Friday, August 03, 2007

A parábola dos talentos

Não sei em que lugar dos Evangelhos, tem a parábola dos talentos. Diz que um chefe deu, pra dois funcionários que se saíam muito bem, como recompensa, dois talentos ( barras) de ouro. Um funcionário, com medo da inveja alheia e da própria incapacidade, enterrou o talento no quintal. O outro fez alguns negócios, de forma previdente, e lucrou. Tempos depois, no bar da Santa Ceia, o chefe perguntou pros caras o resultado do assunto, e a moral da história é clara.

Pelo meu temperamento e educação, uma clássica educação cristã, de matriz franciscana, eu aprendi a ser humilde, a ser gentil com os outros. A não contar vantagem, a não humilhar, a não passar a perna nem tirar sarro de forma cruel do próximo. Mas, como venho discutindo comigo mesma a muito tempo, e também na minha atual terapia, tudo tem um limite. Nem Jesus Cristo conseguiu agradar a gregos e baianos, e eu tô cansada de enterrar meu talento no quintal.
Hoje fui pra Unicamp, sonada e confusa, porque tinha me esquecido do horário do dentista no CECOM e marquei cabelereira no mesmo horário. Desfeita a confusão, corri pro CECOM, e depois fui bater papo com o pessoal no IFCH. Lembrei de uma referência que o Sterzi me passou e corri com o Celo pro IA, pra pegar um livro, recente, do Georges Didi-Huberman, professor da École e atualmente um grande estudioso de umas coisas tipo panda.
Encontramos conhecidos, fomos e voltamos. Há quatro anos, toda vez que eu encontro uma certa figura, ela me lasca: ai, que há de novo pra se escrever sobre Botticelli? Ainda se fala nesse cara, credo, o que se tem de novo pra falar sobre ele.
Bom, pra mim a ignorância é assim, etimologicamente, a pessoa ignora algo, não teve acesso, não é a área dela, enfim, ela não tinha a obrigação de saber, é uma coisa. Agora, uma figura que ganha um salário mensal e que se arvora a falar sobre o assunto em cursos de graduação e pós, e me fala uma coisa dessas. Eu sempre sorria amarelo e não falava nada. Mas hoje eu desci das tamancas, porque quinze minutos antes, o pessoal me perguntou sobre a tese e eu falei, aos trancos e barrancos vai. E eu pensei na minha tese, no pouco que eu sei, mas eu sei um pouco a respeito, muito pouco, mas eu sou honesta. E aí falei, olha, qualquer um que conhece minimamente a bibliografia sobre o artista e a historiografia a respeito, sabe quanta lacuna tem, quanto se falta pra estudar. Mas falei brava.
A pessoa ser ignorante por opção, é foda. E o final da história foi lindo, a figura saiu pra ir pra biblioteca ver livros,porque teve inveja até do livro que eu acabei de pegar na biblioteca.
Mas o bom disso tudo é que tive a nítida noção de que, na maior parte do tempo, estou em algum ponto perdido de mim mesma, sofrendo. Mas que se tem gente que me inveja, realmente, estou no caminho certo. E voltei pra tese feliz e com a sensação de que, sim, infelizmente pra umas pessoas, eu falei algo de novo sobre Botticelli. Infelizmente pra outras, sou legal, blá, blá, blá. E infelizmente pra todas, sou muito feliz, apesar de todos os meus problemas, e posso ser meio coió, mas a matuta panda aqui tá com os óio aberto.

3 comments:

Leo said...

que patada hein! Mas o camarada mereceu! Ainda se pode usar camarada no seculo XXI? Tai uma boa pergunta. Keep it going!

Na Prática said...

Tá lá o corpo estendido no chão! Cruel, muito cruel a jovem Paulinha!É isso aí, quando encontrar o cara chuta o saco dele e diz que fui eu quem mandei.

Maria said...

A respeito de consequências de tudo isso, leiam o post seguinte e as minhas respostas! E beijos!