Monday, April 16, 2007

Oficina literário-sentimental

Quando eu fiz quinze anos, meu pai, cansado da minha indolência e tendência ao isolamento e depressão, me pegou pelos colarinhos, e me levou no posto do INSS, na rua Barreto Leme. Lá, tirei minha carteira de trabalho, e nós rodamos o centro de Campinas procurando emprego pra mim.
O único lugar que aceitava menores era o McDonald's. Duas semanas depois, me tornei funcionária da lanchonete da rede, na Norte Sul. Lá conheci muita gente boa, e um gerente filho da puta que levava as meninas no congelador e em troca de uns beijos e outras coisas geladas, botava as bonitinhas no balcão. Claro que a pequena panda, cuja tendência ao isolamento e depressão se explicava em grande parte às leituras de livros didáticos de Filosofia, com trechos de Simone de Beauvoir, Platão e Adorno, se rebelou contra isso, permanecendo no corredor da morte, o espaço retangular com as grandes cubas de óleo vegetal onde se fritam carnes do Mc Fisch e Mc Chicken, nuggets e tortas. Depois, o gerente tarado me pôs para dar as festas das crianças, quatro, cinco festas nos sábados.
No meio disso, me apaixonei, como sói acontecer com as moçoilas de quinze anos. Meu eleito era um moço esquentadíssimo, que um dia tacou a bandeija nas costas de um cliente, no estacionamento da loja. Evidente que o rapaz trocou alguns beijos com a panda, sabor sundae de morango, e depois de belas férias na praia, enquanto eu penava no corredor da morte e sonhava com o seu retorno, me ignorou solenemente. Desconsolada, escrevi os versos, com canetinha hidrocor, na agenda: "Seus olhos são grossos punhais/ são vítreos, e indecifráveis/ enigmas antigos e ancestrais/ bóiam indiferentes e distantes/ no meu mar de desejos".
Hoje, por acaso, alcancei da prateleira Poesia de Florbela Espanca. E lá estava, sob o título de Frieza: "Os teus olhos são frios como as espadas/ E claros como trágicos punhais/ Têm brilhos cortantes de metais/ E fulgores de lâminas geladas.//Vejo neles imagens retratadas/ De abandonos cruéis e desleais,/Fantásticos desejos irreais,/E todo o oiro e o sol das madrugadas!// Mas não te invejo, Amor, essa indif'erença,/ Que viver neste mundo sem amar/ É pior que ser cego de nascença!//Tu invejas a dor que vive em mim!/E quanta vez dirás a soluçar:/'Ah, quem me dera, Irmã, amar assim...!".
Fiquei tão emocionada! Detalhe, aos quinze anos eu não conhecia Florbela Espanca. Meu plágio foi involuntário. Talvez eu precisasse tanto das palavras dela, como sempre acontece com os grandes poetas, que recriei, de forma desajeitada, a primeira parte do soneto, com a força dos meus sentimentos.
O que é engraçado também é que eu cantava Adoniran enquanto fritava frango processado e montava dez sanduíches por vez ( teve um dia que uma cliente pediu o tal Mc Chicken sem maionese, e eu dei uma de Carlitos nos Tempos Modernos, perdi três fornadas de lanches porque automaticamente pegava o pistolão de maionese e lascava no pão). Depois vim a descobrir que a maior parte dos sambas do Adoniran, ele compôs caminhando, suando a camisa vendendo gravatas. E lógico, eu não tinha nenhum disco do Adoniran, pra mim os sambas dele faziam parte, vamos dizer, da História Oral. Meu pai todo dia, quando chegava em casa, arrepiava nossos cabelos com sua interpretação de Saudosa Maloca; eu enlouquecia o pessoal da cozinha com minha antológica Tiro ao Álvaro, que secretamente dedicava ao moço dos olhos-arma, nos meus momentos de descontração.
Mas da Florbela, deixo o Rústica, para vocês: "Ser a moça mais linda do povoado,/Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,/Ver descer sobre o ninho aconchegado/A bênção do Senhor em cada filho.// Um vestido de chita bem lavado,/Cheirando a alfazema e tomilho.../- Com o luar matar a sede ao gado,/Dar às pombas o sol num grão de milho...//Ser pura como a água da cisterna,/Ter confiança numa vida eterna/ Quando descer à 'terra da verdade'...// Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!/ Dou por elas meu trono de Princesa,/ E todos os meus Reinos de Ansiedade".

2 comments:

Anonymous said...

Lindo, pandinha!
Saudades. bejinho!

Maria said...

Brigada, Danis! Saudade também! 95% é da Florbela, aí fica fácil. HIhihihihihi!