Wednesday, September 14, 2005

Aleijadinho

Algumas notas sobre o Aleijadinho.
Hoje dei uma aula sobre Imaginária Brasileira. Já está provado, pela professora Myriam de Oliveira, da UFRJ, a maior estudiosa de Arte colonial brasileira, que surgiram várias escolas de artesanato artístico, durante o período. Existem aspectos estilísticos que diferenciam as peças do Maranhão das de Pernambuco, e as duas das da Bahia, Minas Gerais, a região das Missões Jesuíticas, São Paulo.
O ponto alto da tradição mineira, sem dúvida, é o Aleijadinho. Que consegue, em Congonhas do Campo, ser o ponto alto de toda a história do artesanato artístico no Brasil, de todas as regiões. A professora Myriam se preocupa, no livro mais recente, em demonstrar que a arte colonial brasileira não pode ser chamada de barroca: ela seria rococó. Acho que essas discussões estilísticas são um pouco estéreis.
Mas o fato é que, para estudar a obra de Aleijadinho, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, é necessário se desvincular do mito romântico, criado pelo primeiro biógrafo, Bretas, e pelo ensaio crítico de Mário de Andrade. O Aleijadinho não era um gênio isolado, um homem que tirava tudo da sua cabeça: original, sim, mas em diálogo constante com a tradição, um homem que se entendia como parte de um universo colonial marítimo português.
Tampouco a mulatice explica a força criativa e criadora. É um fator interessante, mas não explica um artista que se quer reconhecido como universal. Também é necessário saber que muitas peças ditas do mestre são de oficinas próximas a sua: o mercado dá a autoria que quer, como bem demonstram as exposições de coleções particulares.
Lembro de uma ( não vou citar o nome do colecionador por gentileza) que fui no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio. Você chegava e dava de cara com um enorme banner, onde o colecionador propunha algumas características formais que seriam constitutivas da marca da oficina de Antônio Lisboa. Bom, se você seguisse tais critérios, nenhuma peça da coleção restava como sendo da oficina do mestre.
Tirando esses vexames e a situação sempre precária do patrimônio artístico nacional ( o site da Polícia Federal traz muitos casos de obras roubadas que andam por aí, nas salas chiques e atapetadas da alta burguesia), além da escassa documentação, resta a eloquência do conjunto de Congonhas. Talvez seja um dos conjuntos escultóricos mais bonitos do mundo. Dois estrangeiros deram conta do problema: Germain Bazin e Robert Smith, em monografias fundamentais e há muito fora de catálogo. Interessante que já vi muita gente estudando peças isoladas, ou a atuação do artista como arquiteto, mas sobre Congonhas, existe muito pouca coisa. Além de Bazin e Smith, existe um livro da professora Myriam, um artigo de Nancy Davenport na revista Barroco, e as propostas de uma historiadora de Minas, que prova com uma argumentação muito fraca que os profetas seriam os inconfidentes. Além da médium que recebe o espírito de Tomás Antônio Gonzaga, cuja turma domina as comunidades relacionadas no orkut.
Enfim, em preparação um artigo sobre os profetas. Não, infelizmente eu não recebo o espírito de ninguém. E sim, concordo com Bazin: os profetas vieram de um conjunto florentino de gravuras do século XV. Como o Aleijadinho viu isso? E eu sei?

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