muito rádio. Quando mudamos pra Campinas, ficava no quartinho dos fundos, ouvindo baixinho a Laser FM, porque achava divertidíssimo, nos meus quinze anos, o brega de Leandro e Leonardo. Nessas, o Rei me pegou. Ouvi a gravação de uma música boba, do Sullivan e Massadas, "Amor Perfeito", boba, boba.
Mas eu percebi, naquelas noites de rádio baixinho, minha mãe histérica me tratando pior que o tapete da sala, que aquela voz era muito, muito bonita.
Depois disso, segui o conselho que Maria Bethânia deu ao irmão em 1965, ou 6, ou 7: preste atenção em Roberto Carlos. Gente, eu vi, é o Brasil.

Última flor do Lácio, inculta e bela

Quero pedir desculpas pelos erros de português que andei cometendo. Lendo o post abaixo, vi um estinção. O que está em extinção é o meu português... nesses últimos dias, não falei língua nenhuma. Falo uma mistura de inglês, português e espanhol ( esse com meu porteiro mexicano, e não vai do Arriba! Buenos dias! Buenas noches! etcs, etcs).
É horrível, e pra piorar, tenho que ler um monte de coisa em francês e italiano. Línguas das quais não domino nada ou quase nada.
Mas o pior foi com a companhia telefônica daqui. Graças ao financiamento da turma do Alckmin, aluguei um apartamento da Biblioteca. As bibliotecárias me deram um 0800, para ligar para a tal SBC e "set up a telephone service"...
Bom, na segunda-feira, do orelhão do saguão de entrada da Newberry, liguei pro tal 0800. Uma gravação atende, e eu compreendo que devo apertar o botão #, porque não recebo nenhum auxílio da previdência daqui, não pago conta de luz junto com o telefone e, o que é mais importante, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Depois, entendo que preciso apertar o número 2, porque se não me enquadrei em nenhuma das alternativas anteriores, que raio estou fazendo nesse serviço. A gravação informa que minha ligação será gravada, para fins de qualidade no serviço.
Música clássica ( acho que é Mozart) e atende uma representative service. Todas aquelas coisas de praxe, que bom que ligou pra nós, blablabla, e a mulher me pergunta em que posso ajudá-la. Digo que sou pesquisadora numa biblioteca pública em Chicago, e que aluguei um apartamento e gostaria de set up a new telephone service. Ela me faz as mesmas perguntas do menu, e digo que não, não recebo nenhum auxílio de previdência social, não, não pago a conta de luz junto com o telefone, e não, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Ela fica meio brava. Me diz para falar meu nome. Eu me confundo, e digo meu sobrenome. Que, para quem acompanha esse blog, sabe que é a única herança que seu Armando deixou pra mim: um sobrenome ilegível em qualquer língua que não seja o holandês.
Ela se atrapalha, eu também. Entendo que é o primeiro nome, e digo o latino e fácil nome que meu pai me lascou na pia batismal. O sobrenome, please, aí é a tortura... preciso soletrar, e não consigo! O alfabeto em inglês me foge da cabeça completamente.... peço desculpas, digo que estou aqui há uma semana apenas... e nada do ABC dos Jacksons Five aparecer na minha combalida mente. Vou me enrolando cada vez mais, e a mulher perde a paciência, diz que não consegue me entender, e que vai me passar pros atendentes que falam polonês ( ???). Vejo que minha situação vai piorar, e digo que me passe pra quem sabe falar Espanhol...
Bom, atende uma moça que diz Hola. Detalhe: nunca em minha vida inteira em estudei Espanhol. Eu não sei falar Espanhol. Digo isso em inglês, a moça ri... e me pede para soletrar meu sobrenome. E eu soletrei de um jeito que seu Armando, onde quer que esteja, está rindo até agora: "a violet, an elephant, a rose, a mouse, two elephants, other rose, a serpent, a city, and a ... a... hydrogen"...
A moça me pede para que eu passe um fax com cópias de duas identidades e comprovante de endereço no Brasil ( ????). E me pede um número para contato. Explico que não tenho o número para contato, ( não, não é piada), que estou falando de um orelhão numa biblioteca pública. A mulher insiste. Sou obrigada a sair do orelhão, correndo e levando uma bronca do chefe de segurança daqui, e pegar qualquer folheto da biblioteca. Passei o primeiro número que vi.
No outro dia, trago xerox do passaporte, do visto, faço um xerox do meu RG com o moço daqui da biblioteca ( que ficou olhando meu RG como se fosse algo vindo de Marte) e peço para Erin, a superauxiliar de bibliotecária daqui, passar o fax pra mim. Ela gentilmente acede, mas me faz ver que o número está errado. Desço as escadarias, vou pro orelhão, enfrento o 0800 de novo e peço prum moço gentil e bem educado o número correto. Ele me informa e explica que, se eu passar o fax o quanto antes, meu telefone será ligado no dia seguinte.
Erin passa o fax pra mim. No dia seguinte, ligo novamente no 0800, tudo de novo, soletro meu ilustre sobrenome flamengo, aparentado do grande pintor, do jeito mais tosco possível, e a moça começa a me informar das opções de serviço que existem. Digo ya, ya, ya, sem entender direito, e ela me pergunta o número do meu cartão de crédito, que por razões de segurança deixei no apartamento. Digo que tenho cartão de crédito, mas que ele não está comigo. Ela me pede um momento, diz que não pode fazer nada.
Dia seguinte, levo meu cartão de crédito, e ligo de novo num número que foi informado no dia anterior. A moça me escuta, eu soletro meu sobrenome de novo ( ai!) e ela me diz que meu nome constra no cadastro, mas ela está na central do estado de Ohio (???), não pode fazer nada a respeito em Illinois, e que eu devo ligar para o número XYZbetaalfaomega.
Perco a paciência e vou almoçar. Já estou quase desistindo do meu intento, quando lembrei dos versos de Camões: "É fraqueza desistir de cousa começada". Acho que o ilustre poeta da nossa língua não previa a companhia SBC, e que atravessar o Cabo da Boa Esperança, perto disso, é fichinha.
Ligo novamente, e toda a tortura de ver um sobrenome digno, católico de quatro costados e que é a única coisa que me resta do meu avô virar violeta, elefante e etcs. A moça desta vez é mais simpática, ri quando eu falo "Paula like Paula Abdul", e me explica pausadamente os pacotes de serviços. Digo que estou com meu cartão de crédito a mão, que a outra moça pediu, e ela estranha. Diz que o cartão é necessário nos casos em que o indivíduo assina o SuperMegaUltraGoldenPlus Package, com direito a ligações ilimitadas para todos os EUA, Europa, taxas ótimas para América Latina, internet a cabo e wireles, massagista tailandês e tudo o mais. Quando pergunto quanto custa tudo, ela me lasca cem dólares por mês. Pergunto novamente, e entendo que ficar falando ya, ya, é concordar com o que estão te oferecendo!
Digo na linguagem universal dos duros que não dá. Moral da história: hoje meu telefone está funcionando, no plano SuperMegaUltraHomelessPoverty, ou seja, só posso fazer ligações locais e olhe lá, não tem nem secretária eletrônica e internet, um abraço.

The Magnificent Mile

Aqui, moro num bairro chamado Golden Coast, como já disse. Fica perto do que o povo daqui chama The Magnificent Mile, ou seja, o trecho da avenida Michigan que vai desde o observatório Hancock e um prédio chamado Waters Tower, e o centro, depois do rio.
Nessa milha magnificente, as grandes lojas são prédios, arranha-céus elegantes. Tem uma torre só da Nike, outra só da Disney; lojas imensas da Apple, da Sony, da Virgin, Gap, Guess, Banana Republic, um hotel Hard Rock, enfim, todas essas cadeias que significam o consumo e a alegria ao redor do mundo.
Pois é, meu caro amiguinho esquerdista latino-americano, torça a cara para as vitrines abarrotadas de coisas, e para as pessoas para quem consumir é hábito vital, essencial, diário. Nunca o fetiche da mercadoria foi tão profundo, tão radical, quanto é nos EUA.
Mas por outro lado... os prédios arquitetonicamente são impecáveis. As pessoas são amigáveis umas com as outras, olhares doces, gente educada, civilizada. Uma espécie em estinção no mundo todo: gente que vai ao museu, que sonha vendo vitrines, mas que não vota no Bush, que ri muito da paranóia de segurança, gente confiante, gente estranha... para nós latino-americanos. Cadê a arrogância, o imperialismo? Em Chicago é difícil de ver. Gente rica, gente pobre, qualquer um pode entrar nas lojas, mesmo na ultrasofisticada e inglesa Blueberry, onde um casaco vale 2000 dólares. E você estranha... será que seria o mesmo na Daslu?
Aqui, é muito natural entrar numa loja. Vi um mendigo entrando na loja da Apple e ele não foi enxotado. E aí, pensei: mas porque esse homem seria tocado para fora?
É claro que existe racismo, é claro que existe Bush. Mas eu gostaria de ver no Brasil esse tipo de coisa. Gostaria mesmo. Qualquer um entrando na Daslu.

Potawatomi

Potawatomi é o nome da nação indígena que vivia aqui em Chicago. Eles foram dizimados pelos ingleses ( bidu) e hoje, muita gente estuda a história desse povo. Na cidade, hoje existem muitos marcos lembrando da história dos Potawatomi.
Interessei-me por isso por ver esses marcos, aqui no centro da cidade. Como ia dizendo, os potawatomi resistiram e empreenderam grandes guerras contra os ingleses. Deram nome ao rio, ao lago, e quase tudo que existe em Illinois.
No século XX, foi a vez dos negros. Nas décadas de 40 e 50, o pai do atual prefeito ( democratas os dois) expulsou a comunidade negra dos bairros nobres da cidade, incluindo esse onde eu moro, Golden Coast.
O pessoal se rebelou, justificadamente. Algumas passeatas no Grant Park foram dispersas pela cavalaria, muita gente morreu.
Nessa cidade de imigrantes, a memória desses acontecimentos está por toda a parte. O sofrimento precisa ser lembrado... também concordo com isso.

Friday, September 30, 2005

É verdade que...

Aproveitando a deixa, já respondo algumas questões que eu sei que vão rolar pela cabeça dos brazucas:

1)"É verdade que todo americano é gordo?"
Por increça que parível, não. Pelo menos não em Chicago, no centro da cidade. Muita gente muito, muito magra. Moças anoréxicas. Quanto mais alto o nível social, mais magra a pessoa é. Onde estou, ainda tem um shopping center de cirurgia plástica, ou seja, aquela coisa Melrose Place. Moças maquiadérrimas, magérrimas, com bolsas Louis Vouitton e roupas Diesel. Mas nos subúrbios, entre a gente pobre, a obesidade é a regra.
2) "É verdade que só tem porcaria pra comer?"
Não. Em Chicago, não. Come-se comida do mundo todo, ou uma boa Ceasar Salad, por 10 dólares. Em alguns lugares, gasta-se até menos. Lógico que tem restaurante muito mais caro, e muita trash food no supermercado e redes de fast-food e tudo o mais. Mas dá pra viver comendo saudavelmente. Hoje almocei salada, salada de frutas e suco de laranja natural. Mas ontem pisei na jaca e comi o melhor hamburguer da minha vida. Sorte que no meu prédio, existe uma mini-academia de ginástica!
3) "É verdade que todo americano é arrogante?"
Não. Mais uma vez, os chicagoans de Golden Coast desmentem os estereótipos dos gringos. Primeiro porque são imigrantes ou descendentes de imigrantes do mundo todo. E são simpatcíssimos. Os negros, então.. são ótimos.

Hoje, Chicago

Para os meus queridos leitores, o primeiro sinal de vida neste blog, em terras chicagoans.
Pois é, meus caros, consegui burlar a segurança do governo Bush e, depois de dez horas de vôo e uma tremenda insônia, escrevo diretamente da Newberry Library. Ao meu redor, muitos livros sobre iconografia renascentista da Divina Comédia.
Bom, voltando. Depois de dez horas num vôo horrível, com muita turbulência em cima da Amazônia, cheguei mais cedo do que pensava no monstruoso O'Hare International. Mas não adiantou em nada chegar mais cedo, porque peguei mais três horas de fila, entre Serviço de Imigração e Alfândega. Como era a primeira vez que pisava em solo gringo, neguinho me pegou pra Cristo, e tive todas as minhas malas abertas. Os funcionários, gentis, mas mesmo assim é muito pé no saco. Ter suas roupas reviradas e ler cartazes do tipo Mantenha sua comida longe da América, é demais pra cabeça.
Depois disso, fui pegar um táxi. O oposto de lá de dentro: um senhor com cara de indiano, e outro negro, me atenderam super bem. O motorista, da Jordânia, muçulmano e divorciado, disse que casaria comigo e aceitou três bucks de gorjeta.
Chegando no prédio, um outro senhor, esse mexicano, demorou uns quarenta minutos para me entender. Tive tempo apenas para tomar um chuveiro, trocar de roupa e vir pra Biblioteca.
Quem quiser ver onde estou, clique no www.newberry.org. Fui atendida espetacularmente e já estou com uma escrivaninha própria, com net e tudo o mais.
As pessoas aqui nessa região, que se chama Golden Coast, são muito, muito, muito amáveis, sorriem, fazem brincadeiras, entendem seu inglês Tabajara. Pessoas de todos os jeitos, de todas as cores, e usando havaianas. Se não fosse pelo inglês, diria que estou numa Florianópolis, coisa assim. A comida, famosa no Mid-West, é muito boa. Comi saladas espetaculares, frutas muito doces, e um hambúrguer divino, além de um expresso digno de uma paulistana.
Tudo limpo, tranquilo, nessa parte da cidade. Já me disseram que nos subúrbios, a coisa não é assim. Depois preciso contar o que descobri sobre a história da cidade, que ajuda a entender um pouco a situação política e cultural daqui.
E o Lago Michigan? É azul. Dá pra acreditar nisso?

Monday, September 26, 2005

Amanhã, Chicago!

Pois é, o tempo passou e essa escrevedora de blog amanhã voa para Chicago.
Vamos ver como me saio. É a primeira vez que vou para os Estados Unidos. Lógico que a era Bush, os furacões e a invasão no Iraque não ajudam ninguém. Mas enfim, é a vida.
Há oito anos, fui pra Itália. Roma, Nápoles e a Sicília. Agora, a pátria do tio Sam, estágio pra ir de novo pra Itália.
Como diria Aristóteles, fui!

Sunday, September 25, 2005

Está aí um tema difícil, para nós, que encaramos quatro ou mais anos de Ciências Sociais.
Meu pai e minha avó eram muito católicos. Minha avó dona Penha em especial. Meu pai tinha como amigos os padres salvatorianos, que tanto nos ajudaram em Jundiaí, quando a gente mais precisou.
Íamos à missa com meu pai. Minha mãe é de uma religião indefinida. Tenho pra mim que o pessoal da família dela é meio espírita, meio macumbeiro, sei lá. Ela às vezes sonha, tem uns pressentimentos, mas às vezes usa seus poderes para o mal, ou simplesmente para encher o saco dos outros.
Eu fui educada no catolicismo humanista dos salvatorianos, muito próximos dos franciscanos de Petrópolis, por exemplo. Isso significava, na década de oitenta, humanismo, Teologia da Libertação. Meu livro de religião, no colégio, era bem avançadinho: citava Cazuza, descia o pau na alta burguesia, e a principal personagem era, sem sombra de dúvida, São Francisco de Assis.
Depois que entrei na Unicamp, fui perdendo a fé. Na adolescência, aprendi a jogar tarô, e ganhei duendes. Fiquei muito impressionada com o espiritismo, e rezava quando o negócio apertava.
Depois de ler Marx, é difícil a gente manter a ingenuidade.
Mas a vida é difícil. Acho que sou cristã, no básico. Não acredito nos dogmas nem na hierarquia eclesiástica. Senti uma dor verdadeira ao ver o Ratzinger papa, e achava um horror Paulo II ser contra a camisinha e os homossexuais. Não acredito na virgindade de Maria, e tenho muita desconfiança na instituição Igreja. Aliás, todas as igrejas. Mas a moral cristã, permanece no meu dia-a-dia. Será que tenho que ler Nietzsche?
Dois milagres. Ou graças alcançadas aconteceram comigo. Uma vez, estava muito desesperada, sofrendo muito por amor. Por acaso, estava na Praça da Sé. Entrei na igreja e fiquei pedindo pra quem fosse que afastasse o indivíduo de mim. Deu certo...
Outra vez, estava muito dura. Mas dura mesmo. Uma amiga foi à Aparecida do Norte, porque quase morreu quando era criança e a mãe fez promessa que todo ano, se a menina vingasse, eles iriam pra Aparecida. Ela me trouxe um pequeno São Francisco. No outro dia, me chamaram pra dar aulas num colégio católico, pra falar de Giotto... em Assis.
Tudo bem que me despediram depois, porque irritada com os moleques sem-educação, soltei um palavrão. Isso, nem São Francisco consertaria!

Mangia che ti fa bene- a parte carcamana da família

Eu não tenho nenhum ancestral italiano. Minha família era pura de sangue carcamano até agora, porque ao tudo indica o pai dos meus filhos vai ser neto de gente da Puglia.
Mas mesmo assim, sempre me senti meio italiana. Explico: em São Paulo, é quase impossível passar incólume às hordas de netos e bisnetos dos camponeses da Puglia, da Campania, da Calábria, da Sicília. E alguns vênetos, poucos, mas que existem.
Pra começar, sempre tive o dom de me apaixonar pelos Ricardi, Fantinato, Barbarasso da vida. Tudo bem que em Jundiaí, eu não tinha muita alternativa. Mas minha ligação com a velha Bota começou bem, bem antes disso.
Dona Ofélia morava no prédio da Teodureto de Souto, onde meu avô era zelador e aprontava todas, e minha avó infernizava a vida da minha mãe. Meu pai com seus cinco empregos ( seu Pedro sempre dando nó em pingo d'água) quase não ficava em casa. No primeiro andar, morava Dona Ofélia, que fazia macarrão pra fora. Dona Ofélia cuidava de Roberta, sua única neta. Seu filho casou-se com uma moça que, depois de ter a Roberta, se suicidou. Quando eu nasci, a Roberta tinha onze anos, e decidiu que eu seria sua boneca e mascote.
Dona Ofélia se dava bem com seu Armando, mas detestava dona Penha. Sabendo da minha condição de neta sem avó, tomou as rédeas das coisas e me deu os primeiros banhos e tudo o mais. Talvez minhas lembranças mais remotas sejam da mesa cheia de farinha, e da senhora que por muito tempo achei que fosse a Dona Ofélia da televisão. Vaidosa, com suas camisas estampadas, seu gosto pela cozinha, e a italianice.
Depois, na Miguel Telles Júnior, conhecemos no playground uma moça chamada Mara. Ela e seu marido eram filhos de italianos. No caso do Laerte, napolitanos da velha cepa. Gente que bota presépio com Menino Jesus em tamanho natural no Natal, que gosta de comida, discussão, livros e coisas assim. A Mara e o Laerte foram meus super-tios durante anos, era Natal, era passeio, era tudo com eles. Eles tentaram ter filhos, mas os dois bebês, Gabriel e Rafael, nasceram com uma doença muito rara, e morreram.
Anos depois, a Mara estava em casa no dia do meu aniversário. Seu obstetra ligou dizendo que uma menininha havia nascido e sua mãe não a queria. A Mara adotou essa bebê, que compartilha comigo o dia do nascimento, e que tem o nome do meu irmão, Marcela. Em homenagem a nós dois.
Daria pra escrever um grande romance sobre a Mara e o Laerte. E a italianada toda, família deles. Mas o que não dá é pra descrever a gratidão eterna que vou ter pelos italianos de São Paulo. Com eles, aprendi a gostar da comida da Península, de ir ao MASP, de ler, da maioria das coisas que me fazem hoje. E de lascar O Sole Mio no chuveiro!

Para Dani e Evandro: essa é do seu Armando!

Ontem, tive uma felicidade genuína. Na minha despedida, recebi um casal de amigos muito querido, que veio de Vinhedo especialmente para me ver! Então, Dani e Evandro, essa é pra vocês...
A Dani me contou que de vez em quando passa por aqui, e que leu e se emocionou com a história das minhas avós. Dani, que é minha conterrânea de Cambuci, e que também tem uma família de figurinhas. Contei pra ela a pior história do seu Armando, meu avô paterno.
Seu Armando era filho de belgas-holandeses, sabe como? Pois é, parente longínquo mas nem tão longínquo assim do pintor Vermeer. Os famosos flamengos, que se dividiram entre os dois países, e que vieram dar às costas brasileiras algumas vezes. Católicos e mercadores.
Meu bisavô, seu Arthur, era dono do Hotel Fluminense, em Campos. Casou-se com dona Arminda, filha de portugueses, e dessa união nasceu a figura. A família perdeu tudo, segundo a lenda, porque Gastão, o filho mais velho, gostava de jogar nos cavalos. Outro dia encontrei na Internet um neto do seu Gastão, meu primo, que mora no Rio. Não comentei nada, vai que é mentira!
Voltando. Seu Armando era alto, loiro, de olhos azuis e estrábicos. Magro, e meio rebelde. Entrava e saía dos empregos, era meio malandro, mas gostava muito dos seus seis filhos homens. Pobre, pobre, mas comprava presentes de Natal para todos: carrinhos de madeira, bolas e outros brinquedos. Mesmo na pobreza, guardou suas delicadezas burguesas, européias. E um sotaque meio diferente.
Quando o filho mais velho quis vir para São Paulo, trazendo os irmãos, seu Armando não titubeou. Veio junto. No frio Piratininga, sentia-se melhor. Aqui, conseguiu o emprego de zelador num prédio, na rua Teodureto de Souto, no Cambuci. Morava lá, no apartamento reservado ao zelador, e era lembrado muitos anos depois como um dos melhores funcionários do prédio. Lavava com ardor a escadaria do primeiro andar, de mármore branco, deixando-a brilhando.
Minha mãe trouxe a discórdia e a primeira neta que ele teve a oportunidade de conviver de perto. Escondido da minha avó, seu Armando ia me visitar, me levava pra passear no parque da Aclimação, e tirava fotos comigo no colo, com vestido de joaninha.
Meu pai deu nó em pingo d'água e conseguiu um financiamento. Saímos da Teodureto e fomos pra Miguel Telles Júnior, num prédio novo. Seu Armando ia lá, e cuidava dos netos, já que meu irmão nasceu com seus incríveis cinco quilos e meio.
Um dos meus tios conheceu uma moça, de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo. Ficaram noivos. Às vésperas do casamento, uma das irmãs da minha tia veio para São Paulo, para prestar um vestibular ou um concurso, não sei direito, e minha avó ofereceu sua casa e ajuda para a mocinha. A mocinha, carregando a mala, inocente e caipira, chegou na Teodureto. Seu Armando estava na calçada, com seu rayban, sua calça de tergal e suéter. Não é que o velho lascou uma cantada barata naquela irmã da sua futura nora? Foi aquele escândalo...
Seu Armando era muquirana, e não deixava dona Penha comprar pó e ruge. Pouquíssimo católico, dava dores de cabeça na minha avó, homéricas. Não sei porque, mas ele perdeu o emprego, o povo todo teve que sair da Teodureto, e eles foram pra um conjunto de prédios perto da antiga Rodoviária, ali quase dos lados da Baixada do Glicério. Onde o Maluf tava construindo o monstro Radial Leste.
Nas fotos do meu batizado, aparece de rayban. E apertando a gente. Logo depois, a fatalidade. Teve um AVC, depois outro, depois outro. Ficou nove anos na cama, com um dos lados paralisado, o estrabismo cada vez pior. Eu tinha medo do meu avô, preso naquela cama, sem falar direito. Muito medo. Meu pai irritado com minha falta de jeito me obrigava a ficar perto. Minha mãe, numa das poucas vezes que teve sensibilidade para comigo, explicou pra ele que eu tinha medo do seu Armando, que isso era normal.
O que não é normal foi seu sofrimento. Sofria muito, e no final pediu para que Jesus o deixasse ir. Sofreu demais para falecer, o que ocorreu dois anos depois da morte da minha avó materna, e no mesmo mês de tia Júlia e tio Esmeraldo, seus cunhados e padrinhos de meu pai.
Meu avô deixou para mim a lembrança de que, mesmo sendo zelador de prédio, é necessário ter uma certa aristocracia de espírito. Uma delicadeza de alta burguesia. O dinheiro, esse é detalhe.

Saturday, September 24, 2005

Dona Penha, minha outra avó

Hoje, deu vontade de escrever sobre os campistas. Comecei com dona Maria. Agora vou falar da minha avó paterna, dona Penha.
Que também era uma figura. Dona Penha foi mãe de seis filhos, mesmo se casando tarde com o filho de um belga dono de hotel, meu avô seu Armando. Ela me contou sua história, eu com meus quinze anos, ela quase com oitenta. E me disse sabiamente: ainda bem que alguém se interessa e escuta essas histórias, porque daqui a pouco eu não estou mais aqui.
Ela me contou que seu pai trabalhava na Ferroviária, a Leopoldina, e chamava-se Franklin. Por alusão, compreendi que ele era mulato muito escuro, explicando os cabelos pixaim, os lábios grossos e olhos esverdeados de toda a nossa família. Sua mãe era doceira, trabalhava em casa e se chamava Antônia. E tinha os cabelos lisos e negros.
Seu pai faleceu quando ela era mocinha e sua mãe teve uma longa e terrível doença: câncer. Minha avó explicava que por isso, ela ficou em casa até mais tarde, cuidando da mãe até ela vir a falecer. Isso era compreensível. Uma das vergonhas de minha avó, além da mulatice do pai, era que havia se casado tarde, aos trinta anos, e com um rapaz mais novo, que conheceu passeando com uma amiga. Ele namorava outra, mas minha avó deu um jeito de conquistá-lo. Essa é a melhor parte da história.
Casada com ele, teve uma vida de privações e sofrimento. Perdeu o filho mais novo, meu tio Salvador, afogado no Paraíba do Sul, e viu os filhos migrarem para a distante São Paulo. Até hoje não sei porque meu tio mais velho decidiu vir pra São Paulo, e não para o Rio, como seria natural aos norte-fluminenses. Mas enfim, vieram todos, até meu avô, que simplesmente amou e adotou São Paulo como sua terra. Minha avó não se conformava com isso, e todas as férias brigava e obrigava um dos filhos a levá-la para Campos. Numa dessas, meu pai, cabeludo e fã dos Beatles, quase noivo de uma nissei, foi obrigado a ir e na fila da Caixa Econômica, conheceu a internacionalmente famosa minha mãe, Dona Meire. Qualquer dia desse eu falo dessa criatura que me gerou.
Claro que dona Penha implicou com Dona Meire. As duas se odiaram e no início do casamento dos meus pais, minha mãe, que foi morar com os Vermeersch no prédio no Cambuci onde meu avô era o zelador, e que para o desgosto de todos engravidou logo desta que dá o testemunho, foi colocada no limbo pela sogra megera.
Minha avó pagou todos os seus pecados. No final da vida, a única nora que cuidou dela, e que a acompanhou na morte, foi minha mãe. E a neta que ela jurava não ser filha do meu pai e que não foi ver quando nasceu, foi adotada por uma senhora italiana do prédio, dona Ofélia. Dona Ofélia, arquiinimiga de Dona Penha, cuidou de meu umbigo problemático e me deu os primeiros banhos e as primeiras macarronadas. Essa neta resistiu a tudo isso, e causava orgulho a dona Penha, porque sabia tocar piano ( mal e porcamente, é bem verdade), e entrou na Unicamp, instituição citada na televisão.
Minha avó era muito católica. Gostava de cozinhar, mas não fazia doces. Minha mãe, implicante, dizia que a casa da minha avó era suja e não nos deixava comer lá. Lembro-me do primeiro presente que ganhei de meus avós: uma boneca de plástico, dura, com um vestido xadrez azul. Até hoje existe.
Lembro-me também que adorava suspiros. E que era baixinha, baixinha. E que quando fez oitenta e dois anos, surpreendeu todo mundo. Pela primeira vez na vida, aceitou que as senhoras amigas da igreja fizessem uma festinha de aniversário para ela. Teve bolo, salgadinhos e docinhos, que ela mandou para nós, junto com uma foto. Onde estava maquiada, elegante, de roupa nova comprada pela nora. Logo depois, partiu desse mundo.
Sua morte foi a primeira dor verdadeira que senti na vida. Caloura na Unicamp, senti que fui transportada para uma outra dimensão, naquele final de semana. Virei motivo de chacota entre alguns colegas de classe, porque sofri de um início de depressão e só falava da sua morte. Tive que procurar ajuda e no centro médico da universidade, encarei minha primeira terapia.
Hoje, sei que minha avó me ensinou que é importante termos memória. É importante respeitarmos os mais velhos, e que do mesmo jeito que meu pai teve que se despedir dela, tive que me despedir de seu Pedro, e alguém um dia terá que fazer isso por mim. Aprendi a ter fé, e aprendi que do sofrimento, da dor, podem vir coisas boas. E que tudo passa, mesmo implicância de sogra.

Minha avó

Ontem, ouvi na Nova FM "Escrito nas Estrelas", da Tetê Espíndola. E me lembrei da minha avó, Maria da Conceição.
Aliás, minhas duas avós chamavam-se Maria. Maria da Conceição e Maria da Penha. Nomes antigos, como diz Érico Veríssimo em Incidente em Antares, nomes avoengos.
Minha avó materna, a da Conceição, adorava essa música. Ela, muito pobre, muito simples, morava na velha Campos dos Goytacazes. Que antes de ser a terra do casal Garotinho, foi a terra natal de meus ancestrais, de meus avós e de meus pais. Mas gostou tanto da canção, que concorria num festival, em 85, que comprou o LP especialmente para ouvir. Essa música marcou o último ano da vida dela.
Eu deveria ter uns quatro anos quando conheci minha avó. Nós morávamos exilados em São Paulo. Quando nasci, ela quase faleceu devido a um mioma, que não havia tratado por falta de recursos e de coragem para ir ao médico. Só pude vê-la no meu batizado. E tive a indelicadeza de lhe perguntar do velho José Ferreira, morto muitos, muitos anos antes, e que foi sua única e grande paixão. Minha avó ficou com os olhos cheios de água, e minha mãe ou alguém ao lado me explicou que ele era uma estrela.
Foi a mesma explicação que minha mãe deu a minha priminha, desconsolada com a morte de quem cuidava e educava dela. Eu tinha nove anos, vi minha mãe com o rosto vermelho de chorar. Na hora não compreendi direito, mas hoje sei que minha avó era muito simples, muito doce, e que partiu desse mundo cedo, na quadra dos cinquenta, devido a um erro médico.
Lembro-me que sua cozinha, geladeira, fogão e armários, era toda vermelha, comprada a prestações pagas pelo meu pai. E que no velho terreno do seu José Ferreira, ela ocupava uma meia-água nos fundos e alugava a espaçosa e verde casa da frente a uma moça. Seu banheiro inteiro era escuro, de cimento queimado, e da primeira vez que fui a Campos visitá-la, cometi outra indelicadeza, no alto dos meus cinco anos: dei um verdadeiro chilique e não queria tomar banho num lugar tão pobre. Lembro-me que saí de São Paulo a Campos no Voyage do meu pai pensando que minha avó era uma fada, e morava num lugar mágico como as estampas fofas dos cadernos.
Outra lembrança forte foi a bronca que ela me deu quando eu chorei e pedi de volta à minha prima, abandonada pelos pais na casa da nossa avó, uma bermuda branca e de listas coloridas que havia sido minha. Acho que dessa terceira vez, dona Maria perdeu a paciência com a neta birrenta e enjoada. Eu era uma verdadeira chata.
E ela tinha um quadro, com uma estampa, mostrando os hebreus atravessando o Mar Vermelho. E gostava de tapioca com manteiga, e de pudim no Natal. Fazia galinha ao molho pardo, e caranguejada, indo com meu pai ao velho Mercado de Campos e comprando os bichos vivos. Tinha flores, frutas e ervas no quintal, incluindo um imenso mamoeiro, onde uma vez fui fotografada fazendo birra, pra variar. Mas que vergonha.
Hoje, sei que uma das melhores influências que tive na vida foi da minha avó, que conheci tão pouco e que perdi tão cedo. Foi com ela que aprendi a lição da simplicidade de caráter. E gostaria muito que ela estivesse aqui para poder ir a Campos comer tapioca com manteiga. E chuvisco, e doce de mamão verde.

Friday, September 23, 2005

Leituras de Rousseau

Li Rousseau uma vez na vida. O Contrato Social.
Queria ler de novo.
Em outra encarnação, fui de um negócio chamado Programa de Formação de Quadros Profissionais, no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Isso mesmo, estive na Estrela da Morte do Império, no Antro arqui-inimigo do Gláuber Rocha e do Gilberto Vasconcellos. E não virei Darth Vader, aparentemente.
Nesse troço, a gente ficava dois anos fazendo programas de estudo. Doze pessoas, de todas as áreas das Humanidades: advogados, filósofos, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, e até mesmo historiadores da Arte. Escolhíamos o que queríamos estudar, e aí, era mandar bala, toda terça e sexta-feira.
Teve um programa de Filosofia Política. O básico: Aristóteles, Maquiavel, Rousseau. O Contrato Social começa com a concepção aristotélica de política: um ramo da Física. Os fenômenos da política são da ordem das investigações naturais. No Príncipe, Maquiavel parte do mesmo pressuposto.
Mas no Rousseau, o negócio dá pau. Ele começa considerando a política como algo passível de ser compreendido com regras, como a geometria de Euclides. E logo descarta esse tipo de argumento, porque os homens têm seus afetos, suas paixões, que, inversamente do que pensavam os autores do século XVII, não são calculáveis nem previsíveis. Rousseau reivindica o abismo dentro de cada um, o diferente.
No meu pouco entendimento, ficou a impressão do livro ser algo grande. E afetivo, e generoso. Gostaria de estudar um pouco mais isso...

Thursday, September 22, 2005

Dance Little Lady Dance

Uma das minhas paixões no pop sempre foi, e sempre será, a música que bombava nas pistas no momento do meu nascimento. Viva a disco!
Uma play list básica, pra comemorar os quase 30 anos da moça que escreve e desse fenômeno musical:
1)Dance Little Lady Dance- Tina Charles
2)Shake Shake Shake- KC and The Sunshine Band
3)Dance a Little Bit Closer- Charo
4)Give it Up- KC and The Sunshine Band
5)That's the way I like- KC and The Sunshine Band
6)Zodiacs- Roberta Kelly

Aniversário, quase embarcando

Aniversário. Pois é, aniversário.
Hoje faço 28 anos. Brincadeira... quando eu tinha uns quinze, achava que aos quase trinta, estaria velha. Bom, velha estou ficando mesmo. Daqui a pouco, vou ter que comprar Renew. Como diria Balzac...
O mais doido deste aniversário é que estou quase embarcando para Chicago. Quem acompanhou o blog sabe que desde o Carnaval estou às voltas com as burocras, daqui e de lá, pra poder ir ver livros velhos às margens do Lago Michigan. De forma surpreendente, esta escriba convenceu Consulado e Fapesp que ver ilustração renascentista da Divina Comédia é algo importante para o progresso das Ciências Humanas brasileiras. E de forma mais surpreendente ainda, conseguiu se convencer que ir pros United é legal, em tempos Bush.
Então... daqui a uns cinco dias, Illinois. O blog vai virar diário de bordo... por enquanto, escutando Cabelo Raspadinho, do Edu Casanova, na gravação do Chiclete com Banana. BRASIIIIIIIIILLLLLLLLL!!!!!!!!

Wednesday, September 14, 2005

Aula de História do Brasil

Hoje, me despedi dos meus alunos no cursinho. Pois é, ao que tudo indica, e está na passagem que comprei, vou encarar mesmo o lago Michigan.
Até que dei uma aula sobre o estabelecimento da cana-de-açúcar e as características da sociedade colonial brasileira boa. Fizemos dois exercícios, de universidades federais, e tasca o açúcar no povo. Sociedade patriarcal, religiosa e escravocrata. Como essas coisas se combinavam?
É uma loucura acompanhar o raciocínio, eu sei.Por que não escravizaram os índios? Por que os africanos? Por que o açúcar? A mandioca é mesmo venenosa?
Como eu queria ser uma boa professora.

Aleijadinho

Algumas notas sobre o Aleijadinho.
Hoje dei uma aula sobre Imaginária Brasileira. Já está provado, pela professora Myriam de Oliveira, da UFRJ, a maior estudiosa de Arte colonial brasileira, que surgiram várias escolas de artesanato artístico, durante o período. Existem aspectos estilísticos que diferenciam as peças do Maranhão das de Pernambuco, e as duas das da Bahia, Minas Gerais, a região das Missões Jesuíticas, São Paulo.
O ponto alto da tradição mineira, sem dúvida, é o Aleijadinho. Que consegue, em Congonhas do Campo, ser o ponto alto de toda a história do artesanato artístico no Brasil, de todas as regiões. A professora Myriam se preocupa, no livro mais recente, em demonstrar que a arte colonial brasileira não pode ser chamada de barroca: ela seria rococó. Acho que essas discussões estilísticas são um pouco estéreis.
Mas o fato é que, para estudar a obra de Aleijadinho, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, é necessário se desvincular do mito romântico, criado pelo primeiro biógrafo, Bretas, e pelo ensaio crítico de Mário de Andrade. O Aleijadinho não era um gênio isolado, um homem que tirava tudo da sua cabeça: original, sim, mas em diálogo constante com a tradição, um homem que se entendia como parte de um universo colonial marítimo português.
Tampouco a mulatice explica a força criativa e criadora. É um fator interessante, mas não explica um artista que se quer reconhecido como universal. Também é necessário saber que muitas peças ditas do mestre são de oficinas próximas a sua: o mercado dá a autoria que quer, como bem demonstram as exposições de coleções particulares.
Lembro de uma ( não vou citar o nome do colecionador por gentileza) que fui no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio. Você chegava e dava de cara com um enorme banner, onde o colecionador propunha algumas características formais que seriam constitutivas da marca da oficina de Antônio Lisboa. Bom, se você seguisse tais critérios, nenhuma peça da coleção restava como sendo da oficina do mestre.
Tirando esses vexames e a situação sempre precária do patrimônio artístico nacional ( o site da Polícia Federal traz muitos casos de obras roubadas que andam por aí, nas salas chiques e atapetadas da alta burguesia), além da escassa documentação, resta a eloquência do conjunto de Congonhas. Talvez seja um dos conjuntos escultóricos mais bonitos do mundo. Dois estrangeiros deram conta do problema: Germain Bazin e Robert Smith, em monografias fundamentais e há muito fora de catálogo. Interessante que já vi muita gente estudando peças isoladas, ou a atuação do artista como arquiteto, mas sobre Congonhas, existe muito pouca coisa. Além de Bazin e Smith, existe um livro da professora Myriam, um artigo de Nancy Davenport na revista Barroco, e as propostas de uma historiadora de Minas, que prova com uma argumentação muito fraca que os profetas seriam os inconfidentes. Além da médium que recebe o espírito de Tomás Antônio Gonzaga, cuja turma domina as comunidades relacionadas no orkut.
Enfim, em preparação um artigo sobre os profetas. Não, infelizmente eu não recebo o espírito de ninguém. E sim, concordo com Bazin: os profetas vieram de um conjunto florentino de gravuras do século XV. Como o Aleijadinho viu isso? E eu sei?

Monday, September 12, 2005

Leopardo do Visconti

Assisti o DVD do Leopardo, do Visconti. O DVD vale a pena, o segundo disquinho traz entrevistas com algumas das quinze ( é, quinze) pessoas que estavam na equipe técnica do diretor. A Cardinale continua linda, e os velhinhos contam histórias engraçadíssimas, tipo do Visconti não querer o Burt Lancaster para o papel principal e se recusar a falar com o ator. Que, fazendo laboratório para o papel, descobriu o melhor aristocrata para se inspirar: o próprio Visconti. Os dois ficaram amicíssimos, e descobriram que faziam aniversário no mesmo dia. Na festinha, no set, deram-se presentes iguais. Não é ótimo?
Mas o filme é de chorar. O detalhismo é impressionante:a seda dos estofados é seda mesmo, as flores são todas de verdade, e tem, na sequência do baile, uma cena fantástica: meia tela, o Lancaster desfeito, suando, no fraque, e na outra metade uma porta aberta, e prateleiras de urinóis de louça branca, cheios.
A conferir as diferenças entre o romance e o livro. Os velhinhos, incluindo o sobrinho do Lampedusa, que inspirou o Tancredi, insistem em análises detalhistas sobre as diferenças. Eu, na minha ingenuidade, achei o filme tão parecido com o livro... vou ter que ler e ver de novo!

A-HA

Se você, nos oitenta, era como eu, e tinha preconceito contra os escandinavos do A-HA, você, como eu, era uma besta quadrada.
Eu não gostava do A-HA porque eles eram bonitos demais, arrumadinhos demais, e as minhas colegas da quinta série morriam por eles. Tinha preconceito mesmo, achava que eram uns New Kids on The Block mais velhos.
O que eu não queria admitir era que as músicas deles eram parte da minha vida diária; como sempre escutei muito rádio, "Hunting High and Low", "The Sun Always Shines on TV", "Take on Me" eram eu naquela época. E eu teimosamente não queria ver.
Preferia o rebelde dos Titãs, que, hoje eu vejo, era de butique e chato. Tudo bem, "Cabeça Dinossauro" é um clássico, mas o resto era porcaria, prova é o que eles fizeram depois.
Que arrependimento! O A-HA era legal, as músicas eram pop da melhor qualidade, os caras vieram várias vezes ao Brasil, e eu, agora aos meus trinta anos, vejo que "Take On Me" tem um frescor, uma alegria que me faz falta. Ouça A-HA. É honesto, vale o que eles pedem, pop mesmo, sem vergonha de ser feliz, bem-feito, bonito. Coisa de gente grande.

Tuesday, September 06, 2005

Dragostea Din Tei

Agora, vamos falar do lixo!

Eu havia escapado ilesa da Festa no Apê do Latino, até que um conhecido meu desavisado me explicou que a pérola do nosso ídolo nacional era a versão tranqueira de uma música romena, sucesso no mundo inteiro na versão putz-putz.
Entro no site do Terra Rádio, uma das minhas manias. Tenho uma rádio com umas duzentas músicas, que vou escavando na chatice que é uma rádio cuja maior parte das músicas só toca 30 segundos (???), e me deparo com o Latino. Escutei e reconheci a melodia da, essa sim, cráçico da curtura popularrrr de massa corrida Dragostea Din Tei. Descubro que essa porcaria já havia grudado no meu cérebro, entrado no meu inconsciente, no meu, no seu e no de milhões de vítimas pelo mundo!
Esse meu colega, antropólogo, disse que depois de dias com os neurônios sendo destruídos por essa língua desconhecida mas familiar, porque latina, que é o romeno, achou na Internet um estudioso afirmando que a melodia e a letra de Dragostea Din Tei merece uma pesquisa, porque demonstra que algumas melodias, de origem popular, grudam mesmo. É o mesmo fenômeno de Fata Morgana, do Dissidenten ( sim, você se lembra disto. Ouça no Terra Rádio, porque essa, assim como a Dragostea, tá inteira!).
Meu filho, não adianta. Você foge do Latino e cai no O-zone, nome dos caras. O que me consola é que a letra romena ( sim, eu vi a letra e a tradução) é uma cantada inocente: o cara no telefone convencendo a mina a sair com ela, porque ele pode ser o seu Picasso. Melhor do que o ex-marido da Kelly Key!

A Divina Comédia- para escutar

Gosta de coisas diferentes? Emoções fortes? Preparado pra falar com gente morta, ver neguinho nadando em lava fervente e de quebra encontrar os velhos Dante e Virgílio?

Seus problemas acabaram! O portal Italica, de cultura italiana ( bem-feito, completo, uma beleza) oferece o serviço La Divina Commedia Parlata, com os cantos do Inferno recitados magistralmente pelo inesquecível Vittorio Gassman. Ele mesmo, nosso líder máximo, o Brancaleone! O texto vem junto, no toscano, mas você pode acompanhar com sua edição brasileira. Imperdível, e o que é melhor, de grátis!
http://www.italica.rai.it/principali/dante/index.htm

7 de setembro: pra quê tanto, meu Deus?

Eu ando deprimida com o desfecho de tanta luta pelo PT. É muita picaretagem. Não se pode mais confiar no velho sonho vermelho. 7 de setembro, pra quê?

Exposição Histórias da Pré-História-CCBB

Depois do post anterior, percebi que cometi uma injustiça. Na minha estadia paulistana rumo à pátria do Tio Sam, reencontrei um velho, e querido, amigo na Exposição Histórias das Pré-História, no Centro Cultural Banco do Brasil.
Muitas, mas muitas crianças. Com vários monitores. Tudo organizado e bacana. Uma animação linda com as pinturas rupestres do Piauí, um fóssil de um bicho-preguiça maior que meu carro e um universo de coisas espantosas, como os muiraquitãs, as urnas amazônicas, as litogravuras abstratas... sambaquis, e animais Henry Moore. Se estiver por São Paulo, vá ver. E tome um café no Girondino e veja as velhas São Bento e São Francisco por mim.

Vida cultural nula

Nesses últimos dias, minha vida cultural anda nula, pra não dizer negativa. Estou indo em médico, cabelereira, vou ter que voltar no Consulado, mas a boa notícia é que, sim, passei no IELTS ( tirei mais do que a nota mínima exigida pela FAPESP)...
Numa ansiedade pela viagem, e mandei uns e-mails mas os caras lá estão no Labor Day. Fazer o quê, né? E a gente aqui nesse 7 de setembro duro de engolir.
O que me salvou esses dias foi a leitura desatenta, pedestre, das Meditações do Marco Aurélio. Esse mesmo, o imperador do Gladiador, o velhinho amigo do Russel Crowe, lembra? Pois é, ele não está só em filme: tem livro também. Li alguns trechos na tradução do Mário da Gama Kury, Ediouro.
O padrão ético do estoicismo é altivo demais para mim, para você e para todos nós desta Era Cristã. Porque a gente erra, erra, mas Deus perdoa, e tem a vida do além. Agora você acreditar que mesmo Deus existindo, mesmo tendo vida post-mortem, o Universo é soberbamente indiferente a você, e que só existe o presente... tente fazer isso em casa. Dá nó na cabeça. Você precisa seguir uma conduta séria, reta, digna. Resumindo: a humanidade já teve dias, e pessoas, melhores.

Sunday, August 28, 2005

Biblioteca Municipal Mário de Andrade

Se estiver de passagem por São Paulo, vale a pena conhecer ou rever a Municipal, na estação Anhagabaú do metrô. Primeiro, porque o acervo tem coisas incríveis, os bibliotecários são gentis, e agora todas as quintas, às 19 horas, ocorrem vários concertos com bons músicos, de graça. Depois, o pedacinho onde a velha Mário de Andrade fica é uma atração à parte. Perto dos primeiros prédios modernos da cidade, e dos últimos do que a gente, picaretamente, chama de estilo eclético, perto do Municipal, do calçadão, do bom churrasquinho e de camelôs. Dá vontade de ir ler velhas edições fac-símile, do tempo do Eixo, de manuscritos toscanos da Comédia. Programão!

Literatura Italiana, século XX- notas

Nas férias, num momento de rara coragem intelectual ( cada vez mais rara nesta humilde e ignorante escriba), raptei da estante da minha sogra alguns livros italianos do breve século XX, no dizer de Hobsbawm ( ao qual nunca faltou coragem). Além do Leopardo, do Lampedusa, comentado anteriormente, bem como os contos do Senador e a Sereia, li embevecida O Deserto dos Tártaros, do Dino Buzzati, O Jardim dos Finzi-Contini, do Giorgio Bassani, e Senilidade, do Svevo. Todos excelentes, dando uma medida do que era o debate intelectual e artístico da Itália pré e durante o fascismo.
Indo para a fábula, como Buzzati, ou de um realismo vigoroso e sem concessões, como Svevo, esses escritores inventam uma nova tradição, ancorada no debate com as outras artes ( o cinema vem à mente mesmo que não se conheça os romances) e dentro da própria literatura. É o caso de Bassani, que conhece casualmente o príncipe de Lampedusa e, depois da morte deste, também casualmente se torna o editor e descobridor do Leopardo.
O Jardim dos Finzi-Contini tem pontos de contato com O Leopardo: como diz dom Fabricio, é preciso mudar para que as coisas continuem como estão, e assim pensam tragicamente os judeus da elite de Ferrara.
Já Svevo, em Senilidade, é tão realista que chega ao fantástico, terreno de Buzzati e o inverosímil e por isso mesmo plausível forte onde se esperam os tártaros por vidas inteiras.

Morte em Veneza

No meio da correria visto, li Morte em Veneza. Esse mesmo, do Thomas Mann.
Em primeiro lugar, gostaria de recomendar vivamente a tradução da Eloísa Araújo Silva, a do Círculo do Livro mesmo. Tudo bem que minha ignorância no idioma de Goethe continua completa e absoluta, mas anos de canja nos Adorno e Marx da vida fazem a gente perceber quando a tradução está empolada, e não respeita a língua de origem. Essa não, e tem a vantagem de ser mãe de uma amiga, querida e igualmente indispensável.
Depois, o livro. Não há muito o que comentar e acrescentar ao que leitor já está careca de saber, que é um clássico, que não dá para não ler, etcs e tal. Também não vamos entrar num biografismo barato e dizer, pela enésima vez, que a mãe do Mann era brasileira, e toda a patacoada usual.
Terrível o fedor de Veneza, a peste subindo pelas paredes e aquele velho escritor obcecado por um rapazola de dentes fracos e constituição doentia. O belo em todo o seu esplendor e insignificância. E o leitor sai se sentindo mal, sentindo que perdeu a inocência para sempre, para mim o mesmo sentimento da Metamorfose, do outro mago do alemão. Terrível.

Nega do Cabelo Duro

Fazendo referência ao meu cabelo pixaim. Desde criança sofro com ele, porque minha mãe os tem impecavelmente lisos, e indígenas. E não sabia lidar com o meu, e lá vai a pirralha sofrendo com o pente enrolado... Meu pai tirava sarro cantando o clássico "Nega do Cabelo Duro", música pela qual tenho um carinho ilimitado. Pra sua discoteca:
1)a própria Nega do Cabelo Duro, revisitada pelo Planet Hemp
2)Olhos Coloridos, Sandra de Sá
3)Cabelo Raspadinho, Edu Casanova
4)Meu Cabelo É Duro Assim, Chiclete com Banana
5)Nego do Cabelo Bom, Max de Castro

American Pie

Bom, e não é que eu consegui o maldito visto pros States?
Agora posso descer o sarrafo. Gente, é ridículo! Você entra no site brasileiro, e pra conseguir informações e conseguir marcar entrevista, paga 38 reais, como já havia mencionado anteriormente. Depois, tem que quebrar a cabeça pra descobrir o tipo de visto, o que não é tão fácil quanto parece, porque as informações no site brasileiro são muito furrecas, e as do americano, ilegíveis.
Marcar a entrevista demora de um mês pra mais. Você tem que preencher formulários risíveis, com o fatidíco questionário "Você já foi de um Partido Comunista? Você era do Partido Nazista? Você já comandou genocídios? Você é representante de entidades terroristas?", e outro explicando se você tem familiriaridade com explosivos, e porquê (???).
O Consulado, agora, é onde Judas perdeu as cuecas: depois do Shopping Morumbi, num lugar de difícil acesso. Cheguei às sete e meia na frente de uma construção que mais parece um presídio. Um funcionário rabugento pergunta para a fila interminável de tupiniquins a hora da entrevista, e se pagaram a taxa de 100 dólares ( isso mesmo) no Citibank ( isso mesmo), taxa não-reembolsável mesmo se os caras não te derem o visto.
Como eu havia sido otária o suficiente para chegar cedo, e com a taxa paga, me botaram pra dentro. Você mostra o conteúdo da sua bolsa, deixa seus pertences na esteira e passa por um pega-metal. Entra em solo americano ( sim, porque Consulado é o país), e numa fila gigante, acomodada em bancos acolchoados e na sombra. Uma outra funcionária com cara de poucos amigos confere a papelada. Nessa hora o angu desandou: a mocinha mal-educada me informou que as fotos que eu havia tirado não seriam aceitas, porque nelas eu aparecia de óculos.
Desde os meus nove anos sofro com uma miopia alta do cacete: meus óculos são de grau 13, mais astigmatismo. No site de informações, dizem para não tirar fotos de óculos escuros. Isso eu compreendo. Mas isso... desculpe, não. Tive que sair do presídio, e tirar fotos num senhorzinho estrategicamente colocado na frente do visto, que me cobrou, literalmente, os olhos da cara.
Voltando à fila, e já com muita vontade de me alistar na Al-Qaeda, sou atendida num caixa, estilo caixa de banco, onde outro funcionário mal-educado confere, uma vez mais, os formulários. Tratando-me como uma refugiada, ou seja, muito mal, o cara me enche o saco por um detalhe absolutamente supérfulo nos papéis. Mais uma fila, e você é chamado por uma moça latina de sotaque gringo ( como deve doer sua origem mexicana) para pressionar seus indicadores numa máquina.
Mais uma fila, e você recebe uma senha, e o convite para ir tomar um café na cafeteria ao lado ( ahá, tudo pago por você, obviamente). Ainda tive que encontrar uma colega de colégio, e cumprimentá-la, quebrando o juramento, feito na nossa formatura, de nunca mais falar com essa criatura.
Mais uma fila. E de novo o caixa de banco, revestido do chão ao teto com vidro anti-balas fumê. O cara fala comigo por um telefone, esse, whasp, e de saco cheio de estar em serviço num país de gente morena e esfaimada. Eu repito, de forma surpreendemente confiante, todo o lero-lero anteriormente preparado e ensaiado para a ocasião. Mais do que nunca, me sinto nigger, latin, tudo de ruim aos olhos do senhor à minha frente. Sim, eu tenho cabelo pixaim; sim, eu estudo Dante Alighieri. E, sim, não pretendo emigrar. O cara ainda tem a cara-de-pau de me perguntar o que vou conseguir fazer na vida, estudando iconografia para a Divina Comédia. Não, não quero ser faxineira nem prostituta no Mid-West.
Bum, consigo o visto. Mais uma fila, mais um caixa, agora 60 dólares, pago ou em cash ou em cartão de crédito. E taca esperar uma semana pra burocra dos caras processarem meu pedido. Sim, mais do que nunca não tenho vontade de ir pra Chicago.
Tento me consolar pensando que, comigo, as coisas não correram tão mal assim, já que tenho vocação pra despachante ( estava com tudo em cima, menos a maldita foto) e pra otária ( já que o amor pela Comédia me faz rastejar pra ir ver livro velho às margens do Lago Michigan). E tento me consolar ouvindo Janis Joplin, e lembrando que, um dia, os Estados Unidos produziram gente assim.

Thursday, August 18, 2005

Humano, demasiado humano

Eu preciso arrumar coragem pra descer a lenha naquela revista fascistóide e ridícula, Humanus. Tive um ataque de nervos quando li por acaso e ingenuidade o primeiro exemplar, com uma matéria "resgatando" a memória do escultor de Hitler ( que além de nazista era ruim, medíocre), e afirmando com todas as letras que Einstein, Freud e Marx, por serem judeus, não devem ser levados em consideração. Agora os caras estão lançando o terceiro número dessa porcaria. Propaganda maciça aqui na Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí ( isso mesmo, o nome original dessa cidade).
Faixa na rua, cartazes por todos os lugares, e a última. Um outdoor ridículo, preto e branco, com fotos do Bush, comparando-o a um chimpanzé, e com os dizeres "Eu não leio a Humanus". Achei bom sinal. Se os caras estão apelando pruma figura que ninguém gosta, querem disfarçar o fascismo enrustido desse pasquim, que só não dá pra limpar nada, porque é feito do caro papel cuchê.
Em primeiro lugar, é um elogio pro Bush compará-lo a um chimpanzé ( e uma ofensa grave a esse primata superior que possui 99% do material genético igual a nosso, linguagem e sentimentos complexos como ciúme e outros atributos incontestáveis de inteligência). E outro, dizer que ele não lê a Humanus. Porque ele tem mais o que fazer. Eu deveria tomar vergonha na cara e dizer o que penso de verdade. O triste é que lojas em que eu costumava ir, agora estampam orgulhosas o outro cartaz da publicidade desse atentado contra o avanço das liberdades democráticas no mundo pós-Treblinka. Essa pérola mostra o desenho colorido de um velhinho com vestes de um Gepeto, lendo a Humanus. Claro, deve-se fazer uma homenagem ao pai.

Rock

Já morreu, ou não. Uma play list pequenina do velho e bom rock and roll:
1)Beatles, Come Together
2)The Who, Baba O'Riley
3)Iggy Pop, Candy
4)The Police, So Lonely

Layla

Prova de que o desespero por amor pode ser produtivo. É claro que, depois dessa, a moça tinha que largar do George Harrison pra ficar com o Clapton. O engraçado foi ter sido sucesso na versão calma, pausada, do Clapton Unplugged; eu gosto do Clapton desesperado mesmo.

Tuesday, August 16, 2005

Maracujina

É o que estou precisando hoje. Estou num estado de espírito terrível. Eu me conheço bem: quando estou nervosa, falo dos meus problemas pra todo mundo que eu encontro. Conto tudo, sou muito ingênua, me exponho e depois, ainda me surpreendo em ser maltratada e desrespeitada.
Preciso ficar um pouco só. O problema é que com esse rolo de viagem, eu tenho que ficar na rua o tempo inteiro, com uma pasta, de um lado pro outro, imprimindo isso, buscando documento ali, mandando fax, indo em banco, o escambau. Ao meu redor, as pessoas continuam com suas vidas: é um que vai estudar italiano, a outra vai fazer um seminário, enquanto eu estou fora da minha rotina, com medo, preocupada, de saco cheio, irritada, tudo de ruim...
Hoje de manhã foi o filme pastelão. Peguei uma pasta pro serviço de despachante, mas a dita estava quebrada. Pus RG, CIC, passaporte, e lá fui eu. Chegou no xerox, cadê? As coisas foram caindo pelo caminho e eu nem reparei. Ou seja...
Bom, Freud diria que estou com medo e não quero ir pros States. É verdade, estou com medo. Da solidão, da língua, do clima, da biblioteca imensa pra pesquisar, do consulado, da nota do IELTS que preciso tirar, é um calvário. Eu sei que deveria estar pensando de um modo diferente...fico me sentindo a própria adolescente ansiosa de classe média brasileira, alienada, indo pra Disneylândia.
Num país de gente tão miserável, deveria agradecer a oportunidade de alguém pagar pra eu estudar, ainda mais fora. Preciso encontrar de novo meu eixo!

Monday, August 15, 2005

Luto

Eu tinha dito que ia esperar os acontecimentos, mas me adianto. Estou de luto. Quase vinte anos de militância e de luta pro Lula se presidente. Meu sonho morreu.

Coleção Vaga-Lume

Faz bastante tempo que eu quero escrever alguma coisa sobre literatura infanto-juvenil brasileira. Primeiro, porque nunca deixei de ler os livros que lia quando criança: sempre releio, em algum momento, os livros que gosto e que me marcaram. Já na universidade, quando alguma coisa me aborrecia ou me deixava triste, eu me escondia na seção de livros infanto-juvenis da biblioteca aqui do Instituto de Letras, e passava algum tempo lendo ou relendo Mirna Pinsky, Pedro Bandeira, Lygia Bojunga, Ziraldo, sei lá, o que tivesse.
Na última limpeza de estante de livros, minha sogra me presenteou com livros da Coleção Vaga-Lume, aquela mesmo, velha de guerra, da Editora Ática. Engraçado que quando eu era pré-adolescente, li alguns livros dessa coleção, que tinha aos montes na biblioteca do colégio onde eu estudava, mas eu não havia lido os volumes mais famosos, do Marcos Rey e da Lúcia Machado de Almeida.
Pois bem, nunca é tarde pra começar. Minhas noites nesse mês e meio foram marcadas pela leitura de Um Cadáver Ouve Rádio, O Mistério do Cinco Estrelas, O Rapto do Garoto de Ouro, do Rey, e o célebre O Escaravelho do Diabo, da Lúcia Machado. Adorei todos! Eu tenho um amigo que diz ser essa coleção a responsável pelo fim da leitura obrigatória de Eça de Queiroz e José de Alencar no Ensino Médio e Fundamental... bom, pode ser que ele esteja certo. Eu aos treze anos li Amor de Perdição, uma coleção ilustrada e muito boa de Mitologia Grega, e os livros da série Prisma. Mas fiquei da opinião que, sim, vale a pena mandar a molecada ler Marcos Rey.
Primeiro, porque os livros têm um senso de humor raro na literatura juvenil hoje em dia. Depois, porque não subestimam a inteligência do leitor: tem suspense na medida certa,e, no caso do Marcos Rey, um retrato afetivo e realista da cidade de São Paulo. A Bela Vista de Leo, Gino e Ângela é digna do velho Piratininga: dura, violenta, mas com calor humano e a velha vocação paulistana de não esconder a verdade, de falar das injustiças sociais sem ódio esquerdóide barato mas também sem resignação. Digna de Saudosa Maloca, do pastel de feira, do Viaduto do Chá, do MASP na época dourada, da boa padaria em cada esquina...
É triste constatar que o velho Piratininga, hoje, é da nova Daslu. Da elite endinheirada, hipócrita e burra, do MASP transformado num salão de festas do mais puro brega. Do povão entulhado na linha vermelha do metrô, do massacre do Carandiru, do governo asséptico do Alckmin, do centro destruído, cheio de lixo. Mas eu sinto em mim, em muitas pessoas, nos livrinhos do Marcos Rey, na pintura do Volpi, na velha Sé, algo que é o velho e bom Piratininga.
Do Escaravelho, gostei da imaginação. Do alemão enlouquecido, que virou suíço no Brasil, e numa cidade do interior matava os ruivos porque eram ruivos. O caso é tão escabroso, e ao mesmo tão inverossímel que beira o real. Um Silêncio dos Inocentes avant la lettre. Nos EUA, teria virado filme, com um Elijah Wood ou um Tobey Maguire no papel principal, que todo mundo ia babar. Aqui, vira Coleção Vaga-Lume.

Sêneca ou das futilidades que matam amizades

Hoje estou muito triste. Soube que pessoas que considerava minhas amigas falaram mal de mim e me ridicularizaram. Uma das coisas que mais prezo é amizade. Acho que na maior parte das vezes o amor próprio das amizades, genuíno e espontâneo, pode evitar muitas das pequenas tragédias que nos acometem no dia-a-dia, além de nos livrar de situações embaraçosas e doloridas causadas pela família ou pelos relacionamentos amorosos (com mais calor afetivo mas também mais desastrosos, por sua própria natureza).
Enfim, aprendi mais uma vez a lição. As ditas pessoas falavam mal de todo mundo para mim; não deveria ter sido ingênua ao acreditar que comigo seria diferente. Achei que minha boa fé me protegeria da maldade, outra ingenuidade tão velha que figura na lista de imbecilidades a serem evitadas nos textos da Bíblia, do Corão e da Odisséia.
O pior de tudo é que a boa fé impede a gente de agir, de pensar que tais situações são possíveis. Nessas ocasiões, lembro dos velhos estóicos romanos. Sêneca, ou o imperador Marco Aurélio, que em suas meditações alertaram para o risco de se viver em sociedade... o meu consolo é que essa dorzinha que sinto agora também é mais velha que andar pra frente, como o próprio estoicismo.
Não tenho nenhum moral para tentar seguir tais ensinamentos, sou muito cristã para isso; o meu consolo é que os maledicentes e falsos em geral, no meu querido Dante ( cristão demais pra ser estóico, e na minha humildade me consolo em estar perto disso, ainda que da mesma forma que uma ameba está perto de uma estrela de primeira grandeza), ocupam um lugar muito, mas muito pior do que eu ocuparei no reino de Lúcifer. Enquanto com certeza estarei no redemoinho do Vestíbulo do Inferno, junto com Paolo e Francesca, esse pessoal nadará num mar de bosta...o cristianismo pode ser mais fraquinho das pernas que o estoicismo, mas com certeza é mais divertido...

Saturday, August 13, 2005

Serviço Militar Obrigatório

Dei aulas de História da Arte Brasileira, I e II ( a ementa compreende das cavernas ao Tunga), como Professora Estagiária PED ( Programa de Escravidão do Doutorando) na Unicamp. Fiquei um ano e meio rachando o coco pra saber como faria os alunos das Artes Plásticas se interessarem pelos meus cursos e pra fugir de uma professora biscate que tem lá.
Além desses problemas técnicos, havia outro mais grave. Em toda a minha formação universitária ( e olha que tem formação nisso) eu nunca fiz cursos de História das Artes no Brasil. Nunca vi em sala de aula abordadas as obras que fazem parte do patrimônio histórico-artístico nacional; o que eu conheci, conheci porque meu pai comprou uma coleção chamada Grandes Personagens da Nossa História, fartamente conservadora e ilustrada. Além disso, meu já citado pai tinha a mania de ir em tudo quanto era museu, incluindo o do Ipiranga e de Amparo.
As obras do patrimônio nacional não estão em site nenhum, em nenhuma capa de caderno. Você tem que fuçar, nos velhos catálogos dos nossos museus, editados nos oitenta pelo Banco Safra e que valem uma boa grana nos sebos. Alguma coisa está no portal do Itaú Cultural, a única iniciativa sistemática nesse sentido, outra eu e outro amigo fanático por figurinhas escaneamos, pacientemente, de livros que a gente vai achando pelas estradas da vida.
Tenho sempre que arrumar um emprego, como professora de cursinho ou uma bolsa qualquer, pra sustentar esse meu vício: conhecer e ter como ponto de partida o patrimônio das instituições brasileiras, sejam elas os bem-cuidados Museu Imperial de Petrópolis ou a Pinacoteca do Estado de São Paulo, ou os arruinados MASP e as igrejas de Ouro Preto. Agora, saiu um edital do IPHAN; vamos ver se eu presto e o governo federal paga, além do mensalão, um salário para eu continuar com essa minha carreira de estudiosa-mirim do patrimônio.

Brazucaaaaaaaaaaa

Para ninguém me acusar de estar babando o ovo pelos States ( estou babando o ovo nas bibliotecas deles, isso sim, malditos ianques nouveau riches), adianto que começarei meus estudos de francês em breve e retornarei aos de italiano. Também declaro que sou alfabetizada em cirílico ( sério, eu fiz Russo na velha e combalida Unicamp) e arranho no português. Para provar meu nacionalismo verdamarelo e puti ( como diria Caetano na era pré- Paula Lavigne) aí vai uma listinha brazuca total:

1)Tim Maia: Guiné Bissau, Moçambique e Angola Racional ( eu vim aqui para lhe dizer)
2)Caetano: Maria Bethânia ( porque ir para Londres num exílio quase trágico fez o Caetano gravar aquele disco que faz a gente esquecer da Paula Lavigne)
3)Jorge Ben Jor: Fio Maravilha ( essa pra acompanhar, junto com os salgadinhos Torcida, o Brasileirão)
4)Sá e Guarabyra: Harmonia ( essa música é lindinha como um entardecer em Tiradentes, MG)
5) Vinícius de Morais: Onde Anda Você ( porque o poetinha serve, antes de mais nada, pro povo lascar aquela cantada básica)
6)Vicente Celestino: O Ébrio ( você está deprimido? Seus problemas acabaram! Ouça bastante Celestino e verás que o fundo do poço tem mola!)
7)Guilherme Arantes: Lindo Balão Azul ( eu sei que os oitenta já cansaram... mas essa música é a única coisa que presta do Guilherme Arantes)
8)Nando Reis: Por Onde Andei ( essa ouvi na Nova FM e acho que está na categoria do bom pop, honesto e legal)
9)Adoniran Barbosa: Saudosa Maloca ( saudosa maloca/ maloca querida)
10)Carmem Miranda: Tá-Hi ( o Eduardo Dusek fez uma recriação bacana, há pouco tempo atrás)

Dancing in the Dark

Hoje, fui prestar o IELTS. Burocracias da turma do Geraldo Alckmin ( nem quero falar de política, estou esperando os últimos acontecimentos)... enfim, acho que choquei a velhinha que fez a prova. Explico: esse exame é oferecido pela Cambridge, e consta de uma parte de Reading, outra de Writing, um Listening maldito e uma entrevista, além do Foot in the Bag depois de tudo isso e 400 pilas a menos na conta bancária do indivíduo( sim, e que não serão reembolsados pela turma do Alckmin. Graças a Deus eu como quase todo dia na minha sogra, essa sim só leva prejuízo, coitada).
Podemos discorrer longamente sobre o imperialismo do Norte, suas consequências maléficas para o resto da humanidade: além dos filhos da puta matarem rapazes brasileiros no metrô e não assinarem o Protocolo de Kyoto, o fato é que os caras ainda fazem esses testes ridículos para estudantes do Terceiro Mundo. Eu queria muito que o Itamaraty e as universidades brasileiras tomassem vergonha na cara e exigissem dos caras que querem vir pra cá um teste nesses moldes, com uma parte chamada Ouvindo e que tocasse um samba do Zeca Pagodinho, de preferência o clássico "Vou Botar teu Nome na Macumba" ( procure no Terra Rádio, esse é dos meus).
Bom, voltando. Choquei a velhinha involutariamente. Fiquei estudando pro exame ouvindo a CNN e pérolas do cancioneiro popular como essa do velho e sempre bom e honesto Bruce Springsteen. This guns for hire, aquele jeans surrado básico. Ela me perguntou sobre a explicação do porquê as pessoas mudavam de casa, e eu lasquei o sincero "Because sometimes the rent is too expensive"... estou americana demais.

Saturday, July 23, 2005

Voltando com carga total

Para os meus fiéis leitores, que eu sei serem muitos ( ehehehe), a desculpa básica de todo escrevedor de blog. Problemas me afastaram da labuta de comentar política, economia, Dante, músicas para festinhas e outras cositas más. Agora voltei com a carga total... pra dizer que tive que dar um nó em pingo d'água pra ir pros States. Terrível a situação, mas tudo bem. Nas horas vagas, me aborrecendo com a English Grammar in Use, e com as redaçõezinhas bobas do IELTS que tenho que prestar. Ou seja...
Mas desse frio, tiro a lição: um drink a mais não faz mal pra ninguém, a não ser que você vá dirigir depois. Gostaram do tom politicamente correto?

Fervendo II- Fazendo a mulherada te beijar

Pra animar festinha miada, e fazer a mulherada se soltar, lá vai outra listinha, a pedidos:
Hot Stuff- Donna Summer ( nossa, essa levanta até o vizinho ranheta que está reclamando do seu som com o zelador. Como essa mulher é excelente...)
All My Love- Led Zeppellin ( se depois desse clássico não rolar nada, ou você é muito sem graça ou a garota não entende nada de nada)
Perigosa- As Frenéticas ( pra todo mundo soltar a perua dentro de si, num momento lúdico)
Doida, Desalmada e Atrevida- Ronaldo Adriano ( pérola do cancioneiro popular. Da linha camisa quadriculada e flor de plástico!)
Respect- Aretha Franklin ( pra começo de festinha, com uma Smirnoff Ice bem gelada, pra baixar a Pomba Gira, um clássico com C maiúsculo)
qualquer uma do CD do Pulp Fiction ( isso já manjou e deu a volta no mundo, mas ainda funciona)
Tragedy- Bee Gees ( essa é forte. Das melhores dos caras, o que definitivamente não é pouca coisa, meu irmão. Os caras merecem trezentos posts)
Upside Down- Diana Ross ( da eterna lady da Motown. Essa é mais chique que qualquer roupinha de grife)
Don't Forget About Me- Simple Minds ( momento memória. Pra todos os historiadores e curtidores dos velhos e manjdadérrimos 80's)
Sex Machine- James Brown ( você esqueceu dessa? Meu, você não tá com nada mesmo...)
If I Can't Have You- Ivonne Elamamm ( pra você lascar pra sua paquera comprometida ou qualquer coisa do gênero)
Don't Let Me Misunderstood- Santa Esmeralda ( bom, se você não é o Javier Bardem, não pode sair lascando um beijo na mulherada. Essa é pra você sair de fininho se acabou de se dar mal, ehehehe!)

Wednesday, July 06, 2005

Guerra dos Mundos

Mas, taí, fui assistir o novo Spielberg.

Velho Spielberg, quero dizer. Guerra dos Mundos, se tem alguma coisa boa, é essa: ser um Spielberg. Para o cineasta, não existe nada de heróico na condição norte-americana: o mundo acabando, e os caras querendo ir de carro, e pegando a arma debaixo da cama. A cena do linchamento, a luta insana pelo automóvel, que termina com um revólver na mão, é um achado digno das velhas preciosidades do Spielberg.
Não achei um filme pró-Bush, muito pelo contrário. Mas fiquei triste: tem uma hora que o filme derrapa feio, não sei porque o pessoal teima em mostrar os ETs na tela, sempre magérrimos, verdes e maus. Sinais, do Shyamalan, peca por isso também. Agora, a ironia de uma invasão que começa inesperadamente, e termina por um acaso... e os ETs que tem no nosso sangue o combustível deles...
Pra completar, a menininha, Dakota Finning, é uma chata de galocha ( pra citar Stanislaw Ponte Preta, criança prodígio é sempre um pé no saco) e o Tom Cruise, com Katie Holmes ou sem, é sempre muito, mas muito chato.

Born in the USA

Por motivos puramente profissionais ( ver edições renascentistas da Comédia) me vejo na mesma luta da horrível personagem de Deborah Secco nessa terrível novela. Preciso ir para os EUA.
Muitos problemas no site do consulado. Pra você ter qualquer, mas qualquer informação, é necessário pagar uma taxa de 38 reais, via boleto do Citibank, cartão de crédito, ou débito em conta ( se você for correntista do Itaú, do Real ou... do Citibank). Depois, tudo bem. Você pode entrar na burocracia dos caras.

Em tempo: serei obrigada a preencher quatro formulários, sendo que um, o DS-156, culmina no clássico questionário: "Você já fez parte de um Partido Comunista? Você pretende realizar um atentado terrorista no território dos EUA? Você já teve uma doença infecto-contagiosa ou mental? Você usa ou trafica drogas? Você fez parte do Partido Nazista ou participou de um genocídio?".

Dá vontade, como já disse o Luís Fernando Veríssimo, de colocar sim em qualquer desses itens, e conseguir o visto.

Em tempo: Bush não conseguiria entrar.