Olha, hoje conversando com Lan no msn, desencavei do fundo do baú da memória outra relíquia oitentista: a aula de jazz!
Funcionou assim. Minha mãe começou a freqüentar uma academia de ginástica, motivada talvez por Olívia Newton-John ou Rita Lee. A tal academia era uma sobreloja num sobrado bege, numa esquina da Lins de Vasconcelos, em pleno coração do Cambuci. E ela resolveu me levar pra fazer as tais aulas de jazz.
Eu ganhei uns collants de helanca coloridos ( lembro de um azul bebê, outro vermelho pomba-gira, um preto urubu e outro branco nuvem), meias-calças, sapatilhas ( compradas numa loja de fábrica, enorme, no Ipiranga) e as famigeradas faixas de pôr na testa, de toalha, e polainas de lã colorida ( lembro de uma branca, que tinha um arco-íris). A professora trazia umas fitas com o que tocava no rádio, e eu lembro da trilha do Footloose e Flashdance. Eram umas coreografias, mas na maior parte do tempo era uma folia: a gente fazia o que bem entendia, e pasmem vocês, eu era uma das mais empolgadas.
A pequena panda dançava que nem uma possuída, esperando talvez um dia ser dançarina na Broadway ou pelo menos aprender o troço direito. Eu adorava, amava, idolatrava, dançar. Mas era engraçado, eu não queria fazer ballet clássico: olhava as meninas de rosa, redinha no cabelo e sapatilha dura de cetim e ponta de gesso, e não sentia nenhuma vontade daquilo. O meu negócio era o pop, o rock, a discoteca, o pega pra capar mesmo.
Comecei a dançar em todos os lugares, com meu relógio de pulso Champion, que trocava as pulseiras, e minha calça de moletom e tênis Bubble Gummers. Ligava o Gradiente prateado do seu Pedrão e lascava todos os sucessos da parada da Jovem Pan. Minha tia deu pra gente o disco dos Menudos, e daí vocês podem imaginar o que se tornou a vida da minha mãe, ouvindo sem parar "Não se reprima", e ver minhas coreografias, que sempre acabavam numa hecatombe no sofá.
Já em Jundiaí, fui matriculada numa aula de sapateado, que uma mocinha muito linda, Cíntia, ministrava no salão de festas do prédio. Lembro de alguns passos, os básicos, até hoje. Ganhei meu par de sapatos e mais collants, faixas, meias. Minha mãe, antes de cada aula, passava gel New Wave no meu cabelo, e lá eu ia, pra lascar o piso de ardósia do salão ( claro que o povo do prédio reclamou do estrago e do barulho infernal). Lembro de uma coreografia gracinha, com "História de Uma Gata", dos Saltimbancos.
Quando da apresentação de final de ano, recebi dos meus pais a notícia que não iria mais às aulas de sapateado, por questões óbvias: o orçamento tava apertado. Não participei dos ensaios direito: tomava meu lugar entre as gatinhas sem nenhum entusiasmo, sabendo que não participaria da festa nem de nada. Quando a professora veio fazer a lista para as fantasias, sofrendo muito, avisei que meu nome não estaria na lista. Ela insistiu, e algumas coleguinhas riram do meu embaraço.
Nunca mais tive aulas de dança. Mas não desisti: dançava na sala mesmo, arredava as cadeiras e lá ia o Gradiente a todo o volume. Minha mãe começou a proibir, meu pai e irmão a tirar sarro. Mas a pequena panda é brasileira, e não desistia nunca: depois que ganhei um micro-system, no meu quarto eu dançava a toda.
A história tem um final feliz. Eu fui num verão pra uma das pousadas da CESP. Eram umas mini-cidades, construídas quando da implantação das grandes usinas hidrelétricas do nosso estado, que depois se tornaram centros de lazer para os funcionários das três empresas ( CESP, Eletropaulo e CPFL). Sempre haviam monitores, que organizavam gincanas, brincadeiras, era uma verdadeira delícia. E tinham as bicicletas, as piscinas, o rio, e a gente comprava coisas com bolinhas de plástico, cada cor um valor.
Na pousada de Ibitinga, naquele verão, um monte de coisas aconteceram. Eu tinha dez anos. Pra começar, a gincana foi animadíssima, até os adultos participaram. Lembro que uma das provas era trazer uma peruca, e minha mãe montou uma na minha cabeça com flores e folhas. E sempre tinham bailinhos, numa mini-discoteca, à noite. O lugar estava cheio de crianças, rapazes e moças. Logo conheci uma turma de meninas mais velhas, que falavam toda hora do filme do momento, Dirty Dancing, e que punham o vinil da trilha. Eu não tinha visto o filme, aliás só vi ano retrasado, na Sessão da Tarde. Eu não entendia nada do que elas falavam, mas gostava das músicas.
Tantas coisas aconteceram, mas vou resumir. Um menino começou a gostar de mim e queria me namorar, mas eu não podia nem pensar num negócio desses. Na última noite, ele me pediu pra dançar, mas eu não pude aceitar, porque minha mãe tava perto. Quando a festa tinha quase acabado, todo mundo, inclusive o menino, tinha ido embora, as meninas colocaram o vinil pela última vez. E gente, aconteceu o milagre da aula de jazz: eu dancei tão bem, tão bem, mas tão bem, eu flutuava pelo salão, era a dona da situação, virei uma pequena John Travolta e todos me aplaudiram loucamente. Quando eu dei um passo daqueles de filme, uma senhora que assistia falou, essa menina dança bem demais. E eu enchi meu coração daquilo por muito, muito tempo.

2 comments:
Baahhh que tri essa tua historia,
da um filme hein!
Perere
Pois é, dançar pra não dançar...
Mas querido Saci. Não sabia que tu eras gaúcho! Hoje de manhã, passei na portaria do meu prédio e um seu conterrâneo tomava chimarrão. Me deu vontade!
Beijos pro povo do Sul, etão!
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