Eu não tenho nenhum ancestral italiano. Minha família era pura de sangue carcamano até agora, porque ao tudo indica o pai dos meus filhos vai ser neto de gente da Puglia.
Mas mesmo assim, sempre me senti meio italiana. Explico: em São Paulo, é quase impossível passar incólume às hordas de netos e bisnetos dos camponeses da Puglia, da Campania, da Calábria, da Sicília. E alguns vênetos, poucos, mas que existem.
Pra começar, sempre tive o dom de me apaixonar pelos Ricardi, Fantinato, Barbarasso da vida. Tudo bem que em Jundiaí, eu não tinha muita alternativa. Mas minha ligação com a velha Bota começou bem, bem antes disso.
Dona Ofélia morava no prédio da Teodureto de Souto, onde meu avô era zelador e aprontava todas, e minha avó infernizava a vida da minha mãe. Meu pai com seus cinco empregos ( seu Pedro sempre dando nó em pingo d'água) quase não ficava em casa. No primeiro andar, morava Dona Ofélia, que fazia macarrão pra fora. Dona Ofélia cuidava de Roberta, sua única neta. Seu filho casou-se com uma moça que, depois de ter a Roberta, se suicidou. Quando eu nasci, a Roberta tinha onze anos, e decidiu que eu seria sua boneca e mascote.
Dona Ofélia se dava bem com seu Armando, mas detestava dona Penha. Sabendo da minha condição de neta sem avó, tomou as rédeas das coisas e me deu os primeiros banhos e tudo o mais. Talvez minhas lembranças mais remotas sejam da mesa cheia de farinha, e da senhora que por muito tempo achei que fosse a Dona Ofélia da televisão. Vaidosa, com suas camisas estampadas, seu gosto pela cozinha, e a italianice.
Depois, na Miguel Telles Júnior, conhecemos no playground uma moça chamada Mara. Ela e seu marido eram filhos de italianos. No caso do Laerte, napolitanos da velha cepa. Gente que bota presépio com Menino Jesus em tamanho natural no Natal, que gosta de comida, discussão, livros e coisas assim. A Mara e o Laerte foram meus super-tios durante anos, era Natal, era passeio, era tudo com eles. Eles tentaram ter filhos, mas os dois bebês, Gabriel e Rafael, nasceram com uma doença muito rara, e morreram.
Anos depois, a Mara estava em casa no dia do meu aniversário. Seu obstetra ligou dizendo que uma menininha havia nascido e sua mãe não a queria. A Mara adotou essa bebê, que compartilha comigo o dia do nascimento, e que tem o nome do meu irmão, Marcela. Em homenagem a nós dois.
Daria pra escrever um grande romance sobre a Mara e o Laerte. E a italianada toda, família deles. Mas o que não dá é pra descrever a gratidão eterna que vou ter pelos italianos de São Paulo. Com eles, aprendi a gostar da comida da Península, de ir ao MASP, de ler, da maioria das coisas que me fazem hoje. E de lascar O Sole Mio no chuveiro!

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