Sunday, September 25, 2005

Para Dani e Evandro: essa é do seu Armando!

Ontem, tive uma felicidade genuína. Na minha despedida, recebi um casal de amigos muito querido, que veio de Vinhedo especialmente para me ver! Então, Dani e Evandro, essa é pra vocês...
A Dani me contou que de vez em quando passa por aqui, e que leu e se emocionou com a história das minhas avós. Dani, que é minha conterrânea de Cambuci, e que também tem uma família de figurinhas. Contei pra ela a pior história do seu Armando, meu avô paterno.
Seu Armando era filho de belgas-holandeses, sabe como? Pois é, parente longínquo mas nem tão longínquo assim do pintor Vermeer. Os famosos flamengos, que se dividiram entre os dois países, e que vieram dar às costas brasileiras algumas vezes. Católicos e mercadores.
Meu bisavô, seu Arthur, era dono do Hotel Fluminense, em Campos. Casou-se com dona Arminda, filha de portugueses, e dessa união nasceu a figura. A família perdeu tudo, segundo a lenda, porque Gastão, o filho mais velho, gostava de jogar nos cavalos. Outro dia encontrei na Internet um neto do seu Gastão, meu primo, que mora no Rio. Não comentei nada, vai que é mentira!
Voltando. Seu Armando era alto, loiro, de olhos azuis e estrábicos. Magro, e meio rebelde. Entrava e saía dos empregos, era meio malandro, mas gostava muito dos seus seis filhos homens. Pobre, pobre, mas comprava presentes de Natal para todos: carrinhos de madeira, bolas e outros brinquedos. Mesmo na pobreza, guardou suas delicadezas burguesas, européias. E um sotaque meio diferente.
Quando o filho mais velho quis vir para São Paulo, trazendo os irmãos, seu Armando não titubeou. Veio junto. No frio Piratininga, sentia-se melhor. Aqui, conseguiu o emprego de zelador num prédio, na rua Teodureto de Souto, no Cambuci. Morava lá, no apartamento reservado ao zelador, e era lembrado muitos anos depois como um dos melhores funcionários do prédio. Lavava com ardor a escadaria do primeiro andar, de mármore branco, deixando-a brilhando.
Minha mãe trouxe a discórdia e a primeira neta que ele teve a oportunidade de conviver de perto. Escondido da minha avó, seu Armando ia me visitar, me levava pra passear no parque da Aclimação, e tirava fotos comigo no colo, com vestido de joaninha.
Meu pai deu nó em pingo d'água e conseguiu um financiamento. Saímos da Teodureto e fomos pra Miguel Telles Júnior, num prédio novo. Seu Armando ia lá, e cuidava dos netos, já que meu irmão nasceu com seus incríveis cinco quilos e meio.
Um dos meus tios conheceu uma moça, de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo. Ficaram noivos. Às vésperas do casamento, uma das irmãs da minha tia veio para São Paulo, para prestar um vestibular ou um concurso, não sei direito, e minha avó ofereceu sua casa e ajuda para a mocinha. A mocinha, carregando a mala, inocente e caipira, chegou na Teodureto. Seu Armando estava na calçada, com seu rayban, sua calça de tergal e suéter. Não é que o velho lascou uma cantada barata naquela irmã da sua futura nora? Foi aquele escândalo...
Seu Armando era muquirana, e não deixava dona Penha comprar pó e ruge. Pouquíssimo católico, dava dores de cabeça na minha avó, homéricas. Não sei porque, mas ele perdeu o emprego, o povo todo teve que sair da Teodureto, e eles foram pra um conjunto de prédios perto da antiga Rodoviária, ali quase dos lados da Baixada do Glicério. Onde o Maluf tava construindo o monstro Radial Leste.
Nas fotos do meu batizado, aparece de rayban. E apertando a gente. Logo depois, a fatalidade. Teve um AVC, depois outro, depois outro. Ficou nove anos na cama, com um dos lados paralisado, o estrabismo cada vez pior. Eu tinha medo do meu avô, preso naquela cama, sem falar direito. Muito medo. Meu pai irritado com minha falta de jeito me obrigava a ficar perto. Minha mãe, numa das poucas vezes que teve sensibilidade para comigo, explicou pra ele que eu tinha medo do seu Armando, que isso era normal.
O que não é normal foi seu sofrimento. Sofria muito, e no final pediu para que Jesus o deixasse ir. Sofreu demais para falecer, o que ocorreu dois anos depois da morte da minha avó materna, e no mesmo mês de tia Júlia e tio Esmeraldo, seus cunhados e padrinhos de meu pai.
Meu avô deixou para mim a lembrança de que, mesmo sendo zelador de prédio, é necessário ter uma certa aristocracia de espírito. Uma delicadeza de alta burguesia. O dinheiro, esse é detalhe.

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