Tuesday, August 14, 2007

Notas de leitura

1) E eu continuo curtindo a biografia do Ruy Castro, da Carmen. Apesar de algumas críticas, o livro é um dos meus favoritos. E eu li a história do filme "Alô, Alô Carnaval", de 1936, onde Carmen aparece dançando e cantando "Querido Adão", uma marchinha que, como bem diz o Ruy Castro, você ouve e não esquece nunca mais. Tá no Youtube a cena. E o povo diz lá que assitiu ao filme, em cópia restaurada, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Fiquei morrendo de inveja, gostaria de assistir esse que é o único filme carnavalesco, dos tempos heróicos da Velha Guarda, que restou nesse país sem memória e sem vergonha. Vale a pena assistir Carmen no Youtube, tem vários clipes memoráveis, raríssimos, dela lá, graças ao amor de colecionadores e fãs de todas as idades e de vários países. Outro dia, eu, na Unicamp, com o Neguinho do Pastoreio lotado das jóias raras coletadas graças à comunidade Marchinhas de Carnaval e do sr. Raimundo Floriano, comentei com uma colega da História se ninguém do CECULT ou de outro centro estava no tema música popular. Ninguém, ela me disse, parece que tinha uma colega mas ela não está mais lá. Pena isso, pensei, porque o Alcir Lenharo foi tão grande no reescrever da história dos cantores do rádio...
2)E eu fui pro centro hoje, banco e ficar vendo as prateleiras de lojas de cosméticos, um fraco eterno da pequena e sempre desmiolada panda. Sem dinheiro, usando um vestido florido de fundo branco e flores pink com casaquinho pink ( meu mau gosto já é notório) e falando sozinha, tomando as últimas notas da tese na frente da velha e linda Catedral de Campinas. Depois fui tomar expresso no Fran's. Li na Folha de hoje bonita coluna do Bernardo Carvalho na Ilustrada, sobre a situação política russa ( cadê o senhor Na Prática?) e o trágico fim dos poetas da vanguarda. Me comovi lembrando do último poema de Maiakóvski, aquele que virou música do Caetano e que Gal canta tão forte. Uma das poetas, Marina Tsvetáieva, que perdeu uma filha por inanição, escreveu em carta à Bóris Pasternark: "sou uma moça num vestido velho". E Carvalho escreveu: "É uma imagem enfática da poesia hoje, num mundo cada vez mais utilitário e consumista, esvaziado da transcendência, onde ela já não precisa ser silenciada, pois não tem mais lugar nem importância". E eu, num surto, pensei: ainda bem que posso escrever o que eu quiser, ninguém vai ler, mas ninguém vai querer me matar nem me mandar pra Sibéria por isso. Tudo bem que nunca vai chegar aos pés da Marina Tsvetáieva ( apesar de eu não conhecer nada dela, só pela frase da carta já a considero grande poetisa), nem de Maiakóvski. Mas dessa forma irresponsável presto minha humilde homenagem a eles.
3) Daí passei pra revista Caras, pra ver o quão ridículo são os figurinos de quem tem dinheiro mas não tem gosto ( eu também sou cafona pra burro, hoje por exemplo tava lindja, mas pelo menos eu só espanto, comparativamente, poucas pessoas). E lá tinha uma coluna de uma psicóloga e psicanalista de São Paulo, Rosa Avello, que eu gostei demais. Gostei profundo mesmo, porque ela lascou em plena revista Caras ( imagino que a coluna dela não deva ser muito popular): "É comum as pessoas confundirem atos de controle, desejo, ciúme, apego, paixão e até de ansiedade com atos de amor". Amor não é um fenômeno espontâneo, é escolha. Assino embaixo, na minha experiência e na observação, no consultório sentimental da panda. E ela termina: "Essa façanha ( amar) exige de nós habilidades desconhecidas de nós mesmos. Em resumo, amor é para poucos, coisa de gente grande". Amor é escolha, não acontece: amar exige dedicação, responsabilidade, e até assumir o risco de ter que sumir pra todo o sempre da vida do outro. É, como diz um colega filósofo, ter ética. Acho que Rosa Avello é da turma do Flávio Gikovate, que consegue destruir os livros de auto-ajuda em cinco minutos, fantástico ( como o axioma bobo de "pra amar é necessário amar a si mesmo primeiro", falso porque amor se dá na presença do outro, auto-estima é outra história, e ego inflado, outra ainda). Eles podem ser populares e de boteco mesmo, mas são sensatos pra burro.

2 comments:

Na Prática said...

Valeu pelo toque, Paulinha, vou ver o artigo, não só porque gosto da Rússia como porque gosto dos livros do Bernardo Carvalho.

Maria said...

Então, tão bonito. Beijos, te respondo, viu? Só não respondi antes porque a maledetta tá me deixando loucaaaaaaaaa!