Eu acampei os textos da tese na sala e no escritório continuei a luta com o Caderno de Imagens. Hoje conversei um pouco com Yna e Natália, tomando Earl Grey, sobre os percalços dessa empreitada tese. Eu ataquei os capítulos todos juntos e isso causou grande confusão mental; decidi que essa semana eu me concentrarei em um, depois no outro, e la nave va. Então decidi apresentar pra vocês o sumário da minha tese:
O título da maledetta é Considerações sobre os Desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia. Porque realmente ela é um amontoado de considerações não muito consideráveis, mas melhor um punhado de hipóteses que se sabem furadas do que duas ou três certezas arrogantes ( bom, isso é um consolo meu). Os capítulos são:
I) “Cosa maravigliosa”
A idéia é rascunhar uma breve apresentação dos desenhos e da bibliografia a respeito, começando pelos dois documentos renascentistas que falam desses desenhos, feitos na ponta de prata, em pergaminho, que hoje se dividem entre Roma e Berlim ( a maior parte em Berlim). Falo um pouco do que seria ilustrar a Comédia, nos séculos XIV e XV, e do debate sobre a obra do tio barrilzinho. Esse debate contém o que seria, digamos, a metodologia desse desastrado estudo. "Cosa maravigliosa"é a expressão utilizada pelo Anônimo Magliabecchiano ( um cara que deixou uma miscelânea, num manuscrito, nos idos de 1540, sobre arte florentina) e Giorgio Vasari para falarem dos desenhos de messer Sandro.
II) “Maravigliosa inventione”
II) “Maravigliosa inventione”
O comecinho dessse capítulo está publicado aqui no Meio. É a história da primeira edição florentina da Comédia, datada de 1481, e que contém gravuras que possuem estreita ligação com os desenhos de Botticelli, e o comentário erutido e enciclopédico à obra de Dante, escrito por Christoforo Landino, reitor da Academia da cidade no período e figura de proa do tal neoplatonismo ( "os alquimistas estão chegando, estão chegando os alquimistas"). Então se fala da relação dos desenhos com as gravuras da edição, da relação dos desenhos com o Commento de Landino ( numa primeira abordagem tosca e insuficiente, que será destruída pela banca) e da ligação de Landino com os outros comentadores de Dante ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com bronquite, na Torre da Fome de Pisa), e aqui entram Guido da Pisa, Jacopo della Lana, Benvenuto da Ímola, Guido da Polenta, dentre outras personalidades de vulto (???) na tradição de leitura, estudo e comentário do poema do tiozão narigudo. Como a edição de 1481 foi uma bomba nesses debates, termina-se o capítulo com a influência desta nas edições posteriores ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com dor de dente, na Newberry Library e na Notre Dame University, com vinte e cinco negativos e nevascas). A expressão do título é de Landino, em seu Commento, nomeando o personagem que surge agora.
III) “Lo mio duca, il famoso saggio”
Agora o crème de la crème. A panda discorre sobre o personagem Virgílio, em Dante. Sim, o guia do tiozão em sua emocionante excursão entre diabinhos, monstros da Antiguidade e o mais tenebroso de tudo, conhecidos florentinos. A caracterização do poetinha-profetinha, por Botticelli, é colocada em perspectiva com seus antecedentes e contemporâneos iconográficos. Suas roupinhas chamam a atenção pelo exótico e pelo tom bizantino ( São Paulo Fashion Week perde) e isso vai contra as linhas de Landino sobre o herói que salva Dante dos perigos ( principalmente dos buracos que infestam o reino de Lúcifer). Isso intrigou a panda. E eu descobri que na verdade o tio barrilzinho cita o Manuscrito de Guido da Pisa, o que encerra um emocionante debate (???) sobre o Brasileirão, ops, sobre o que seria um comentário à Comédia. O título é como o tiozão chama o poetinha-profetinha.
IV) “La fiera con la coda aguzza”
Não satisfeita em colecionar poetas da Antiguidade, profetas do Antigo Testamento, figurantes na Crucifixão e Santa Ceia e demais personagens de manuscritos, moedas, capitéis de colunas e desfiles de escola de samba, como os antológicos concursos de fantasia do Hotel Glória, eu ainda colecionei monstrinhos da Antiguidade. O meu favorito é o Gerião, rei da Espanha que alimentava seus bois com a carne de seus hóspedes, monstro de corpo tríplice que foi um dos antagonistas de Hércules em seus trabalhos. Dante não conhecia os vasos atenienses nem parte da fachada da Acrópole, onde o gigante triplo aparece, e Virgílio na Eneida só diz que o corpo era triplo. Dante preencheu essa forma tripla ao seu gosto, e nos Cantos XVI, XVII e XVIII do Inferno, Gerião dá uma carona pros poetas. Todos os ilustradores deliberadamente não seguem Dante: só o tiozinho barrilzinho leu lá na Comédia e seguiu direitinho a receita do monstrinho. Mais antecedentes e contemporâneos e mais discussão com Landino. De novo o título vem do Dante, que chama Gerião desse jeito simpático aí.
V)“L’occhio abbraccia la bellezza”
Bom, o Landino, no seu Proêmio ao Commento, fala dos artistas, mortos no momento que escreve, de Florença, e cita Plínio e sua Historia Naturalis. Uma teoria sobre as artes figurativas se desdobra. Mas, como vimos, o tiozinho barrilzinho tava em outra, discordando deliberadamente do comentador. Como messer Sandro não deixou nada do próprio punho ( diz Vasari que ele escreveu um comentário à Comédia, mas até o presente momento ninguém achou nada disso), eu considerei que o tiozinho barrilzinho pensou que seu comentário fosse imagético mesmo, figurativo. Ele cita, em forma de imagens, o debate dos comentadores sobre os personagens e processos narrativos de Dante. Esse negócio de palavra e imagem, em Florença de fins do século XV, interessou a um dos contemporâneos de Botticelli, o moço com quem ele dividiu a aprendizagem e a cara-de-pau intelequitual: messer Leonardo ataca, e seu paragone ( a disputa) entre Poesia/Pintura (primeira parte do seuTratado da Pintura) que destrói a visão clássica do assunto, toma conta dos meus aforismos maluquetes. Botticelli seria um comentador de Dante? Como isso se explica? O título é de Leonardo, afirmando a superioridade da pintura sobre as demais artes.
VI) “L’alta fantasia”
III) “Lo mio duca, il famoso saggio”
Agora o crème de la crème. A panda discorre sobre o personagem Virgílio, em Dante. Sim, o guia do tiozão em sua emocionante excursão entre diabinhos, monstros da Antiguidade e o mais tenebroso de tudo, conhecidos florentinos. A caracterização do poetinha-profetinha, por Botticelli, é colocada em perspectiva com seus antecedentes e contemporâneos iconográficos. Suas roupinhas chamam a atenção pelo exótico e pelo tom bizantino ( São Paulo Fashion Week perde) e isso vai contra as linhas de Landino sobre o herói que salva Dante dos perigos ( principalmente dos buracos que infestam o reino de Lúcifer). Isso intrigou a panda. E eu descobri que na verdade o tio barrilzinho cita o Manuscrito de Guido da Pisa, o que encerra um emocionante debate (???) sobre o Brasileirão, ops, sobre o que seria um comentário à Comédia. O título é como o tiozão chama o poetinha-profetinha.
IV) “La fiera con la coda aguzza”
Não satisfeita em colecionar poetas da Antiguidade, profetas do Antigo Testamento, figurantes na Crucifixão e Santa Ceia e demais personagens de manuscritos, moedas, capitéis de colunas e desfiles de escola de samba, como os antológicos concursos de fantasia do Hotel Glória, eu ainda colecionei monstrinhos da Antiguidade. O meu favorito é o Gerião, rei da Espanha que alimentava seus bois com a carne de seus hóspedes, monstro de corpo tríplice que foi um dos antagonistas de Hércules em seus trabalhos. Dante não conhecia os vasos atenienses nem parte da fachada da Acrópole, onde o gigante triplo aparece, e Virgílio na Eneida só diz que o corpo era triplo. Dante preencheu essa forma tripla ao seu gosto, e nos Cantos XVI, XVII e XVIII do Inferno, Gerião dá uma carona pros poetas. Todos os ilustradores deliberadamente não seguem Dante: só o tiozinho barrilzinho leu lá na Comédia e seguiu direitinho a receita do monstrinho. Mais antecedentes e contemporâneos e mais discussão com Landino. De novo o título vem do Dante, que chama Gerião desse jeito simpático aí.
V)“L’occhio abbraccia la bellezza”
Bom, o Landino, no seu Proêmio ao Commento, fala dos artistas, mortos no momento que escreve, de Florença, e cita Plínio e sua Historia Naturalis. Uma teoria sobre as artes figurativas se desdobra. Mas, como vimos, o tiozinho barrilzinho tava em outra, discordando deliberadamente do comentador. Como messer Sandro não deixou nada do próprio punho ( diz Vasari que ele escreveu um comentário à Comédia, mas até o presente momento ninguém achou nada disso), eu considerei que o tiozinho barrilzinho pensou que seu comentário fosse imagético mesmo, figurativo. Ele cita, em forma de imagens, o debate dos comentadores sobre os personagens e processos narrativos de Dante. Esse negócio de palavra e imagem, em Florença de fins do século XV, interessou a um dos contemporâneos de Botticelli, o moço com quem ele dividiu a aprendizagem e a cara-de-pau intelequitual: messer Leonardo ataca, e seu paragone ( a disputa) entre Poesia/Pintura (primeira parte do seuTratado da Pintura) que destrói a visão clássica do assunto, toma conta dos meus aforismos maluquetes. Botticelli seria um comentador de Dante? Como isso se explica? O título é de Leonardo, afirmando a superioridade da pintura sobre as demais artes.
VI) “L’alta fantasia”
Ou O Retorno de Jedi. Cansado, o leitor é convidado ainda a incursionar mais uma vez pelo Commento de Landino, pelos desenhos de Botticelli, e ver que em Florença do século XV tudo virava afresco ou comentário ao Dante. Mesmo que a historiografia tradicional ache que os artistas do período eram uns zambrões, que só serviam pra fazer obras bonitinhas que viram pôsteres ou livros do Dan Brown. O título vem do Purgatório, porque já é hora do poetinha-profetinha, o tiozão narigudo, o tiozinho barrilzinho,o senhor de Vinci, os alquimistas e a panda sairem das valas do reino de Lúcifer e montarem uma banda de rock.
VII)Anexos ( ou ai, que cacete!)
VII-a)Caderno de Imagens
VII)Anexos ( ou ai, que cacete!)
VII-a)Caderno de Imagens
Melhor dizendo, um Power Point emperrado que ora conta com 120 figurinhas ( tá na metade)...
VII-b)Incunabula brasiliana
E não desligue agora! Ainda tem mais! Você leva de brinde duas edições renascentistas da Comédia! A panda encontrou duas, sim, DUAS edições renascentistas da Comédia no Brasil. E aí eu dou a notícia dos livros e falo da história deles. Do Renascimento aos dias de hoje! Uma pechincha!!!!!! Ligue djá!

8 comments:
Eita, que post bonito!
Muito gostoso ver tudo esquematizado! Numa maneira que eu (muito pouco) consiga vislumbrar todas as coisas de que você falava! hehe
Achei o máximo ver como se encaixam as viagens para a Itália, para os EUA, as pesquisas... Dá uma sensação de produtividade, propósito e competência que por aqui, por enquanto, não estou achando: tudo vai aos trancos e barrancos, no improviso e no "ei, quem sabe isso pode funcionar"! Descobri que vim com muita empolgação, mas muita ingenuidade também!
Pero, es cierto, todo se arreglará! Ainda acredito na sabedoria do tio Fernando Sabino, e no final tudo dará certo!
E, como diria a minha "messer antropóloga", off we go!
Beijinhos!
Chris
Mas Clis, eu acho que processo de produção de conhecimento é assim mesmo, caótico e incerto.
Quando eu caí em Chicago, foi uma bosta. Eu fiquei deprimida, porque não sabia por onde começar, era o caos completo e absoluto. Em Pisa também foi a mesma coisa. Só quando voltei das duas viagens, que foi agora, vamos disser assim psicologicamente inclusive, que vi que muitos "esforços dispersos e desatentos" ( como escrevo na minha introdução) deram corpo a algo que hoje muito me alegra mas também transforma meus dias num inferno!
A gente sempre vai muito cru, Clis. Mas eu penso sempre no Malinowski, ficar preso nas ilhas Trobriand é de lascar mesmo.
Ontem a gente foi no Yakiten e a gente falou muito mal de você, aí nas ilhas da vida... que saudade. Continue em frente, que você vai ver... tenho certeza que seus nativos irão sorrir pra você ( eitas!)... beijosssssssss!
Mas guria, teus capitulos sao tao atraentes!!!!
"A" com distinçao e louvor!!!
Amigo Perere, penando pra encontrar o tal polvilho doce...
Putaqueopariu, como se eu não tivesse problemas lidando com o fato de que a tese do Amiano Marcelino é melhor do que a minha, agora mais essa. Nunca mais converso com quem faz história.
Caro Pererê: comprei polvilho doce no Pão de Açúcar. No Carrefour não tem? Se estiver em Porto Alegre, tente no Mercadão Central. E brigada por gostar da minha tese!
Caro Celsinho: Há anos que tento dissuadi-lo de seus estudos sociológicos excêntricos! HAHAHAHAHAH... brincadeira... que nada, historiador é tudo jogador de bocha fracassado! Beijos!
Paulinha, o pior é que o Amiano Marcelino é campeão italiano de bocha sobre patins há vários anos.
Companheira Maria, que agora tem namorado, eu nao moro no Brasil guria... É ai que mora o problema...
Amigo Perere, em busca do polvilho perdido
Aí fica difícil... não tem loja de produto brasileiro aí perto, não?
Porque polvilho doce é coisa de mineiro. Procure mineiros na sua região... se é que você não está no Alasca, ou coisa parecida. Beijos, Pererê!
obs) ou peça polvilho por SEDEX, sei lá!
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