Que também era uma figura. Dona Penha foi mãe de seis filhos, mesmo se casando tarde com o filho de um belga dono de hotel, meu avô seu Armando. Ela me contou sua história, eu com meus quinze anos, ela quase com oitenta. E me disse sabiamente: ainda bem que alguém se interessa e escuta essas histórias, porque daqui a pouco eu não estou mais aqui.
Ela me contou que seu pai trabalhava na Ferroviária, a Leopoldina, e chamava-se Franklin. Por alusão, compreendi que ele era mulato muito escuro, explicando os cabelos pixaim, os lábios grossos e olhos esverdeados de toda a nossa família. Sua mãe era doceira, trabalhava em casa e se chamava Antônia. E tinha os cabelos lisos e negros.
Seu pai faleceu quando ela era mocinha e sua mãe teve uma longa e terrível doença: câncer. Minha avó explicava que por isso, ela ficou em casa até mais tarde, cuidando da mãe até ela vir a falecer. Isso era compreensível. Uma das vergonhas de minha avó, além da mulatice do pai, era que havia se casado tarde, aos trinta anos, e com um rapaz mais novo, que conheceu passeando com uma amiga. Ele namorava outra, mas minha avó deu um jeito de conquistá-lo. Essa é a melhor parte da história.
Casada com ele, teve uma vida de privações e sofrimento. Perdeu o filho mais novo, meu tio Salvador, afogado no Paraíba do Sul, e viu os filhos migrarem para a distante São Paulo. Até hoje não sei porque meu tio mais velho decidiu vir pra São Paulo, e não para o Rio, como seria natural aos norte-fluminenses. Mas enfim, vieram todos, até meu avô, que simplesmente amou e adotou São Paulo como sua terra. Minha avó não se conformava com isso, e todas as férias brigava e obrigava um dos filhos a levá-la para Campos. Numa dessas, meu pai, cabeludo e fã dos Beatles, quase noivo de uma nissei, foi obrigado a ir e na fila da Caixa Econômica, conheceu a internacionalmente famosa minha mãe, Dona Meire. Qualquer dia desse eu falo dessa criatura que me gerou.
Claro que dona Penha implicou com Dona Meire. As duas se odiaram e no início do casamento dos meus pais, minha mãe, que foi morar com os Vermeersch no prédio no Cambuci onde meu avô era o zelador, e que para o desgosto de todos engravidou logo desta que dá o testemunho, foi colocada no limbo pela sogra megera.
Minha avó pagou todos os seus pecados. No final da vida, a única nora que cuidou dela, e que a acompanhou na morte, foi minha mãe. E a neta que ela jurava não ser filha do meu pai e que não foi ver quando nasceu, foi adotada por uma senhora italiana do prédio, dona Ofélia. Dona Ofélia, arquiinimiga de Dona Penha, cuidou de meu umbigo problemático e me deu os primeiros banhos e as primeiras macarronadas. Essa neta resistiu a tudo isso, e causava orgulho a dona Penha, porque sabia tocar piano ( mal e porcamente, é bem verdade), e entrou na Unicamp, instituição citada na televisão.
Minha avó era muito católica. Gostava de cozinhar, mas não fazia doces. Minha mãe, implicante, dizia que a casa da minha avó era suja e não nos deixava comer lá. Lembro-me do primeiro presente que ganhei de meus avós: uma boneca de plástico, dura, com um vestido xadrez azul. Até hoje existe.
Lembro-me também que adorava suspiros. E que era baixinha, baixinha. E que quando fez oitenta e dois anos, surpreendeu todo mundo. Pela primeira vez na vida, aceitou que as senhoras amigas da igreja fizessem uma festinha de aniversário para ela. Teve bolo, salgadinhos e docinhos, que ela mandou para nós, junto com uma foto. Onde estava maquiada, elegante, de roupa nova comprada pela nora. Logo depois, partiu desse mundo.
Sua morte foi a primeira dor verdadeira que senti na vida. Caloura na Unicamp, senti que fui transportada para uma outra dimensão, naquele final de semana. Virei motivo de chacota entre alguns colegas de classe, porque sofri de um início de depressão e só falava da sua morte. Tive que procurar ajuda e no centro médico da universidade, encarei minha primeira terapia.
Hoje, sei que minha avó me ensinou que é importante termos memória. É importante respeitarmos os mais velhos, e que do mesmo jeito que meu pai teve que se despedir dela, tive que me despedir de seu Pedro, e alguém um dia terá que fazer isso por mim. Aprendi a ter fé, e aprendi que do sofrimento, da dor, podem vir coisas boas. E que tudo passa, mesmo implicância de sogra.

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