Começa logo de manhã. Depois de um reforçado café, sento no Caronte pra adentrar no mundo dos homi do século XV, tarefa hercúlea para eu, mulher, afro, ameríndio, batavo e luso descendente, pobre e burronilda, mas enfim, tentaremos. Toca o telefone. É Celo sendo fofo na hora que não pode. Falo, Celo, depois a gente conversa, e ele do outro lado, humpft.
Toca o celular. É minha mãe. Ela comprou um milhão de créditos e agora insiste em só ligar no celular, de celular pra celular , pra torrar os créditos dela. O que faz com charme e requinte: liga pra berrar no meu ouvido que vou perder minha carteira de motorista, que isso é um absurdo, que piriri e pororó. Falo, mãe, tô ocupada. Já reparei que é uma questão de gênero: se um homem fala eu tô ocupado, todo mundo respeita. Mas se é mulher, ai, não, tira cinco minutinhos pra mim. Ninguém respeita mulher escrevendo. Nem dando de mamar. Nem cozinhando. Nem nada. Mulher é pra atender todo mundo, é a tese no micro, o telefone que toca, a panela no fogo e a lista inteira de coisas cacete pra fazer, como ir na Caixa Econômica Federal atrás de caraminguás de fundo de reserva, ir no sapateiro trocar a sola do sapato, ir na costureira e ainda passar no varejão, porque, sim, vai ter gente pra janta hoje.
Toca o telefone de novo. É da casa da Lúcia? Não, meu senhor, tenho certeza que não é. Os humanistas do século XV tinham criadas, moravam todos, no caso dos florentinos, na belíssima Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. E não tinha telefone. Agora é banco, oferecendo dinheiro. Não, meu senhor, eu até queria ter dinheiro pra ir pra Florença, ficar na Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. Mas depois eu não tenho um Lorenzo de Medici pra pagar a conta.
E mais telefone. Um amigo, mágoas de amor. Sim, ela foi filha da puta com você. Sim, isso não se faz. Puta que pariu, ela fez isso? Meu, corta essa pessoa. Não, quer dizer, você não tá me atrapalhando. Eu só tava no meio de uma nota de rodapé sobre a edição de 1506 da Divina Comédia, do editor Fillipo Giunti, que tem o Mapinha do Inferno... não, ela realmente foi uma filha da puta.
Mais. Baby amiga, agora não dá... eu tenho que terminar a tese. Enfim. Sim, você é legal, linda e maravilhosa e merece ser feliz. Mas pára de fazer besteira... sim, isso. Isso que eu tô falando, concentra-se nas suas coisas. O cara vai te procurar, se gostar de você... claro que vai. Take it easy. Fica bem, puxa, você é tão legal...
Mais. Mas você fez isso? Agora pra consertar, deixa eu ver... puta agora vai ser foda. Não, para de chorar! Vai dar tudo certo!
No final, um amigo me falou: não atenda. Eu não tenho bina. Eu não tenho nada contra quem me liga. Mas agora, eu preciso terminar o Caderno de Imagens da minha tese. Com 250 imagens.

10 comments:
Acho que o problema não é que você é mulher, não, o problema é que ninguém respeita tese. Se você estivesse fazendo uma coisa dez vezes mais imbecil, mas que tivesse "cara de emprego", o pessoal ligava outra hora.
Está aberta a polêmica!
Sim, tese é coisa de gente que não tem o que fazer, na acepção popular... rsrsrs... beijos, Na Prática!
obs) e eu que fui apresentada interneticamente ao Lord Pictor! Hahahahahah!
Fuja dele! Esse cara é maluco!
Hahahaha, deu pra perceber pela toquinha do Pan na cabeça! Hahahahahah!!!!!!!
Posso ser maluco mas nunca fui colega de partido do José Dirceu!!!! E agora, napratica, como fica?
ps: o presidente disse que esse negócio de tese aí não é grandes merdas e que a bolsa que vcs recebem (quando recebem) é agrado pra riquinho. Viram?
acho que eu peguei pesado com o Napratica né? Culpa da Pandinha-provocadora que foi no meu msn cobrar "providências". Ai napratica, prometo bater acima da linha da cintura da próxima vez tá? :)
Eu sempre pegava a ficha de inscrição no Partido dos Trabalhadores mas nunca assinava. Eu não tinha salário pra dar 10%. Sempre fui ambulante. E daí dá nisso.
Na verdade, você devia estar sentindo as vibes (que gay isso!) do repúdio coletivo ecoando para trás na linha do espaço tempo. Por isso é que quando vc pegava a ficha vc hesitava. Já leu Childhood's End do Arthur C. Clarke?
Olha, isso foi uma idéia ótima!!!!!!!!! Adorei a vibe!!!!
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