Ontem, ouvi na Nova FM "Escrito nas Estrelas", da Tetê Espíndola. E me lembrei da minha avó, Maria da Conceição.
Aliás, minhas duas avós chamavam-se Maria. Maria da Conceição e Maria da Penha. Nomes antigos, como diz Érico Veríssimo em Incidente em Antares, nomes avoengos.
Minha avó materna, a da Conceição, adorava essa música. Ela, muito pobre, muito simples, morava na velha Campos dos Goytacazes. Que antes de ser a terra do casal Garotinho, foi a terra natal de meus ancestrais, de meus avós e de meus pais. Mas gostou tanto da canção, que concorria num festival, em 85, que comprou o LP especialmente para ouvir. Essa música marcou o último ano da vida dela.
Eu deveria ter uns quatro anos quando conheci minha avó. Nós morávamos exilados em São Paulo. Quando nasci, ela quase faleceu devido a um mioma, que não havia tratado por falta de recursos e de coragem para ir ao médico. Só pude vê-la no meu batizado. E tive a indelicadeza de lhe perguntar do velho José Ferreira, morto muitos, muitos anos antes, e que foi sua única e grande paixão. Minha avó ficou com os olhos cheios de água, e minha mãe ou alguém ao lado me explicou que ele era uma estrela.
Foi a mesma explicação que minha mãe deu a minha priminha, desconsolada com a morte de quem cuidava e educava dela. Eu tinha nove anos, vi minha mãe com o rosto vermelho de chorar. Na hora não compreendi direito, mas hoje sei que minha avó era muito simples, muito doce, e que partiu desse mundo cedo, na quadra dos cinquenta, devido a um erro médico.
Lembro-me que sua cozinha, geladeira, fogão e armários, era toda vermelha, comprada a prestações pagas pelo meu pai. E que no velho terreno do seu José Ferreira, ela ocupava uma meia-água nos fundos e alugava a espaçosa e verde casa da frente a uma moça. Seu banheiro inteiro era escuro, de cimento queimado, e da primeira vez que fui a Campos visitá-la, cometi outra indelicadeza, no alto dos meus cinco anos: dei um verdadeiro chilique e não queria tomar banho num lugar tão pobre. Lembro-me que saí de São Paulo a Campos no Voyage do meu pai pensando que minha avó era uma fada, e morava num lugar mágico como as estampas fofas dos cadernos.
Outra lembrança forte foi a bronca que ela me deu quando eu chorei e pedi de volta à minha prima, abandonada pelos pais na casa da nossa avó, uma bermuda branca e de listas coloridas que havia sido minha. Acho que dessa terceira vez, dona Maria perdeu a paciência com a neta birrenta e enjoada. Eu era uma verdadeira chata.
E ela tinha um quadro, com uma estampa, mostrando os hebreus atravessando o Mar Vermelho. E gostava de tapioca com manteiga, e de pudim no Natal. Fazia galinha ao molho pardo, e caranguejada, indo com meu pai ao velho Mercado de Campos e comprando os bichos vivos. Tinha flores, frutas e ervas no quintal, incluindo um imenso mamoeiro, onde uma vez fui fotografada fazendo birra, pra variar. Mas que vergonha.
Hoje, sei que uma das melhores influências que tive na vida foi da minha avó, que conheci tão pouco e que perdi tão cedo. Foi com ela que aprendi a lição da simplicidade de caráter. E gostaria muito que ela estivesse aqui para poder ir a Campos comer tapioca com manteiga. E chuvisco, e doce de mamão verde.

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