Thursday, June 07, 2007

Veja Henry Sobel roubando gravatas

Todo dia eu acordo, tomo um chá, um leite ou um café ( de acordo com a disposição de espírito), incluo fibras na minha alimentação ( na forma de pão integral e frutinhas, porque além de velha tô, digamos, gordinha) e sento no meu laptópero, o internacionalmente famoso Caronte ( apelidei o dito desse jeito em Chicago, Illinois, quando de uma tenebrosa noite que o filho da mãe travou e deu pau em todo mundo. O barqueiro do Inferno, Caronte, só dá pau no povo). Caronte está com uns probleminhas, programinhas chatos emperrandos e uma fotinha de Pisa como decoração.


E logo Caronte desemboca sua nau dos desencarnados no Portal Terra. Eu era assinante dessa porcaria de servidor, e não sei porque cargas d'água eu não mudei ainda a página inicial dessa joça. Porque o site do Terra me brinda todos os dias com as notícias mais esdrúxulas, sem noção e inúteis do mundo ( talvez seja por isso mesmo que eu não mudo essa porra). Hoje por exemplo. Você pode ver o vídeo, feito nas câmeras da loja Gucci em Miami, do rabino Henry Sobel afanando gravatas. Fica sabendo que os jogadores corintianos estão no treino, aprende a fazer vários e deliciosos quiches, e nota que o aeroporto de Guarulhos está com atrasos e filas. Lê que Dercy "não se arrepende de p***& nenhuma" aos 100 anos ( os asteriscos são do Terra. Nesse post a palavra porra já foi escrita e declamada com todas as suas letras. Aliás, depois conto pra vocês o incrível caso da panda demitida por ter falado a palavra porra. Mais uma vez, essa palavra apareceu!). E que Martinho da Vila lança CD e diz que o País passa um por momento melhor ( não sei porque, para o pessoal do Terra, País tem que vir em maiúscula).
Outro dia caí pra trás com a retumbante notícia que o vestido de casamento de Wanessa Camargo, da maison Calvin Klein e criação de um desses brasileiros que bombam o mundinho da moda fashion internacional, era igual ao que Christina Ricci ( é, a Vandinha da família Addams, que cresceu e ficou bem, digamos, jeitosa) usou numa première qualquer. E no dia seguinte, o estilista desmentiu isso, provando ( não sei como) que o vestido não era "clonado". Nunca vi disso, mas agora até vestido é clonado. Cuidado, crianças.
Esse mundo das "celebs"então é engraçadíssimo. Lindsay Lohan ( nunca vi uma película com essa moça, mas eu tô muito desatualizada culturalmente) sai com um rapaz que se auto-proclama viciado em sexo ( esperemos que seja viciado em sexo com a pobre Lindsay e não com suas amigas), Lindsay Lohan dirige embriagada e bate o carro em Los Angeles, acham pó no carro da moçoila, Lindsay Lohan vai pra clínica de reabilitação Promises, na praia de Malibu, a mesma em que Britney Spears, que por sua vez essa semana trocou de peruca umas quinze vezes, mas usou o mesmo chapéu de cowboy da grife que é mesma do sapato de jacaré manco de Paris Hilton, que por sua vez... é uma coisa formidável.
Também adoro quando o Terra me informa de excentricidades, nas seções Notícias, Mundo e Popular. Soube de uma família no Rio que quase enterra o corpo errado ( o sobrinho nervoso reconheceu o cara do lado na UTI. Detalhe, a família gastou pra fazer o funeral e o cidadão, sim, ainda estava bibo, como a gente fala em aula de espanhol). Uma menininha acha um diamante num parque nos EUA, um juiz de lá pede 54 milhões de doletas a uma lavanderia que destruiu sua calça, 855 mil celulares são jogados na privada na Grã-Bretanha por ano, e um chinês come sapos vivos porque diz que é saudável. Aliás, como notou faz tempo o pessoal da comunidade no Orkut "Anão vestido de palhaço mata 8 na Croácia" ( especializada em colecionar e anotar esse tipo de manchete retumbante), faz tempo que todas as notícias vindas da China vem com o número 27, ou com informações que qualquer um percebe que são erros de tradução, do mandarim pra qualquer uma das línguas faladas pelo resto da humanidade. E Paris Hilton saiu da cadeia depois de três dias, e lambida de vaca cura reumatismo.

Wednesday, June 06, 2007

Para ler os clássicos

Dr. ABC comentou sobre a presença, neste blog, do prof. Dr. Sérgio Salomé Silva, sambista, locutor da Rádio Muda, lenda viva e autor do clássico A expansão cafeeira e a origem da indústria no Brasil. Sim, há muitos anos privo da companhia de Sérgio, um monumento da Sociologia e principalmente do Carnaval brasileiros.
Em outra encarnação, a panda fã do tiozão narigudo ( que seria, nunca é demasiado repetir, absolutamente contra Ratzinger) foi socióloga-mirim. Celso lembra disso porque tava junto. Pois é, meus caros. Freqüentei com fervor o curso de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Campinas. No segundo ano, indecisa, resolvi cursar as disciplinas dos currículos de Sociologia e Antropologia; as de Sociologia eram uma coisa. Tive Formação da Sociedade Brasileira e Pensamento Social do Brasil no mesmo semestre, respectivamente com o prof. Márcio Naves e a profa. Élide Rugai Bastos. Quem conhece os dois sabe o que foi o meu semestre: livros eram lidos de uma semana pra outra, assim, tipo, semana que vem discutiremos Raízes do Brasil. O curso do Márcio era um negócio de louco: lia-se Caio Prado, Celso Furtado, João Manuel, Fernando Novais inteiros, e quando chegou no final um livro que nunca esquecerei: Getúlio Vargas e o Capitalismo em Construção, de Pedro Cezar Dutra Fonseca. O cara destrinchou os discursos de Getúlio, fora de brincadeira, desde a formatura do vulto nacional no primário.
Mas eu fui fisgada pela área da Teoria, comandada pelo então recém-ingresso e sempre intrépido prof. Josué Pereira da Silva. Seguindo a tradição de Florestan Fernandes ( filho de lavadeira) e Gabriel Cohn ( de origem humilde também), o mestre Joshua veio de pau-de-arara da Bahia e no final doutorou-se em Nova York. Junto com o Fernando Lourenço, o Josué dava cursos ótimos que viravam a cabeça dos neguinhos.
No meu mestrado ( sim, porque a panda adentrou na pós-graduação na Sociologia) eu fiz um curso com o Sérgio. Eu já tinha lido o livro e uns artigos dele, da época em que a Sociologia brasileira era cravada por polêmicas. O Sérgio ministrava o curso de Sociologia Brasileira no maior esquema dolce far niente, e nós alunos o adorávamos. Realmente o cara é um monumento, dr. ABC. E eu vou contar a melhor história desse personagem.
Eu, por increça que parível, defendi uma dissertação sobre os textos de Adorno para uma obra coletiva chamada The Authoritarian Personality, publicada em 1951. Enfim, escrevi minha dissertação trabalhando como vendedora na Livraria do IFCH, da minha amiga Pri. Eu escrevia no velho micro da livraria, acompanhada pelo Benezinho do xerox, que infelizmente já não está mais entre nós. Benezinho, além de meu confidente e tirador de sarro mor, agüentava pacientemente minhas digressões sobre Adorno e minhas explicações sobre querelas sociológicas da década de 40. Já havia presenciado a expulsão de um cliente da livraria, pela vendedora irritada com o fato do cara ter dito "Bonitinha, você tem um livro do Adorno aí? Serve qualquer um porque o cara é uma bosta mesmo" e sempre me via adorando a fotinha do tio filósofo germânico, na capinha do Adorno da Ática, obra e graça de mestre Cohn.
Um belo dia acabei a dissertação. Benezinho tirava as cópias da minha obra, e eis que chega Sérgio. Mostrei a dita e o mestre se empolgou, me abraçou e deu parabéns, e me falou então, te conto uma história. Sérgio fez doutorado em Paris, e em 1968 ( pois é, mas ele é ainda jovem, crianças!) usava longos cabelos, uma longa barba, poncho mexicano e sandálias detonadas. Estava em flerte com uma pequena francesa, estudiosa de Literatura. A moça o convidou para um encontro na École des Hautes Études, durante um seminário sobre a vida e obra de Franz Kafka.
Sérgio de forma marota pensou em não assistir o aparentemente cacete evento, comparecendo apenas no refeitório da instituição para o almoço. Pegou a bandeija com a gororoba, o lugar cheio, e não viu a amada. Apenas avistou um lugar vazio diante de um senhor baixinho, baixinho, careca, de tweed. Tinha uma cratera diante do tiozinho, e Sérgio se aboletou na frente. O senhor sorriu amavelmente e eles começaram a conversar. O tiozinho perguntou se Sérgio era aluno École, e ele disse que sim e tal, o tio, de que área, da Sociologia responde Sérgio. O senhor, com sotaque forte no francês, sorriu e disse que era professor de Sociologia. E aí perguntou, mas você está no congresso sobre Kafka? Agora leitores, cortem e pensem na pequena panda ouvindo a história meio entediada no xerox do IFCH.
Sérgio falou pro senhor que não estava no congresso, que só tava ali pra paquerar uma francesinha gatinha, gostosinha e tal. O tiozinho riu e falou, essas francesas, essas francesas, e os dois começaram a discorrer sobre as, digamos, particularidades das moças da França ( dentre os tópicos, a tendência das conterrâneas de Robespierre a terem, digamos, comissões de frente com formas atraentes). Depois do papo animado, o senhor se despediu e Sérgio continuou pensando no objeto do seu desejo despreocupadamente. Notou depois de certo tempo que as pessoas ao redor olhavam pra ele espantadas, e uma moça perguntou sem jeito, mas sabe, ninguém teve coragem de sentar na frente dele.
Benezinho nessa hora da narração se escondeu debaixo do balcão do xerox. E nessa hora Sérgio lasca que o tiozinho era, sim, ele próprio, Theodor Wiesengrund-Adorno. Eu tive um ataque de asma e Sérgio começa a rir, acrescentando que o povo do bandeijão da École não acreditava na façanha daquele ser de poncho e sandália que, sem mais nem menos, havia almoçado e falado besteiras com dr. Adorno, o conferencista convidado do evento sobre Kafka.
Sérgio, nessa hora bestificado, adentra no auditório onde Adorno iria discorrer sobre o escritor tcheco, e o homem lá de cima dá um tchauzinho pro nosso mestre. Eu engasguei e Benezinho durante anos me lembrava o episódio, acrescentando que eu tantas vezes havia censurado a leitura comentada da Playboy do mês no balcão do xerox, em nome da filosofia do Adorno, sendo que o próprio, pelo visto, não passava incólume aos sempre delicados papos de macho. O lindo é que Sérgio finalizou sua emocionante narrativa dizendo que, durante um bom tempo, teve que pensar como contaria ao mestre Gabriel o seu encontro com Adorno.
Detalhe, ontem Sérgio nos confidenciou que a nova edição de Para ler os clássicos, coletânea de Marx, Weber e Durkheim organizada por Gabriel, hoje diretor da FFLCH Terra em Transe, sairá com um CD de brinde, com os sambas-enredo dos três grandes da nossa tão amada disciplina. O do Durkheim está em fase de preparação e Sérgio aceita sugestões. Eu dei a minha: o refrão poderia ser: "É anomia na avenida ÊÊÊ/ É anomia na avenida ÁÁÁ/ Mas o que conta é a emoção/ E o fato social no coração", algo assim.

Tuesday, June 05, 2007

L'amore che muove il sole

E hoje eu encontrei, no almoço de sempre da cantina do IFCH, prof. Sérgio Silva, velho companheiro de guerra. E ele me lembrou que messer Durante Alighiero, na Vita Nuova, afirma que é do signo de Gêmeos. Logo, no longínquo ( bota longínquo nisso) 1265, nascia, da família descendente de um guerreiro alemão, às margens do lamacento Arno, o tiozão mais querido da panda aqui.
Quem lê esse meu blog, que existe há dois anos ( sim, nesse junho aniversaria além do Celo e do tiozão da Commedia, este Caminho do Meio, ops, Meio do Caminho) sabe que eu tenho algumas "paixões". Já escrevi sobre amigos, Celo, ursos panda, Bruce Springsteen, cerveja Guiness, sobre Pisa e Chicago, dente quebrado, assalto, fiz exorcismos, enfim, uma variedade. Mas nunca falei sobre Dante, só passando rápido.
Não preciso falar pra vocês o quanto eu amo Dante. Eu sou fã do cara e pronto, ele pra mim é o máximo. Giovanni Bocaccio conheceu o poeta maior da Itália e assim o descreve: moreno, muito moreno ( o pessoal na rua passava e brincava: e aí, tio, você se queimou no Inferno?), barba espessa, olhos negros, queixada de dar medo e um nariz... que como disse o Leo aí, outro dia, que era uma verdadeira obra de arte. Apesar do ar sério e bravo e de ser, digamos, esteticamente desfavorecido, segundo Bocaccio, no exílio, o viúvo de Gemma Donati fazia muito sucesso com a mulherada, e por elas era disputado a tapas. E ironicamente, segundo ele, amou uma mulher que uma vez lhe recusou o cumprimento, e que morreu muito jovem, muito, muito jovem.
Foi exilado da terra amada, segundo ele próprio, por uma acusação injusta; perdeu tudo que tinha, foi torturado e condenado à morte. Enfrentou o exílio na companhia dos filhos, que o amaram e protegeram, e respeitaram.
Morreu na imperial Ravenna. E os filhos comentaram e copiaram a Comédia, que virou o primeiro best seller, na acepção moderna do termo. Todo mundo na Itália queria uma Commedia, todo mundo queria comentar, ilustrar, entender, declamar em praça pública o monumento que muitas vezes seria comparado a uma gloriosa catedral ( um feito que antedeceu, digamos, o de Brunelleschi e a cúpula mágica do Duomo da rica, orgulhosa e arrependida Florença). Porque essa catedral, além de bela, era obra de um homem, para todos os homens. Um homem que escreveu sobre suas dores, sem medo, um homem imenso, mas um homem.
Bibliotecas e bibliotecas se escreveram e se escrevem sobre Dante. Mas todo mundo concordou e sempre concorda num ponto: Dante conversa com o leitor de um jeito que parece que é próximo, íntimo, de todos. Porque é sincero, não esconde suas mágoas, seus sofrimentos, sua raiva e medo, orgulho e limitação. Quis encontrar com Virgílio e Beatriz. Eu não sei se o Inferno, o Purgatório ( extinto pelo nosso glorioso papa, que Dante atacaria sem sombra de dúvida, junto com o Limbo, onde estava Virgílio e o povo da Antiguidade) e o Paraíso são do jeito que Dante os descreveu. Não sei se existe vida após a morte. Só sei que o amor move o sol, e as demais estrelas do meu ínfimo e ignorante coração, por esse homem imenso e digno de estar onde está, por séculos e séculos.

Monday, June 04, 2007

É pique, é pique

E hoje, no meio dos problemas, o Celo faz aniversário. Ele me pediu um post de presente. Então lá vai.


Celo, desde que a gente se conheceu, há muitos e muitos anos atrás, você conquistou um terreno no meu coração com seu jeito meigo e doce de me olhar, e de ser meu amigo nas piores horas. Além de ser arqueológo, tio do Murilo, do Felipe e da Nina, primogênito da dona Ana e queridinho da dona Nair, além da tia Berna, você muitas vezes transformou meus dias em algo alegre, quando eu mais precisei. Às vezes as pessoas entram na nossa vida sem avisar. Um final de tarde na Unicamp e eu empilhava livros na sempre mal arrumada livraria do IFCH. E você se sentou num banquinho e um mundo se abriu pra mim.
Mesmo nas horas mais difícieis, e que foram tantas nos últimos anos, e mesmo nos momentos em que tudo pareceu desmoronar, por um triz o seu sorriso e sua doçura me convenceram de que nesta vida é possível a compreensão, o carinho e o bom humor. Você me salva do pior que há em mim, do meu lado negro da Força, e me fez acreditar na capacidade das pessoas crescerem e se tornarem melhores. Nesse seu aniversário, desejo o melhor da vida pra você.... e que você continue na estrada comigo, porque sem você acho que ficaria triste demais.

Problemas e suas soluções

Como narro pra vocês faz tempo, a minha vida tem sido uma corrida de obstáculos.


Tento resolver da melhor forma possível, mas às vezes não consigo. Ontem à noite, fiz uma panela de pipoca. Estou aqui nas minhas pipocas domingueiras, o dente que quebrou ano passado, quebrou na frente. Sim, estou com um pré-molar com um buraco digno das festas juninas. Fiquei chateadíssima, chorei, chorei. Só não fiquei pior porque na Praça é Nossa virtual aparece Vivi, com um primo dentista e o link praquele vídeo infernal do Bátimam na Feira da Fruta. Com certeza vocês já viram isso, mas acreditem, eu não tinha visto, e no frio de ontem eu passei mal de tanto rir, com dente quebrado e tudo.
Hoje vou ao dentista primo da Vivi. Tô com medo, canal e restauração, e eu não tenho dinheiro nenhum. E hoje é minha primeira sessão no SAPPE. Outro problema resolvido, a terapia. Eu fui num psicanalista que além de desbaratinar minha cabeça ainda queria me cobrar muito mais que o dentista provavelmente cobrará.
A privada quebrada consertei, eu tive que comprar outra. Paguei não se sabe como IPVA e outras despesas do carro, como as quatro multas que levei nas costas quando o Celo estava no hospital. E ainda teve Celo no hospital. Eu não sou muito boa de resolver problemas. Estou devendo pra C&A e pra Renner e ainda preciso consertar a porta do motorista, uma batida do lado do carona e o protetor de carter caído, além de trocar o óleo do carro. E consertar a tese. E limpar a casa. Sei lá.

Sunday, June 03, 2007

Discussão de chão de oficina

Eu acampei os textos da tese na sala e no escritório continuei a luta com o Caderno de Imagens. Hoje conversei um pouco com Yna e Natália, tomando Earl Grey, sobre os percalços dessa empreitada tese. Eu ataquei os capítulos todos juntos e isso causou grande confusão mental; decidi que essa semana eu me concentrarei em um, depois no outro, e la nave va. Então decidi apresentar pra vocês o sumário da minha tese:
O título da maledetta é Considerações sobre os Desenhos de Sandro Botticelli para a Divina Comédia. Porque realmente ela é um amontoado de considerações não muito consideráveis, mas melhor um punhado de hipóteses que se sabem furadas do que duas ou três certezas arrogantes ( bom, isso é um consolo meu). Os capítulos são:
I) “Cosa maravigliosa”
A idéia é rascunhar uma breve apresentação dos desenhos e da bibliografia a respeito, começando pelos dois documentos renascentistas que falam desses desenhos, feitos na ponta de prata, em pergaminho, que hoje se dividem entre Roma e Berlim ( a maior parte em Berlim). Falo um pouco do que seria ilustrar a Comédia, nos séculos XIV e XV, e do debate sobre a obra do tio barrilzinho. Esse debate contém o que seria, digamos, a metodologia desse desastrado estudo. "Cosa maravigliosa"é a expressão utilizada pelo Anônimo Magliabecchiano ( um cara que deixou uma miscelânea, num manuscrito, nos idos de 1540, sobre arte florentina) e Giorgio Vasari para falarem dos desenhos de messer Sandro.


II) “Maravigliosa inventione”
O comecinho dessse capítulo está publicado aqui no Meio. É a história da primeira edição florentina da Comédia, datada de 1481, e que contém gravuras que possuem estreita ligação com os desenhos de Botticelli, e o comentário erutido e enciclopédico à obra de Dante, escrito por Christoforo Landino, reitor da Academia da cidade no período e figura de proa do tal neoplatonismo ( "os alquimistas estão chegando, estão chegando os alquimistas"). Então se fala da relação dos desenhos com as gravuras da edição, da relação dos desenhos com o Commento de Landino ( numa primeira abordagem tosca e insuficiente, que será destruída pela banca) e da ligação de Landino com os outros comentadores de Dante ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com bronquite, na Torre da Fome de Pisa), e aqui entram Guido da Pisa, Jacopo della Lana, Benvenuto da Ímola, Guido da Polenta, dentre outras personalidades de vulto (???) na tradição de leitura, estudo e comentário do poema do tiozão narigudo. Como a edição de 1481 foi uma bomba nesses debates, termina-se o capítulo com a influência desta nas edições posteriores ( pesquisa esta feita diligentemente pela panda, com dor de dente, na Newberry Library e na Notre Dame University, com vinte e cinco negativos e nevascas). A expressão do título é de Landino, em seu Commento, nomeando o personagem que surge agora.

III) “Lo mio duca, il famoso saggio”
Agora o crème de la crème. A panda discorre sobre o personagem Virgílio, em Dante. Sim, o guia do tiozão em sua emocionante excursão entre diabinhos, monstros da Antiguidade e o mais tenebroso de tudo, conhecidos florentinos. A caracterização do poetinha-profetinha, por Botticelli, é colocada em perspectiva com seus antecedentes e contemporâneos iconográficos. Suas roupinhas chamam a atenção pelo exótico e pelo tom bizantino ( São Paulo Fashion Week perde) e isso vai contra as linhas de Landino sobre o herói que salva Dante dos perigos ( principalmente dos buracos que infestam o reino de Lúcifer). Isso intrigou a panda. E eu descobri que na verdade o tio barrilzinho cita o Manuscrito de Guido da Pisa, o que encerra um emocionante debate (???) sobre o Brasileirão, ops, sobre o que seria um comentário à Comédia. O título é como o tiozão chama o poetinha-profetinha.


IV) “La fiera con la coda aguzza”
Não satisfeita em colecionar poetas da Antiguidade, profetas do Antigo Testamento, figurantes na Crucifixão e Santa Ceia e demais personagens de manuscritos, moedas, capitéis de colunas e desfiles de escola de samba, como os antológicos concursos de fantasia do Hotel Glória, eu ainda colecionei monstrinhos da Antiguidade. O meu favorito é o Gerião, rei da Espanha que alimentava seus bois com a carne de seus hóspedes, monstro de corpo tríplice que foi um dos antagonistas de Hércules em seus trabalhos. Dante não conhecia os vasos atenienses nem parte da fachada da Acrópole, onde o gigante triplo aparece, e Virgílio na Eneida só diz que o corpo era triplo. Dante preencheu essa forma tripla ao seu gosto, e nos Cantos XVI, XVII e XVIII do Inferno, Gerião dá uma carona pros poetas. Todos os ilustradores deliberadamente não seguem Dante: só o tiozinho barrilzinho leu lá na Comédia e seguiu direitinho a receita do monstrinho. Mais antecedentes e contemporâneos e mais discussão com Landino. De novo o título vem do Dante, que chama Gerião desse jeito simpático aí.


V)“L’occhio abbraccia la bellezza”
Bom, o Landino, no seu Proêmio ao Commento, fala dos artistas, mortos no momento que escreve, de Florença, e cita Plínio e sua Historia Naturalis. Uma teoria sobre as artes figurativas se desdobra. Mas, como vimos, o tiozinho barrilzinho tava em outra, discordando deliberadamente do comentador. Como messer Sandro não deixou nada do próprio punho ( diz Vasari que ele escreveu um comentário à Comédia, mas até o presente momento ninguém achou nada disso), eu considerei que o tiozinho barrilzinho pensou que seu comentário fosse imagético mesmo, figurativo. Ele cita, em forma de imagens, o debate dos comentadores sobre os personagens e processos narrativos de Dante. Esse negócio de palavra e imagem, em Florença de fins do século XV, interessou a um dos contemporâneos de Botticelli, o moço com quem ele dividiu a aprendizagem e a cara-de-pau intelequitual: messer Leonardo ataca, e seu paragone ( a disputa) entre Poesia/Pintura (primeira parte do seuTratado da Pintura) que destrói a visão clássica do assunto, toma conta dos meus aforismos maluquetes. Botticelli seria um comentador de Dante? Como isso se explica? O título é de Leonardo, afirmando a superioridade da pintura sobre as demais artes.

VI) “L’alta fantasia”
Ou O Retorno de Jedi. Cansado, o leitor é convidado ainda a incursionar mais uma vez pelo Commento de Landino, pelos desenhos de Botticelli, e ver que em Florença do século XV tudo virava afresco ou comentário ao Dante. Mesmo que a historiografia tradicional ache que os artistas do período eram uns zambrões, que só serviam pra fazer obras bonitinhas que viram pôsteres ou livros do Dan Brown. O título vem do Purgatório, porque já é hora do poetinha-profetinha, o tiozão narigudo, o tiozinho barrilzinho,o senhor de Vinci, os alquimistas e a panda sairem das valas do reino de Lúcifer e montarem uma banda de rock.

VII)Anexos ( ou ai, que cacete!)
VII-a)Caderno de Imagens
Melhor dizendo, um Power Point emperrado que ora conta com 120 figurinhas ( tá na metade)...

VII-b)Incunabula brasiliana
E não desligue agora! Ainda tem mais! Você leva de brinde duas edições renascentistas da Comédia! A panda encontrou duas, sim, DUAS edições renascentistas da Comédia no Brasil. E aí eu dou a notícia dos livros e falo da história deles. Do Renascimento aos dias de hoje! Uma pechincha!!!!!! Ligue djá!

Saturday, June 02, 2007

Delenda Carthago

E como diria Cícero, quanto ao resto penso que Cartago deve ser destruída. Especialmente para os meus leitores Na Prática, Pererê,Quintus Fabius Pictor e Deborah, os sequilhos da esquadra cartaginesa:
SEQUILHOS ( receita da senhora responsável pela cozinha do IEL):
1 ovo
1/2 xícara de chá de óleo
7 colheres de sopa de açúcar
1 pitada de sal
2 xícaras e meia de chá de polvilho doce
1 colher de chá de fermento
Bata todos os ingredientes com o mix ( chamado varinha de condão pelos portugueses, esses eternos românticos). A massa ficará meio gordurentinha, e firme. Corte como nhoques, e afunde um garfo em cada um, decorando. Asse por 15 minutos, aproximadamente, em forno baixo, sem precisar untar a forma. Dá uma assadeira grande e outra pequena. A grande ficou embaixo, no forno, os sequilhos ficaram perfeitos. Já os de cima cresceram um pouquinho demais e demoraram mais pra assar. A saída seria assar, na parte de baixo do forno, cada assadeira por vez. Os sequilhos ficam muito bons!

Friday, June 01, 2007

Do trabalho e dos dias

Tese. Caderno de Imagens. Tenho umas cem imagens pra nomear, pôr na ordem, comentar. E ainda falta a metade. Fiz tudo num Power Point, porque realmente, travar o Word é de lascar. Trabalhei em pequenos trechos essa semana. Eu costumo ler trechinhos em voz alta, e vejo se está com uma sonoridade boa. Vejo onde faltam notas, essas coisas. Mas vai tudo muito lento, muito, muito, muito lento. Gostaria de ir mais rápido. Fiquei meio deprimida porque li num post de fevereiro que eu estava empacada na página 200, e vocês não acreditam, desde então eu mais cortei e arrumei que avancei.
Frio. Muito frio. Eu dormi com um edredon, dois cobertores, um pijama, duas meias e um pulôver que uma amiga comprou num brechó, e eu herdei. Sonhei que estava diante de uma casinha muito velha, mas muito bonita, mas era uma casinha muito velha com o formato do prédio do SAPPE (???). Alguém me mostrava a primeira edição do livro de um cara que eu acho o máximo, e tinham uns bonequinhos na capa. Pois bem, o cara saiu do prédio: era a casa dele. Levei um susto, fiquei envergonhada e quis fugir subindo no telhado ( ???). Mas eu me desequilibrei, e caí. O telhado era baixo, e ele me amparou, num abraço. Acordei quentinha. Bom levar um abraço fraterno, de quem a gente admira, no frio.
Os sequilhos fizeram um sucesso danado, acabaram antes da vontade de todos. Ontem uma sacanagem foda deixou de acontecer no IA, isso porque acordei e vi que o Serra havia modificado os decretos. E hoje fiz panela de brigadeiro, pra ornar com a sopa de legumes com macarrão cabelo de anjo.
E uma amiga muito querida me contou que, quando a coisa ficou muito preta depois de uma separação, ela foi morar nuns prédios que existem quase na baixada do Glicério, em São Paulo. Esses prédios ficam numa rua, chamada Almeida Torres, se não me engano. É um conjunto imenso, feio, construído pela Oban na década de 70 ( caixotões). Os prédios tem nome de óperas do Carlos Gomes, incluindo as de temática italiana. São cubículos, e alguns nem janela pro exterior têm; essa minha amiga é pintora e tem dois gatos. Eram ela, os gatos e os óleos que nunca secavam. Ela resolveu namorar um cara. O cara, de cueca, ia pro banheiro, de cimento queimado: esbarrou num óleo vermelhão, a cueca sujou de tinta, o cara quis lavar e ficou rosa. Detalhe, era casado o sujeito. E ela pra se desafogar das mágoas, leu numa revista um dos jantares do Titanic, e resolveu torrar todo o dinheiro que tinha e que não tinha e fez pra amigos queridos o jantar do Titanic ( foie-gras, vinhos, ensopado, terrina de pato, etc e etc). A gente riu muito, e um amigo que estava presente ( na conversa e no jantar Titanic) confirmou todas as histórias e ainda acrescentou uma teoria: Eu não posso, mas mereço.
Fiquei emocionadíssima com as histórias da minha amiga. Porque nesses prédios, durante anos, moraram meus avós, depois que um AVC tirou a capacidade do seu Armando de lavar escadas, no alto do Cambuci, perto de Alfredo Volpi e onde a panda deu seus primeiros passos.

Wednesday, May 30, 2007

Novo irmão, SAPPE, sequilhos, tese... e Rubem Braga

Então. Eu fui almoçar com minha mãe e meu irmão no sábado, e perguntei do novo irmão. Minha mãe visitou um abrigo de uma cidadezinha pequena, do sul do estado, divisa com o Paraná. Ela foi pra lá porque seu namorado tem um sítio lá, e conhece algumas pessoas da cidade, incluindo o juiz, que adotou uma menininha desse mesmo abrigo.
Minha mãe levou lanchinhos pra todos, presentinhos, essas coisas. A casa, segundo ela, é muito boa, construída para essa finalidade, e por ser cidade pequena, as crianças são muito bem cuidadas: três mulheres cuidam delas full-time, e o promotor é a figura paterna, vamos assim dizer. Enfim, as crianças conversaram com ela, interagiram e tal, mas ela se encantou com uma pequena criatura por nome Samuel, dois anos. Este Samuel estava com febre, tomando seu mingau sozinho no refeitório. Viu minha mãe e o namorado, se empolgou, e mostrou pessoalmente seu berço e seu ursinho de pelúcia, que ele rouba na cara dura da maiorzinha, chamada Paula. Ou seja, um cara de iniciativa! Finalmente alguém de iniciativa entraria nessa família! Minha mãe ficou envorvida com essa pessoa. Mas meu irmão, imitando a iniciativa do Samuel, veio pessoalmente do Rio, largando as plataformas da Petrobrás, pra dissuadi-la do projeto Bebê Vermeersch 2007. O almoço na minha mãe foi uma guerra de trincheiras: meu irmão já tinha feito o serviço de desestimulá-la a seguir em frente ( porque o processo de adoção demora meses... inclui muitas visitas, entrevistas, o caramba a quatro) e eu entrei dando um Chuck Norris, falando pra continuar e tal e que esse Samuel estava dando bobeira de ser tão fofo assim, e impunemente! Não pode!
Hoje vou almoçar de novo com minha digníssima genitora, que aniversariou inclusive, e continuarei minha campanha de reforço ao supracitado projeto. Digo a vocês que isso incendiou minha eterna vontade de ser mãe, e se minha mãe demorar muito, eu vou lá e pego o Samuel pra mim. E fica tudo em família, né verdade?
Na segunda-feira, enfrentei uma entrevista no SAPPE, o serviço de atendimento psicológico da universidade. Eu tô na luta por uma terapia há tempos; tentei ir num profissional listado pelo meu convênio, mas o tosco, além de me falar barbaridades, queria cobrar os olhos da fuça. O que causou uma depressão da qual ainda padeço. Faz umas três semanas, batendo papo com uma amiga, ela me conta que faz terapia no SAPPE, e que era muito bom e tal. Ela me convenceu e foi comigo até lá. Assinei a lista de espera e segunda-feira, entrevista.
Na semana que o Celo estava no hospital, vocês imaginam que eu estava muito mal, e fui duas vezes numa coisa muito, muito legal que tem no SAPPE: pronto-socorro! Sim, pronto-socorro de maluquinhos ( o que mais tem na Unicamp)... em dois horários por dia, sempre tem profissionais muito bons lá. A minha experiência foi muito positiva, pelo menos. E depois da entrevista de segunda, eu consegui uma vaga no SAPPE! Fiquei feliz ( pra vocês verem o tamanho do buraco da toca da panda, ficar feliz porque conseguiu terapia!) e me senti muito melhor.
Tanto me senti melhor que fui dar uma caminhada ontem, e parei no Pão de Açúcar. Fiquei duas horas na parte dos temperos ( a minha parte favorita), e fiz sequilhos. Ficaram bons os meus sequilhos, eu peguei a receita de uma senhora que trabalha no IEL. A única hora em que me atrapalhei foi pra cortar, eu passo a receita pra vocês, tem que cortar como nhoque. Comprei Earl Grey e Ahmad English Breakfast, e os sequilhos ficaram bons com o chá com leite.
Pra terminar, peguei emprestado e agora leio um volume com 200 Crônicas do Rubem Braga. É interessante, no início o velho Rubem era muito simbolista... todo mundo morria e/ou sofria nas crônicas, uma fixação por morte bem século XIX. Depois o bichão pegou o jeito e é aquele esplendor que todos conhecem. Isso me salvou da notícia horrível da morte da moça grávida e seu bebê, baleada em Santo André. Muita bala perdida, vocês não acham? Muita arma por aí. Um minuto de silêncio pela Flávia Silveira e seu bebê, diria o velho Rubem.

Tuesday, May 29, 2007

La maravigliosa inventione

Hoje voltei pra minha velha companheira, a tese. E mais um trechinho pra vocês, do segundo capítulo:


"No dia 30 de agosto de 1481, um livro terminou de ser impresso, na prensa de um editor que se assinou Nicholo di Lorenzo della Magna, em Florença. Era a primeira edição florentina da Comédia de Dante, denominada de Divina por Giovanni Bocaccio e lida com devoção nos quatro cantos da Itália, em dois séculos de ampla divulgação, estudo e comentário.
No caso, a iniciativa editorial de Nicholo della Magna era dupla: o livro também era a primeira edição do Comento de Cristoforo Landino ao poema de Dante, e de uma carta laudatória de Marsilio Ficino. Outro fator diferencial eram as ilustrações que sairiam, acompanhando Canto por Canto, em calcografias, tornando o incunábulo a primeira edição ilustrada da obra de Dante e de um seu comentário.
Porém, a oficina de Nicholo della Magna encontrou dificuldades nas tarefas, e só conseguiu imprimir as duas primeiras gravuras nas páginas correspondentes; até o Canto XIX do Inferno, as demais foram impressas separadamente e o conjunto era colado aos exemplares, em espaços em branco.
Dos exemplares que existem, a maior parte não possui as gravuras coladas[1], como é o caso do existente na Newberry Library, em Chicago. Já o depositado na Biblioteca da Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, é um desses raros exemplares completos.
A edição florentina de 1481 correspondeu a uma operação múltipla: lingüística, política, cultural, artística, da república medicéia. Florença acalentava pretensões de hegemonia, e como se sabe, uma hegemonia não se constrói com palavras, mas com ações: centro financeiro da Europa,a cidade abrigava projetos políticos ambiciosos, tanto nas mãos dos Medici quanto nas de seus opositores internos e externos[2]."

[1] Os dois exemplares consultados para esta tese.
[2] Da família Medici sairam dois papas e duas rainhas da França; e nunca é demasiado lembrar que Nicolau Maquiavel era um desses opositores.

Monday, May 28, 2007

La Vie en Rose

Uma vez, uma amiga muito querida que agora está em Paris, e estudava francês com afinco, me disse que ficava meio farta de Edith Piaf. Posso entender. Mas como eu não sei falar nada de francês, e tenho uma certa antipatia relativa pela nação da Marselhesa ( digamos que na Guerra dos Cem Anos eu ficaria com o povo da ilha), antipatia que demoraria muito pra explicar e que é totalmente subjetiva e nó-cega, eu hoje vou da vida em cor-de-rosa.
Quando era criança, não gostava de nada rosa. As fotos da minha infância, que repousam hoje na estante bagunçada da minha sala, nos álbuns, atestam que a pequena e então jovem panda não usava nada, nada, rosa. É interessante, porque já faz alguns anos que a indústria da moda decidiu que, para menininhas, tudo vai em rosa: roupinhas, sapatos, brinquedos, tudo, tudo vai do pink ao rosa esmaecido. Seria meu pesadelo.
Mas agora, esse ano, como diz Nenem, é o meu début na literatura francesa. Virarei personagem de Balzac. E começo a entender as minúcias de sentimento do rosa, e gostaria de ver a vida em rosa. Hoje eu vi a vida no azul profundo do céu invernal campineiro, vi o verde e as tonalidades da terra roxa do Oeste paulista, vi cinza, mas senti uma coisa rosa dentro de mim. Me espanta que alguém ainda me leia, eu ando tão sem imaginação que sempre uma música detona o post. Um beijo a todos, cor-de-rosa, como um algodão-doce em Montmartre, com alguém especial ao lado, na primavera de Paris.

Saturday, May 26, 2007

Concerto de Bradenburgo, no.2 in F, BWV 1047, Allegro

Ontem foi péssimo.

Quer dizer, a confusão começou antes de ontem. Um amigo muito querido me ligou e a gente conversou. Ele me contou que há dois anos atrás, mais ou menos, sofreu um acidente de carro e quase morreu. Detalhe, o cara nunca me disse nada. Fiquei atrapalhadíssima, tive uma insônia do cão neste frio infernal ( segundo Dante, nunca é demasiado repetir, no fundo do Inferno faz um frio da porra).
Ontem acordei mal, mal, mal, meio-dia. Paulo me liga e diz que estava do lado de um urubu ( sim, um urubu) e do piquete da greve no IA. Celo me liga e diz que Cássio e Ângela, queridíssimos, estavam no Desencontro ( ops), Encontro de História da Arte, com Helena e André ( as pessoas boas se multiplicando, com a graça de Deus). Helena vestida de vermelho querendo ver tia Paula.
Deitei e rezei. Levantei e fui me arrumar. Um desastre fashion ( como diz Jujuba, estou fashion- fashion os olhos), troco e troco de roupa e nada fica bom. Troquei de roupa n vezes. Meus casacos uma mixaria, os pulôveres desbeiçados e a gordurinha da panda, uma derrota. Mas a derrota maior veio depois: eu consegui perder as chaves de casa e do carro DENTRO de casa. Sim, meus caros: eu tirei o chaveiro da porta, e enfiei no bolso de um dos casacos, que foi rejeitado e jogado no armário. Derrota máxima da esquadra canarinha. Duas horas, e eu baixei a casa, e nada da chave. Chorei desesperada.
Cheguei atrasada, Helena não estava mais lá ( e pra minha derrota me contaram que minha amiguinha subiu no carro reclamando da tia panda). Chorei, chorei. Fui pro Celo. Ligo no Eduardo e ele me dá as piores notícias possíveis do Piratininga, que nunca é lá essas coisas, mas agora superou. Fui nas meninas, o point casa amarela, e chorei, chorei. Natalinha como sempre aponta a questão, e Jujuba contribui para o debate acertadamente. Panda no divã, vai ser a nova moda do momento. Não posso querer correr a maratona com as duas pernas quebradas.
Mas hoje eu estou mais calma. Sabe, gente, eu tenho alguns problemas emocionais sérios, como todo mundo, questões mal resolvidas, e algo muito dolorido, quebrado, no fundo de mim. Mas hoje fazia um céu azul tão aveludado, e fui almoçar a comidinha da minha mãe ( carne moída, arroz integral, feijão, farinha por cima, brócolis e cenoura... e doce de mamão-verde de sobremesa, tudo feito por ela), e voltei e o velho mestre Johann Sebastian, sua mente devota e radiosa, seu amor à vida e sua alegria, sua delicadeza e engenho, me trazem até vocês. Sei que é pecado misturar Bach e doce de mamão verde, céu azul e tristeza, trauma e felicidade. Hoje farei morangos com creme no jantar.

Wednesday, May 23, 2007

Begin the Beguine

E hoje eu lembrei da noite no Green Mill, em Chicago. O bar da amante do Al Capone.


As luzes vermelhas no moquifo sem restauração. E no fundo, espremida num espaço mínimo, uma big band endemoniada. E velhinhos contemporâneos do Capone rodopiando no salão, enquanto eu fiquei na mesa, tomando uma Guiness e morrendo de vontade de dançar.
E um velhinho daqueles bem velhinhos tirou uma senhorinha pra dançar. O swing rolando e o velhinho pra lá e pra cá, no ritmo, sem perder nenhum movimento nem momento daquela transa toda. E eu ali olhando, lembrando dos velhinhos que ensinavam a gente a dançar forró na Cooperativa, os senhores alagoanos simpaticíssimos que não deixavam a gente parada, que tinham pegada e olho certo no lance.
O velhinho fez uma coisa inacreditável, um carinho lindíssimo nas costas dela, uma delicadeza de gesto, e eu pensei que os homens são admiráveis, quando tratam bem uma mulher. E dá-lhe Porter, e tudo isso pra dizer que hoje pensei que existem coisas muito, muito, muito, muito boas na vida.

Ágora

E hoje é a paralisação estadual das universidades paulistas.

Acompanhei a situação meio de longe. Sim, o atual governador é uma figura autoritária e quer derrubar o modelo de universidade pública paulista. É necessário o posicionamento, a luta, a oposição, e sim, momentos de paralisação e greve.

Mas o debate anda concentrado nisso e ponto. Vi os emails de colegas da pós-graduação do IFCH, e um colega insiste no fato de que a greve é legítima. Sim, é legítima e não funciona, podem me dizer, você é uma burguesa alienada e idiota. Mas não funciona mais. A festa libertária dos anos 60 e 70 já acabou. É necessário reinventar as formas de fazer política.
Seria uma, ao invés de fechar a biblioteca, abri-la 24 horas. Pegar um ônibus, encher de gente da cidade, quem quisesse, e fazer aulas pro público, explicando o que se faz na universidade, de forma aberta, original, colorida. É necessário ler, estudar, conversar. Maquiavel, Hobbes, Marx, Gramsci, Hannah Arendt, Camões, sem preconceito, sem barreiras. Grupos de estudo, muitos grupos de estudo. Revidar na argumentação, piquete na frente do Palácio dos Bandeirantes, pressão na Assembléia Legislativa. Mas eu acho muita coisa esquisita. Sou uma burguesa alienada.

Monday, May 21, 2007

Um cafuné na cabeça, malandro, eu quero até de macaco

Tô sonada aqui, no CPD do IEL, e daqui a pouco saio.

Chega ao fim o Sentinela, do Milton. E lá no fim tem essa canção, com voz da Leila Diniz. E me veio à consciência sobre o que eu queria escrever, hoje.


Fiquei sabendo que uma figura que simpatizo demais está meio doente, no sábado. Achei triste. Porque tem pessoas que me deixam sem chão, porque tem pessoas que me são muito queridas, e ponto. É uma coisa sem lógica, eu simpatizo com alguém, eu me simpatizo. Se a pessoa tem um olhar, um jeito de franzir o nariz. Tem pessoas que são uma delícia, né? Gente que eu gostaria de chegar e dizer, você pra mim é um bolo de fubá! Com café preto bem forte! Você pra mim é um biscoito de polvilho bem torradinho! Chegar na pessoa e dizer na lata, meu filho ( minha filha), eu tenho vontade de você, como tenho vontade de chupar manga na beira de um rio! Na verdade, isso pode ser uma plataforma política. Chegue em quem você simpatiza e diga, você pra mim é isso. Leila Diniz diria.

Prioridades

Hoje acordamos cedo e viemos pra Unicamp. Os meninos, pro Encontro, e eu pra tese. Chegando lá, na correria, as meninas da História da Arte me pedem uma ajuda, pra coordenação das mesas.
Não costumo falar não, tento sempre arrumar um jeito de ajudar, mas dessa vez, não deu. Eu larguei o espanhol definitivamente, não fui fazer a prova nem nada, porque essa semana eu tenho duas prioridades. Uma nem precisa dizer que é a tese. Hoje, aqui no IEL, ouvindo o Sentinela, do Milton, pego no breu e termino a arrumação da bibliografia, passando pra reconstrução do segundo capítulo. São seis capítulos, com quatro itens cada. Dois capítulos ainda estão no chão, e os outros já estariam, vamos dizer, na fase do acabamento.
A outra prioridade é meu tratamento dentário no CECOM. Preciso arrumar meu dente quebrado. Sei que é esdrúxulo botar tratamento de dente na frente de Encontro da disciplina, mas é que realmente é uma emergência. Sei que é de um prosaico atroz priorizar tratamento de dente, faxina, cozinhar, coisas que permeiam o blog aqui, mas fazer o quê?
Queria fazer mais. Hoje fui atrás do povo na BC ( o Encontro tá rolando lá) e passei pela livraria. Tanto tempo não ia numa livraria. Vários lançamentos me chamam a atenção, estou bem desatualizada em tudo. Pego um livro por acaso, um livro de historiador, e sinto que minha tese é muito, muito ruim, perto do trabalho do cara. Ingênua, ruim, não vai interessar a ninguém; por um instante penso em mudar tudo, em fazer tudo do zero, diferente.
Depois, me chama a atenção uma biografia do Leminski. No meu primeiro ano de Unicamp, comprei o La vie en close, uma coletânea póstuma linda, linda, da Brasiliense, com capa amarelo-ovo, na banquinha de livros do IEL. A cantina do IEL era onde hoje está o Centro de Afasia: era uma delícia esperar a carona da minha mãe ali, lendo Leminski. Talvez foi o cara que mais me fez a cabeça, em poesia; leio na biografia a luta dele contra o alcoolismo, a morte por cirrose, o destrambelhamento e a largueza de alma. E fiquei pensando, ler Leminski era uma prioridade máxima pra mim, do meu primeiro ano lembro mais do Leminski do que as coisas que eu lia pro curso de Sociais. Na época, eu queria fazer mais, tinha uma sede de viver maior que as pernas; na manhã de hoje isso me incomodou, eu que havia guardado vontades e desejos no fundo das gavetas, na faxina do sábado.

Sunday, May 20, 2007

Tese, Encontro de História da Arte... e faxina

Os últimos dias foram engraçadíssimos.

Na quinta-feira eu mostrei a fuça do Dante pro Sterzi, o cara que mais entende de Dante na terra brasilis, e ele rolou de rir. Na sexta-feira, falei de Leonardo da Vinci pro primeiro ano das Plásticas. Falei pros meninos que sempre se diz, Leonardo gênio do Renascimento. Pois então, gênio é um conceito do século XVIII alemão e Renascimento pressupõe o estudo dos autores e da arte antiga ( Leonardo não cita nenhum autor antigo nos seus escritos e rejeita terminantemente a escultura).
Fui no supermercado sexta-feira à noite. Estava pensando na fragilidade da vida e na perda da inocência, e o que me salvou dessas reflexões doídas foi ficar na frente da TV de plasma, com o carrinho, vendo um clipe do U2 ( os velhos irlandeses... como se eu estivesse reencontrando parentes). No sábado, acordo com a vozinha da Natália, num orelhão. As meninas foram operar o Alfredo Volpi, o gatinho bola-de-neve que adotaram, numa clínica aqui perto. Um monte de gatinhos esperando adoção ( a crueldade das pessoas com os bichinhos é impressionante). Quase trouxe um pra casa, um simpático, todo branco com o rabo preto ( que eu chamaria de Adoniran, seguindo o esquema paulistano-tosco-artista-esse sim gênio). As meninas vieram, veio Ema, e no meio liga dona Meire, minha genitora, chorando desesperada porque ia no abrigo escolher o meu novo irmão.
Depois, encarei uma das piores faxinas que o apartamento 53 deste edifício já conheceu. Nove da noite e eu em pleno lerê lerê, esfregando azulejos e dando um Chuck Norris na cozinha. Acordo hoje, com dor no ciático e na lombar, detonada, termino de arrumar a toca, vou pra Barão comer o risoto de rúcula e tomate seco da dona Ana Maria. Deito, um pouco, e chegou Juam, de Mariana, pro Desencontro (ops!) de História da Arte, que acontece, apesar da greve, essa semana no IFCH. Chá, depois pizza e vinho, e aqui vão dois links.
Primeiro pro blog do Juam, http://descontinuados.blogspot.com/, bonito e sensível, como ele, que orgulhosamente apresento como meu primeiro orientando ( por vontade própria dele, olha que fenômeno). Depois pro Encontro, http://maccouto.sites.uol.com.br/. O Encontro é anual, não foi desmarcado por conta da greve no IFCH porque é nacional e gente do país inteiro aparece. Eu quero postar sobre a situação política atual, da universidade pública paulista, mas agora essa dor no ciático tá me matando. Ou seja, vita brevis, meus caros, vita brevis.

Thursday, May 17, 2007

Onde o sonho mora

E a semana passou rápido, tese, tese, passou rápido, encontramos o Leo hoje na cantina do IEL e eu me espantei por já ser quinta-feira.

Cheguei em casa, tocou o telefone. Era minha mãe. Eu havia combinado de almoçar com ela, essa semana, mas tudo passou rápido. E ela, eu queria te ver pra te contar uma coisa.

Desde que eu sou muito pequena, ouvia minha mãe contar de um desejo forte, imenso, de adotar uma criança. Ela dizia que queria um menininho, pra completar o casal que quis ter e teve. Bom, os anos se passaram, tantas coisas aconteceram na nossa família, coisas lindas e coisas muito tristes, como em toda a família. E esse desejo da minha mãe continuava, de vez em quando ela falava disso, para ataques de ciúme do Celo, meu irmão.
No Natal passado, ela montou uma árvore de dois metros, cheia de enfeites da Kopenhagen, e de novo, pro desespero do meu irmão, falou do baby que queria trazer pra casa. Pois bem. Minha mãe achou um abrigo, com seis crianças, à espera de adoção. Essas crianças estão lá, esperando. E minha mãe está esperando em casa. Não consegue dormir direito, não sabe o que pensar, só pensa nas seis vidinhas lá, longe, num abrigo, sem família, esperando uma mãe. E quem sabe uma irmã de trinta anos, panda-comentadora de Dante.
Eu falei pra minha mãe, hoje, vai lá, mãe. Quem sabe, lá nessa cidadezinha do sul do estado, uma estrelinha espera o lar, o nosso lar.

Iuste et rationabilites optat autor...

Tese. Hoje mais uma vez, enfrento a falação dos nobres colegas da graduação do IEL, na sala de micros, e de Leonardo passo a outro personagem.


Eu procurei a origem da iconografia do poeta Virgílio, utilizada por Botticelli nos seus desenhos para a Comédia, feitos entre 1480 e 1490. Pois bem, rodei manuscritos ilustrados, capitéis de igrejas, outras obras, moedas, e os fantásticos cassoni, os lindos baús decorados com pinturas e marchetarias, que faziam parte do dote das noivas italianas. Cada cassone vinha com uma história da Antigüidade, ou figuras alegóricas.
Bom, o tio barrilzinho imaginou o autor da Eneida como um senhor de barbas longas, manto bizantino, e chapeuzinho exótico, ou seja, tudo o mais distante possível da retratística romana ( não sobraram retratos identificados de Virgílio da Antigüidade, mas o homem que pintou o Nascimento da Vênus tinha no jardim dos Medici muitos bustos de imperadores e podia imaginar Virgílio de outro jeito). A história disso tudo é longa, mas o fato é que no primeiro manuscrito ilustrado da Comédia, datado de 1327, Virgílio está com as mesmas roupinhas.
Esse manuscrito, que hoje pertence ao Museé Condé, em Chantilly, contém o Comento a Comedia, escrito pelo senhor de hoje, o frade carmelita Guido da Pisa, um dos primeiros estudiosos da obra de Dante ( Dante morreu em 1321, no exílio, e seu primeiro comentador foi seu filho mais novo, Jacopo). Guido da Pisa, ao que tudo indica, teve uma iniciativa editorial inédita, o da reprodução, comentário e ilustração, por meio de lindas aquarelas, do poema de Dante. E era pisano. É bonitinho procurar o nome de Guido nas enciclopédias e obras de referência sobre Dante: os autores informam com severidade "ser um personagem de difícil identificação, porque havia muitos Guidos em Pisa"...
Minha hipótese é que Botticelli leu partes do comentário de Guido da Pisa, e viu com certeza as ilustrações do Manuscrito de Chantilly, e isso o fez se opor à interpretação que Christoforo Landino, reitor da Universidade de Florença, deu à Comédia, em 1481. Legal, né? Mas o fato é que Guido da Pisa amava, e muito, Dante. E isso é incrível, porque Dante, no Canto XXXIII do Inferno, solta uma invectiva terrível contra a cidade da torre torta, por conta do nefando caso do conde Ugolino della Gherardesca, encerrado com os filhos na torre, e condenado ao canibalismo ( o caso é escabroso mesmo).
A torre da fome, como é conhecida, era nada mais nada menos que o meu lar em Pisa, porque é a torre da Biblioteca da Scuola Normale Superiore, lugar freqüentado com freqüência, rs, vamos dizer assim, pela panda-comentadora mirim de Dante. Guido da Pisa não só concorda e desce mais a lenha ainda na pátria, num exercício alto de dignidade intelectual, raro hoje em dia e em todos os tempos.
Aliás, falando nisso, os desocupados de Bologna pegaram o retrato do tiozão feito pelo tiozinho barrilzinho, e o crânio do cara, nas medidas tiradas quando da abertura da cripta em Ravenna, em 1920. E taí a cara do cidadão: http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/1630_dante/page5.shtml

Vivi e a torneira

Nesses anos que perambulei pelo IA, o glorioso (???) Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas, aconteceu uma coisa muito incrível.

Eu, nos meus anos de graduação, gostava muito de alguns professores. Gostava mesmo, admirava, mas tudo de longe. Sempre fui muito tímida, e nunca gostei de puxa-saquismo, então fiquei mais amiga dos meus mestres na pós-graduação.
Pois então, eu achava que uma distância intransponível existia entre professores e alunos. E na hora que virei professora, que por acaso foi no IA, conheci algumas turmas de pequenos pandas-pintores, desenhistas, cartunistas, louquinhos em geral. E alguns desses pequenos pandas se tornaram amigos no orkut, no msn, na vida.
A Vivi foi um desses casos ( Mário, Filipe, Júlia, Natália...). Ela era quietinha, quando assistia o famoso Paula e Paulo Talk Show ( a aula pro primeiro ano que, fenômeno, dou junto com o Paulo). E ela entrou no meu orkut. E depois no msn. E ontem eu conheci a toca da pequena panda-artista-leitora-companheira de msn.
Pra começar, eu me atrasei uma hora, porque fiquei perdida em meio a emails, telefonemas, tese. Liguei e me desculpei, e ela rindo. Saí de casa correndo e parei no McDonald´s na Norte-Sul( panda momento trash! Que vergonha!), e cadê a carteira? Volto pra casa. Ligo de novo, e explico, flor, são três da tarde e eu não almocei ( pois é, pois é) e esqueci a carteira ( ai!) e vou chegar atrasada. E ela rindo.
Bom, cheguei na casa da Vi, numa rua com um nome lindo, de artista muito famoso, na frente do mardito bufê que ela trampou. E a Meg, linda, fofa, esperta, vem me ver. Bom, foi maravilhoso, teve São José, teve fofoca, papo cabeça, a gente conversou horrores, agora ao vivo, e eu zureta. E a Vi tinha feito um lindo bolo de fubá pra mim, e eu emocionada e zureta peço um café. Vamos pra casa da mãe dela, na frente, e ela me abre a torneira errada.
Gente, a Vi quase causa o segundo dilúvio universal! A torneira não fechava, não fechava, a mãe dela ainda dodói, super fofa, de rosa e fita no cabelo, tenta estancar a cachoeira que cai sem parar, a torneira era dessas que vem direto da caixa. E eu do lado, na minha mais completa inutilidade pra coisas domésticas ( torneira? dã?) e a Vi chama o véio dono do bufê, que pra nossa vergonha arruma o trem em cinco segundos ( ai! homens, bah!). Ou seja. E o bolo de fubá tava excelente, o café também, e quase que eu fiquei pra janta! Olha só que horror! E não precisa dizer, Vi, te adoro muito!!!!!

Wednesday, May 16, 2007

Expressas do Neguinho do Pastoreio

Neguinho do Pastoreio é meu mp3 player, que trouxe das margens do Michigan. Ele é um personagem muito importante no meu dia-a-dia. Há dois anos, me acompanha pacientemente, o que já lhe rendeu alguns arranhões, vários tombos e mergulhos no tanque, saindo ileso de tais aventuras. Algumas reflexões, de momento, suscitadas por Neguinho:
1)Hoje, estendendo a roupa no varal, toca "I Don't feel like dancing", do Scissors Sisters. E lembrei que vi o Duomo de Florença ouvindo essa música. Frio, vitrines elegantes, saudades, asma, e "Cities come and cities go just like the old empires/ When all you do is change your clothes and call that versatile/ You got so many colours make a blind man so confused./Then why can’t I keep up when you’re the only thing I lose?". Fiquei envergonhada de ouvir música pop no momento que entrava em Florença, mas não.
2)Oitentismo, "Eva", Rádio Táxi, me faz rir sem parar durante horas. O cara tem um sotaque ordináaaario da Mooca: só sobrou ele e a nega dele, numa astronave. Primeira coisa que o parmeirense vê destruída: a cidade do Rio de Janeiro. O mundo acabou na Radial Leste. Eu, do velho Cambuci, porta da nobre Zona, dou risadas dias do fato do cara da úllllllltima astronaveeee falar que nem o pasteleiro da minha infância.
3)Sento pra escrever, "Joe le Taxi", Vanessa Paradis. Outro dia, pensando no ofício do tradutor, pensei, "Joe le Taxi" vira "Vou de Táxi", e tive um ataque de riso de três dias. Tradução é isso aí, o resto é conversa!

Sobre a cara de louca

O post abaixo suscitou comentários. Resolvi aprofundar o assunto.

Gostaria de me fazer entender, melhor, pela notável platéia. Seguinte: eu escrevi uma monografia, duas dissertações de mestrado, alguns artigos, trabalhos de final de curso, e agora, segundo palavras do prof. José Arthur Gianotti, ex-chefe meu e do Celso, escrevo o último trabalho escolar da minha vida, uma tese de doutorado. Em todos esses momentos, sempre me senti privilegiada por poder estudar e escrever, em meio à aulas, serviços gerais ( livraria, faxinas), e à vida, enfim. Aliás, sei que os meus temas são duzentas milhões de vezes mais fascinantes do que eu e do que eu possa vir a escrever. Me sinto feliz de poder ficar em casa e escrever, porque na maior parte dos dias preciso sair e ganhar meu pão, meu leite e meu arroz com feijão.
Agora, tem momentos que a gente se sente meio Atlas, com o peso de um mundo nas costas. Eu me olho no espelho e vejo a cara de maluca... eu deixo de tomar água, crise renal. Deixo de me agasalhar, bronquite e sinusite na Toscana; escovo os dentes pensando no Gerião e nos monstros na Antigüidade, perco metade de um dente de cárie fulminante, e la nave va. Ferrei algumas relações amorosas e de amizade por conta de textos pra escrever, sério mesmo. Eu tava escrevendo, ficava maluca, e saía correndo atrás do cara que estava a fim, até o cara cansar da minha fuça e me mandar pro quinto círculo do reino de Lúcifer. Eu amo o que faço, amo muito tudo isso, demais, e por isso mesmo fico possuída por um daimon. Mas não quero ferrar nada dessa vez, porque a tese já me rendeu um acidente de carro, um câncer no estágio inicial, uns dois ou três amores postos pra escanteio, a paciência da minha santa mãe e a de vocês. Fecha parênteses.

Tuesday, May 15, 2007

Balada do Louco

E hoje, tese o dia inteiro. Sozinha em casa, acordo tarde, 11 hs. Resolvo tomar banho e por uma roupa ( pulôver furado e calça rasgada). Começo na tese. A minha bibliografia, sério gente, tem 30 páginas e estava toda revirada. Tô quase no final do trabalho hercúleo de separar temas, autores, citações. Eu não consigo escrever sem antes terminar a bibliografia, sei que é uma coisa esquisita, mas é como se eu tivesse com a casa desarrumada.

Vou almoçar. Como dois pasteizinhos de queijo, cenoura e brócolis. Volto pra casa, sem antes deixar um recado non sense na secretária de um amigo. A sorte é que o Eduardo se doutorou em Dante, 600 páginas. Ontem eu vi um colega parado no carro, com cara de psicopata, na ladeira do IFCH. Adivinhem que fase do doutorado o cidadão se encontra.
Continuo empacada. Vou deitar um pouco, a dor no ciático tá foda. E me olhei no espelho várias vezes no dia, e sim, eu estou com cara de psicopata, maluca, doida, lelé da cuca, zarolha, só falta a luva cirúrgica na cabeça e ficar em cima de um muro ( lembrem desse doidinho que o Renato Aragão às vezes encarnava?). Reviro textos e livros. Um tijolão trazido de Pisa não havia sido incluído. Cadê a data da edição dos textos de Americo Vespuccio? Mas onde enfiei o CD com o Comentário ao Dante do Cristoforo Landino? E a frase do Leonardo, cadê?
Converso com as pessoas e me sinto inadequada, feia, burra, chata, ninguém me ama, ninguém me quer. E ainda preciso escrever 150 páginas, começar um tratamento de canal, consertar outro dente quebrado, e fazer traduções do nobre idioma de Dante pra sobreviver. Dizem que sou louco, por eu ser assim. Mais louco é quem me diz?

Monday, May 14, 2007

La luna, densa e grave, densa e grave, come sta, la luna?

Retomo a tese. De manhã, depois de uma noite sofrida ( febre, angústia, pensamentos apocalípticos, besteiras, arrependimentos e lembranças terríveis), pego os dois volumes dos escritos de messer Leonardo.
Tento me concentrar no meio da barulheira do cpd do IEL, com alunas da graduação falando sem parar, ouvindo Bob Dylan, Jokerman. O velho curinga do Renascimento me salva. Passo os olhos nas páginas dos Scritti Letterari, e lá está a seguinte história, que traduzo do toscano do mestre pra vocês:
" No dia 6 de junho de 1505, uma sexta-feira, no estalar das treze horas, comecei a colorir no Palazzo. No exato momento em que pousava o meu pincel o tempo mudou, e os homens ao redor se indagavam do porquê. O desenho se rasgou, o vaso de água que eu havia comigo se rompeu. E lá fora, o tempo escureceu, e choveu muitíssimo até a noite, e durante todo o dia esteve escuro como noite".
Bom, Leonardo foi pintar um afresco, sobre uma batalha vencida pelos florentinos, numa das paredes do Palazzo Vecchio, em Florença. Para se fazer um afresco, passa-se uma demão de gesso na parede, e com o reboco ainda úmido, decalca-se o desenho, feito no tamanho final num papel bem fino. Colore-se rápido, e pra mudar, se algo dá errado, é necessário raspar tudo. Segundo um comentador aqui da minha edição ( é a do IEL, Leonardo da Vinci, Scritti Letterari, Milano: Rizzoli, pg.155) Leonardo parece corresponder o temporal e a destruição do desenho ao triste fim do afresco ( inacabado, muitos anos depois seria destruído por Giorgio Vasari, o biógrafo dos artistas renascentistas, discípulo de Michelângelo e homem forte da corte dos Medici, responsável pela remodelação arquitetônica de Florença).
Nessa segunda-feira triste, pra mim isso foi um bálsamo. Tem época que é difícil, mesmo quando se é Leonardo da Vinci. Imagina então para pequenas pandas pós-modernas, estudiosas do messer! E o versinho do título é dele, ovviamente.

Saturday, May 12, 2007

Cosmos

E no sábado de manhã, passava Cosmos.

Eu me lembro dos meus sábados de manhã, quando, ao invés do Globinho, e depois do Balão Mágico, entrava o Carl Sagan explicando quasares, buracos negros, missões para Júpiter, o solo de Marte e citando os homens da biblioteca de Alexandria. Nem precisa dizer que Cosmos era o meu programa favorito, junto com o Lanterna Mágica ( gente, quem lembra?), um programa de animação que passava na TV Cultura, domingo à noite, desenhos poloneses, tchecos, russos, japoneses, uma maravilha pros olhos e pro coração.


Quando entrei na universidade, anos depois, peguei o livro na Biblioteca Central e devorei. Alguns outros anos, trabalhando na livraria do IFCH, trouxe pra casa o livro da série, e aí descobri que o esforço de divulgação científica do Sagan ( que pode ser discutido, e muito) baseava-se no extremo ceticismo dele, e que só o conhecimento das descobertas das pesquisas poderia alertar as pessoas sobre crenças errôneas. Dessa postura iluminista, racionalista, surgiu a série que eu assistia nos meus sábados no Cambuci, esperando o arroz com ervilha e presunto da dona Meire ou o almoço com seu Pedrão no Espetão, na Frei Caneca.
A trilha sonora da série foi composta pelo Vangelis, e um ex-namorado meu tinha o vinil, bacanérrimo. Essa semana o Celo conseguiu baixar as músicas, e eu pus aí embaixo a mais famosa delas, a Alpha. De tanto ver Cosmos, eu fiquei com um amor irrestrito por temas de Astronomia.

http://www.4shared.com/file/15796100/fbd4ca6e/02Alpha.html

Time goes by, so slowly, and time can do so much

Essa semana foi marcada por retomada da tese, encontros rápidos, desencontros, aborrecimentos imensos, alegrias definitivas e uma crise renal. Depois de litros de água, sopa de legumes, me reestabeleci e dei aula e tudo. Essa semana revi amigos, eu andava isolada, em casa, e foi muito bom retomar conversas e afetos. Ninguém faz nada sozinho.
Vi tanta gente querida... e ontem foi legal, eu e Celo jantando no Dom Pedro, chega Dani Mônica, diretamente de Maceió. A gente teve uma conversa tão legal no Giovanetti... na terça, foi lançamento do livro da Verônica, vi/revi gente querida também. Foi engraçado esse dia.
Eu fui na Jô, cabelereira e amiga, e fiz escova e unhas de vermelho. Tinha passado na Renner e com ajuda de Pati Beijo escolhido um vestido estampadão. Bom, rumei pra rodoviária e estou na fila da passagem quando chega uma nega e fura a fila. Eu falo, minha senhora, tem fila. A menina que tava na minha frente se desloca pra ir num outro caixa. E ela, ah, mas ela tá furando fila. E eu, não, ela estava aí. Chega outra moçoila e... fura a fila! A cidadã atrás de mim grita, ah, mas então não tem fila! Cara, eu fiz uma coisa muito grossa. Eu entrei na frente da segunda nega, e falei pro cara, não é possível isso. E as duas do meu lado me olhando espantadas. Olha, furar fila pra mim é uma coisa inadmissível. Não respeitar gestantes, idosos, deficientes e adjacentes, também. Sou chata mesmo, fazer o quê?
Retomei a tese. Comecei pela bibliografia. Tava uma zona. Eu fiz uma bibliografia temática e não coloquei tudo nos devidos lugares, daí vocês imaginam a confusão. Separei uns trechos do Leonardo, pro penúltimo capítulo, mas a tese continua a rodovia Rio-Bahia: cheia de buraco.
Passei super mal de quinta pra sexta, o meu rim resolveu se revoltar com a fase camelo que a panda tava passando, por puro stress, distração e tosquice. Cara, é preciso tomar água. Paguei quatro multas de trânsito, da semana que o Celo tava no hospital. Mas sabe o que é mais engraçado? No meio disso tudo, como sempre, estou muito feliz, pensando coisas boas, e credito isso a um processo de amadurecimento ( enfim, né), em que esse espaço e a leitura de vocês foi imprenscindível. Time goes by, so slowly, and time can do so much.

Monday, May 07, 2007

One of those forms

Acordei hoje com uma vontade intensa, inexplicável, inadiável: traduzir Lord Byron.

Não, gente, não é piada. Eu acordei, tomei um longo banho, e me preparei pra mais um dia na Unicamp: aula de espanhol, café com amigos, almoço com Celo. E fui tomar English Breakfast Tea, Ahmad, com pão de linhaça e mussarela. No meio do chá, pensei, que formidável seria traduzir Byron. Mas como seria bom traduzir Byron.
Na adolescência, amava as aulas de Literatura e as apostilas com os poetas. Ia na biblioteca do colégio e fuçava tudo, aos quatorze anos danei de ler Camilo Castelo Branco, sem entender nada obviamente. E os românticos todos, Noite na Taverna. Quando estive em Roma pela primeira vez, vi a herma do Lord na Villa Borghese, e chorei ao ler um trechinho do Childe Harold. Botei a aula de espanhol pra escanteio ( com essa falta, já reprovei esse semestre), vim pra biblioteca do IEL e estou na companhia de George Gordon Byron. Vai entender!
"Uma dessa formas que nos arrebatam, quando
somos jovens, e fixam nossos olhos em todas as faces;
E, ai!- a doçura dos tempos vemos
Num brilho momentâneo, a graça suave,
A juventude, o despertar, a beleza que concordam
em muitos dos seres sem nome que desenhamos
Cujos rumos e casas não conhecemos, e não devemos conhecer,
Como a última das Plêiades que não podemos ver."

Sunday, May 06, 2007

Campeonato paulista

Do início do ano pra cá, todo domingo era o campeonato paulista. Eu assisti jogo no Tilli Center ( São Paulo x Corínthians) do lado de um corintiano que apoiou um carrinho horrível ( detalhe, eu sou são paulina), assisti no Luís ( Noroeste de Bauru contra Santos, em Bauru, inesquecível, dentre outros), e hoje a final passei ao lado de Jujubetes na Yellow House. Eu sempre sapeava, mas esse ano eu acompanhei o Paulistão de perto.
Vi a ascensão e queda do meu time, neguinho indo pra segunda divisão e o Parmeira do Luís levar na cabeça rodada após rodada. Vi os times do interior invadirem o espaço das velhas potências, e meus domingos campineiros vazios ( sim, porque eu moro entre a Macaca e o Bugre, e os dois não deram sinal de vida, pra variar) ganharam emoção por conta dos comentários do Casagrande.
Hoje foi incrível, o poder do pé frio da Júlia. A Jujuba me resolve torcer pro São Caetano, que tinha o campeonato no bolso. Deu Santos. Wanderley Luxemburgo comandou o time da Vila Belmiro com bastante garra, mas o jogo tava confuso pra burro, muita violência. Bom, enquanto isso era a final dos outros estaduais, e passa trechos de Botafogo e Flamengo, Maracanã lotado, e flamenguistas na casa do lado. Júlia resolve torcer pro Botafogo (???). Nunca vi mulher mais pé frio na vida, os caras perdem nos pênaltis porque o goleiro rubro-negro pega duas.
E agora rumo ao Brasileirão. Preciso achar uma tabelinha, e assistirei o Brasileirão. E tenho dito.

Metalinguagem

Fase de posts imensos, desculpem vocês. A matéria da vida anda densa pra mim.

Saturday, May 05, 2007

Na verdade, nada esconde essa minha timidez

Como naquela música do Biquini Cavadão ( meu Deus, que nome horrível pra uma banda!), tudo esqueço e não tenho vez.
Tem muita gente que me conhece e pensa que sou muito extrovertida, porque cumprimento as pessoas, converso, puxo papo e dou atenção. Talvez isso se deva ao fato de eu achar que as pessoas precisam se importar umas com as outras, e que se eu estou todo dia num ambiente, eu preciso ser gentil com os que me rodeiam, e que não custa nada a gente ser generoso. Às vezes, quando eu tô muito estressada, como todos, eu não dou conta de tudo, mas mais ou menos é isso aí que me norteia.
O fato é que essa obrigação da cortesia, da gentileza, disfarçou por muitos anos o mal da pequena panda, de ser muito tímida. Eu acreditava que não era tímida não, e ignorava os períodos de mudez, as bochechas vermelhas e a absoluta incapacidade de lidar com coisas banais, como atender o telefone, conversar sobre o meu trabalho com professores e colegas, seminários, aulas. Dou aula sem olhar muito pros alunos, porque se eu olho, babou. Não sei se é a miopia muito alta ( dez graus em cada olho), ou se é a dislexia ( eu troco letra, número, palavras, frases inteiras), se é uma visão de si mesma negativa ( eu me acho muito chata, meio boba e sem graça), eu sei que a timidez é um martírio. Eu me apóio nos meus amigos, sempre me apóio: meu, vê se o que eu tô falando é muito ridículo, se eu vou dar bola fora, etc e etc.
Se eu vou escrever um email pra alguém, funciona assim. Eu penso horas, dias. Às vezes esqueço de responder porque fiquei pensando. Toda vez que toca o telefone, sério gente, toda vez eu tenho que respirar fundo e tomar coragem pra atender. Não é falta de educação não. Na verdade, nada esconde essa minha timidez.

Tuesday, May 01, 2007

Aula de jazz

Olha, hoje conversando com Lan no msn, desencavei do fundo do baú da memória outra relíquia oitentista: a aula de jazz!
Funcionou assim. Minha mãe começou a freqüentar uma academia de ginástica, motivada talvez por Olívia Newton-John ou Rita Lee. A tal academia era uma sobreloja num sobrado bege, numa esquina da Lins de Vasconcelos, em pleno coração do Cambuci. E ela resolveu me levar pra fazer as tais aulas de jazz.
Eu ganhei uns collants de helanca coloridos ( lembro de um azul bebê, outro vermelho pomba-gira, um preto urubu e outro branco nuvem), meias-calças, sapatilhas ( compradas numa loja de fábrica, enorme, no Ipiranga) e as famigeradas faixas de pôr na testa, de toalha, e polainas de lã colorida ( lembro de uma branca, que tinha um arco-íris). A professora trazia umas fitas com o que tocava no rádio, e eu lembro da trilha do Footloose e Flashdance. Eram umas coreografias, mas na maior parte do tempo era uma folia: a gente fazia o que bem entendia, e pasmem vocês, eu era uma das mais empolgadas.
A pequena panda dançava que nem uma possuída, esperando talvez um dia ser dançarina na Broadway ou pelo menos aprender o troço direito. Eu adorava, amava, idolatrava, dançar. Mas era engraçado, eu não queria fazer ballet clássico: olhava as meninas de rosa, redinha no cabelo e sapatilha dura de cetim e ponta de gesso, e não sentia nenhuma vontade daquilo. O meu negócio era o pop, o rock, a discoteca, o pega pra capar mesmo.
Comecei a dançar em todos os lugares, com meu relógio de pulso Champion, que trocava as pulseiras, e minha calça de moletom e tênis Bubble Gummers. Ligava o Gradiente prateado do seu Pedrão e lascava todos os sucessos da parada da Jovem Pan. Minha tia deu pra gente o disco dos Menudos, e daí vocês podem imaginar o que se tornou a vida da minha mãe, ouvindo sem parar "Não se reprima", e ver minhas coreografias, que sempre acabavam numa hecatombe no sofá.
Já em Jundiaí, fui matriculada numa aula de sapateado, que uma mocinha muito linda, Cíntia, ministrava no salão de festas do prédio. Lembro de alguns passos, os básicos, até hoje. Ganhei meu par de sapatos e mais collants, faixas, meias. Minha mãe, antes de cada aula, passava gel New Wave no meu cabelo, e lá eu ia, pra lascar o piso de ardósia do salão ( claro que o povo do prédio reclamou do estrago e do barulho infernal). Lembro de uma coreografia gracinha, com "História de Uma Gata", dos Saltimbancos.
Quando da apresentação de final de ano, recebi dos meus pais a notícia que não iria mais às aulas de sapateado, por questões óbvias: o orçamento tava apertado. Não participei dos ensaios direito: tomava meu lugar entre as gatinhas sem nenhum entusiasmo, sabendo que não participaria da festa nem de nada. Quando a professora veio fazer a lista para as fantasias, sofrendo muito, avisei que meu nome não estaria na lista. Ela insistiu, e algumas coleguinhas riram do meu embaraço.
Nunca mais tive aulas de dança. Mas não desisti: dançava na sala mesmo, arredava as cadeiras e lá ia o Gradiente a todo o volume. Minha mãe começou a proibir, meu pai e irmão a tirar sarro. Mas a pequena panda é brasileira, e não desistia nunca: depois que ganhei um micro-system, no meu quarto eu dançava a toda.
A história tem um final feliz. Eu fui num verão pra uma das pousadas da CESP. Eram umas mini-cidades, construídas quando da implantação das grandes usinas hidrelétricas do nosso estado, que depois se tornaram centros de lazer para os funcionários das três empresas ( CESP, Eletropaulo e CPFL). Sempre haviam monitores, que organizavam gincanas, brincadeiras, era uma verdadeira delícia. E tinham as bicicletas, as piscinas, o rio, e a gente comprava coisas com bolinhas de plástico, cada cor um valor.
Na pousada de Ibitinga, naquele verão, um monte de coisas aconteceram. Eu tinha dez anos. Pra começar, a gincana foi animadíssima, até os adultos participaram. Lembro que uma das provas era trazer uma peruca, e minha mãe montou uma na minha cabeça com flores e folhas. E sempre tinham bailinhos, numa mini-discoteca, à noite. O lugar estava cheio de crianças, rapazes e moças. Logo conheci uma turma de meninas mais velhas, que falavam toda hora do filme do momento, Dirty Dancing, e que punham o vinil da trilha. Eu não tinha visto o filme, aliás só vi ano retrasado, na Sessão da Tarde. Eu não entendia nada do que elas falavam, mas gostava das músicas.
Tantas coisas aconteceram, mas vou resumir. Um menino começou a gostar de mim e queria me namorar, mas eu não podia nem pensar num negócio desses. Na última noite, ele me pediu pra dançar, mas eu não pude aceitar, porque minha mãe tava perto. Quando a festa tinha quase acabado, todo mundo, inclusive o menino, tinha ido embora, as meninas colocaram o vinil pela última vez. E gente, aconteceu o milagre da aula de jazz: eu dancei tão bem, tão bem, mas tão bem, eu flutuava pelo salão, era a dona da situação, virei uma pequena John Travolta e todos me aplaudiram loucamente. Quando eu dei um passo daqueles de filme, uma senhora que assistia falou, essa menina dança bem demais. E eu enchi meu coração daquilo por muito, muito tempo.

Monday, April 30, 2007

Faça o teste: você é panda?

Na comunidade "Eu sou Panda", da qual eu participo, uma menina fez o teste panda:
"O que mais é panda?
Pandas:
1 - Têm "olheiras"
2 - São fofos
3 - São branquelos
4 - São anti-sociais
5 - Parecem meiguinhos mas podem te matar com uma patada
6 - São meio devagar
7 - São uma nulidade quando o assunto é sexo
8 - Estão em extinção."
O legal é que ela mesma disse que o item 7, todo mundo pularia, na bucha. Mas eu vi no site do Terra que tá tendo um baby-boom de pandas, então pode ser que os adoráveis ursinhos de vez em quando assistam um pornozinho no DVD, sei lá!
Eu só acrescentaria: Pandas são acima do peso recomendável pela revistas Cláudia e Nova! E se pilham um doce de leite Aviação, comem tudo!

http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=239559&tid=2493288608363259540&start=1

Sunday, April 29, 2007

Samba da otária

Na linguagem antiga dos malandros da Lapa, eu seria uma otária. Otário, contrário de malandro. Otário é o cara que trabalha cedo, que é acolchoado no medíocre ( onde li essa linda expressão?), que não sabe usar navalha nem sambar na lama com sapato branco.
Gente simples na expressão. Agora, fora de brincadeira. Acho muita coisa esquisita e fora de moda. Por exemplo: que o tempo mostra a verdade. Mostra nada. Acho que toda boa intenção, vinda do coração, vale mais que mil projetos arquitetados na maldade e egoísmo. Algumas vezes pus desejos e vontades meus abaixo do bem de outros. Adiei satisfações. Se tem alguém na parada que vai se machucar, rezo pra me afastar. Não falo tudo que penso. Escondo muito do que sinto. E às vezes penso, no meio do meu sofrimento, que poderia ser bem pior, e me alegro com essa rematada e comprovada bobagem.
Nem sempre sigo meus impulsos. Sim, faço um monte de coisas cacete só pra agradar os outros, ou pra não ferir os sentimentos dos que eu amo. Sim, eu penso nos outros. Controlo meus impulsos de agressividade. Sou uma otária, no meio da Lapa, quarando roupa de sol a sol, enquanto a diversão, penso, está no carteado, no bar, no flerte, na maledicência. Talvez desse um sambinha, ou uma marchinha de Carnaval.

Friday, April 27, 2007

Serge Gainsbourg

Hoje finalmente esfriou, pela primeira vez no ano do Senhor de 2007.


Fiz uns bifes com saladas de batata e broto de feijão pro almoço, com farofa de raspinha. Na panela onde fritei os bifes, na manteiga Aviação, pus cebola e farinha, a farinha pode ser da sua preferência, torrada claro.


Dormi uma sesta prolongada e não fiz nada de útil, em termos tese, pareceres e tradução, pra minha vergonha. Estava um pouco deprimida, porque ontem tentei ir num analista. O cara me falou coisas super foda, e quer me cobrar o olho da fuça. Saí de lá me sentindo muito pior do que entrei, chorei o dia todo e só ontem à noite, no meio da insônia de sempre, lendo uns trechos do Freud, me toquei que o cara não me entendeu em nada.
Mas esfriou. No final da tarde, fui à padaria e lá estavam todos felizes, clientes e atendentes, porque o padeiro tinha soltado pasteizinhos, fritos numa alegria pelo pessoal do balcão. Comprei petit-fours, bons pro English Breakfast da Ahmad, e fiquei procurando a discografia do Gainsbourg pra baixar. Esfriou, mandioquinha e morango no supermercado. E é isso.

Tuesday, April 24, 2007

Musa blogueira

Do comentário do eminente Celso, sociólogo digno da Escola de Campinas, surgiu a idéia desse post.

Aliás, a musa blogueira é muito eclética. É uma música, é um filme, é um acontecimento, que vira o tal do post. Enfim, sei lá mil coisas, o momento, um lance subjetivo, morou?

Mas eu queria falar de umas expressões idiomáticas que eu e os meus queridos amigos utilizamos no nosso dia-a-dia, porque fiquei rindo do comentário do Celso do versículo abaixo: "Deus chegará e falará, perdeu preibói"!


1) "Deus disse pra mim, vai lá embaixo e arrasa": essa é do Camilo, uma pessoa modesta como se vê.

2) "que cacete!": imagine uma bonequinha em forma de menina; essa é a Jujuba, que pontua tudo com um cândido e doce "Que cacete!"; já adotei.

3) "chamar Jesus de Genésio e urubu de meu louro": confundir as bolas.

4) "dar um ninja": agarrar a pessoa amada. Sabe quando tá no embaço? Você chega lá e dá um ninja, meu filho.

5) "dar um Chuck Norris": resolver no braço. Qualquer coisa e/ou situação. Partir pra ignorância muitas vezes é saudável e necessário.

6) "ficar envorvido": o envorrrrvimento é múltiplo e variável, vai desde pessoas a cachorrinho na rua.

7) "você pra mim é problema seu", "ema, ema, ema, cada um com seus pobrema": base da nova Escola psicanalítica de Campinas, fundada por Luís Fernando.

Mandem contribuições! Canta, ó musa blogueira, as besteiras que o povo fala e tchururu pra vocês.

Monday, April 23, 2007

Desvirar

Nesses últimos dias, sinto uma coisa boa. Sabe quando a gente se machuca, e o machucado começa a cicatrizar? Quando você cuida do roxo, com pomada de arnica, repouso, e ele começa a desaparecer?
Para destruir, basta um minuto. Reconstruir ou construir demora mais. Um coração pode ser cortado em poucas palavras, mas pra voltar a bater, é necessário tempo, dedicação, dias de esforços inúteis. Tantas esperanças jogadas fora, tantas palavras doces mal compreendidas. Tantos sorrisos em direções erradas, mas tudo bem, as coisas voltam. Diz um ditado persa que quando a onda vem, a gente tem que se abaixar, pra furar; ou se pegar, tem que deixar o corpo ir até o fim. Muita areia no biquíni ou no calção, muito mico que se paga, o caldo é triste de levar, a mão fica ralada.
Tudo bem, não sofro mais por você, paciência. Passo e não perco meu tempo, me concentro em quem me faz feliz agora. Você me desculpe, a falta de sofrimento. Me desculpe eu não perder tempo com você, mas outras pessoas surgiram, outras situações, perigos mais graves que seu ressentimento, sua inveja, sua angústia. Te desejo tudo do melhor da vida, seja feliz; mesmo, sério, nesse dia azul e amarelo eu desejo isso. Aprendo, cada dia um pouquinho, a desvirar minha mágoa.

Friday, April 20, 2007

Silent pain and happiness

Eu acordei hoje destruída. Ontem e hoje vaguei pela casa, sem fazer nada de muito útil, sendo que, no final de tese, desempregada e com problemas vários ( não vou repetir porque é piada), eu tinha que estar me esmerando nas minhas atividades-panda. Mas que nada, como diria Benjor.
Falo com a Nenem no msn. Acho que é cansaço, ou início de depressão? Não sei. FAPESP, concurso, ursinho enfartado, na seqüência, e eu me sinto a Torre de Pisa de novo: diferente porém derrubada. Mas preciso daqui a pouco tomar um banho, me vestir ( o que tá sendo um problema, porque a panda está, como direi, mais redondinha ultimamente). Ontem esfolei uma camisa vermelha minha, linda, e não sei o que me fica bem nesse estado.
Que preguiça, bocejo gostoso, de robe, depois de leite gelado, pão integral e dois caquis. Meu Deus, a tese, a casa, a vida. E eu nessa preguiça Caymmi. Ontem era dia de São Expedito, e eu fiquei brava essa semana mas consegui resolver tudo. E tive momentos de uma dor lá no fundo, silenciosa, calma, e felicidade brilhante como o sol numa poça de água.

Tuesday, April 17, 2007

Emília, a boneca gente

Como bem disse Pepeu, "de uma caixa de costura/pano, linha e agulha/ nasceu uma menina valente, Emília/ a boneca gente".
Hoje acordei meio gripada. O incrível é que minha bolsa acabou, eu tenho uma tese emperrada e todos os problemas que todos já conhecem ( privada, chuveiro, carro, dente, tudo quebrado) e desempregada, reprovada em concurso pra professor substituto, e me sinto terrivelmente feliz. Vai entender.
Voltando. Com minha última grana, fui pagar o condomínio, net, e passar no Perda de Tempo pra pegar meu novo RG. Tô andando pela rua, distraída, com meu vestido do reveillón e a havaiana que cruzou Chicago, Pisa e aqui em casa, quando olho numa vitrine de um sebo de livros, e lá está ela. Com seu macacão Mondrian, um avental, e um medalhão dourado Brinquedos Estrela.
Nem precisa dizer que a Emília da Estrela era uma das minhas bonecas favoritas, junto com a Marquesa de Santos, uma boneca de pano loira e toda elegante que ganhei da minha tia e que assim foi batizada por conta da novela com a Maitê Proença, e a Mônica Larissa, um bebezão de vestido de nylon cor-de-rosa. Todas elas conviviam com Napoleão, o Snif-Snif ( um cachorrinho de pano, também da Estrela) que até hoje contempla meus livros na estante do quarto de bagunça.
Minha amiguinha, porém, foi roubada, e desde então eu procurava uma dessas Emílias. Hoje eu surtei! Ela é uma das pequenas, e agora está na sala, em lugar de honra. Tudo isso pra dizer que eu tenho 30 anos e não tenho juízo nenhum.

Monday, April 16, 2007

Oficina literário-sentimental

Quando eu fiz quinze anos, meu pai, cansado da minha indolência e tendência ao isolamento e depressão, me pegou pelos colarinhos, e me levou no posto do INSS, na rua Barreto Leme. Lá, tirei minha carteira de trabalho, e nós rodamos o centro de Campinas procurando emprego pra mim.
O único lugar que aceitava menores era o McDonald's. Duas semanas depois, me tornei funcionária da lanchonete da rede, na Norte Sul. Lá conheci muita gente boa, e um gerente filho da puta que levava as meninas no congelador e em troca de uns beijos e outras coisas geladas, botava as bonitinhas no balcão. Claro que a pequena panda, cuja tendência ao isolamento e depressão se explicava em grande parte às leituras de livros didáticos de Filosofia, com trechos de Simone de Beauvoir, Platão e Adorno, se rebelou contra isso, permanecendo no corredor da morte, o espaço retangular com as grandes cubas de óleo vegetal onde se fritam carnes do Mc Fisch e Mc Chicken, nuggets e tortas. Depois, o gerente tarado me pôs para dar as festas das crianças, quatro, cinco festas nos sábados.
No meio disso, me apaixonei, como sói acontecer com as moçoilas de quinze anos. Meu eleito era um moço esquentadíssimo, que um dia tacou a bandeija nas costas de um cliente, no estacionamento da loja. Evidente que o rapaz trocou alguns beijos com a panda, sabor sundae de morango, e depois de belas férias na praia, enquanto eu penava no corredor da morte e sonhava com o seu retorno, me ignorou solenemente. Desconsolada, escrevi os versos, com canetinha hidrocor, na agenda: "Seus olhos são grossos punhais/ são vítreos, e indecifráveis/ enigmas antigos e ancestrais/ bóiam indiferentes e distantes/ no meu mar de desejos".
Hoje, por acaso, alcancei da prateleira Poesia de Florbela Espanca. E lá estava, sob o título de Frieza: "Os teus olhos são frios como as espadas/ E claros como trágicos punhais/ Têm brilhos cortantes de metais/ E fulgores de lâminas geladas.//Vejo neles imagens retratadas/ De abandonos cruéis e desleais,/Fantásticos desejos irreais,/E todo o oiro e o sol das madrugadas!// Mas não te invejo, Amor, essa indif'erença,/ Que viver neste mundo sem amar/ É pior que ser cego de nascença!//Tu invejas a dor que vive em mim!/E quanta vez dirás a soluçar:/'Ah, quem me dera, Irmã, amar assim...!".
Fiquei tão emocionada! Detalhe, aos quinze anos eu não conhecia Florbela Espanca. Meu plágio foi involuntário. Talvez eu precisasse tanto das palavras dela, como sempre acontece com os grandes poetas, que recriei, de forma desajeitada, a primeira parte do soneto, com a força dos meus sentimentos.
O que é engraçado também é que eu cantava Adoniran enquanto fritava frango processado e montava dez sanduíches por vez ( teve um dia que uma cliente pediu o tal Mc Chicken sem maionese, e eu dei uma de Carlitos nos Tempos Modernos, perdi três fornadas de lanches porque automaticamente pegava o pistolão de maionese e lascava no pão). Depois vim a descobrir que a maior parte dos sambas do Adoniran, ele compôs caminhando, suando a camisa vendendo gravatas. E lógico, eu não tinha nenhum disco do Adoniran, pra mim os sambas dele faziam parte, vamos dizer, da História Oral. Meu pai todo dia, quando chegava em casa, arrepiava nossos cabelos com sua interpretação de Saudosa Maloca; eu enlouquecia o pessoal da cozinha com minha antológica Tiro ao Álvaro, que secretamente dedicava ao moço dos olhos-arma, nos meus momentos de descontração.
Mas da Florbela, deixo o Rústica, para vocês: "Ser a moça mais linda do povoado,/Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,/Ver descer sobre o ninho aconchegado/A bênção do Senhor em cada filho.// Um vestido de chita bem lavado,/Cheirando a alfazema e tomilho.../- Com o luar matar a sede ao gado,/Dar às pombas o sol num grão de milho...//Ser pura como a água da cisterna,/Ter confiança numa vida eterna/ Quando descer à 'terra da verdade'...// Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!/ Dou por elas meu trono de Princesa,/ E todos os meus Reinos de Ansiedade".

Saturday, April 14, 2007

Minha bela Marília, tudo passa/ A sorte deste mundo é mal segura

Fiquei bastante triste ontem pelo concurso, mas passou. Descobri que tinha um problema político cabeludo no departamento, e que segundo fontes seguras é melhor fazer a coisa de outro jeito, em outro departamento. E ainda ganhei um convite para vir pra cá numas três atividades legais, como professora convidada, na maior badalação.
Na verdade, o concurso era meio genérico, e os convites rolaram em História da Arte, o que muito me alegrou. Veremos, mas fiquei feliz também porque mais uma vez percebi que não estou só nesse estradão. Por msn, telefone, sinal de fumaça, os velhos companheiros ficaram comigo durante todo o processo. O Juan ficava doido porque esse jeito italianado da gente levar a vida, nas terras paulistas, é meio diferente da mineirada. Enquanto o bonitinho assava pão de queijo pra mim, neguinho da cidadela de Zeferino Vaz desfiava todos os palavrões possíveis e as opiniões esdrúxulas nos quais somos especialistas. Teve gente que sugeriu, de forma cândida, que eu falasse das feministas pós-estruturalistas lacanianas; gente que mandou dizer que era pra consultar Merleau-Ponty; ou que era pra cantar um samba do Adoniran e picar a mula rumo a BH. Enfim.
A gente só percebe que a cidadela zeferinítica é algo surreal quando tomamos um ônibus qualquer e despenca por aí, sertões e outros labirintos. É claro que eu queria a aprovação, mas pra primeira vez tá bom, não é coca-cola mas é isso aê. Reforçou meus laços de afeto com os habitantes da cidadela e ainda por cima ganhei convite pra vir falar sobre Gonzaga, uma das minhas paixões mais inflamadas. Só queria dizer pra vocês que tô feliz. Hoje vou rever São Francisco de Ouro Preto, um ônibus e tô em casa, novos planos, projetos, pensei bastante, tive um monte de insights, revi Minas, fiz amigos, enfrentei questões íntimas super importantes, aprendi uma nova receita de frango, ontem usei meu vestido novo e tive vontade de dançar.

Friday, April 13, 2007

Os Argonautas do Pacífico Ocidental

Escrevo de Mariana, MG.


Vim para as Gerais, tentar um concurso de professor substituto na Federal de Ouro Preto. Aviso aos navegantes que não passei. Foi um stress, concurso sempre é, mas fiquei na casa do Juan, um anjo de menino que quer ser meu orientando... que foi um irmão pra mim. Conheci Virgínia, professora daqui, outro anjo, e isso valeu muito a pena.

Também valeu a pena ter vindo, porque eu pelo menos fiz alguma coisa, no sentido que estava me sentindo sem chão. Bolsa acaba, a tese tá no fim, e eu me sinto numa sinuca de bico, preciso ir pra frente, pra algum lugar. Tentei. A pandinha leu textos cacete, falou de Malinowski, lembrou dos tempos do Cebrap, imprimiu textos em impressora matricial, reviu a praça Minas Gerais e discutiu Mestre Ataíde. Enfim, tentei. No fundo me senti um João Bobo, sabe, levando um pouco de pancada e voltando pro mesmo lugar.
O que me consola é que preparei minha aula em cima do Malinowski, e ficar preso nas ilhas Trobriand por cinco anos não foi bolinho. Conhecimento sempre é um processo agonístico, preciso anotar pra sempre isso no meu caderninho Marco Aurélio ( o imperador gatão começa suas preleções com coisas que a gente tem que lembrar todos os dias quando acorda. Um pouco de estoicismo, com tão boa companhia, não faz mal pra ninguém).

Saturday, March 31, 2007

Ao sugo

Estou numa correria danada.
Explico: preciso entregar o último relatório pra FAPESP agora dia 10, e resolvi tentar um concurso, que será dia 12, mas nem sei se consigo me inscrever. Enquanto isso, na sala de justiça, fui tirar a segunda vida do meu RG, dei aula no IA pro primeiro ano sobre os afrescos de Giotto em Assis, cuidei da baixa na minha carteira de trabalho e entreguei as maquetes dos meus alunos do semestre passado, na PUCC( tarefa que me tomou toda uma manhã, porque as maquetes eram lindas, enormes: precisei parar o prédio, descer tudo de um jeito louco, lotar meu carro e encher a paciência de cinco funcionários da PUCC). Coisas que estavam atrasadas, enquanto outras ( o tratamento dentário, o vaso sanitário e o chuveiro quebrados, a vontade de comprar um violão e de aprender a tricotar) permanecem adiadas.
Acordo de manhã e a primeira coisa que penso, ainda dormindo, é "o que que eu tenho pra fazer hoje". Hoje, sabadão sertanejo, acordei cedo, fui tirar xerox de n coisas e zarpei rumo ao cartório da rua Barão de Jaguara. Fechado. Corri na loja central dos Correios, na Glicério ( um lindo prédio art-déco destruído por uma cor horrenda, o velho mau gosto campineiro). Depois, faxina.
Pois é. Eu que faço tudo, tudo, aqui em casa. Faxina, supermercado, banco, Perda de Tempo (ops, Poupa Tempo), pagar conta, arrumar dinheiro pra pagar as contas. Porque aqui é uma república de um, ou melhor, de uma panda só. Há dez anos, desde que saí da toca da minha panda-mãe, sou arrimo de família ( no caso, a família consiste na pequena curumim aqui). Se eu não faço, ninguém faz, por mais que Celo, amigos e dona Meire quebrem galhos imensos, ou melhor, árvores e florestas inteiras, muitas vezes. Eu tô acostumada, mas tem hora que cansa a beleza. Tipo hoje, eu preciso escrever umas linhas sobre o Tratado da Pintura, do Leonardo, mas tive que encarar um lerê-lerê básico, porque isso aqui tava uma zona.
E taca passar aspirador, lavar dois banheiros. O mais incrível é que eu gosto de fazer algumas coisas de faxina. Tipo lavar banheiro, eu ADORO lavar banheiro ( pois é, cada louco com sua mania). Lá em casa, durante muitos anos, nós não tínhamos faxineira. E aí, a gente fazia tudo, eu, minha mãe e meu irmão. Em contrapartida, eu odeio passar roupa e limpar a cozinha. Arear panela e peça de fogão é uma tortura pra mim, mas o pior é o chão da cozinha, o meu pesadelo constante.
No meio do segundo banheiro, a fome. E agora, José? Penso em descer na feirinha hippie e traçar um espetinho do japonês, mas a minha lombar começa a dar sinal de vida. Fico com saudade de anos atrás; quando tinha visita em casa, eu fazia a faxina com perfeição, descia, corria no supermercado, fazia o almoço, me arrumava, arrumava a casa, botava a mesa e até sobremesa tinha. Agora, com essa dor na coluna, não ando dois passos. Vou até a cozinha e espio o armário. No final comi farfalle no.65 da Barilla ( o famoso gravatinha) com um sugo que eu inventei.
Tinha uma lata de tomate pelado da Mastroianni, mas qualquer lata dessas serve. Tem que ser o italiano, que andou em promoção por aí, porque daí não fica ácido. Alho, manjericão, molho de carne e um pouquinho de geléia de pimentão. Isso, geléia de pimentão da Companhia das Ervas, doce, vale a pena o investimento. Queijo por cima e boa. Agora, ao chão da cozinha, depois, ao Leonardo, depois, ao nervoso com o concurso, e depois chega.