Eu procurei a origem da iconografia do poeta Virgílio, utilizada por Botticelli nos seus desenhos para a Comédia, feitos entre 1480 e 1490. Pois bem, rodei manuscritos ilustrados, capitéis de igrejas, outras obras, moedas, e os fantásticos cassoni, os lindos baús decorados com pinturas e marchetarias, que faziam parte do dote das noivas italianas. Cada cassone vinha com uma história da Antigüidade, ou figuras alegóricas.
Bom, o tio barrilzinho imaginou o autor da Eneida como um senhor de barbas longas, manto bizantino, e chapeuzinho exótico, ou seja, tudo o mais distante possível da retratística romana ( não sobraram retratos identificados de Virgílio da Antigüidade, mas o homem que pintou o Nascimento da Vênus tinha no jardim dos Medici muitos bustos de imperadores e podia imaginar Virgílio de outro jeito). A história disso tudo é longa, mas o fato é que no primeiro manuscrito ilustrado da Comédia, datado de 1327, Virgílio está com as mesmas roupinhas.
Esse manuscrito, que hoje pertence ao Museé Condé, em Chantilly, contém o Comento a Comedia, escrito pelo senhor de hoje, o frade carmelita Guido da Pisa, um dos primeiros estudiosos da obra de Dante ( Dante morreu em 1321, no exílio, e seu primeiro comentador foi seu filho mais novo, Jacopo). Guido da Pisa, ao que tudo indica, teve uma iniciativa editorial inédita, o da reprodução, comentário e ilustração, por meio de lindas aquarelas, do poema de Dante. E era pisano. É bonitinho procurar o nome de Guido nas enciclopédias e obras de referência sobre Dante: os autores informam com severidade "ser um personagem de difícil identificação, porque havia muitos Guidos em Pisa"...
Minha hipótese é que Botticelli leu partes do comentário de Guido da Pisa, e viu com certeza as ilustrações do Manuscrito de Chantilly, e isso o fez se opor à interpretação que Christoforo Landino, reitor da Universidade de Florença, deu à Comédia, em 1481. Legal, né? Mas o fato é que Guido da Pisa amava, e muito, Dante. E isso é incrível, porque Dante, no Canto XXXIII do Inferno, solta uma invectiva terrível contra a cidade da torre torta, por conta do nefando caso do conde Ugolino della Gherardesca, encerrado com os filhos na torre, e condenado ao canibalismo ( o caso é escabroso mesmo).
A torre da fome, como é conhecida, era nada mais nada menos que o meu lar em Pisa, porque é a torre da Biblioteca da Scuola Normale Superiore, lugar freqüentado com freqüência, rs, vamos dizer assim, pela panda-comentadora mirim de Dante. Guido da Pisa não só concorda e desce mais a lenha ainda na pátria, num exercício alto de dignidade intelectual, raro hoje em dia e em todos os tempos.
Aliás, falando nisso, os desocupados de Bologna pegaram o retrato do tiozão feito pelo tiozinho barrilzinho, e o crânio do cara, nas medidas tiradas quando da abertura da cripta em Ravenna, em 1920. E taí a cara do cidadão: http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/1630_dante/page5.shtml

3 comments:
só esse blog pra alegrar o meu dia...
tô gostando da fase mais prolixa paulinha!
beijinhos
chris
O nariz e' quase uma obra de arte.
Clis: vc não sabe do orgulho que sinto ao ler que vc se alegra com esse Meio aqui. Ainda mais alegrar alguém em plena terra da rainha! Beijos! E eu tô prolixa porque minha vida anda meio, digamos, prolixa!
Leo, o nariz do cara é o melhor, mas me diz, é um pasteleiro! É um pasteleiro!
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