Wednesday, August 01, 2007

Foi a camélia que caiu do galho

E em meio aos meus sofrimentos e tormentos habituais e eventuais desavenças com o cotidiano e a ordem normal das coisas, melhor dizendo, shit happens all the time, tese indo aos trancos e barrancos, muito cansaço e um frio de filme de terror. Dormindo mal, vivendo mal, só hoje consegui me recompor um pouco.

E reafirmo meu titânico amor pela música popular brasileira. Reli alguns trechos de Verdade Tropical, do Caetano. Por mais que muita coisa seja pura vaidade, ego inchado mesmo, achei um desperdício o livro ter passado em brancas nuvens quando do seu lançamento. Na época, 1997, eu me esgoelava pra fazer uma monografia sobre o Tropicalismo, a partir das indicações metodológicas, vamos assim dizer, do historiador suíço Jacob Burckhardt, autor do clássico A Cultura do Renascimento na Itália ( dã? Sim, era isso mesmo. Idéia da pequena duende-mestre jedi Amnéris Maroni, mas de acordo com a temeridade da empreitada, por parte da panda que vos escreve, de fazer uma história em quadrinhos do Leviatã, sim, meus caros, de Thomas Hobbes).
Era assim. Eu podia ler o que eu quisesse sobre a Tropicália, e sobre a ditadura militar, e esperar alguns rasgos intuitivos sobre o Zeitgeist, a partir das obras dos caras. Também deveria analisar as relações entre as três "potências"burckhardtianas: a Religião, o Estado, a Cultura. Quem gosta de música popular faz isso o tempo inteiro, sem perceber: você ouve Pisa na Fulô, do Velho Lua, e lembra das modificações pelas quais passou a música nordestina, depois do programa de rádio, célebre, de Gonzagão, e pensa que leu não sei aonde que o grande cantor e compositor inovou, e muito, na engenharia de som,e ainda recorda da sua mãe te chamando de Nega Fulô e lhe dando cana pra chupar, nos ancestrais Campos dos Goytacazes. Ouve Desafinado, João Gilberto, e outra porta pra outro labirinto inesgotável se abre, tanto de considerações políticas, econômicas, afetivas, sexuais, enfim, a vida inteira, no leque moleque, como diria, mais uma vez aqui no Meio, Alceu.
Em língua inglesa, atualmente, quem faz isso na perfeição é o Nick Hornby, autor do Alta Fidelidade. Quando eu estava nos EUA, descobrindo, via Rádio Terra, the Boss Springsteen e Carmen, li comovida Hornby e suas linhas sobre Thunder Road, do maravilhoso Born to Run. A pequena panda é uma Hornby mirim do norte fluminense: as canções pra mim são tudo, o meu pão de cada dia.
Reli Caetano. Muita coisa não se gosta, mas reli e relembrei, comovida, o que Caetano escreve sobre Orlando Silva e Francisco Alves, presentes em Neguinho do Pastoreio com, respectivamente, a lindíssima A Jardineira e a controversa Ai, que Saudades da Amélia, e os outros cantores do rádio. Diz Caetano que a audiência dos programas de rádio era, basicamente, de mulheres pobres, que veneravam com a toda força de seus corações Silva, Alves, Emilinha Borba, Marlene, Nora Ney, entre outros. Tais mulheres foram chamadas, pejorativamente, de macacas de auditório, porque, como lembra Caetano de forma delicada, quando se cai na escala social, no Brasil, mais a cor da pele escurece. Música popular era coisa de mulher sofrida, pobre, que desmaiava no programa e que, na lembrança do menino Caetano, em férias no Rio, inferiores a ele, um tanto quanto constrangido por estar ali. No início do livro, porém, Caetano lembra que passou ao largo do nascente rock and roll, e que João Gilberto e a Bossa Nova, fã incondicional de Orlando Silva ( e Neguinho lasca A Jardineira, nos meus ouvidos, e realmente a voz de Orlando é algo celestial), trouxe a música popular pros ouvidos da classe média urbana,com choques e bastante sofrimento. E que, no final da década de 60, mulheres da classe média, brancas, universitárias, confessavam sem nenhum constrangimento serem suas "macacas".
Lembrei-me, com muita ternura, da minha avó paterna, mulher sofrida que queria, sem conseguir, comprar um pouco de pó facial, grande fã dos programas do rádio, e envergonhada do pai mulato. E a delicadeza da marchinha me traz perto do meu eu mais profundo, mais cintilante, mais digno e mais honesto de mim mesma, fruto do sofrimento indizível de ser mulher, e brasileira.

3 comments:

Skywalker said...

Dudu, vc é a minha nêga...Te amo amore...

Maria said...

hihihihihi... e você é meu boêmio demodé!

Maria said...

hihihihihi... e você é meu boêmio demodé!