Wednesday, October 17, 2007

Panda Quebra-Barraco

E com vocês, o funk da panda quebra-barraco! Sou feia e ainda por cima não tô na moda!


Sábado pensava em coisas tristes e terminava de fazer uma das minhas atividades favoritas, tomar banho. De repente, no meio do óleo de banho Pitanga revitalizante da Herbo Farma, presente dos bocos no meu aniversário ( comprem! É uma maravilha!), o chuveiro puft. Queimou a resistência. Que saco. Daí pensei, vou chamar seu Edmílson...
Seu Edmílson foi, durante anos, o zelador aqui do meu prédio. Além de zelador, depois das duas da tarde, ou seja, depois do expediente, seu Edmílson consertava tudo, de cano quebrado, vazamento, interfone. O problema é seu Edmílson se saiu tão bem nessas tarefas extras de faz-tudo que resolveu pedir as contas e abrir negócio próprio de faz-tudo. Ou seja, não tenho mais o homem da casa seu Edmílson, que agora anda tão ocupado que não atende mais os pedidos do prédio e dos outros prédios.
Fico feliz por seu Edmílson ter se tornado um homem de sucesso, mas e agora? Que fazer, como diria Lênin?
Daí ontem estava puta porque tem muita gente babaca no mundo e tal, e abri a geladeira, um tupperware com um resto de sopa, uma sopa que eu fiz, ficou horrível e ainda por cima estragou o resto. Puta, peguei o tupperware e entornei o restinho da sopa no vaso sanitário. Quando terminei, pensei, mas que porra eu fiz, porque o vaso, obviamente, entupiu.
Me vi, de novo, com o vaso entupido e o chuveiro queimado. Vou desconsolada trabalhar em Caronte, com sua risca azul chiquérrima. Nenem me exorta a ser uma mulher independente, comprar um alicate, a resistência, um desentupidor grandão e consertar os problemas. E hoje, eu recomecei a dar aulas no IA, substituindo o Paulo, em viagem, em dois cursos pra graduação: História da Arte 2 e História da Arte no Brasil 1. Hoje seria Debret.
Daí acordei com: uma aula sobre a Voyage Pitorèsque do Debret pra preparar em Caronte emperrado e riscado de azul, uma resistência pra trocar e um vaso sanitário pra desentupir.
Fui no Santarelli, uma loja monstro de coisas de casa aqui do lado. Comprei um bom alicate, a resistência, o desentupidor de vaso e cheguei em casa preparada pra tudo, panda num momento Rambo. Pus a fita na testa, e ááááááá....
O vaso continuou entupido, e eu troquei, sim, a resistência do chuveiro ( sim, crianças! No meio de tudo em pensava, qué isso perto de escrever uma tese sobre o tiozão narigudo mardito? E o pino da resistência entrava! Viva Dante!). Mas ano passado, numa faxina monstro, eu quebrei o cano do chuveiro. Seu Edmílson veio aqui e fez uma gambiarra, passou fita veda-rosca e o negócio, puft, caiu! Então, sim, caros leitores do Meio, o chuveiro caiu da parede, mas a resistência foi trocada!
Não dava mais tempo de fazer nada. Sentei, preparei a aula mais chulé sobre Debret que alguém viu nessa vida, e no torso de Gerião parti pra Unicamp, infringindo parte da suspensão da minha carteira de habilitação. Dei a aula. Os meninos dormiam e tal, mas a culpa não era deles. Depois fui encher o saco do crazy people na cantina do IFCH, e lá estavam Marcones e Vitão. Contei a eles minhas desventuras, e eles riam à socapa. Mulher moderna com problemas é isso aí.
Voltei pra casa com um plano maléfico. Entornei um quilo de soda cáustica no vaso ( depois de dois dias, se não fizer efeito, tacarei Diabo Verde Líquido e só em última análise peço pros negos do Santarelli virem porque são 60 pilas). E tentei enroscar o chuveiro. Nada. Fui no seu Luiz, lá eu resolvo tudo, pensei acertadamente eu.
Seu Luiz é dono do Frangos Ilimitados ( ou algo assim) aqui na esquina de casa. É um restaurante boteco maluquinho, que serve uma feijoada daquelas, já deu no jornal e tudo. Eles são super simpáticos, é limpinho, barato, gostoso e ainda vende tubaína, com batida de limão de grátis. Tem saladinha com molho de alho, maravilha total. Sentei pra enfrentar a feijoada e lá veio seu Luiz cheio de prosa. Falei, seu Luiz, os caras do Santarelli tão querendo me cobrar os olhos da fuça pra me enroscar um chuveiro, o senhor imagina! E ele, que absurdo, esse povo enfia a faca. E seu Luiz passa a coçar o queixo. Perguntei do Luizinho, outro faz-tudo do pedaço.
Luizinho trabalha há muitos anos na oficina do seu Hugo. Quando quebrava algo no seu Pedrão, lá vinha Luizinho, sempre em pé de guerra com o seu Hugo ( eles se odeiam mas não se desgrudam). Luiz teve leucemia e quase vira anjinho faz-tudo. Um dia, minha mãe ligou pro seu Hugo por qualquer eventualidade e veio... tchanam, Luizinho em pessoa. Minha mãe, que achava que o moço tinha morrido, achou que tava vendo assombração e teve o pior ataque de nervos da vida dela.
Pois o Luizinho, ressuscitado e tudo, agora tá brigado com dona Meire (mais um pra lista). Mas o Luizinho poderia me ajudar. Seu Luiz sensatamente observa que Luizinho também adora enfiar a faca no povo.
Veio a feijuca, beleza maravilha total, um guaranazinho diet ( meu, como sou hipócrita). E seu Luiz não se conforma, vira a rua atrás de um cavalheiro pra ajudar a senhora simpática que ama feijoada. E vem ele meio sem graça com um senhor moreno, baixinho, seu Leonel. Esse conserta e cobra 15 pilas ( meu, os caras do Santarelli cobram 40, pra vocês terem uma idéia, sem a peça inclusa).
Seu Leonel veio aqui e agora volta no final da tarde, pra consertar o cano. A resistência tá perfeita, segundo ele. E eu taquei os três quilos de soda caústica no vaso. Vejam, e sexta-feira dou aula sobre Bernini!

Tuesday, October 16, 2007

Favor não ultrapassar a linha vermelha

Andaram acontecendo coisas trash por aí, comigo e com pessoas amadinhas.


Eu já sofri muito com agressões, dos mais variados tipos. Tinha uma época que a panda vivia que nem preso chinês, ou seja. Saí dessa pra melhor, na linha Gandhi do pacifismo ativo ( "eu não revido e não te bato, mas enfio o dedo no seu olho e saio correndo"). Mas desse período nas trevas, eu saí com um pavor completo, total, absoluto, de todo e qualquer tipo de agressão, de todo e qualquer tipo de invasão de privacidade, de falta de delicadeza, de falta de de noção. Xingar, bater, seguir, humilhar, dar barraco, ler email dos outros, revirar gaveta, celular, carteira, tirar sarro de maldade, falar mal, difamar, desconsiderar o outro, são atitudes completamente injustificadas e idiotas. Quem bate, xinga, humilha, perde a razão que pensa ter ( se chegou nesse ponto da agressão, o cara nem razão tem, mas vamos fingir que tivesse).
Se eu pudesse, faria um Manifesto contra a Babaquice. Porque tem muito babaca por aí, pelo amor de Deus.

Friday, October 12, 2007

Tapioca é de Deus

E eu entreguei a tese pro meu orientador. Acabei. Pois é.

Imprimi a maledetta, tirei uma cópia, e encadernei. Enquanto rolava o processo, no xerox do IEL, chega uma moça que procurava a tradução do Manuel Odorico Mendes pro Virgílio, o famoso Virgílio Brazileiro. E o tomo do meu lado, na estante, enquanto minha mente emperrada nas paragens do reino de Lúcifer só esboçou uma reação: peguei o volume e entreguei pra moça.
Fiquei exausta essa semana. Terminei minha tese, e chegou a notícia do falecimento do meu tio. Os projetos pós-tese começaram a pipocar por conta própria, exigindo resoluções. Fiquei misturada, como dizia minha afilhada Camila, e veio um Mar Vermelho, de nervoso mesmo. Fraquinha, nesse calor desértico, terminei a saga da dupla sertaneja tiozão narigudo- tiozinho barrilzinho, ao menos por enquanto.
Daí hoje dormi, dormi horrores, e pretendo continuar hibernando, e fui ao shops com Nenem e Celo, ver vitrines e me descabelar diante dos lançamentos da Renner. Juntei uma braçada de roupa pra experimentar, mas não deu tempo, o povo tava nelvoso. Comi bem, e lá estava uma barraquinha de tapioca, lotada de gente.
Tapioca eu comia nos velhos Campos dos Goytacazes, norte do estado do Rio, na casa de minha avó materna, dona Maria da Conceição, com manteiga. Era bom. Mas nunca mais comi tapioca, nem lembro quando foi a última vez que fui a Campos. A tapioca vinha num saquinho plástico, já fria. Mas eu cheguei a ver aqui perto do Terminal Central de Campinas as frigideirinhas e um amigo se declarou entusiasta da tapioca quentinha, com queijo de coalho.
Hoje Celo deu a idéia e pediu uma, com recheio de banana, um pouquinho de leite condensado e canela. Não agüentei e comi uma com morango. Sei que deve ser sacrilégio pôr na tapioca frango com catupiry, morango, essas coisas de paulista. Tinha uma comunidade no Orkut muito engraçadinha, "Comida azul não é de Deus". Gente, tapioca, tapioca é, sim, de Deus.
E do lado do xerox do IEL tinha aula de forró. E a tapioca me deixou numa vibe que me fez lembrar de 1999, eu na Cooperativa com minhas amigas Dani e Camille, que hoje moram no Velho Continente. Era o início da onda do chamado forró universitário, o salão cheio de senhores nordestinos que ensinavam as paulistas a dançarem aqueles negócios tão deliciosos. Até a panda, sempre dura e desajeitada, sofrendo de falta gravíssima de coordenação motora desde a mais tenra infância, ensaiava passos nos xotes. O Trio Virgulino animava a moçada; eram simpaticíssimos, virtuoses, e hoje são o trio mais famoso das paradas do velho for all.
Eu adorava "Forró & Paixão", tão singela e doce, como tapioca. Depois a Cooperativa lotou de patricinhas e mauricinhos, os senhores professores sumiram, a coisa ficou esquisita e um clima de pegação daqueles dos piores se instalou. Nada contra pegação, acho até que tinha que ter uma lei obrigando o povo a se pegar, mas uma coisa é aquele clima bacana de safadeza e ingenuidade, outra coisa é o automático vamos nos catar.
Me deu saudade da música, quando tocava eu lembro que pensava, eu quero um amor. Não tinha tanta clareza, como hoje, que é a simplicidade que a gente, de fato, precisa buscar. Era muito atormentada e muito jovem. Hoje tudo é bem, bem mais simples, como tapioca, como dançar agarrado, gostoso.
http://www.triovirgulino.com.br/, tem na seção MP3 a "Forró & Paixão" pra baixar.

Wednesday, October 10, 2007

Segura, peão

Essas semanas tem sido respirar fundo, sentar e trabalhar. Respirar fundo, sentar e trabalhar. De novo, repitam comigo, respirar fundo...

Lá na terapia falei da necessidade de construção. Do quanto Eros, a força da vida, pra mim está relacionado com a rotina que transcorre sem grandes problemas, da calma e da clareza diante dos enroscos próprios e alheios, de eu não ser ambivalente e não cair no jogo neurótico dos outros. Estou desarmada e calma, pacificada e discretamente feliz. Não trago pedras nas mãos. Não pressuponho mais. Não interrogo motivos que não existem, ou que se existem, não me dizem respeito. Mágoas, eu tenho, ressentimento, raiva, eu sinto, mas prefiro canalizar em outras coisas, em fazer disso um trampolim pra saltos ornamentais. Estou distraída mas não distante, andando devagar, pensando no que eu quero com tanta força que mesmo momentos tristes ficam com sua beleza, modesta porque o que eu quero está longe, mas uma beleza que não é desprezível.
O ruim é segurar as rédeas e entrar no rodeio da defesa. Essa semana, tirei pros últimos preparativos da tese, para imprimir o exemplar do meu orientador e começar a correr atrás da data, formulários, e etcs. Aqui no IEL tudo fica a cargo do aluno, e hoje me informei dos procedimentos todos. Uma pasta de formulários e eu respirei fundo, mais uma vez e...
Tapo os últimos buracos da maledetta com uma dor indizível. Não pude fazer nem um terço do que me propus, e logicamente serei execrada pela banca. Fico bem ansiosa nesses momentos finais com o texto, decisivos, mas não tenho mais condições psicodélicas, ops, psicológicas, de vôos mais altos do que juntar parágrafos, cortar excessos, ligar de qualquer jeito pedaços. Está tudo muito desconjuntado; fico embaraçada de apresentar um resultado tão medíocre pra uma banca de estrelas da minha área. Enfim, fiz o que pude. Mas não estou no final de nada, o meu coração bate constante, a vida é constante, tudo está bem e assim fica, mesmo.

Tuesday, October 09, 2007

Saudades, tio!

Hoje fiquei sabendo do falecimento de meu tio Arthur.


Esse post, então, é uma despedida da sua sobrinha Paula. Eu compartilhava com você o nome; penso que talvez meu pai lembrou longinquamente do irmão que gostava mais dele quando me batizou Paula, porque depois de Arthur, nome do nosso avô holandês, você tinha o Paulo. E talvez essa lembrança me faça mais presente de você, hoje.

Vai em paz, tio. Sua sobrinha andou sentindo tanta falta dos Vermeersch, até na igreja do Cambuci foi, e agora sei que foi um pressentimento do seu falecimento. O senhor faleceu na sua casa, na velha Campos dos Goytacazes. Faleceu em casa, talvez o sonho de todos nós seja esse, na sua casa, comprada com tanto sacrifício, depois de anos e anos de esforço, parabéns, meu tio. Deixou algo pros irmãos, pros sobrinhos, o senhor que não teve filhos, que sofreu anos com uma doença terrível.
Mas me lembro de seu carinho, de seu afeto, das sessões do projetor antigo de cinema, onde assistíamos filmes de Chaplin, seus favoritos. Do senhor levo uma lembrança afetuosa. Meu pai faleceu, o senhor não veio; não se sentiu bem, me disseram. Mas gostaria que o senhor soubesse que, na tese que agora defendo na Unicamp, seu nome, o do vô, da vó, do meu pai e até de tio Salvador que não conheci, estão do lado do meu, agora doutora, doutora Paula Vermeersch. E com orgulho compartilho do sobrenome de vocês, vocês que tanto me amaram em criança e que estão comigo, no meu coração, para onde eu for.

Monday, October 08, 2007

A inteira combinação cósmica renovada

Hoje eu acordei cedo, e como diria Leminski, azul, tive uma idéia clara. Vou escrever no Meio.


Eu andei tão absorvida por processos kármicos, como bem diz a fofa Evelyne, que não reparei a falta de escrever esse bróugui amalucado aqui. Processo kármico é aquele que você enfrenta quando o indivíduo te pentelha/ enche o saco/ te ama mas te odeia/ te odeia só/ te ama só/ não sente nada por você e você precisa por razões sentimentais/ profissionais/ políticas/ metafísicas conviver. Difícil viver, como bem diria Sartre, o inferno são os outros, principalmente quando resolvem cair nas suas valas internas.
Isso me lembra a história que o João contou na sexta-feira, no almoço. Diz que Sartre visitava Araraquara a convite de Fausto Castilho, que mais pra frente fundaria o glorioso Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade de Campinas, vulgo ifíchi. Ao mesmo tempo o Santos jogava com o time da cidade, o Araraquarense. Sartre foi jantar num restaurante da cidade, e juntou-se um burburinho à porta do estabelecimento. Um cidadão chega e perguntou pro povo se o Pelé estava jantando, e disseram que não, que era o Sartre. E o cara lascou a dúvida, mas em que posição esse cara joga?
Voltando à cold cow. Hoje tive um dia atrapalhado mas produtivo, e acho que contribui a "limpeza de chaminé" no Meio, como dizia a histérica Anna O. para o dr. Breuer, no clássico caso que inspirou dr. Freud a pirar o cabeção e dizer em alto e bom som que histeria masculina existe ( histeria- hysterós, útero, mal do útero, como homem tem mal de útero? Segundo Freud tem). No caso minha coisa seria facilmente diagnosticada pelos drs. Freud e Breuer; pelo menos tenho a esperança de, no final, não me tornar uma megera indomada como tanta/os por aí.
E eu abri o volume em italiano dos textos de Hermes Trimegisto e lá está: "O divino é, portanto, a inteira combinação cósmica renovada: no divino, de fato, a natureza torna-se estável".

Come to the dark side, my son

Outro dia eu tava no ponto de ônibus e um senhor varria a terra, jogando o pó com eficiência pra cima do pessoal no ponto. Uma moça bonita, que depois conversou comigo o caminho inteiro pra Unicamp, começou a rir e disse de forma sacana, Jesus, apaga a luz pra eu não ver isso.


Pois a semana passada foi a semana "Jesus, apaga a luz". Espantos de todas as espécies. Eu sumi do Meio simplesmente porque tive que deixar de usar meu sabre de luz de manhã, pra cortar e ao mesmo tempo torrar pão, pra coisas mais bélicas. De todos os padawan e mestres menores da Academia dos Cavaleiros Jedi, Panda Kenobi sempre se destacou por utilizar a Força para fins lúdicos, culinários e, como se diz em ítalo-paulistano, divertentes. Mas semana passada tive, como mestre Yoda no último filme da série ( terceiro da primeira trilogia) pegar meu sabre e dar num crazy people aí.
Depois de muitos debates na Praça é Nossa virtual, ops, msn, com Dani Mônica diretamente das Alagoas e Dani Nenem diretamente do Cambuí, cheguei à conclusão que a terapia no SAPPE surtiu um efeito benéfico.
Todos nós temos nossa ambivalência: a gente ama e odeia ao mesmo tempo. Temos atitudes escrotas com quem mais gostamos, achamos que a intimidade é o canal das patadas e que quem nos ama precisa nos aceitar como somos ( leia-se, com todas as nossas manias, defeitos e agressividades latentes e declaradas). Nem nos passa pela cabeça que os outros são os outros, a fusão amorosa precisa, na nossa fantasia, ser total, simbiótica e meio maluca. Tudo bem, isso no plano da fantasia é ótimo. Mas justamente uma das tarefas do processo de individuação, segundo minhas parcas leituras, minha experiência e minhas terapias e análises, é diminuir o mais possível a ambivalência. Reconhecer a agressividade e canalizá-la, tematizá-la, vivê-la de uma forma mais saudável.
O problema é quando neguinho resolve do nada ser ambivalente com você, não te explicar o motivo e te causar aborrecimento, quando você tá no meio de sua jornada padawan, aprendendo a tirar naves do pântano, ficar amigo do Chewbacca e de quebra destruir a Estrela da Morte com sua intuição. Daí você, pequeno Skywalker, se vê diante de um Darth Vader que quer te estrangular, mas ao mesmo tempo é seu pai. Um homem que não é mais homem, uma máquina de destruir, mas que ao mesmo tempo foi o mais brilhante da Academia Jedi ( e que destruiu sem dó nem piedade essa mesma academia). Sabemos, porque vimos trilhões de vezes O Retorno de Jedi, que Darth Vader, ops, Anakin Skywalker, só ouviu o lado bom da Força no finalzinho, salvando Luke na hora H e deixando enquanto isso que os psicopatas da fofura ( sim, isso existe) Ewoks ferrassem com as tropas do império com sua meiguice e catapultas assassinas.
O que é triste é que tem muito Darth Vader por aí que não ouve o chamado bom da Força nem no final, deixando a cargo do Luke sua própria salvação, e dos Ewoks, a salvação da galáxia. Pior é quando o pequeno/pequena padawan, incauto, cai no dark side e entra na onda. Exemplo básico: neguinho combina com você e fura. O pequeno padawan fica vermelho de raiva e imagina milhões de coisas, sofre, vai no blog, torra a paciência da lista inteira do msn, sofre mais, estabelece hipóteses, todas baseadas em generalizações completamente furadas ( o clássico para as padawans-meninas: "Os homens têm medo de mulher inteligente", "Ninguém aguenta minha sinceridade, meu charme, minha autenticidade, piriri pororó").
Ó cara ou caro padawan, se alguém foi ambivalente com você, pense, isso acontece e a pessoa vai se arrepender. E volte seu olhar pras suas atividades na academia. Semana passada eu tive umas 15 ocasiões em que foram muito ambivalentes comigo. Passei por isso com o jeito tranqüilo de quem, sim, está do lado certo da Força ( só quero amar, como dizia Tim Maia).

Wednesday, October 03, 2007

Frases descabidas

-Só se permanece si mesmo quem muito sofre.


-Zica por zica, melhor as minhas.


-Dê-me uma razão para chorar e lhe darei cem razões para beber.


-De grão em grão é que se enche o saco.

Sunday, September 30, 2007

Prateleira


E eu, que não sou uma panda consumista nem nada, tive um surto de madame essa semana. Detalhe, não possuo um mísero real pra poder sustentar tal surto; então, no final das contas, considerei que é um daqueles surtos compensatórios, porque o voto de pobreza franciscana, feito por mim, já tá demasiado.


Começou que eu queria um relógio. Daqueles de ouro, delicados, de velhinha que vai no Municipal. Quando era jovem, minha tia tentou empurrar um desses pra mim, e eu preferi um Casio daqueles batatões, de mergulhador, indestrutíveis e nada delicados ( esse relógio só sumiu porque foi furtado num ônibus pra Unicamp, anos depois). Andando pelo centro de Campinas, vi um relógio lindo de morrer, numa joalheria; depois, na fatídica feirinha hippie, um senhor relojoeiro me mostrou um pequeno Seiko, e eu sem nada.
Roupa, lingerie, perfume, maquiagem, tudo eu ia vendo e fazendo uma wish list ensandecida, descabida e totalmente inverossímil. Mas o máximo do surto veio depois.
Eu vi na vitrine da Dascenzi, loja de sapatos finos e um tanto quanto cafonas, uma bolsa da Guess ma-ra-vi-lho-sa. Já tinha notado tais bolsas, inclusive perguntei pra uma moça bonita que carregava uma delas pelo shopping Dom Pedro, quando tomava um lanche com o Juam. Mas em plena rua Conceição, aquela bolsa foi demais pros meus nervos. Nem me aventurei a entrar na loja e perguntar o preço da tal maravilha. Mas em casa é lógico que procurei tais bolsas no próprio site da Guess e no Mercado Livre.
Daí vem a coisa mais engraçada. Algumas bolsas da Guess estão à disposição no Mercado Livre, como tudo nessa vida, incluindo essa linda aí de cima, chamada Sicily Hobo ( não é a que eu vi na Dascenzi, preta e cinza, mas eu aceitaria se algum leitor resolver me mandar uma de presente). Nos EUA custa 70 dólares; aqui na Dascenzi eles vendem por 500, 600. Um absurdo de caro. No Mercado Livre o povo faz um preço melhor, mas daí vem a discussão teológica.
Se você procurar no site, tem nego vendendo Louis Vuitton por 300 pilas. Uma Louis Vuitton nova custa 2000, 3000 reais, uma coisa assim, totalmente descabida e sem noção. Eu, no alto da minha falta de bom gosto, prefiro as da Guess. Uma Louis Vuitton dura a vida toda, dizem, e dizem que são as mais elegantes. mas ainda assim, do fundo do meu franciscanismo, acho indecente um preço desses. Peguei implicância da marca, na minha adolescência símbolo das negas patricinhas idiotas do meu colégio ( que ainda adornavam as cabeças com bandanas coloridas e vinham com as tais bolsinhas LV pra aula de Educação Física), implicância um pouco minimizada porque vi fotos lindas da Angelina Jolie defendendo as crianças pobres em Davos em tailleurs de lã impecáveis Saint John Knits e uma bolsona LV. Aliás, o site da Saint John traz Angelina, como sempre deslumbrante e doando o cachê pras crianças de, sei lá, Serra Leoa.
Enfim, eu teria tudo da Saint John, mas Louis Vuitton muito provavelmente não ( aquelas bem assim, realistas, quá quá quá). Mas como o milagre da LV de 300 reais? Então, a picaretagem brasileira não tem limites. Ora bolas, o neguinho vende réplicas, hierarquizadas pelo grau de perfeição na pirataria, ou contrabando. Mas tem gente que vende as legítimas. O interessante é que os vendedores do Mercado Livre criaram um dialeto todo próprio pro consumidor distinguir as bolsas umas das outras, e o próprio site fornece um guia pra pessoa reconhecer a bolsa LV verdadeira. Eu não tinha a mínima idéia disso tudo, na minha pobreza sempre distante dos bens do mercado de luxo; nem sabia que uma bolsa LV é como jóia da H Stern, com número de série e um bando de detalhes. Vejam lá o Guia pra não comprarem gato por lebre ou pra vocês terem uma idéia da profundidade da picaretagem:
Ah, e no sebo que comprei minha boneca Emília, meses atrás, vi dois Aquaplay em perfeito estado de funcionamento. Estão na wish list, bem como umas antigüidades da feirinha, uma cristaleira pra pôr as antigüidades e uma passagem para Londres.

Thursday, September 27, 2007

E no dia de São Cosme e São Damião...

Hoje, dia de São Cosme e São Damião. Minha avó enchia saquinhos de papel com doces e brinquedinhos de plástico, e distribuía para as crianças do bairro.


Celo acaba de ligar dizendo que nasceu Nina, irmãzinha caçula do Fefê e do Murilo, depois de, como toda boa menininha, deixar todo mundo esperando... E viva a Nina! Meus parabéns à Jana, ao Henrique, ao Felipe e ao Murilo e a todos nós, que temos mais uma amiguinha pra compartilhar a beleza da vida. Beijos na mais nova fofa do pedaço, e votos da felicidade mais completa, de saúde, de força e de tudo de bom. Quando nasce um bebê, eu queria muito ser daquelas fadas dos velhos contos, pra reforçar a alegria que sinto por uma nova pessoa legal surgir.
E hoje ainda é aniversário do Léo, pessoa infernal de plantão. Mandei uma mensagem no celular da pessoa, leitor contumaz e feroz do Meio, com suas críticas arrasadoras da minha necessidade de transcendência (leia-se, sr.Leonardo é ateu). Então parabéns também pra você, Léo, apesar de você achar o Meio do Caminho horrível e a panda uma looser nó cega! E me vinguei de você, porque você vai ficar com vergonha de ler isso aqui!

Wednesday, September 26, 2007

Del contrario ho io brama

Ontem terminei a numeração do Caderno de Imagens. Deu um trabalho pavoroso, e fiquei com a cabeça completamente fundida.

A tese cansa, demais, meu Deus. Pode ser que isso se deva ao meu total despreparo intelectual, e minha completa falta de vocação para uma tarefa tão complexa. Ou ao fato que a temperatura nas terras paulistas caiu 20 graus centígrados do dia pra noite literalmente, ou sei lá o quê. Também fiz muito café, e muito forte hoje. Daí eu acelero, eu durmo tomando chá de camomila, sou muito influenciável e hoje tive que mandar uma pessoa que eu amo muito à merda. Momentos de tensão, e um porta-lápis caiu sem nenhuma explicação da Física newtoniana, nem de Einstein nem da Mecânica Quântica. Medo de viver, de sofrer? Sei lá.

A saber, o título é o verso 94 do Canto XXXII do Inferno, fala de Bocca degli Abati, uma das almas danadas que cumpre pena por traição no último círculo do Inferno, no gelo eterno, por ter traído os seus numa das batalhas entre guelfos e guibelinos. Ítalo Mauro escreve "Minha vontade o oposto é o que reclama".

Monday, September 24, 2007

Do acaso e da utopia

Há uns dois anos atrás, recebemos a notícia da abertura do FAP Livros, o programa de compra de obras pros acervos das universidades paulistas, obra e graça da Madrasta FAPESP. Todos os pesquisadores doutores, inseridos em Projetos Temáticos, orientadores de bolsistas, etc e etc, poderiam enviar sugestões bibliográficas para a aquisição de livros.
Tanto o meu orientador, no IEL, quanto o Paulo, com quem trabalhei no IA, podiam enviar listas, e pediram colaborações, sugestões de todos. A recomendação era a mais doida possível: fazer listas de maravihas, ilhas paradisíacas e outros portentos da bibliografia internacional. Pensou-se que atirando pra cima, o tiro sempre cai um pouco mais embaixo, e no máximo os Tahitis em forma de livros não viriam, mas as Praias Grandes nos encantariam a vida.
Eu, sempre propensa ao pensamento utópico mais descabido, fiz listas fantásticas, com coisas surreais, baixando o catálogo das grandes editoras italianas. Claro que fiz isso de molecagem, pra compensar o desejo, no sentido mais erótico e deslavado que existe nisso, de ter em mãos a bela edição da Salerno Editrice de todos os comentadores renascentistas de Dante.
Pois bem. Estava eu em plena incursão da nau dos desvalidos do IEL, semana passada, chega professora Maria Bethânia, da área de Italiano. E ela me diz, Paula, chegaram livros belíssimos, raríssimos, Divinas Comédias ilustradas de sonho. Tudo isso ninguém sabe como veio parar aqui, porque tudo custou uma fortuna, uma fábula, ela me disse; uma edição lá custou nada mais nada menos que 2000 euros. E enquanto Bethânia falava, eu empalidecia e quase perdia os sentidos.
Por um motivo obscuro, a FAPESP aceitou minha lista absurda, e agora a Biblioteca do IEL possui um acervo completo de Dante ilustrado, comentado, e sei lá o quê mais. Hoje, livre dos compromissos do aniversário e calma diante do horizonte duvidoso e sofrido, habitual, da minha lascada vida ( o drama é fundamental numa mulher né não?) fui ter na biblioteca e saber dos portentos. E realmente, na estante já está esperando, pelos séculos vindouros, o Comentário de Piero Alighieri, filho do tiozão narigudo, e outras pérolas dantistas. E no processamento, porque não há estagiário nem funcionário, 90% das compras. Fizeram inglês, alemão, francês, espanhol, entrar primeiro no acervo; a brava língua de Leopardi ficou pra depois, talvez por ciúme das outras esquadras. Lá estava, numa caixa de papelão, a edição de 2000 euros das ilustrações de Federico Zuccaro, do séc.XVI, para o venerável poema do tiozão.
De vez em quando, por acaso, a utopia acontece. Fiquei me sentindo culpada, afinal o dinheiro do contribuinte paulista poderia matar a fome de várias crianças, ajudar gente que sofre de verdade. Isso que dá a pessoa ser doida.

Sunday, September 23, 2007

Risco azul sobre tela preta

Eu estava desanimadíssima, tendo uma crise de angústia atrás da outra. E na véspera do meu aniversário, resolvi tomar uma providência ( poderia tomar a cachaça mineira Providência também, mas só tava com uma pinga artesanal em casa, da qual tenho medo). Ou melhor, umas providências.
Eu tava sem vontade de ver ninguém, nem de fazer nada. Mas no meio de uma crise de angústia ( mais uma, nessa semana de recordes de crises de angústia) resolvi ligar pro Zé. O Zé, o Luís Fernando e o Flávio têm, em comum, uma rara capacidade: eles me salvam da angústia com três palavras idiotas e o riso franco de quem não leva a panda nem um pouco a sério. O Zé falou que o fundo do poço tinha mola, e no meu caso a mola era bastante elástica, e que era pra parar de bobagem e combinar logo de ir no Cambuci, pra espairecer. Detalhe, Zé vem do Cambuci, Luís Fernando de perto do Bauru e Flávio, de Minas, de modo que três partes da minha alma ficam contempladas ( Celso do Rio. Nunca tinha parado pra pensar nisso. Enfim, amigos e alma se espelham).
Liguei no Flávio a cobrar. Ele no CRUSP me informa bem delicadamente que se era pra ligar a cobrar, que eu ligasse do orelhão. E Luís Fernando fala no msn, sua orelhuda, vá passear um pouco, vai na igreja que você sossega o facho e dá um pouco de paz pra mim. Tão bom se sentir querida, né.
Daí no meio disso tudo me deu vontade de jantar no japonês de Barão e toca entrar no emeesseene pra combinar, e no meio da maluquice eu vejo um risco azul, fino, varar de ponta a ponta, verticalmente, a tela do Caronte. E taca falar com um, com outro, constato que o LCD ( vulgo tela) do barqueiro do inferno sofreu um abalo. Me chateio horrores, Caronte apesar de dar pau é bom companheiro diário,e a risca azul me irrita profundamente, um Poltergeist me lembrando que eu não vou ter grana pra consertar.
Enfim, com risco azul e tudo combinei japonês, caipirinha de saquê com morango e muito sushi. No dia seguinte, às sete da manhã, minha mãe como há trinta anos atrás me acorda pra vida. Me diz coisas bonitas, emocionada. Vindo dela seria o maior presente que eu poderia querer, porque há trinta anos, apresentada à minha pessoa embrulhada num cobertor pela dra. Iracema, dona Meire lascou, que menina feia.
Fui pro Piratininga, atrasada como sempre, eu sofro de várias coisas crônicas ( sinusite, asma, bronquite em geral, prolapso da válvula mitral, dislexia, déficit de atenção, esquecimento múltiplo, angústia, miopia de dez graus e atraso constante). Zé me busca no Paraíso e a gente se perde na cidade, em busca do tempo e do caminho pro Cambuci perdido. Mas uma hora começo a reconhecer coisas, coisas que não via há mais de quinze anos, sei lá eu. A saída pra Radial Leste, da Nove de Julho. A Baixada do Glicério, a rua São Paulo, onde moraram meus avós. Zé faz uma viradinha embaixo do viaduto, que em tempos idos foi a Rodoviária de São Paulo, e de repente eu me vejo com meu pai no carro, voltando pra casa. O INSS, e a gente vira mas a mão da rua tá do outro lado. E do nada surge a virada da Lavapés, e lá em cima, a Igreja Nossa Senhora da Glória, Paróquia de São Joaquim.
Tudo me comove, por estar exatamente igual. A especulação imobiliária ainda não chegou e as vilas, as casinhas operárias estão lá, bem cuidadas, as casinhas Volpi. O bairro é tranqüilo; não existe trânsito nem na Lins de Vasconcelos nem na Lacerda Franco, as duas artérias principais. As ladeiras. As casinhas. As lojas são as mesmas, vejo a ótica dum grande amigo dos meus pais, A Chapa, onde se come o melhor lanche da cidade, e do lado o Yokoyama, a pastelaria celestial. Não tem metrô, não tem ônibus, isso explica o isolamento, o ar de cidade do interior, e mesmo a deterioração é igual a trinta anos ( os mesmos cortiços, as mesmas crianças descalças na rua). Tudo me comove por brilhar, por estar lá, por existir sem grandes mudanças. Talvez eu não tenha mudado tanto também, algo dentro de mim é o mesmo.
A igreja reluz de tanta tinta suvinil, obra e graça dos paroquianos animadíssimos e que em termos de patrimônio histórico, equivale a uma bomba. Mas o que me comoveu fundo foi o fato de a igreja, no alto do morro, dar vista pro centro inteiro: a cúpula da Sé, o prédio do Banespa, resplandecem em meio à névoa, que é 99% poluição e 1% a mesma desde os séculos passados. Do morro se vê o caminho antigo pro litoral, hoje a Radial Leste, que realmente num momento vira o sistema Anchieta-Imigrantes. A igreja tem de um tudo; na verdade, um dos templos mais antigos da cidade. A paróquia do Cambuci seriam duas, a Glória e São Joaquim, mas a segunda igreja nunca foi construída, restando pro pequeno aguilhão neogótico o amor irrestrito do bairro. Na minha lembrança e nas fotos do meu batizado, a igreja era sóbria, fazendo par com a Sé. Eu e o Zé trocamos observações sobre milhões de coisas, e eu fiquei num estado de espírito muito peculiar que se convencionou chamar felicidade.
Fomos almoçar na Móoca, bairro da família dele, e depois rumamos pra Cultura do Nacional, onde encontraria o mineiro Flávio. No café, uma surpresa que foi um presente do acaso, dos deuses, do Deus hebreu: avisto o velho de olhos negros dr. Na Prática, acompanhado de lindas mulheres, dentre as quais a eleita do seu coração. Falamos sobre tantas coisas. Sobre o passado mas principalmente calamos sobre o mais importante, o laço de afeto, como convém às grandes ocasiões. Celso me conta do sucesso inesperado do Meio do Caminho no Banco Central (???), então aos meus leitores de lá, um beijo carinhoso.
Depois foi Flávio, me presenteando com Ataíde e com seus olhos azuis e sua mansidão das Gerais. Chorei muito. De felicidade. Depois amigos no celular, de longe, de perto, de todos os lugares. Sou feliz. No jantar, uma conversa sobre se existe justiça ou não no mundo. Se vale a pena ou não ser ético. Sim, vale. Porque a verdadeira felicidade só existe na beleza do momento em que a gente se reconhece gente.

Friday, September 21, 2007

Envelheço na cidade

E essa semana deu zica no Ira. Mari, esposa do Mário que toca com os caras, falou que o Nasi se arrombou com o irmão, mas que ninguém da banda tá ligando muito pra isso. It's rock and roll, all this... bullshit. Whatever. Mas desde a minha remota juventude não entendia Envelheço na Cidade. Agora entendo.


Corta pro Minhocão. No Fusca volto pra casa, no Cambuci. Corta por pátio do Divino, em Jundiaí, venta muito em Jundiaí e as vidraças de casa não tem vidros, meu tio roubou dinheiro do meu pai. Corta pra eu olhando a serra. E corta pra eu olhando o Lago Michigan. Nunca pensei que iria geograficamente tão longe, sendo exatamente eu mesma. Nunca pensei que aos nove anos começaria a roer as unhas e a ter sinusite, e eu com 30 e as unhas roídas e a cabeça atravessada pelo mesmo peso. Mas o lado bom é que não me dou tanta importância assim, de modo que sei que os cabelos brancos vão aumentar, e me sinto livre, leve, como há muito tempo não me sentia. Quando a gente é muito jovem, a gente acha que sabe quem é. Mas não sabe. Depois percebe que você é um monte de coisas das quais fugiu durante muito tempo. E pára de fugir. Corta pra mim em Madri, me olhando no espelho. Ou corta pro dia em que perdi um filho, sem o saber. Que perdi meu pai. Que conheci meu grande amor. Que enfrentei meu medo, e que deixei minha angústia me dominar. Que ganhei minha geladeira e meu fogão de brinquedo, de lata. E um Ursinho Carinhoso, o rosa com um arco-íris na barriga. Corta pro momento em que falei demais. E pros que falei de menos. Que escolhi o tema da minha tese andando no estacionamento da pós do IFCH com o Luiz, indo e vindo. Corta pros amigos, zoom no meu coração.

Thursday, September 20, 2007

Miscelânea

Madonna del Padiglione. Sandro Botticelli, c.1493. Têmpera sobre madeira, 65 cm de diâmetro. Milão: Pinacoteca Ambrosiana.

Quando eu era criança, tinha verdadeira paixão por estojos em geral. Lembro dos de madeira, com tampa deslizante, depois os de tecido, os fatídicos de botão ( a gente apertava botões e lá vinham uma lupa, uma régua e outros rejuntes) e os de lata, pesadelo da classe ( caíam no chão e já viu). Lembro dos de couro, com elásticos pra prender os lápis. Não tive muitos lápis, canetas e lapiseiras, nem estojos muito bonitos. Sofria nas aulas de Arte, no ginásio, porque só tinha lápis da Labra e a professora quase me bombou por isso, nem tintas e pincéis adequados.
Então, hoje resolvi escrever um post-estojo de presente. Uma Madonna do Botticelli das menos conhecidas, dos "amigos de Sandro" como dizia o historiador Bernard Berenson.
Nunca estudei com afinco a chamada Teoria Crítica, apesar de um amor infundado por alguns dos aforismas da Dialética do Esclarecimento ter me levado a um dia, surpreendemente nessa encarnação, ter defendido um mestrado sobre Adorno. Nunca havia lido Walter Benjamin, até o dia de hoje, onde o Rua de Mão Única me chamou, na estante. Me senti várias vezes ali, o que não me surpreendeu; uns trechos do Diário de Moscou haviam suscitado isso, e eu sou muitíssimo ignorante pra realmente compreender Benjamin. Mas lá vai uma frase do grande pensador: "O olhar é o fundo do copo do ser humano", Walter Benjamin. Rua de Mão Única, pg.49.
Não sei o que fazer no dia do meu aniversário, um sábado que promete ser um forno. Aliás, não sei o que quero fazer da minha vida, mas tudo bem. Andei angustiada e triste, como sempre, mas não desesperada. Sem São Paulo, o meu dono é a solidão, como entoa 365 no Neguinho do Pastoreio. Tinha pensado em ir assistir uma missa na igreja do Cambuci, tive vontade de ver umas pessoas e com toda a sinceridade, tive vontade de sumir do mapa e só aparecer cinco dias depois. Mas faço 30 anos, o tempo urge e ruge. Num telefonema, um amigo me devolve ao normal da vida. Segundo ele, não cheguei ao fundo do poço, que seria usar calcinha sem elástico ou com o elástico frouxo.
E hoje eu tenho lápis, canetas Stabilo, e um jogo completo de coisas da gatinha Marie, dos Aristogatas. Não derrotei tanto assim, apesar do sol maldito que peguei no meio-dia pra poder conversar com quem eu queria. Aquele calor, o sol e o nervoso fundiram meus miolos, mas a tudo a gente se adapta.

Tuesday, September 18, 2007

Morgana, a Fada


Eu tenho um problema antigo, que nesses últimos dias se intensificou. Os leitores do Meio que me desculpem, mas é um desabafo, um descarrego mesmo. Tenho uma coisa que se dizia antigamente, crise de angústia. Algo detona, uma ligação não atendida, um encontro frustrado, e logo me falta o ar, vem uma ânsia, uma falta de sentido no mundo. Um absurdo, um vazio. Um escuro. The dark side of the moon, onde habitam selenitas-demônios, vampiros de energia que me acorrentam e me dizem que não valho nada, que não sou ninguém, que tudo que eu sinto é errado, horrível, que tudo que eu penso é idiotice e que tudo tem que ser destruído, devastado.



Nesses últimos dias, sofridos, encalorados, atarefados e loucos dias que antecedem meu aniversário, eu nunca enfrentei meu lado negro tantas vezes, nunca fui parar no meio de tanta neura. Um amigo sinceramente preocupado comigo me sugeriu remédios, um médico. Tá certo ele. Não tenho nada contra o substrato biológico que nos forma. Devo estar com o cérebro pifado de tanto Dante.


Mas eu tive um sonho, um dos sonhos mais pirados da minha vida. Eu sonhei que um oceano saía de mim. Foi uma verdadeira epifania. Não vou narrar detalhes do sonho, muitos íntimos e óbvios, mas eu no final flutuava sobre um mar tempestuoso, belo, completo em seu terror e energia. O oceano saíra de mim, destruíra muitas coisas, mas era justo que assim o fosse. Era necessário. Todas as coisas estavam no seu lugar,ou melhor, o lugar original havia retornado pleno. Eu flutuava sobre as águas, serena, em paz, em profunda paz comigo mesma, com o passado e o futuro, vestida de negro, com estrelas nos cabelos, e uma espada na cintura do vestido longo, negro como a noite e o oceano. E a lua brilhava naquela atmosfera úmida, sombria, fascinante.


Acordei com muita energia, no meio da noite, com assuntos pendentes na cabeça. Escrevi pra um amigo querido que tá longe, e tentei me acalmar. Bom, acordei muito cedo e atarantada vim dar à praia do msn, onde Dani Mônica me atende de Maceió. Eu contei do sonho pra ela, do dia terrível que tive ontem, e tal. E falei, mas quem é essa figura de preto, no mar? Iemanjá não é. Nem Afrodite. Que estranho, uma Iemanjá de negro, falei, e Dani, mas claro que não é Iemanjá, é Morgana, a Fada.


Morgana, a Fada meio-irmã de Arthur, o Rei. Em algumas fontes, Morrigan, a deusa da morte dos celtas; em outras fontes, a Dama de Avalon, a ilha, ou o reino sub-aquático da Boa Morte, o portal dos elementais, dos seres banidos pelo cristianismo. Eu era Morgana no sonho, com Excalibur e tudo, o mar do Norte e a Irlanda perto de mim, os mortos e os vivos, os Cavaleiros da Távola Redonda, o Merlin.
Acima, a Fada Morgana, num baralho de deusas, por Susan Eleanor Boulet, a mais bonita, na minha opinião, no Google Images.

Monday, September 17, 2007

Sacode a poeira

E hoje eu acordei atrapalhadíssima. Minha mãe quando quer passar aqui, passa muito cedo, contrariando meus hábitos notívagos. Ontem eu fiquei na luta com a Ema, a ajudando numa tradução, o inglês Tabajara das duas não ajuda e eu com o caderno de imagens no pepino.
Estou atrapalhadíssima, portanto. Fui dar aula no sábado nem sei como, Van Gogh, Cézanne e Gauguin. Bom, pelo menos os três eram confusos também, perdidos, sofridos e ferrados. Entre sujos e mal-lavados, salvaram-se todos, inclusive meu edredon. Resolvi lavar caseiramente meu edredon, evidente que na zona da semana zicada esqueci o dito na máquina, e o bicho tava exalando um dos piores cheios da história universal. Lavei de novo duas vezes e pus pra secar no clima desértico de Campinas. Funcionou. Tá cheiroso e bem lavado.
Penso que se deve tentar de novo, sempre. Põe mais sabão em pó, ajeita-se um amaciante melhor. Mas não se deve deixar de tentar. De viver. Mesmo que seja sofrido. Mesmo que custe. E mesmo que a gente fique assim, o pó da rabiola.

Friday, September 14, 2007

Harmonia

E como diriam Sá e Guarabyra, um momento qualquer de emoção, de harmonia.
Semana difícil, zicada. Gostei da teoria de uns meninos do IFCH que encontrei hoje: a história não é movida pela luta de classes, e sim pela tosquice. Acontece uma coisa tosca, você tem que se reorganizar pra dar conta daquilo, e tudo muda, até a dança das cadeiras de dentro parar, a música parar e tudo serenar. Como eu queria que tudo serenasse.
Por mais que eu, sem sombra de dúvida, tenha vocação pra sofrer, e como diz Flávio, e como tenho, tem coisas que escapam do nosso controle mesmo. E aí, fazer o quê? Nada, apenas viver. Um dia após o outro, uma hora depois da outra, tomando cuidado pra não tropeçar nas coisas e pessoas queridas. E tem horas que a dor é muito forte. E que tudo fica absurdo.
Tive uma crise de angústia terrível ontem. Até as coisas ficarem bem de novo, vai demorar um pouco, então hoje estou numa delicadeza tremenda. Olhei no espelho e me vi delicada. Aliás ando numa fase em que tudo meu é uma colcha de piquê, daquelas velhinhas, brancas, que minha mãe punha na cama nos dias de calor.
E semana que vem é meu aniversário. Ganhei um lindo oratório mineiro do Juam. Preciso montá-lo dentro, pérolas e flores. Só tem um problema: eu tenho dois Santo Antônio, e um São Francisco. Preciso doar um dos Antônios e conseguir outro santo, acho que São Pedro serve bem pro posto. Terei um orador, um asceta e um chaveiro.
E eu falei no msn muito essa semana. O msn, vulgo A Praça é Nossa Virtual, salva a gente. E eu errei todo o meu caderno de imagens, e terminei as notas de rodapé; deixei os romances pela metade e não fiz um bolo que queria pro Juam. Não fiz o que eu queria e precisava, mas sobrevivi. E de lado em lado, será que um dia me ajeito?


"Desculpe, amor, se meu presente
é meio louco e bobo
e superado:
uns lábios em silêncio
( a música mental)
e uns olhos em recesso
( a infinita paisagem)"
Carlos Drummond de Andrade

Sunday, September 09, 2007

Algo de bom

Esses dias, baixei a trilha sonora de The Sound of Music, no Brasil A Noviça Rebelde ( tradução boa taí). Já disse, em algum lugar do Meio, o sucesso que esse musical, gravado de uma sessão da Globo pelo meu pai, aficcionado, fazia lá em casa. Lembro de sessões e sessões que a Fraulein Maria entoava The Sound of Music, ou a minha parte favorita, o The Lonely Goatherd ( oreleiiiii, cantavam os fantoches de sonho).
Eu só não entendia uma parte. Quando a Fraulein Maria e o Capitão Von Trapp ficavam juntos, cantavam uma canção intitulada Somethig Good.Não entendia porque a freirinha tinha que lembrar da infância pobre, da juventude desolada, e de algo bom que ficou no passado e que havia causado a felicidade daquele momento.
Evidente que se trata de licença poética, das mais baratas. Se houvesse um pouco de justiça, de equivalência no mundo, ninguém estava na situação que está. Isso eu penso hoje, mas nos últimos dias eu tive a impressão que algo de bom eu fiz, pra merecer a felicidade que tive.
Fui pro velho Piratininga a convite de Flávio, agora exilado nas terras uspianas. Uma caminha preparada para essa que vos fala num quarto de um franciscano, no CRUSP, amigos de verdade, felicidade de verdade. Revi o Fauno do Trianon, e conheci a nova Livraria Cultura, no Conjunto Nacional ( estranhíssima, na minha opinião). Só em São Paulo uma ladeira vira livraria, com pufes coloridos e um dragão imenso, gigante, de madeira, pendurado no meio. Mas tudo bem. Revi a USP. A Consolação, a Paulista. Eduardo e Verônica. Conheci gente nova, legal, que me tratou muito bem, que se interessou de verdade por mim, pelo tiozão narigudo e pelo tiozinho barrilzinho.
A maior emoção foi ver, pela primeira vez, uma ópera. Fomos, eu e o anjo Flávio, nos postar na entrada da Sala São Paulo, na Estação Júlio Prestes, e conseguimos um ingresso grátis para a Elektra, de Richard Strauss. Há uns anos, eu assisti na casa do Flávio um DVD com uma encenação alemã dessa louquíssima ópera da Viena fin-de-siècle. Como na tragédia, tudo é alto, paradoxal e extremamente belo. Entrei encantada naquele mundo de sonho, naquela sala que tudo brilha, pensando: pra neta de zelador holandês do Cambuci, me dei bem.
Apesar de triste, cansada, com todos os meus defeitos e problemas, vou completar 30 anos refletindo se fiz algo de bom. Assistindo à ópera, almoçando com os meus amigos, sendo tão querida, amada e cuidada, acho que sim.

Tuesday, September 04, 2007

Soul Driver

E eu fiquei lendo Jung, o "Memórias, Sonhos e Reflexões".

No meu primeiro ano de Ciências Sociais, fiz o curso de Política Clássica com a mestre jedi Amnéris Maroni. Pequena no tamanho e carinhosamente apelidada, por mim e pela minha mãe, de duendinha, vinha dar aula na IH 02 lotada por calouros burros de guarda-pó branco, impecável. Às duas horas, Amnéris começava as suas análises meticulosas, perfeitas. Eram sempre duas aulas sobre ensaios de grandes historiadores sobre o período do pensador que vinha a seguir: Jacob Burckhardt e sua "Cultura do Renascimento na Itália" abriram o universo de Maquiavel; Christopher Hill o de Hobbes e Starobinski, o de Rousseau.
Era um universo múltiplo, enriquecedor ao extremo, apesar da braveza sem limites da supracitada mestra. Um dia o Smith, de saudosa memória no IFCH, chegou às quatro e meia e sentou na primeira fileira ( as duas primeiras fileiras sempre ficavam vazias, todo mundo se espremia no fundo de medo da pequena duende, com nome de princesa egípcia vilã de ópera do Verdi) e começou a coçar o pé sujíssimo na havaiana desbotada. E a mestre, que compartilha o sobrenome com ninguém menos que Públio Virgílio, discorria concentrada sobre a máxima maquiaveliana do "É melhor ser temido que amado". Smith:" Pô, Amnéris, o príncipe só quer ser amadoooooooo".
Amnéris sempre nos chamava de senhor e senhora. E pelo sobrenome. Então pra ela eu era a senhora Vermeersch, e não tinha conversa. E nesse dia o tempo fechou e Amnéris bradou: "O senhor Smith tem a cara de pau de chegar às dezesseis e meia da tarde, sentar na minha frente e coçar seu pé sujo e fedido nessa havaiana maldita e ainda me dizer a maior bobagem proferida por um ser humano desde os tempos da escrita cuneiforme dos sumérios. Pois o senhor suma da minha frente, senhor Smith, senão serei obrigada a lhe rogar uma maldição terrível!".
Outra peculiaridade da duende-egípcia-etrusca: ela é jungiana. De carteirinha. Talvez, depois da dra. Nise da Silveira, a maior apaixonada pelo dr. Carl Gustav na terra brasilis. O nó-górdio da questão é que Amnéris era jungiana depois de ter sido, muitos anos, uma das marxistas mais articuladas das plagas do IFCH, e autora de um estudo célebre sobre as greves de 68 ou 78, nunca sei direito, porque ela renegava esse livro. Ela dizia, de forma sincera e heterodoxa pra academia, que havia sofrido uma experiência de descentramento psíquico violenta, uma descida aos infernos trágica, e desse processo de sofrimento atroz ela havia saído outra. E que a obra de Jung condensava seu ideal de vida, seu projeto intelectual mais completo.
A erudição, a braveza e a doçura inesperada fizeram da Amnéris, pra mim, uma heroína. Eu tive a coragem de fazer o Leviatã do Hobbes em quadrinhos pro seminário dela, a melhor coisa que fiz em todos esses anos de universidade. No último dia, ela falou que queria aceitar alunos pra projetos de iniciação científica. Eu estava sentada no fundo, com um vestido florido que ela elogiava muito, e que eu comprei no Bom Retiro, na compra de roupa que meu pai me deu "pra poder ir pra Unicamp"( antes disso, não tinha roupas, porque nos anos do colegial usei uniforme, e algumas peças velhas de ficar em casa). Levantei emocionada. Mas detalhe, estava menstruada e uma colega invejosa logo veio me dizer que o vestido tava manchado. Pensei, que se lasque, eu queria tanto essa bolsa, queria tanto que Amnéris fosse minha orientadora.
E assim foi. Muito, muito, muito aprendi com ela. Nos anos que se seguiram, minha vida girou em torno de várias questões apresentadas por ela, solucionadas prematuramente por ela, ou que ela enunciou pra mim. Em várias ocasiões ela foi terrível, mas em todas ela me abriu o caminho. E hoje, na cama, li o final da autobiografia do mestre da minha mestra. Ele escreveu, ainda jovem, uma obra de caráter gnóstico, sermões para os mortos. Uma coisa bela, intrincada. E é linda a idéia de Jung, que os mortos precisam dos vivos para conhecer: porque só mundo das três dimensões pode-se entender os processos. E que os mortos só sabem o que sabiam no momento da sua morte. Pensei no porquê de ter estudado o personagem Virgílio na Comédia: e a relação Dante-Virgílio é exatamente essa: o passado, a memória, unido ao calor do afeto, do sofrimento de quem vive. E o Bruce, de quem eu gosto tanto, tem uma canção graciosa no Human Touch, chamada Soul Driver. Tem pessoas que são Soul Drivers, vivas e/ou mortas.

Monday, September 03, 2007

Samba Italiano

E no IEL continua a saga da maledetta, diligentemente revisada pela mãe da Ju e que é corrigida pela panda em momentos de ternura extrema, ansiedade horrível e nervoso maluco.

O que salva é a trilha sonora. Hoje acordei cedérrimo, porque eu precisava ir à 7a. Delegacia de Trânsito de Campinas. Sim, porque quando ataquei de panda-enfermeira, e salvei o Celo de um infarto do miocárdio, passei em alguns radares a 65 km/h, quando o limite permitido seria 60 km/h; tais infrações somaram pontos na minha carteira, que hoje foi devidamente suspensa, por um mês, pelo supracitado órgão.
Porque acordei cedo e fui dormir tarde, esqueci de pôr Neguinho do Pastoreio pra recarregar. Tive que apanhar três CDs na estante, pra agüentar a maledetta no IEL. Peguei o Yamandu Costa e o Paulo Moura, lindo, lindo, Elis e o Falso Brilhante e Adoniran. Porque sem Adoniran não dá, vamos combinar.
E piove, piove. Hoje a mardita me deu alegrias: apesar de molhada pela água da minha garrafinha, com orelhas de burro, toda rabiscada e suja de café, fez gente chata engolir o dito "não se pode escrever nada de novo sobre Botticelli". Hihihihihi, panda vingativa. Tô Cambuci demais, e lá vai pedrada na ladeira da Lavapés!
Eu estou a pé, mas a marrrrrdita vai no fim. E recebi a primeira notícia boa pelo correio, em mais de cinco anos ( eu sempre pisava no maldito simbolinho da FAPESP, sinal de que tinha me ferrado, conta pra pagar, aviso da Renner que eu tava indo pro SPC, multa e malices em geral): tenho um dinheirinho no meu Fundo de Garantia, esperando por mim. Não é muito. E na atual conjuntura sócio-econômica, seria prudente não torrar. Mas tô nem aí: vou me pirulitar e rever o Tietê. O pógreçio vem do trabaio, amanhã vou trabalhá, se Deus quiser, mas Deus não qué.

Sunday, September 02, 2007

Proibido para menores


Segundo Michel Foucault, falar sobre sexo é uma maneira de evitar fazer sexo. Se for verdadeira essa máxima, nunca se fez tão pouco sexo, na história da humanidade, quanto nessa pós-revolução sexual.Você tá na fila do supermercado, e na gôndola de coisas inúteis mas que todo mundo acaba comprando, lá está uma moça lindíssima de vestido transparente, pose provocante, na capa da revista Nova. As chamadas são explícitas: "240 novas posições", "Lamba seu gato com técnicas surpreendentes", "Vá às alturas com cubos de gelo e algemas de pelúcia"...Em outra revista, a Vip, outra moça lindíssima, em pose provocante, mas mais vestida do que na capa da Nova ( o que é engraçadíssimo, vocês hão de convir), e outras chamadas: "Enlouqueça as mulheres com a técnica do canguru perneta invertido", e la nave va.
Na internet, sites e sites pornôs funcionam e trazem, 24 horas por dia, as imagens de uma grande orgia, inesgotável, uma transa que nunca acaba,mas que sempre é a mesma, se renovando ad infinitum.
E eu, do fundo da minha pandice e catolicismo mal digerido, me pergunto: seremos mais felizes, na cama, do que nossos avós? Tudo leva a crer que sim.As mulheres podem tomar a iniciativa, podem morar sozinhas. Apesar do meu cristianismo, eu não me escandalizo com nada.Estranhamente, eu, vinda de uma família bem conservadora, machista e católica, herdei do meu avô holandês e das minhas tias birutinhas uma atitude muito liberal nesses quesitos.Não concordo com o discursinho "O sexo está banalizado, voltemos às origens, ao romantismo, ao significado profundo da subjetividade do eu expresso na emotividade do ser". Mas que nada.
Como dizia o guru máximo Serge Gainsbourg, tem hora que todo mundo, todos os seres humanos depois de uma certa idade e da chuva de hormônios da puberdade, enfrentam o transversal dos anos eróticos.Tem hora que o tempo ruge, e o bicho pega mesmo. Daí meu ceticismo diante de todas as tentativas de repressão sexual, menos as que vão direto à práticas criminosas, obviamente ( pedofilia e violência, abaixo da linha da miséria).O tio Freud tava certo, a pulsão e é isso. Repressão dá neurose, histeria, sensação de morte iminente, inveja, ressentimento, vida cinza, mania de perseguição e chatice generalizada. Certo que todo mundo também passa por períodos de baixa, entressafra, mas não tem nada mais chato que gente que fica controlando a vida do alheio, nesse aspecto.Não concordo com o machismo da "mal comida", tem homem que também é histérico e pé no saco. Gente não nasceu pra passar fome, e sim pra brilhar. E como diria Gainsbourg de novo, e como brilham a ilha nua, e as vagas do mar, no amor físico.

Cambuci

Então, a pouco menos de um mês do meu aniversário, tenho pensado muito no meu bairro de origem. O velho Cambuci.

Eu nasci, a rigor, no Ipiranga; como a Independência brasileira, às margens deste. Mas com um dia de vida subi a ladeira e me instalei na Theodureto Souto, no coração da chamada Vila Deodoro, paralela à Lins de Vasconcelos. Meu avô, que já virou personagem do Meio, ( ver lá atrás), por obra e graça da minha conterrânea Dani Mônica, ops, Manica, era zelador num prédio ali. Meu pai, jovem engenheiro da Light, nos dias que se seguiram ao parto, foi convidado para trabalhar na CESP. E minha avó era brigada com minha mãe, o que fez com que a napolitana Dona Ofélia, moradora do primeiro andar e que fazia massas, me adotasse e me desse os primeiros banhos, me levasse nos primeiros passeios e me integrasse na cultura ítalo-paulistana.
Cultura essa que, no Cambuci, granjeia. Como já foi observado por importantes personalidades do bairro, como Alfredo Volpi, dona Ofélia, Dani Manica e o povo da comunidade do Cambuci no Orkut, o Cambuci não é um bairro: é uma garantia que você vai ser um monte de coisas.
Em primeiro lugar, você amará com todas as suas forças comer. É sabido que o melhor lanche da cidade de São Paulo é o da Chapa, o melhor pastel, do Yokoyama, o melhor espanhol, e uma das melhores pizzas. E padarias. E gente que cozinha de tudo. E muito. E que convida a rua toda pra comer. Comer faz bem e alimenta!
Em segundo lugar, você falará muitos palavrões. Em todas as ocasiões, de velório a aula em colégio de freira. Não temerá a opinião classe média de outros bairros, cidades e países, de que ser desbocado não é bom. Sim, você será desbocado. Perderá o amigo mas não a piada. Perderá a classe, a grana, a mulher, mas não o bom humor. Baterá o carro, quase morrerá, seu time perderá o campeonato, mas o Cambuci te segura. O sotaque te segura. Porque sempre terá alguém pra te zoar. E pra você zoar. E é tudo anárquico mesmo, o anarquismo em São Paulo, segundo consta, surgiu no Cambuci. O povo se escondia na igreja de Nossa Senhora da Glória, o agulhão em cima do morro, e jogava pedra na polícia de catapulta. Sim, porque no Cambuci o padre era anarquista e jogava pedra na polícia.
Não, o Cambuci não é fashion. Não tem prédio bonito. Aliás, não é bonito, ali perto tem a Baixada do Glicério, é feio, pobre, acanhado. Tem cortiço, tem mendigo, é sujo. Sim, quase é engolido pela gigantesca Móoca, pela fresca Aclimação, pelo contraditório Ipiranga. Mas o povo malha o Judas. Eu lembro que na rua dos Lavapés o povo sempre malhava o Paulo Maluf. Evidente que a polícia passava, o povo dizia que o Judas era o Judas. Era a viatura dar meia volta e ir embora e o povo punha os óculos e a plaqueta Paulo Maluf, o governador da época, e malhava, malhava, malhava.
As crianças do Cambuci achavam viável vender pipoca na rua. E jogar o tênis do amiguinho na fiação elétrica. Sim, porque em terceiro lugar, se você foi criança no Cambuci, você andava no Parque da Aclimação, teu pai te levava pra comer na Liberdade, e você achava a Catedral da Sé um portento. E seu peito tremia, quando, de Fusca, você singrava a Paulista. Ou ia ao Shopping Ibirapuera ver brinquedos que você nunca teria. Mas pelo menos você malhava o Judas e comia pastel no Yokoyama. E morava perto de Volpi e não sabia!

Thursday, August 30, 2007

Haikais de agosto

Tristeza

Amoras
pisadas
poeira e vento


Ansiedade

Mesma sopa
porém
em vão


Espera

Flor do ipê
amarela
em cima do carro


Saudade

Velha igreja
do bairro natal,
fruta que não mais existe

Wednesday, August 29, 2007

A tese e o telefone

Esses meses todos, o glorioso invento de Graham Bell bateu de frente com minhas tentativas de análise dos disegni do Botticelli.
Começa logo de manhã. Depois de um reforçado café, sento no Caronte pra adentrar no mundo dos homi do século XV, tarefa hercúlea para eu, mulher, afro, ameríndio, batavo e luso descendente, pobre e burronilda, mas enfim, tentaremos. Toca o telefone. É Celo sendo fofo na hora que não pode. Falo, Celo, depois a gente conversa, e ele do outro lado, humpft.
Toca o celular. É minha mãe. Ela comprou um milhão de créditos e agora insiste em só ligar no celular, de celular pra celular , pra torrar os créditos dela. O que faz com charme e requinte: liga pra berrar no meu ouvido que vou perder minha carteira de motorista, que isso é um absurdo, que piriri e pororó. Falo, mãe, tô ocupada. Já reparei que é uma questão de gênero: se um homem fala eu tô ocupado, todo mundo respeita. Mas se é mulher, ai, não, tira cinco minutinhos pra mim. Ninguém respeita mulher escrevendo. Nem dando de mamar. Nem cozinhando. Nem nada. Mulher é pra atender todo mundo, é a tese no micro, o telefone que toca, a panela no fogo e a lista inteira de coisas cacete pra fazer, como ir na Caixa Econômica Federal atrás de caraminguás de fundo de reserva, ir no sapateiro trocar a sola do sapato, ir na costureira e ainda passar no varejão, porque, sim, vai ter gente pra janta hoje.
Toca o telefone de novo. É da casa da Lúcia? Não, meu senhor, tenho certeza que não é. Os humanistas do século XV tinham criadas, moravam todos, no caso dos florentinos, na belíssima Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. E não tinha telefone. Agora é banco, oferecendo dinheiro. Não, meu senhor, eu até queria ter dinheiro pra ir pra Florença, ficar na Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. Mas depois eu não tenho um Lorenzo de Medici pra pagar a conta.
E mais telefone. Um amigo, mágoas de amor. Sim, ela foi filha da puta com você. Sim, isso não se faz. Puta que pariu, ela fez isso? Meu, corta essa pessoa. Não, quer dizer, você não tá me atrapalhando. Eu só tava no meio de uma nota de rodapé sobre a edição de 1506 da Divina Comédia, do editor Fillipo Giunti, que tem o Mapinha do Inferno... não, ela realmente foi uma filha da puta.
Mais. Baby amiga, agora não dá... eu tenho que terminar a tese. Enfim. Sim, você é legal, linda e maravilhosa e merece ser feliz. Mas pára de fazer besteira... sim, isso. Isso que eu tô falando, concentra-se nas suas coisas. O cara vai te procurar, se gostar de você... claro que vai. Take it easy. Fica bem, puxa, você é tão legal...
Mais. Mas você fez isso? Agora pra consertar, deixa eu ver... puta agora vai ser foda. Não, para de chorar! Vai dar tudo certo!
No final, um amigo me falou: não atenda. Eu não tenho bina. Eu não tenho nada contra quem me liga. Mas agora, eu preciso terminar o Caderno de Imagens da minha tese. Com 250 imagens.

Tuesday, August 28, 2007

Onde haja um tobogã, onde a gente escorregue

Revisão da tese. Trabalho delicado, difícil. E tapar os últimos buracos.

Passei os últimos dias meio mal, ansiosa demais. Dor de cabeça, de barriga, de tudo. E pra piorar veio o aviso do DETRAN, multas tomadas na semana que o Celo tava no hospital. E questões pessoais dolorosas.
É chato a gente saber que tem gente que fala mal da gente. E no caso, soube que disseram que eu precisava me tratar ( essa foi a expressão que usaram). Que era doida. E eu tô me tratando, eu tô enfrentando os meus problemas. É chato ser acusada, é chato ser sugada e invadida. No final, essas pessoas não pagam minhas contas, não sabem da dor e delícia de ser eu. Chato porque como bem diz Chico, pra essas pessoas eu fiz o bem, emprestei dinheiro, então elas tem motivo pra falar de mim. E eu tô, como diz ele, injuriada.
E de repente, no meio disso tudo, como sempre, pintam momentos legais. Pessoas legais, surpresas delicadas, transas, comunhões, planos de vamos fugir, qualquer outro lugar ao sol, qualquer outro lugar ao sul. Utopias? Utopias. Impossíveis horizontes? Como eu disse pro André, no final da tarde escuro, planos longa duração, citando Braudel. Posso ser doida, equivocada, nervosa, angustiada, mas sempre há uma esperança de vamos fugir, give me your love.

Sunday, August 26, 2007

What's Up, Tiger Lily?

Eu sempre precisei de amigos descolados pra me apresentar as coisas. Músicas, filmes, roupas, modas e sensações do momento, eu sou super atrasada e conservadora. Demodé mesmo.
Minha mãe é que me apresentava as coisas: lembro dela toda empolgada passando gel New Wave no meu cabelo, ou comprando presilhinhas, essas coisas. Depois outras figuretes descoladas surgiram, sempre pra me pôr em dia porque eu sou de lascar de atrasada. Tipo Dani Nenem, que me deu o Caio Fernando Abreu dela, o Morangos Mofados; ou os meninos Julinho e Chaplin, Táta e Little, Celo, ou seja, sempre tem que ter alguém interpretando e trazendo pra mim as coisas.
Ontem foi um dia desses, por exemplo, a Little resolveu fazer pavê e Lady Monique, brownie ( receitas, meninas, please). Chapolin Colorado e Lelê trouxeram o primeiro filme cômico do Woody Allen, parece, What's Up, Tiger Lily? de 66, um Batman na Feira da Fruta ( filme redublado) engraçadíssimo e chapadérrimo. No quarto da Little, mais uma vez Nenem me envia, dos céus dos descolados, uma indicação preciosa: Santiago Nazarian. Verônica Stigger, minha amiga, foi arrolada, junto com ele, na tal nova geração literária; ele tem a minha idade exata e Dani Nenem é amiga dele. Lindo o livro, li à noite em meio a uma paz de espírito rara de encontrar, na fase que estou: A Morte sem Nome, a personagem vira o jogo e o autor se torna refém dela, num espelho revirado da Macabéa de Clarice. Muito bom.

Wednesday, August 22, 2007

De repente, 30

Daqui a um mês, 30.


Nem parece. Mas os cabelos brancos, a falta de assunto e um jeito meio triste de ver as coisas, já apareceram faz tempo.


A crise veio, o returno de Saturno existe e é bravo, aviso aos navegantes. E ainda mais essa, um mês de inferno astral, ninguém merece, depois de uns dois anos de crise absoluta, total e irrestrita.

De repente, 30. Teve épocas que eu pensava, gente de 30 já tem que ser respeitável. Gente mais velha é madura, decidida, equilibrada. E eu, no meio do turbilhão dos 20, pensava, aos 30 terei meus filhos. Aos 30 serei um mulherão. Aos 30, o emprego, a estabilidade. O barco vai atracar no cais, mas que nada. Aos 30, uma certeza, enquanto temo, no espelho, pela primeira ruga: sou a mesma garota looser de sempre. Só que agora, com fartos cabelos brancos, muito drama, pé na estrada e coração um tanto quanto empoeirado. As músicas de sempre. Os amigos de sempre. Play it again, Sam.

Tuesday, August 21, 2007

Cláudio Lembo, a fofoca e a Inconfidência Mineira

Hoje, no site do Terra, texto excelente, fundamental mesmo, sobre a fofoca. Pelo ex-governador Cláudio Lembo, o cara que pegou o nabo do Alckmin, isso mesmo:


Sim, o cara é pefelê. Sim, o cara é conservador. Mas o texto é maravilhoso: investiga um dos males que grassa na terra brasilis, a maledicência, a intriga, a fofoca, a inveja idiota dos medíocres. Para Lembo, o mal começou nas práticas sociais ligadas à Inquisição: o carinha dedava o outro, ou mesmo inventava coisas do arco-da-velha, e conseguia emprego, posição, estima. O fofoqueiro é estimado e temido ao mesmo tempo; o língua de trapo, assim, consegue a façanha de conjugar, no mesmo ato, o impossível segundo Maquiavel ( para o grande pensador florentino, era melhor ser temido que amado). E isso é de grande valia, numa terra de desvalidos, de degredados, de gente sem eira nem beira.
Lembrei do caso do delator da Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis. Procurei na net e achei um site, onde alguém pôs a carta-denúncia, enviada por esse oficial ao Visconde de Barbacena, governador das Gerais. O melhor de tudo é, que na página, a pessoa defende Joaquim Silvério: diz que o pobre era homem de confiança do governo e tinha que entregar mesmo o povo.
Antes mesmo de ler a carta, pensei: esse carinha só podia ter inveja brava do gatão e um dos maiores poetas da língua que escrevo, ele, o meu amor Tomás Antônio Gonzaga. E não dá outra: o cara começa a carta dizendo da revolta que sentiu por não ser promovido de patente, diz que se exaltou e aí um dos conjurados o procurou para participar dos eventos, liderados por Gonzaga, preocupado em salvar os patrícios dos exorbitantes impostos cobrados pela Coroa, na condição de Procurador, em Vila Rica. O leitor do site diz que os inconfidentes não queriam libertar o Brasil. Como Cláudio Lembo, eram conservadores, isso todo mundo sabe ( pra não se cair na idealização do movimento, feita na Primeira República). Mas que o Joaquim Silvério separou Marília de Dirceu, e a cabeça do alferes Tiradentes do resto do corpo, isso ele fez. Como diria a grande Cecília em seu Romanceiro, vai ser pusilânime assim no inferno. Fofoca é do mal.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Silv%C3%A9rio_dos_Reis: e o filho da puta ainda se deu bem. Por isso que fofoca é do mal, mas é endêmica, como diz Lembo.

Monday, August 20, 2007

Da cafonice do amor

Dia desses, na biblioteca do IEL, li um livrinho do Flávio Gikovate sobre o amor.

Sei que o Gikovate, bem como a psicóloga que citei, da revista Caras, são pop, daí entendo a cara feia de alguns leitores. Mas o amor é pop, cafona, brega, sem noção, mesmo. Então tudo bem. O Gikovate dizia que o sofrimento é inerente ao amor, e que amor é algo que dói mesmo, sofrimento de amor não é besteira. Bem sei eu.
Sofrer de amor é estar pela metade, incompleto, latejante. Não adianta, como eu disse outro dia, "se amar primeiro pra amar o outro". Não. O amor por si surge no amor pelo outro, na sua plenitude. Quem ama pode, um dia, a vir a se amar. Mas é necessário o descentramento primeiro.
Daí, minha delicadeza e atenção aos atos e desvarios de amor. Gosto de pensar que vivo sob o signo de Vênus, por conta do tiozinho barrilzinho: a alegria, o prazer, a vivacidade, o sexo, o melhor da vida vindo à praia, nas palavras de Homero. Sou boa confidente, percebo que muitas pessoas vem contar pra mim suas agruras, e gosto de dar conselhos. Também gosto de amar, já tive grandes paixões, todas obviamente fracassadas mas que me fizeram mais eu. Errei. E erro. Fazer o quê, né? Se chorei ou se sorri, o importante, como diria Roberto...

Wednesday, August 15, 2007

A Cúpula de Brunelleschi e a memória


Tapando os buracos da maledetta, que continua uma rodovia Rio-Bahia, esburacada e desajeitada, mas no fim.


E um buraco: a menção, feita pelo poeta florentino Alessandro Parronchi, que os desenhos do tio-barrilzinho eram estudos para a decoração do colossal, espetacular e causador de ataques de asma em pandas Duomo de Florença. E eu por desencargo de consciência, aborrecimento misturado com dever profissional, pus no Google de forma desleixada o nome do homem que escreveu o tal documento, citado por Parronchi, atestando o desejo de Filippo Brunelleschi em adornar o interior da cúpula, obra-prima da arquitetura e malandragem renascentistas, com mosaicos.
Uma geração pra frente, Parronchi diz que o tio barrilzinho ia pintar afrescos com cenas da Comédia no Duomo. Enfim, a hipótese é assim, uma coisa de louco, e não é citada no catálogo italiano ruim dos desenhos. O fato é que achei, no site da Catedral ( que tem o lindo nome de Santa Maria del Fiore, Santa Maria da Flor é demais) todos os documentos da construção da cúpula, e todos os documentos da construção do prédio. Fiquei felicíssima, e me lembrei que quando comecei o doutorado, as fontes na Internet eram pouquíssimas. Hoje, você pode consultar com todo conforto e segurança todos os vinte e poucos comentadores renascentistas da Comédia, quatro, cinco tomos cada às vezes, pelo portal que meu ídolo, o prof. Robert Hollander, de Princeton, preparou nesses anos. Tanta coisa se pode acessar hoje.
E me lembrei do que senti quando vi o Duomo: ataque de asma. E dos dias em Florença, tanto frio, e os dias em Chicago, e os dias aqui, o cheiro nos finais da tarde de Campinas, em 2007, na minha cozinha na hora do chá. E lembrei da dor extrema que senti, assistindo uma aula do André sobre o Duomo, e pressentindo a doença do Celo.

Tuesday, August 14, 2007

Notas de leitura

1) E eu continuo curtindo a biografia do Ruy Castro, da Carmen. Apesar de algumas críticas, o livro é um dos meus favoritos. E eu li a história do filme "Alô, Alô Carnaval", de 1936, onde Carmen aparece dançando e cantando "Querido Adão", uma marchinha que, como bem diz o Ruy Castro, você ouve e não esquece nunca mais. Tá no Youtube a cena. E o povo diz lá que assitiu ao filme, em cópia restaurada, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Fiquei morrendo de inveja, gostaria de assistir esse que é o único filme carnavalesco, dos tempos heróicos da Velha Guarda, que restou nesse país sem memória e sem vergonha. Vale a pena assistir Carmen no Youtube, tem vários clipes memoráveis, raríssimos, dela lá, graças ao amor de colecionadores e fãs de todas as idades e de vários países. Outro dia, eu, na Unicamp, com o Neguinho do Pastoreio lotado das jóias raras coletadas graças à comunidade Marchinhas de Carnaval e do sr. Raimundo Floriano, comentei com uma colega da História se ninguém do CECULT ou de outro centro estava no tema música popular. Ninguém, ela me disse, parece que tinha uma colega mas ela não está mais lá. Pena isso, pensei, porque o Alcir Lenharo foi tão grande no reescrever da história dos cantores do rádio...
2)E eu fui pro centro hoje, banco e ficar vendo as prateleiras de lojas de cosméticos, um fraco eterno da pequena e sempre desmiolada panda. Sem dinheiro, usando um vestido florido de fundo branco e flores pink com casaquinho pink ( meu mau gosto já é notório) e falando sozinha, tomando as últimas notas da tese na frente da velha e linda Catedral de Campinas. Depois fui tomar expresso no Fran's. Li na Folha de hoje bonita coluna do Bernardo Carvalho na Ilustrada, sobre a situação política russa ( cadê o senhor Na Prática?) e o trágico fim dos poetas da vanguarda. Me comovi lembrando do último poema de Maiakóvski, aquele que virou música do Caetano e que Gal canta tão forte. Uma das poetas, Marina Tsvetáieva, que perdeu uma filha por inanição, escreveu em carta à Bóris Pasternark: "sou uma moça num vestido velho". E Carvalho escreveu: "É uma imagem enfática da poesia hoje, num mundo cada vez mais utilitário e consumista, esvaziado da transcendência, onde ela já não precisa ser silenciada, pois não tem mais lugar nem importância". E eu, num surto, pensei: ainda bem que posso escrever o que eu quiser, ninguém vai ler, mas ninguém vai querer me matar nem me mandar pra Sibéria por isso. Tudo bem que nunca vai chegar aos pés da Marina Tsvetáieva ( apesar de eu não conhecer nada dela, só pela frase da carta já a considero grande poetisa), nem de Maiakóvski. Mas dessa forma irresponsável presto minha humilde homenagem a eles.
3) Daí passei pra revista Caras, pra ver o quão ridículo são os figurinos de quem tem dinheiro mas não tem gosto ( eu também sou cafona pra burro, hoje por exemplo tava lindja, mas pelo menos eu só espanto, comparativamente, poucas pessoas). E lá tinha uma coluna de uma psicóloga e psicanalista de São Paulo, Rosa Avello, que eu gostei demais. Gostei profundo mesmo, porque ela lascou em plena revista Caras ( imagino que a coluna dela não deva ser muito popular): "É comum as pessoas confundirem atos de controle, desejo, ciúme, apego, paixão e até de ansiedade com atos de amor". Amor não é um fenômeno espontâneo, é escolha. Assino embaixo, na minha experiência e na observação, no consultório sentimental da panda. E ela termina: "Essa façanha ( amar) exige de nós habilidades desconhecidas de nós mesmos. Em resumo, amor é para poucos, coisa de gente grande". Amor é escolha, não acontece: amar exige dedicação, responsabilidade, e até assumir o risco de ter que sumir pra todo o sempre da vida do outro. É, como diz um colega filósofo, ter ética. Acho que Rosa Avello é da turma do Flávio Gikovate, que consegue destruir os livros de auto-ajuda em cinco minutos, fantástico ( como o axioma bobo de "pra amar é necessário amar a si mesmo primeiro", falso porque amor se dá na presença do outro, auto-estima é outra história, e ego inflado, outra ainda). Eles podem ser populares e de boteco mesmo, mas são sensatos pra burro.

Monday, August 13, 2007

Rios, um barquinho e felicidade

Tive um sonho tão lindo, hoje. Um dos mais bonitos que já tive.

Sonhei que fui morar na Amazônia. Era uma cidade como Veneza: rios afluentes do Amazonas eram canais, casas construídas na beira das águas profundas, escuras e cheias de vida. O sonho trazia três momentos distintos, mas simultâneos, e aqui vou narrar na seqüência ( eu tava lidando com a seqüência dos desenhos do Botticelli, ontem, de trás pra frente, daí minha confusão mental).

Eu fui morar lá e o Celo foi comigo pra ajudar na mudança. Ele achou uma casinha que era uma mansarda, ou seja, o porão de uma casa enorme, no fim de um desses canais, parecida com o meu puxadinho em Pisa, Via del Marche. A casa era de uns senhores muito de idade, sentados, imóveis, na varanda enorme, meio bravos que me olhavam de cima, três senhores conservadores e machistas ( lembro que pensei isso no sonho). A casa era muito cheia de gente, bonita e confortável, e eu vivia no fundo, onde passava outro rio e onde eu ancorava meu barquinho. Minha mãe foi me visitar. E depois eu fui buscar, no porto do lugar, depois, a figura do email da semana passada ( me respondeu e tá tudo OK). Eu estava feliz por remar meu barquinho, e levar a tal figura pra minha casa, e eu remava e o sol batia no meu rosto, e muitos pássaros cantavam e muitas pessoas olhavam, nas casas coloridas dos rios imensos mas mansos, cheios de vida, cheios de sentimentos e mudanças. E acordei numa felicidade tão imensa, tão profunda, tão serena, ouvindo os pássaros do Bosque e com o quarto cheio de luz.

Friday, August 10, 2007

O fenômeno

Assim como Ronaldinho, o Meio do Caminho virou fenômeno.


Vou explicar. Faz tempo que tô pra postar aqui, pra vocês, a respeito do sucesso que, pro meu espanto, o Meio do Caminho faz por aí. Quando comecei a postar, há um pouquinho mais de dois anos, nem saber mexer no troço sabia. Por isso que ficou preto, e sem acessório nenhum, o Meio do Caminho. Meus leitores, três. E eu era feliz assim.
Nunca pensei que, ao pôr o link do blog no meu perfil do Orkut, receberia cada vez mais visitas. E visitas trazem visitas. E inesperadamente, cada vez mais visitas. E Chicago, e Pisa, e problemas, e a autora que vira panda, e figurinhas, musiquinhas e essa transa toda.
Ao contrário de muita gente na blogosfera, eu nunca tive grandes problemas, quiproquós pessoais, devido ao Mezzo, tirando um ou dois mal entendidos de leitores afoitos em saber a verdade por trás do pretume virtual. E hoje eu tenho plena consciência que muita, muita, muita gente me lê.
Fui descobrindo isso aos poucos; ia contar ou comentar alguma coisa com conhecidos, e a pessoa dizia, puxa, isso eu já sei, li no seu blog; ou quantas vezes a pessoa não fala nada e te olha com a cara eu-leio-seu-blog-mas-não-vou-te-falar; e tem gente que não fala comigo pessoalmente, até não vai nem um pouco com a minha cara, ou não gosta de mim mesmo, mas virtualmente me lê, analisa e acha isso tudo uma babaquice, mas acabei sabendo na fofoca ou no acaso. E gente que eu não conheço/conhecia pessoalmente, e que apareceu na minha vida graças ao blog dantesco. Engraçadíssimo.
Daí, esse ano, em que o blog teve seu boom mais prolongado, eu tomei decisões que as pessoas nem perceberam, mas hoje queria falar sobre elas.
É uma opção minha hoje, consciente, deliberada, em não utilizar nenhum tipo de controle sobre a visitação do blog. Não, eu não vou fechar o blog, porque simplesmente eu posso compartilhar muito da minha vida aqui, mas não sou exibicionista a ponto de postar algo muito íntimo. Tudo que eu ponho aqui todo mundo pode saber. E é por isso que me divirto a valer, nas muitas vezes que percebo que tem gente que acha o máximo poder me ler escondido. Dou esse gostinho ao meu leitor, porque sei que é gostoso espiar a vida do alheio.
Também não vou quantificar quanta gente me visita, até pra não ficar na paranóia e perder a naturalidade de um cantinho infernal, escondido, pretinho básico, sem nada, que dá pra mexer, ler, detestar ou curtir, sem o cara virar um número ou cair num mecanismo de identificação de visita. Sim, pessoinhas, podem me visitar à vontade, não sei mesmo quem me visita nem quero saber. Isso não me incomoda, eu escrevo porque não sei viver sem escrever.
E outra coisa. Cada post é fruto de uma deliberação. Sim, é crônica, um gênero literário, exercido de forma canhestra e modesta, mas é crônica, não é reality-show. A panda comentadora de Dante, a Maria, são eus líricos. Sim, o Meio é literatura. De má qualidade. Mas literatura. E a gente vive nessa cultura da literalidade, daí a pessoa lê no teu blog e acha que aquilo é Big Brother. Claro que eu dou tratamento literário, e que escondo 99,9% das coisas. E que finjo que ninguém me lê pra todo mundo ficar tranqüilo e me ler à vontade. Me sinto feliz, muito feliz com o Meio: ele é o melhor meio do caminho que eu poderia querer. Eu escrevo pro blog: ele virou uma coisa querida pra mim, um amigo lindo e discreto, gentil e generoso. E, no frigir dos ovos, a alegria é sempre a prova dos nove, ao contrário de tanta paranóia, neurose e chatice no mundo virtual.

Thursday, August 09, 2007

Eu quero!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu tava aqui, no lerê lerê, procurando uma pintura, de Domenico de Michelino, pintor florentino que fez uma tela sobre Dante, em 1465. O velho Google Images chegou ao site dos sonhos da pequena panda comentadora-mirim do tiozão narigudo!Gringos fizeram uma página com as recorrências do tiozão na cultura contemporânea, EM FORMA DE BENS DE CONSUMO! Sim, porque existem bares Dante, brinquedos do Inferno, cafés decorados, bolo dos glutões ( um negócio que parece ser demoníaco, com uma edição da Comédia ao lado) e tudo que uma pequena panda consumidora gostaria de ter em seu lar.
Escolhi esse bolo salgado aí, gente, que beleza isso. Vou fazer um igual pra mim! Com recheio de calabresa apimentada!

Tuesday, August 07, 2007

Arco-íris já mudou de cor

Sempre fui melancólica, sentimental eu sou. Difícil eu cortar a pessoa da minha vida, tem que acontecer um desastre completo pra isso acontecer. Mas devo reconhecer que tem gente que se esforça em te magoar, gente que faz muita besteira com o sentimento dos outros.


Eu estava muito incomodada com uma figura, porque tivemos uma conversa meio assim, digamos, chata, e eu mandei um email, aquele clássico, de oi, duas semanas depois. Nada. Continuei incomodada. Hoje resolvi acabar com essa chateação, e escrevi o também clássico "que que há", porque não vejo essa figura muito freqüentemente. Gostaria de saber se dei mancada, se posso pedir desculpas, se posso dizer que minha intenção foi a melhor possível ( não é justificativa, mas é o que posso fazer).
Nisso, vejo uma terrível troca de emails com aquela moça que tanto me fez sofrer no ano passado. Uma coisa tenebrosa. A cidadã cobra da outra coisas que ela própria não fez por ninguém, fala que não dá pra ter "amizade superficial"e que ela, muito nobre e fantástica, não é falsa. A mesma pessoa que dizia que eu era interesseira e depois sentava do meu lado, na minha casa, comendo a minha comida. A mãe de outra amiga, querídissima, (a que tá meio dodói mas que logo, logo, sara), observou que a pior coisa que se pode fazer no século XXI, em termos de convivência humana, é o julgamento sumário, sem recursos por parte do suposto réu; o fim do relacionamento por telefone, por email, por sinal de fumaça, ao invés dos olhos nos olhos. Ao invés do carinho, da coragem, o egoísmo, a grosseria, a falta de noção. O falar mal, o desprezar, o menosprezar. Eu vou começar uma campanha séria aqui no Meio: se você tem problema com alguém, converse. Saia pra tomar um chá. Olhe nos olhos do outro, não saia da vida de ninguém sem antes dizer o porquê, de forma sensata, pessoalmente. Seja elegante. Seja gente.
Se o seu coração está um pote até aqui de mágoa, escreva uma carta. Sim, pegue uma caneta e escreva, e guarde numa gaveta uns dois dias, enquanto isso dê uma volta num parque, faça feliz uma criança. Quando ler a carta de novo, vai achar meio ridículo a entonação da raiva, do desamor. E vai ser o início do teu esquecimento e do teu processo de perdão. Se continuar concordando com aquilo ( olha, pouquíssimas vezes na minha vida eu continuava concordando com a carta da gaveta), mande. Mas dispense o correio.
( créditos: Comunidade MPB MP3)

Monday, August 06, 2007

This is the end


Ontem, onze da noite, tomando um belo banho quente, dei com o finalzinho da maledetta. Ei-lo:



"Saio desse texto, as minhas forças, que já não eram muitas, me faltam e o sofrimento me ensinou que, mais do que autora destas páginas, fui apenas a inventariante de tantos sonhos, de tantas camadas de sentimentos e idéias presentes nas linhas tênues da ponta de prata do antigo mestre, que as portas desse labirinto se abriram, e não posso calar. Devo prosseguir nas minhas tentativas, por mais que os entraves institucionais, nessa hora da defesa e do acolhimento dessa tese na estante da biblioteca do Instituto, no meio a tantas teses, façam que minha voz fique inaudível, até para mim mesma".
Acima: Canto X, Inferno ( Punição dos hereges- eternamente encerrados em túmulos de fogo, e diálogo com Farinata). Sandro Botticelli, 1480-90. Lápis, ponta de metal e têmpera sobre pergaminho. Roma: Biblioteca Apostólica Vaticana.

Friday, August 03, 2007

A parábola dos talentos

Não sei em que lugar dos Evangelhos, tem a parábola dos talentos. Diz que um chefe deu, pra dois funcionários que se saíam muito bem, como recompensa, dois talentos ( barras) de ouro. Um funcionário, com medo da inveja alheia e da própria incapacidade, enterrou o talento no quintal. O outro fez alguns negócios, de forma previdente, e lucrou. Tempos depois, no bar da Santa Ceia, o chefe perguntou pros caras o resultado do assunto, e a moral da história é clara.

Pelo meu temperamento e educação, uma clássica educação cristã, de matriz franciscana, eu aprendi a ser humilde, a ser gentil com os outros. A não contar vantagem, a não humilhar, a não passar a perna nem tirar sarro de forma cruel do próximo. Mas, como venho discutindo comigo mesma a muito tempo, e também na minha atual terapia, tudo tem um limite. Nem Jesus Cristo conseguiu agradar a gregos e baianos, e eu tô cansada de enterrar meu talento no quintal.
Hoje fui pra Unicamp, sonada e confusa, porque tinha me esquecido do horário do dentista no CECOM e marquei cabelereira no mesmo horário. Desfeita a confusão, corri pro CECOM, e depois fui bater papo com o pessoal no IFCH. Lembrei de uma referência que o Sterzi me passou e corri com o Celo pro IA, pra pegar um livro, recente, do Georges Didi-Huberman, professor da École e atualmente um grande estudioso de umas coisas tipo panda.
Encontramos conhecidos, fomos e voltamos. Há quatro anos, toda vez que eu encontro uma certa figura, ela me lasca: ai, que há de novo pra se escrever sobre Botticelli? Ainda se fala nesse cara, credo, o que se tem de novo pra falar sobre ele.
Bom, pra mim a ignorância é assim, etimologicamente, a pessoa ignora algo, não teve acesso, não é a área dela, enfim, ela não tinha a obrigação de saber, é uma coisa. Agora, uma figura que ganha um salário mensal e que se arvora a falar sobre o assunto em cursos de graduação e pós, e me fala uma coisa dessas. Eu sempre sorria amarelo e não falava nada. Mas hoje eu desci das tamancas, porque quinze minutos antes, o pessoal me perguntou sobre a tese e eu falei, aos trancos e barrancos vai. E eu pensei na minha tese, no pouco que eu sei, mas eu sei um pouco a respeito, muito pouco, mas eu sou honesta. E aí falei, olha, qualquer um que conhece minimamente a bibliografia sobre o artista e a historiografia a respeito, sabe quanta lacuna tem, quanto se falta pra estudar. Mas falei brava.
A pessoa ser ignorante por opção, é foda. E o final da história foi lindo, a figura saiu pra ir pra biblioteca ver livros,porque teve inveja até do livro que eu acabei de pegar na biblioteca.
Mas o bom disso tudo é que tive a nítida noção de que, na maior parte do tempo, estou em algum ponto perdido de mim mesma, sofrendo. Mas que se tem gente que me inveja, realmente, estou no caminho certo. E voltei pra tese feliz e com a sensação de que, sim, infelizmente pra umas pessoas, eu falei algo de novo sobre Botticelli. Infelizmente pra outras, sou legal, blá, blá, blá. E infelizmente pra todas, sou muito feliz, apesar de todos os meus problemas, e posso ser meio coió, mas a matuta panda aqui tá com os óio aberto.

Wednesday, August 01, 2007

Foi a camélia que caiu do galho

E em meio aos meus sofrimentos e tormentos habituais e eventuais desavenças com o cotidiano e a ordem normal das coisas, melhor dizendo, shit happens all the time, tese indo aos trancos e barrancos, muito cansaço e um frio de filme de terror. Dormindo mal, vivendo mal, só hoje consegui me recompor um pouco.

E reafirmo meu titânico amor pela música popular brasileira. Reli alguns trechos de Verdade Tropical, do Caetano. Por mais que muita coisa seja pura vaidade, ego inchado mesmo, achei um desperdício o livro ter passado em brancas nuvens quando do seu lançamento. Na época, 1997, eu me esgoelava pra fazer uma monografia sobre o Tropicalismo, a partir das indicações metodológicas, vamos assim dizer, do historiador suíço Jacob Burckhardt, autor do clássico A Cultura do Renascimento na Itália ( dã? Sim, era isso mesmo. Idéia da pequena duende-mestre jedi Amnéris Maroni, mas de acordo com a temeridade da empreitada, por parte da panda que vos escreve, de fazer uma história em quadrinhos do Leviatã, sim, meus caros, de Thomas Hobbes).
Era assim. Eu podia ler o que eu quisesse sobre a Tropicália, e sobre a ditadura militar, e esperar alguns rasgos intuitivos sobre o Zeitgeist, a partir das obras dos caras. Também deveria analisar as relações entre as três "potências"burckhardtianas: a Religião, o Estado, a Cultura. Quem gosta de música popular faz isso o tempo inteiro, sem perceber: você ouve Pisa na Fulô, do Velho Lua, e lembra das modificações pelas quais passou a música nordestina, depois do programa de rádio, célebre, de Gonzagão, e pensa que leu não sei aonde que o grande cantor e compositor inovou, e muito, na engenharia de som,e ainda recorda da sua mãe te chamando de Nega Fulô e lhe dando cana pra chupar, nos ancestrais Campos dos Goytacazes. Ouve Desafinado, João Gilberto, e outra porta pra outro labirinto inesgotável se abre, tanto de considerações políticas, econômicas, afetivas, sexuais, enfim, a vida inteira, no leque moleque, como diria, mais uma vez aqui no Meio, Alceu.
Em língua inglesa, atualmente, quem faz isso na perfeição é o Nick Hornby, autor do Alta Fidelidade. Quando eu estava nos EUA, descobrindo, via Rádio Terra, the Boss Springsteen e Carmen, li comovida Hornby e suas linhas sobre Thunder Road, do maravilhoso Born to Run. A pequena panda é uma Hornby mirim do norte fluminense: as canções pra mim são tudo, o meu pão de cada dia.
Reli Caetano. Muita coisa não se gosta, mas reli e relembrei, comovida, o que Caetano escreve sobre Orlando Silva e Francisco Alves, presentes em Neguinho do Pastoreio com, respectivamente, a lindíssima A Jardineira e a controversa Ai, que Saudades da Amélia, e os outros cantores do rádio. Diz Caetano que a audiência dos programas de rádio era, basicamente, de mulheres pobres, que veneravam com a toda força de seus corações Silva, Alves, Emilinha Borba, Marlene, Nora Ney, entre outros. Tais mulheres foram chamadas, pejorativamente, de macacas de auditório, porque, como lembra Caetano de forma delicada, quando se cai na escala social, no Brasil, mais a cor da pele escurece. Música popular era coisa de mulher sofrida, pobre, que desmaiava no programa e que, na lembrança do menino Caetano, em férias no Rio, inferiores a ele, um tanto quanto constrangido por estar ali. No início do livro, porém, Caetano lembra que passou ao largo do nascente rock and roll, e que João Gilberto e a Bossa Nova, fã incondicional de Orlando Silva ( e Neguinho lasca A Jardineira, nos meus ouvidos, e realmente a voz de Orlando é algo celestial), trouxe a música popular pros ouvidos da classe média urbana,com choques e bastante sofrimento. E que, no final da década de 60, mulheres da classe média, brancas, universitárias, confessavam sem nenhum constrangimento serem suas "macacas".
Lembrei-me, com muita ternura, da minha avó paterna, mulher sofrida que queria, sem conseguir, comprar um pouco de pó facial, grande fã dos programas do rádio, e envergonhada do pai mulato. E a delicadeza da marchinha me traz perto do meu eu mais profundo, mais cintilante, mais digno e mais honesto de mim mesma, fruto do sofrimento indizível de ser mulher, e brasileira.