Sunday, April 09, 2006

Domingo de Ramos

Seguindo a liturgia, hoje é domingo de Ramos, dia em que Jesus entrou, montado num burrico, em Jerusalém, saudado por palmas e alegria. Menos de uma semana depois, a história que todo mundo sabe.
Acordei mal, deprimida com tristezas passadas, presentes e futuras. Fui tentar ligar no celular do Luis ( no orelhão, já que aqui em casa vivo no Plano Favela da Telefónica), a pia entupiu e tive que encher o saco da minha vizinha, desci e fui pra Ki-Pão, o pão nosso de cada dia nos dai hoje. E vejo na banquinha, Suzane von Richthofen na capa da Veja, em close, sorrindo. Puta, aquilo me derrubou.
Faz anos que a Veja tá uma merda, e o povo lascou no Orkut a comunidade "Leu na Veja? Problema seu!"... entre Diogos Mainardis da vida, gente que fala que Mozart não era tão bom assim ( sim, claro, bom mesmo é Geraldo Alckmin), eu fico mal pra caramba, porque eu sou da época que a Veja era, sim, uma boa revista. Agora é um lixo, e nem dá pra usar pra limpar nada. Agora, essa psicopata na capa, sorrindo e limpando sua barra com a opinião pública... quer dizer que ela manda matar o pais de pancada pra ficar com a herança, e agora posa de menina sofrida?
Olha, como dizem por aí, eu sou da turma dos direitos humanos, muito difícil eu me bandear pras raias do autoritarismo de achar que bandido tem que morrer e coisa e tal. Mas essa filha da p*&^& não tem justificativa. O pai abusava? A mãe era uma escrota? Saísse de casa, fosse pruma quitinete. Deixasse de ser a riquinha mimadinha e idiota. Fosse pra luta. Não, matar pai e mãe é injustificável, pruma nega da classe alta paulistana ( elite boa essa que a gente tem, né? Daslu, Suzane, tudo isso dá uma idéia do que essa gente é)... e mais injustificável é essa revista de quinta categoria dar espaço e entrevistar essa desgraçada, que deveria estar presa.
Passei da depressão pra revolta. Olha, meu background católico é forte demais pra eu aceitar isso. PT roubando, nega matando pai e mãe, mas será possível? Virei a esquina e vi uma senhora com uma palma na mão, indo ou voltando da missa. E lembrei, começou a Semana Santa. Lava-pés, última ceia, e o Calvário.

Friday, April 07, 2006

Paulistânia

Tenho a alma deveras paulistana.


A padaria da esquina, os sobrados, os vários tons de cinza e azaléias. O trânsito na Paulista, o Fauno do Trianon, o pastel do Yokoyama, corre e atravessa a Sé, corre e atravessa a Brigadeiro, desce a Arcoverde e sobe a Teodoro Sampaio. Da Lapa a Móoca, a nova estação de metrô no Ipiranga. Volpi, Adoniran, Oswald e Mutantes. O peso das palavras quando ditas na USP. O café e a Oscar Freire. O caldo de cana e a Pinacoteca. E um dia me perdi e achei o Lasar Segall, me perdi e achei o Ibirapuera, mas entrei no portão errado, e tudo nessa cidade é longe e não tem retorno.

Thursday, April 06, 2006

Documentos

Hoje fui tentar resolver duas pinimbas.
Minha carteira de habilitação venceu em setembro, e eu não votei nem justifiquei no referendo das armas.
Bom, chegando na Justiça Eleitoral, uma senhora me pede que eu não faça a regularização do meu título porque o negócio estava burfado de gente. Essa semana é a semana da transferência dos títulos de cidade pra cidade e regularização da situação de gente que nunca teve título...
Fui no Poupa Tempo. Precisei tirar uma foto 3x4, onde obviamente saí com cara de doida, e pagar sessenta pilas. Descobri que vou ter que fazer um curso na auto-escola, mais sessenta pilas, na semana que vem. Que beleza.
Vou no Bradesco, também lotado, pagar uma taxa de um congresso que quero participar, no final do mês. A maquininha dá um pau danado. Depois fui na Renner pagar prestações vencidas e ver se achava algum paninho pra mim. Nada ficou bom, eu tomei chuva na rua e meu cabelo tava um desastre. Vi uma roupinha na vitrine, a blusa M ficou grande demais, a calça 44 pequena demais, e a jaqueta jeans uma estopa. Fiquei parecendo um espantalho!
Na outra loja, um vestido lindo de morrer, estampado, fundo preto e estampa verde. Totalmente fora das possibilidades econômicas do momento, o vestido me deixou uma pessoa decente, quiçá interessante. Mas pensei, cara, nem sapato tenho pra usar com essa coisa linda.
Na auto-escola, tinha uma maquininha pra verificar digitais (???) e meus dedos não batiam. Eu fiquei me sentindo uma ET, pensando no vestido e no fato de ter que gastar grana com besteira como auto-escola, segunda via de documento, e foi estranho ver roupas de inverno nas lojas. Depois do frio de Chicago, isso aqui é bolinho!

Wednesday, April 05, 2006

Romântica, muito romântica

Com esse negócio de baixar MP3, as lembranças vêm e vão.

E comprovo um traço da minha personalidade que é fogo. Eu sou muito romântica, chego a ser brega demais, é horrível.
Um olhar mais doce, um telefonema, uma atenção,e eu me derreto. Nossa, tive tantas paixões platônicas, daquelas platônicas mesmo, tipo Castro Alves, Álvares de Azevedo, um bolero sem fim essa minha vida.
E ao mesmo tempo, esse mundo vive dentro de mim, porque a timidez me acompanha. Não tenho coragem de me declarar, nunca; tento chegar perto, brincando ou inventando uma desculpa mais ou menos racional, sempre.
Eu tinha uns quatorze anos e gostava dum cara do colégio, que não dava a mínima pelota pra mim, claro. E um dia, na saída das aulas, criei uma coragem absurda e perguntei as horas pra ele. Detalhe: no pulso, eu tava com um relógio Casio gigante, amarelo... o cara olhou pra mim pensando, mas essa mina é louca... e eu, esse relógio tá quebrado...
Agora, eu resolvi escancarar. Tô com quase 30, não vou mudar nem melhorar. Durante muito tempo, meu projeto era virar uma mulher desencanada, solta, relaxada e moderna. Mas não adiantou nada, então é melhor assumir. Sim, eu gosto de Roberto Carlos, sim, eu adoro flores, e sim, eu me apaixono com uma facilidade ridícula. Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!

Monday, April 03, 2006

Pérolas musicais

Descobri que uns maluquinhos adoráveis estão disponibilizando, no Orkut, links pra baixar músicas. Ou seja, essa noite eu não dormi porque fiquei baixando pérolas dos cancioneiros internacional e nacional.
Gente, tem de tudo, e isso me alegrou, porque minha velha mania, a Rádio Terra, foi por água abaixo. Os caras decidiram do nada que não se pode mais ouvir as canções por mais de 30 segundos, um verdadeiro saco. Um menino muito inteligente montou uma comunidade no Orkut, "A Rádio Terra perdeu a graça", e eu entrei, lógico...
E aí, é um problema. Se você ouve a Rádio Yahoo, não pode escolher a seleção, e só pode pular cinco músicas. E se você quer baixar MP3 por aí, é sempre aquela preocupação com a infestação de vírus.
Mas o pessoal no Orkut resolveu usar um site alemão de compartilhamento de arquivos, e o processo fica rápido e seguro. Consegui músicas que queria há anos, desde o tempo eu que eu gravava tudo que queria em duas fitas cassete, gravadas e regravadas de forma absolutamente esquizofrênica.
Baixei coisas que são caras ao meu coração, mas que são verdadeiras porcarias musicais. Outras nem são tão ruins assim, como as do Pepeu Gomes, que eu acho um puta músico injustiçado. Isso me deu um pouco de alegria. Ontem me olhei no espelho e me vi envelhecida e sofrida, olhar em viés, anguloso e dolorido. Agora preciso ir dormir, insônia é fogo.

Friday, March 31, 2006

Quiproquós culinários

Se eu pudesse, teria um cozinheiro ou cozinheira trabalhando pra mim. Já imaginou o luxo, você chegar num profissional e falar, hoje quero comer bolo de fubá?
O problema é que, se tem uma coisa que me deixa louca, é errar com comida. Lembro de uma vez que, meio sem grana, comprei uns bifes e couve. Mas não é que eu salguei demais a couve? No domingo, gosto de estourar pipocas. É um costume antigo, quando eu era criança meus pais estouravam pipoca na hora dos Trapalhões. Estourei, as pipocas ficaram lindas, mas eu salguei demais.
Essa semana foi corrida, mas precisei enfrentar a cozinha em duas ocasiões. Na primeira, esquentei um macarrão que estava estrategicamente na geladeira e fiz uma omelete. Graças a Deus, o meu anjo da guarda cuidou para que a dita cuja ficasse bem gostosa, se bem que meio esbodegada, porque na hora de virar eu sempre desmonto a supracitada.
Hoje, descongelei dois pedaços de filé mignon, gentilmente cedidos por minha sogra, e fritei no clássico esquema pouco óleo e frigideira pelando. Depois, passei uma cebola e lasquei farinha de rosca. Essa é a clássica farofa de raspinha, inventada pela minha mãe e que era a nossa paixão nos dias do bife e da salada de agrião.
De outra feita, fui fazer um bolo,a receita tirei do jornalzinho dos alunos do IA. O bolo embatumou. Que raiva.
Mas me orgulho de uma canja que fiz, na madrugada, pra mim e pro André, que estava em casa estudando. Ou das lentilhas, agora que começar a esfriar vou atacar de lentilha, sopinha de feijão, e mandioquinha... agora, arreda o Exu tranca-panela!

Monday, March 27, 2006

Águas passadas não movem moinho, mas a SANASA cobra

Às vezes, tantos anos passam diante da minha frente... tantas coisas. Tantas recordações. Algumas eu perdi no meio do caminho, outras se transformaram no pão de cada dia, outras incomodam tanto que ficam anos na gaveta, até um dia ressurgirem e reabrirem feridas.
Tantas coisas... mas não dá pra viver no e de passado. Quero planejar meu futuro. No sábado, meu irmão veio, de Belo Horizonte, e estava na casa da minha mãe.
Quando meu irmão nasceu, eu tinha dois anos. Ele foi o meu grande afeto na infância, era tão ligada a ele que na hora de pôr o caçula na escola, a coordenadora pedagógica do colégio aonde eu estudava aconselhou meus pais a matricularem o pequeno em outro lugar, porque senão eu o sufocaria de mimos e atenções na hora do recreio. Eu sou uma Felícia, aquela menininha psicopata do desenho animado, que ama e aperta tanto os bichinhos que os esfola vivos. Dá vergonha, eu não consigo me controlar, se gosto de alguém chego a ser meio agressiva.
Depois, na adolescência, o meu grande amigo se transformou em alguém que a princípio me odiava, e depois demonstrava uma frieza tão grande que me desconcertava. Tivemos uma fase terrível, depois que nosso pai se foi. Ele chegou a fazer coisas muito horríveis, mas depois que saiu da casa da minha mãe, meu irmão vem se tornando em alguém afetuoso, às vezes engraçado, que me surpreende. No sábado, eu combinei de ir almoçar com eles na casa da minha mãe. Estava com muita enxaqueca, e liguei pedindo uma carona. Meu irmão veio me buscar, com torcicolo e tudo, e quando eu entrei no carro, pela primeira vez em muitos anos, ele me sorriu um sorriso igual ao da infância.
Eu sei que as coisas não são perfeitas. Que a vida é difícil. Sei que sou muito equivocada, que tenho defeitos graves e que muitas vezes errei. Mas também sei que depositei muito, muito afeto, em muitas situações, com muita gente. E é engraçado, você planta aqui, colhe ali. O mundo não é tão caótico quanto parece. Um sorriso, um abraço, um olhar de boa vontade. E você ganha o dia e conquista um continente.

Wednesday, March 22, 2006

Ainda mais essa...

No meio da zona que está minha vida ( que vocês podem bem imaginar, entre seguro de carro, pegar ônibus, fazer comunicaçao pra Encontro de História da Arte, etc, etc), ainda tem mais um episódio da série Pequenas Tragédias Cotidianas.
Cheguei dez horas da noite em casa na segunda-feira, carregada com umas comidas que minha sogra gentilmente me cedeu, devido a atual situaçao precária do meu lar. Pisei num envelope pardo com o temível simbolinho da FAPESP.
Neguinho resolveu me cobrar uma grana preta da viagem pros EUA. A conta deles nao bateu com a minha. Mas é uma grana preta, e eu, lendo tal correspondência, quase tive um ataque cardíaco. Estou sem grana pra nada, e ainda mais essa. Tô sendo cobrada por uma grana que eu nao gastei indevidamente.
Entrei em desespero. E aí acho que bateu tudo, o trauma do assalto, a tristeza por várias coisas, que ando sentindo há meses, e chorei. Chorei a noite toda, literalmente. Nao consegui dormir, fiquei literalmente em pânico.
Ontem precisei resolver rolos do carro, que é outra novela. Infelizmente, acharam meu carro depenado, e na sexta-feira eu e Celo fomos pra Sumaré buscar o falecido. Hoje, no meio da zona do meu sogro, liguei na Fundaçao e falei com a moça responsável pelo meu caso. Como eu desconfiava, eles nao entenderam que eu tive que pagar três meses de aluguel em Chicago, mesmo ficando dois meses e meio ( nao importa, aluguel é uma coisa mensal no mundo todo, como se sabe). Moral da história: preciso escrever um ofício explicando que Jesus nao é Genésio, e esperar a misericórdia do povinho FAPESP. Gente, ainda mais essa. Tá demais a urucubaca.

Saturday, March 18, 2006

Minha primeira coluna

Então, aí está minha primeira coluna pra Folha Popular, jornal de Lençóis Paulista, SP:

A Pequena Notável


É com grande satisfação que inauguro minha participação na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, exposições, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.

Homens na Cozinha

Escarafunchando meus arquivos, achei a receita do macarrão que comi na casa da Ana e do Gabriel, em Chicago! Essa receita é da dona Ercília, avó do Gabriel. Gente, é muito fácil e fica uma delícia! Eu e Celo fizemos hoje, é perfeitaaaaaaaaaaa....
Ingredientes:
1/2 quilo de macarrão tipo penne;
20 tomates bem maduros (mas firmes);
sal;
pimenta-do-reino;
azeite extra­-virgem;
farinha de pão (tipo italiano, de preferência); se não achar, farinha de rosca serve;
um punhado de queijo parmesão e
manjericão fresco.

Modo de fazer:
Para 1/2 quilo de macarrão cozido em muita água (o sal deve ser acrescentado depois de já fervida a água), prepara-se o seguinte molho: distribui-se numa assadeira 20 tomates bem maduros (mas firmes) cortados quatro vezes, com casca e semente. Adiciona-se sal e pimenta-do-reino a vontade, e rega-se fartamente com azeite extra-virgem. Joga-se a seguir dois fartos punhados de farinha de pão (tipo italiano, de preferência), um punhado de queijo parmesão e leva-se ao forno pré-aquecido por cerca de 20 minutos. Serve-se em prato fundo também previ­amente aquecido, sobre o macarrão. O toque final é dado por raminhos de manjericão fresco, e o prato está pronto.
Olha, a receita do bolinho de chuva é perfeita. Essa aí de cima não tem erro, por isso mesmo se chama Homens na Cozinha! Ah, esqueci, rende pra umas quatro, cinco pessoas, querendo fazer pra menos, diminuir os tomates e o macarrão... tô pensando em adicionar, da próxima vez, alho... o bom que isso aí é barato de fazer, comprei tudo e deu menos de vinte reais...

Geraldo Alckmin, a recuperação da panda e graças a Deus, Mozart

Muito obrigada aos meus queridos leitores pelas mensagens de apoio e carinho nessa semana tenebrosa que passei.
Pra variar, o No Meio do Caminho foi a válvula de escape. Eu me sinto com muito ódio, frustrada, impotente. Ontem, fui buscar meu carro em Sumaré. A seguradora me informou que eu tinha direito a uma assistência, um dia de táxi. Fomos eu e Celo pro 4o DP de Sumaré, que fica no bairro do Matão. O motorista alegou outro compromisso e nos deixou lá, dizendo que depois era só ligar no 0800 da Companhia e solicitar outro carro.
A escrivã preparou os documentos, mas o delegado desse DP está de férias. Precisávamos ir para o 3o DP, no bairro de Nova Veneza, do outro lado da Rodovia Anhanguera, pegar a assinatura do delegado de lá, e depois ir para o pátio onde estava o carro. Ligamos no 0800 e fomos brutalmente atendidos por uma vagabunda do telemarketing ( desculpa a revolta, gente) e ela nos informou que tínhamos direito a apenas UMA assistência, ou seja, "vocês que se virem, a pé, num município imenso como Sumaré, pra buscar o carro de vocês". Nem precisa dizer que o Celo resolveu a parada no método de seus antepassados pugliesi ( da velha Apúlia, sul da Itália), ou seja, no grito.
Enfim, no 3o DP, no meio do nada, desolado como as pessoas que estavam lá pra serem atendidas, pensei na situação política nacional. Na terça-feira, soubemos que o PSDB escolheu Geraldo Alckmin pra candidato a presidente. A situação nunca esteve tão preta. Esses quatro anos de PT, um sofrimento ver o partido desmantelado e corrompido. E agora, esse filho da mãe, um cara absolutamente conservador, da Opus Dei, do lado do mal mesmo. E que ainda faz esse discursinho "não sou político, sou responsável e competente". Sei, sei, a gente viu a competência do senhor no governo do Estado, o seu pessoal é bom pra pedágio.
Enquanto isso, busco um consolo em alguma coisa. Fui pra cozinha, fiz sagu, macarronada, e li numa sentada "Mozart, Sociologia de um Gênio", do Elias. Fico escutando sem parar o Quarteto de Cordas K. 387, na gravação do Mozarteum Quartett Salzburg. Tem no Terra Rádio e ainda dá pra ouvir, porque esses dias eles modificaram todo o site e agora a gente não consegue ouvir mais quase nada. Lá se foi meu i-pod de pobre.
Mas que é lindo esse universo do Mozart... salva a gente de qualquer coisa.

Thursday, March 16, 2006

Exorcismo

Sim, eu perdi meu pai aos vinte anos;
sim, eu quase morri aos quatro;
sim, eu quase morri de novo aos vinte e seis num acidente de carro;
sim, eu perdi um bebê aos dois meses de gravidez;
sim, eu amei um cara por cinco anos, e ele não queria nada comigo;
sim, é chato admitir, mas eu ganhei trinta quilos em dez anos de universidade;
sim, eu fui vítima duas vezes de assalto à mão armada e perdi muita, muita coisa nessas jogadas;
sim, eu me ferrei várias vezes. Levei vários foras, perdi várias amizades e empregos, a oportunidade de ficar calada, a paciência, muitas vezes me desesperei e tive ataques histéricos, fui infeliz e fiquei amargurada, teve horas que não tinha grana pra nada, nem pra comer, e precisava me humilhar de pedir emprestado pros amigos, tomei vários porres, dormi com os caras mais errados, fiz fofoca e falei mal dos outros, briguei horrores com minha mãe e com muita gente, fui acusada de várias coisas e fui traída e traí. E boto a cabeça no travesseiro, e ainda consigo dormir. Porque sou normal.

Wednesday, March 15, 2006

Carinho

Não consegui dormir depois do ocorrido de ontem.

Passamos a madrugada na delegacia, briguei com meu sogro e fui deitar cinco da manhã.

Acordei e me pus de pé porque precisava vir pra Unicamp, entregar uma papelada pra querida tia Lygia. Vim de carona com o Lucas Cabeção, primo do Celo e cabeça de abóbora nas horas vagas. Foi a primeira pessoa fofa do dia, tirante minha sogra e o próprio Celo.
Vim pra velha Unicamp, encontrei Pri. A minha velha comadre Pri, que sofreu o mesmo que eu ontem. Fiquei desesperada ao saber que a Camila, minha afilhada e grande paixão, sofreu esse susto horrível. Mas abraçar a Camila hoje foi uma das melhoras coisas da minha vida, assim como abraçar minha sogra e o Celo.
Encontrei milhões de amigos queridos de todos esses anos de Unicamp nesse longo e sofrido dia. E todos tiveram pra mim uma palavra de afeto, de conforto, de carinho... os velhos mestres Fernando e Josué. Lygia, Yna e as meninas do IA. Beto, Luiza, Luis Fernando. Camila e Pri. Rogério... tantos anos, tanta luta e alegria. Tive uma felicidade genuína ao ser reconhecida pelo grande mestre Gabriel Cohn. Simone. Cláudio. Gente que vai e vem, que pode ficar longe um tempo, mas que está junto no coração. Isso bandido nenhum tira da gente.

Violência

Infelizmente, aconteceu uma coisa muito chata com a gente ontem.
Saímos, eu e Celo, de nossa aula de italiano, felizes. Fomos para a casa da família dele, aqui em Barão Geraldo. Chegando em frente à casa, reparei em dois rapazes, bem vestidos, com jaquetas e mãos nos bolsos. No calor dos idos de março campineiros, pensei, mas são assaltantes. Demos um tempo, e os caras foram embora.
Entramos, janta na mesa, fui até o escritório fazer um telefonema, passou-se uma meia-hora, quando vejo o Celo na soleira da porta, me chamando. Pensei que fosse pra jantar.
Não era. Do lado dele, o cara da rua, encapuzado, com uma arma na mão.
Ficamos quatro horas no quarto do meu cunhado, de bruços na cama, rendidos e assustados. Levaram nossos cartões de banco, e os dois assaltantes, com celulares modernos, comunicavam-se com caras que recebiam os cartões, e iam nos caixas retirar o dinheiro. Percebi que tinham muitos cartões em seu poder.
Brincaram de roleta-russa nas nossas cabeças; um deles buscou a bombinha de asma da minha sogra. Depois de um determinado momento, eles resolveram limpar a casa, já que as vinte e duas horas chegaram e com elas o limite do saque nos bancos.
Foram quatro horas de pesadelo. No final, o que estava com a gente nos deu seu celular, e o outro nos ameaçou de morte. Foram embora com muitos objetos de valor ( computadores, a Porpetta, etc, etc) no meu carro.
Na 4a DP, no Taquaral, soubemos de quinze casos parecidos em Barão. Chego no IFCH hoje, aconteceu o mesmo com a Pri, sendo que os caras puseram a arma na cabeça da minha afilhada Camila, de doze anos.
O policial civil, gentil, que nos atendeu, disse o que eu já desconfiava. Campinas está na mão dessas máfias, o assassinato do Toninho foi só o sintoma mais grave do desamparo que a gente vive. Na delegacia sem piso, lembrei do Hospital Mário Gatti, onde fui parar depois de um acidente de carro que quase levou minha vida. As forças do mal estão reinando em Campinas.

Monday, March 13, 2006

Sonhos

Uma vez sonhei que estava no Inferno, abraçada ao Grande Lúcifer. Era tudo escuro e ele era peludo, pêlos longos de velho urso de pelúcia. Estava bom lá, quente e escuro, mas de repente pensei, aqui não é o meu lugar. E comecei a rezar Pai Nossos, e a cada Pai Nosso eu subia, subia um pouco mais. Me desgrudei do Caramunhão e passei a ver uma luz forte lá em cima. O Inferno era um grande poço, e eu subia, subia, à medida das orações. Terminei o sonho lá em cima, na luz.
Outra vez sonhei que tinha morrido. E estava num lugar como a Unicamp. Era igual à Unicamp, um lugar de estudo, com muita gente. Era como a Biblioteca Central, e eu consultava grandes listas, como listas telefônicas, amarelas, cheias de nomes. Procurando pelo sobrenome, vinha a lista de todas as pessoas de uma família, mortas, vivas ou a nascer. No meu sobrenome, vi uma lista e no final, o nome de dois homens, com datas vazias. Alguém ao meu lado me explicou que eram os nomes de pessoas que iriam nascer. E fiquei feliz e pensei, mas são meus filhos! E depois constatei que não, seriam meus sobrinhos, porque afinal eu já estava morta.
Mais um sonho, o último. Sonhei que o velho Instituto de Filosofia e Ciências Humanas era o prédio da minha infância. Eu subi as escadas e cheguei ao último andar. Lá, vi, à direita, o homem que amei sem ser correspondida por alguns anos, chegando, de preto, muito gordo. À esquerda, vi minha amiga querida Dani, de preto também, muito magrinha. Ela me disse: isso aqui não dá mais pra gente, essa estrutura aqui tá velha, passou, datou. Vamos embora. E me pegou pela mão e começamos a descer as escadas rápido. Meu antigo amor foi atrás da gente, e a certo momento disse, mas espera, eu ajudo vocês a descer. E nos pegou nas costas, e nos levou para fora.

Desconforto ligeiro

Tem dias que a gente sente um desconforto.
É a conta que vem alta demais, é a lembrança do que poderia ter sido e não foi, é o que não dá certo, é algo que parte a delicada casquinha com a qual a gente envolve o dia-a-dia.
E você fica ali, sem saber por onde recomeçar a delicadeza, o equilíbrio, a pureza da alegria dos dias.
Hoje de manhã cedo estava feliz e despreocupada. Desci e veio o condomínio alto demais. Fui pra universidade dar minha palestra, o Data Show se recusou a conversar com meu lap, cuja bateria descarregou de vez.
Um olhar mais duro de uma pessoa que admiro muito. Um almoço com amigas queridas e gente muito chata. É o café que veio frio, e você se lembra do mal estar, da angústia.
A vida às vezes dói de leve.

Thursday, March 09, 2006

Palestra, ou um pouco de marketing

Vou dar uma palestra na segunda-feira.
De vez em quando, o povo na Unicamp pede para eu dar umas canjas... eheheheheh, sabe como é a vida de panda pop star!
Vou falar no curso de Folclore, na sala AP 07 do velho Departamento de Artes Plásticas, no IA, Unicamp, Cidade Universitária Zeferino Vaz ( mais conhecida como o canavial que fica onde Judas perdeu as botinhas)...
Enfim. O professor Amir, responsável pela disciplina, junto com minha ídola Lygia Eluf ( uma das maiores artistas plásticas desse país), me convidaram para um momento panda assassino. Explico: os garotos manifestaram na primeira aula do curso insatisfação com as discussões sobre a antinomia cultura popular e cultura erudita. Quero dar uma de louca, vou lascar que esse negócio não existe, é coisa de burguês que coleciona Mestre Vitalino. I'm crazy, I'm very crazy, capisce?

Tuesday, March 07, 2006

Celo e a faxina

Esse post é pra declarar meu amor pelo Celo, meu fofo e adorável ursinho canadense.

Seguinte. Ontem, recomeço de aulas na Unicamp, e lançamento do livro do meu orientador em São Paulo. Entreguei artigos encomendados. Depois de dois meses de caos completo, o Celo, enquanto eu singrava a Rodovia dos Bandeirantes de volta a Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, trouxe a Júlia e os dois botaram ordem na toca da panda desmiolada.
Gente, eu cuido da minha casa, durante muito tempo fui faxineira, cozinheira, passadeira, lavadeira, do lar. Mas nesse verão eu realmente precisei escrever. Questão de vida e morte. E não deu tempo de lidar com a economia doméstica. Minha casa ficou um lixo, nem eu que vivi em república e tenho tolerância grande à zona, não tava mais suportando. E eu me conheço, quando chega nesse ponto, eu vou limpando, limpando, mas não tenho ânimo para a GRANDE FAXINA, sabe como, aquela que você começa de manhã cedinho e termina com o Jornal Nacional?
O Celo ainda deu um jeito no escritório, que tava uma filial do Inferno de Dante. Agora está totalmente fofo, estou com minhas roupas todas lavadas, e queria dizer, Celo, eu te amo muito, muito, muito, só você pra me aguentar... e, ah, você está aprovado de ursinho faxineiro!

Sunday, March 05, 2006

Brinquedos Estrela

Esse post veio de uma conversa nostálgica com o Clis no msn... beijinhos, Clis!
Eu morro de saudades de vários brinquedos Estrela que tive e não tive... vivo procurando no Mercado Livre e vendo a "cotação" de um Genius, de um Jogo da Vida... alguns vou comprar, mais pra frente.
A Estrela é uma fábrica brasileira, e nas décadas de 60, 70 e 80 tornou-se uma das melhores marcas de brinquedo, ganhando prêmios internacionais e tudo o mais. Como muita coisa no nosso país, quebrou com a abertura para importações e a concorrência com os brinquedos chineses de 1,99. Agora a fábrica parece estar melhor das pernas, e eles têm um site bonito e alegre. Também organizaram, em São Paulo, um museu do brinquedo Estrela.
O engraçado é que muitos brinquedos que eles próprios fabricaram, eles não têm. Não faziam arquivos, e aí... muita coisa vem de doação de colecionador.
Genius e Jogo da Vida, eu não tive, bem como o Arthur, aquele robozinho dourado que era febre e atravancava o armário de quem tinha. Eu e meu irmão tivemos um Ferrorama, três Aquaplays ( um quebrou, os outros dois estão inteirinhos e funcionando), e um negócio que eu vou comprar custe o que custar... era um brinquedo chamado Mini-Cine Disney Estrela. Vocês se lembram?
Era uma espécie de pistola vermelha, onde se encaixava um retângulo azul. Girava-se uma manivela e a gente via um filminho... no caso, era um filminho do Mickey como João do Pé de Feijão. Eu adorava a parte que o Mickey enrolava o gigante numa corda e o forte porém estúpido brucutu caia na terra....
Esse Mini-Cine foi relançado, mas agora é bem menor e só passa um filminho. No Mercado Livre é caro pra caramba... mas quero comprar. Também quero a boneca Emília. Eu tinha uma e uma faxineira roubou... chato, chato. Também queria achar um mini-aspirador de pó que perdi porque minha mãe esqueceu as pilhas dentro!
Lá em casa a gente moía os brinquedos... moía tanto que minha mãe decidiu separar os ditos em dois tipos: os que ficavam nas caixas e nos maleiros, e a gente só podia brincar em ocasiões especiais, e os de bater na parede, jogar na caixa de areia e assim por diante, que ficavam num cesto de vime ( os pedaços deles ficavam no cesto de vime, hahahahaha)... todo dia era esse cesto revirado e a gente querendo escalar o armário pra chegar no maleiro. O ser humano nunca tá satisfeito!

Saturday, March 04, 2006

Escrever para viver

Um dos melhores livros que li na vida foi o "Um Teto Todo Seu", da Virginia Woolf.
A escritora nesse livro defende a seguinte tese: de que uma mulher ( e homem também, o ser humano de forma geral), para escrever, precisa de um canto seu. Precisa ter um espaço físico e psicológico para ficar ensimesmada. Não adianta, enquanto a realidade te cobra lá fora ( é faxina, é família, é conta pra pagar, é almoço pra fazer) você não tem tempo nem cabeça pra adentrar no mundo das letras.
Por vários motivos, nos últimos anos dei aulas, muitas aulas, trabalhei em livraria, em instituto de pesquisa, etcs, etcs. Desde a minha experiência em Chicago, vivo algo inédito: eu escrevo pra viver. Literalmente. Nesses meses do verão, pela primeira vez precisei atender com urgência a FAPESP e encomendaram artigos pra mim. Os da Folha Popular ( a primeira coluna sai essa semana) e outros, que mais pra frente eu aviso aonde vão sair.
É legal e ao mesmo tempo, estranho. Minha casa virou uma bagunça. Nada da arrumação perfeita que minha mãe e a Luiza davam enquanto eu estava fora o tempo inteiro. Vivia fora de casa. Só nos finais de semana reparava no quanto meu apê era uma casinha de bonecas. Agora tudo está uma grande zona de guerra. Uma amiga veio aqui essa semana e eu vi pelo olhar que ela lançou no meu escritório que tudo está uma verdadeira peroba.
Eu, que vivia nas Renner, C&A e brechós da vida tendo que me virar pra me vestir pra trabalhar, agora uso as mesmas roupas velhas de guerra. Me dei conta essa semana que preciso comprar alguma coisa, volta às aulas, seminários e congressos e eu não posso usar a mesma saia florida que já está no bico do corvo.
Por outro lado, não me aborreço mais com gente chata que precisava encontrar, com cafés intermináveis, com o trânsito, com coordenadores pedagógicos e alunos rabugentos. No fundo, quer saber? Gosto de escrever pra viver.

Friday, March 03, 2006

Abandono de bebês

Nos últimos três meses, todos os dias, abro o Portal Terra e vejo mais uma notícia de bebês abandonados no Brasil.
É bebê no lixo, bebê enrolado no saco plástico, bebê no lago, e por aí vai. Nesse ritmo, o inevitável aconteceu: um dos cronistas da Vejinha São Paulo escreveu um emocionado discurso, denominado "Monstruosidade", se perguntando do porquê essas desnaturadas e psicóticas mães não encaminham seus filhos para a adoção ou os abandonam em românticas cestinhas, com mamadeiras quentes, nas portas de famílias "de bem". Sim, porque uma mulher que comete uma atrocidade dessas só pode ser uma degenerada.
Concordo que existe uma grande dose de irresponsabilidade e que milhões de mulheres, no nosso país e no mundo inteiro, têm seus filhos na mais completa miséria e mesmo assim não abdicam dos direitos e deveres de serem mães. Muitas mulheres passam por sofrimentos indizíveis, mas a partir do momento que se descobrem grávidas, fazem de tudo para oferecer amor aos seus nenês. Agora, esse cronista da Veja...
Só sendo homem para não compreender que a gravidez muitas, muitas vezes não é uma escolha. Que algo cresce na barriga contra a vontade, que se tenta esconder, retirar, que estar grávida não é sinônimo de felicidade. Que instinto maternal existe, assim como o sexual, mas que o ser humano não é feito só de instinto. É feito de sociedade.
E, no Brasil, a gente vive numa sociedade injusta, cruel, onde o direito à uma sexualidade livre e responsável é vetado; que o acesso aos anticoncepcionais não está ao alcance de todos. Que não existe um posto de saúde equipado a cada esquina, oferecendo preservativos grátis. Mesmo no campus da Unicamp, uma das maiores universidades do país, não há lugar para se comprar preservativos. Centenas de estudantes, professores e funcionários passam pela Cidade Universitária todos os dias, e não há uma farmácia, para se adquirir uma aspirina, um absorvente e mesmo uma pomada pra queimadura. Porque a Prefeitura do campus não põe nos banheiros as práticas e discretas máquinas de preservativos e absorventes?
E o cronista também esquece que o aborto não é legalizado e que entre chás e agulhas de tricô, muitas mulheres se ferem para sempre ou perdem suas vidas. A MULHER DEVE TER O DIREITO DE ESCOLHER SER MÃE. INSTINTO MATERNO EXISTE, mas assim como todos os assuntos humanos, deve ser uma opção, não um destino inexorável. Eu imagino o terror de ser pobre, à margem, estar grávida e com ódio do que se carrega no ventre. É muito fácil pra mim, menina de origem burguesa, com três refeições quentes por dia e vida sexual vivida com responsabilidade, privacidade e amor julgar e condenar a mãe que abandona o bebê, que para ela não é um bebê, é uma coisa que cresceu na barriga à sua revelia.
Peço desculpas aos leitores por expor meu ponto de vista de forma tão explícita. Mas há muitos anos, eu quero lutar pelo direito à maternidade no Brasil. Pelo acesso livre e irrestrito aos anticoncepcionais, à uma boa Educação Sexual, ao acompanhamento médico e psicológico de qualidade e gratuito, e sim, ao direito ao aborto, quando necessário. Tenho como "adversários" os conservadores de todos os calibres, como os cronistas reaça da Veja, e as bancadas religiosas no Congresso. Em tempo: sou totalmente favorável ao casamento homossexual, à não-obrigatoriedade do voto, a uma educação laica e estatal e à liberdade e tolerância.

Sunday, February 26, 2006

A polêmica dos bolinhos de chuva

Como diria Max Weber, as origens traem.

De vez em quando me dá vontade de comer umas coisas da minha infância, de Campos dos Goytacazes ou da velha família Vermeersch, que são totalmente proibidas hoje em dia, em nome da saúde e da boa forma. Eu às vezes sonho que tô comendo pernil com farofa, macarronada com frango assado e maionese, e docinhos de festa feitos com leite condensado. Tudo não-light, tudo cheio de colesterol e que, se eu comer, graças à extrema facilidade que tenho pra engordar e ter celulite, eu me transformo de panda em baleia.
Mas esses dias eu tive um desejo assassino, um desejo incontrolável, nos finais de tarde que tô em casa escrevendo: comer bolinho de chuva. Meu Deus, há quantos anos não como bolinho de chuva! Banana frita então esquece. Eu nunca fiz fritura aqui em casa, eu tenho colesterol alto e preciso me cuidar ( já não sou mais tão jovem, né, bela) mas que dá vontade de traçar pastel e bolinha de queijo, de vez em quando, dá.
Eu li um livro de um médico de São Paulo, muito bom, alertando para todos os perigos contidos na alimentação. Eu tô careca de saber que batata frita é veneno, Coca-Cola não pode e hambúrguer é cruel porque mata boizinhos. Mas eu não aguentei a vontade de comer bolinho de chuva, e fui atrás de uma receita na Internet.
Descobri que existe uma grande polêmica nacional sobre a receita dessas pequenas bombas contra as curvas de capa de revista. Acompanhei por toda a semana as discussões acaloradas nas comunidades do Orkut, de gente do país inteiro se matando e mandando diferentes receitas.
Metodologicamente, existem três grandes debates. O primeiro é sobre o número de ovos ( dois ou três): tem gente que prefere mais amarelinho, outros preferem mais branquinho ( meu caso, não curto muito ovo). O segundo é sobre a utilização ou de farinha de trigo ou maisena ( hum, isso é difícil, né?). O terceiro é uma novidade bombástica que tem dividido os corações: surgiu não sei de onde a receita perversa que traz leite condensado ( ai, se você olha a lata já ficou com 300000 calorias no quadril) na massa.
Eu ainda não fiz meus bolinhos, mas consegui uma receita boa. Lá vai:
NGREDIENTES : 1 lata de leite condensado, 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina, 2 ovos, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
MODO DE PREPARO : Numa tigela misture todos os ingredientes, e por último o fermento em pó, deixe descansar por 5 minutos mais ou menos. Frite as colheradas em óleo não muito quente.
RENDIMENTO : 45 bolinhos
Vou fazer uma dieta boa, perder dez quilos e quem sabe eu faço bolinho de chuva, rs, rs, rs!

Saturday, February 25, 2006

Dicionário Jorgês-Português

Eu tinha me esquecido de fazer um post que prometi pra Dani e pro Chris...

Negócio o seguinte. Nós passamos o Reveillón em casa do pai de Dani, dr. Jorge, cardiologista nas horas vagas e criador de gado kanchin e figura em tempo integral. Com ele, descobrimos um monte de coisas: que o boi hoje em dia vem em lata ( é, em lata, graças a inseminação artificial), que tem que cortar carne no sentido inverso da fibra, senão até filé mignon vira coxão duro, e o nome dos bichos, como o sapão horroroso que segundo a Dani tava a fim de mim, que dr. Jorge batizou como General ( graças às inúmeras condecorações em suas costas) e o gatinho cinza lindo e danado, o Fubá.
Mas a mais importante contribuição do dr. Jorge são suas expressões idiomáticas. Filho de alagoanos, e figura rodada na Paulistéia, dr. Jorge nos brinda com várias categorias, como Immanuel Kant, todas politicamente incorretas. Vejamos:
1) "bateu na trave": diz-se do indivíduo limítrofe, aquele que não caiu na idiotia completa ( muito comum, segundo dr. Jorge) mas também não é brilhante nos assuntos do intelecto.
2) "queimar na periquita": expressão com vários usos possíveis. O mais usual é sinônimo de sair às pressas, sair picando a mula. Outro é fazer as coisas rápida e destramente.
3) "mas vai chupar cu de periquito australiano": o pior xingamento possível a ser feito para um vivente.
4) "escambau de Madureira": lugar muito, muito longe.
5) "rolo de fumo de Arapiraca": outra expressão polivalente. No pior sentido, é utilizada para se descrever uma peculiaridade anatômica, no caso da história do Negão do INPS.
6) "Nem Thomas Mann nem Robespierre pagaram as minhas contas": frase do mais puro anti-intelectualismo, ou seja, da pior casca-grossice....

Sábado de carnaval, trabalho, o velho Gato e a melancolia

Começo de ano atípico nas terras tupiniquins, pelo menos pra mim. Nunca tive tanto trabalho no Carnaval.
Os congressos da categoria historiadores da Arte mirins, que costumavam acontecer no segundo semestre, esse ano pipocaram em março, abril e maio. Conclusão: se a pequena panda quer participar, tem que suar a pelagem branca e preta enquanto o povo tá no Sambódromo. E taca sabadão trabalhar, depois de almoçar num japonês muito bom, afinal ninguém é de ferro ( comida japonesa é um dos meus luxos. Outro é óleo de banho. Outro é música, e outro é ter brogue)...
Trabalhei ouvindo o The Very Best of Cat Stevens. Eu já postei algo sobre o velho gato lá, lá, lá atrás, nesse pequeno Meio do Caminho. Hoje deixei o disquinho rolar, na velha Terra Rádio ( outra das manias)... tão linda, "Lady D'Arbanville", me faz lembrar uma amiga muito querida. Ou "Very Young", ou "Another Sathurday Night", enfim, é tão bonito o mundo de Cat. Todo mundo sabe, o rock star inglês, filho de imigrantes, se converteu à fé muçulmana e hoje vive em Londres, pregando o Corão e arrumando confusão com o governo norte-americano.
É difícil descrever o estado de melancolia que as canções da década de 70 deixam essa pobre escriba. Eu me recordo de mim mesma, pequena, à tarde, depois de voltar da escola. E minha mãe e eu ouvindo rádio na cozinha, a nossa cozinha amarela, que tinha uma janela prum pátio interno que dividia o bloco em dois. Isso, lá no Cambuci. E tinha uma cestinha de plástico amarela onde a gente punha os pregadores de roupa. E as latas debaixo da pia. E minha mãe ouvindo "Rock and Roll Lullaby", do BJ Thomas, passando roupa. E brigando comigo. É engraçado, mas na minha cabeça tudo que é década de sessenta é meu pai, e setenta, minha mãe. Por causa dela gosto das 70's songs. Mas se eu falar isso pra ela hoje, ela vai dizer, que de coisa velha já basta ela... hahahahaha....

Thursday, February 23, 2006

Se você fosse sincera, ôôôô, Auroraaaaaaaaa...

Carnaval.
Todo ano eu esqueço do reinado de Momo.
Simples. Eu nunca tenho dinheiro pra ir pra lugar nenhum no Carnaval. E sempre tô trabalhando, fazendo alguma coisa, e o feriadão atrapalha.
Por um lado, é bom ficar em casa enquanto milhões e milhões de cidadãos da República Federativa do Brasil se acotovelam nas praias, usam fantasias de gnomos espaciais no Sambódromo, lotam as perigosas rodovias nacionais, rebolam ao som do último axé ou simplesmente bebem até cair.
Enfim, mais um ano que vou pular da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro...
Quando eu era criança, com uns sete anos, ganhei minha primeira fantasia, uma bailarina cor de rosa... depois, meus pais me levavam nas matinês de um clube, em Jundiaí. A segunda fantasia que eu tive foi aos dez anos, um Pierrô estilizado: um top e uma calça bufante de cetim branco listrado de vermelho, um colar de pérolas falso e uma máscara de lantejoulas prata com um penacho vermelho. Era elegante, né? E eu no meio do salão, confete, serpentina...
Agora, uma coisa. Eu adoro música de carnaval... marchinha antiga, axé da moda, eu acho tudo muito bacana... afinal, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, né vero, bello?

Monday, February 20, 2006

Os velhos irlandeses

Pesadelo brazuca. Além do abafa das últimas semanas, o ano que já começa com o IPVA atrasado, seguido, pedras rolantes e os homens da terra da Guinness. Pesadelo, pesadelo.
Eles vieram, o show é hoje, eu não tive dinheiro pra ir. Não tive dinheiro nem pra fazer compra no Pão de Açúcar e concorrer a ingressos. Me consolo pensando que Bono & cia ainda vão estar na ativa...
Eu era muito fã do U2, era fã desesperada, a ponto de aos treze anos ganhar de amigo secreto o The Unforgettable Fire. Enfim... lembro do desespero e da suprema glória de ouvir o magistral Achtung Baby. Nos últimos tempos, confesso que andei meio separada deles, não entendi direito o Pop e as mega turnês. Mas que é a melhor banda, é, o melhor vocalista é o Bono, o The Edge é uma lenda, eles são ultra simpáticos, corretíssimos, enfim, a depressão por não ver o show é grande. Vamos fazer uma camiseta, parodiando o Rock in Rio: Rolling Stones e U2, eu não fui...

70's songs

Quem me acompanha sabe que tenho minhas manias. Uma delas é a porcaria da Terra Rádio.

A vida toda escutei rádio. Escutava de tudo. Sou viciada. Estou em casa, o som tá ligado. Pra tudo. Agora que vivo presa no computador, essa Terra Rádio me pegou.

Tenho uma lista com umas 550 músicas, mas essa semana viciei numa coleção chamada Have a Nice Decade, com os hits da década de meu nascimento. São sete cds, com tudo, tudo mesmo. Procurei na internet e achei um site de um fanático por 70's songs. Tem a história de cada música, fotos dos artistas, comentários técnicos, muito legal: wwww.superseventies.com. A minha playlist, no meu ipod de pobre:


1)Kiss You All Over, Exile: banda do Midwest, mais precisamente do Kentucky ( eu adoro uns midweasterns, hahahaha). Essa música é demaaaaaaaaaaaais, boa pra namorar... hit de 78!

2)The Night Chicago Died, Paper Lace: muito engraçadinha, conta a história de um menino filho de policial, morando em East Side de... de... Chicago, sure, esperando o pai voltar nas noites que o Al Capone botava pra quebrar. Ai, que saudade dos gângsters, chuif...

3)Joy To The World, Three Dog Night: hit de 73, anima qualquer defunto.

4)Love Grows ( Where My Rosemary Goes), Edson Lighthouse: é que nem o povo que ia no Show de Calouros...

5)You Are so Vain, Carly Simon: Gente, essa é de 73 também, e sabe quem tá no coro? MICK JAGGER!!!!!!!! Confiram!!!!!!!

6)Long Train Runnin', Doobie Brothers: outra de Chicago, tá lá, Illinois Central e os trens passando embaixo do Art Institute.

obs) eu vou fazer a playlist brazuquinha, senão o povo me lincha e me chama de paga-pau de gringo!!!!! Não se esqueçam, como toda panda eu sou comunista!!!!!! ( mas não da linha maoísta, peloamordeMarx)...

Sunday, February 19, 2006

Projeto de Coluna, ou a Pequena Panda no Jornal!

Pois é, um dos meus pequenos planos panda vingou. Vou escrever uma coluna num jornal!


Calma, o New York Times ainda não me descobriu, nem o Le Monde. Negócio seguinte: tenho um amigo véio de guerra, o Luis Fernando. Essa peça escreve uma coluna sobre política, quinzenal, num jornal da cidade de Lençóis Paulista, chamado Folha Popular. O Luis me chamou pra escrever uma coluninha sobre assuntos culturetes. Não vou ganhar nada, mas estou super animada. A minha idéia é publicar na Folha Popular e aqui no meu broguetes. Abaixo, o projetinho de coluna que mandei e o Luis, famoso internacionalmente como Tio, aprovou:


É com grande satisfação que inauguro minha pequena coluna na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural, nacional e internacional.
Um assunto que ocupa mentes e corações nestas abafadas semanas é o show que a banda inglesa Rolling Stones realizará na praia de Copacabana, no Rio, no dia 18 próximo. Os moradores do bairro posicionaram-se contra o evento, e notícias pipocam nos meios de comunicação, como o cardápio encomendado pelas veteranas pedras rolantes.
De certo, a abertura pelos Titãs e o tamanho do palco, com 22 metros de altura. Já a modelo, apresentadora e mãe de um filho de Mick Jagger Luciana Gimenez não garantiu presença, tampouco a do rebento, por temer o assédio da imprensa. Sei, essa nem a velhinha de Taubaté, velho personagem de Luís Fernando Veríssimo que acreditava em tudo, acreditaria.
No meio de tanto bafafá, só me resta apelar pro site Terra Rádio, que disponibilizou a discografia inteira dos Stones. O site, pra quem não conhece, é uma rádio online. O problema é que algumas gravadoras não permitem a execução das músicas por completo. Para a sorte de quem é fã dos Stones ou quem reconhece a importância da turma de Keith Richards na história do rock, a maior parte da discografia está inteira. E as pedras rolam.



Eu escrevi isso há duas semanas atrás. Fui uma pequena panda-Nostradamus. O show dos Stones foi ótimo, a Gimenez deu o ar da graça e eu continuei na velha Terra Rádio.

Friday, February 17, 2006

História Sem Fim

Todos os sábados, quando eu era criança e morava em São Paulo, eu ia com meus pais e meu irmão brincar na Cidade Universitária. Apesar da gente morar na Aclimação, era na USP que eu andava de bicicleta, corria, jogava bola, tomava sol. Só quando fiquei adulta é que descobri o motivo: meu pai, assim como eu, fez dois mestrados. Na época ele fazia um deles, na Poli, e assistia aulas enquanto eu rodava no Queijinho da Química.
Um sábado foi diferente. Meu pai foi com meu irmão pra USP, mas eu e minha mãe paramos na Paulista, no Cine Gazeta, pra assistir um filme. História Sem Fim.
Eu fiquei maravilhada com a história do Bastian, de Fantasia, do Atreiú, do Dragão da Sorte ( como eu queria ter um Fuchur na minha vida)... foi tanto encantamento que decidi ler o livro, que a Mara, amiga da minha mãe, tinha na estante.
Só pude comprar na Unicamp, no sebinho que tinha do lado da antiga cantina do IEL. Hoje, pedi pro Celo baixar a música-tema. Pra quem não sabe, é um homem que canta a voz principal, e o nome do cantor é Limahl. O cara usava um cabelo Chitãozinho e Xororó, mas tudo bem. História Sem Fim faz com que Fantasia não vire Nada, nunca.

Thursday, February 16, 2006

Urso panda

Eu estou me sentindo que nem um urso panda. Só quero saber de dormir, coçar a cabeça e comer bambus.
Explico: há três semanas não vou na minha análise, esse mês não fui à academia, perdi duas aulas de italiano, rachei a unha do dedão no meio, não vejo mais meus amigos, e minha toca está um lixo. Preciso fazer uma faxina, botar um tênis e ir andar, não faltar na análise, retocar a raiz do cabelo... retomar os planos.
Me convidaram pra escrever uns artigos aí, e não é em revista acadêmica. Não sei se vai dar certo, por isso não vou adiantar detalhes, mas se der, vai ser muito legal. Outros planinhos, nada de vai pagar minhas contas ou me deixar rica e famosa, mas pelo menos vou ser uma panda feliz.
Uma nota de rodapé. Olha, quem quiser me acompanhar, tem o Greatest Hits do Springsteen no Terra Rádio. Ouça "The River".... ou "Secret Garden"... ou "Badlands".... ou tudo mesmo.
Outra nota. Tem um monte de gente que diz que me lê, mas nunca deixa comentário! Poxa vida, aí é que eu fico me sentindo mais urso panda ainda... gordinha, branca, com olheiras e em extinção!!!!!!!!!

Tuesday, February 14, 2006

A epopéia-Canto II

Termina de cantar, ó musa blogueira, os feitos e desfeitos da pequena troiana no Piratininga, enfrentando a ira dos deuses.
Entregue o relatório, fui comer na Dona Deôla. Pedi um sanduíche show,tô lá, mas não é que meu dente volta a doer, que nem em Chicago? CECOM aí vou eu. Tratamento dentário na cabeça.
Ligo num amigo querido. Ele me convida pra ir na sua casa. Detalhe: o cidadão mora no Itaim, e eu estava no fim do Alto da Lapa. Pego um busão e desço na Paulista, no Trianon. Um cheiro de xixi matando, entro no Trianon. Só homem, e calados. O Parque dos Homens Calados de dia, o Parque dos Homens Animados de noite.
Entro pra ver e cumprimentar um velho amigo, o Fauno do Brecheret. Entrando no Trianon na entrada em frente ao MASP, você encontra a velha divindade dos bosques. Lindo, sólido... e abandonado. Vejo um buraco na bochecha da estátua: penso, mas isso parece um cano! Meu Deus, o que é isso, e chego perto do Fauno. Não vejo uma teia de aranha gigante bem na frente do meu amigo; entro na teia de aranha gigante... e lá fico.
Meia hora depois, desço contornando o MASP e vou pra Nove de Julho. Pego o primeiro ônibus Terminal Santo Amaro; penso, desço na São Gabriel a tempo. Mas a porcaria do ônibus lota, e eu não consigo ver nada, e... perco o ponto. Vou parar vinte quarteirões depois, na Cidade Jardim, quase Marginal de Pinheiros.
Desço do busão e ando, ando, ando, ando, ando, até conseguir pegar outro veículo com motorista e cobrador. Aviso o motorista, amigo, preciso descer na São Gabriel. De novo, o busão lota, o cobrador pega no sono... e vou parar na casa do ca&*))_. Volto tudo de novo a pé, já com o desespero na alma, e falando, nunca mais vou sair de casa pra nada.
Na São Gabriel, paro numa floricultura e vejo uma pimenteira amarela, com flores, linda, e decido comprá-la para o meu amigo. Mas a floricultura não tem REDE SHOP; você paga na padoca vizinha, porque o dono da floricultura, que pôs uma tv no balcão e fica deitado no chão paga a conta da padoca assim.
Na padaria, uns dois velhinhos cantando a moça do expresso e ninguém no caixa. Meia hora depois, desço a rua Itacema, a primeira transversal da São Gabriel, com a pimenteira e uma rosa amarela. E penso, mas essa rosa eu podia dar pra irmã do Paulo... o que eu não me dei conta é que minha combalida mente, disléxica e cansada, estava me alertando pro fato de eu estar descendo a rua do irmão do Paulo, não a dele, que é a próxima, a Pedroso Alvarenga.
Me dou conta do meu erro lá, lá, lá embaixo. Subo tudo de novo, com pimenteira, rosa amarela, e penso, eu joguei pedra na cruz.

A epopéia- Canto I

Canta, ó musa, as intempéries enfrentadas por esta pequena troiana, nas plagas do Piratininga, ao enfrentar a ira dos deuses do Olimpo para entregar seu terceiro relatório FAPESP, com pedido de prorrogação...
Tudo começou às sete e meia da manhã, quando o despertador tocou e acordou essa que vos escreve, depois de uma baita noite de insônia. Fui deitar quatro da manhã.
Meu etrusco acordou comigo e me levou no Hades ( Rodoviária de Campinas). Saindo da minha casa, tudo entupido, campineiros enlouquecidos com obras na Avenida Aquidabã, ironicamente chamada de Expressa ( de Expressa não tem nada)...
Peguei um Cometão. Na saída da Rodoviária, o motorista brecou forte e uma senhora que estava no corredor enfiando malas no bagageiro caiu. Só ouvi os "ai, ai, ai, estou morrendo"... pára tudo, desce o motorista, busca enfermeira e moças da empresa,que tentam, junto com o senhor de cara preocupada que se tornou instantaneamente o líder dos demais passageiros, dissuadi-la de prosseguir viagem e ser atendida num Pronto-Socorro.
Nisso, o ônibus ficou parado 50 minutos ( é, meus caros, 50 minutos), de uma lenga-lenga infindável. Eu não sabia, mas por lei a empresa precisa mudar o motorista, o ônibus, tudo, e dar total assistência ao passageiro. O pessoal da Cometa fez tudo isso, mas o que demorou foi a conversa com a acidentada, que ao mesmo tempo que se recusava a ficar e ser medicada, ficava gemendo e dizendo que estava pra morrer.
Cheguei na Rodoviária do Tietê com uma hora e meia de atraso. Precisava passar na casa do meu orientador, na Lapa, pegar assinaturas, e ir pra Batcaverna, vulgo FAPESP, que fica no mesmo bairro. Em vez da via-crúcis de pegar o metrô, descer na estação Paraíso, mudar de linha, descer na Vila Madalena e pegar um ônibus pra Lapa, peguei um táxi na Rodô mesmo, corrida fechada.
Mas o taxista, muito simpático por sinal, insistiu em ir pela Vila Romana. Pra quem não conhece, o bairro da Lapa, na nossa combalida capital, é um dos maiores da cidade, e tem uma engraçada peculiaridade: é na verdade um monte de morros, ou seja, ladeiras e ladeiras de quase 90 graus. No meio, tem essa Vila, em que todas as ruas têm nome de romanos. Nos perdemos no meio de Titos, Lívias, Augustos, até achar a rua do meu orientador.
Assinaturas pegas, tudo pronto, vou pra Batcaverna. E descubro: meu chefe mora no Baixo da Lapa, a FAPESP fica no Altíssimo da Lapa. Subo uma ladeira em 90 graus, sol de meio-dia, dez quarteirões. Entro na rua Cerro Corá, ainda muito longe da FAPESP; pego um ônibus. No busão, comecei a pensar que tinha esquecido um dos formulários X3POzeta; abro a mochila, a pasta, e nisso tudo...
A rua Cerro Corá sobe, sobe, sobe, e tem um ponto num supermercado Pão de Açúcar. Você desce nesse ponto; do outro lado, a mítica Padaria Dona Deôla anuncia que sim, você está na rua Pio XII, a rua da Batcaverna. Mas tem o seguinte: depois desse ponto, o ônibus vira uma transversal, a famigerada rua Bairi, outra ladeira em 90 graus. No meio do rolo de pasta, mochila, o escambau, o clássico acontece. Perco o ponto.
Puxo a corda desesperada. Todos no ônibus riem de mim; o cobrador e o motorista não dão sinal de vida. E vou parar de novo no Baixo da Lapa, dez kms depois.
Outra ladeira, chego na Batcaverna parecendo uma figurante de filme de Vietnã. Suando em bicas, fedida, parecendo uma Medusa. Estou lá, esperando o mocinho da FAPESP ver todos os meus erros e passar errorex em todos os meus formulários, e ouço a conversa de outros dois atrás.
As planilhas da FAPESP são no Excel, coloridas, pesadas, e mágicas: tudo que você põe nelas some. Pois bem: os dois funcionários da Fundação discutiam o fato deles não conseguirem imprimir o que eles próprios põem no site e obrigam todo mundo a fazer e assinar. Entrei na conversa e afirmei que tive o mesmo problema desde sempre. E sabe o que eles fazem? Me dizem assim, mas olha, a gente vai te passar o email e o telefone do cara que fez isso, e você reclama, por favor, porque a gente já cansou de mandar o dito ir catar coquinho. HAHAHAHAHAHA...

Monday, February 13, 2006

Balada dos dois jogadores

-Nós dois somos cartas marcadas,
nós dois já jogamos demais.
Dos ases, nenhum permaneceu.
A sensação de sentir
Sua perna pressionando a minha
Debaixo da mesa de pôquer
Não é mais a mesma, amor.
O sentimento amadureceu.

-Disse bem. Agora somos,
homem e mulher, e só,
não mais adversários, no fim.
A excitação passou,
e entre copas, ouros e espadas
vejo em teus olhos o doce palpitar
de quem encontrou a quem amar.

-Dê-me sua mão. É hora
de levantarmos da mesa.
Somos nós dois, não mais coringas,
mas rei e rainha do mesmo naipe.
Guarda o baralho, porque nossas vidas
já encontraram as cartas.

Uma pequena dúvida

Se amar não vale a pena
porque o poeta antigo
colocou palavras doces no poema?

Relatório FAPESP

Sou considerada elite científica do país. Pago minhas contas com uma bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
A gente está numa situação tão preta, na universidade, que sou um bicho raro, invejado pelos colegas, que têm que se virar pra levar seus cursos de pós-graduação. Muitos de meus amigos mandaram pedidos e não foram atendidos; a Grande Mãe me socorreu porque eu participava de um Projeto Temático, que inclusive já foi pro espaço.
Foram meses na biblioteca, escrevendo o projeto nos moldes da FAPESP. Quase não mandei, problemas de comunicação com o orientador.
Um ano depois, a hora temível. O relatório. Se você foi bolsista da FAPESP, sabe o que é. São trezentos formulários, todos coloridos e numa planilha do Excel que teima em sumir ou travar seu pobre micro. Você escreve tudo o que fez no ano, tudo que pesquisou, se justifica de todas as formas possíveis, explica até porque foi na casa da tia no Reveillón.
Nessa linda hora, onde o bolsista se acha a pior pessoa na face da Terra, o ser mais desprezível de todas as cadeias alimentares, e nem pode desabafar na cantina, porque senão corre o risco de ser linchado por todos os colegas que não tem bolsa nenhuma, quanto mais da FAPESP, sofri um terrível acidente de carro. De volta pra casa, onze da noite, com a Comédia, a Bíblia, um fac-símile da Crônica de Nuremberg ( livro publicado nessa cidade em 1497) e mais um monte de coisa no porta-mala, um louco enfiou o carro na minha porta.
Capotei duas vezes e quase morri. Por sorte, os livros saíram ilesos. Mas atrasei o relatório três dias, e tive que mandar a radiografia da minha cabeça e o BO do acidente pra Grande, descobri, Madrasta. Engraçado que eu tinha um piercing na orelha, na radiografia aparecia como se eu tivesse um parafuso... hahahahahaha....
Mas enfim. Desde então desenvolvi uma neurose Relatório FAPESP. Fico com medo de tudo: do negócio não ser aceito, dos caras mandarem mafiosos me matarem porque errei no CPMF dos cheques da Reserva Técnica...
Janeiro e fevereiro foi eu, em casa, ouvindo rock e escrevendo o bichinho que hoje ficou pronto, foi impresso e espera que sua dona o leve até a Batcaverna ( o prédio da FAPESP), lugar super bem localizado no velho Piratininga ( no Alto da Lapa. É, a Batcaverna fica no Alto, Altíssimo da Lapa. Eu sempre pego o ônibus errado e tenho que subir a pé o Gólgota).
Chega lá, é a lenga-lenga de sempre. Não, eu não trouxe o extrato da conta Reserva Técnica porque fiquei sem movimentar o dinheiro mais de 60 dias e a Nossa Caixa não dá extrato nesse caso. Não, eu esqueci de imprimir o formulário X3PO mas o GHJ&8zeta tá aqui. Depois eu saio e vou na Dona Deola. É uma padaria na frente da Batcaverna. Como um bauru e penso, elite científica é isso aí.

Wednesday, February 08, 2006

O despertar

Terminando o relatório FAPESP. Agora faltam as pendengas: Caderno de Imagem, formulários, em suma, minha vida está uma chatice. O dia inteiro na frente do computador. Tem dias que não rende, tem dias que rende, vida de escrevinhador é assim.
Mas hoje tive um lindo despertar. Eu fui dormir altas horas da madrugada, devido à minha clássica insônia, depois de muito ouvir o Abbey Road. Eu viciei de novo nos Beatles, e o que tem me mantido viva esses dias foi o famoso lado B desse disco ( agora CD que não tem lado), aquela pancada linda, onde as músicas se fundem todas numa beleza só.
Eu deixei a janela aberta e dormi mal. Mas acordei com o dia despertando, cedinho, cedinho, estava chovendo uma chuva fininha e tudo estava branco, ao meu redor e dentro de mim. E acordei pensando, Here Comes the Sun.

Saturday, February 04, 2006

E também tem o seguinte...

No post abaixo, tava falando do meu amor irrestrito e incontrolado pelo rock.
Mas tem mais. Eu vivo enfurnada no século XV, entre gente muito culta e ótima. Mas percebi uma tendência interessante em alguns colegas: o povo acaba escutando música do período que estuda.
Eu adoro música. De todo tipo. Eu ouço de tudo, desde os Concertos de Bradenburgo até Genival Lacerda. Eu acho que música não tem fronteira, você pode sentir vários universos. A alma da gente não é uma quitinete.
Mas eu amo muito o seguinte contraste: tô escrevendo algo sobre o Dante, escutando Rolling Stones. Escrevi uma dissertação sobre Adorno ouvindo Creedence, Dire Straits e Eric Clapton. Sabe porquê? Porque eu acho que esse contraste me salva um pouco da ilusão meio positivista que, no fundo, todo historiador alimenta: de descobrir a verdade sobre o período que estuda. Esse contraste me lembra que tudo é uma construção, que eu não posso criar ilusões, que estou fazendo uma opção, e que meu estudo, ele próprio, tem a marca do humano, que é a marca do tempo.
E também tem outra. Eu tenho pra mim que o Dante seria um roqueiro.

Rock and roll

E no princípio eram os Beatles.
Eu amo rock. Não adianta. Eu tinha uns onze anos e assistia um programa na TV Cultura com o tresloucado e ótimo Kid Vinil. Lia a Bizz e o André Forastieri, e todas as polêmicas que são a glória e o sarro do mundo dos roqueiros e metidos a roqueiros. Eu tinha um pôster dos Mutantes e procurava as músicas deles no rádio. Não adianta, eu amo rock.
Eu gosto de tudo, desde rockabilly até White Stripes. Do rock progressivo ao heavy metal, pra mim todas as experiências foram válidas.
É tanta gente interessante, é tanta coisa legal... tanta história. Tanto solo de guitarra, tanta maluquice, pra mim o velho ritmo deu origem aos trovadores modernos. Inovadores como o pessoal do Dante, do Petrarca, que escandilazavam Florença com os cabelinhos, a boemia e a criação de um universo de sentimentos, de idéias e imagens onde cabe o mundo inteiro e todo mundo.
Nunca tive dinheiro pra ser descolada, e também muito acesso a informações. Por exemplo, as bandas chegam pra mim com atraso, pelo rádio, pelos amigos e festas. Muita coisa em CD pirata, agora nas rádios pela internet da vida. Ou seja, se você me perguntar o que está na crista da onda agora, eu sinceramente não tenho a mínima idéia. Historiador vive atrasado.
Mas os Beatles, os Stones, Led Zeppelin, The Who, Cat Stevens, Creedence, Janis, Elvis, os pioneiros ( Chuck, Little Richard, Bill Halley, etcs, etcs), The Police, Clash, Smiths, os loucos da new age ( B-52's), o U2, REM, os 80's ( onde surgi, afinal), David Bowie, meu Deus, como recusar a companhia dessa gente? Como dormir depois de ouvir os Stones? Me diz, eu estou morrendo de vontade de pegar um Cometão e dormir na areia pra ver os velhos. Tá na playlist do show, Honky Tonky Women, essa ressuscita até gente escrevendo relatório da FAPESP ( comprovadamente uma das experiências mais cacetes que um ser humano pode ter)...
E tem as grandes paixões. Pra quem me lê há algum tempo, sabe que eu amo o Bruce Springsteen. Eu sempre fui fã, desde que era pequena, pra mim era uma figura masculina forte, positiva. E nos EUA, eu me enfurnei nas livrarias e li a bibliografia sobre ele. E acabei descobrindo uma história ótima.
Se você for ler algo sobre o Bruce, assim como sobre o Dylan, o Lennon, ou o Elvis, vai se deparar com polêmicas infindáveis. O Bruce se vendeu ao sistema na década de 80? Afinal, o Dylan gostava ou não dos hippies? O Elvis não morreu? E talvez a mais intrigante, porque o Lennon casou com a Yoko?
Mas o primeiro texto de um crítico sobre o Bruce, o primeiro que deu o que falar, é de 74, de um cara formado em História na Universidade Brandeis, conceituada pra cacete. O cara se chama Jon Landau. Esse cara era músico, tocava numa banda, e acabou virando crítico da Rolling Stones, na época áurea da revista.
Uma bela noite, Landau assiste um show do Bruce numa taverna. Os caras da banda estavam no início, o Bruce era um ilustre desconhecido. Bom, o Landau escreveu um texto dizendo que era madrugada, ele estava com 27 anos, casado com uma moça que não o compreendia, e sofrendo de uma doença rara. E que havia perdido, em algum lugar, o prazer que o rock lhe dava, na época da graduação.
Mas naquela noite, Landau viu "o futuro do rock, e o futuro do rock se chama Bruce Springsteen"...
O resto é história. O Landau virou empresário do Bruce, depois de uma briga judicial com o primeiro empresário do cara. Empurrou Bruce pro estrelato, produzindo um disco que agora tá fazendo 30 anos, Born to Run. Se você nunca ouviu, ouça, faça como eu, pegue na Terra Rádio, em mp3, roube do vizinho, faça uma macumba, sei lá.
Mas esse artigo é uma pérola. Porque virou uma experiência arquetípica: o cara ferrado que ouve o roqueirinho biruta e tem uma revelação. Hoje em dia o povo gosta muito do Nick Hornby. Ele é ótimo, porque revive a todo minuto nos escritos dele a experiência Landau. Pra mim, essa experiência é forte porque é uma recriação da relação artista-crítico, uma coisa que fascina desde o Baudelaire com o Delacroix.
Por isso eu gosto do rock. Porque ele tem a força da experiência estética. O resto é firula.

Saturday, January 28, 2006

Cozinha

Hoje tô feliz. Vi minhas amigas queridíssimas Débora e Tanara, e ainda de quebra fiz duas novas amiguinhas: as filhas da Tanara, fofíssimas, Taísa e Melissa.
Acordei com um desejo estranho de fazer um pavê. Como narrei, na semana passada lasquei uma torta de palmito e um pudim no povo. Amanhã tem churrasco no meu cunhado, e acordei pensando num pavê. Vi receitas no Dona Benta ( sim, eu ganhei um exemplar da minha sogrinha!) e na internet, mas acabei escolhendo a da minha sogra mesmo.
Fiquei ouvindo Rolling Stones no Terra Rádio. Os caras GRAÇAS A DEUS puseram a discografia completa dos caras no site, e 99% dá pra ouvir inteiro ( algumas gravadoras não permitem que as músicas sejam tocadas mais que 30 segundos, uma palhaçada).
Ao som de "You Can't Always Get What You Want", "Ruby Tuesday" e "Honky Tonky Women", relembro momentos na cozinha.
Eu adoro comer, mas paradoxalmente acho que tudo que faço fica uma porcaria. Não gosto da minha comida.
Aprendi a cozinhar com a minha mãe. Eu ajudava na cozinha. No início, pequena, só secava a louça e guardava, aquela chatice. Depois, era picar isso, picar aquilo, e aos poucos eu fui incumbida de tarefas mais complexas mas não menos chatas, como bater clara em neve, ver o sal do molho ou vigiar o frango no forno. Isso quando não era o temível descascar e picar... alho.
Almoço de domingo, era a gente lascando pra servir seu Pedrão. Graças ao bom Pai dos Céus o pai lá de casa gostava da minha comida.
Passaram-se os anos, vieram as repúblicas. De vez em quando, o pedido: faz strogonofe, faz lentilha, faz não sei o quê. De vez em quando, uma receita nova, como a do macarrão a carbonara, que aprendi com Letícia... ou do pimentão recheado da Malu.
Quando vim morar sozinha, lembro de um peixe que eu assei... pra mim mesma. E ainda tive a pachorra de tomar um vinho branco.
Mais strogonofe. Tem um amigo meu que diz que strogonofe é comida de quem não sabe cozinhar. Acho que é mesmo. Minha culinária não é muito refinada não. Mas eu um dia ouvi da Malu, ela mesma ótima na cozinha, que meu strogonofe era melhor do que o da dona Fy, outra mestre Jedi das panelas. Foi o melhor elogio que eu ouvi na vida!

Débora e Tanara, ou a eternidade da amizade

Outro dia tive uma super surpresa no Orkut. Agradável, acho que tá todo mundo cansado de surpresa desagradável naquela joça.
A minha amiga e colega do colegial, Tanara, me achou e me adicionou. Scrap pra lá, scrap pra cá, ela me ligou e ficamos três horas no telefone.
Tanara e eu combinamos de nos encontrar. E no meio da bagunça, consegui contactar Débora, e hoje nós três vamos nos ver, depois de... doze anos.
Na verdade, a turma é maior. Ainda tem a Raquel, a Ísis, a Fabiana, a Patrícia... Raquel, Ísis e Fabiana estão por Campinas também, mas a Paty, por onde andará? Ninguém sabe dela... a última notícia que tivemos é que ela estava na Bolívia, estudando Medicina. Era o sonho dela.
E nós, hein? Bom, eu me mudei pra Campinas em 1992, na boléia do caminhão que trouxe os Vermeersch para essas terras. No primeiro dia de Sagrado Coração de Jesus ( já narrei num post abaixo, o do show de rock fajuto) fiz amizade com a Débora, que ficou para sempre Debão. Ela era a minha melhor amiga, a companhia constante e alegre numa adolescência difícil, solitária, penosa. Era de quem eu roubava bolacha no recreio e quem eu infernizava o dia inteiro, com as mais torpes brincadeiras, como chamá-la de cabeça de tender ( porque ela fazia umas trancinhas e ficavam uns quadradinhos...). Essa aí, heroína, mesmo. Foi comigo pra Unicamp, formou-se educadora, agora é professora da UNESP, um orgulho.
Tanara, era tímida e acanhada, nada vaidosa, se enfeiava. Pois não é que aquela menina inocente de tudo foi a primeira de nós a se tornar mãe? Vinte anos, já estava grávida. Logo depois veio outra menininha, e minha amiga suportou o final do casamento. Mas agora está ótima, linda, vaidossíssima, super cuidada e gata. Agora trabalha com casamentos, aguenta a chatice das noivas pra realizar lindas cerimônias. Mas ri do mesmo jeito...
Eu avisei as meninas pra não se assustarem, eu estou muito, muito mais gorda do que era no colegial... além disso, agora tenho muitos cabelos brancos, e tenho que pintar o cabelo pra disfarçar. E dentro da minha cachola penso, gente, tanta coisa aconteceu, mas quando falei com as duas ao telefone, parecia que foi ontem.

Saturday, January 21, 2006

O caso do pudim

Hoje eu fiz um pudim. Tinha reunião na casa de uma amiga, amigos queridos e crianças na piscina. Tô dura pra variar, e pudim, mesmo com dureza, dá pra fazer: açúcar pra caramelar a fôrma velha de guerra, três ovos, lata de leite Moça, leite e liquidificador.
Tudo bem que tem uma técnica embutida no negócio, porque fazer calda de caramelo é negócio delicado, e o bicho cozinha em banho-maria, fogão alto e uma hora e meia de suadouro de quem passa na cozinha. Mas vale a pena. Eu tenho a seguinte teoria: batata frita e pudim de leite condensado, quando tem ninguém recusa.
Mas o que eu queria contar é uma história engraçada de pudim. Pudim na minha família era instituição no Natal. Todo ano tinha o velho e bom pudim. Pois teve um Natal que meu pai comprou carro novo, um Voyage verde-metálico. Todo mundo se dividiu entre a casa da minha tia e da minha avó, em Campos. Muita gente, criança, confusão... duas cozinhas pra assar pernil, fritar rabanada, mexer na farofa, aquela zona. E a fila pra tomar banho, e criança que corre pra cá, e benzinho cadê a minha camisa, e gente dormindo até embaixo da mesa.
Lá pelas tantas, dez da noite, todo mundo estava na minha avó já, de banho tomado e enchendo o saco, rodeando a mesa como mosquinhas. Menos minha mãe e minha tia Marilze, que ficaram na casinha da minha outra tia, Maria José, esperando assar a última coisa que faltava: o pudim.
As duas se embonecaram, e estavam com carro, recém-lavado, do seu Pedrão. Quando o pudim ficou pronto, minha mãe falou pra minha tia: embrulha essa fôrma num pano de prato e vamu embora. Mas minha tia Marilze, muito artista, falou, não, quéisso, deixa eu desenformar o tal e por cerejinhas em cima. Chegando na casa da mãe a gente põe na geladeira o pudim lindo e decorado.
O pudim estava pelando. O normal é esperar esfriar bem e pôr na geladeira. Depois de frio, fica fácil desenformar. Não sei porque milagre de Santo Onofre minha tia conseguiu desenformar e o bichinho não virar uma meleca. Pôs as cerejinhas, decorou o prato de vidro, e vamos.
As duas, arrumadíssimas, perfumadíssimas, entram no carro, minha mãe dirigindo e minha tia do lado, com o pudim no colo. Iam devagar, conversando, bem devagarinho... como elas não estavam na Suíça.... uma cratera no asfalto, um mini Grand Canyon, estava no caminho.
O carro caiu no buraco, e foi pudim pra tudo quanto era lado. As duas ficaram imundas, o carro ficou cheirando doce seis meses depois e naquele ano, excepcionalmente, não teve pudim no Natal.

Sunday, January 15, 2006

De relance

De relance penso que você pode ser louco, ou covarde. Cutucou onça com vara curta. Quem mandou?
Isso aqui é um canavial, meu filho.

Tratamento literário

Pois enfim, preciso dar um tratamento literário às minhas confusões interiores. Como você, filósofo pré-socrático, preciso escrever sobre a matéria e o Universo, e as prementes necessidades.
Te vejo me olhando num canto de olho distraído, mas será mesmo que tudo aquilo morreu? E aqui estou eu, de volta à transcendência mais barata e de almanaque. Oswald lascou pra Tarsila, "Ando desperdiçando beleza longe de ti", no verso de uma foto da fazenda. E o Largo de São Bento permanece invulnerável.
Já o de São Francisco guarda a lembrança da missa que mandei rezar pelo meu pai e pelo seu. Não adianta, estou presa na metafísica mais medíocre, coisa de gente que não tem refinamento, não adianta, moça fina não sou, apenas disfarço com bravatas fáceis de desmontar pelo filósofo.
Pego o metrô e desço na estação Paraíso. Com o mundo entalado na garganta. Difícil pensar nos movimentos dos átomos com essa dor presa no peito.

Friday, January 13, 2006

O que você leu hoje?

Em meio a esse verão assustador de tão quente, três livros têm sido meus companheiros nos dias solitários e supostamente dedicados ao relatório FAPESP, na velha Padre Vieira:
-Memórias de uma Gueixa, Arthur Golden. O autor, professor de japonês e estudioso da cultura nipônica durante décadas, escreveu esse romance sobre uma gueixa, Sayuri, estrela do bairro das gueixas em Kioto, Gion. Atravessando as décadas de trinta até oitenta, Sayuri narra em detalhes o treinamento e as agruras do universo fechado das mulheres-entretenimento. Virou filme, vaiado na Ásia porque a atriz principal é chinesa ( imagina!)... talvez o filme seja mesmo uma xaropada, vamos aguardar. Mas o romance é bonito, apesar da tradução um tanto quanto marrenta da Lya Luft.
-Carmen, Ruy Castro. Pois é, a Pequena Notável me acompanhou, e muito, em Chicago. Mal sabia eu que ela andou muito por lá, se apresentando nos teatros que tantas vezes passei em frente, no Loop! E que ficou amiga do sobrinho do Al Capone... voltando pra Terra Brasilis, vi que o sempre eficiente Ruy Castro escreveu a biografia da minha nova "ïdola"... acho que meus amigos antropólogos desmontariam os clichês da biografia tradicional em cinco minutos... mas vale muito a pena! Primeiro porque a própria Carmen merece a convivência, e porque o autor se esforça em fazer uma pequena história da música e do cinema, tanto nos EUA quanto no Brasil, tão modificados pela presença de Carmen.
-Diálogos com Leucó, Cesare Pavese. Esse livro é de assustar. Pavese se veste de Esopo, de Homero, e alerta para as múltiplas implicações dos deuses e heróis. Belíssimo diálogo da poetisa Safo e da ninfa marinha Britomártis, bem como o de Dioniso e de Ceres, o de Hércules e Prometeu... leitura obrigatória para os pesquisadores em Ciências Humanas.

Wednesday, January 11, 2006

Carreira Acadêmica II

Continuando na linha desgraça pouca é bobagem. Vejam no site da Folha, hoje, notícia sobre desvio de verbas no CNPq. Sim, o Conselho pega grana que deveria ser destinada à bolsas de estudo e paga conta de luz, água, viagem de funcionário e o call-center ( a terceirizada que faz o atendimento telefônico). A notícia ainda acrescenta que os fiscais das contas estão no pé do CNPq desde 2001, ou seja, que a situação é antiga e continua.
Brincadeira... O bom são os comentários à notícia. Bolsistas, ex-bolsistas e professores num ranger de dentes. E uma desavisada falando que a FAPESP é exemplo pros órgãos federais. Graças ao bom Pai dos céus um anônimo gaiato acrescenta que a FAPESP não é exemplo nem pra ela mesma.
Ou seja... fazendo a linha ultrapassada Bóris Cassoy, é uma vergonha. O povo fica revoltado com a suposta frase do De Gaulle, mas esse país não é sério mesmo. Outro comentador da notícia aponta com justeza: daqui a pouco a gente perde até o processo técnico de tirar o veneno da mandioca.

Sunday, January 08, 2006

Na veia

Falando em musiquinhas, lista do que rola em Neguinho do Pastoreio, meu i-pod:


1)Wonderful Life, Black: do fundo da gaveta 80's. O refrão é meio básico: It's a wonderful, wonderful life... cantada por uma voz depressiva. De homem das ilhas, Colin Vearncombe, no caso, Liverpool.
2)You Got It, Roy Orbison: um dos últimos hits do mestre, que virou febre por causa da gravação de Pretty Woman. Já dizia o velho Springsteen que Roy Orbison canta para os solitários, enquanto ele, Bruce, olha a musa rodopiar na varanda.
3)Higher Love, Steve Winwood: um desses caras que eram do rock progressivo e fez pérolas do pop rock, hoje esquecidas, nos oitenta. Talvez o maior representante da espécie seja o velho Phil Collins, hein?
4)And She Was, Talking Heads: dispensam apresentações os homens que apresentaram ao mundo a bomba Psycho Killer.
5)Human, Human League: outros ingleses classudos que fizeram o pop girar. Essa é classudíssima: "I'm only human/ Of flesh and blood I'm made/ Human/ Born to make mistakes", mais elegante que isso impossível, meu filho.
6)Love Changes Everything, Climie Fisher. Não tenho nenhuma informação pra dar sobre esse cidadão e a internet aqui de casa, no momento, tá muito lerda. Pronto, descubro que os autores dessa gema são uma dupla, Rob Fisher e Simon Climie, outros ponta de lança da British Invasion no pop oitentinha.
7)Gimme Hope, Joanna, Eddy Grant. Esse cara é da Guiana e é um dos grandes produtores de música caribenha. Antes disso, ele povoou as mentes dos adolescentes do mundo inteiro com essa Joanna aí, num inglês que dá gosto de ver. Não que meu inglês seja britânico, mas o dele é engraçadíssimo também!
8)Chorando se Foi, Kaoma. Sim, meus caros, Neguinho do Pastoreio, filho legítimo de Steven Jobs e febre no Primeiro Mundo, lasca uma lambada nostálgica para essa que vos escreve lambujas de quando em quando!

O fascínio do brega

Eu já escrevi aqui que muito me admira o fato de hoje eu ser fã do Roberto Carlos.
Lá em casa, o bom gosto imperava. Tudo bem que até um certo ponto: seu Pedro e dona Meire não eram ouvintes de música clássica. Era Milton Nascimento, Chico Buarque e Caetano Veloso, além dos Beatles.
Mas, pra viajar, nos nossos Voyages metálicos, a gente tinha um toca-fitas. Lembro que era uma das primeiras coisas que meu pai punha no carro, um estojo com as cassetes. Nas longas e sofridas viagens pra Campos dos Goytacazes, a gente ouvia Milton ( o lindo disco Sentinela, de 82, acho), uma fita com coisas da Jovem Pan ( eu lembro que tinha a Morena Tropicana, do Alceu Valença, uma linda do Queen, e Memory, de um cara chamado Barry Manilow, conhece?), e outra, azul, que era a grande curtição. Eram os grandes sucessos do Abba.
Eu adorava aquela fita, apesar de não entender lhufas do que as moças cantavam. A única palavra que a gente entendia era Fernando, que lástima...
Outra paixão era o som lá de casa, um Gradiente prateado, daqueles enormes. Toda vida ouvi muito rádio, mesmo hoje não passo sem rádio, agora no caso a Terra Rádio, na internet. Ouvia tudo. Aos onze anos, ganhei o primeiro micro-system ( sim, lembram-se deles?) e o mundo da música popular, nacional e internacional, se abriu pra mim.
Escutava escondido, e baixinho, as estações de música brega. Os meus pais tiravam sarro, o meu irmão tirava sarro, e na escola então? Lembro bem que queria construir a imagem de uma garota séria, estudiosa, e isso não batia com música brega, de jeito nenhum.
Os leitores, por favor, me entendam nesse ponto. Eu gosto de música, todo tipo de música. De Bach a mpb, de forró a Erick Satie. Devo ser um dos raros casos de gente que gosta de Leandro e Leonardo e Billie Holliday, de rock pesado e Ray Conniff, eu gosto de tudo. A chamada música clássica, sem sombra de dúvida, inspira e alimenta. Mas como explicar o fascínio do brega?
De uns três, quatro anos pra cá, tá essa moda brega escancarada. De repente, é legal ouvir Sidney Magal a todo volume nas festinhas. É natural discutir horas a fio, via msn, telefone ou mesmo pessoalmente ( coisa rara hoje em dia) sobre Menudos. Ou sobre... Leandro e Leonardo. Tem música que deveria ser proibida pelo Ministério da Saúde: ou porque é muito infame, ou porque é glicose pura. Mas como explicar que multidões enlouquecidas, de todas as idades, raças, credos, classes sociais e leituras preferidas ( da Bíblia aos Manuscritos Econômico-Filosóficos do Marx, passando por Quem Mexeu no meu Queijo) possam se emocionar ouvindo Wando? Outro dia o Nando Reis, ele mesmo, super cabeça, declarou que é fã do Wando. Como explicar?
Eu tenho por mim que o brega fascina porque é divertido. É divertido quando é infame, tipo Tiririca; é divertido quando é romântico, porque quando você está no estágio de amar, se emociona até com Celine Dion, e quando você ainda não caiu na besteira de amar de novo, ou se emociona de lembrar do amor que se foi ou se emociona ao lembrar que um dia você já se emocionou daquele jeito. Ou ri porque mesmo que tenha lido as Obras Completas de Baudelaire, Verlaine e Rimbaud, sim, você é brega pra cacete!

Saturday, January 07, 2006

Carreira Acadêmica

Aos dezessete anos, precisei preencher as fichas do vestibular. Queria ser jornalista. Prestei Jornalismo na USP, na UNESP e na Federal do Paraná. Meu sonho era estudar na ECA. Unicamp prestei por acaso. Minha amiga Débora, ansiosa por prestar o vestibular da filha de Zeferino Vaz, comprou um manual de manhã; chegou em casa, seu pai, o mítico senhor Jeffrão, havia comprado outro.
Paguei o prejuízo e não sabia o que prestar. Pensei em Letras. Na fila do ginásio, naquilo que considerava um fim de mundo ( Barão Geraldo), nas costas do meu pai, preenchi Ciências Sociais.
Passei na UNESP. UFPR, minha mãe escondeu o resultado positivo da segunda chamada, pra filha não ir virar vítima do vampiro de Curitiba. E num dia chuvoso, recebi a notícia que não havia passado na primeira chamada da ECA. Chorei muito naquele dia, e de tarde, no velho Ciclo Básico, vi meu nome na lista das Sociais.
Uma amiga da minha mãe me alertou pro fato de que não me via jornalista. Achava que eu tinha jeito de professora. Professora universitária, pesquisadora, o que o então presidente foi, durante muitos anos. Aquilo me deslumbrou. Entrei na Unicamp e no primeiro mês o sonho de se tornar uma professora universitária se formou.
Corri atrás desse sonho durante doze anos. Quatro de graduação, quando, afobada, matei Bacharelado e Licenciatura em Sociologia e Antropologia, gastando meus dias na biblioteca com ardor, três bolsas de iniciação científica e estágio no Centro de Memória. Quatro de mestrado, gastos em uma rotina insana de disciplinas e textos pra matar Sociologia e História da Arte, e o Programa de Formação do Cebrap. E agora, mais quatro de um doutorado em Teoria Literária, entre aulas no IA, pesquisas, artigos, Chicago e Botticelli e Dante.
Fui bolsista de todas as instituições governamentais. Dei aula em cursinho de periferia e palestra no MASP. Torrei a paciência da minha mãe, que sonhava em me ver advogada. Trabalhei em troca de livros e escrevia de madrugada. E agora, preciso escrever uma tese, conseguir uma renovação de bolsa na FAPESP. E o ânimo me falta. Dois amigos não conseguem bolsa, outros tantos não conseguiram. O Projeto Temático ao qual me insiro não existe mais.
Corro atrás dos concursos. Todos pedem doutorado. Pati, minha amiga e companheira de jornada no Cebrap, me alerta para o fato de que muito concurso abre e fecha sem inscritos, e depois os departamentos baixam o nível de exigência. Vejo que o ânimo me falta.
Preciso escrever a tese, o ânimo me falta. Preciso pensar em prestar concurso, o ânimo me falta. Gastei doze anos e o sonho começa a desbotar. Será que conseguirei vencer a politicagem, a falta de profissionalismo, o corporativismo mesquinho, o diz-que-me-diz, a mediocridade, a não-racionalidade dos processos seletivos, essas marcas da academia brasileira?
Pela primeira vez nesses doze anos, duvido do meu sonho. Não, não acredito mais que a academia é meritocrática. Muito vi nesses doze anos. Vi até demais. Vi muitos colegas talentosos serem esmagados por uma engrenagem perversa e uma lógica que muitas vezes pressupõe arrivismo e uma certa falta de caráter. Estou cansada, isso é tudo. Adoro o que faço, e não me arrependo da minha dedicação, eu sei que o trabalho me salvou. Mas cansei. O fato da minha dissertação não ter sido aceita pela Editora da Unicamp despertou de novo o cansaço, o desalento. Não sei se vou ter forças pra dar o pulo do gato. A força me falta, eu quero a doçura de caráter, eu quero a tranquilidade do amor e do afeto, não a máscara que é preciso ter. Talvez, o retorno de Saturno me deixou mais amena. Talvez, vamos ver.

Wednesday, January 04, 2006

Citação do dia

"Nestas páginas analiso algumas das obras maiores de Piero della Francesca (...) sob um duplo ponto de vista: a clientela e a iconografia. Não me refiro aos aspectos propriamente formais destas pinturas, porque me falta a devida competência ( sou um estudioso de história, não de história da arte). Trata-se de uma limitação grave. Pode uma pesquisa assim circunscrita atingir resultados relevantes? Penso que sim: por motivos de ordem específica, ligados à situação dos estudos sobre Piero, e também por motivos de ordem geral". Carlo Ginzburg, Indagações sobre Piero. Rio de Janeiro: Paz e Terra,1989.
E eu pergunto: e quando junta iconografia com aspecto formal?

Depois de Valparaíso

Então, fomos pra Valparaíso, perto de Araçatuba, terra dos ancestrais maternos da pequena Dani, a eterna menina-xamã.
Ficamos na velha fazenda Tangará, com o divertidíssimo pai de Dani, doutor Jorge, criador de gado kanchin e cardiologista nas horas vagas, e dona Eloísa, cozinheira das melhores e tradutora de Thomas Mann. Gente fina é outra história.
Comemos toneladas, e eu fui picada por tudo quanto é tipo de inseto. Mas valeu muito a pena, a companhia de Dani e Chris, Celo, do Fubá ( um gatinho muito fofo e cinza que tem lá) e do General, um sapão que estava, segundo a Dani, a fim de mim. Além das maritacas no telhado. E das terríveis mutucas. E de Neguinho do Pastoreio tocando sem parar hits dos anos 80.
Volto pra Campinas, dou um show chiliquento em casa porque perdi o IPVA do carro. Janeiro é dose. E taca pagar conta, e taca ir em academia, e eu ainda gastei uma fortuna na Decathlon, em tênis, maiô e camiseta. Ou seja, vou me acabar de malhar pra compensar as compritchas.
Começo a trabalhar no relatório pra FAPESP sem muita empolgação. Não sei o que fazer pra convencer o parecerista que sou uma pessoa séria, e que meu trabalho é cientificamente relevante.
Aliás, momento desabafo: tive a publicação da minha dissertação negada na Editora da Unicamp. Justificativa, nenhuma. Sei que o negócio tá feio, mal costurado e mal escrito, mas puxa, eu merecia uma resposta. Descubro por Letícia que talvez a mesma alma penada que me atazanou a vida esses tempos cometeu tal feito. Que beleza. De novo, entrei na cidadela de Dite.

Tuesday, December 27, 2005

Mudando de assunto

Os posts anteriores foram desabafos. O assunto é sério e merece ser discutido, e mando meus parabéns pelos ex-membros que tem a coragem de vir a público e desnudar os meandros da instituição. Parabéns e coragem, coragem pra enfrentar essa selva escura.
Indo pra outro canto. Amanhã vou me encontrar com minha querida menina-xamã, no sítio dos pais dela, perto de Araçatuba. Meio do mato, sem internet, posto no blog quando voltar, dia 2 ou 3, por aí.
Muito mato e muito sol e papo com Dani, Chris e Celo, o trio parada dura do blogger.com. Acho que vai rolar muita partida de Banco Imobiliário, e muita discussão sobre nossos blogs. Ehehehehe, blogueiro mesmo sem internet fica ligadão!
O Celo já pôs todas as porcarias anos 80 em Neguinho do Pastoreio, e Porpetta está pronta pra registrar nossas aventuras campestres. Caronte fica por aqui,afinal trabalhar é que eu não vou!
Um Feliz 2006 pra todos, muita saúde, disposição, amor, e porque não dinheiro no bolso porque tá todo mundo precisado! Vale pular ondinha, comer lentinha, usar calcinha de cor, vale tudo, Ano-novo vale fazer qualquer mandinga, qualquer macumbinha, qualquer promessa. Mesmo que não dê certo, quando os homens abriram a caixa de Pandora, ficou lá dentro a esperança.

Opus Dei II

Mas o que mais me dói nem foi a minha amiga. Foi o meu irmão.
Amor incondicional que eu conheci aos dois anos, meu irmão, estudante de Engenharia Mecânica da Unicamp, também foi cooptado pela Opus Dei. No caso dele foi pior, foi bem pior.
Não sei bem ao certo como ele entrou na onda, mas hoje eu juntei os fatos e entendi porque depois da morte do nosso pai meu irmão se tornou alguém insensível, ao ponto de manipular toda uma situação e me agredir fisicamente.
Infelizmente, meu irmão também foi vítima da lavagem cerebral feita pela Opus Dei. Ao invés de sentir a morte do pai, meu irmão se trancou num círculo de rigidez e ressentimento, que agora, pensando e juntando os fios da meada, sei que vieram de um determinado colega, que o arrastava para um Centro Cultural.
Minha mãe comentou comigo, num momento de rara lucidez, que foi muito difícil pra "tirar o seu irmão daquilo"... porque essa organização, que se diz cristã, prega o desamor nas famílias, a desavença com o diferente, até chega a aconselhar um garoto que acabou de perder o pai que essa dor é nada, e que a irmã é um inimigo porque dorme com o namorado?
Não, não é legal usar cilício. Não, eu discordo do celibato, discordo da política suja e da ocultação dos propósitos. Eu me alisto na fila das pessoas que tiveram ou têm membros da famíla ou amigos que foram abduzidos por uma estrutura desumana e cruel, que de cristã não tem nada ou tem muito pouco.