Wednesday, June 06, 2007

Para ler os clássicos

Dr. ABC comentou sobre a presença, neste blog, do prof. Dr. Sérgio Salomé Silva, sambista, locutor da Rádio Muda, lenda viva e autor do clássico A expansão cafeeira e a origem da indústria no Brasil. Sim, há muitos anos privo da companhia de Sérgio, um monumento da Sociologia e principalmente do Carnaval brasileiros.
Em outra encarnação, a panda fã do tiozão narigudo ( que seria, nunca é demasiado repetir, absolutamente contra Ratzinger) foi socióloga-mirim. Celso lembra disso porque tava junto. Pois é, meus caros. Freqüentei com fervor o curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas. No segundo ano, indecisa, resolvi cursar as disciplinas dos currículos de Sociologia e Antropologia; as de Sociologia eram uma coisa. Tive Formação da Sociedade Brasileira e Pensamento Social do Brasil no mesmo semestre, respectivamente com o prof. Márcio Naves e a profa. Élide Rugai Bastos. Quem conhece os dois sabe o que foi o meu semestre: livros eram lidos de uma semana pra outra, assim, tipo, semana que vem discutiremos Raízes do Brasil. O curso do Márcio era um negócio de louco: lia-se Caio Prado, Celso Furtado, João Manuel, Fernando Novais inteiros, e quando chegou no final um livro que nunca esquecerei: Getúlio Vargas e o Capitalismo em Construção, de Pedro Cezar Dutra Fonseca. O cara destrinchou os discursos de Getúlio, fora de brincadeira, desde a formatura do vulto nacional no primário.
Mas eu fui fisgada pela área da Teoria, comandada pelo então recém-ingresso e sempre intrépido prof. Josué Pereira da Silva. Seguindo a tradição de Florestan Fernandes ( filho de lavadeira) e Gabriel Cohn ( de origem humilde também), o mestre Joshua veio de pau-de-arara da Bahia e no final doutorou-se em Nova York. Junto com o Fernando Lourenço, o Josué dava cursos ótimos que viravam a cabeça dos neguinhos.
No meu mestrado ( sim, porque a panda adentrou na pós-graduação na Sociologia) eu fiz um curso com o Sérgio. Eu já tinha lido o livro e uns artigos dele, da época em que a Sociologia brasileira era cravada por polêmicas. O Sérgio ministrava o curso de Sociologia Brasileira no maior esquema dolce far niente, e nós alunos o adorávamos. Realmente o cara é um monumento, dr. ABC. E eu vou contar a melhor história desse personagem.
Eu, por increça que parível, defendi uma dissertação sobre os textos de Adorno para uma obra coletiva chamada The Authoritarian Personality, publicada em 1951. Enfim, escrevi minha dissertação trabalhando como vendedora na Livraria do IFCH, da minha amiga Pri. Eu escrevia no velho micro da livraria, acompanhada pelo Benezinho do xerox, que infelizmente já não está mais entre nós. Benezinho, além de meu confidente e tirador de sarro mor, agüentava pacientemente minhas digressões sobre Adorno e minhas explicações sobre querelas sociológicas da década de 40. Já havia presenciado a expulsão de um cliente da livraria, pela vendedora irritada com o fato do cara ter dito "Bonitinha, você tem um livro do Adorno aí? Serve qualquer um porque o cara é uma bosta mesmo" e sempre me via adorando a fotinha do tio filósofo germânico, na capinha do Adorno da Ática, obra e graça de mestre Cohn.
Um belo dia acabei a dissertação. Benezinho tirava as cópias da minha obra, e eis que chega Sérgio. Mostrei a dita e o mestre se empolgou, me abraçou e deu parabéns, e me falou então, te conto uma história. Sérgio fez doutorado em Paris, e em 1968 ( pois é, mas ele é ainda jovem, crianças!) usava longos cabelos, uma longa barba, poncho mexicano e sandálias detonadas. Estava em flerte com uma pequena francesa, estudiosa de Literatura. A moça o convidou para um encontro na École des Hautes Études, durante um seminário sobre a vida e obra de Franz Kafka.
Sérgio de forma marota pensou em não assistir o aparentemente cacete evento, comparecendo apenas no refeitório da instituição para o almoço. Pegou a bandeija com a gororoba, o lugar cheio, e não viu a amada. Apenas avistou um lugar vazio diante de um senhor baixinho, baixinho, careca, de tweed. Tinha uma cratera diante do tiozinho, e Sérgio se aboletou na frente. O senhor sorriu amavelmente e eles começaram a conversar. O tiozinho perguntou se Sérgio era aluno École, e ele disse que sim e tal, o tio, de que área, da Sociologia responde Sérgio. O senhor, com sotaque forte no francês, sorriu e disse que era professor de Sociologia. E aí perguntou, mas você está no congresso sobre Kafka? Agora leitores, cortem e pensem na pequena panda ouvindo a história meio entediada no xerox do IFCH.
Sérgio falou pro senhor que não estava no congresso, que só tava ali pra paquerar uma francesinha gatinha, gostosinha e tal. O tiozinho riu e falou, essas francesas, essas francesas, e os dois começaram a discorrer sobre as, digamos, particularidades das moças da França ( dentre os tópicos, a tendência das conterrâneas de Robespierre a terem, digamos, comissões de frente com formas atraentes). Depois do papo animado, o senhor se despediu e Sérgio continuou pensando no objeto do seu desejo despreocupadamente. Notou depois de certo tempo que as pessoas ao redor olhavam pra ele espantadas, e uma moça perguntou sem jeito, mas sabe, ninguém teve coragem de sentar na frente dele.
Benezinho nessa hora da narração se escondeu debaixo do balcão do xerox. E nessa hora Sérgio lasca que o tiozinho era, sim, ele próprio, Theodor Wiesengrund-Adorno. Eu tive um ataque de asma e Sérgio começa a rir, acrescentando que o povo do bandeijão da École não acreditava na façanha daquele ser de poncho e sandália que, sem mais nem menos, havia almoçado e falado besteiras com dr. Adorno, o conferencista convidado do evento sobre Kafka.
Sérgio, nessa hora bestificado, adentra no auditório onde Adorno iria discorrer sobre o escritor tcheco, e o homem lá de cima dá um tchauzinho pro nosso mestre. Eu engasguei e Benezinho durante anos me lembrava o episódio, acrescentando que eu tantas vezes havia censurado a leitura comentada da Playboy do mês no balcão do xerox, em nome da filosofia do Adorno, sendo que o próprio, pelo visto, não passava incólume aos sempre delicados papos de macho. O lindo é que Sérgio finalizou sua emocionante narrativa dizendo que, durante um bom tempo, teve que pensar como contaria ao mestre Gabriel o seu encontro com Adorno.
Detalhe, ontem Sérgio nos confidenciou que a nova edição de Para ler os clássicos, coletânea de Marx, Weber e Durkheim organizada por Gabriel, hoje diretor da FFLCH Terra em Transe, sairá com um CD de brinde, com os sambas-enredo dos três grandes da nossa tão amada disciplina. O do Durkheim está em fase de preparação e Sérgio aceita sugestões. Eu dei a minha: o refrão poderia ser: "É anomia na avenida ÊÊÊ/ É anomia na avenida ÁÁÁ/ Mas o que conta é a emoção/ E o fato social no coração", algo assim.

8 comments:

Na Prática said...

Paulinha, esse post é um clássico, e não só por deixar claro que o Adorno gostava de peitão (hoje mesmo vou comprar a Dialética Negativa, para lê-la sob nova luz). Eu sempre achei que quem gostava de peitão era o Horkheimer, mas vejo que estava errado em minha leitura.

Em primeiro lugar por que nunca é demais reiterar que o Josué é o cara - sempre que eu disser uma coisa e ele outra, acreditem nele.

E, em segundo lugar, pela sessão nostalgia. Faz uns meses, fui no IFCH, de noite, ver um negócio na biblioteca, e voltei pra SP no mesmo dia, rapaz, casa é casa.

Agora: o que houve com o Bené?

André said...

Grande história do Sérgio Silva, hein? Parece então que ele é uma figuraça, que não se importa muito com o cerimonial na hora que encontra com um figurão...

Mas esse que eu acho que é o espírito. Tem gente que treme nas bases quando vai falar com uma grande personalidade, fica todo cheio de frescura e tal... no fim, acaba se esquecendo que quem ali está também é uma pessoa!

Nunca vi uma figuraça como o Adorno por aí (só figurinhas menores, como o Sayad, o Delfim, etc), mas se vir puxarei um papo no estilo Silva de ser!

Bj!

Leo said...

Otima historia mesmo Paula. Eu ate ja estive com figuroes, mas tremi nas bases como todo mundo. No meu caso foi Chomsky. Eu e meus colegas de departamento nao fizemos uma unica pergunta ao homen. Mas WTF voce vai perguntar pro Chomsky? Mas se eu pudesse contar as historias do meu ex-orientador, que e' razoavelmente conhecido na minha especialidade, seriam quase tao boas quanto essa. Ah, fui tambem a uma palestra do Clinton, mas ai nem se voce tentar voce chega perto.

Maria said...

Agradecida pelos comentários, sempre generosos, dos meus queridos leitores!


Então, Celsítico. Entendo, casa é casa mesmo. E o IFCH mudou pra pior, na minha opinião, mas pode ser que eu esteja ficando velha, como você bem diz lá no Na Prática.

O Benêzinho nos deixou no início de 2004, em janeiro. Teve um longo e sofrido câncer. Mas notem, esse é o Benê baixinho, o que ficava no xerox do seu Luís. Porque o povo sempre confunde com o Bene do xerox da biblioteca, esse tá lá firme e forte, junto com Dete e o próprio seu Luís.


Dr. ABC, o Sérgio é um vulto nacional. É por essas e outras que ele é esse vulto, pela irreverência mas sobretudo pela capacidade de mandar bem nas mais variadas situações.

E Léo, imagino, esses figurões sempre são motivo de histórias engraçadíssimas, ou trágicas, de acordo com o ponto de vista. Mas de fato tem gente que é figurão e vai no bandeijão, e gosta de mulher peituda. E tem gente que nem figurão é e que fica se achando. E vice-versa. Tem de tudo nesse mundo!

Maria said...

E Dr. ABC, eu quando tinha dois, três anos, espancava a televisão sem dó nem piedade quando o dr. Delfim aparecia ( isso denuncia a minha idade, eu sei, mas tá todo mundo velho também). Não sei porque mas eu batia no Delfim na capa da Veja ( na época, era uma boa revista, e quem era de esquerda era de esquerda. Faz tempo mesmo, mas não é delicado perguntar a idade à uma dama)... beijo!

Anonymous said...

Oi querida.
Linda sua versão do encontro Silva-Adorno!!! Amei, chorei de rir nessa segundona pós-feriado.
Beijinhos da terra do sol.

Maria said...

Hahahaha, 'Sérgio não é ótimo, Dani? Beijossss!

Skywalker said...

Bom, eu não sou figurão e também gosto de peitão... ehehehhe

Join the club!!!

hihihihi