Saturday, March 18, 2006

Minha primeira coluna

Então, aí está minha primeira coluna pra Folha Popular, jornal de Lençóis Paulista, SP:

A Pequena Notável


É com grande satisfação que inauguro minha participação na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, exposições, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.

2 comments:

Anonymous said...

Lembrei muito de você, e da sua estréia como colunista, quando assisti um debate com o Ruy Castro e o Fernando Morais, na bienal do livro.
Bjinhos. :-}

Maria said...

Beijinhos pra vc, sua fofa, não suma!!!!!