Play-list dessa tentativa de comentadora de Dante ao lado do Michigan:
1)All I Want is You, U2. Porque a turnê deles aqui tá sold-out e porque Guiness faz bem pra saúde.
2)Bigmouth Strikes Again, The Smiths. Porque o chá Earl Grey e a voz do Morrissey levantam defuntos.
3)Brilliant Disguise, Bruce Springsteen. Porque o cara é filho de irlandês com italiana.
4)China Girl, David Bowie. Ou qualquer música dele, porque é bom pra cacete.
5)Garota de Ipanema. Numa gravação que desencavei no Terra Rádio, do Tom mesmo, alegre, alegre.
6)I've Got You Under my Skin, Frank Sinatra. Deus existe.
7)Puttin'on the Ritz, Fred Astaire. Dá vontade de dançar a vida inteira.
8)Pyscho Killer, Talking Heads. Sempre, sempre, cráçico...
9)Head Over Heels, Go-Go's. Cara, essa mulherada era fogo na fofinha...
10)Dream a Little Dream of Me. The Mamas and the Papas. Bons sonhos, baby.
11)Thunder Road. Bruce Springsteen. Porque o cara é filho de irlandês com italiana. E pronto!
Tuesday, November 22, 2005
A Igreja Católica Apostólica Romana
Hoje no msn um amigo querido me contou que está namorando um padre.
Apaixonadíssimo, ele falou o sofrimento que é a vida do cara. Imagino.
Minha avó paterna era muito católica, meu pai era muito católico, estudei a vida toda em colégio de padre, freira, e muito do meu amor pela História da Arte vem dessa formação mesmo. A vida toda eu soube as iconografiazinhas dos santos, das Marias, etcs e tal.
Isso me fez pensar um pouco sobre a Santa Madre. Eu vi a desgraça acontecer, literalmente, no dia em que o crápula do Ratzinger virou papa. Que palhaçada... eu nunca morri de amores por João Paulo II, apesar do seu relativo progressismo político, por conta do conservadorismo Opus Dei pras outras coisas. Mas que palhaçada, ser contra o uso de preservativo, o sexo antes do casamento e o fim do celibato. Ah, e a falta de mulheres como diaconisas. Porque uma mulher não pode ser papisa? Porque uma mulher não pode rezar missa? Eu tenho vontade de dar uma de Lutero, pregar teses nas portas das igrejas.
Em tempo: Dante colocou vários papas no Inferno. Aliás, tem mais gente da Igreja no reino de Lúcifer do que no Purgatório e no Paraíso. Porque será, hein?
Friday, November 18, 2005
Dançando com Al Capone
Ontem, fui com meus amigos conhecer o famoso Green Mill. Era o bar da amante do Al Capone, e sede lendária di tutti quanti mafiosi...
O Green Mill fica na região onde o pessoal da Cosa Nostra morava, ao norte do Lincoln Park. É uma coisa linda: não passou por esse tipo de restauração picareta que na verdade só enfeia o antigo, e está com a mesma cara decadente de sempre. Lugar enorme, cheio de gente de todas as idades, uma pequena pista de dança cheia de velhinhos botando pra quebrar e uma big band, isso mesmo, uma big band completa e celestial tocando o melhor do swing chicagoan. Os músicos, jovens e virtuoses, tocam o terror, enquanto excelentes cantoras e cantores só enrolam os passantes do suave, macio e malandro falar midwestearn. Muita piada engraçada, muita dança, e mesmo quem não é lá muito pé-de-valsa se anima e cai no forró. Eu não tive coragem de mostrar meus dotes de dançarina de swing, que são abaixo da linha da miséria, mas que fiquei com vontade de dançar com Al Capone, isso fiquei.
Wednesday, November 16, 2005
Paying a big monkey!
Da série Acredite se Puder.
Hoje nevou e tá um frio da porra. Peguei um vento gelado na rua que doeu no cerebelo. Vou pra Newberry, tudo escuro e a neve caindo. Voltei pra 55 W Chestnut, o apartamento um pedaço de geleira.
Mas não é possível, penso eu, temendo ficar congelada... Liguei na Ana e o Gabriel me informou sobre os processos técnicos dos aquecedores: fica tranquila, aquecimento central, blá, blá, blá, mas vai perguntar pra sua vizinha.
Pra quem não lembra: eu conheci uma senhora que mora no final aqui do corredor. Ela tem seis gatinhos e é muito fofa, de vez em quando a gente conversa e ela sempre foi muito gentil.
No apê do lado, que também é da Newberry, está um casal de idade, e hoje eles resolveram dar uma festinha... enquanto eu batia na porta da senhora fofinha, tinha umas quinze pessoas bêbadas cantando e tocando o terror.
Ela abriu a porta toda encapotada. Mau sinal, pensei. Explico a situação no meu inglês cada vez pior, cada vez pior meu Deus... todo mundo me falava, mas depois de um mês você vai estar com um inglês ótimo... que nada, isso é mentira, porque eu fico muito sozinha e só saio com a Ana e o Gabriel. Escrevo em portuga o dia inteiro e leio a italianada toda! Ou seja, meu inglês é uma verdadeira josma.
Ela muito gentil fala que tá frio mesmo, e que se eu estivesse muito incomodada, que era pra pedir pro zelador aumentar a temperatura do aquecimento. E eu voltei pro apê pensando, cara, maldita hora que eu não ouvia meu pai e não estudava a língua de Shakeaspeare.
Resolvo tomar um banho megaultraquente pra decidir, e pego meu guia de conversação. Num ato de coragem, resolvo descer e falar com o porteiro mexicano, simpaticíssimo, pessoalmente. Ponho meu pijama: uma calça de moletom que está um saco de estopa, uma camiseta escrito Minas Gerais e um casaquinho ferrado da C&A, além de um tênis que é um verdadeiro mendigo no mundo dos sapatos. Enquanto esperava o elevador, pensei, mas ninguém vai me ver mesmo.
Abriu a porta do elevator, vi um homem lindo, lindo, lindo, lindo lá dentro, como poucos que vi na vida. O cara estava elegantíssimo, de terno e gravata, olhou pra mim e deu um sorriso Colgate. Juro, não era piada nem pegadinha do Faustão. Entrei e vi que... o cara tava subindo! Pedi desculpas, querendo me enfiar no solo, e o cara abriu outro sorriso Colgate, mas que é isso, sweetie, eu mando o elevador de volta pra você.
Desci e o porteiro só de olhar pra minha cara entendeu meu problema, e mandou o zelador, um senhor negão também simpaticíssimo, resolver a parada. Ele veio aqui e constatou um negócio : o ar condicionado estava aberto. No inverno, eles vedam as frestas com espuma e põem uma tampa por cima. Ele me perguntou onde estava a tampa, e eu procurei e nada. Volta ele, com uma tampa pequena demais, e depois mais uma vez e resolveu a questã. Constatou também que minhas janelas estavam abertas ( dãããã... cara, mas eu sou uma dummy mesmo) e eu querendo me enfiar na terra. Ele rindo, rindo, cara, como chicagoan é risonho.
Bom, aqui nos States tem muita moeda. Você vai comprar qualquer coisa, eles te dão o valor exato do troco. Em contrapartida, você não faz nada com moeda de one cent, one dime e five cents. Só os quarters salvam: servem pra estacionar o carro, ligar no orelhão, pagar chiclete e passagem de ônibus e restinho de almoço. Eu comecei a pôr as moedinhas num jarrinho de porcelana que tava rolando aqui no cafofo, e andar só com os quartos. E pensava, mas o que vou fazer com essas moedinhas? Sonhei que tava numa fila e tinha um cara na minha frente, e ele pagava algo com uma caixa enorme de moedinhas de dólar...
Hoje tô muito dura, tirei o último dinheiro no cartão de crédito, estou lisa como um pepino. Mas pensei, meu, preciso dar uma gorjeta pro zelador. Aqui a gorjeta geralmente é dois, três dólares. Respirei fundo e abri o jarrinho. Peguei um dólar em quartos e outro em five cents. E super constrangida falei, olha, é minha primeira vez aqui nos EUA, eu sou estudante e não tenho dinheiro, mas quero agradecer... ele ficou meio sem graça, mas eu falei mais firme, I wanna tip you, c’mon, e ele foi embora rindo.
Agora, que foi mico foi.
Hoje nevou e tá um frio da porra. Peguei um vento gelado na rua que doeu no cerebelo. Vou pra Newberry, tudo escuro e a neve caindo. Voltei pra 55 W Chestnut, o apartamento um pedaço de geleira.
Mas não é possível, penso eu, temendo ficar congelada... Liguei na Ana e o Gabriel me informou sobre os processos técnicos dos aquecedores: fica tranquila, aquecimento central, blá, blá, blá, mas vai perguntar pra sua vizinha.
Pra quem não lembra: eu conheci uma senhora que mora no final aqui do corredor. Ela tem seis gatinhos e é muito fofa, de vez em quando a gente conversa e ela sempre foi muito gentil.
No apê do lado, que também é da Newberry, está um casal de idade, e hoje eles resolveram dar uma festinha... enquanto eu batia na porta da senhora fofinha, tinha umas quinze pessoas bêbadas cantando e tocando o terror.
Ela abriu a porta toda encapotada. Mau sinal, pensei. Explico a situação no meu inglês cada vez pior, cada vez pior meu Deus... todo mundo me falava, mas depois de um mês você vai estar com um inglês ótimo... que nada, isso é mentira, porque eu fico muito sozinha e só saio com a Ana e o Gabriel. Escrevo em portuga o dia inteiro e leio a italianada toda! Ou seja, meu inglês é uma verdadeira josma.
Ela muito gentil fala que tá frio mesmo, e que se eu estivesse muito incomodada, que era pra pedir pro zelador aumentar a temperatura do aquecimento. E eu voltei pro apê pensando, cara, maldita hora que eu não ouvia meu pai e não estudava a língua de Shakeaspeare.
Resolvo tomar um banho megaultraquente pra decidir, e pego meu guia de conversação. Num ato de coragem, resolvo descer e falar com o porteiro mexicano, simpaticíssimo, pessoalmente. Ponho meu pijama: uma calça de moletom que está um saco de estopa, uma camiseta escrito Minas Gerais e um casaquinho ferrado da C&A, além de um tênis que é um verdadeiro mendigo no mundo dos sapatos. Enquanto esperava o elevador, pensei, mas ninguém vai me ver mesmo.
Abriu a porta do elevator, vi um homem lindo, lindo, lindo, lindo lá dentro, como poucos que vi na vida. O cara estava elegantíssimo, de terno e gravata, olhou pra mim e deu um sorriso Colgate. Juro, não era piada nem pegadinha do Faustão. Entrei e vi que... o cara tava subindo! Pedi desculpas, querendo me enfiar no solo, e o cara abriu outro sorriso Colgate, mas que é isso, sweetie, eu mando o elevador de volta pra você.
Desci e o porteiro só de olhar pra minha cara entendeu meu problema, e mandou o zelador, um senhor negão também simpaticíssimo, resolver a parada. Ele veio aqui e constatou um negócio : o ar condicionado estava aberto. No inverno, eles vedam as frestas com espuma e põem uma tampa por cima. Ele me perguntou onde estava a tampa, e eu procurei e nada. Volta ele, com uma tampa pequena demais, e depois mais uma vez e resolveu a questã. Constatou também que minhas janelas estavam abertas ( dãããã... cara, mas eu sou uma dummy mesmo) e eu querendo me enfiar na terra. Ele rindo, rindo, cara, como chicagoan é risonho.
Bom, aqui nos States tem muita moeda. Você vai comprar qualquer coisa, eles te dão o valor exato do troco. Em contrapartida, você não faz nada com moeda de one cent, one dime e five cents. Só os quarters salvam: servem pra estacionar o carro, ligar no orelhão, pagar chiclete e passagem de ônibus e restinho de almoço. Eu comecei a pôr as moedinhas num jarrinho de porcelana que tava rolando aqui no cafofo, e andar só com os quartos. E pensava, mas o que vou fazer com essas moedinhas? Sonhei que tava numa fila e tinha um cara na minha frente, e ele pagava algo com uma caixa enorme de moedinhas de dólar...
Hoje tô muito dura, tirei o último dinheiro no cartão de crédito, estou lisa como um pepino. Mas pensei, meu, preciso dar uma gorjeta pro zelador. Aqui a gorjeta geralmente é dois, três dólares. Respirei fundo e abri o jarrinho. Peguei um dólar em quartos e outro em five cents. E super constrangida falei, olha, é minha primeira vez aqui nos EUA, eu sou estudante e não tenho dinheiro, mas quero agradecer... ele ficou meio sem graça, mas eu falei mais firme, I wanna tip you, c’mon, e ele foi embora rindo.
Agora, que foi mico foi.
A primeira neve
De repente, não se vê mais os topos dos prédios elegantes de Chicago.
De repente, muito vento, e uma noite branca.
De repente, muito vento, e uma noite branca.
E, de manhã, quando menos se espera, se olha pela janela e se vê. Hoje, caiu a primeira neve.
Tuesday, November 15, 2005
A título de esclarecimento
Os três últimos posts são de minha única e total autoria. Comentários são bem-vindos....
Da nova lavra II
Homem é bicho difícil.
Quando a gente quer, não.
Quando a gente não, quer.
Quando os dois querem, físico.
Porque metafísico, não.
Quando os dois querem muito, aliança.
Ou sofrimento.
Homem é bicho difícil.
Quando a gente trai, poesia.
Quando eles traem, canalhice.
Quando acorda, duro.
Quando levanta, enigma.
Destino, escolha, divindade?
Vai saber.
Homem é bicho difícil.
Da nova lavra
A minha amada é brava. Leoa. Puta com a política, puta com o pedreiro que atrasa, com o amigo que não liga.
A minha amada discorre sobre 1347 com propriedade. Mas não leu o jornal de ontem.
A minha amada gosta de chá inglês, mingau de aveia, sopa de lentilha. E bolo de fubá.
A minha amada não vai nos lugares da moda. Mas miseravelmente quer estar na moda.
A minha amada é una, indivisível. E cabe em todo o universo sensível.
Perto dela as coisas fazem sentido. Inacreditável, e mesmo assim ela quer perder alguns quilos.
Revolto-me: o espaço a que ela pertence
A minha amada discorre sobre 1347 com propriedade. Mas não leu o jornal de ontem.
A minha amada gosta de chá inglês, mingau de aveia, sopa de lentilha. E bolo de fubá.
A minha amada não vai nos lugares da moda. Mas miseravelmente quer estar na moda.
A minha amada é una, indivisível. E cabe em todo o universo sensível.
Perto dela as coisas fazem sentido. Inacreditável, e mesmo assim ela quer perder alguns quilos.
Revolto-me: o espaço a que ela pertence
o reino da pedraria
da gema rara
quilates, não quilos.
Monday, November 14, 2005
Thursday, November 10, 2005
E a tese, nada
Ando numa crise terrível.
Aqui, ali, e não consigo trabalhar direito. Li umas coisas foda aqui em Chicago, está uma revolução a minha cabeça. Preciso parir um relatório pra FAPESP, com pedido de renovação de bolsa e tudo ( ou seja, a hora da espada) e um exame de qualificação. Depois desse processo todo, em pleno verão brazuca, pedir uma borseta da CAPES pra ir pra velha Bota.
Enquanto isso, com esse cronograma bonito, em Chicago eu ando numa preguiça desgraçada. Só quero saber de passear, tirar foto de esquilo, beber Guiness e ver meus amigos, além de saracotear por museus e lojinhas. Descobri o óbvio, as promoções de roupinhas legais pra dar uma de bacana no verão desértico de Campinas, onde me internarei com Caronte na velha biblioteca do IFCH, que provavelmente estará com o ar condicionado quebrado.
Enquanto isso, dando voltas. Fui numa exposição sobre a Tropicália aqui no Museu de Arte Contemporânea, aqui do lado de casa. Trouxeram a Tropicália mesmo, do Oiticica, plantas lindas da Lina Bo Bardi, vestidos Rhodia, documentários, desenhos do Eichbauer para o Rei da Vela. Mas eu fiquei me sentindo estranha. Só depois descobri, eu senti falta de barulho! De música! Eles simplesmente não colocaram música tocando! Achei um absurdo, como falar de Tropicalismo sem música. Tudo bem que algumas coisas já me enfastiaram, mas peralá, precisa por Alegria, Alegria na vitrola. Os caras explicaram que você pode alugar um I-POD (????) com as músicas pra ver na exposição. Fiquei mais horrorizada ainda.
Enquanto isso, Art Institute cheio de coisinhas renascentistas bonitinhas e úteis pra minha pesquisa, e a Porpetta funcionando a todo vapor. Pelo menos ela e Caronte trabalham nessa casa.
Wednesday, November 09, 2005
Momento patricinha
Ontem, comprei uma linda blusinha, para abafar no verão brasileiro, na GAP. Paguei cinco dólares. Adorei a GAP. Olha, eu não gostei tanto do Starbucks, achei uma picaretagem uma exposição sobre a Tropicália aqui não ter música ( só gente com I-PODs), e gringo é gringo, além do Bush ser um idiota. Mas a GAP... olha, a gente podia importar. Roupa boa, barata, que dura, bonita, e que veste todo tipo de corpo.
Universidade de Chicago
Pois é, segunda-feira fui enfrentar o outro monstro.
Brincadeira do Rockefeller, que resolveu construir uma boa universidade numa região inóspita da então industrial e ferrada Chicago ( inspiração para Gotham City, diga-se de passagem), a Universidade é grande e no estilo gótico, um tanto brega, com o qual os gringos querem imitar as góticas ( de verdade) Oxford e Cambridge.
O campus é bonito pelas árvores, por um prédio elegante, num estilo quase japonês, do grande Frank Lloyd Wright, por uma escultura do Henry Moore celebrando a primeira reação atômica ( numa bela ironia dele, o cogumelo vira uma caveira, dependendo do ponto de vista. Ele fez a obra depois de Hiroshima e Nagasaki) e pela soberba e labiríntica Regenstein, uma das maiores bibliotecas do mundo.
Momento capitalismo selvagem: fui na Biblioteca e mostrei carteirinha da Newberry, carteirinha internacional de estudante e meu passaporte. A moça gentilmente procurou a Unicamp na lista de universidades conveniadas. A USP e a UnB estavam na lista, pra variar a filha do Zeferino me deixou na mão. Fui gentilmente informada que teria direito à cinco visitas de graça na Biblioteca, e depois teria que pagar 35 dólares por mês para poder só ver a fuça dos livros que tem lá.
Não tão gentilmente pensei, mas vocês são foda mesmo! Enfim, entra eu na maloca dos livros. No quarto andar, muitas pessoas e estantes, o normal, mas não consigo achar a numeração que preciso. A bibliotecária me diz, mas você precisa ver nas estantes! E abre uma portinha, e o que Borges descreve na Biblioteca de Babel surge diante dos meus olhos.
O mundo é uma biblioteca. Tive vertigem, precisei sentar porque eu olhava e só via estantes, estantes, estantes, estantes, estantes, em salões intermináveis e desertos. Uma visão de pesadelo, o Borges acertou na mosca.
Mas pelo menos o xerox custa 0.12 cents, e tem uma pizzaria que vende um almoço muito bom por seis dólares. E tem um sebo... inacreditável de barato e bom. Pelo menos, pelo menos.
Saturday, November 05, 2005
Guiness,o livro dos Recordes
Mas ontem eu descobri mais um motivo pelo qual os anglo-saxões são admirados. Fui num bar aqui, típico bar chicagoan, luz vermelha, gente de todo o tipo, boa música no jukebox. Cadeiras altas e um copo com snacks tipo o nosso clássico Elman Chips. Enchi a cara de Guiness. No outro dia, sem ressaca e ainda feliz, posso constatar: mas a cerveja deles é boa mesmo!!!!!!!!!
Saturday, October 29, 2005
Melhores comidas em Chicago
Da série O Melhor de Chicago para você, as melhores comidas degustadas por essa peregrina do Inferno, até o presente momento:
1) os burritos e os tacos do Chipotle. O Chipotle é restaurante mexicano que tem aqui, e tem toda uma filosofia de ser diferenciado. Realmente, as coisas vem fresquinhas, são montadas com toda a higiene na sua frente, e custam muito, muito barato. Tipo sete dólares, você almoça bem no Chipotle: tacos com frango, guacamole e salada e um refri monstro.
3)o hot-dog Chicago style do Golden Coast. Na verdade, todo hot-dog de qualquer espelunca que tiver o selo Vienna Beef vale a pena: essa é a marca da salsicha que faz a cabeça de todo mundo na terra dos Intocáveis. Comi dois muito bons, um aqui perto de casa, num lugar que só tem mexicano ( o cheeseburguer desses maluquinhos é muito bom também) mas o melhor fica no Loop, o downtown chicagoan. É outra espelunca, onde tem uma parte de frango frito que dá colesterol só de olhar, mas o cachorro quente de lá é imbatível. Vem com essa salsicha enorme e rosada, num pão com gergelim preto, conserva de pepino, pimenta verde, dois tipos de cebola, mostarda da braba, sal grosso (???) e pimenta do reino. Meu, como dizem aqui, eat the dog and take a ride.
4)tudo, tudo, do Benningan's. Outra rede, tem um na frente do venerando Art Institute. Um pub com muita comida boa, um frango grelhado, arroz à grega incrementado e brócolis cozido no vapor que é de lascar o caninho. Sugestão do Will, o super-garçom.
6)os hambúrgueres do Johnny Rockets. Lanchonete tipo antiga americana, com jukebox tocando Bee Gees. Mas tem um hambúrguer.... cara, não dá pra acreditar. Outro da série bom e barato, no coração do Magnificent Mile.
7)o almoço e o jantar na casa de Ana e Gabriel. Eles deveriam estar nos guias de Chicago, essas duas figurinhas. O cardápio: pasta e tomates assados, muito azeite e manjericão, bife, couve de bruxelas com amêndoas, e de sobremesa o viciante Cherry Garcia, o melhor sorvete do mundo.
8)o meu mingau de aveia mulatinho. Pois é, aveia Quacker, leite desnatado, açúcar mascavo. Espanta o frio, alumia... os escoceses botam whisky em cima.
9)a omelete de três ovos e cinco pecados do Tempo Café, um café lindo que tem aqui perto de casa. Com gravuras do Rockwell na parede, gente gentil e animada, o Tempo é uma instituição aqui na Golden Coast. O omelete vem na panela, com duas torradas e geléia de laranja. Água gelada e café fraco grátis.
10)as pastas da Corner Bakery, outra instituição na Costa Dourada. Mas as outras lojas da rede não são tão boas, como a daqui, me diz a Ana.
11)as madeleines e balinhas de canela do Starbucks, apresentados pela Ana ( pois é, tô falando que tem que eles nos guias). Já o café de lá... não gosto e pronto. Não gostei muito do Starbucks pra falar a verdade.
Porpetta, a nova companheira
Para alegria e gáudio dos milhões de leitores fiéis do meu blog, informo que adquiri, com um dinheiro que não possuo no momento ( ou seja, no cartão de crédito) uma câmera digital Nikon. Estou aprendendo a lidar com a santa, que até agora só deu um pequeno susto, no Lincoln Park florido e de árvores amareladas e vermelhas: suas pilhas acabaram.
Batizei a tão esperada de Porpetta, devido ao seu design que faz lembrar... uma porpetta. Gostosinha, cheia de molho e recheada de mussarela, Porpetta custou os olhos da fuça. Mas tem prestado bons serviços. Só preciso aprender como Porpetta conversa com Caronte. Daí, colocarei fotinhas de Chicago e meus auto-retratos insones, feitos na madrugada adentro em W Chestnut.
obs) Porpetta nasceu no dia em que o time de baseball local, o White Sox, ganhou o campeonato nacional, pela primeira vez em 87 anos. Go, Go, Sox, diz Porpetta.
Wednesday, October 26, 2005
Indiana Blues or Deep, Deep, Deep America
Eu estudei música muito tempo na minha vida. Primeiro, piano clássico. Com uma professora chata que me tratava mal. Um dia, semi-consciente e sozinha na sala, risquei o piano dela. Foi horrível, sei, mas mais horrível era o que ela fazia comigo.
Depois, meu pai me comprou um Casio, e eu sempre quis tocar numa banda. Tenho esse espírito rock and roll, não tem jeito. Mas nunca tive talento nem oportunidade.
Só estou escrevendo isso porque sinto muito não ter talento para compôr música. Porque, se eu tivesse, comporia um blues pra segunda-feira que passei na Universidade de Notre-Dame, na cidade de South Bend, no Estado vizinho aqui, Indiana.
Foi assim. Desde o início do projeto Dante em Chicago, eu sabia que seria fundamental eu passar nessa universidade, conceituada entre outras coisas por contar no quadro de professores com o antropólogo Roberto da Matta. Lá existe uma coleção importante sobre o Dante, e um programa de estudos especialmente voltado para o comentário da Comédia.
Então, depois de um mês na Golden Coast e na elegante Newberry, peguei um trem e fui para lá.
São três horas de trem, trem confortável, e eu reparando em como as americanas tagarelam. Pra falar mal de outras mulheres, evidentemente.
Com sono, vontade de ir ao banheiro e saco meio cheio, vejo passar por mim pequenas cidades, subúrbios, com as casas sem portão, as ruas sem ninguém ( todo mundo trabalhando no monstro Chicago) e matas já meio amareladas pelo outono. Um pouco de lixo no chão, e depois, South Bend.
South Bend é como se fosse Barão Geraldo. Só que com uma diferença: tem um aeroporto regional, que fica distante da Universidade. O trem pára no aeroporto. E começa a baixaria básica: não tem ônibus, metrô, nada. Táxi mesmo.
Os taxistas, obesos mórbidos e escrotíssimos, empurram você para os carros. Tentei argumentar, e perguntar o valor da corrida. Detalhe: estava com um American Traveler Cheque, que aqui em Chicago as pessoas aceitam sem nem pedir identidade, passaporte nem nada.
Fui empurrada para o que eles chamam de Irish Cab, ou seja, táxi compartilhado. Uma menina muito bonita estava sentada, e falando no celular, como 150% dos americanos. A vida deles é trabalhar e na rua falar no celular.
Bom, no trajeto longo, pergunto de novo para o taxista se ele vai aceitar algo que legalmente é dinheiro. Para meu espanto, o escroto diz que não. Em pânico, começo a revirar minha mochila, em busca dos treze pilas que ele pede pela passagem.
Nisso, a menina pára de falar no celular e me diz que paga o resto pra mim. Surpresa, dou o dinheiro que tenho a ela. Ela começa a conversar comigo, e sua afabilidade destoa do que vejo: ruas intermináveis, casas sem portão, e aquele ar de vida sem perspectivas.
Moral da história: fui salva por essa menina, que se chama Ouakla e é da Nigéria. Ela está em Notre Dame há três anos, fazendo Administração, e me diz com serenidade que no início, foi muito difícil, e que todo final de semana ela vem ver amigos em Chicago, porque South Bend é uma depressão só.
Gentilmente, Ouakla me levou na biblioteca, na seção onde eu precisava ir, e me deu seu celular, dizendo pra ligar que ela me ajudava no que fosse preciso.
Chegando na biblioteca, Ben e Rita, os dois responsáveis pela Coleção Dante, me tratam como uma princesa. Tapete vermelho, edições separadas, muita simpatia e disposição. E me vejo num belo salão com vitrais, edições renascentistas do Dante, e uma estátua de mármore do poeta, além de outras coisas bonitas.
Eu pensei: mas é o mesmo que no Brasil! No meio do nada, a cultura. No meio do canavial, a biblioteca do Sérgio Buarque! É a mesma coisa! A América não é um país: é um continente.
Bom, pergunto do professor de lá, que me forneceu a carta com a qual consegui meu visto. Gostaria de conhecê-lo, pra agradecer, e porque não, fazer um contato, pra depois voltar, quem sabe... Rita sorridente me diz que o dito tinha acabado de passar na biblioteca.
Fico feliz, porque uma semana antes eu havia mandado um e-mail pra ele, e havia recebido uma resposta automática, tipo não estou atendendo. Rita vai atrás, por telefone, do dito, e nada... o cara disappear! Me sinto mais uma vez na velha Barão, atrás dos professores pra assinar papel, blá, blá, blá.
Pelo menos, vi uma edição lindíssima da Comédia, comi uma pizza muito boa e vi um campus belo, estilo gótico americano, 1850. E fiz amizade com a Ouakla.
Mas quando eu voltei pra Chicago, e saí da estação de trem, respirei o arzinho gelado da Michigan Avenue, senti um grande alívio... por não estar na Deep, Deep, Deep America.
Melhores momentos
Da série Recordar é Viver, e ontem esqueci de pagar a conta d'água:
1)os dias em que fui no Art Institute. Bão demais! E de grátis! Chorar ao ver o Van Gogh, o Seurat, os salões de Arte oriental... só o museu vale a viagem!
2)trabalhar na Newberry. Biblioteca excelente, prédio lindo, gente legal, e edição da Divina Comédia a dar com o pau.
3)comer um hot-dog Chicago style. É muito bom! E tem que comer nas espeluncas do Loop ( centro) ou aqui perto de casa, num lugar que descobri porque vive lotado de operários... o hot-dog daqui, com a famosa salsicha Vienna, picles, pimenta, cebola, é de lascar o cano!
4)a Oak Street Beach, o Lincoln Park... sim, porque poder existir verde numa cidade grande.
5)conhecer Ana e Gabriel, os dois fofos que me acolheram tão bem, e as noites e dias em que a gente se encontrou, em meio a teses, sites, e essa cidade linda.
6)achar um brechó com duas velhinhas lindas e cheio de pulôveres da Ralph Lauren pra cima...
7)ficar experimentando sapato que nem uma louca, em pé, em meio à outras fêmeas desvairadas.
8) conhecer minha vizinha, outra velhinha fofa que tem seis gatos dentro do apartamento.... todos pequenos Ewokies de fofura.
9)me ver no feijão prateado no Millenium Park, junto com trilhões de crianças barulhentas.
10)assistir o último filme do Jim Jamursch...
11)aceitar a sugestão do garçom no Benningan's, restaurante na frente do Art Institute, e me deparar com filé de frango, arroz à grega, brócolis e isso ser uma das comidas mais gostosas que já comi na vida!
Piores momentos
Da série "o infortúnio nunca vem só e nunca avisa", problemas enfrentados por mim em Chicago:
1) o cara da Alfândega que resolveu me sortear, revistar todas as minhas malas e pôr tudo de pernas pro ar, sem sequer me ajudar a colocar a tralha toda no carrinho;
2)as duas noites sem dormir por conta de uma dor de dente. É, prosaico e infeliz, mas foi assim. Tenho uma obturação que fica muito perto da raiz do dente. No meu afã de perder os eternos quilinhos a mais, pedi salada e não deu outra, uma pequena partícula de alface entalou, eu fui retirar, cáspida! A minha dentista havia me informado que em clima frio o negócio ia doer. Vi estrelas. Uma semana depois, o dente dá sinal de vida de novo. Moral da história: depois de consultar sites na Internet, decidi tomar uma aspirina e boas. O dente até agora não incomodou mais, mas eu confesso que da salada parti pro omelete.
3)pedir o telefone. Já narrei o feito em outro post, mas só quero acrescentar que tudo ocorreu como narrei, Acredite se Quiser.
4)o pau no Caronte, narrado no post anterior, que tirou meu sono na noite de hoje.
5)fui comer num lugar aqui perto, chamado Tempo Café. E não é que pela primeira vez na vida eu não tinha dinheiro suficiente pra pagar a conta? Foi um sufoco. A minha sorte é que fui salva pela proverbial hospitalidade midwestern. As moças gentilmente confiaram em mim e pude vir buscar o que faltava.
6)na segunda-feira, fui para South Bend, Indiana. Narro no post seguinte, mas o fato é que o taxista escrotinho não aceitou meu Traveler Cheque. De novo, a dura aqui passou sufoco, mas novamente foi salva pela solidariedade feminina. Uma fofa menina que estava compartilhando o táxi comigo pagou o resto e se tornou minha nova amiga...
7)a insônia. Não sei se é trabalho demais, solidão demais, falta do dono do meu coração ( que ficou no Brasil), falta do Brasil, frio, sei lá. Só sei que estou com isso. Em plena Chicago, ninguém merece!
8)agora, a notícia triste e trágica da morte do professor Adriano, com certeza, meu pior momento em Chicago...
9) infelizmente, tenho um projeto de cunhado que não vale a pena comentar. Essa alma danada perturbou o sono do anjo doce que reina no meu coração. Jurei pelo Lago Michigan e pelo rio Chicago que teria vingança. Ótimo, um presente a menos pra levar pro Brasil.
Caronte, o barqueiro do Inferno
Tanto na Eneida quanto na Divina Comédia Caronte é o barqueiro que leva as almas dos recém-falidos à sua nova morada. Dante escreve ser Caronte um velho, "branco por antigo pêlo", que tira sarro do poeta por tentar atravessar o rio Aqueronte estando vivo. Enquanto isso, "Caron dimonio"bate com o remo nas almas indecisas, que não querem admitir que estão literalmente danadas.
Bom, o meu Caronte é meu laptop, que ontem, em plena madrugada fria, me levou ao Inferno. O Touch Pad desse demônio travou, e eu fiquei a noite toda tentando ressuscitá-lo, ou melhor, trazê-lo novamente para esta margem do Aqueronte. Segunda noite de insônia na terra do White Sox, time de baseball daqui que está ganhando e trazendo felicidade e gritos como os dos corinthianos ou ponte-pretanos.
Depois dessa noite infernal, em que Caronte recusava-se a funcionar ou mesmo desligar, às seis da manhã liguei para o Brasil, mais especificamente na casa da minha sogra, e tirei meu futuro cônjuge de seus doces sonhos. Este anjo da candura e do riso se apiedou desta pobre alma condenada e me informou ser necessário apertar o botão liga-desliga de Caronte num tempo maior. E, final e gloriosamente, Caron dimonio resolveu dar o ar da graça. É demais.
Saturday, October 22, 2005
Aldus Manutius, Vinho, Salame e Uma Baguete ( além de Gorgonzola, é claro)
Hoje vi a edição do Aldus Manutius da Comédia.
Pra quem não sabe( eu também não sabia), esse cidadão da Sereníssima República de Veneza foi o maior editor do Renascimento. Equivale dizer que foi o maior editor de todos os tempos.
Em 1502, essa pessoa editou uma Divina Comédia. Encomendou o texto ao cardeal Bembo, que corrigiu alguns erros das edições anteriores. Ao invés de fazer uma edição grande, como as outras, fez uma de bolso. Detalhe: em papel de qualidade, com letras lindas, texto impecável... e ilustrações feitas a mão, delicadas. Atrás do Virgílio, aparece uma aurora lindíssima. O livro tem as margens douradas, e decoração nas folhas.
Eu vi esse troço hoje. Na Newberry. Mostrei pra uma moça italiana que eu conheci lá, e ela me agradeceu muito. Fiquei tão feliz que fui comer uma macarronada no almoço, dormi um sono dos justos à tarde e à noite, fui no supermercado, lasquei um Lambrusco, salame, pão e prosciuto, na conta, e adicionei uvas e um bombom maravilhoso. Tudo não-diet. E brindei à saúde de Aldus Manutius.
Sunday, October 16, 2005
Oak Street Beach
Da série desta humilde escriba nas terras chicagoans.
Hoje eu fui ter com o velho Michigan. Moro a uns quatro quarteirões desta imensidão azul e que muda minha concepção de "gelado"... o "gelado" pode ser sempre mais "gelado", essa é a verdade.
Andando pela Lake Drive, achei os túneis para os pedestres irem para a praia. É, dá praia esse pedaço de geleira. No calor, o povo se joga mesmo, tudo nessa vida refresca. Agora, início de outono, a brisa gelada diz que o Michigan está respirando, e trazendo o frio. O dia, ensolarado, céu de brigadeiro, como se diz em aviação, convidavam ao passeio e às reflexões inúteis.
Você atravessa estes túneis, e dá com o Lago. Nas margens, um pouco de areia, pedras ou grandes degraus de cimento. Toda a segurança possível, etcs, etcs, estamos falando de EUA, enfim...
Tem um parque ao lado, com as inevitáveis árvores gigantescas, começando a amarelar. E depois, o tal Navy Pier, um parque de diversões também gigante. Tudo aqui é gigante...
Sentei-me às margens da divindade potawatomi e entreguei-me a uns dos piores pecados: a preguiça.
É que do outro lado, o skyline inteiro dessa cidade arrojada e elegante despontava, na orla. Senti aquela preguiça que a gente sente diante do que é bonito: no Rio, também tenho vontade de deitar e ficar vendo a vista. Roma, etcs, etcs, lugares bonitos dão preguiça. Depois de dias difícies, eu me encontro comigo mesma, com a cabeça numas músicas, entendendo essas músicas, e ouvindo o Lago resfolegar, se encrespar e ficar frio, muito frio.
Quando eu era muito jovem, mas muito jovem mesmo, li o Poder do Mito, do Campbell. Meus amigos antropólogos podem me desancar: esse livro é horrível, não presta, e tudo o mais. Mas me lembrei de uma história, aqui de uma nação indígena das terras que mais tarde deram nessa confusão de EUA. A história de uma moça que se casou com um cara, e descobriu que ele era um feiticeiro, que se transformava em cobra, como todos os parentes dele. Depois de várias peripércias, essa moça se dá conta que o cara não prestava, vamos dizer assim, estava a serviço do mal.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.
Ela corre, corre, e o feiticeiro da tribo dela a puxa para cima... ela estava vivendo dentro de um lago. Depois de tanta beleza, e um belo omelete de três ovos, café fraco e água gelada, dormi no sofá e sonhei que entrava dentro do lago. Depois, sonhei que saía, e isso foi de um extremo alívio. Aí lembrei dessa história e achei engraçado, e decidi que Oak Street Beach é um dos lugares mais bonitos que eu já vi, na minha vida.
Thursday, October 13, 2005
Visão do Paraíso
Eu acho que alguém poderia prestar um serviço de utilidade pública e traduzir Visão do Paraíso, do velho patriarca Buarque de Hollanda, pro inglês. Ia vender que nem pão quente, modificar a historiografia anglo-saxã, ia vender mais que havaiana!
Estou falando. Se o pessoal da Newberry lesse o Sergião, eles iam ficar malucos...
Falando sério. Se não leu Visão do Paraíso, leia imediatamente. É um dos livros mais bonitos do mundo. Bem escrito, elegante, erudito, fantástico. Eu tenho um sonho: fazer uma edição ilustrada do Visão. Pode ser uma desculpa para ir na Torre do Tombo, essas coisas. Eu acho incrível ninguém, ainda, na universidade brasileira, ter prestado atenção de verdade nesse livro.
Logo no prefácio, o Sérgio desmonta a historiografia da arte vigente na época ( leia-se formalista) e advoga a favor da Escola de Warburg, o que equivale a assinar a tese que a visualidade renascentista não é clássica, mas sim uma classicização dos esquemas medievais. Uma bomba, para a época.
E a idéia de que uma certa visualidade comandava certos projetos de colonização, é muito atrante para ser tão desapercebida.
Only a Dream in Rio
Você se lembra dessa música? O James Taylor, quando veio pro Brasil, no Rock in Rio I, fez essa canção. Tem uma gravação linda, linda, do Milton Nascimento.
Eu ouvi essa música casualmente, hoje, e desatei a chorar. De saudade do Brasil. Engraçado que estava falando no msn com duas amigas, muito queridas, e as duas estavam naquele bode que só brasileiro consegue amarrar, em pleno dia de Nossa Senhora Aparecida. Muita corrupção, muita injustiça social, muita mediocridade, muita falta do que fazer, muita falta de ética mesmo.
Não tem nem o que discutir, o Brasil está uma merda. Nesse momento, outubro de 2005, o Brasil está uma merda. Fazer o quê?
Mas eu pensei no Rio. Tão combalido, violento, palco de uma miséria braba. Pra me consolar, a música do Taylor me lembrou da vista do Redentor. E aí eu comecei a chorar.
Porque brasileiro sente falta desta merda de país no exterior?
Sunday, October 09, 2005
Profundezas
Hoje, um amigo no msn disse que viu um ex meu num bar, em São Paulo, com uma moça.
Essa notícia boba veio quando eu estava em papos complicadíssimos, no mesmo msn. Eu tensa, falando de umas coisas foda, e aí eu me lembrei de uma coisa.
Esse meu ex, quando quis dar tudo por encerrado, me disse que não me entendia. Que eu era muito pesada, que eu levava tudo muito a sério, que uma coisa que era pra ser leve, comigo virava procissão de Sexta-Feira Santa.
Esse comentário dele me marcou muito fundo. Tão fundo que os anos seguintes, me condenei à profundeza. Eu ainda fiquei apaixonada por ele, e sofria muito com sua indiferença. E achava que o meu jeito era o culpado por ele ter se afastado de mim.
Mas agora, eu acho que a profundeza é o que me salva. Ou melhor, a consciência da profundeza. Na época que ele me disse isso, eu passava por problemas de saúde, coisas péssimas na minha família, e ele era casado quando a gente se conheceu.
Isso me lembra outra história. Eu tinha nove anos quando mudamos pra Jundiaí. Meu pai era fiador de um irmão. Esse cara tentou dar um golpe na G&M, em São Bernardo, onde ele trabalhava, e descobriram. Ele fugiu e meu pai teve que pagar tudo. Na época, ele dava aulas num curso técnico num colégio de Jundiaí, e os padres de lá ofereceram ajuda.
Eu fui parar nesse colégio. Apesar do catolicismo do meu pai e da minha avó, eu havia sido uma pequena pagã até então. A minha profesora, na Páscoa, nos levou na capela do colégio, um lugar escuro, com lindos baixo-relevos em cor de marfim e moldura de madeira escura, com os Passos da Paixão. Ela nos contou dos sofrimentos de Cristo, e eu comecei a chorar, desesperada.
Dessa experiência veio a profundeza. Não consigo ver gente sofrendo. Sofro pelo mundo ser péssimo, e sou meio Cassandra. Sabe, a moça profetisa de Tróia, que ninguém acreditava? Sou eu mesma. Eu vejo buracos. Na relação entre as pessoas, nas pessoas. E, se eu amo a pessoa, falo do buraco. Mas isso é péssimo. Minha analista já me alertou claramente que isso é sinal de onipotência narcísica brava, que eu não vou salvar o mundo, e que preciso ver primeiro e sempre o meu buraco. Ela tem toda a razão. Mas que eu sou tensa, e vejo buracos, isso eu vejo mesmo. Que posso fazer?
Saturday, October 08, 2005
Internet em W Chestnut
Pra quem está estranhando minha volta à labuta blogueira. Agora tenho internet no lugar onde moro, na cidade potawatomi.
Daí a fúria escritiva, vocês me perdoem, mas estou entalada. Na biblioteca, nos dias de semana, sou da tese. Que está devidamente emperrada, diante dos últimos acontecimentos.
Ontem fui assistir, com um casal precioso que conheci aqui, o novo filme do Jim Jamursch. Chama-se "Broken Flowers", com o Bill Murray. É ótimo.
Essa semana foi de fortes emoções. Singrei a avenida Michigan, saudei o velho deus dos potawatomi e fui ter com minha nova divindade, The Art Institute of Chicago. Gente, o museu é incrível. O acervo é fantástico, a expografia perfeita e tudo o mais. Um MASP dando certo. Com licença, eu vou à luta!
Barbaridades no Orkut e mais protesto
Que o Orkut é uma bela droga, todo mundo sabe. E que a discussão sobre os limites da expressão das opiniões, sempre dá numa bela merda. Censura é uma merda, liberdade de idiotice, idem. Não sei o que pensar a respeito.
Enfim, comovida com o brutal assassinato do professor Adriano, busquei seu perfil no site, e encontrei na sua página de scraps muitos, muitos recados de alunos, amigos, vizinhos e familiares, se despedindo de forma linda dele.
Mas não é que, no meio, tem um idiota dizendo que "ser homossexual não é doença, mas mata"? E denegrindo a imagem da vítima de tão covarde e injustificada violência?
Isso me lembrou outro caso. No início do ano, uma aluna da PUCCAMP foi violentada por um grupo de colegas, que aproveitaram de sua inconsciência, chamaram vizinhos de república para assistir e ainda gravaram tudo e colocaram na internet.
A moça teve coragem de denunciar, e os bonitos foram presos. Mas não é que os colegas, no Orkut, defendem os estupradores com os argumentos mais idiotas possíveis, daqueles que qualquer leitura chulé de "Freud em quadrinhos" detonaria? Moças e rapazes defendendo os pobres injustiçados e culpando a vítima, denegrindo sua imagem, a ofendendo e assustando colegas revoltados. E fazendo passeata e missa em homenagem aos caras.
É demais. O que me causa espanto, náuseas, vergonha e vontade de matar é que a argumentação é arrogante, infundada, e que em outro país traria dores de cabeça homéricas, com guerras nos tribunais. O que me consola é que gente assim, medíocre, passa a vida inteira infeliz, no pior da caverna, vendo as sombras das sombras e achando tudo lindo, nas filas das boates decadentes da cidade de Campinas e região. Quanto aos criminosos, cadeia. Precisam pagar pelo que fizeram. Nos dois casos.
PROTESTO
Quero deixar aqui meu repúdio total, veemente, contra a violência sofrida por Carlos Adriano Thomaz, professor de Educação Física de Campinas, que foi brutal e covardemente assassinado por três alunos no distrito de Sousas. Leia a matéria no site do Correio Popular, seção Cidades, dia 5 passado.
Espero que seja feita justiça e que a memória do colega Adriano não se perca. Segundo as investigações, ele foi morto por preconceito, por ser assumidamente homossexual. Até quanto vamos suportar, nas cidades brasileiras, os crimes cometidos por jovens mal-educados no sentido mais amplo do termo?
Minha completa solidariedade aos colegas, alunos, família de Adriano.
Estou de saco cheio de...
- gente do mal. Quer enveredar pelo reino de Lúcifer? Vá, meu filho, vá fundo, só não leve ninguém junto. Lá, encontrará gente pior que você.
-classe média brasileira. Historicamente, precisa se desculpar pela Marcha por Deus, Família e Liberdade, e precisa ser mais inteligente. É burra demais.
-gente dizendo que o Brasil é uma merda. More na Suíça e se suicide, meu filho.
-gente do mal. Preciso repetir. Ou você se emenda, ou acaba mal. Está se lixando? Então dane-se.
-gente preconceituosa. Mané, aprenda: eu tenho preconceito com quem tem preconceito. Contra gay, mulher, gatinhos, plantas, crianças, idosos, seres humanos em geral, gente viva, gente morta, religiosos, ateus, pagãos e crentes. Em vez de ficar fuçando o lixo no quintal alheio, limpe o seu. E leia Freud.
-gente do mal. Meu, vai jogar uruca na sua casa, que deve ser um lixo.
-gente que bota regra. Queria escrever outro verbo, mas sou educada. Meu, porque você acha que eu tenho que pensar, vestir, agir, votar, como você? Vá me encontrar na esquina.
-gente do mal. Repito. Você é infeliz, coitado. Ou despiroque, ou faça um vodu para si mesmo.
-de ficar de saco cheio. Puta, ninguém merece!
Roberto Carlos
Uma vez, eu li um texto do Chico Buarque, acho que no Pasquim. Não, apesar de velha, não sou da época do Pasquim. Mas eu li alguns Pasquim. E li os lindos textos de Caetano exilado, e depois os de Caetano na volta, puto com a esquerda brasileira, que segundo ele, o preferia exilado. Tirando Paula Lavigne, revista Caras e apadrinhamento de gente medíocre, além de alguns discos muito ruins, Caetano estava certo.
Voltando. Eu li esse texto, não sei se foi uma declaração do Chico, que ele estava no aeroporto de Caracas, quando ouviu a voz de Roberto Carlos essoar pelo saguão, cantando Jesus Cristo ou qualquer coisa que o valha. E que, naquele momento, exilado, compreendeu que Roberto era o Brasil, que sua voz era o nosso país.
Exilados, Caetano e Gil embevecidos receberam a visita do Rei. Muita gente não foi visitá-los. E Caetano escreveu, num daqueles momentos de lucidez, que quando Roberto Carlos entrou na sala da casa inglesa, o Brasil entrou com eles.
Aqui estou eu. Não exilada, não por tanto tempo. Mas problemas familiares atingiram quem tem o mais caro do meu coração. Por acaso, no Terra Rádio, Roberto Carlos, e chorei muito, chorei horrores. O Brasil veio me visitar.
Meus pais eram suficientemente de esquerda para me dizer que Roberto Carlos era ruim, brega, vendido à ditadura e à Globo, sendo essa última muito pior que a segunda. Todos os anos, íamos nos Volkswagen da família ( primeiro o infalível Fusca branco, depois Voyages metálicos) para Campos dos Goytacazes. Depois de horas e horas de uma viagem cansativa, quente, enjoada mesmo, chegávamos na casa de dona Maria. Para o de sempre: Natal com meu pai ajudando minha avó, minha mãe brigando com as irmãs folgadas mas tias sempre carinhosíssimas e divertidas, meu pai e minha mãe brigando selvagemente entre eles, noite de Natal atribulada, com gente cozinhando todo tipo de comida, muita briga e baixaria, e TV ligada no especial do... Roberto Carlos.
Lembro de um Natal na casa de minha tia Maria José, depois que dona Maria se foi. Ela morava num apartamento muito pequeno, e cuidava da minha prima abandonada pelos pais. Armaram uma mesa na sala e outra na cozinha. Minha tia gostava muito da Xuxa e do Wando, o que deixava meus pais, fãs de Mílton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, de cabelo em pé.
Naquele ano, fizeram arroz à grega, tender, peru, nhoque (???) e meu pai começou a tirar sarro da minha tia servindo nhoque com arroz. Eu, de saco cheio, querendo estar em qualquer outro lugar que não ali, olho na TV e vejo a figura de branco cantando Jesus Cristo.
Os anos se passaram, eu sempre escutando muito rádio. Quando mudamos pra Campinas, ficava no quartinho dos fundos, ouvindo baixinho a Laser FM, porque achava divertidíssimo, nos meus quinze anos, o brega de Leandro e Leonardo. Nessas, o Rei me pegou. Ouvi a gravação de uma música boba, do Sullivan e Massadas, "Amor Perfeito", boba, boba.
Mas eu percebi, naquelas noites de rádio baixinho, minha mãe histérica me tratando pior que o tapete da sala, que aquela voz era muito, muito bonita.
Depois disso, segui o conselho que Maria Bethânia deu ao irmão em 1965, ou 6, ou 7: preste atenção em Roberto Carlos. Gente, eu vi, é o Brasil.
Última flor do Lácio, inculta e bela
Quero pedir desculpas pelos erros de português que andei cometendo. Lendo o post abaixo, vi um estinção. O que está em extinção é o meu português... nesses últimos dias, não falei língua nenhuma. Falo uma mistura de inglês, português e espanhol ( esse com meu porteiro mexicano, e não vai do Arriba! Buenos dias! Buenas noches! etcs, etcs).
É horrível, e pra piorar, tenho que ler um monte de coisa em francês e italiano. Línguas das quais não domino nada ou quase nada.
Mas o pior foi com a companhia telefônica daqui. Graças ao financiamento da turma do Alckmin, aluguei um apartamento da Biblioteca. As bibliotecárias me deram um 0800, para ligar para a tal SBC e "set up a telephone service"...
Bom, na segunda-feira, do orelhão do saguão de entrada da Newberry, liguei pro tal 0800. Uma gravação atende, e eu compreendo que devo apertar o botão #, porque não recebo nenhum auxílio da previdência daqui, não pago conta de luz junto com o telefone e, o que é mais importante, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Depois, entendo que preciso apertar o número 2, porque se não me enquadrei em nenhuma das alternativas anteriores, que raio estou fazendo nesse serviço. A gravação informa que minha ligação será gravada, para fins de qualidade no serviço.
Música clássica ( acho que é Mozart) e atende uma representative service. Todas aquelas coisas de praxe, que bom que ligou pra nós, blablabla, e a mulher me pergunta em que posso ajudá-la. Digo que sou pesquisadora numa biblioteca pública em Chicago, e que aluguei um apartamento e gostaria de set up a new telephone service. Ela me faz as mesmas perguntas do menu, e digo que não, não recebo nenhum auxílio de previdência social, não, não pago a conta de luz junto com o telefone, e não, não tenho nem nunca tive telefone nenhum nos EUA.
Ela fica meio brava. Me diz para falar meu nome. Eu me confundo, e digo meu sobrenome. Que, para quem acompanha esse blog, sabe que é a única herança que seu Armando deixou pra mim: um sobrenome ilegível em qualquer língua que não seja o holandês.
Ela se atrapalha, eu também. Entendo que é o primeiro nome, e digo o latino e fácil nome que meu pai me lascou na pia batismal. O sobrenome, please, aí é a tortura... preciso soletrar, e não consigo! O alfabeto em inglês me foge da cabeça completamente.... peço desculpas, digo que estou aqui há uma semana apenas... e nada do ABC dos Jacksons Five aparecer na minha combalida mente. Vou me enrolando cada vez mais, e a mulher perde a paciência, diz que não consegue me entender, e que vai me passar pros atendentes que falam polonês ( ???). Vejo que minha situação vai piorar, e digo que me passe pra quem sabe falar Espanhol...
Bom, atende uma moça que diz Hola. Detalhe: nunca em minha vida inteira em estudei Espanhol. Eu não sei falar Espanhol. Digo isso em inglês, a moça ri... e me pede para soletrar meu sobrenome. E eu soletrei de um jeito que seu Armando, onde quer que esteja, está rindo até agora: "a violet, an elephant, a rose, a mouse, two elephants, other rose, a serpent, a city, and a ... a... hydrogen"...
A moça me pede para que eu passe um fax com cópias de duas identidades e comprovante de endereço no Brasil ( ????). E me pede um número para contato. Explico que não tenho o número para contato, ( não, não é piada), que estou falando de um orelhão numa biblioteca pública. A mulher insiste. Sou obrigada a sair do orelhão, correndo e levando uma bronca do chefe de segurança daqui, e pegar qualquer folheto da biblioteca. Passei o primeiro número que vi.
No outro dia, trago xerox do passaporte, do visto, faço um xerox do meu RG com o moço daqui da biblioteca ( que ficou olhando meu RG como se fosse algo vindo de Marte) e peço para Erin, a superauxiliar de bibliotecária daqui, passar o fax pra mim. Ela gentilmente acede, mas me faz ver que o número está errado. Desço as escadarias, vou pro orelhão, enfrento o 0800 de novo e peço prum moço gentil e bem educado o número correto. Ele me informa e explica que, se eu passar o fax o quanto antes, meu telefone será ligado no dia seguinte.
Erin passa o fax pra mim. No dia seguinte, ligo novamente no 0800, tudo de novo, soletro meu ilustre sobrenome flamengo, aparentado do grande pintor, do jeito mais tosco possível, e a moça começa a me informar das opções de serviço que existem. Digo ya, ya, ya, sem entender direito, e ela me pergunta o número do meu cartão de crédito, que por razões de segurança deixei no apartamento. Digo que tenho cartão de crédito, mas que ele não está comigo. Ela me pede um momento, diz que não pode fazer nada.
Dia seguinte, levo meu cartão de crédito, e ligo de novo num número que foi informado no dia anterior. A moça me escuta, eu soletro meu sobrenome de novo ( ai!) e ela me diz que meu nome constra no cadastro, mas ela está na central do estado de Ohio (???), não pode fazer nada a respeito em Illinois, e que eu devo ligar para o número XYZbetaalfaomega.
Perco a paciência e vou almoçar. Já estou quase desistindo do meu intento, quando lembrei dos versos de Camões: "É fraqueza desistir de cousa começada". Acho que o ilustre poeta da nossa língua não previa a companhia SBC, e que atravessar o Cabo da Boa Esperança, perto disso, é fichinha.
Ligo novamente, e toda a tortura de ver um sobrenome digno, católico de quatro costados e que é a única coisa que me resta do meu avô virar violeta, elefante e etcs. A moça desta vez é mais simpática, ri quando eu falo "Paula like Paula Abdul", e me explica pausadamente os pacotes de serviços. Digo que estou com meu cartão de crédito a mão, que a outra moça pediu, e ela estranha. Diz que o cartão é necessário nos casos em que o indivíduo assina o SuperMegaUltraGoldenPlus Package, com direito a ligações ilimitadas para todos os EUA, Europa, taxas ótimas para América Latina, internet a cabo e wireles, massagista tailandês e tudo o mais. Quando pergunto quanto custa tudo, ela me lasca cem dólares por mês. Pergunto novamente, e entendo que ficar falando ya, ya, é concordar com o que estão te oferecendo!
Digo na linguagem universal dos duros que não dá. Moral da história: hoje meu telefone está funcionando, no plano SuperMegaUltraHomelessPoverty, ou seja, só posso fazer ligações locais e olhe lá, não tem nem secretária eletrônica e internet, um abraço.
The Magnificent Mile
Aqui, moro num bairro chamado Golden Coast, como já disse. Fica perto do que o povo daqui chama The Magnificent Mile, ou seja, o trecho da avenida Michigan que vai desde o observatório Hancock e um prédio chamado Waters Tower, e o centro, depois do rio.
Nessa milha magnificente, as grandes lojas são prédios, arranha-céus elegantes. Tem uma torre só da Nike, outra só da Disney; lojas imensas da Apple, da Sony, da Virgin, Gap, Guess, Banana Republic, um hotel Hard Rock, enfim, todas essas cadeias que significam o consumo e a alegria ao redor do mundo.
Pois é, meu caro amiguinho esquerdista latino-americano, torça a cara para as vitrines abarrotadas de coisas, e para as pessoas para quem consumir é hábito vital, essencial, diário. Nunca o fetiche da mercadoria foi tão profundo, tão radical, quanto é nos EUA.
Mas por outro lado... os prédios arquitetonicamente são impecáveis. As pessoas são amigáveis umas com as outras, olhares doces, gente educada, civilizada. Uma espécie em estinção no mundo todo: gente que vai ao museu, que sonha vendo vitrines, mas que não vota no Bush, que ri muito da paranóia de segurança, gente confiante, gente estranha... para nós latino-americanos. Cadê a arrogância, o imperialismo? Em Chicago é difícil de ver. Gente rica, gente pobre, qualquer um pode entrar nas lojas, mesmo na ultrasofisticada e inglesa Blueberry, onde um casaco vale 2000 dólares. E você estranha... será que seria o mesmo na Daslu?
Aqui, é muito natural entrar numa loja. Vi um mendigo entrando na loja da Apple e ele não foi enxotado. E aí, pensei: mas porque esse homem seria tocado para fora?
É claro que existe racismo, é claro que existe Bush. Mas eu gostaria de ver no Brasil esse tipo de coisa. Gostaria mesmo. Qualquer um entrando na Daslu.
Potawatomi
Potawatomi é o nome da nação indígena que vivia aqui em Chicago. Eles foram dizimados pelos ingleses ( bidu) e hoje, muita gente estuda a história desse povo. Na cidade, hoje existem muitos marcos lembrando da história dos Potawatomi.
Interessei-me por isso por ver esses marcos, aqui no centro da cidade. Como ia dizendo, os potawatomi resistiram e empreenderam grandes guerras contra os ingleses. Deram nome ao rio, ao lago, e quase tudo que existe em Illinois.
No século XX, foi a vez dos negros. Nas décadas de 40 e 50, o pai do atual prefeito ( democratas os dois) expulsou a comunidade negra dos bairros nobres da cidade, incluindo esse onde eu moro, Golden Coast.
O pessoal se rebelou, justificadamente. Algumas passeatas no Grant Park foram dispersas pela cavalaria, muita gente morreu.
Nessa cidade de imigrantes, a memória desses acontecimentos está por toda a parte. O sofrimento precisa ser lembrado... também concordo com isso.
Friday, September 30, 2005
É verdade que...
Aproveitando a deixa, já respondo algumas questões que eu sei que vão rolar pela cabeça dos brazucas:
1)"É verdade que todo americano é gordo?"
1)"É verdade que todo americano é gordo?"
Por increça que parível, não. Pelo menos não em Chicago, no centro da cidade. Muita gente muito, muito magra. Moças anoréxicas. Quanto mais alto o nível social, mais magra a pessoa é. Onde estou, ainda tem um shopping center de cirurgia plástica, ou seja, aquela coisa Melrose Place. Moças maquiadérrimas, magérrimas, com bolsas Louis Vouitton e roupas Diesel. Mas nos subúrbios, entre a gente pobre, a obesidade é a regra.
2) "É verdade que só tem porcaria pra comer?"
Não. Em Chicago, não. Come-se comida do mundo todo, ou uma boa Ceasar Salad, por 10 dólares. Em alguns lugares, gasta-se até menos. Lógico que tem restaurante muito mais caro, e muita trash food no supermercado e redes de fast-food e tudo o mais. Mas dá pra viver comendo saudavelmente. Hoje almocei salada, salada de frutas e suco de laranja natural. Mas ontem pisei na jaca e comi o melhor hamburguer da minha vida. Sorte que no meu prédio, existe uma mini-academia de ginástica!
3) "É verdade que todo americano é arrogante?"
Não. Mais uma vez, os chicagoans de Golden Coast desmentem os estereótipos dos gringos. Primeiro porque são imigrantes ou descendentes de imigrantes do mundo todo. E são simpatcíssimos. Os negros, então.. são ótimos.
Hoje, Chicago
Para os meus queridos leitores, o primeiro sinal de vida neste blog, em terras chicagoans.
Pois é, meus caros, consegui burlar a segurança do governo Bush e, depois de dez horas de vôo e uma tremenda insônia, escrevo diretamente da Newberry Library. Ao meu redor, muitos livros sobre iconografia renascentista da Divina Comédia.
Bom, voltando. Depois de dez horas num vôo horrível, com muita turbulência em cima da Amazônia, cheguei mais cedo do que pensava no monstruoso O'Hare International. Mas não adiantou em nada chegar mais cedo, porque peguei mais três horas de fila, entre Serviço de Imigração e Alfândega. Como era a primeira vez que pisava em solo gringo, neguinho me pegou pra Cristo, e tive todas as minhas malas abertas. Os funcionários, gentis, mas mesmo assim é muito pé no saco. Ter suas roupas reviradas e ler cartazes do tipo Mantenha sua comida longe da América, é demais pra cabeça.
Depois disso, fui pegar um táxi. O oposto de lá de dentro: um senhor com cara de indiano, e outro negro, me atenderam super bem. O motorista, da Jordânia, muçulmano e divorciado, disse que casaria comigo e aceitou três bucks de gorjeta.
Chegando no prédio, um outro senhor, esse mexicano, demorou uns quarenta minutos para me entender. Tive tempo apenas para tomar um chuveiro, trocar de roupa e vir pra Biblioteca.
Quem quiser ver onde estou, clique no www.newberry.org. Fui atendida espetacularmente e já estou com uma escrivaninha própria, com net e tudo o mais.
As pessoas aqui nessa região, que se chama Golden Coast, são muito, muito, muito amáveis, sorriem, fazem brincadeiras, entendem seu inglês Tabajara. Pessoas de todos os jeitos, de todas as cores, e usando havaianas. Se não fosse pelo inglês, diria que estou numa Florianópolis, coisa assim. A comida, famosa no Mid-West, é muito boa. Comi saladas espetaculares, frutas muito doces, e um hambúrguer divino, além de um expresso digno de uma paulistana.
Tudo limpo, tranquilo, nessa parte da cidade. Já me disseram que nos subúrbios, a coisa não é assim. Depois preciso contar o que descobri sobre a história da cidade, que ajuda a entender um pouco a situação política e cultural daqui.
E o Lago Michigan? É azul. Dá pra acreditar nisso?
Monday, September 26, 2005
Amanhã, Chicago!
Pois é, o tempo passou e essa escrevedora de blog amanhã voa para Chicago.
Vamos ver como me saio. É a primeira vez que vou para os Estados Unidos. Lógico que a era Bush, os furacões e a invasão no Iraque não ajudam ninguém. Mas enfim, é a vida.
Há oito anos, fui pra Itália. Roma, Nápoles e a Sicília. Agora, a pátria do tio Sam, estágio pra ir de novo pra Itália.
Como diria Aristóteles, fui!
Sunday, September 25, 2005
Fé
Está aí um tema difícil, para nós, que encaramos quatro ou mais anos de Ciências Sociais.
Meu pai e minha avó eram muito católicos. Minha avó dona Penha em especial. Meu pai tinha como amigos os padres salvatorianos, que tanto nos ajudaram em Jundiaí, quando a gente mais precisou.
Íamos à missa com meu pai. Minha mãe é de uma religião indefinida. Tenho pra mim que o pessoal da família dela é meio espírita, meio macumbeiro, sei lá. Ela às vezes sonha, tem uns pressentimentos, mas às vezes usa seus poderes para o mal, ou simplesmente para encher o saco dos outros.
Eu fui educada no catolicismo humanista dos salvatorianos, muito próximos dos franciscanos de Petrópolis, por exemplo. Isso significava, na década de oitenta, humanismo, Teologia da Libertação. Meu livro de religião, no colégio, era bem avançadinho: citava Cazuza, descia o pau na alta burguesia, e a principal personagem era, sem sombra de dúvida, São Francisco de Assis.
Depois que entrei na Unicamp, fui perdendo a fé. Na adolescência, aprendi a jogar tarô, e ganhei duendes. Fiquei muito impressionada com o espiritismo, e rezava quando o negócio apertava.
Depois de ler Marx, é difícil a gente manter a ingenuidade.
Mas a vida é difícil. Acho que sou cristã, no básico. Não acredito nos dogmas nem na hierarquia eclesiástica. Senti uma dor verdadeira ao ver o Ratzinger papa, e achava um horror Paulo II ser contra a camisinha e os homossexuais. Não acredito na virgindade de Maria, e tenho muita desconfiança na instituição Igreja. Aliás, todas as igrejas. Mas a moral cristã, permanece no meu dia-a-dia. Será que tenho que ler Nietzsche?
Dois milagres. Ou graças alcançadas aconteceram comigo. Uma vez, estava muito desesperada, sofrendo muito por amor. Por acaso, estava na Praça da Sé. Entrei na igreja e fiquei pedindo pra quem fosse que afastasse o indivíduo de mim. Deu certo...
Outra vez, estava muito dura. Mas dura mesmo. Uma amiga foi à Aparecida do Norte, porque quase morreu quando era criança e a mãe fez promessa que todo ano, se a menina vingasse, eles iriam pra Aparecida. Ela me trouxe um pequeno São Francisco. No outro dia, me chamaram pra dar aulas num colégio católico, pra falar de Giotto... em Assis.
Tudo bem que me despediram depois, porque irritada com os moleques sem-educação, soltei um palavrão. Isso, nem São Francisco consertaria!
Mangia che ti fa bene- a parte carcamana da família
Eu não tenho nenhum ancestral italiano. Minha família era pura de sangue carcamano até agora, porque ao tudo indica o pai dos meus filhos vai ser neto de gente da Puglia.
Mas mesmo assim, sempre me senti meio italiana. Explico: em São Paulo, é quase impossível passar incólume às hordas de netos e bisnetos dos camponeses da Puglia, da Campania, da Calábria, da Sicília. E alguns vênetos, poucos, mas que existem.
Pra começar, sempre tive o dom de me apaixonar pelos Ricardi, Fantinato, Barbarasso da vida. Tudo bem que em Jundiaí, eu não tinha muita alternativa. Mas minha ligação com a velha Bota começou bem, bem antes disso.
Dona Ofélia morava no prédio da Teodureto de Souto, onde meu avô era zelador e aprontava todas, e minha avó infernizava a vida da minha mãe. Meu pai com seus cinco empregos ( seu Pedro sempre dando nó em pingo d'água) quase não ficava em casa. No primeiro andar, morava Dona Ofélia, que fazia macarrão pra fora. Dona Ofélia cuidava de Roberta, sua única neta. Seu filho casou-se com uma moça que, depois de ter a Roberta, se suicidou. Quando eu nasci, a Roberta tinha onze anos, e decidiu que eu seria sua boneca e mascote.
Dona Ofélia se dava bem com seu Armando, mas detestava dona Penha. Sabendo da minha condição de neta sem avó, tomou as rédeas das coisas e me deu os primeiros banhos e tudo o mais. Talvez minhas lembranças mais remotas sejam da mesa cheia de farinha, e da senhora que por muito tempo achei que fosse a Dona Ofélia da televisão. Vaidosa, com suas camisas estampadas, seu gosto pela cozinha, e a italianice.
Depois, na Miguel Telles Júnior, conhecemos no playground uma moça chamada Mara. Ela e seu marido eram filhos de italianos. No caso do Laerte, napolitanos da velha cepa. Gente que bota presépio com Menino Jesus em tamanho natural no Natal, que gosta de comida, discussão, livros e coisas assim. A Mara e o Laerte foram meus super-tios durante anos, era Natal, era passeio, era tudo com eles. Eles tentaram ter filhos, mas os dois bebês, Gabriel e Rafael, nasceram com uma doença muito rara, e morreram.
Anos depois, a Mara estava em casa no dia do meu aniversário. Seu obstetra ligou dizendo que uma menininha havia nascido e sua mãe não a queria. A Mara adotou essa bebê, que compartilha comigo o dia do nascimento, e que tem o nome do meu irmão, Marcela. Em homenagem a nós dois.
Daria pra escrever um grande romance sobre a Mara e o Laerte. E a italianada toda, família deles. Mas o que não dá é pra descrever a gratidão eterna que vou ter pelos italianos de São Paulo. Com eles, aprendi a gostar da comida da Península, de ir ao MASP, de ler, da maioria das coisas que me fazem hoje. E de lascar O Sole Mio no chuveiro!
Para Dani e Evandro: essa é do seu Armando!
Ontem, tive uma felicidade genuína. Na minha despedida, recebi um casal de amigos muito querido, que veio de Vinhedo especialmente para me ver! Então, Dani e Evandro, essa é pra vocês...
A Dani me contou que de vez em quando passa por aqui, e que leu e se emocionou com a história das minhas avós. Dani, que é minha conterrânea de Cambuci, e que também tem uma família de figurinhas. Contei pra ela a pior história do seu Armando, meu avô paterno.
Seu Armando era filho de belgas-holandeses, sabe como? Pois é, parente longínquo mas nem tão longínquo assim do pintor Vermeer. Os famosos flamengos, que se dividiram entre os dois países, e que vieram dar às costas brasileiras algumas vezes. Católicos e mercadores.
Meu bisavô, seu Arthur, era dono do Hotel Fluminense, em Campos. Casou-se com dona Arminda, filha de portugueses, e dessa união nasceu a figura. A família perdeu tudo, segundo a lenda, porque Gastão, o filho mais velho, gostava de jogar nos cavalos. Outro dia encontrei na Internet um neto do seu Gastão, meu primo, que mora no Rio. Não comentei nada, vai que é mentira!
Voltando. Seu Armando era alto, loiro, de olhos azuis e estrábicos. Magro, e meio rebelde. Entrava e saía dos empregos, era meio malandro, mas gostava muito dos seus seis filhos homens. Pobre, pobre, mas comprava presentes de Natal para todos: carrinhos de madeira, bolas e outros brinquedos. Mesmo na pobreza, guardou suas delicadezas burguesas, européias. E um sotaque meio diferente.
Quando o filho mais velho quis vir para São Paulo, trazendo os irmãos, seu Armando não titubeou. Veio junto. No frio Piratininga, sentia-se melhor. Aqui, conseguiu o emprego de zelador num prédio, na rua Teodureto de Souto, no Cambuci. Morava lá, no apartamento reservado ao zelador, e era lembrado muitos anos depois como um dos melhores funcionários do prédio. Lavava com ardor a escadaria do primeiro andar, de mármore branco, deixando-a brilhando.
Minha mãe trouxe a discórdia e a primeira neta que ele teve a oportunidade de conviver de perto. Escondido da minha avó, seu Armando ia me visitar, me levava pra passear no parque da Aclimação, e tirava fotos comigo no colo, com vestido de joaninha.
Meu pai deu nó em pingo d'água e conseguiu um financiamento. Saímos da Teodureto e fomos pra Miguel Telles Júnior, num prédio novo. Seu Armando ia lá, e cuidava dos netos, já que meu irmão nasceu com seus incríveis cinco quilos e meio.
Um dos meus tios conheceu uma moça, de Osvaldo Cruz, interior de São Paulo. Ficaram noivos. Às vésperas do casamento, uma das irmãs da minha tia veio para São Paulo, para prestar um vestibular ou um concurso, não sei direito, e minha avó ofereceu sua casa e ajuda para a mocinha. A mocinha, carregando a mala, inocente e caipira, chegou na Teodureto. Seu Armando estava na calçada, com seu rayban, sua calça de tergal e suéter. Não é que o velho lascou uma cantada barata naquela irmã da sua futura nora? Foi aquele escândalo...
Seu Armando era muquirana, e não deixava dona Penha comprar pó e ruge. Pouquíssimo católico, dava dores de cabeça na minha avó, homéricas. Não sei porque, mas ele perdeu o emprego, o povo todo teve que sair da Teodureto, e eles foram pra um conjunto de prédios perto da antiga Rodoviária, ali quase dos lados da Baixada do Glicério. Onde o Maluf tava construindo o monstro Radial Leste.
Nas fotos do meu batizado, aparece de rayban. E apertando a gente. Logo depois, a fatalidade. Teve um AVC, depois outro, depois outro. Ficou nove anos na cama, com um dos lados paralisado, o estrabismo cada vez pior. Eu tinha medo do meu avô, preso naquela cama, sem falar direito. Muito medo. Meu pai irritado com minha falta de jeito me obrigava a ficar perto. Minha mãe, numa das poucas vezes que teve sensibilidade para comigo, explicou pra ele que eu tinha medo do seu Armando, que isso era normal.
O que não é normal foi seu sofrimento. Sofria muito, e no final pediu para que Jesus o deixasse ir. Sofreu demais para falecer, o que ocorreu dois anos depois da morte da minha avó materna, e no mesmo mês de tia Júlia e tio Esmeraldo, seus cunhados e padrinhos de meu pai.
Meu avô deixou para mim a lembrança de que, mesmo sendo zelador de prédio, é necessário ter uma certa aristocracia de espírito. Uma delicadeza de alta burguesia. O dinheiro, esse é detalhe.
Saturday, September 24, 2005
Dona Penha, minha outra avó
Hoje, deu vontade de escrever sobre os campistas. Comecei com dona Maria. Agora vou falar da minha avó paterna, dona Penha.
Que também era uma figura. Dona Penha foi mãe de seis filhos, mesmo se casando tarde com o filho de um belga dono de hotel, meu avô seu Armando. Ela me contou sua história, eu com meus quinze anos, ela quase com oitenta. E me disse sabiamente: ainda bem que alguém se interessa e escuta essas histórias, porque daqui a pouco eu não estou mais aqui.
Que também era uma figura. Dona Penha foi mãe de seis filhos, mesmo se casando tarde com o filho de um belga dono de hotel, meu avô seu Armando. Ela me contou sua história, eu com meus quinze anos, ela quase com oitenta. E me disse sabiamente: ainda bem que alguém se interessa e escuta essas histórias, porque daqui a pouco eu não estou mais aqui.
Ela me contou que seu pai trabalhava na Ferroviária, a Leopoldina, e chamava-se Franklin. Por alusão, compreendi que ele era mulato muito escuro, explicando os cabelos pixaim, os lábios grossos e olhos esverdeados de toda a nossa família. Sua mãe era doceira, trabalhava em casa e se chamava Antônia. E tinha os cabelos lisos e negros.
Seu pai faleceu quando ela era mocinha e sua mãe teve uma longa e terrível doença: câncer. Minha avó explicava que por isso, ela ficou em casa até mais tarde, cuidando da mãe até ela vir a falecer. Isso era compreensível. Uma das vergonhas de minha avó, além da mulatice do pai, era que havia se casado tarde, aos trinta anos, e com um rapaz mais novo, que conheceu passeando com uma amiga. Ele namorava outra, mas minha avó deu um jeito de conquistá-lo. Essa é a melhor parte da história.
Casada com ele, teve uma vida de privações e sofrimento. Perdeu o filho mais novo, meu tio Salvador, afogado no Paraíba do Sul, e viu os filhos migrarem para a distante São Paulo. Até hoje não sei porque meu tio mais velho decidiu vir pra São Paulo, e não para o Rio, como seria natural aos norte-fluminenses. Mas enfim, vieram todos, até meu avô, que simplesmente amou e adotou São Paulo como sua terra. Minha avó não se conformava com isso, e todas as férias brigava e obrigava um dos filhos a levá-la para Campos. Numa dessas, meu pai, cabeludo e fã dos Beatles, quase noivo de uma nissei, foi obrigado a ir e na fila da Caixa Econômica, conheceu a internacionalmente famosa minha mãe, Dona Meire. Qualquer dia desse eu falo dessa criatura que me gerou.
Claro que dona Penha implicou com Dona Meire. As duas se odiaram e no início do casamento dos meus pais, minha mãe, que foi morar com os Vermeersch no prédio no Cambuci onde meu avô era o zelador, e que para o desgosto de todos engravidou logo desta que dá o testemunho, foi colocada no limbo pela sogra megera.
Minha avó pagou todos os seus pecados. No final da vida, a única nora que cuidou dela, e que a acompanhou na morte, foi minha mãe. E a neta que ela jurava não ser filha do meu pai e que não foi ver quando nasceu, foi adotada por uma senhora italiana do prédio, dona Ofélia. Dona Ofélia, arquiinimiga de Dona Penha, cuidou de meu umbigo problemático e me deu os primeiros banhos e as primeiras macarronadas. Essa neta resistiu a tudo isso, e causava orgulho a dona Penha, porque sabia tocar piano ( mal e porcamente, é bem verdade), e entrou na Unicamp, instituição citada na televisão.
Minha avó era muito católica. Gostava de cozinhar, mas não fazia doces. Minha mãe, implicante, dizia que a casa da minha avó era suja e não nos deixava comer lá. Lembro-me do primeiro presente que ganhei de meus avós: uma boneca de plástico, dura, com um vestido xadrez azul. Até hoje existe.
Lembro-me também que adorava suspiros. E que era baixinha, baixinha. E que quando fez oitenta e dois anos, surpreendeu todo mundo. Pela primeira vez na vida, aceitou que as senhoras amigas da igreja fizessem uma festinha de aniversário para ela. Teve bolo, salgadinhos e docinhos, que ela mandou para nós, junto com uma foto. Onde estava maquiada, elegante, de roupa nova comprada pela nora. Logo depois, partiu desse mundo.
Sua morte foi a primeira dor verdadeira que senti na vida. Caloura na Unicamp, senti que fui transportada para uma outra dimensão, naquele final de semana. Virei motivo de chacota entre alguns colegas de classe, porque sofri de um início de depressão e só falava da sua morte. Tive que procurar ajuda e no centro médico da universidade, encarei minha primeira terapia.
Hoje, sei que minha avó me ensinou que é importante termos memória. É importante respeitarmos os mais velhos, e que do mesmo jeito que meu pai teve que se despedir dela, tive que me despedir de seu Pedro, e alguém um dia terá que fazer isso por mim. Aprendi a ter fé, e aprendi que do sofrimento, da dor, podem vir coisas boas. E que tudo passa, mesmo implicância de sogra.
Minha avó
Ontem, ouvi na Nova FM "Escrito nas Estrelas", da Tetê Espíndola. E me lembrei da minha avó, Maria da Conceição.
Aliás, minhas duas avós chamavam-se Maria. Maria da Conceição e Maria da Penha. Nomes antigos, como diz Érico Veríssimo em Incidente em Antares, nomes avoengos.
Minha avó materna, a da Conceição, adorava essa música. Ela, muito pobre, muito simples, morava na velha Campos dos Goytacazes. Que antes de ser a terra do casal Garotinho, foi a terra natal de meus ancestrais, de meus avós e de meus pais. Mas gostou tanto da canção, que concorria num festival, em 85, que comprou o LP especialmente para ouvir. Essa música marcou o último ano da vida dela.
Eu deveria ter uns quatro anos quando conheci minha avó. Nós morávamos exilados em São Paulo. Quando nasci, ela quase faleceu devido a um mioma, que não havia tratado por falta de recursos e de coragem para ir ao médico. Só pude vê-la no meu batizado. E tive a indelicadeza de lhe perguntar do velho José Ferreira, morto muitos, muitos anos antes, e que foi sua única e grande paixão. Minha avó ficou com os olhos cheios de água, e minha mãe ou alguém ao lado me explicou que ele era uma estrela.
Foi a mesma explicação que minha mãe deu a minha priminha, desconsolada com a morte de quem cuidava e educava dela. Eu tinha nove anos, vi minha mãe com o rosto vermelho de chorar. Na hora não compreendi direito, mas hoje sei que minha avó era muito simples, muito doce, e que partiu desse mundo cedo, na quadra dos cinquenta, devido a um erro médico.
Lembro-me que sua cozinha, geladeira, fogão e armários, era toda vermelha, comprada a prestações pagas pelo meu pai. E que no velho terreno do seu José Ferreira, ela ocupava uma meia-água nos fundos e alugava a espaçosa e verde casa da frente a uma moça. Seu banheiro inteiro era escuro, de cimento queimado, e da primeira vez que fui a Campos visitá-la, cometi outra indelicadeza, no alto dos meus cinco anos: dei um verdadeiro chilique e não queria tomar banho num lugar tão pobre. Lembro-me que saí de São Paulo a Campos no Voyage do meu pai pensando que minha avó era uma fada, e morava num lugar mágico como as estampas fofas dos cadernos.
Outra lembrança forte foi a bronca que ela me deu quando eu chorei e pedi de volta à minha prima, abandonada pelos pais na casa da nossa avó, uma bermuda branca e de listas coloridas que havia sido minha. Acho que dessa terceira vez, dona Maria perdeu a paciência com a neta birrenta e enjoada. Eu era uma verdadeira chata.
E ela tinha um quadro, com uma estampa, mostrando os hebreus atravessando o Mar Vermelho. E gostava de tapioca com manteiga, e de pudim no Natal. Fazia galinha ao molho pardo, e caranguejada, indo com meu pai ao velho Mercado de Campos e comprando os bichos vivos. Tinha flores, frutas e ervas no quintal, incluindo um imenso mamoeiro, onde uma vez fui fotografada fazendo birra, pra variar. Mas que vergonha.
Hoje, sei que uma das melhores influências que tive na vida foi da minha avó, que conheci tão pouco e que perdi tão cedo. Foi com ela que aprendi a lição da simplicidade de caráter. E gostaria muito que ela estivesse aqui para poder ir a Campos comer tapioca com manteiga. E chuvisco, e doce de mamão verde.
Friday, September 23, 2005
Leituras de Rousseau
Li Rousseau uma vez na vida. O Contrato Social.
Queria ler de novo.
Em outra encarnação, fui de um negócio chamado Programa de Formação de Quadros Profissionais, no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento. Isso mesmo, estive na Estrela da Morte do Império, no Antro arqui-inimigo do Gláuber Rocha e do Gilberto Vasconcellos. E não virei Darth Vader, aparentemente.
Nesse troço, a gente ficava dois anos fazendo programas de estudo. Doze pessoas, de todas as áreas das Humanidades: advogados, filósofos, sociólogos, antropólogos, cientistas políticos, e até mesmo historiadores da Arte. Escolhíamos o que queríamos estudar, e aí, era mandar bala, toda terça e sexta-feira.
Teve um programa de Filosofia Política. O básico: Aristóteles, Maquiavel, Rousseau. O Contrato Social começa com a concepção aristotélica de política: um ramo da Física. Os fenômenos da política são da ordem das investigações naturais. No Príncipe, Maquiavel parte do mesmo pressuposto.
Mas no Rousseau, o negócio dá pau. Ele começa considerando a política como algo passível de ser compreendido com regras, como a geometria de Euclides. E logo descarta esse tipo de argumento, porque os homens têm seus afetos, suas paixões, que, inversamente do que pensavam os autores do século XVII, não são calculáveis nem previsíveis. Rousseau reivindica o abismo dentro de cada um, o diferente.
No meu pouco entendimento, ficou a impressão do livro ser algo grande. E afetivo, e generoso. Gostaria de estudar um pouco mais isso...
Thursday, September 22, 2005
Dance Little Lady Dance
Uma das minhas paixões no pop sempre foi, e sempre será, a música que bombava nas pistas no momento do meu nascimento. Viva a disco!
Uma play list básica, pra comemorar os quase 30 anos da moça que escreve e desse fenômeno musical:
1)Dance Little Lady Dance- Tina Charles
2)Shake Shake Shake- KC and The Sunshine Band
3)Dance a Little Bit Closer- Charo
4)Give it Up- KC and The Sunshine Band
5)That's the way I like- KC and The Sunshine Band
6)Zodiacs- Roberta Kelly
Aniversário, quase embarcando
Aniversário. Pois é, aniversário.
Hoje faço 28 anos. Brincadeira... quando eu tinha uns quinze, achava que aos quase trinta, estaria velha. Bom, velha estou ficando mesmo. Daqui a pouco, vou ter que comprar Renew. Como diria Balzac...
O mais doido deste aniversário é que estou quase embarcando para Chicago. Quem acompanhou o blog sabe que desde o Carnaval estou às voltas com as burocras, daqui e de lá, pra poder ir ver livros velhos às margens do Lago Michigan. De forma surpreendente, esta escriba convenceu Consulado e Fapesp que ver ilustração renascentista da Divina Comédia é algo importante para o progresso das Ciências Humanas brasileiras. E de forma mais surpreendente ainda, conseguiu se convencer que ir pros United é legal, em tempos Bush.
Então... daqui a uns cinco dias, Illinois. O blog vai virar diário de bordo... por enquanto, escutando Cabelo Raspadinho, do Edu Casanova, na gravação do Chiclete com Banana. BRASIIIIIIIIILLLLLLLLL!!!!!!!!
Wednesday, September 14, 2005
Aula de História do Brasil
Hoje, me despedi dos meus alunos no cursinho. Pois é, ao que tudo indica, e está na passagem que comprei, vou encarar mesmo o lago Michigan.
Até que dei uma aula sobre o estabelecimento da cana-de-açúcar e as características da sociedade colonial brasileira boa. Fizemos dois exercícios, de universidades federais, e tasca o açúcar no povo. Sociedade patriarcal, religiosa e escravocrata. Como essas coisas se combinavam?
É uma loucura acompanhar o raciocínio, eu sei.Por que não escravizaram os índios? Por que os africanos? Por que o açúcar? A mandioca é mesmo venenosa?
Como eu queria ser uma boa professora.
Aleijadinho
Algumas notas sobre o Aleijadinho.
Hoje dei uma aula sobre Imaginária Brasileira. Já está provado, pela professora Myriam de Oliveira, da UFRJ, a maior estudiosa de Arte colonial brasileira, que surgiram várias escolas de artesanato artístico, durante o período. Existem aspectos estilísticos que diferenciam as peças do Maranhão das de Pernambuco, e as duas das da Bahia, Minas Gerais, a região das Missões Jesuíticas, São Paulo.
O ponto alto da tradição mineira, sem dúvida, é o Aleijadinho. Que consegue, em Congonhas do Campo, ser o ponto alto de toda a história do artesanato artístico no Brasil, de todas as regiões. A professora Myriam se preocupa, no livro mais recente, em demonstrar que a arte colonial brasileira não pode ser chamada de barroca: ela seria rococó. Acho que essas discussões estilísticas são um pouco estéreis.
Mas o fato é que, para estudar a obra de Aleijadinho, é preciso tomar alguns cuidados. Em primeiro lugar, é necessário se desvincular do mito romântico, criado pelo primeiro biógrafo, Bretas, e pelo ensaio crítico de Mário de Andrade. O Aleijadinho não era um gênio isolado, um homem que tirava tudo da sua cabeça: original, sim, mas em diálogo constante com a tradição, um homem que se entendia como parte de um universo colonial marítimo português.
Tampouco a mulatice explica a força criativa e criadora. É um fator interessante, mas não explica um artista que se quer reconhecido como universal. Também é necessário saber que muitas peças ditas do mestre são de oficinas próximas a sua: o mercado dá a autoria que quer, como bem demonstram as exposições de coleções particulares.
Lembro de uma ( não vou citar o nome do colecionador por gentileza) que fui no Museu Nacional de Belas-Artes, no Rio. Você chegava e dava de cara com um enorme banner, onde o colecionador propunha algumas características formais que seriam constitutivas da marca da oficina de Antônio Lisboa. Bom, se você seguisse tais critérios, nenhuma peça da coleção restava como sendo da oficina do mestre.
Tirando esses vexames e a situação sempre precária do patrimônio artístico nacional ( o site da Polícia Federal traz muitos casos de obras roubadas que andam por aí, nas salas chiques e atapetadas da alta burguesia), além da escassa documentação, resta a eloquência do conjunto de Congonhas. Talvez seja um dos conjuntos escultóricos mais bonitos do mundo. Dois estrangeiros deram conta do problema: Germain Bazin e Robert Smith, em monografias fundamentais e há muito fora de catálogo. Interessante que já vi muita gente estudando peças isoladas, ou a atuação do artista como arquiteto, mas sobre Congonhas, existe muito pouca coisa. Além de Bazin e Smith, existe um livro da professora Myriam, um artigo de Nancy Davenport na revista Barroco, e as propostas de uma historiadora de Minas, que prova com uma argumentação muito fraca que os profetas seriam os inconfidentes. Além da médium que recebe o espírito de Tomás Antônio Gonzaga, cuja turma domina as comunidades relacionadas no orkut.
Enfim, em preparação um artigo sobre os profetas. Não, infelizmente eu não recebo o espírito de ninguém. E sim, concordo com Bazin: os profetas vieram de um conjunto florentino de gravuras do século XV. Como o Aleijadinho viu isso? E eu sei?
Monday, September 12, 2005
Leopardo do Visconti
Assisti o DVD do Leopardo, do Visconti. O DVD vale a pena, o segundo disquinho traz entrevistas com algumas das quinze ( é, quinze) pessoas que estavam na equipe técnica do diretor. A Cardinale continua linda, e os velhinhos contam histórias engraçadíssimas, tipo do Visconti não querer o Burt Lancaster para o papel principal e se recusar a falar com o ator. Que, fazendo laboratório para o papel, descobriu o melhor aristocrata para se inspirar: o próprio Visconti. Os dois ficaram amicíssimos, e descobriram que faziam aniversário no mesmo dia. Na festinha, no set, deram-se presentes iguais. Não é ótimo?
Mas o filme é de chorar. O detalhismo é impressionante:a seda dos estofados é seda mesmo, as flores são todas de verdade, e tem, na sequência do baile, uma cena fantástica: meia tela, o Lancaster desfeito, suando, no fraque, e na outra metade uma porta aberta, e prateleiras de urinóis de louça branca, cheios.
A conferir as diferenças entre o romance e o livro. Os velhinhos, incluindo o sobrinho do Lampedusa, que inspirou o Tancredi, insistem em análises detalhistas sobre as diferenças. Eu, na minha ingenuidade, achei o filme tão parecido com o livro... vou ter que ler e ver de novo!
A-HA
Se você, nos oitenta, era como eu, e tinha preconceito contra os escandinavos do A-HA, você, como eu, era uma besta quadrada.
Eu não gostava do A-HA porque eles eram bonitos demais, arrumadinhos demais, e as minhas colegas da quinta série morriam por eles. Tinha preconceito mesmo, achava que eram uns New Kids on The Block mais velhos.
O que eu não queria admitir era que as músicas deles eram parte da minha vida diária; como sempre escutei muito rádio, "Hunting High and Low", "The Sun Always Shines on TV", "Take on Me" eram eu naquela época. E eu teimosamente não queria ver.
Preferia o rebelde dos Titãs, que, hoje eu vejo, era de butique e chato. Tudo bem, "Cabeça Dinossauro" é um clássico, mas o resto era porcaria, prova é o que eles fizeram depois.
Que arrependimento! O A-HA era legal, as músicas eram pop da melhor qualidade, os caras vieram várias vezes ao Brasil, e eu, agora aos meus trinta anos, vejo que "Take On Me" tem um frescor, uma alegria que me faz falta. Ouça A-HA. É honesto, vale o que eles pedem, pop mesmo, sem vergonha de ser feliz, bem-feito, bonito. Coisa de gente grande.
Tuesday, September 06, 2005
Dragostea Din Tei
Agora, vamos falar do lixo!
Eu havia escapado ilesa da Festa no Apê do Latino, até que um conhecido meu desavisado me explicou que a pérola do nosso ídolo nacional era a versão tranqueira de uma música romena, sucesso no mundo inteiro na versão putz-putz.
Entro no site do Terra Rádio, uma das minhas manias. Tenho uma rádio com umas duzentas músicas, que vou escavando na chatice que é uma rádio cuja maior parte das músicas só toca 30 segundos (???), e me deparo com o Latino. Escutei e reconheci a melodia da, essa sim, cráçico da curtura popularrrr de massa corrida Dragostea Din Tei. Descubro que essa porcaria já havia grudado no meu cérebro, entrado no meu inconsciente, no meu, no seu e no de milhões de vítimas pelo mundo!
Esse meu colega, antropólogo, disse que depois de dias com os neurônios sendo destruídos por essa língua desconhecida mas familiar, porque latina, que é o romeno, achou na Internet um estudioso afirmando que a melodia e a letra de Dragostea Din Tei merece uma pesquisa, porque demonstra que algumas melodias, de origem popular, grudam mesmo. É o mesmo fenômeno de Fata Morgana, do Dissidenten ( sim, você se lembra disto. Ouça no Terra Rádio, porque essa, assim como a Dragostea, tá inteira!).
Meu filho, não adianta. Você foge do Latino e cai no O-zone, nome dos caras. O que me consola é que a letra romena ( sim, eu vi a letra e a tradução) é uma cantada inocente: o cara no telefone convencendo a mina a sair com ela, porque ele pode ser o seu Picasso. Melhor do que o ex-marido da Kelly Key!
A Divina Comédia- para escutar
Gosta de coisas diferentes? Emoções fortes? Preparado pra falar com gente morta, ver neguinho nadando em lava fervente e de quebra encontrar os velhos Dante e Virgílio?
Seus problemas acabaram! O portal Italica, de cultura italiana ( bem-feito, completo, uma beleza) oferece o serviço La Divina Commedia Parlata, com os cantos do Inferno recitados magistralmente pelo inesquecível Vittorio Gassman. Ele mesmo, nosso líder máximo, o Brancaleone! O texto vem junto, no toscano, mas você pode acompanhar com sua edição brasileira. Imperdível, e o que é melhor, de grátis!
http://www.italica.rai.it/principali/dante/index.htm
7 de setembro: pra quê tanto, meu Deus?
Eu ando deprimida com o desfecho de tanta luta pelo PT. É muita picaretagem. Não se pode mais confiar no velho sonho vermelho. 7 de setembro, pra quê?
Exposição Histórias da Pré-História-CCBB
Depois do post anterior, percebi que cometi uma injustiça. Na minha estadia paulistana rumo à pátria do Tio Sam, reencontrei um velho, e querido, amigo na Exposição Histórias das Pré-História, no Centro Cultural Banco do Brasil.
Muitas, mas muitas crianças. Com vários monitores. Tudo organizado e bacana. Uma animação linda com as pinturas rupestres do Piauí, um fóssil de um bicho-preguiça maior que meu carro e um universo de coisas espantosas, como os muiraquitãs, as urnas amazônicas, as litogravuras abstratas... sambaquis, e animais Henry Moore. Se estiver por São Paulo, vá ver. E tome um café no Girondino e veja as velhas São Bento e São Francisco por mim.
Vida cultural nula
Nesses últimos dias, minha vida cultural anda nula, pra não dizer negativa. Estou indo em médico, cabelereira, vou ter que voltar no Consulado, mas a boa notícia é que, sim, passei no IELTS ( tirei mais do que a nota mínima exigida pela FAPESP)...
Numa ansiedade pela viagem, e mandei uns e-mails mas os caras lá estão no Labor Day. Fazer o quê, né? E a gente aqui nesse 7 de setembro duro de engolir.
O que me salvou esses dias foi a leitura desatenta, pedestre, das Meditações do Marco Aurélio. Esse mesmo, o imperador do Gladiador, o velhinho amigo do Russel Crowe, lembra? Pois é, ele não está só em filme: tem livro também. Li alguns trechos na tradução do Mário da Gama Kury, Ediouro.
O padrão ético do estoicismo é altivo demais para mim, para você e para todos nós desta Era Cristã. Porque a gente erra, erra, mas Deus perdoa, e tem a vida do além. Agora você acreditar que mesmo Deus existindo, mesmo tendo vida post-mortem, o Universo é soberbamente indiferente a você, e que só existe o presente... tente fazer isso em casa. Dá nó na cabeça. Você precisa seguir uma conduta séria, reta, digna. Resumindo: a humanidade já teve dias, e pessoas, melhores.
Subscribe to:
Posts (Atom)
