Hoje achei que estava em Terra em Transe. Sempre pensei que o filme do Gláuber foi subestimado. Acho, na minha santa ignorância, que o Glauber tocou em questões mais profundas do que ele próprio pensava, conscientemente.Talvez Terra em Transe seja o Brasil mais profundo, eterno, que se repete, independemente do regime.
Caí da cama e com cara de assustada, segundo meus amigos, parei na cantina do IEL. O pessoal da Matilha, o grupo de artistas queridos e amigos, ia se encontrar pra decidir questões internas, na cantina mesmo. Cumprimentei todo mundo e achei Daniel, amigo e colega antigo do IFCH. Estávamos sentados papeando, jogando conversa fora, quando de repente, em meio ao dia lindo, de céu azul resplandecente, passa uma viatura de polícia rumo ao DAC, invadido pelos meninos desde segunda-feira. A reitoria havia pedido reintegração de posse, que valeria a partir das dez. Peguei minha bolsa num pulo e eu e o Daniel corremos pra DAC.
Jornalistas, etc. Muita tensão. Muita mesmo, um grupo foi pra reitoria discutir. Conversamos com um colega e sentimos a ingenuidade no olhar dele ( "eles serão incacapazes de fazer o que fizeram na Unesp"). Não, farão outra coisa, imaginei: no site da universidade, no dia anterior, saiu um notificado da reitoria, repudiando a invasão e garantindo processos disciplinares contra os alunos responsáveis. Depois do abaixo-assinado de 300 professores repudiando as atitudes "violentas", esses processos, na CCG ( Comissão Central de Graduação) equivalerão a processos de expulsão. Por mais que não se concorde com as invasões, ninguém quer ver menino apanhando ou sendo expulso. Tive uma bad trip daquelas vendo a viatura na rodinha interna do Ciclo Básico, olha, faz tempo que a panda não fuma nada, mas tive uma bad trip que nem as dos tempos heróicos dos gramados do IFCH. Quando a gente imaginava, não vivia, uma situação dessas. Tristeza, revolta, discussões daquelas. Enfim, hoje me senti em Terra em Transe.

6 comments:
mas entao os professores estao contra os alunos???
Perere
Olha, tá todo mundo contra todo mundo. Tá uma zona. Uma zona, caro amigo do folclore brasileiro.
Tem setores e setores, dentre os grupos alunos, funcionários e professores. Alguns professores estão, sim, em franco conflito com os alunos. Outros discordam dos métodos mas concordam com as reinvidicações, e por aí afora, na velha análise combinatória da política universitária. Ou seja, tá todo mundo discordando dos outros e de si próprios, nesses longos e bonitos dias de inverno no campus de Zeferino.
Enfim. Me explica o que tá acontecendo na USP. Eu sei que os guris ocuparam a reitoria, mas não sei porque, e também sei que eles fazem isso todo ano, assim como os professores também fazem greve todo ano, assim como os funcionários trabalham um pouco todo ano entre uma greve e outra.
Eu realmente vi na tv que ocuparam a reitoria e não dei muita bola, depois a reitoria continuou ocupada, e agora eu não sei mais se a esquadrilha da fumaça tava querendo fazer bagunça ou se o Serra fez alguma Grande Merda.
Porque todo ano os DCEs sempre acusam o governo de estar atacando a autonomia universitária a mando do FMI etc etc etc.
Enfim. Tornei-me cético demais, acho. O que é que está havendo lá mesmo?
Assim, meu querido senador.
Início de ano, festa do deus Janus chuvosa. O governador dessa província desordenada chamada Palestina, ops, São Paulo, num carrilhão, baixou decretos. Um, criando uma tal Secretaria do Ensino Superior, e nomeando o velho diabo José Aristodemo Pinotti como titular da nova pasta. E outro, destituindo a reitora da USP como presidente do CRUESP ( o Conselho, antes, era formado pelos três reitores das três Marias e dois representantes do governo, se não me engano o secretário da pasta de Tecnologia, Ciência e Desenvolvimento Econômico e mais alguém; agora, seria presidido pelo Pinotti).
Realmente, os decretos do Serra foram uma facada no coração da autonomia das três irmãs.
A discussão só começou porque os professores Alcir Pécora, então recém-empossado no cargo de diretor do Instituto de Estudos da Linguagem, e Francisco Foot Hardman, escreveram um artigo na Folha de São Paulo, no dia 24/01, descendo o sarrafo nas atitudes do governador. A partir do artigo deles, que sempre foram respeitadíssimos na comunidade acadêmica, mas que eram pessoas fora do movimento sindical docente, houve resposta evasiva do Pinotti, um artigo muito bom do Tadeu, reitor da Unicamp, assinado provavelmente pelo Eustáquio Gomes, seu assessor de imprensa, e mais artigos da dupla Foot-Pécora. O primeiro na íntegra:
http://www.unicamp.br/unicamp/divulgacao/BDNUH/NUH_7594/NUH_7594.html
Os outros artigos estão no site da Unicamp também!
A mobilização foi crescente, no primeiro semestre, até a deflagração da grande crise, a invasão da reitoria da USP. O governador voltou atrás, redigindo novamente alguns decretos. Mas veja, como falei antes, na velha análise combinatória dos fatores da política universitária, muita insatisfação acumulada entre os alunos, os funcionários e os professores, nos últimos anos, estourou na atitude autoritária e realmente canalha do Serra. Agora o negócio tá preto, confuso e difícil de resolver.
Peraí. O Jason, digo, Serra voltou atrás e o pessoal decidiu que continua a ocupação até que o Lula faça a reforma agrária e o Bush saia do Iraque? E o Ratzinger faça autocrítica do seu passado nazista? É algo assim?
Tem gente que é por aí, tem gente que é por falta de assunto, que é por salário, vaga na moradia, enfim, de um tudo. De um tudo. Os professores já voltaram, os funcionários apoiaram os alunos e la nave va.
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