Wednesday, June 27, 2007

Il buono incantatore

Ontem chorei muito.

Eu não tava percebendo a extensão da vala das almas danadas em que tava metida, nos últimos tempos. Quer dizer, eu comecei a me aperceber faz tempo, e daqui eu enviava confusas queixas, às vezes. Mas ontem eu comecei a me dar conta de umas coisas. Difícil.


Eu tenho amigas e amigos maravilhosos, que sempre tão me dando toques e etc, ontem não foi diferente. Depois das meninas, fui buscar o Celo. Fomos, eu e Celo, numa médica veterinária, tirar dúvidas sobre a criação do Adoniran. Eu só tive um bichinho uma vez na vida, o gatinho, também encontrado nas ruas de Barão, Téo. Téo era um companheirão, mas virou gatinho-anjinho logo, por conta do meu despreparo na época, além de ser muito foda, em geral, ter bichinhos em Barão ( o pessoal dirige ao encontro da morte, larga ninhadas inteiras na rua, além de ser comum as pessoas cansarem dos seus pets, como se diz hoje em dia, e largarem eles por aí, em qualquer lugar). A doutora gentilmente esclareceu nossas dúvidas, e informou que pelo comportamento, Adoniran é extremamente carente. Que ele estava aprontando pra chamar a atenção e protestar contra as estadias na área de serviço. Ontem liberamos a casa inteira pra ele, e foi aquela noite, ele se muvucando comigo na cama nas piores posições ( pra mim, obviamente) e o medo eterno do xixi e cocô nos lugares mais impensáveis. Mas até agora ele vem se comportado bem.
Fomos na Cobasi também, e lá eu pirei. Não sabia que existia tanto consumo, e tão diferenciado, para bichos de estimação hoje em dia. Tem de um tudo, rações pra gatinhos de todas as idades, caminhas fantásticas, torres e arranhadores bacanérrimos. Comprei um produto pra desmarcar lugares de xixi e cocô indevidos, um brinquedinho com arranhador e um spray de catnip, a tal erva-dos-gatos. Trouxe toda empolgada o peixinho-arranhador pra casa e ele nem tchuns. Prefere a velha bolinha de papel e um ratinho de pelúcia seu companheiro.
Mas voltando, talvez seja bom tudo isso. Eu não podia mais esconder certas coisas, varrer pra debaixo do tapete certos problemas que preciso enfrentar. Inclusive os problemas da tese. Esses dias foram de leitura intensiva do material que eu trouxe de Pisa e que coletei no JSTOR. Li algumas coisas mas o melhor de tudo foi uma das rimas de messer Durante Alighiero ( conhecem? Um poeta novo, tá estourando aí nas vanguardas, hihihihi). A tradução é minha, o artigo é FATA, Frank. Some elements in the Genesis of A Renaissance View of the Divine Comedy, in MLN, vol.87, no.1, The Italian Issue ,jan.1972, pg.28:
"Guido, eu queria que tu e Lapo e eu
fôssemos alvo de um encantamento
e colocados num barco, que com todo vento
navegasse pela tua vontade e minha;
e assim a sorte ou outros tempos ruins
não pudessem nos dar impedimento,
assim, vivendo sempre na alegria
de estar junto com o nosso desejo crescente,
E monna Vanna e monna Lagia depois
com aquela que está sobre o número de trinta
com nós colocassem o bom mago:
e assim vivêssemos sempre de amor,
e todas vivessem felizes
assim como acredito que seríamos nós"
Guido é Guido Cavalcanti, amigo dileto do poeta. Aquela sobre o número de trinta é Beatriz, talvez uma referência a família dela, algo assim, sei lá. Lapo outro amigo, e assim os comentadores do Renascimento, homens que insistiam no amor casto e puro de Dante por Beatriz, seriam facilmente rebatidos. Na carta que Dante escreveu a Cangrande della Scala, mercenário que governava Verona e que o recebeu no exílio ( e Verona, além de ser a pátria de Romeu e Julieta, guarda a glória de ser a terra que recebeu o grande vate na lida de escrever a Comédia), Dante informa que todo texto tem vários significados: o literal ou histórico, o moral, o anagógico ou relativo aos fins últimos, retomando uma tradição do século anterior, do método de leitura e interpretação das Sagradas Escrituras. O que é revolucionário é que Dante propõe o mesmo método para sua Comédia, e informa que a escreveu como as Escrituras ( daí vem uma discussão tenebrosa sobre como um homem, leigo, pecador, pode ter tido a Revelação divina).
Nos textos que estou lendo, os autores concordam num ponto: os comentadores renascentistas, na defesa apaixonada de Dante, insistiram no sentido alegórico, metafórico, para não cair em discussões embaraçosas, que no limite levariam à acusação de heresia ( por exemplo, como o amor profano, mesmo que impossível, mas marcado por um forte desejo carnal, de Dante por Beatriz, poderia ser a possibilidade de salvação para a alma de alguém? E o que dizer da presença, no Paraíso Terrestre, de um poeta pagão e homossexual;Virgílio se cala durante o diálogo de Dante com seu mestre de Latim, Brunetto Latini, que arde nas areias escaldantes do reino de Lúcifer, onde se encontram os sodomitas).
No caso, aqui, essa rima seria um problema, porque esse sonho de felicidade marítima, da plenitude do desejo, da alegria de se viver livre junto aos amigos e amantes, e esse mago ( il buono incantatore), isso tudo me consola e me traz perto do que eu queria, também.

7 comments:

Anonymous said...

Só um comentário, quinhentista, ele. "Navegar é preciso, navegar não é preciso". Quinhentista, direis? E desde quando FP é contemporâneo do Mestre Camões. Acho que desde o momento em que ele compôs este verso. Pelo menos em espírito.

See ya!

Anonymous said...

PORRA! Navegar é preciso, viver não é preciso, obviamente. Estou tão esclerosado quanto Catão, o Velho. (Que o diabo o tenha na companhia do Rev. Fowler e do Tinker Winker.)

Maria said...

FP? Quem é FP, bravo Pictor? Os que vão morrer te saúdam!

Anonymous said...

ok, je 'tambíen' vous salue, Marie. FP é, obviamente, Fernando Pessoa, ou Fernandinho PP (Portuga Pessoa) na língua do tráfico.

Skywalker said...

Hmmm... Talvez pudessemos dizer melhor: Fernandinho Beira-Tejo, para não confundir com o outro, Beira-Mar... O que acham?

Ehehe...

QVINTVS FABIVS PICTOR said...

haha gostei Young Skywalker. Muito bom, padawan. Agora, medo, raiva, ao lado negro essas emoções levam...

Maria said...

Outro dia li no Orkut de uma colega que ela tava pensando muito em terminar o doutorado, porque os jedis são mestres. Não é coca-cola mas é isso aí!