Thursday, July 05, 2007

Das atuais letras

Falar em Eduardo Sterzi, poeta, ensaísta e amigo, ex-editor da revista Cactus e atual editor e colaborador do jornal K ( que revive os gloriosos tempos dos pasquins literários, como o Nicolau paranaense), pra mim é falar da Verônica Stigger, companheira-comparsa do Eduardo em tais atividades, ela mesma escritora, ensaísta, etc e tal. A Verônica lançou, pela Cosac &Naify, agora em maio, Gran Cabaret Demenzial, uma experiência literária onde mescla poesia, prosa, sátira e tragédia, com bastante coragem e contundência.
O lançamento do livro da Verônica foi acompanhado pela panda com um vestido estampadão Renner, escova no cabelo e direito a fofocas das rodas literárias campino-paulistanas. Sou suspeita pra falar dos Stigger-Sterzi, mas de qualquer forma admiro a capacidade da Verônica em criar, muitas vezes, pelo non-sense e pela escatologia, uma crítica afiada do princípio "a literatura contemporânea é sei lá entende". Verônica está na Feira de Paraty, nesse momento.

Bom, o lançamento do Cabaret foi anunciado por algumas reportagens em vários jornais, dentre as quais uma entrevista coletiva dela com outros jovens escritores e poetas, identificados pelo texto como "a nova geração" ( Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/05/07). Em outros lugares o livro da Verônica, suas propostas e as da tal "nova geração" ( a imprensa sempre tem que rotular as coisas, pro leitor não se perder e achar que está na crista da onda) apareceram, nos últimos dois meses.


E daí no domingo, o professor Alcir Pécora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem aqui da Unicamp, escreveu uma crítica à parte da produção dessa tal "nova geração", incluído o livro de Verônica. No jornal, a crítica saiu junto com uma ilustração de um velhinho, numa poltrona, de costas para o espectador, jogando uma massa de livros no chão. Apropriada a ilustração, devido ao tom corrosivo do autor: começa o texto detonando o livro da filha do dramaturgo Dias Gomes. Depois, falando de Verônica, comenta que a imitação de Hilda Hist não valeria a pena, e destaca:
"O livro ostenta humor negro; pretende-se desbocado. Aspira a inteligência aguda. Não vai além da amplificação escatológica de situações banais, sem que a amplificação chegue a constituir questão, mais do que figura, ou a escatologia mais do que referência afetada. Evidencia o procedimento a narrativa de um casal de estudantes morando em cubículos, cuja situação vai sendo amplificada até a literalização escatológica do espaço mínimo. Por vezes, o humor negro e o nonsense ganham feições denuncista, como no caso do casamento inter-racial no qual a crueldade dos pais do noivo branco é castigada, assim como a beleza da noiva negra é reconhecida. Quer dizer, o humor negro se contém nos limites do admissível genérico que compõe o cenário pós-moderno. O mundo dos pretos feios e das crueldades sem castigo passa ao largo." E depois:
"Acontece que no Brasil já existe uma Hilda Hilst. É bobagem imitá-la. Mesmo porque, excessiva como é, não admite imitações que prestem: imitam-se os sestros, e deixa-se passar o essencial, que é a obsessão da franqueza e da verdade."
Bom, fazendo a crítica da crítica, ou como diriam Marx e Engels na Ideologia Alemã, a crítica da crítica da crítica. Não considerei que Verônica imite Hilda Hist. É evidente que as referências ( pra usar um termo bastante em voga nas reportagens sobre a atual produção literária) da jovem escritora passam pela bruxa Hilst, e por Leminski e tudo o mais. O non-sense, o escatológico, o humor negro, tudo isso confere. Mas acho que Verônica quer dar um passo além.
O conto ao qual Pécora se refere é uma narrativa do casamento inter-racial entre um moço branco e uma moça negra. A família do moço constrói uma festa de casamento cruel, com purgante nas bebidas, giletes nas cadeiras, e uma piscina com curto-circuito elétrico, bem como um capacho à entrada com cola super bonder, e convida "aqueles negros". O que ocorre é uma tragédia (não vou narrar aqui). E Pécora denuncia o que seria um lugar-comum pós-moderno, pretos legais- brancos filhos da puta, sendo que realidade seria mais ( "o mundo dos pretos feios e cruéis", onde estaria?). O politicamente correto é um lugar comum pós-moderno, sim. Mas na narrativa de Verônica tudo é satirizado, inclusive esse mesmo lugar comum que Pécora cai, a crítica pelo avesso ( é claro que o crítico esperto, que também aspira à inteligência aguda, detestaria a denúncia social e a reduziria ao estereótipo do politicamente correto pós moderno. O óbvio, enquanto isso A inserção do negro na sociedade de classes, do Florestan, pega poeira na estante).

Considerei que o artigo de Pécora é antipático. Coisa de gente que tá em cima e claro que não vai gostar dos novos: fácil colocar os novos no mesmo balaio e dizer ao conservador leitor do Estadão, em seu domingo sem preocupações, que nem se preocupe com as atuais tentativas dos jovens em fazer Literatura, porque tudo nessa produção é óbvio demais. Sendo que a própria crítica que faz também recai na obviedade: crítica e produção estariam empatadas. E vamos às Teses contra Feuerbach.



A bibliografia está:




Press release da Verônica na FLIP, tem um perfil dela e um artigo sobre o Cabaret, por Fabrício Carpinejar: http://flip2007.wordpress.com/veronica-stigger/



Reportagem na Folha sobre a tal atual nova geração: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1205200707.htm


E, finalmente, o artigo do Pécora:

Wednesday, July 04, 2007

Dante e seus comentadores

Hoje vim para a biblioteca do IEL, atrás do Comentário a Comédia, do Bocaccio, da tese do meu amigo e mestre dantista ( além de mestre-cuca, sua principal especialidade) Eduardo Sterzi. Parei na duas pequenas prateleiras consagradas ao tiozão narigudo, com os volumes essenciais ao estudo da vida e obra do supracitado narigudo cidadão, e consultei o The Cambridge Companion to Dante.

Lá dentro, um textinho de um de meus autores favoritos na selva oscura que são os Dante Studies, Robert Hollander, professor em Princeton e autor, dentre outros, de um lindo livro sobre o personagem Virgílio na Comédia ( que Hollander informa ser a figura da tragédia, em Dante): "Dante and his commentators". Por ser curtinho, mais informativo que analítico, li rapidinho e corri ao terceiro andar da biblioteca, anotar algumas coisitchas.
Hoje, depois de enfrentar o tratamento de periodontia no CECOM, às sete da matina, permaneci um pouco na cantina do IFCH, pra me recuperar de tão traumático evento ( inventaram uma maquininha infernal de limpar gengivas. Terrível!) e comentei sobre alguns acontecimentos recentes com Marcão, Maria e Luís Fernando. E pensei em meu amigo Sterzi, no início do meu doutorado e de como Eduardo foi 200% comigo, me emprestando textos, indicando bibliografia, dando força moral junto com Verônica, e principalmente fazendo uma lasanha espetacular. Peguei a tese do Eduardo e na lista de agradecimentos consta meu nome, como pequena seguidora-mirim dos estudiosos de Dante, os dantistas ( dantesco é um adjetivo utilizado para personagens e situações à la Dante, o que eu já vivi/ vi de monte, assim como messer Sterzi). A amizade e o amor por Dante.
Nas considerações sobre os atuais comentadores do tiozão, Hollander afirma que escolhe, como melhor, o também meu favorito Francesco Mazzoni, professor da Universidade de Florença, falecido no início desse ano, e autor do texto sobre Guido da Pisa que anda me encantando e tirando o chão. E o no final: " And last of all, I would hope that, in the next century, students of Dante will give up the intelectual arrogance and simple egotism that, I am afraid, mark so much humanistic scholarship. Scientists have long ago learned to work together, not because they are particularly nice people, but per necessitatem. They understand that complex and difficult problems require collaboration. Collaboration is not a word that may be used to describe the first six hundred years of Dante scholarship". E termina citando mais uma vez Mazzoni e sua colaboração na Enciclopedia Dantesca ( dada de presente pelo governo da Itália a Lula, e depositada na Biblioteca Nacional). E pensei, que sorte tenho eu, pequena panda-comentadora mirim e fã do tiozão!

Tuesday, July 03, 2007

A arca de Noah Kalina


O Portal Terra sempre me atualiza nas bizarrices do mundo atual, o que talvez seja um contrapeso pro século XV. E aí vi na seção "Celebridades da Internet" o projeto do fotógrafo americano Noah Kalina.


Desde 2000, quando tinha 19 anos, Noah Kalina tira uma foto sua, todos os dias. Todos os dias. Li na Wikipedia e depois vi no Youtube ( que, junto com o Google, são a Santíssima Trindade do Ciberespaço) que outra moça, Ahree Lee, havia feito o mesmo e colocado o resultado no Youtube ( tá lá também, em sua bonita face asiática). Mas Noah começou antes, e seu registro é maior, apesar de ter dito em entrevistas que Lee o inspirou a dar vazão à essa produção. De qualquer forma, o que seria uma bizarrice, pra mim virou um início de uma reflexão que achei digna da perspicácia dos meus caríssimos leitores.


É incrível ver o tempo passar, na sucessão de cortes de cabelo, barbas por fazer, roupas e cenários, no mesmo rosto impassível e de grandes olhos de Noah. Me fez lembrar os retratos antigos de Fayoum ( acima), os retratos funerários dos cristãos egípcios de grandes olhos e que venceram séculos em sua enigmática beleza. O que remete, à pequena historiadora da arte mirim, várias questões sobre o chamado gênero da retratística. Celo que anda debruçado sobre esse problema, poderia nos ajudar aqui: sempre se associou o retrato à necessidade de memória, de eternizar o efêmero por excelência, a figura humana. O retrato esteve associado aos ritos e cultos funerários, e mais tarde ao poder político. Se isso estiver correto, o projeto de Noah é bizarro, caiu no bricabraque da internet, mas me fez pensar em várias coisas.
Noah construiu uma arca, no seu próprio rosto, para enfrentar o tempo. Interessante que fez isso em plena juventude, o que me dá uma tristeza indizível. Pensei primeiro em mim, e no não-registro que fiz do meu rosto nesses anos de juventude ( ao contrário de Noah, passei anos e anos sem tirar fotos,e se as tirava era por acaso e não as guardava nem via. Empatei em obsessão com Noah, mas no sentido inverso). Depois pensei no espelho de Narciso. Mas, como nos mostrou Caravaggio, nas águas ficou eternizada a expressão embevecida do belo jovem, prestes a morrer de amor por si mesmo: na expressão concentrada e ao mesmo tempo terrível de Noah, não há embevecimento, não há piedade, não há escamoteamento. É realmente uma face de patriarca do Antigo Testamento, irônica e contundente, mas não um ícone: a face de alguém. O que também é espantoso nos retratos de Fayoum: as faces de alguém que se foi ( no caso, há séculos), e em Noah, o tempo que foge. E terminei ouvindo Bola de Meia, Bola de Gude, do Milton: há um passado no meu presente.


http://www.youtube.com/watch?v=6B26asyGKDo

http://en.wikipedia.org/wiki/Noah_Kalina

http://www.everyday.noahkalina.com/

Sunday, July 01, 2007

Vai ver que a confusão...

Esse final de semana não fiz nada de muito útil. Ontem fiquei em casa, macarrão com molho branco, brocólis e salada de alface americana, repolho roxo e maçã. Hoje foi feijuca na casa do Celo, dona Ana Maria lascando no panelão. Além dessas atividades culinárias, e dos quilos a mais na sempre rechonchuda silhueta da panda ( em fotos recentes, nunca me vi tão baranga na minha bida), do sono sem barreiras e da tristeza, fiquei baixando musiquinha.
Assim como todo mundo que tá nas comunidades de música do Orkut, comecei a usar o 4 Shared, que é melhor do que o Rapidshare e outros sites de compartilhamento de arquivos. Dentre as benesses do 4, está uma ferramenta de busca, o que permite vasculhar as pastas alheias e baixar o que você quiser. Ou seja, tá no 4, tá na mão de Deus.
Então lá vai, com o devido crédito às pessoinhas ( que não sei quem são) que colocaram esses dois links:
-Festa anos 80: todas as porcarias dos 80's brazucas. Destaquei Envelheço na Cidade, do Ira! ( meu Deus, como foi que eu esqueci dessa música! É a minha alma!) e Fui Eu, do Sempre Livre ( outra, outra!):
-Cabaço FM: olha, não sei quem pôs esse negócio aí, nem esse nome, mas é um santo que precisa ser canonizado com urgência. As verdadeiras pérolas do brega, aquelas que dóem no coração e nos ouvidos ( baixei Lindomar Castilho, Nós Somos Dois Sem Vergonhas, dentre outras):
Depois achei um blog bacanérrimo, na comu do Premeditando o Breque ( hoje Neguinho do Pastoreio tocou com vontade as supracitadas canções e mais Fim de Semana, dos caras), com tudibão da mpb, inclusive um dos discos de música sacra barroca mineira, da série do vinil que ganhei das minhas Fifa e Ju, os do Premê, e muita raridade que ainda tá em vinil ( além de CDs difícieis, como os do Egberto Gismonti). Baixei o lindo Caetano Veloso 1971. Esse blog é de outro santo, realmente imperdível:
E como diria Herbert, eu tô na esquina, eu vou na onda, pego carona na multidão;você olhou e fez que não me viu.

Thursday, June 28, 2007

E lá se vai mais um dia...

Como diriam os mineiros no Clube da Esquina, e lá se foi mais um dia.



Eu e Celo na ressaca pós-gatinho, tristeza. Tristeza. Fui pra rodoviária buscar um antigo e querido colega de São Paulo, a caminho da Unicamp pra uma reunião com o meu velho mestre Josué ( veja, Celso, o homi que tem sempre razão). Me enrolei e peguei muito trânsito, quase que o Ferdinando perde a entrevista com o luminar da Teoria Sociológica brasileira.Mas eu fui junto e pedi desculpas pelo ( desmiolado) atraso.



Nada de muito notável, só conversas divertidas com os meninos na cantina, nada de tese e um molhinho pra filés de frango. Tempere com laranja, pimenta do reino, as tais ervas finas ( ervas de provença) e molho inglês ( no monstro-supermercado Dalben, aberto agora na entrada de Barão Geraldo, tem um legítimo, mas ainda não comprei). Eu gosto de cortar os filezinhos mais pro gordinho, e pôr em chapa bem, bem quente, com um tiquinho de azeite. A chapa bem quente garante o tostadinho e o molhinho por cima, que o frango não fique esturricado (tem quem goste, eu prefiro mais suculento). Eu preciso comprar ovos, pra fazer mais sequilhos, e tô com vontade de experimentar uma receita de pudim de maria-mole que parece ser deliciosa. E pensar que Yna e Ná, quando vieram no sábado fazer torta de banana caramelada, glacearam meio quilo de açúcar por não saber fazer calda de caramelo!

Wednesday, June 27, 2007

É madrugada, o morro da Casa Verde agora dorme em paz

Depois de muito chorar ontem e hoje, tomei uma decisão que, sei, decepcionará os leitores do Meio.

Conversei, conversei, conversei com o Celo e chegamos a uma conclusão: o gatinho sambista ficaria aqui, provisoriamente. Seguinte, gente, não estou em condições financeiras, psicológicas, físicas, pra cuidar de um bichinho. Não agora, não neste apartamento e não neste final de tese. Sofri muito. Mas resolvi ligar pra associações e fui muito maltratada. O cara do CEMA, serviço de proteção aos animais da Unicamp, falou literalmente que o problema era meu, que se eu tirava o bicho da rua, a questão não era deles. Sei que muita gente abandona muitos animais todos os dias, e que associações e outros tipos de serviço não tem condições de arcar com a responsabilidade de todos os animais do mundo, mas também não precisa maltratar quem acolheu um bichinho da rua.
Depois de muitos telefonemas, e todos me tratando muito mal, como se eu fosse uma criminosa, consegui através do site do IVVA o telefone de uma clínica veterinária conveniada, que deixou meu nome numa lista. Uma senhora ligou, hoje, querendo o Adoniran. Eu e Celo fomos levá-lo ao seu novo lar, no Taquaral. Enfim, gente, a colaboração do Adoniran termina por aqui. Ele foi pra seu novo lar, com nova mãe e irmãozinhos, gente grã-fina, e que obviamente irão chamá-lo por outro nome. Não importa, a vontade de ter um bichinho permanece, eu só preciso estar melhor e mais equilibrada pra isso. Pelo menos o salvei, cuidei dele nos primeiros dias e ele estará no lugar certo!

Il buono incantatore

Ontem chorei muito.

Eu não tava percebendo a extensão da vala das almas danadas em que tava metida, nos últimos tempos. Quer dizer, eu comecei a me aperceber faz tempo, e daqui eu enviava confusas queixas, às vezes. Mas ontem eu comecei a me dar conta de umas coisas. Difícil.


Eu tenho amigas e amigos maravilhosos, que sempre tão me dando toques e etc, ontem não foi diferente. Depois das meninas, fui buscar o Celo. Fomos, eu e Celo, numa médica veterinária, tirar dúvidas sobre a criação do Adoniran. Eu só tive um bichinho uma vez na vida, o gatinho, também encontrado nas ruas de Barão, Téo. Téo era um companheirão, mas virou gatinho-anjinho logo, por conta do meu despreparo na época, além de ser muito foda, em geral, ter bichinhos em Barão ( o pessoal dirige ao encontro da morte, larga ninhadas inteiras na rua, além de ser comum as pessoas cansarem dos seus pets, como se diz hoje em dia, e largarem eles por aí, em qualquer lugar). A doutora gentilmente esclareceu nossas dúvidas, e informou que pelo comportamento, Adoniran é extremamente carente. Que ele estava aprontando pra chamar a atenção e protestar contra as estadias na área de serviço. Ontem liberamos a casa inteira pra ele, e foi aquela noite, ele se muvucando comigo na cama nas piores posições ( pra mim, obviamente) e o medo eterno do xixi e cocô nos lugares mais impensáveis. Mas até agora ele vem se comportado bem.
Fomos na Cobasi também, e lá eu pirei. Não sabia que existia tanto consumo, e tão diferenciado, para bichos de estimação hoje em dia. Tem de um tudo, rações pra gatinhos de todas as idades, caminhas fantásticas, torres e arranhadores bacanérrimos. Comprei um produto pra desmarcar lugares de xixi e cocô indevidos, um brinquedinho com arranhador e um spray de catnip, a tal erva-dos-gatos. Trouxe toda empolgada o peixinho-arranhador pra casa e ele nem tchuns. Prefere a velha bolinha de papel e um ratinho de pelúcia seu companheiro.
Mas voltando, talvez seja bom tudo isso. Eu não podia mais esconder certas coisas, varrer pra debaixo do tapete certos problemas que preciso enfrentar. Inclusive os problemas da tese. Esses dias foram de leitura intensiva do material que eu trouxe de Pisa e que coletei no JSTOR. Li algumas coisas mas o melhor de tudo foi uma das rimas de messer Durante Alighiero ( conhecem? Um poeta novo, tá estourando aí nas vanguardas, hihihihi). A tradução é minha, o artigo é FATA, Frank. Some elements in the Genesis of A Renaissance View of the Divine Comedy, in MLN, vol.87, no.1, The Italian Issue ,jan.1972, pg.28:
"Guido, eu queria que tu e Lapo e eu
fôssemos alvo de um encantamento
e colocados num barco, que com todo vento
navegasse pela tua vontade e minha;
e assim a sorte ou outros tempos ruins
não pudessem nos dar impedimento,
assim, vivendo sempre na alegria
de estar junto com o nosso desejo crescente,
E monna Vanna e monna Lagia depois
com aquela que está sobre o número de trinta
com nós colocassem o bom mago:
e assim vivêssemos sempre de amor,
e todas vivessem felizes
assim como acredito que seríamos nós"
Guido é Guido Cavalcanti, amigo dileto do poeta. Aquela sobre o número de trinta é Beatriz, talvez uma referência a família dela, algo assim, sei lá. Lapo outro amigo, e assim os comentadores do Renascimento, homens que insistiam no amor casto e puro de Dante por Beatriz, seriam facilmente rebatidos. Na carta que Dante escreveu a Cangrande della Scala, mercenário que governava Verona e que o recebeu no exílio ( e Verona, além de ser a pátria de Romeu e Julieta, guarda a glória de ser a terra que recebeu o grande vate na lida de escrever a Comédia), Dante informa que todo texto tem vários significados: o literal ou histórico, o moral, o anagógico ou relativo aos fins últimos, retomando uma tradição do século anterior, do método de leitura e interpretação das Sagradas Escrituras. O que é revolucionário é que Dante propõe o mesmo método para sua Comédia, e informa que a escreveu como as Escrituras ( daí vem uma discussão tenebrosa sobre como um homem, leigo, pecador, pode ter tido a Revelação divina).
Nos textos que estou lendo, os autores concordam num ponto: os comentadores renascentistas, na defesa apaixonada de Dante, insistiram no sentido alegórico, metafórico, para não cair em discussões embaraçosas, que no limite levariam à acusação de heresia ( por exemplo, como o amor profano, mesmo que impossível, mas marcado por um forte desejo carnal, de Dante por Beatriz, poderia ser a possibilidade de salvação para a alma de alguém? E o que dizer da presença, no Paraíso Terrestre, de um poeta pagão e homossexual;Virgílio se cala durante o diálogo de Dante com seu mestre de Latim, Brunetto Latini, que arde nas areias escaldantes do reino de Lúcifer, onde se encontram os sodomitas).
No caso, aqui, essa rima seria um problema, porque esse sonho de felicidade marítima, da plenitude do desejo, da alegria de se viver livre junto aos amigos e amantes, e esse mago ( il buono incantatore), isso tudo me consola e me traz perto do que eu queria, também.

Monday, June 25, 2007

Ei, tem alguém aí?

A pergunta é pra mim mesma, não reparem.


Hoje meu dia foi cansativo. Acordei cedo. No meio da noite senti falta do Adoniran. Por motivos óbvios, ele ainda tá na área de serviço, com sua caminha muvuca, seu banheiro, comida e água, até acostumar com a realidade que necessidades fisiológicas são feitas na caixa de areia.

Fiquei o dia inteiro atrás do autor do Samba da Casa Verde. Onde ele ia, eu ia atrás. Há dez anos atrás, foi assim que eduquei o Téo, meu outro gatinho. O Téo morreu atropelado, depois de uma mudança desastrada, uma não-castração e uma saída trágica pra cruzar. Enfim, sempre me culpei pelo desaparecimento do Téo. Mas enquanto ele esteve comigo, funcionava assim o trem, era eu atrás dele o tempo todo pra ele não fazer asneiras.
De manhã, foi soneca no pufe, soneca no colchão do escritório, no sofá, na cama. Ele no meu colo e eu lá. Pequenos confinamentos garantiram a limpeza do meu lar, e eu fiz coisas do arco da velha, dar a volta no apartamento pra observá-lo em suas múltiplas atividades. A maior parte do tempo, ficamos na sala, ele no sofá na categoria sono sem barreiras e eu na árdua tarefa de ler sobre querelas dos comentadores renascentistas de Dante.
Depois fui pra Unicamp, com roupa de verão, porque depois da correria gatinho estava com calor. Lógico que passei frio, indo pra terapia. Tive uma sessão daquelas pesadas. Então esse é o tema do post, mais ou menos.
O fato é que andei adolescente demais, sem muitos vínculos com a realidade, num mundinho só meu. O ensimesmamento é uma das minhas características; tem fase que é maior, tem fase que é menor, mas é algo que sempre me acompanhou. Ultimamente, tava terrível, e causando uma depressão. Não sei, mas acho que o gatinho sambista pode me ajudar a ficar mais no chão. O fato é que são trabalhos de Hércules, a terapia, a tese e o gatinho. Sair um pouco de mim mesma. O brougui também ajuda, no sentido que toda experiência vira uma palavra pra vocês. E eu vou nanar porque amanhã tem mais tiro ao álvaro!

Saturday, June 23, 2007

De tanto levar...

Olha, gente, apanhei do Adoniran.


Ontem o bichano teve um desarranjo intestinal e fez um estrago na minha cama, num momento que ficará na minha memória para todo o sempre. Depois, hoje de manhã, ao se ver privado do leite que causou o supracitado desarranjo, o sambista invocou com o pufe verde da sala e demarcou o território duas, duas infernais vezes. E taca lavar pano, passar produto químico destruidor, estressar até o último fio de cabelo e pensar, meu Deus, joguei chiclete na cruz e vou dar solda cástica, como diz seu Edmílson ( meu prestativo e amigo zelador), pra esse filho da mãe e pra mim, que tive essa bendita idéia de trazer esse maloqueiro pra casa.
Mas depois, o compositor de Tiro ao Álvaro do mundo felino se acostumou com a idéia de caixinha de areia, uma louca desesperada atrás dele, e ficar entre a sala, a cozinha e a área de serviço, onde tem sua maloca. O senador romano que acompanha o blog afirma que ele e o sr. Na Prática criaram uma teoria para tais eventualidades, mas não fui informada a tempo de tais exercícios de pensamento, no entender de Wittgenstein, e na área de serviço ficam a água, a ração, o banheiro e uma de suas muvucas ( o cara adora um cantinho sinistro pra se enfiar).
Enfim, mas Dani, uma de minhas assessoras para assuntos felinísticos, informou-me gentilmente que é normal tudo isso, e Yna e Ná vieram pra um dos lanches mais gostosos que tive na vida ( um luxo, o Celo providenciou um vinho maravilhoso e a paciência necessária para lidar com o baby cat, Ná fez uma torta de banana destruidora e Yna trouxe pãozinho de ervas e com a única corrente de crochê que fiz na vida, um cordãozinho pra pessoa se divertir em suas festas no apê). Até trabalhar na tese trabalhei.
Pois então, caros leitores do Meio. Agora rezem para Adoniran se habituar ao seu banheiro e não fazer necessidades fisiológicas em lugares como minha cama, meu sofá e principalmente Caronte, porque senão o barqueiro do Inferno travará e minha tese irá para o lixo. Rezem para que meus dias sejam limpos e que eu não tenha que apanhar tanto, porque nobody deserves.

Friday, June 22, 2007

Saudosa Maloca

Hoje foi o aniversário de 90 anos da avó do Celo. Fui pra Barão, almoço e tal. Uma urgência, uma urgência de ir na casa das meninas, e fui, uma da tarde. Já no portão, a Ná me informa, olha, te liguei no celular, aconteceu uma coisa. E eu, o que foi, pensei no pior, meu Deus, toda desesperada. A gente subindo e ela, não, hoje de manhã, o Cláudio saiu pra andar, viu um gatinho morto atropelado, a Júlia viu outro, foi um horror. E de repente, eu saí de casa e na calçada, estava um gatinho...
E eu subindo e de repente vi. De olhos azuis, cinza. De olhos azuis, gente! E apresento a vocês o novo morador dessa casa, o gatinho sambista Adoniran. Ele tá aprontando na sala, depois de ter feito uma necessidade fisiológica no lugar errado e ter apanhado por isso. Tem seus três meses de vida, aproximadamente, deu um salto ninja na pia quando sentiu o cheiro da latinha de carne e deixou envorvido o pessoal da pet shop, que o encheu de presentes. Gosta de leite em pó na ração e passa a ser, a partir de agora, um ativo colaborador do Caminho do Meio, ops, Meio do Caminho.

Thursday, June 21, 2007

Alecrim, província de Eldorado

Hoje achei que estava em Terra em Transe. Sempre pensei que o filme do Gláuber foi subestimado. Acho, na minha santa ignorância, que o Glauber tocou em questões mais profundas do que ele próprio pensava, conscientemente.Talvez Terra em Transe seja o Brasil mais profundo, eterno, que se repete, independemente do regime.
Caí da cama e com cara de assustada, segundo meus amigos, parei na cantina do IEL. O pessoal da Matilha, o grupo de artistas queridos e amigos, ia se encontrar pra decidir questões internas, na cantina mesmo. Cumprimentei todo mundo e achei Daniel, amigo e colega antigo do IFCH. Estávamos sentados papeando, jogando conversa fora, quando de repente, em meio ao dia lindo, de céu azul resplandecente, passa uma viatura de polícia rumo ao DAC, invadido pelos meninos desde segunda-feira. A reitoria havia pedido reintegração de posse, que valeria a partir das dez. Peguei minha bolsa num pulo e eu e o Daniel corremos pra DAC.
Jornalistas, etc. Muita tensão. Muita mesmo, um grupo foi pra reitoria discutir. Conversamos com um colega e sentimos a ingenuidade no olhar dele ( "eles serão incacapazes de fazer o que fizeram na Unesp"). Não, farão outra coisa, imaginei: no site da universidade, no dia anterior, saiu um notificado da reitoria, repudiando a invasão e garantindo processos disciplinares contra os alunos responsáveis. Depois do abaixo-assinado de 300 professores repudiando as atitudes "violentas", esses processos, na CCG ( Comissão Central de Graduação) equivalerão a processos de expulsão. Por mais que não se concorde com as invasões, ninguém quer ver menino apanhando ou sendo expulso. Tive uma bad trip daquelas vendo a viatura na rodinha interna do Ciclo Básico, olha, faz tempo que a panda não fuma nada, mas tive uma bad trip que nem as dos tempos heróicos dos gramados do IFCH. Quando a gente imaginava, não vivia, uma situação dessas. Tristeza, revolta, discussões daquelas. Enfim, hoje me senti em Terra em Transe.

Wednesday, June 20, 2007

O rascunho do Mapa do Inferno


Sim, leitores. Dedico esse ao Celsíticus, que afirma em seu interessante bróugui gostar de Mapas. O meu favorito foi feito em pergaminho, no verso do Canto I da Comédia, pelo Botticelli. Atentem, esse negócio tem 32,5 cm por 47,5, têmpera, lápis e ponta de metal, e está na Biblioteca Vaticana.
O tiozinho barrilzinho efetuou um corte transversal no planeta Terra, que para ele e o Dante já era redondo fazia tempo. Quando de sua queda, Lúcifer abriu um buraco e parou no meio do planeta. O Inferno é um cone, dividido por terraços vamos dizer assim, onde convivem as almas danadas, demoninhos e monstros da Antigüidade. No segundo terraço, à direita, a cidadela do Limbo, extinguida pelo Ratzinger. Se vocês clicarem na imagem, verão alguns dos detalhes dessa maravilha. Ninguém pode reclamar, nem mesmo o Ratzinger, de falta de informação sobre o que nos aguarda no além.

Nunca é demasiado lembrar a passagem do Inferno para o Purgatório: Virgílio carrega Dante nas costas e desce no lombo de Satã, arragado aos seus pelos, enquanto o Tinhoso engole chorando, com suas três cabeças, Cássio, Brutus e Judas Iscariotes ( os dois primeiros de cabeça pra fora, o último com a cabeça na goela do Coisa-Ruim). O intrépido poetinha-profetinha dá uma cambalhota e os itálicos param literalmente do outro lado do mundo, no outro hemisfério. Dante olha pra cima e vê o Cruzeiro do Sul, e chega no Paraíso Terreal. Por essas e por outras que Americo Vespuccio e Cristóvão Colombo, também itálicos, acreditaram que estavam no Paraíso terrestre, depois de terem visto, ao sul do Equador, a cruz de estrelas. Para maiores informações, consultem o Serjão no seu Paradise Vision, ou aguardem a diligente e sempre furada tese da panda comentadora-mirim de Dante.


Volta à ágora

Segunda-feira, fui pra Unicamp. Encontrei alguns colegas sentados na cantina do IFCH, conversando com meninos da graduação, do movimento grevista. Daí, apareceu o Demônio, uma figura daquelas tipo figuras antigas da Unicamp, ou seja, totalmente doido. O cara tem um Landau cor de tijolo, interaço, e um Ray Ban legítimo anos 70, banhado a ouro. Papo vai, papo vem, fui pra minha terapia.

O SAPPE ( Serviço de Atendimento Psicológico e Psiquiátrico) da Unicamp fica na frente do prédio do Ciclo Básico II, onde era a DAC antigamente. A nova DAC, Diretoria Acadêmica, fica em frente. Entrei no CBII pra ir ao banheiro. Tinha uns neguinhos ali. Fui pra minha terapia. Quando saí, tinham invadido a DAC. Um grupo foi pra Reitoria, segundo eles, pra despistar a segurança, mas invadiram a DAC mesmo. E deu no portal Terra.

Ontem, parece que foi a assembléia dos funcionários, e eles em peso resolveram pela continuidade. Os professores voltaram. Os alunos querem pôr de novo barricadas no IFCH, Celo me informa pelo telefonema que todos os dias me acorda ( sim, todo dia acordo com alguém me ligando). Conversando com os meninos do IFCH na segunda-feira, percebi o que já havia mais ou menos sacado: reinvidicações justíssimas, idéias superficiais e um completo desconhecimento da chamada arena política. Uma combinação que pode ser perigosa, pra eles mesmos.
Continuo na posição que o que pedem é justíssimo, mas gente, invadir a DAC não vai fazer o reitor pressionar o governador. O Serra quer isso mesmo, baderna, pra poder se justificar perante a opinião pública, no próximo ataque via decretos, que não vai ser agora. Ele vai esperar a poeira baixar, e quando ninguém estiver vendo, assina mais um petardo contra a cidadela universitária. Eu sou da sincera opinião que precisamos arrumar outros jeitos de protestar. Chamar a Vai-Vai e fazer um desfile na frente do Palácio dos Bandeirantes é mais proveitoso, porque o Serra odeia samba. Eu tô falando sério.

Tuesday, June 19, 2007

Na raça

Uma vez eu vi um livro de culinária muito divertido. Era de um rapaz, tipo 20 anos, que criou o conceito de culinária "raçuda", que corresponde às situações do dia-a-dia do povo brasileiro: 25 neguinhos com fome na sua maloca e você só tem um ovo, você com fome e nada na geladeira, nada na despensa e nada no bolso, enfim, aquela coisa linda que todo mundo conhece.


Eu, como a maior parte dos brasileiros, nasci na pobreza. Graças a esforços descomunais dos meus pais e um momento histórico peculiar, passamos para a classe média-alta, que tá sempre na ameaça de despencar. Esse filme também é famoso, você tem casa própria, carro, paga plano de saúde e come bem, mas vive endividado e no final do mês não sobra nem a memória do salário. E dá graças a Deus porque sabe que 90% dos seus compatriotas gostaria de estar no seu lugar.
Enfim, mas também como todo mundo passo os meus apertos. Na época do Cebrap, eu não tinha como manter o apartamento, herdado do meu pai, pagar o ônibus e tudo o mais e ainda almoçar com os colegas em São Paulo. Daí eu fazia marmita mesmo, que dona Dalva e dona Elza esquentavam no microondas, e ainda me davam Coca-Cola de graça.
Hoje eu tô numa fase neo-pobre de novo, porque acabou a bolsa e eu tô vivendo de bicos e doações ( aliás, quem quiser colaborar com a campanha Panda Fashion 2007, eu mando o número da minha conta). Então eu tava com fome, nada no bolso. Tinha sopa de lentilha, comi, alguns morangos e mexericas. E pra janta? A fome de novo era muita. E tinha feijão. Botei o feijão de molho e depois na pressão, pensei, hoje vai ser o clássico sopa de feijão com macarrão.
A Yna me deu a cesta básica dela no mês passado, uma cesta básica ótima, com macarrão da Adria, doce de leite, um negócio espetacular. E tinha uma lata de sardinha Gomes. Fiquei com vontade da sardinha. Mas sopa de feijão com macarrão não combina com sardinha. Abri a geladeira pensando, o que que combina com sardinha? E tinha umas batatas já no segundo tempo na geladeira. Botei as batatas pra cozinhar. Pensei em azeite, do azeite alho, do alho cebola, cebola em Portugal daí resolvi fazer arroz. Entrei no msn e a Yna falou, olha só, um jantar luso. Então hoje teve arroz, feijão, batata e sardinha.
Outros clássicos da culinária raçuda da panda: omelete com cebola pedaçuda, mingau de aveia com açúcar mascavo ( o famoso mingau mulatinho. Se pôr uísque em cima, como os escoceses, vira algo digno das irmãs Brönte, mas aí é chique demais. A linha do raçudo e do chique, na culinária, é por vezes tênue), sopa de lentilha, farofa de raspinha de bife, pão amanhecido com manteiga Aviação na chapa, chá de camomila com biscoito Marilan, macarrão alho e óleo, pipoca e canja. Sim, canja de galinha, feita com resto de arroz e do frango. Todas essas receitas raçudas são baratas, fáceis de preparar e alimentam, porque comer faz bem e alimenta, ainda mais coisa raçuda.

Sunday, June 17, 2007

Ilma. Sra.

Eu hoje escrevi pra minha tristeza e disse a ela que não era possível continuar assim, dividida, machucada. Mandei um ofício em Sedex afirmando que tudo que eu poderia ter feito, fiz, e que o que não deu certo, tá certo, culpa minha foi, mas não toda e não inteira.

Eu hoje remeti um cartão postal pra minha melancolia, ouvindo Strangers in the Night, dizendo que o Frank podia ser picareta, mas quem não é quando se trata de amor, quem não trapaceia, quem não sofre. É melhor errar do que nunca ter vivido.
Eu hoje mandei carta expressa pro meu coração, pra ele bater mais forte porque eu preciso de mais sangue, mais oxigênio, que o que passou passou, e o que conta é o futuro, pra ele ficar de sentinela no posto mais avançado dos limites do meus territórios, mandei dizer que let it be, o que é do homem o bicho não come e todas as verdades do universo dos sentimentos, porque a vida taí, porque tem muita gente que me esquece mas muita gente me ama e no frigir dos ovos a a alegria é a prova dos nove, ainda mais com o Frank nos meus ouvidos.

O Sole Mio

Vamú combinar, não tem nada mais cafona do que a Itália. Não, gente, não tem: macarronada, chaveirinho da Torre de Pisa, o nariz da galera, música do Pepino di Capri, tudo é muito farofa. E as barraquinhas de bugiganga, que sempre tem uns aventais de cozinha com o Davi do Michelângelo superdotado? E as filas intermináveis pra ver o que é a Disneylândia do mármore?
Eu essa semana continuei minha saga tese, lendo sobre Guido da Pisa, comentador do tiozão narigudo e personagem já citado no Meio da Picada, ops, Caminho, e a relação entre Van Eyck e Masaccio, além de terminar e entregar dois pareceres de livros infanto-juvenis. A autora se chama Angela Nanetti, medievalista formada em Bolonha, e professora de crianças e adolescentes durante muitos anos. Nanetti passou a trabalhar, em 80, numa coleção de livros para filhos e netos de italianos no mundo, lançados pelo indefectível Ministério das Relações Exteriores, e depois passou a publicar vários volumes pela Einaudi. Ainda não tem nada dela publicado aqui no Brasil, e os dois livros que eu li são muito, muito bonitos.
Então eu acho que as digressões inglesas dos últimos dias foram uma resposta do meu subconsciente à invasão da esquadra azzurra na minha vida. Porque a Itália é cafona pra burro, mas vicia ( dizem os gringos que o Brasil desencadeia um processo parecido na mente do indivíduo).

Thursday, June 14, 2007

E se eu estivesse em Londres...

Veria o Clis, a Andréa e a Aemile, em primeiro lugar. E a gente passearia. Um amigo me disse que Londres é arborizada. Engraçado, sempre pensei que os ingleses tiveram tempo pra tudo, pra ferrar com o mundo todo, menos pra plantar árvores em sua capital.
Às vezes penso que a chuvosa, cara e com gente feia Inglaterra seria o meu habitat natural, bem como o Nepal e a Baixada Fluminense. Vamos dizer, a alma da panda é uma confluência de emoções contraditórias. Mas se eu me pilhasse em Londres, iria direto pra National Gallery saudar os Van Eyck ( tá virando obsessão) da vida.
E minha amiga mandou as fotos do passeio de domingo. Por essas e por outras entrei na comunidade, no Orkut, Sou bonito mas não sou fotogênico. Gente, odeio tirar foto. Não sei se vocês tem disso, mas toda vez que vejo uma foto minha penso, gente, se eu sou tão feia e gorrrrdinha assim, deveria andar com um saco de supermercado na cabeça por aí. Eu me olhando no espelho me acho até simpática, o povo elogia a panda, mas eu olhando as fotos da Ju penso, meu Deus, quéisso.
Hoje vou fazer meu primeiro tratamento de canal na vida. Tô com medo. No meio disso tudo abro o fatídico Portal Terra e tá lá, o presidente Lula falando que os brasileiros falam muito mal do Brasil. Porque será, né? E se eu estivesse em Londres, também ficaria triste com as notícias do caso Maddie. Rede de pedofilia pra milionários, é demais.

Wednesday, June 13, 2007

Melancolia e tendinite

E o Meio fez dois anos. O blog da panda também aniversariou, assim como o sr. Na Prática. A tendinite passou pra outra mão, consertei o vaso e hoje li um texto que trouxe de Pisa, pra tese.
Na qualificação, apanhei do Luiz ( Marques, ex-curador do MASP e ex-orientador dessa que vos fala) por conta de uma menção desastrosa da relação entre a chamada arte flamenga ( mais especificamente, a arte da corte do ducado da Borgonha, unidade política autônoma que correspondia à partes das atuais França, Holanda e Bélgica- leia-se Jan van Eyck) e a arte florentina, no século XV ( leia-se Fra Angelico, Fra Fillipo Lippi, tio barrilzinho, dentre outros). Como diria meu amigo Luís Fernando, o único Flamengo que ouvi falar foi o do Rio, no Carioca. Mas enfim, dentre outros temas tratados de forma desastrosa pela minha tese emperrada, um deles é o cruzamento da pintura à óleo que neguinho fazia ali por Bruges e a velha têmpera ( feita de gema de ovo, pigmento e cuspe) da italianada. Daí quando cheguei em Pisa, corri atrás de alguém que me salvasse desse pântano; achei dois belos livros sobre o tema, devidamente xerocados na velha abadia de San Matteo, que hoje é o Instituto de História das Artes da Universidade de Pisa.
Fiquei na cantina do IEL, porque a greve come solta, o dia estava muito bonito e eu fiquei lendo sobre os retábulos dos Medici e de como os narigudos resolveram copiar a arte de parte dos meus ancestrais. Aliás, outro dia por distração consultei, na BC, o Dicionário das Famílias Brasileiras. Os Vermeersch não constavam na relação ( família de imigrante, ali, tem no mínimo quatro gerações) mas a família da minha avó paterna, os Esmeraldo, sim. E pasmem, meus queridos amiguinhos, o patriarca dessa família foi Jan van Esmenaut ( flamengo de quatro costados), que em 1480 passou a viver na Ilha da Madeira, e a ser chamado, obviamente, João Esmeraldo. Os Esmenaut-Esmeraldo vieram dar no velho São Paulo do Piratininga, e meu bisavô, devidamente mulato, era funcionário da Leopoldina em Campos dos Goytacazes. Na narrativa de minha avó, esse pai aparecia pouco e eu tenho a impressão, hoje, de que ele não era de Campos ( provavelmente fosse filho de um Esmeraldo paulistano com uma escrava). Ou seja, a pequena panda seria conterrânea de Van Eyck e Vermeer de qualquer jeito.
Tudo isso pra dizer que estou melancólica pra burro, meu blog fez dois anos e eu amo arte flamenga.

Tuesday, June 12, 2007

Que seria de mim, meu Deus, sem a fé em Antônio

Hoje acordei naqueles dias campo de batalha. Sabe quando você acorda e precisa matar um leão? Lembro de um colega muito querido do Cebrap, Rodriguinho, que uma vez me disse: eu sei que você pra vir aqui precisa matar um leão por dia.

A outra privada, do outro banheiro, quebrou ( eu sei gente, parece piada, mas é a verdade). Tentei fazer de tudo pra consertar, porque senão seu Edmílson vem aqui e tira o vaso do lugar. Ano passado foi assim que o falecido vaso quebrou. Terminei e mandei por email dois pareceres pra editora. Daí precisei ir ao centro pra resolver coisas: SEDEX, banco, e tal.
No domingo, levei minhas amigas queridas e o Celo no Parque Ecológico. Pois bem, a gente se sentou pra apreciar a paisagem do lago, e depois de um tempão vimos a placa dos carrapatos ( eu sei, gente, tá cômico). Então fiquei com o pé cheio de picada. O único sapato confortável era o meu chinelo de crochê pink, que comprei na Renner por dez real. Enfiei o meu sapato pink e fui pro centro de Campinas. Gente, foi uma loucura, todas as negas, todas, todas, paravam e olhavam pro meu chinelo de crochê pink com uma cara de, meu Deus, o que é isso.
Fui almoçar no chinês mais vagabundo do mundo, o da Barão de Jaguara, e consegui pagar 2,70 no almoço. Depois, continuei andando na rua e a mulherada me encarando. Na frente da Catedral a surpresa, uma festinha de Santo Antônio, bandeirinhas coloridas e o mastro com os santos de junho. E um showzinho com uma dupla, os caras mandavam muito bem na viola, lindo demais. Adoro moda da viola. E eles tocavam umas músicas lindas, lindas. Simpaticíssimos. Entrei na Catedral e deixei minha esmola habitual na caixinha dos pobres de Santo Antônio, enquanto moças de todas as idades compravam velas decoradas com mini-rosas, do santo favorito das filhas de Eva. Tinha barraquinha de pastel, cachorro-quente, e os caras lá do palco "a ternura da minha paixão/ te amo/ te amo" e aquele som rasqueado de viola boa.
O meu coração serenou na viola e no mastro dos três. Então pra todos Feliz Dia dos Namorados, pãozinho com açúcar de Santo Antônio e moda de viola.

Sunday, June 10, 2007

Le déjeuner sur l'erbe


E construirei segredos

sobre a relva


Nua,

tudo falo



Estou na verdade, do momento,

tudo e mais um

pouco

existe,


e enfim estaremos sós

E a chuva de novo...

Ouço Eurythmics, Here Comes the Rain Again. Sou uma oitentista incorrigível. Já babou, datou, e como eu mesma disse um tempo atrás, até reportagem da Veja virou. E eu aqui de novo, ouvindo a Lennox pedindo pro cara falar com ela "like lovers do".
Esse feriado foi estranho. Eu tive muita, muita, muita cólica, e tinha muito, muito, muito trabalho a fazer. E o telefone tocando sem parar. Amigos, mãe, Celo, por increça que parível, querendo a companhia da velha, rabugenta e cada vez mais panda panda. Não tô exagerando na parte do trabalho. Eu peguei uns por fora, pra pagar minhas contas e o tratamento dentário. Esses por fora são trampos de tradução, parecer pra livro. O nobre idioma de Dante, falado por mim à la Adoniran Barbosa, tá me salvando, gente. Me sinto meio picareta porque nunca fiz um curso de italiano como se deve ( apesar da minha professoressa, Maria, ser muito boa, eu que era um traste), mas enfim. E a minha mesa da sala transborda das coisas da tese.
Revi uma grande e queridíssima amiga, que tá muito dodói. Isso foi triste. Revi a casa dela, muito querida por mim, porque há dez anos eu morei lá, e foi meio dolorido ver minha amiga abatida, preocupada, linda como sempre, mas abalada. Saímos, fomos almoçar em Joaquim Egídio, num lugar lindo, uma comida ótima, ontem eu comprei um bolo que ela gosta, umas flores, chamei um amigo que anda meio ausente porque também tem problemas. E minhas amigas me deram um LP. Uma obra de José Joaquim Emérico Lobo de Mesquita, o mais importante músico do XVII mineiro. É uma gravação de 1978, regida por José Siqueira. Negócio patrocinado pelo Banco do Brasil, e a capa é branca, com o rosto do Cristo da Crucificação, das Capelas de Congonhas. Outras amigas me emprestam a vitrola.
E eu ando atrapalhada. Confesso pra vocês, ando atrapalhada, tem horas que eu sinto uma dor, de não saber como agir, como crescer, melhorar, abarcar o que preciso. Renunciar a hábitos nocivos pra ir pra frente. Não sinto segurança em mim mesma, as mãos me dóem, tendinite. Não sei onde enfiei o tubo de pomada de arnica, rodo o armário atrás da luvinha indefectível, tenho medo do tratamento de canal que encaro essa semana, tive medo do tubo de Diabo Verde que tive que comprar, mas no final deu tudo certo. No final a chuva virá de novo. E eu pedirei o "like lovers do".

Thursday, June 07, 2007

Veja Henry Sobel roubando gravatas

Todo dia eu acordo, tomo um chá, um leite ou um café ( de acordo com a disposição de espírito), incluo fibras na minha alimentação ( na forma de pão integral e frutinhas, porque além de velha tô, digamos, gordinha) e sento no meu laptópero, o internacionalmente famoso Caronte ( apelidei o dito desse jeito em Chicago, Illinois, quando de uma tenebrosa noite que o filho da mãe travou e deu pau em todo mundo. O barqueiro do Inferno, Caronte, só dá pau no povo). Caronte está com uns probleminhas, programinhas chatos emperrandos e uma fotinha de Pisa como decoração.


E logo Caronte desemboca sua nau dos desencarnados no Portal Terra. Eu era assinante dessa porcaria de servidor, e não sei porque cargas d'água eu não mudei ainda a página inicial dessa joça. Porque o site do Terra me brinda todos os dias com as notícias mais esdrúxulas, sem noção e inúteis do mundo ( talvez seja por isso mesmo que eu não mudo essa porra). Hoje por exemplo. Você pode ver o vídeo, feito nas câmeras da loja Gucci em Miami, do rabino Henry Sobel afanando gravatas. Fica sabendo que os jogadores corintianos estão no treino, aprende a fazer vários e deliciosos quiches, e nota que o aeroporto de Guarulhos está com atrasos e filas. Lê que Dercy "não se arrepende de p***& nenhuma" aos 100 anos ( os asteriscos são do Terra. Nesse post a palavra porra já foi escrita e declamada com todas as suas letras. Aliás, depois conto pra vocês o incrível caso da panda demitida por ter falado a palavra porra. Mais uma vez, essa palavra apareceu!). E que Martinho da Vila lança CD e diz que o País passa um por momento melhor ( não sei porque, para o pessoal do Terra, País tem que vir em maiúscula).
Outro dia caí pra trás com a retumbante notícia que o vestido de casamento de Wanessa Camargo, da maison Calvin Klein e criação de um desses brasileiros que bombam o mundinho da moda fashion internacional, era igual ao que Christina Ricci ( é, a Vandinha da família Addams, que cresceu e ficou bem, digamos, jeitosa) usou numa première qualquer. E no dia seguinte, o estilista desmentiu isso, provando ( não sei como) que o vestido não era "clonado". Nunca vi disso, mas agora até vestido é clonado. Cuidado, crianças.
Esse mundo das "celebs"então é engraçadíssimo. Lindsay Lohan ( nunca vi uma película com essa moça, mas eu tô muito desatualizada culturalmente) sai com um rapaz que se auto-proclama viciado em sexo ( esperemos que seja viciado em sexo com a pobre Lindsay e não com suas amigas), Lindsay Lohan dirige embriagada e bate o carro em Los Angeles, acham pó no carro da moçoila, Lindsay Lohan vai pra clínica de reabilitação Promises, na praia de Malibu, a mesma em que Britney Spears, que por sua vez essa semana trocou de peruca umas quinze vezes, mas usou o mesmo chapéu de cowboy da grife que é mesma do sapato de jacaré manco de Paris Hilton, que por sua vez... é uma coisa formidável.
Também adoro quando o Terra me informa de excentricidades, nas seções Notícias, Mundo e Popular. Soube de uma família no Rio que quase enterra o corpo errado ( o sobrinho nervoso reconheceu o cara do lado na UTI. Detalhe, a família gastou pra fazer o funeral e o cidadão, sim, ainda estava bibo, como a gente fala em aula de espanhol). Uma menininha acha um diamante num parque nos EUA, um juiz de lá pede 54 milhões de doletas a uma lavanderia que destruiu sua calça, 855 mil celulares são jogados na privada na Grã-Bretanha por ano, e um chinês come sapos vivos porque diz que é saudável. Aliás, como notou faz tempo o pessoal da comunidade no Orkut "Anão vestido de palhaço mata 8 na Croácia" ( especializada em colecionar e anotar esse tipo de manchete retumbante), faz tempo que todas as notícias vindas da China vem com o número 27, ou com informações que qualquer um percebe que são erros de tradução, do mandarim pra qualquer uma das línguas faladas pelo resto da humanidade. E Paris Hilton saiu da cadeia depois de três dias, e lambida de vaca cura reumatismo.

Wednesday, June 06, 2007

Para ler os clássicos

Dr. ABC comentou sobre a presença, neste blog, do prof. Dr. Sérgio Salomé Silva, sambista, locutor da Rádio Muda, lenda viva e autor do clássico A expansão cafeeira e a origem da indústria no Brasil. Sim, há muitos anos privo da companhia de Sérgio, um monumento da Sociologia e principalmente do Carnaval brasileiros.
Em outra encarnação, a panda fã do tiozão narigudo ( que seria, nunca é demasiado repetir, absolutamente contra Ratzinger) foi socióloga-mirim. Celso lembra disso porque tava junto. Pois é, meus caros. Freqüentei com fervor o curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas. No segundo ano, indecisa, resolvi cursar as disciplinas dos currículos de Sociologia e Antropologia; as de Sociologia eram uma coisa. Tive Formação da Sociedade Brasileira e Pensamento Social do Brasil no mesmo semestre, respectivamente com o prof. Márcio Naves e a profa. Élide Rugai Bastos. Quem conhece os dois sabe o que foi o meu semestre: livros eram lidos de uma semana pra outra, assim, tipo, semana que vem discutiremos Raízes do Brasil. O curso do Márcio era um negócio de louco: lia-se Caio Prado, Celso Furtado, João Manuel, Fernando Novais inteiros, e quando chegou no final um livro que nunca esquecerei: Getúlio Vargas e o Capitalismo em Construção, de Pedro Cezar Dutra Fonseca. O cara destrinchou os discursos de Getúlio, fora de brincadeira, desde a formatura do vulto nacional no primário.
Mas eu fui fisgada pela área da Teoria, comandada pelo então recém-ingresso e sempre intrépido prof. Josué Pereira da Silva. Seguindo a tradição de Florestan Fernandes ( filho de lavadeira) e Gabriel Cohn ( de origem humilde também), o mestre Joshua veio de pau-de-arara da Bahia e no final doutorou-se em Nova York. Junto com o Fernando Lourenço, o Josué dava cursos ótimos que viravam a cabeça dos neguinhos.
No meu mestrado ( sim, porque a panda adentrou na pós-graduação na Sociologia) eu fiz um curso com o Sérgio. Eu já tinha lido o livro e uns artigos dele, da época em que a Sociologia brasileira era cravada por polêmicas. O Sérgio ministrava o curso de Sociologia Brasileira no maior esquema dolce far niente, e nós alunos o adorávamos. Realmente o cara é um monumento, dr. ABC. E eu vou contar a melhor história desse personagem.
Eu, por increça que parível, defendi uma dissertação sobre os textos de Adorno para uma obra coletiva chamada The Authoritarian Personality, publicada em 1951. Enfim, escrevi minha dissertação trabalhando como vendedora na Livraria do IFCH, da minha amiga Pri. Eu escrevia no velho micro da livraria, acompanhada pelo Benezinho do xerox, que infelizmente já não está mais entre nós. Benezinho, além de meu confidente e tirador de sarro mor, agüentava pacientemente minhas digressões sobre Adorno e minhas explicações sobre querelas sociológicas da década de 40. Já havia presenciado a expulsão de um cliente da livraria, pela vendedora irritada com o fato do cara ter dito "Bonitinha, você tem um livro do Adorno aí? Serve qualquer um porque o cara é uma bosta mesmo" e sempre me via adorando a fotinha do tio filósofo germânico, na capinha do Adorno da Ática, obra e graça de mestre Cohn.
Um belo dia acabei a dissertação. Benezinho tirava as cópias da minha obra, e eis que chega Sérgio. Mostrei a dita e o mestre se empolgou, me abraçou e deu parabéns, e me falou então, te conto uma história. Sérgio fez doutorado em Paris, e em 1968 ( pois é, mas ele é ainda jovem, crianças!) usava longos cabelos, uma longa barba, poncho mexicano e sandálias detonadas. Estava em flerte com uma pequena francesa, estudiosa de Literatura. A moça o convidou para um encontro na École des Hautes Études, durante um seminário sobre a vida e obra de Franz Kafka.
Sérgio de forma marota pensou em não assistir o aparentemente cacete evento, comparecendo apenas no refeitório da instituição para o almoço. Pegou a bandeija com a gororoba, o lugar cheio, e não viu a amada. Apenas avistou um lugar vazio diante de um senhor baixinho, baixinho, careca, de tweed. Tinha uma cratera diante do tiozinho, e Sérgio se aboletou na frente. O senhor sorriu amavelmente e eles começaram a conversar. O tiozinho perguntou se Sérgio era aluno École, e ele disse que sim e tal, o tio, de que área, da Sociologia responde Sérgio. O senhor, com sotaque forte no francês, sorriu e disse que era professor de Sociologia. E aí perguntou, mas você está no congresso sobre Kafka? Agora leitores, cortem e pensem na pequena panda ouvindo a história meio entediada no xerox do IFCH.
Sérgio falou pro senhor que não estava no congresso, que só tava ali pra paquerar uma francesinha gatinha, gostosinha e tal. O tiozinho riu e falou, essas francesas, essas francesas, e os dois começaram a discorrer sobre as, digamos, particularidades das moças da França ( dentre os tópicos, a tendência das conterrâneas de Robespierre a terem, digamos, comissões de frente com formas atraentes). Depois do papo animado, o senhor se despediu e Sérgio continuou pensando no objeto do seu desejo despreocupadamente. Notou depois de certo tempo que as pessoas ao redor olhavam pra ele espantadas, e uma moça perguntou sem jeito, mas sabe, ninguém teve coragem de sentar na frente dele.
Benezinho nessa hora da narração se escondeu debaixo do balcão do xerox. E nessa hora Sérgio lasca que o tiozinho era, sim, ele próprio, Theodor Wiesengrund-Adorno. Eu tive um ataque de asma e Sérgio começa a rir, acrescentando que o povo do bandeijão da École não acreditava na façanha daquele ser de poncho e sandália que, sem mais nem menos, havia almoçado e falado besteiras com dr. Adorno, o conferencista convidado do evento sobre Kafka.
Sérgio, nessa hora bestificado, adentra no auditório onde Adorno iria discorrer sobre o escritor tcheco, e o homem lá de cima dá um tchauzinho pro nosso mestre. Eu engasguei e Benezinho durante anos me lembrava o episódio, acrescentando que eu tantas vezes havia censurado a leitura comentada da Playboy do mês no balcão do xerox, em nome da filosofia do Adorno, sendo que o próprio, pelo visto, não passava incólume aos sempre delicados papos de macho. O lindo é que Sérgio finalizou sua emocionante narrativa dizendo que, durante um bom tempo, teve que pensar como contaria ao mestre Gabriel o seu encontro com Adorno.
Detalhe, ontem Sérgio nos confidenciou que a nova edição de Para ler os clássicos, coletânea de Marx, Weber e Durkheim organizada por Gabriel, hoje diretor da FFLCH Terra em Transe, sairá com um CD de brinde, com os sambas-enredo dos três grandes da nossa tão amada disciplina. O do Durkheim está em fase de preparação e Sérgio aceita sugestões. Eu dei a minha: o refrão poderia ser: "É anomia na avenida ÊÊÊ/ É anomia na avenida ÁÁÁ/ Mas o que conta é a emoção/ E o fato social no coração", algo assim.

Tuesday, June 05, 2007

L'amore che muove il sole

E hoje eu encontrei, no almoço de sempre da cantina do IFCH, prof. Sérgio Silva, velho companheiro de guerra. E ele me lembrou que messer Durante Alighiero, na Vita Nuova, afirma que é do signo de Gêmeos. Logo, no longínquo ( bota longínquo nisso) 1265, nascia, da família descendente de um guerreiro alemão, às margens do lamacento Arno, o tiozão mais querido da panda aqui.
Quem lê esse meu blog, que existe há dois anos ( sim, nesse junho aniversaria além do Celo e do tiozão da Commedia, este Caminho do Meio, ops, Meio do Caminho) sabe que eu tenho algumas "paixões". Já escrevi sobre amigos, Celo, ursos panda, Bruce Springsteen, cerveja Guiness, sobre Pisa e Chicago, dente quebrado, assalto, fiz exorcismos, enfim, uma variedade. Mas nunca falei sobre Dante, só passando rápido.
Não preciso falar pra vocês o quanto eu amo Dante. Eu sou fã do cara e pronto, ele pra mim é o máximo. Giovanni Bocaccio conheceu o poeta maior da Itália e assim o descreve: moreno, muito moreno ( o pessoal na rua passava e brincava: e aí, tio, você se queimou no Inferno?), barba espessa, olhos negros, queixada de dar medo e um nariz... que como disse o Leo aí, outro dia, que era uma verdadeira obra de arte. Apesar do ar sério e bravo e de ser, digamos, esteticamente desfavorecido, segundo Bocaccio, no exílio, o viúvo de Gemma Donati fazia muito sucesso com a mulherada, e por elas era disputado a tapas. E ironicamente, segundo ele, amou uma mulher que uma vez lhe recusou o cumprimento, e que morreu muito jovem, muito, muito jovem.
Foi exilado da terra amada, segundo ele próprio, por uma acusação injusta; perdeu tudo que tinha, foi torturado e condenado à morte. Enfrentou o exílio na companhia dos filhos, que o amaram e protegeram, e respeitaram.
Morreu na imperial Ravenna. E os filhos comentaram e copiaram a Comédia, que virou o primeiro best seller, na acepção moderna do termo. Todo mundo na Itália queria uma Commedia, todo mundo queria comentar, ilustrar, entender, declamar em praça pública o monumento que muitas vezes seria comparado a uma gloriosa catedral ( um feito que antedeceu, digamos, o de Brunelleschi e a cúpula mágica do Duomo da rica, orgulhosa e arrependida Florença). Porque essa catedral, além de bela, era obra de um homem, para todos os homens. Um homem que escreveu sobre suas dores, sem medo, um homem imenso, mas um homem.
Bibliotecas e bibliotecas se escreveram e se escrevem sobre Dante. Mas todo mundo concordou e sempre concorda num ponto: Dante conversa com o leitor de um jeito que parece que é próximo, íntimo, de todos. Porque é sincero, não esconde suas mágoas, seus sofrimentos, sua raiva e medo, orgulho e limitação. Quis encontrar com Virgílio e Beatriz. Eu não sei se o Inferno, o Purgatório ( extinto pelo nosso glorioso papa, que Dante atacaria sem sombra de dúvida, junto com o Limbo, onde estava Virgílio e o povo da Antiguidade) e o Paraíso são do jeito que Dante os descreveu. Não sei se existe vida após a morte. Só sei que o amor move o sol, e as demais estrelas do meu ínfimo e ignorante coração, por esse homem imenso e digno de estar onde está, por séculos e séculos.

Monday, June 04, 2007

É pique, é pique

E hoje, no meio dos problemas, o Celo faz aniversário. Ele me pediu um post de presente. Então lá vai.


Celo, desde que a gente se conheceu, há muitos e muitos anos atrás, você conquistou um terreno no meu coração com seu jeito meigo e doce de me olhar, e de ser meu amigo nas piores horas. Além de ser arqueológo, tio do Murilo, do Felipe e da Nina, primogênito da dona Ana e queridinho da dona Nair, além da tia Berna, você muitas vezes transformou meus dias em algo alegre, quando eu mais precisei. Às vezes as pessoas entram na nossa vida sem avisar. Um final de tarde na Unicamp e eu empilhava livros na sempre mal arrumada livraria do IFCH. E você se sentou num banquinho e um mundo se abriu pra mim.
Mesmo nas horas mais difícieis, e que foram tantas nos últimos anos, e mesmo nos momentos em que tudo pareceu desmoronar, por um triz o seu sorriso e sua doçura me convenceram de que nesta vida é possível a compreensão, o carinho e o bom humor. Você me salva do pior que há em mim, do meu lado negro da Força, e me fez acreditar na capacidade das pessoas crescerem e se tornarem melhores. Nesse seu aniversário, desejo o melhor da vida pra você.... e que você continue na estrada comigo, porque sem você acho que ficaria triste demais.

Problemas e suas soluções

Como narro pra vocês faz tempo, a minha vida tem sido uma corrida de obstáculos.


Tento resolver da melhor forma possível, mas às vezes não consigo. Ontem à noite, fiz uma panela de pipoca. Estou aqui nas minhas pipocas domingueiras, o dente que quebrou ano passado, quebrou na frente. Sim, estou com um pré-molar com um buraco digno das festas juninas. Fiquei chateadíssima, chorei, chorei. Só não fiquei pior porque na Praça é Nossa virtual aparece Vivi, com um primo dentista e o link praquele vídeo infernal do Bátimam na Feira da Fruta. Com certeza vocês já viram isso, mas acreditem, eu não tinha visto, e no frio de ontem eu passei mal de tanto rir, com dente quebrado e tudo.
Hoje vou ao dentista primo da Vivi. Tô com medo, canal e restauração, e eu não tenho dinheiro nenhum. E hoje é minha primeira sessão no SAPPE. Outro problema resolvido, a terapia. Eu fui num psicanalista que além de desbaratinar minha cabeça ainda queria me cobrar muito mais que o dentista provavelmente cobrará.
A privada quebrada consertei, eu tive que comprar outra. Paguei não se sabe como IPVA e outras despesas do carro, como as quatro multas que levei nas costas quando o Celo estava no hospital. E ainda teve Celo no hospital. Eu não sou muito boa de resolver problemas. Estou devendo pra C&A e pra Renner e ainda preciso consertar a porta do motorista, uma batida do lado do carona e o protetor de carter caído, além de trocar o óleo do carro. E consertar a tese. E limpar a casa. Sei lá.

Sunday, June 03, 2007

Discussão de chão de oficina

Eu acampei os textos da tese na sala e no escritório continuei a luta com o Caderno de Imagens. Hoje conversei um pouco com Yna e Natália, tomando Earl Grey, sobre os percalços dessa empreitada tese. Eu ataquei os capítulos todos juntos e isso causou grande confusão mental; decidi que essa semana eu me concentrarei em um, depois no outro, e la nave va. Então decidi apresentar pra vocês o sumário da minha tese:
O título da maledetta é Considerações sobre os Desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia. Porque realmente ela é um amontoado de considerações não muito consideráveis, mas melhor um punhado de hipóteses que se sabem furadas do que duas ou três certezas arrogantes ( bom, isso é um consolo meu). Os capítulos são:
I) “Cosa maravigliosa”
A idéia é rascunhar uma breve apresentação dos desenhos e da bibliografia a respeito, começando pelos dois documentos renascentistas que falam desses desenhos, feitos na ponta de prata, em pergaminho, que hoje se dividem entre Roma e Berlim ( a maior parte em Berlim). Falo um pouco do que seria ilustrar a Comédia, nos séculos XIV e XV, e do debate sobre a obra do tio barrilzinho. Esse debate contém o que seria, digamos, a metodologia desse desastrado estudo. "Cosa maravigliosa"é a expressão utilizada pelo Anônimo Magliabecchiano ( um cara que deixou uma miscelânea, num manuscrito, nos idos de 1540, sobre arte florentina) e Giorgio Vasari para falarem dos desenhos de messer Sandro.


II) “Maravigliosa inventione”
O comecinho dessse capítulo está publicado aqui no Meio. É a história da primeira edição florentina da Comédia, datada de 1481, e que contém gravuras que possuem estreita ligação com os desenhos de Botticelli, e o comentário erutido e enciclopédico à obra de Dante, escrito por Christoforo Landino, reitor da Academia da cidade no período e figura de proa do tal neoplatonismo ( "os alquimistas estão chegando, estão chegando os alquimistas"). Então se fala da relação dos desenhos com as gravuras da edição, da relação dos desenhos com o Commento de Landino ( numa primeira abordagem tosca e insuficiente, que será destruída pela banca) e da ligação de Landino com os outros comentadores de Dante ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com bronquite, na Torre da Fome de Pisa), e aqui entram Guido da Pisa, Jacopo della Lana, Benvenuto da Ímola, Guido da Polenta, dentre outras personalidades de vulto (???) na tradição de leitura, estudo e comentário do poema do tiozão narigudo. Como a edição de 1481 foi uma bomba nesses debates, termina-se o capítulo com a influência desta nas edições posteriores ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com dor de dente, na Newberry Library e na Notre Dame University, com vinte e cinco negativos e nevascas). A expressão do título é de Landino, em seu Commento, nomeando o personagem que surge agora.

III) “Lo mio duca, il famoso saggio”
Agora o crème de la crème. A panda discorre sobre o personagem Virgílio, em Dante. Sim, o guia do tiozão em sua emocionante excursão entre diabinhos, monstros da Antiguidade e o mais tenebroso de tudo, conhecidos florentinos. A caracterização do poetinha-profetinha, por Botticelli, é colocada em perspectiva com seus antecedentes e contemporâneos iconográficos. Suas roupinhas chamam a atenção pelo exótico e pelo tom bizantino ( São Paulo Fashion Week perde) e isso vai contra as linhas de Landino sobre o herói que salva Dante dos perigos ( principalmente dos buracos que infestam o reino de Lúcifer). Isso intrigou a panda. E eu descobri que na verdade o tio barrilzinho cita o Manuscrito de Guido da Pisa, o que encerra um emocionante debate (???) sobre o Brasileirão, ops, sobre o que seria um comentário à Comédia. O título é como o tiozão chama o poetinha-profetinha.


IV) “La fiera con la coda aguzza”
Não satisfeita em colecionar poetas da Antiguidade, profetas do Antigo Testamento, figurantes na Crucifixão e Santa Ceia e demais personagens de manuscritos, moedas, capitéis de colunas e desfiles de escola de samba, como os antológicos concursos de fantasia do Hotel Glória, eu ainda colecionei monstrinhos da Antiguidade. O meu favorito é o Gerião, rei da Espanha que alimentava seus bois com a carne de seus hóspedes, monstro de corpo tríplice que foi um dos antagonistas de Hércules em seus trabalhos. Dante não conhecia os vasos atenienses nem parte da fachada da Acrópole, onde o gigante triplo aparece, e Virgílio na Eneida só diz que o corpo era triplo. Dante preencheu essa forma tripla ao seu gosto, e nos Cantos XVI, XVII e XVIII do Inferno, Gerião dá uma carona pros poetas. Todos os ilustradores deliberadamente não seguem Dante: só o tiozinho barrilzinho leu lá na Comédia e seguiu direitinho a receita do monstrinho. Mais antecedentes e contemporâneos e mais discussão com Landino. De novo o título vem do Dante, que chama Gerião desse jeito simpático aí.


V)“L’occhio abbraccia la bellezza”
Bom, o Landino, no seu Proêmio ao Commento, fala dos artistas, mortos no momento que escreve, de Florença, e cita Plínio e sua Historia Naturalis. Uma teoria sobre as artes figurativas se desdobra. Mas, como vimos, o tiozinho barrilzinho tava em outra, discordando deliberadamente do comentador. Como messer Sandro não deixou nada do próprio punho ( diz Vasari que ele escreveu um comentário à Comédia, mas até o presente momento ninguém achou nada disso), eu considerei que o tiozinho barrilzinho pensou que seu comentário fosse imagético mesmo, figurativo. Ele cita, em forma de imagens, o debate dos comentadores sobre os personagens e processos narrativos de Dante. Esse negócio de palavra e imagem, em Florença de fins do século XV, interessou a um dos contemporâneos de Botticelli, o moço com quem ele dividiu a aprendizagem e a cara-de-pau intelequitual: messer Leonardo ataca, e seu paragone ( a disputa) entre Poesia/Pintura (primeira parte do seuTratado da Pintura) que destrói a visão clássica do assunto, toma conta dos meus aforismos maluquetes. Botticelli seria um comentador de Dante? Como isso se explica? O título é de Leonardo, afirmando a superioridade da pintura sobre as demais artes.

VI) “L’alta fantasia”
Ou O Retorno de Jedi. Cansado, o leitor é convidado ainda a incursionar mais uma vez pelo Commento de Landino, pelos desenhos de Botticelli, e ver que em Florença do século XV tudo virava afresco ou comentário ao Dante. Mesmo que a historiografia tradicional ache que os artistas do período eram uns zambrões, que só serviam pra fazer obras bonitinhas que viram pôsteres ou livros do Dan Brown. O título vem do Purgatório, porque já é hora do poetinha-profetinha, o tiozão narigudo, o tiozinho barrilzinho,o senhor de Vinci, os alquimistas e a panda sairem das valas do reino de Lúcifer e montarem uma banda de rock.

VII)Anexos ( ou ai, que cacete!)
VII-a)Caderno de Imagens
Melhor dizendo, um Power Point emperrado que ora conta com 120 figurinhas ( tá na metade)...

VII-b)Incunabula brasiliana
E não desligue agora! Ainda tem mais! Você leva de brinde duas edições renascentistas da Comédia! A panda encontrou duas, sim, DUAS edições renascentistas da Comédia no Brasil. E aí eu dou a notícia dos livros e falo da história deles. Do Renascimento aos dias de hoje! Uma pechincha!!!!!! Ligue djá!

Saturday, June 02, 2007

Delenda Carthago

E como diria Cícero, quanto ao resto penso que Cartago deve ser destruída. Especialmente para os meus leitores Na Prática, Pererê,Quintus Fabius Pictor e Deborah, os sequilhos da esquadra cartaginesa:
SEQUILHOS ( receita da senhora responsável pela cozinha do IEL):
1 ovo
1/2 xícara de chá de óleo
7 colheres de sopa de açúcar
1 pitada de sal
2 xícaras e meia de chá de polvilho doce
1 colher de chá de fermento
Bata todos os ingredientes com o mix ( chamado varinha de condão pelos portugueses, esses eternos românticos). A massa ficará meio gordurentinha, e firme. Corte como nhoques, e afunde um garfo em cada um, decorando. Asse por 15 minutos, aproximadamente, em forno baixo, sem precisar untar a forma. Dá uma assadeira grande e outra pequena. A grande ficou embaixo, no forno, os sequilhos ficaram perfeitos. Já os de cima cresceram um pouquinho demais e demoraram mais pra assar. A saída seria assar, na parte de baixo do forno, cada assadeira por vez. Os sequilhos ficam muito bons!

Friday, June 01, 2007

Do trabalho e dos dias

Tese. Caderno de Imagens. Tenho umas cem imagens pra nomear, pôr na ordem, comentar. E ainda falta a metade. Fiz tudo num Power Point, porque realmente, travar o Word é de lascar. Trabalhei em pequenos trechos essa semana. Eu costumo ler trechinhos em voz alta, e vejo se está com uma sonoridade boa. Vejo onde faltam notas, essas coisas. Mas vai tudo muito lento, muito, muito, muito lento. Gostaria de ir mais rápido. Fiquei meio deprimida porque li num post de fevereiro que eu estava empacada na página 200, e vocês não acreditam, desde então eu mais cortei e arrumei que avancei.
Frio. Muito frio. Eu dormi com um edredon, dois cobertores, um pijama, duas meias e um pulôver que uma amiga comprou num brechó, e eu herdei. Sonhei que estava diante de uma casinha muito velha, mas muito bonita, mas era uma casinha muito velha com o formato do prédio do SAPPE (???). Alguém me mostrava a primeira edição do livro de um cara que eu acho o máximo, e tinham uns bonequinhos na capa. Pois bem, o cara saiu do prédio: era a casa dele. Levei um susto, fiquei envergonhada e quis fugir subindo no telhado ( ???). Mas eu me desequilibrei, e caí. O telhado era baixo, e ele me amparou, num abraço. Acordei quentinha. Bom levar um abraço fraterno, de quem a gente admira, no frio.
Os sequilhos fizeram um sucesso danado, acabaram antes da vontade de todos. Ontem uma sacanagem foda deixou de acontecer no IA, isso porque acordei e vi que o Serra havia modificado os decretos. E hoje fiz panela de brigadeiro, pra ornar com a sopa de legumes com macarrão cabelo de anjo.
E uma amiga muito querida me contou que, quando a coisa ficou muito preta depois de uma separação, ela foi morar nuns prédios que existem quase na baixada do Glicério, em São Paulo. Esses prédios ficam numa rua, chamada Almeida Torres, se não me engano. É um conjunto imenso, feio, construído pela Oban na década de 70 ( caixotões). Os prédios tem nome de óperas do Carlos Gomes, incluindo as de temática italiana. São cubículos, e alguns nem janela pro exterior têm; essa minha amiga é pintora e tem dois gatos. Eram ela, os gatos e os óleos que nunca secavam. Ela resolveu namorar um cara. O cara, de cueca, ia pro banheiro, de cimento queimado: esbarrou num óleo vermelhão, a cueca sujou de tinta, o cara quis lavar e ficou rosa. Detalhe, era casado o sujeito. E ela pra se desafogar das mágoas, leu numa revista um dos jantares do Titanic, e resolveu torrar todo o dinheiro que tinha e que não tinha e fez pra amigos queridos o jantar do Titanic ( foie-gras, vinhos, ensopado, terrina de pato, etc e etc). A gente riu muito, e um amigo que estava presente ( na conversa e no jantar Titanic) confirmou todas as histórias e ainda acrescentou uma teoria: Eu não posso, mas mereço.
Fiquei emocionadíssima com as histórias da minha amiga. Porque nesses prédios, durante anos, moraram meus avós, depois que um AVC tirou a capacidade do seu Armando de lavar escadas, no alto do Cambuci, perto de Alfredo Volpi e onde a panda deu seus primeiros passos.

Wednesday, May 30, 2007

Novo irmão, SAPPE, sequilhos, tese... e Rubem Braga

Então. Eu fui almoçar com minha mãe e meu irmão no sábado, e perguntei do novo irmão. Minha mãe visitou um abrigo de uma cidadezinha pequena, do sul do estado, divisa com o Paraná. Ela foi pra lá porque seu namorado tem um sítio lá, e conhece algumas pessoas da cidade, incluindo o juiz, que adotou uma menininha desse mesmo abrigo.
Minha mãe levou lanchinhos pra todos, presentinhos, essas coisas. A casa, segundo ela, é muito boa, construída para essa finalidade, e por ser cidade pequena, as crianças são muito bem cuidadas: três mulheres cuidam delas full-time, e o promotor é a figura paterna, vamos assim dizer. Enfim, as crianças conversaram com ela, interagiram e tal, mas ela se encantou com uma pequena criatura por nome Samuel, dois anos. Este Samuel estava com febre, tomando seu mingau sozinho no refeitório. Viu minha mãe e o namorado, se empolgou, e mostrou pessoalmente seu berço e seu ursinho de pelúcia, que ele rouba na cara dura da maiorzinha, chamada Paula. Ou seja, um cara de iniciativa! Finalmente alguém de iniciativa entraria nessa família! Minha mãe ficou envorvida com essa pessoa. Mas meu irmão, imitando a iniciativa do Samuel, veio pessoalmente do Rio, largando as plataformas da Petrobrás, pra dissuadi-la do projeto Bebê Vermeersch 2007. O almoço na minha mãe foi uma guerra de trincheiras: meu irmão já tinha feito o serviço de desestimulá-la a seguir em frente ( porque o processo de adoção demora meses... inclui muitas visitas, entrevistas, o caramba a quatro) e eu entrei dando um Chuck Norris, falando pra continuar e tal e que esse Samuel estava dando bobeira de ser tão fofo assim, e impunemente! Não pode!
Hoje vou almoçar de novo com minha digníssima genitora, que aniversariou inclusive, e continuarei minha campanha de reforço ao supracitado projeto. Digo a vocês que isso incendiou minha eterna vontade de ser mãe, e se minha mãe demorar muito, eu vou lá e pego o Samuel pra mim. E fica tudo em família, né verdade?
Na segunda-feira, enfrentei uma entrevista no SAPPE, o serviço de atendimento psicológico da universidade. Eu tô na luta por uma terapia há tempos; tentei ir num profissional listado pelo meu convênio, mas o tosco, além de me falar barbaridades, queria cobrar os olhos da fuça. O que causou uma depressão da qual ainda padeço. Faz umas três semanas, batendo papo com uma amiga, ela me conta que faz terapia no SAPPE, e que era muito bom e tal. Ela me convenceu e foi comigo até lá. Assinei a lista de espera e segunda-feira, entrevista.
Na semana que o Celo estava no hospital, vocês imaginam que eu estava muito mal, e fui duas vezes numa coisa muito, muito legal que tem no SAPPE: pronto-socorro! Sim, pronto-socorro de maluquinhos ( o que mais tem na Unicamp)... em dois horários por dia, sempre tem profissionais muito bons lá. A minha experiência foi muito positiva, pelo menos. E depois da entrevista de segunda, eu consegui uma vaga no SAPPE! Fiquei feliz ( pra vocês verem o tamanho do buraco da toca da panda, ficar feliz porque conseguiu terapia!) e me senti muito melhor.
Tanto me senti melhor que fui dar uma caminhada ontem, e parei no Pão de Açúcar. Fiquei duas horas na parte dos temperos ( a minha parte favorita), e fiz sequilhos. Ficaram bons os meus sequilhos, eu peguei a receita de uma senhora que trabalha no IEL. A única hora em que me atrapalhei foi pra cortar, eu passo a receita pra vocês, tem que cortar como nhoque. Comprei Earl Grey e Ahmad English Breakfast, e os sequilhos ficaram bons com o chá com leite.
Pra terminar, peguei emprestado e agora leio um volume com 200 Crônicas do Rubem Braga. É interessante, no início o velho Rubem era muito simbolista... todo mundo morria e/ou sofria nas crônicas, uma fixação por morte bem século XIX. Depois o bichão pegou o jeito e é aquele esplendor que todos conhecem. Isso me salvou da notícia horrível da morte da moça grávida e seu bebê, baleada em Santo André. Muita bala perdida, vocês não acham? Muita arma por aí. Um minuto de silêncio pela Flávia Silveira e seu bebê, diria o velho Rubem.

Tuesday, May 29, 2007

La maravigliosa inventione

Hoje voltei pra minha velha companheira, a tese. E mais um trechinho pra vocês, do segundo capítulo:


"No dia 30 de agosto de 1481, um livro terminou de ser impresso, na prensa de um editor que se assinou Nicholo di Lorenzo della Magna, em Florença. Era a primeira edição florentina da Comédia de Dante, denominada de Divina por Giovanni Bocaccio e lida com devoção nos quatro cantos da Itália, em dois séculos de ampla divulgação, estudo e comentário.
No caso, a iniciativa editorial de Nicholo della Magna era dupla: o livro também era a primeira edição do Comento de Cristoforo Landino ao poema de Dante, e de uma carta laudatória de Marsilio Ficino. Outro fator diferencial eram as ilustrações que sairiam, acompanhando Canto por Canto, em calcografias, tornando o incunábulo a primeira edição ilustrada da obra de Dante e de um seu comentário.
Porém, a oficina de Nicholo della Magna encontrou dificuldades nas tarefas, e só conseguiu imprimir as duas primeiras gravuras nas páginas correspondentes; até o Canto XIX do Inferno, as demais foram impressas separadamente e o conjunto era colado aos exemplares, em espaços em branco.
Dos exemplares que existem, a maior parte não possui as gravuras coladas[1], como é o caso do existente na Newberry Library, em Chicago. Já o depositado na Biblioteca da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, é um desses raros exemplares completos.
A edição florentina de 1481 correspondeu a uma operação múltipla: lingüística, política, cultural, artística, da república medicéia. Florença acalentava pretensões de hegemonia, e como se sabe, uma hegemonia não se constrói com palavras, mas com ações: centro financeiro da Europa,a cidade abrigava projetos políticos ambiciosos, tanto nas mãos dos Medici quanto nas de seus opositores internos e externos[2]."

[1] Os dois exemplares consultados para esta tese.
[2] Da família Medici sairam dois papas e duas rainhas da França; e nunca é demasiado lembrar que Nicolau Maquiavel era um desses opositores.

Monday, May 28, 2007

La Vie en Rose

Uma vez, uma amiga muito querida que agora está em Paris, e estudava francês com afinco, me disse que ficava meio farta de Edith Piaf. Posso entender. Mas como eu não sei falar nada de francês, e tenho uma certa antipatia relativa pela nação da Marselhesa ( digamos que na Guerra dos Cem Anos eu ficaria com o povo da ilha), antipatia que demoraria muito pra explicar e que é totalmente subjetiva e nó-cega, eu hoje vou da vida em cor-de-rosa.
Quando era criança, não gostava de nada rosa. As fotos da minha infância, que repousam hoje na estante bagunçada da minha sala, nos álbuns, atestam que a pequena e então jovem panda não usava nada, nada, rosa. É interessante, porque já faz alguns anos que a indústria da moda decidiu que, para menininhas, tudo vai em rosa: roupinhas, sapatos, brinquedos, tudo, tudo vai do pink ao rosa esmaecido. Seria meu pesadelo.
Mas agora, esse ano, como diz Nenem, é o meu début na literatura francesa. Virarei personagem de Balzac. E começo a entender as minúcias de sentimento do rosa, e gostaria de ver a vida em rosa. Hoje eu vi a vida no azul profundo do céu invernal campineiro, vi o verde e as tonalidades da terra roxa do Oeste paulista, vi cinza, mas senti uma coisa rosa dentro de mim. Me espanta que alguém ainda me leia, eu ando tão sem imaginação que sempre uma música detona o post. Um beijo a todos, cor-de-rosa, como um algodão-doce em Montmartre, com alguém especial ao lado, na primavera de Paris.

Saturday, May 26, 2007

Concerto de Bradenburgo, no.2 in F, BWV 1047, Allegro

Ontem foi péssimo.

Quer dizer, a confusão começou antes de ontem. Um amigo muito querido me ligou e a gente conversou. Ele me contou que há dois anos atrás, mais ou menos, sofreu um acidente de carro e quase morreu. Detalhe, o cara nunca me disse nada. Fiquei atrapalhadíssima, tive uma insônia do cão neste frio infernal ( segundo Dante, nunca é demasiado repetir, no fundo do Inferno faz um frio da porra).
Ontem acordei mal, mal, mal, meio-dia. Paulo me liga e diz que estava do lado de um urubu ( sim, um urubu) e do piquete da greve no IA. Celo me liga e diz que Cássio e Ângela, queridíssimos, estavam no Desencontro ( ops), Encontro de História da Arte, com Helena e André ( as pessoas boas se multiplicando, com a graça de Deus). Helena vestida de vermelho querendo ver tia Paula.
Deitei e rezei. Levantei e fui me arrumar. Um desastre fashion ( como diz Jujuba, estou fashion- fashion os olhos), troco e troco de roupa e nada fica bom. Troquei de roupa n vezes. Meus casacos uma mixaria, os pulôveres desbeiçados e a gordurinha da panda, uma derrota. Mas a derrota maior veio depois: eu consegui perder as chaves de casa e do carro DENTRO de casa. Sim, meus caros: eu tirei o chaveiro da porta, e enfiei no bolso de um dos casacos, que foi rejeitado e jogado no armário. Derrota máxima da esquadra canarinha. Duas horas, e eu baixei a casa, e nada da chave. Chorei desesperada.
Cheguei atrasada, Helena não estava mais lá ( e pra minha derrota me contaram que minha amiguinha subiu no carro reclamando da tia panda). Chorei, chorei. Fui pro Celo. Ligo no Eduardo e ele me dá as piores notícias possíveis do Piratininga, que nunca é lá essas coisas, mas agora superou. Fui nas meninas, o point casa amarela, e chorei, chorei. Natalinha como sempre aponta a questão, e Jujuba contribui para o debate acertadamente. Panda no divã, vai ser a nova moda do momento. Não posso querer correr a maratona com as duas pernas quebradas.
Mas hoje eu estou mais calma. Sabe, gente, eu tenho alguns problemas emocionais sérios, como todo mundo, questões mal resolvidas, e algo muito dolorido, quebrado, no fundo de mim. Mas hoje fazia um céu azul tão aveludado, e fui almoçar a comidinha da minha mãe ( carne moída, arroz integral, feijão, farinha por cima, brócolis e cenoura... e doce de mamão-verde de sobremesa, tudo feito por ela), e voltei e o velho mestre Johann Sebastian, sua mente devota e radiosa, seu amor à vida e sua alegria, sua delicadeza e engenho, me trazem até vocês. Sei que é pecado misturar Bach e doce de mamão verde, céu azul e tristeza, trauma e felicidade. Hoje farei morangos com creme no jantar.

Wednesday, May 23, 2007

Begin the Beguine

E hoje eu lembrei da noite no Green Mill, em Chicago. O bar da amante do Al Capone.


As luzes vermelhas no moquifo sem restauração. E no fundo, espremida num espaço mínimo, uma big band endemoniada. E velhinhos contemporâneos do Capone rodopiando no salão, enquanto eu fiquei na mesa, tomando uma Guiness e morrendo de vontade de dançar.
E um velhinho daqueles bem velhinhos tirou uma senhorinha pra dançar. O swing rolando e o velhinho pra lá e pra cá, no ritmo, sem perder nenhum movimento nem momento daquela transa toda. E eu ali olhando, lembrando dos velhinhos que ensinavam a gente a dançar forró na Cooperativa, os senhores alagoanos simpaticíssimos que não deixavam a gente parada, que tinham pegada e olho certo no lance.
O velhinho fez uma coisa inacreditável, um carinho lindíssimo nas costas dela, uma delicadeza de gesto, e eu pensei que os homens são admiráveis, quando tratam bem uma mulher. E dá-lhe Porter, e tudo isso pra dizer que hoje pensei que existem coisas muito, muito, muito, muito boas na vida.

Ágora

E hoje é a paralisação estadual das universidades paulistas.

Acompanhei a situação meio de longe. Sim, o atual governador é uma figura autoritária e quer derrubar o modelo de universidade pública paulista. É necessário o posicionamento, a luta, a oposição, e sim, momentos de paralisação e greve.

Mas o debate anda concentrado nisso e ponto. Vi os emails de colegas da pós-graduação do IFCH, e um colega insiste no fato de que a greve é legítima. Sim, é legítima e não funciona, podem me dizer, você é uma burguesa alienada e idiota. Mas não funciona mais. A festa libertária dos anos 60 e 70 já acabou. É necessário reinventar as formas de fazer política.
Seria uma, ao invés de fechar a biblioteca, abri-la 24 horas. Pegar um ônibus, encher de gente da cidade, quem quisesse, e fazer aulas pro público, explicando o que se faz na universidade, de forma aberta, original, colorida. É necessário ler, estudar, conversar. Maquiavel, Hobbes, Marx, Gramsci, Hannah Arendt, Camões, sem preconceito, sem barreiras. Grupos de estudo, muitos grupos de estudo. Revidar na argumentação, piquete na frente do Palácio dos Bandeirantes, pressão na Assembléia Legislativa. Mas eu acho muita coisa esquisita. Sou uma burguesa alienada.

Monday, May 21, 2007

Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco

Tô sonada aqui, no CPD do IEL, e daqui a pouco saio.

Chega ao fim o Sentinela, do Milton. E lá no fim tem essa canção, com voz da Leila Diniz. E me veio à consciência sobre o que eu queria escrever, hoje.


Fiquei sabendo que uma figura que simpatizo demais está meio doente, no sábado. Achei triste. Porque tem pessoas que me deixam sem chão, porque tem pessoas que me são muito queridas, e ponto. É uma coisa sem lógica, eu simpatizo com alguém, eu me simpatizo. Se a pessoa tem um olhar, um jeito de franzir o nariz. Tem pessoas que são uma delícia, né? Gente que eu gostaria de chegar e dizer, você pra mim é um bolo de fubá! Com café preto bem forte! Você pra mim é um biscoito de polvilho bem torradinho! Chegar na pessoa e dizer na lata, meu filho ( minha filha), eu tenho vontade de você, como tenho vontade de chupar manga na beira de um rio! Na verdade, isso pode ser uma plataforma política. Chegue em quem você simpatiza e diga, você pra mim é isso. Leila Diniz diria.

Prioridades

Hoje acordamos cedo e viemos pra Unicamp. Os meninos, pro Encontro, e eu pra tese. Chegando lá, na correria, as meninas da História da Arte me pedem uma ajuda, pra coordenação das mesas.
Não costumo falar não, tento sempre arrumar um jeito de ajudar, mas dessa vez, não deu. Eu larguei o espanhol definitivamente, não fui fazer a prova nem nada, porque essa semana eu tenho duas prioridades. Uma nem precisa dizer que é a tese. Hoje, aqui no IEL, ouvindo o Sentinela, do Milton, pego no breu e termino a arrumação da bibliografia, passando pra reconstrução do segundo capítulo. São seis capítulos, com quatro itens cada. Dois capítulos ainda estão no chão, e os outros já estariam, vamos dizer, na fase do acabamento.
A outra prioridade é meu tratamento dentário no CECOM. Preciso arrumar meu dente quebrado. Sei que é esdrúxulo botar tratamento de dente na frente de Encontro da disciplina, mas é que realmente é uma emergência. Sei que é de um prosaico atroz priorizar tratamento de dente, faxina, cozinhar, coisas que permeiam o blog aqui, mas fazer o quê?
Queria fazer mais. Hoje fui atrás do povo na BC ( o Encontro tá rolando lá) e passei pela livraria. Tanto tempo não ia numa livraria. Vários lançamentos me chamam a atenção, estou bem desatualizada em tudo. Pego um livro por acaso, um livro de historiador, e sinto que minha tese é muito, muito ruim, perto do trabalho do cara. Ingênua, ruim, não vai interessar a ninguém; por um instante penso em mudar tudo, em fazer tudo do zero, diferente.
Depois, me chama a atenção uma biografia do Leminski. No meu primeiro ano de Unicamp, comprei o La vie en close, uma coletânea póstuma linda, linda, da Brasiliense, com capa amarelo-ovo, na banquinha de livros do IEL. A cantina do IEL era onde hoje está o Centro de Afasia: era uma delícia esperar a carona da minha mãe ali, lendo Leminski. Talvez foi o cara que mais me fez a cabeça, em poesia; leio na biografia a luta dele contra o alcoolismo, a morte por cirrose, o destrambelhamento e a largueza de alma. E fiquei pensando, ler Leminski era uma prioridade máxima pra mim, do meu primeiro ano lembro mais do Leminski do que as coisas que eu lia pro curso de Sociais. Na época, eu queria fazer mais, tinha uma sede de viver maior que as pernas; na manhã de hoje isso me incomodou, eu que havia guardado vontades e desejos no fundo das gavetas, na faxina do sábado.

Sunday, May 20, 2007

Tese, Encontro de História da Arte... e faxina

Os últimos dias foram engraçadíssimos.

Na quinta-feira eu mostrei a fuça do Dante pro Sterzi, o cara que mais entende de Dante na terra brasilis, e ele rolou de rir. Na sexta-feira, falei de Leonardo da Vinci pro primeiro ano das Plásticas. Falei pros meninos que sempre se diz, Leonardo gênio do Renascimento. Pois então, gênio é um conceito do século XVIII alemão e Renascimento pressupõe o estudo dos autores e da arte antiga ( Leonardo não cita nenhum autor antigo nos seus escritos e rejeita terminantemente a escultura).
Fui no supermercado sexta-feira à noite. Estava pensando na fragilidade da vida e na perda da inocência, e o que me salvou dessas reflexões doídas foi ficar na frente da TV de plasma, com o carrinho, vendo um clipe do U2 ( os velhos irlandeses... como se eu estivesse reencontrando parentes). No sábado, acordo com a vozinha da Natália, num orelhão. As meninas foram operar o Alfredo Volpi, o gatinho bola-de-neve que adotaram, numa clínica aqui perto. Um monte de gatinhos esperando adoção ( a crueldade das pessoas com os bichinhos é impressionante). Quase trouxe um pra casa, um simpático, todo branco com o rabo preto ( que eu chamaria de Adoniran, seguindo o esquema paulistano-tosco-artista-esse sim gênio). As meninas vieram, veio Ema, e no meio liga dona Meire, minha genitora, chorando desesperada porque ia no abrigo escolher o meu novo irmão.
Depois, encarei uma das piores faxinas que o apartamento 53 deste edifício já conheceu. Nove da noite e eu em pleno lerê lerê, esfregando azulejos e dando um Chuck Norris na cozinha. Acordo hoje, com dor no ciático e na lombar, detonada, termino de arrumar a toca, vou pra Barão comer o risoto de rúcula e tomate seco da dona Ana Maria. Deito, um pouco, e chegou Juam, de Mariana, pro Desencontro (ops!) de História da Arte, que acontece, apesar da greve, essa semana no IFCH. Chá, depois pizza e vinho, e aqui vão dois links.
Primeiro pro blog do Juam, http://descontinuados.blogspot.com/, bonito e sensível, como ele, que orgulhosamente apresento como meu primeiro orientando ( por vontade própria dele, olha que fenômeno). Depois pro Encontro, http://maccouto.sites.uol.com.br/. O Encontro é anual, não foi desmarcado por conta da greve no IFCH porque é nacional e gente do país inteiro aparece. Eu quero postar sobre a situação política atual, da universidade pública paulista, mas agora essa dor no ciático tá me matando. Ou seja, vita brevis, meus caros, vita brevis.

Thursday, May 17, 2007

Onde o sonho mora

E a semana passou rápido, tese, tese, passou rápido, encontramos o Leo hoje na cantina do IEL e eu me espantei por já ser quinta-feira.

Cheguei em casa, tocou o telefone. Era minha mãe. Eu havia combinado de almoçar com ela, essa semana, mas tudo passou rápido. E ela, eu queria te ver pra te contar uma coisa.

Desde que eu sou muito pequena, ouvia minha mãe contar de um desejo forte, imenso, de adotar uma criança. Ela dizia que queria um menininho, pra completar o casal que quis ter e teve. Bom, os anos se passaram, tantas coisas aconteceram na nossa família, coisas lindas e coisas muito tristes, como em toda a família. E esse desejo da minha mãe continuava, de vez em quando ela falava disso, para ataques de ciúme do Celo, meu irmão.
No Natal passado, ela montou uma árvore de dois metros, cheia de enfeites da Kopenhagen, e de novo, pro desespero do meu irmão, falou do baby que queria trazer pra casa. Pois bem. Minha mãe achou um abrigo, com seis crianças, à espera de adoção. Essas crianças estão lá, esperando. E minha mãe está esperando em casa. Não consegue dormir direito, não sabe o que pensar, só pensa nas seis vidinhas lá, longe, num abrigo, sem família, esperando uma mãe. E quem sabe uma irmã de trinta anos, panda-comentadora de Dante.
Eu falei pra minha mãe, hoje, vai lá, mãe. Quem sabe, lá nessa cidadezinha do sul do estado, uma estrelinha espera o lar, o nosso lar.