Nos últimos três meses, todos os dias, abro o Portal Terra e vejo mais uma notícia de bebês abandonados no Brasil.
É bebê no lixo, bebê enrolado no saco plástico, bebê no lago, e por aí vai. Nesse ritmo, o inevitável aconteceu: um dos cronistas da Vejinha São Paulo escreveu um emocionado discurso, denominado "Monstruosidade", se perguntando do porquê essas desnaturadas e psicóticas mães não encaminham seus filhos para a adoção ou os abandonam em românticas cestinhas, com mamadeiras quentes, nas portas de famílias "de bem". Sim, porque uma mulher que comete uma atrocidade dessas só pode ser uma degenerada.
Concordo que existe uma grande dose de irresponsabilidade e que milhões de mulheres, no nosso país e no mundo inteiro, têm seus filhos na mais completa miséria e mesmo assim não abdicam dos direitos e deveres de serem mães. Muitas mulheres passam por sofrimentos indizíveis, mas a partir do momento que se descobrem grávidas, fazem de tudo para oferecer amor aos seus nenês. Agora, esse cronista da Veja...
Só sendo homem para não compreender que a gravidez muitas, muitas vezes não é uma escolha. Que algo cresce na barriga contra a vontade, que se tenta esconder, retirar, que estar grávida não é sinônimo de felicidade. Que instinto maternal existe, assim como o sexual, mas que o ser humano não é feito só de instinto. É feito de sociedade.
E, no Brasil, a gente vive numa sociedade injusta, cruel, onde o direito à uma sexualidade livre e responsável é vetado; que o acesso aos anticoncepcionais não está ao alcance de todos. Que não existe um posto de saúde equipado a cada esquina, oferecendo preservativos grátis. Mesmo no campus da Unicamp, uma das maiores universidades do país, não há lugar para se comprar preservativos. Centenas de estudantes, professores e funcionários passam pela Cidade Universitária todos os dias, e não há uma farmácia, para se adquirir uma aspirina, um absorvente e mesmo uma pomada pra queimadura. Porque a Prefeitura do campus não põe nos banheiros as práticas e discretas máquinas de preservativos e absorventes?
E o cronista também esquece que o aborto não é legalizado e que entre chás e agulhas de tricô, muitas mulheres se ferem para sempre ou perdem suas vidas. A MULHER DEVE TER O DIREITO DE ESCOLHER SER MÃE. INSTINTO MATERNO EXISTE, mas assim como todos os assuntos humanos, deve ser uma opção, não um destino inexorável. Eu imagino o terror de ser pobre, à margem, estar grávida e com ódio do que se carrega no ventre. É muito fácil pra mim, menina de origem burguesa, com três refeições quentes por dia e vida sexual vivida com responsabilidade, privacidade e amor julgar e condenar a mãe que abandona o bebê, que para ela não é um bebê, é uma coisa que cresceu na barriga à sua revelia.
Peço desculpas aos leitores por expor meu ponto de vista de forma tão explícita. Mas há muitos anos, eu quero lutar pelo direito à maternidade no Brasil. Pelo acesso livre e irrestrito aos anticoncepcionais, à uma boa Educação Sexual, ao acompanhamento médico e psicológico de qualidade e gratuito, e sim, ao direito ao aborto, quando necessário. Tenho como "adversários" os conservadores de todos os calibres, como os cronistas reaça da Veja, e as bancadas religiosas no Congresso. Em tempo: sou totalmente favorável ao casamento homossexual, à não-obrigatoriedade do voto, a uma educação laica e estatal e à liberdade e tolerância.

4 comments:
Cara Maria, concordo com quase todos os princípios. Mas se o argumento é "só sendo homem para não compreender", poderia dizer: só sendo não grávida pra entender as coisas assim. Tenho ogeriza aos argumentos de exclusão. Só negro entende problema de negro, só homossexual entende problema de homossexual... se o tal colunista fosse mulher, como seria? Descartada como iludida? Cega pelo padrão controlador da sociedade machista dominante? Eu acho um absurdo mãe largar neném no lixo. Não importa que raios de passado ela tenha, que dificuldades encontrou. Concordo, deveria ter a chance de aborto... de uma vida melhor, pra começo de conversa. Mas e aí, porque a sociedade foi injusta tudo é explicado e ficamos só no discursinho utópico de "deveria ser diferente e temos que entender"? Acho que isso me inclui na categoria dos conservadores e reacionários. Tudo bem.
Bia, uma mãe
Caríssima Bia,
Eu acho mesmo que o colunista foi machista, misógino. Seria interessante se você pudesse ler a coluna que ele escreveu. Em nenhum momento ele falou dos pais desses bebês, só das mães.
Ou seja, ele individualizou a discussão, pôs a culpa nas mães e só. Denominou-as de psicopatas. Quando eu li o texto, pensei, mas é fácil falar isso, sendo homem, de classe média alta, e chamar o público da Veja, também de classe média, pela emoção e não por argumentos que tocassem nos problemas sociais envolvidos.
Também acho um absurdo jogar bebê no lixo. Mas li alguns estudos sobre depressão pós-parto,e em alguns casos observou-se a constituição de estados patológicos graves, surtos psicóticos por exemplo. Ou seja, uma mãe sem nenhum amparo médico, psicológico, afetivo, emocional, pode entrar em surto. Tem mãe que entra mesmo sem tantos problemas: é por isso que maternidade às vezes precisa ter grades nas janelas.
Eu mesma falei no post que milhões de mulheres passam por sofrimentos horríveis e não fazem isso. Ou seja, em nenhum momento justifiquei a atitude dessas mulheres. Agora, o que eu realmente acho um absurdo é como os meios de comunicação ( no caso, peguei a coluna da Vejinha como exemplo) tratam da questão.
Eu passei por uma trágica experiência uma vez. Perdi um bebê. Sempre sonhei em ser mãe e aconteceu isso comigo. Toda vez que leio uma notícia dessas, penso na minha dor e em quanto eu teria ficado feliz se meu pequeno ou pequena tivesse permanecido comigo. Eu teria feito de tudo para isso. Mas não posso concordar em descer a lenha nessas mulheres, não consigo odiá-las, não consigo me imaginar mandando-as para a cadeia. Um beijo para você, Bia.
Paulinha!
Então, olhando retrospectivamente, é boa sim! Mmm... acho que mesmo na hora já dava pra ver que era boa... hehehe.
Mas a incrível saga do tatu ainda não foi relatada! Um dia eu conto!
Ah, antes que me esqueça... por que Punpkin Head?!
Beijos!
Eu acho que o que a Maria está querendo dizer é que simplesmente a grande recorrência do problema ultimamente faz com que sejamos meio que obrigados a pensar que esse problema se insere numa dimensão maior, pois não se trata de mera casualidade o que está acontecendo. O problema em questão é um sintoma de algo maior, de um problema que a sociedade brasileira vêm enfrentando e que ultimamente tem ficado cada vez mais evidente. O que estou querendo dizer é que a idéia de se penalizar irrestritamente essas mães, independente das circunstâncias particulares nas quais se desenrolou cada caso não leva a nada, pois se estaria desta forma simplificando por demais uma situação que em si não tem nada de simples. Não custa lembrar, mas cada caso é um caso, e existem casos realmente em que as mães agem de forma irresponsável e maldosa, mas existem outros onde isso nào acontece, e é para isso que a Maria está apontando. Além disso, não basta que se formule uma politica individual, que regule apenas o caso de cada mãe, pois a sociedade é um organismo com imbricações mais complexas e nem sempre evidentes que devem ser ressaltadas e tornadas parte da consciência de todos para que só assim seja verdadeira a idéia de liberdade. Afinal, sem escolha não há liberdade. A idéia de se penalizar as mães irrestritamente é mais ou menos o equivalente do caso da esmola. Não que seja errado dar esmola, mas enquanto os orgãos responsáveis não tomam medidas cabíveis para alterar uma situação que é para lá de estrutural, nada muda. Assim como vão continuar a aparecer mais e mais casos de bebês abandonados. Nossa funçào, como parte da sociedade civil, é pressionar as autoridades e fazê-los lembrar que não é para eles que existe o governo, mas para todos nós. Não se trata de um discursinho utópico, pois nào se esqueçam que o poder de influência exercido por um colunista da Veja acaba determinando a opiniào (mal-ajambrada, por sinal) de milhares de pessoas. Ou seja, existe uma diferença muito clara entre o poder de persuassão de um colunista da Veja e as mensagens postadas num blog como esse. Imagine então se não tivessemos nem o recurso aos blogs, para citar apenas um exemplo. Seria realmente muito complicado ficarmos quietos aceitando pseudo-argumentos de gente influente que determina (e ai morre a idéia de qualquer "discursinho utópico") o que os outros vão pensar, do que, como a Maria, tentar mostrar que o problema é mais complexo e deveria ser tratado de forma diferente. Ser conservador e reacionário, nesse caso, significa entào manter as coisas do jeito que são, ou seja, calar-se e deixar que outras pessoas mais influentes e nem sempre mais esclarecidas decidam o que deve e o que nào deve ser feito de nossas vidas. Se a sociedade civil cala, as autoridades consentem....
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