Sunday, July 06, 2008

Bruxas, duendes e pandas

Nunca me afetei pelo clima new age que dominou a cena anos 90, melhor dizendo, da segunda parte da minha juventude. Nesses sofridos anos surgiram várias lojas esotéricas, vendendo roupas indianas, miniaturas de duendes em durepox e fontes de água pra gente pôr no escritório. Eu gosto de roupa indiana e até acho que as miniaturas dos duendes são simpáticas, mas meu ceticismo é bastante elevado, considerando o que o pessoal faz por aí.
Ontem, eu fui na Livraria Cultura do Iguatemi, lugar que me deixa com sentimentos contraditórios: por um lado é uma beleza um lugar desses em Campinas, por outro eu perdi a desculpa de ir passear na Paulista pra poder ver as novidades na Cultura do Conjunto Nacional. Enfim, como diria o poeta, minha alma é uma praia assolada por ventos em direções contrárias. Mas de qualquer forma é melhor ver os livros que eu não tenho dinheiro pra comprar, num sábado à noite, que ficar em casa vendo a parede. Vi uns livros da sempre simpática Márcia Frazão.
Antes que me crucifiquem, apedrejem, e me queimem viva, a simpática bruxa fluminense Márcia não ensina ninguém a contradizer as teses de Newton, de Einstein e da Física Quântica ( que são contraditórias entre si, nunca é demasiado lembrar). Só ensina a fazer bolo de fubá e tomar com chá de cidreira pra melhorar o ânimo, o que qualquer um pode fazer, e é barato e ninguém morre com isso. Realmente, bolo de fubá com chá de cidreira melhora o astral de qualquer cristão ou ateu, bem como derramar lavanda ( é, a melhor é a Johnson's, pra bebês) nos lençóis quando a gente troca a roupa de cama. Eu sempre gostei muito dessas coisas simples, como queimar um incenso, pôr Mozart, lavar roupa ou fazer biscoitos quando estou triste, mas andei tão, tão triste que nem essas coisas simples eu tava conseguindo fazer. E tava encarando tudo daquele jeito cinza e limitado quando a gente tá no bico do corvo, como se diz por aí.
É impossível prever o futuro ( mesmo que ele exista, segundo Einstein), bem como é impossível voar ( tirando a possibilidade de pegar um avião, segundo os cálculos de Newton), e é impossível impedir que coisas ruins aconteçam e que infelizmente, muitas vezes o pior aconteça. Mas pelo menos bolo de fubá com cidreira ajuda tanto a gente a levar essa vida lascada. Li umas linhas dela e me senti melhor, com mais ânimo pra cuidar da minha casa, de mim e das minhas coisas. E se existe bruxaria, o verdadeiro feitiço é esse.

Thursday, July 03, 2008

A panda no corredor da morte

Comecei a trabalhar aos quinze anos. Acho que já contei aqui em algum momento; fui trabalhar no Mc Donald's da avenida Norte-Sul, aqui em Campinas. A loja, até hoje, é um inferno digno do dantesco: zilhões de clientes chatérrimos do Cambuí e da Nova Campinas, mais uns transeuntes, o dia inteiro, os sete dias da semana.
Hoje passei pelo Mac da Glicério ( aliás, num lindo sobrado meio Art Nouveau) e vi os meninos ali na labuta. As meninas que ficam no balcãozinho do sorvete são umas heroínas, porque devem atender metade da população de Campinas num dia, e a outra metade no outro.
O Mac assinava carteira e pagava um salário mínimo. Meu horário era das quatro da tarde até as nove; eu era menor e não podia passar das nove, mas de fato acabava, todos os dias, fazendo horas extras, devidamente não pagas pelo meu empregador. Na época, a loja não era franquia: nós éramos funcionários, todos, da matriz mesmo. Depois um médico cheio da grana e da pretensa humildade arrendou a franquia. Mas enfim. Entrei no emprego e me deram a incumbência de fritar as carnes do Mc Chicken, Mc Fish, as tortas, os nuggets e montar os dois sanduíches. Tudo isso é feito, até hoje, num corredor no interior da cozinha que sai da cuba das batatas: cubas lotadas de óleo vegetal, que a gente tirava com uma pá e luvas, punha nas cubas e é aquecido a não sei quantos graus centígrados. Os pães ficam numas torradeiras, e a gente tinha pistolões de maionese. Tudo era muitíssimo limpo e o povo era muito chato com todas as regras de higiene, pelo menos na minha época era assim.
O problema todo eram dois gerentes, irmãos, que pegavam as meninas e levavam pro grande refrigerador, que devia ser do tamanho do meu apartamento. As meninas que aceitavam o assédio eram lotadas no balcão. Lógico que a pequena panda já era meio da pá virada e não aceitou fazer nada no congelador a não ser pegar latões de picles pros sempre atarefados e legais colegas chapeiros, os que ficam no pior dos serviços da loja: virar as carnes dos hambúrgueres e Big Mcs. Logo, os gerentes me deixaram para toda a eternidade no corredor do Mc Chicken, carinhosamente apelidado Corredor da Morte.
Pois é, meus caros. Eu ficava sempre no corredor da morte. Agora, pensem: se o pessoal chamava minha área disso aê, vocês podem imaginar o que era minha panda vida. Só não me mandaram limpar a caixa de gordura, o pior dos serviços imagináveis de toda a humanidade. Também era sempre solicitada a limpar o chão da cozinha, o que fazia com um esfregão que era do meu tamanho e ficava num balde que tinha o meu peso. Tinha dias que eu entendia perfeitamente o Chaplin nos Tempos Modernos: uma vez, uma chata cliente pediu Mc Chicken sem maionese, e eu simplesmente não conseguia impedir o gesto de pegar o pistolão de maionese e tacar no pão. Outra vez, me pediram uma virada, como a gente dizia, de 6 por 6: ou seja, montar a capacidade máxima da área, seis Mc Chickens por vez, até que o gerente que estava na produção ( o cara que embala os lanches e controla o fluxo de pedidos pra cozinha) pediu pelo amor de Deus pra eu parar. Resultado: no nosso break, ou seja, na parada pro lanche, todo mundo comeu Mc Chicken, me olhando feio.
A panda, seguindo sua tradição, ficou muito popular com o setor povão da loja, os chapeiros e o pessoal do fechamento, uns rapazes que trampavam em n outras coisas e chegavam às onze da noite, pra fechar a loja, ou seja, os doze trabalhos de Hércules. Eram uns rapazes afro-descendentes imensos, um verdadeiro time de basquete, que a gente chamava de Globe Trotters. Vendo meu prestígio com os chapeiros e os Trotters, um dos gerentes escrotinhos do assédio sexual refrigerado resolveu me exilar no lobby, ou seja, fazer a limpeza dos salões e atender pirralhos que deixaram cair Coca-Cola no olho das suas mamães.
Lá uma vez, no quartinho das vassouras, uma caiu na minha mão esquerda, abrindo todo o meu mindinho ( tenho a cicatriz). De novo, fiz sucesso com os clientes e os Escroto Brothers me mandaram pro pior dos exílios: dar as festas de criança. Os chapeiros, os Trotters e os lobbistas tentaram dissuadir os caras disso, e me olhavam com uma pena digna dos piores momentos dos gulags soviéticos. Entendi no primeiro dia, em que tive que animar e servir em quatro festas de criança seguidas. Só me arrependo de uma coisa que fiz: num final de festa e com o horário apertado, tive que falar para a mãe do aniversariante que precisava limpar o salão. Tinha ficado pra trás um menininho cuja mãe não aparecia. A mãe do aniversariante me passou um pito por ter falado na frente do garotinho, que tremia de medo. Foi a única vez que percebi o quanto o serviço me alienava: em condições normais de temperatura e pressão, eu mando a regra à merda pra não ferir uma criança, ou quem quer que seja.
Enfim, no frigir das tortas de banana, até que me virei bem. Um colega, uma vez, revoltado, bateu nas costas de um cliente maldito com a bandeija, em pleno estacionamento, no que foi silenciosamente apoiado por todos, inclusive os Escroto Brothers ( o cara era um filhinho de papai do Notre Dame que vivia pra nos humilhar). Porque a gente podia fritar batatinha, mas não era o Ronald Mc Donald!

Monday, June 30, 2008

Expresso duplo sem açúcar

Tem um conto muito bonito do Calvino, nos Amores Difíceis. É a história de uma jovem, casada há pouco, cujo marido viaja, que sai com umas amigas e acaba passando a noite com um rapaz, conversando, se divertindo. Ela chega no prédio onde mora e percebe que está sem a chave do portão, e não pode, sob pena de ficar falada pela zeladora, aparecer naquele horário. Daí ela vai para um bar na esquina, está frio, ela com a aba do casaco levantada e o rapaz esquentando a máquina do expresso.
Eu tô me sentindo assim, manhã cedo e eu esperando esquentar a máquina do expresso, batendo a colher de metal cheia de pó na pia e vendo a água ferver. Eu pensei num post muito bonito hoje de manhã, quando vagava pelo frio da cidade. Gosto das manhãs bem cedo. Aqui do lado de casa tem uma padaria muito velha, que passou incólume pelas reformas que deixaram as padarias todas com a mesma cara, a cara de quem fez cirurgia plástica. Eu tinha um colega muito querido que uma vez defendeu essa padaria da minha rabugice, dizendo que ela tinha cara de São Paulo: feia, velha e eficiente. E eu não saio de lá. Tá sempre aberta, e sempre com um café bom.
O post era sobre a escrita da História: o meu pensamento vagava em alguma frase do Marc Bloch, enquanto eu olhava um novo ângulo dum velho casarão. Tô fazendo coleção de fotos das coisas do chamado Ecletismo ( final do século XIX, início do XX) de Campinas, mas tem muito casarão, e hoje eu vinha descendo pela Ferreira Penteado, quase esquina da Barão de Jaguara, e vi que esse casarão tem janelas encimadas por carinhas de leões, muito bonito mas quase arruinado obviamente. Não sei, o post estava bem claro na minha cabeça, mas depois eu cheguei em casa muito cansada, deitei um pouco e acordei com a luz fraquinha do sol batendo na porta da minha sacada, e eu fiquei olhando a luz do sol e os meus dedos, e perdi o post.
Tô batendo o pó aqui. O cheiro da máquina, do pó de café. Eu acho que alguém deveria salvar a Amy Winehouse. Dani já me disse que isso é impossível, e não sei quem me disse que ela não quer ser salva. Concordo, mas ela tem uma voz tão bonita, enquanto isso a gente tem que suportar a Mariah Carey e a Celine Dion. Sei lá. Tem quem queira salvar as baleias, eu quero salvar as baleias e a Amy Winehouse.
O post também dizia que eu não acredito em historiador que não saiba narrar bem. Faz muitos anos que eu não leio tanto quanto eu deveria, leio muito menos do que quando era mais nova. Acho que a gente que trabalha com Humanidades sempre fica tão atolado com as leituras profissionais, e a escrita, que pára de ler com o prazer e o descompromisso que deveria. Mas o pouco que eu consigo ler, eu leio romances, biografias e historiadores. Eu adoro aquela coleção velha, ainda do Círculo do Livro, A Vida Cotidiana. Pode-se dizer que as teses apresentadas estão passadas e tal, mas eu gosto de livro de História bem escrito. Às vezes você sabe, por outra coisa, que as informações ali estão um pouco arredondadas pelo autor ( como no caso do volume de Roma, do Carcopino, que aponta a decadência de Roma como produto, dentre outras coisas, da decadência de costumes das matronas), mas essa é a grandeza do historiador. O cara apresentar a sua versão, a sua narrativa, não aquela coisa chata positivista do cara querendo te convencer que achou o documento que prova sei lá o quê, sendo que documento é a coisa mais fácil de manipular.
E eu termino ouvindo Eye of the Tiger, sei lá porque me veio na cabeça a imagem clássica do Sylvester Stallone como o Rocky Balboa. Tô de volta mesmo.
"Risin' up, back on the street/ Did my time, took my chances/ Went the distance, now I'm back on my feet/ Just a man and his will to survive/ So many times, it happens too fast/ You change your passion for glory/ Don't lose your grip on the dreams of the past /You must fight just to keep them alive"

Sunday, June 29, 2008

Lavou, tá novo

Pois é. Meninos, voltei!!!!!!!!!!!!!


Pensei muito esse tempo aí. Pensei, pensei, gastei fosfato da minha pobre cabeça. E como dizia, é nóis na fita! It's now or never!


Fui tirando pétala por pétala da flor do meu querer. E sobrou uma pétala para o Meio. Para o querer bem do blog dantesco. A panda tá de volta! Arredem as cadeiras! Escutem os trombones! Rufem os tambores! Kung Fu Panda is back!

Tuesday, June 03, 2008

Despedida?

Aos caros leitores do Meio do Caminho,


Eu fechei o blog de novo, como todo mundo viu, por razões pessoais. Agora abro pra dizer uma coisa importante pra vocês.


Apesar do Mezzo ter sido algo muito importante na minha vida, tenho pensado seriamente em deixá-lo. A razão mais forte é que eu não sinto mais vontade de escrever. Bom, pelo menos aqui, agora. Acho que todo blog tem prazo de validade: o Meio até durou bastante, três anos initerruptos de sucesso e alegria. Não sei ainda se é isso que eu quero fazer. Mas hoje, pela primeira vez nesses três anos, venho dizer que não tenho vontade de dizer nada. Um beijo carinhoso a cada um de vocês!

Wednesday, May 14, 2008

Educação

Estava eu tirando mais fotos de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, eis que senão quando eu adentro a Praça Carlos Gomes, obra e graça de Ramos de Azevedo e dos mestres jardineiros Calixto Marin e Juvenal Kirstein ( maiores informações no http://www.campinas.sp.gov.br/cultura/patrimonio/bens_tombados/processo_001_95/ ), quando de repente elegante criaturinha de penas respeita a placa, coisa rara nas terras da antiga Vila de São Carlos. Depois uma bonita menina de boné me informou se tratar de uma garça. Uma garça em pleno centro de Campinas, que respeita a placa e não pisa na grama!

Monday, May 12, 2008

De joelhos

Faz tempo que eu ando pensando em fotografar algumas coisas em Campinas.

Não morro de amores pela cidade. É cara, violenta, sem nada pra fazer e cheia de um espécime raro de gente chata: os campineiros. Enfim. Mas o fato de não morrer de amores não significa detestar e não ver nada de bom, como muitos. Tenho um carinho ilimitado por algumas coisas. E dentre essas coisas tem uns cantinhos no centro da cidade, que são de um outro tempo.
Um tempo em que Campinas, rica e orgulhosa, se dava ao luxo de nem se importar com a primeira exposição de Lasar Segall, a rigor, a primeira exposiçao de arte moderna no país. Simplesmente porque a elite daqui era muito mais escolada, viajada e quetais que a paulistana, que levaria uma porrada quatro anos depois, com Anita Malfatti. Viagens de historiador à parte, eu me comovo com algumas coisas da arquitetura, do tempo que a cidade era toda art-nouveau, e resplandecia no dinheiro do café.
Pois hoje eu estava com a máquina na mochila e idéias na cabeça. Comecei fotografando algumas coisas de perto da Estação Ferroviária, inclusive a própria, e fui descendo o calçadão da 13 de Maio. Como nunca ninguém fotografa nada nessa cidade, logo eu própria, a pandinha velha de guerra, virou atração turística, com sua mochilinha vermelha e cachecol azul.
O povo parava pra me ver e ficava observando. Fiquei meio cabreira porque sou desligada e pra me assaltarem seria um pulo. Alguns encaravam feio, achando que tava tirando fotos das mercadorias nas lojas; meninos ficaram um tempão me vendo fazer contorcionismos pra tirar foto de um singelo hotelzinho art déco, perto do Terminal Central de ônibus, que, junto com o Fórum e a Prefeitura, concorrem ao título de coisa mais feia no universo conhecido ( junta com o Shopping Dom Pedro e teríamos os Quatro Horrores da Humanidade)...
Fui descendo e clic, clic, e os populares ali. Consegui bater fotos do lindo e destruído Palácio da Mogiana, e de um sobradinho que o povo pintou de laranja apaga-a-luz. Sim, porque existem tradições campineiras que são mantidas à risca: ninguém fotografar o centro, podarem tanto a copa das árvores que acabam matando as coitadas, e gastar a cartela inteira da Suvinil e escolherem as piores cores pra pintar tudo ( vide a linda Escola de Catetes, no Chapadão, sempre em rosa bebê, o que avilta a fama já aviltada da nossa urbs).
Pois bem, na frente da Catedral Nossa Senhora da Conceição ( cuja história é interessante: dentro, do início do século XIX, fora, do início do XX: dentro, em cedro, oficina baiana que fez Senhor do Bonfim, fora, risco de Ramos de Azevedo), sai a rua Conceição, que logo ali encontra com a Barão de Jaguara. Na esquina, está um casarão, que hoje é uma farmácia. Pois bem. Quis tirar uma foto de algo que sempre me encantou; o medalhão que encima a fachada, e que fica espremido, hoje, por uma horrenda placa. Tentei do outro lado da rua e não obtive sucesso. Só que detalhe, duas da tarde de uma segunda-feira, eu no coração da velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, Ponte Preta que perdeu de novo, aquilo tava mais cheio de casamento de pobre.
Tento e só dá fio do poste, neguinho me empurrando, os negos da farmácia achando que eu tava tirando foto de prateleira de remédio ( ó Senhor, pra quê?), uma chata com um carrinho de bebê, uma multidão dos jovens da Toca de Assis, e um mendiguinho que achava tudo um barato. Vou pro outro lado, e passa carro, resolvi ir pra perto e tentar, mesmo sem muito recuo, pegar uma imagem. Nada, recuei o zoom da máquina, até que...
Sem perceber, fiquei de joelhos. Foi algo surreal, no meio daquela gente toda, eu de joelhos, mochila, cachecol, e de joelhos, na esquina da Conceição com a Barão de Jaguara, tirei essa foto aí de cima. Não é Paris, meus amores; sim, é Campinas.

Monday, May 05, 2008

O pulo de Guido


Boccaccio nos conta, no Decameron, que de certa feita o poeta Guido Cavalcanti, amicíssimo de Dante e homenageado pelo tiozão na Comédia, estava a andar por Florença, quando perto dos túmulos do cemitério foi atacado por jovens inúteis da cidade, em seus cavalos. Os jovens desocupados quiseram pegar o poeta, que cortesmente se despediu e, dando um salto e uma pirueta, saiu voando e fugiu por entre as sepulturas.

Ítalo Calvino, nas suas Seis lições americanas, que aqui no Brasil sairam como Seis propostas para o próximo milênio, dedicou um belo texto ao caso, sob o título e na qualidade da Leveza. Segundo Calvino, a marca da poesia de Guido era justamente a leveza, ou, como num poema seu, a singeleza de um floquinho de neve, de uma gota de chuva na vidraça, de uma borboleta amarela no caminho ou de um pouquinho de queijo ralado em cima do macarrão na manteiga. A leveza, segundo Calvino, era atributo dos heróis e dos deuses: basta pensar em Perseu, cavalgando Pégaso pelos ares, ou de Hermes e suas sandálias aladas. Porque a leveza não vem da superficialidade, como alguns se permitem supor: como diria Bashô, vem do pulo da rã no tanque.

Hoje eu acordei, fiz a lista dos meus afazeres, preparei um capuccino bem cremoso, e me deitei enroladinha no cobertor azul. E pensei em várias coisas, no meu trabalho e na minha vida, nos últimos anos. Pensei, com muita clareza, que meus anos do doutorado foram uma incursão num mundo de trevas, de dor, de destruição e angústia: esse Meio do Caminho tudo registrou, anteviu, e discutiu. Eu me sentia pesada, em todos os sentidos. Nunca tive o dom, meio paranóico, de ver/antever adversários, oponentes, ou meros mauricinhos de Florença em seus cavalos cheios de plumas. Me sentia pequena, insignificante, a ponto de estar sempre fora das competições, dos torneios da vida acadêmica. Hoje sei que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: sim, continuo sendo alguém de posição muito modesta, mas que encontrou jovens florentinos pelo caminho sim. A sorte é que, no último minuto, meu último pulo me levou rumo a um novo caminho, a este novo caminho que o Meio registra também, em sua generosidade.

Numa de minhas novas tarefas, descobri algo muito lindo: um manuscrito florentino, circa 1427, do Decameron. Está guardado na Biblioteca Nacional da França, sob o tombo de Ms.Italien 63. Dá pra ver todas as ilustrações dessa maravilha no portal Mandragore, em http://www.bnf.fr/. Digitar Bocacce, se não não vai. Ficou inacabado, mas é uma jóia, e ver Boccaccio ilustrado é como ver o tiozão ilustrado: ou seja, uma panela cheia do melhor macarrão, ou uma noite de amor daquelas! Porque todos nós temos que ter um pulo de Guido.

Thursday, April 24, 2008

Meu mundo caiu....

Ontem o Celo me disse que a querida Elisa tava preocupada comigo. Disse que ela de vez em quando passa por aqui e tem a impressão do mundo estar caindo! Achei engraçado a expressão que ele usou, ou que ela usou, não sei... dá vontade de cantar a plenos pulmões, meu mundo caiuuuuuu....
Então. Sim, meu mundo caiu sim. Mas isso foi ótimo! Vou tentar explicar. Eu estou diferente, só isso. Tive a comprovação ontem, fui na Unipunk, compromissos e tal. Rever o lugar, as pessoas, mas me sinto tão diferente... teve um hora, durante o dia, que temi voltar pro mais do mesmo. Mas depois, conforme as horas foram passando, percebi que isso não vai acontecer, não acontece mais, simples assim. Estou diferente. Um certo mundo caiu, mas outro começou no lugar, não se preocupem, fofuras da minha vida! A panda está trampando mais do que nunca, lutando demais e conseguindo coisas legais pra ela. Apertos a gente passa, mas é o normal, o esperado.
Senti ontem, em pessoas, a tensão de "o que essa nega vai fazer agora da vida". Quatro anos no tiozão narigudo e no tiozinho barrilzinho deixaram as pessoas traumatizadas, com medo que a panda virasse uma figura alegórica num afresco de Giotto, ou uma coisa que o valha. Mas não, pessoas, eu sobrevivi, e aquela Paula de antes inventou um lugarzinho pra si própria, sem tanta tensão, sem tanto sofrimento, e melhor, sem algumas almas danadas que me atazanavam a vida! Eu acho que tenho motivos pra comemorar, pra poder ver que realizei algo, pequeno, modesto, mas como disse uma amiga ontem, sério, e que me faz muito feliz.
Foi muito bom essa parada, essa saída do meu novo lugarzinho, e ver que andei até chegar a ele. Tudo nessa vida custa, e às vezes as coisas custam muito. Estava cansada, exausta mesmo de tanto trabalhar,e ontem percebi com clareza que apesar disso, estou muito bem. E que estou mais e mais animada com minhas coisas e meu lugar... estou feliz.

Wednesday, April 16, 2008

Anunciação


Fiquei muito triste nos últimos dias, faleceu o querido professor Luiz Carlos Dantas, do departamento de Teoria Literária. O prof. Dantas foi alguém super importante na minha trajetória, devo muito a ele, e aqui expresso meu pesar e minha homenagem singela.
Mas talvez a melhor maneira de se homenagear um mestre querido que se foi é continuar na luta, na labuta, no plantio e colheita. Hoje acordei mal, mas depois consegui me empolgar com um dos projétios Tabajara e acho que vai rolar. O anjo veio e anunciou, e eu respondo, faça em mim a vontade do Senhor!


E segundo Alceu, a gente escuta os sinais, daquele que vem. Eis, que depois da consumação, a névoa.

Anunciação, atribuída ao jovem Leonardo ou à oficina de Verrocchio, circa 1474.

Saturday, April 12, 2008

Eu vejo flores em você...

Acabei de ver um email da Nenem com a linda notícia de que nasceu ontem, dia 11, Isabela, filha da Ziza e do Mi. Isso porque há dez minutos atrás, chegando na casa do Celo com o próprio, no meu carro, eu gritei desesperada, cadê meu carro! Roubaram! Vejam como está a cabeça da panda!
Mas agora tudo está divino maravilhoso. Parabéns ao Mi, à Ziza, à Nenem, ao Clis e a nós todos, por termos mais uma companheirinha de nachadas e baladinhas. Que a Isabela seja muito feliz, tenha saúde, amor, paz e tudo de bom que a vida oferece, inclusive tias panda!
Voltando ao momento panda stress. Assim como os panda, que são alugados pelo governo chinês para zoológicos de todo o mundo, e de vez em quando precisam morder negos bêbados que entram em suas jaulas ou posar para fotos com a rainha da Espanha, a panda nunca trabalhou tanto na vida. Sério, gente. Agora, nesse momento, eu preciso fazer uma tradução do inglês de um livro de 300 páginas ( pra pagar as conta! O pogréçio vem do tabáio, já dizia Adoniran), estudar pra um concurso de História da Arte brasileira ( no qual minhas chances de aprovação são nulas,ou melhor, inexistentes, mas mesmo assim não vou relaxar e dar vexame, chamando Franz Post de Genival Lacerda), preparar aulas sobre Dante ( sim, caríssimos, chamaram a panda de volta às paragens infernais, aos monstrinhos da Antigüidade e ao tiozão narigudo) e mais cúrsios e projétios Organização Capivara de História da Arte, para diversos meios e fins. Trambiques, tramóias, picaretagens e eventuais surtos à parte, eu acho que nunca estudei tanto na vida.
Talvez no vestibular... onde peguei firme, mas minha vida escolar sempre foi marcada por marretagens de toda a espécie ( as piores delas foram minha tese de doutorado, e um mapa-múndi em quebra-cabeça que fiz na sétima série... acho que a tese foi pior!)... resolvi me tornar uma pessoa séria, ir no Kalunga, comprar cadernos e pastas, arrumar estojos com canetas funcionando, apontar meus lápis... e verás que uma filha sua não foge à luta! Nem teme, quem te adora, a própria morte! Nesse processo de "seriedificação", viciei-me em post-its! Alguém aí é viciado em post-it? Agora inventaram um grandão com pauta, nove pilas, que está na minha wish list, junto com uma passagem para Katmandu e um rolex de Ouro ( mais fácil eu conseguir, em sorteios do feijão Broto legal, os dois primeiros itens, que o post-it com pauta)...
Pois bem, caríssimos. Já podeis da Pátria os filhos, ver contente a mãe gentil.

Sunday, April 06, 2008

De amor e de sombras

Já faz um tempo que o Meio não comenta assuntos das trevas infernais, digamos que a panda entrou num purgatório emocional faz tempo, o que muito me conforta. Mas o caso da menina Isabella Nardoni me deixou com os cabelos em pé, vocês me desculpem mas eu preciso comentar algo.
Não é só no Brasil que casos extremos de violência contra crianças, idosos, mulheres e homens, plantas e animais, ocorrem com uma regularidade e insistência que exaurem a gente, até os ossos. E a cobertura da mídia, sempre aquele circo, além de todo lixo veiculado na internet ( tem quem faça comunidades no Orkut comemorando a morte brutal da garotinha, tem quem brinque e ache legal, e no fundo pense em fazer o mesmo qualquer hora dessas). Tudo tão grotesco, que se repete, sempre se repete, ad nauseaum. Eu sempre penso que a violência e a pornografia, nos dias que correm, são os dois lados da mesma velha e gasta moeda: na pornografia, os casais/trios/equipes sempre transam do mesmo jeito, o mesmo roteiro, a mesma cópula repetida ao infinito ( com requintes da perversão, pro povo comprar pelo fetiche novo ou aberração diferente), e no caso da violência, sempre uma escalada rumo ao terror, ao horror, à brutalidade pura e simples. Tudo virtual, daí pra passar pro real é tão fácil, tem tanta gente no mundo, pode-se matar e jogar pela janela, que está tudo beleza.
Fazendo isso no Brasil, então, ótimo, esse país com essa tradição da violência gratuita, da impunidade, de gente que arrota burrice e acha isso o máximo... penso em todas as vítimas inocentes desse sistema que reinventa, sempre, o significado da palavra perversidade.
Será que Eros vencerá Tânatos, ao menos no íntimo de alguém, nos dias que correm? E no caso Isabella, a montagem de uma cena do crime tão incoerente... uma das características do mal é a arrogância. Sempre que tem arrogância, tem coisa podre, morta, perversa, narcísica grotesca. Podem reparar: quem mata, abusa, corta árvore, mata bicho, é arrogante. Pensa que é imbatível. No nosso caso, voltando, a impunidade reforça a perversidade de muito neguinho desocupado. Nesse vale de lágrimas, só a compaixão, como diria Rousseau, nos salva. Só o ato desprovido de egoísmo: e não, não existe nenhuma razão fora do mundo para que as pessoas ajam corretamente ( não existe mais Deus, nem metafísica, nem nada): essa razão surge do diálogo e do conforto de se saber gente. Do dia-a-dia, do cuidado de si e dos outros, da pitié, essa palavra tão bonita que o Rousseau usa pra dizer da luz delicada de outono, que existe quando o bem surge entre os homens, quando a justiça é feita e quando o mal não é reparado, mas não é esquecido. Ontem saí de casa, e senti o cheiro do inverno, de vida, de piedade e de luto.

Monday, March 31, 2008

O velho Roque

Eu devia ter uns doze anos, quando gravei, no meu primeiro Mini System, uma fita cassete com um especial, narrado por mim mesma, da História do Rock and Roll. Sério. Começava nos Beatles e terminava num excurso sobre o rock brazuca, no caso, os Mutantes e os Titãs ( nunca demasiado lembrar, a panda é do tempo que os Titãs eram os Titãs do Iê Iê Iê).

Na época, eu era uma leitora contumaz da revista Bizz, e colecionava umas fichas de bandas, pôsteres e canções, gravadas do rádio. Notem que eu morava em Jundiaí e tinha 12 anos, ou seja, as minhas possibilidades estético-artístico-musicais eram muito limitadas. Eu adorava assistir o Som Pop, domingo à noite, na TV Cultura. O Kid Vinil apresentava os vídeo clipes, a única forma de atualização da então panda mirim no velho e bom roque-ên-rou. Depois, surgiu a MTV no Brasil, e eu lembro que a gente tinha que pôr o UHF na antena, ( sim, aquela pirâmide de plástico) e pedir pro irmão mais novo segurar a tal numa determinada posição, fazer uns passos de macumba e rezar pra que a transmissão não caísse, antes que o irmãozinho não resolvesse te denunciar pra mãe ou pra qualquer ser de mais de 18 anos. Lembro da primeira transmissão, quatro da tarde, o clipe foi Garota de Ipanema com a Marina, linda e elegantíssima, de laranja.
Os clipes eram um mundo a parte. Achei ontem no Youtube e passei na mesma hora pro Celo e pra Danis um dos meus favoritos de todos os tempos, PHD e I Won't Let you down ( aaaaaaaaa, eu vou ler jornal, vou ler jornal, vou ler jornaaaaaaaaal). Mas isso ainda não é rock, vão me dizer. É pop do mais descarado, sim, sim, eu ouvia Jovem Pan, no Gradiente prateado da sala.
O roqueiro mesmo é o cara udigrúdi, que vai no barzinho obscuro e conhece as bandas obscuras de todos os tempos. Pressupõe um meio ambiente que eu estava longe de participar, a mundos de distância. Mesmo depois de um pouco crescidinha, nunca fui descolada, nunca apresentei bandas pros amigos e sempre me detive no clássico. E sempre gostei do pop, e das fusões com funk, soul e sei lá mais o quê. Sim, claro que eu tive meus All Stars, e minhas trocentas calças jeans, com uma camiseta bege e a letra de Starway to Heaven. Gostava de Prince também, gostava de tudo, até hoje gosto, sou um dos raros casos de ecletismo musical que já vi na minha vida.
Agora, eu percebia claramente, nos meus 12 anos, que rock é atitude. Sede é tudo, imagem não é nada: roqueiro não se cria, não se copia, se é. E pronto. Tem gente que achava, nos meus tempos de juventude, que era comprar o vinil obscuro e tecer um discurso blasé-rock-punk-funk-s'il vous plaît e tava valendo, referências obscuras e muito intelequitualismo faziam o roqueiro. Roqueiro também não é o que enfia o pé na jaca 24 horas por dia, isso é o lado superficial da coisa. Difícil é manter o topete roquêro em pé quando se precisa...

Tuesday, March 25, 2008

Missão impossível

E daí que aqui em casa, as coisas acabaram. Sabe quando até aquele pacote de macarrão, do mais barato, que a gente deixa em caso de hecatombe nuclear, escondido embaixo da pia, foi embora?
Bem, acabou até o papel higiênico, e mesmo eu sendo uma panda pobre, tive que encarar um mercado na minha vida.

Eu notei, na última visita ao supermercado, que as coisas ficaram muito mais caras. Alguns produtos subiram 50%, e o orçamento do brasileiro vai que vai, só no sapatinho até o dia clarear. Não li nada de muito conclusivo na imprensa a respeito, mas o fato é que eu fiquei uma panda mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Peguei cinqüenta reais, que era tudo que eu dispunha, e fui pro Atacadão.
Aqui em Campinas, já faz uns anos que existem grandes atacados, três deles no final da rodovia Dom Pedro, o Makro, o Tenda e o Atacadão. A panda dona-de-casa gosta mais do Tenda, sei lá porque, e há anos faço minhas compras lá. Por mais enjoado que possa ser chegar ao local, e pegar caixas de papelão porque não existem sacolas, e enfrentar as multidões de donos de bar, cantinas, restaurantes ou, pior, chefes de famílias que precisam comprar cinco pacotes master de Salsicha Sadia, o Tenda era minha única opção para comprar pão, leite, dois produtos de limpeza, biscoito Marilan e papel higiênico, bem como pacote de macarrão pra repor o da hecatombe, com meu apertado orçamento.
Bom, queridos leitores, agora vocês vão precisar de um trilha sonora mental: a musiquinha do filme Missão Impossível. Sim, porque do jeito que a coisa está, é mais difícil fazer compra do mês do que detonar a base escondida de espiões chineses numa ilha paradisíaca, com uma loira peituda do lado e um clips de papel que na verdade é uma mini bazuca.
Agora já tá tocando a musiquinha! Entro no Tenda, com meu carrinho e vejo pilhas pro meu mp3. Não, não dá pra comprar, desvio das pilhas e vou direto nos produtos de higiene. Música é luxo! Sabonete? Palmolive, peloamor, sou pobre mas vou ficar fedida? E a musiquinha continua, eu faço as contas mentalmente e dou uma guinada com o carrinho nos produtos de limpeza. Preciso fazer faxina amanhã, acabou o produto para o piso. Como eu faço? Lambo o piso? Não, desvio de cinco donas de casa, um estoquista e um menininho chorando, e vou pros Vejas. Veja maçã verde Limpeza Pesada, um toque oitentista no seu lar ( quem lembra dos produtos de maçã verde do Boticário? Só eu?), mais uma guinada perigosa e a panda superdetetive vai pros leites. Esbarro num senhor com cara de sofrimento e um carrinho que explica sua cara de sofrimento ( o cara deve sustentar umas 40 pessoas! Quase peço pra ser adotada...) e eu e ele vivemos a emocionante missão de pagar o leitinho das crianças no preço que tá.
Corta, alguém já viu os quadros do Terça Insana? Quem não viu, procure a líder comunitária que escreveu "Como Criar seu Filho na Favela", Terça Insana, no Youtube. Veja lá, e você vai entender: difícil comer morango com chantilly, no preço que tá.
Levo um susto nas massas: até o macarrão, gente! Até o macarrão que sempre salva a vida do povo, nos traiu, nos abandonou! Lembro da Carolina de Jesus, no seu Quarto de Despejo, não leu, leia agora. Ela bonitinha viu o feijão subido, e lascou: agora tu é aristocrata, né, negão? O velho carcamano que não deixa panda nenhuma na mão, que não deixa o barraco cair, que pode ser feito de todas as formas que a culinária raçuda permite ( e são inúmeras!), até o macarrão foi pro time dos bem-nascidos.
Dureza! Por isso que eu falo, por isso que eu clamo, por isso que eu digo:a missão impossível do Tom Cruise não é nada! Quero ver pôr o cara no Tenda Atacado com a lista que eu tinha, e com o meu orçamento!!!!!!!!!!!!!!!

Sunday, March 23, 2008

Páscoa

Todos os anos o Meio acompanha o calendário litúrgico. Por hábito mesmo, hábito antigo, arraigado, eu sigo mais ou menos o calendário das festas cristãs, mais do que do calendário laico, republicano. Mesmo que eu não faça nada, eu vejo as luas e as estações do ano pelo Natal, Páscoa, etc. Ano passado, vi a lua cheia do Natal, pura prata, na Chapada dos Guimarães, lendo um lindo livro Em Nome da Mãe, Erri de Luca, Cia. das Letras, que a Ju tinha dado pra mãe dela. O Luca escreve a história de Maria, Myriam, em primeira pessoa, muito tocante.
Semana Santa, eu sempre fiquei triste. Quem tem educação católica sabe porquê. Mas esse ano aconteceu algo inédito, eu fiquei feliz a semana inteira. Porque é Páscoa. Pela primeira vez eu pensei no lado glorioso da coisa e tocou Haendel dentro de mim, a semana inteira em graça, na mais pura graça.
Saibam que tudo na Comédia acontece em três dias: Dante se perde na selva oscura na Sexta-Feira Santa, está no Purgatório no Sábado de Aleluia e vê Beatriz nas primeiras horas do Domingo de Páscoa. Agora ele já está no Paraíso de novo, com ela... encontrando São Bernardo, São Francisco, e seu tataravô Cacciaguida. Então, l'amore, che muove il sole e altre stelle... é lua cheia de novo, estou feliz. Beijos pascais-dantescos para todos!

Wednesday, March 19, 2008

Um certo capitão Rodrigo

Uma das tarefas que pus pra mim, nos últimos tempos, foi a leitura de O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo. Li os sete volumes, direto, sem parar e sem querer parar. No meio, li a fonte de muito daquilo tudo, o Caminho de Swann, do Proust, e estou surpresa comigo mesma, porque sempre fui impaciente o bastante para encarar romances muito extensos, e os meus gêneros favoritos foram o conto e a poesia,desde muito cedo.
Mas os Terra Cambará se tornaram meus amigos, de um jeito que me despedi, com melancolia, de Ana Terra, Bibiana, o capitão Rodrigo, Maria Valéria, o doutor Rodrigo, e os belos e tristes Floriano e Sílvia.
Recomendo a saga para todos, o Veríssimo é um cara muitas vezes injustiçado na academia ( aliás, a gente poderia fazer uma lista dos autores que são mal estudados ou simplesmente ignorados pelos doutores em Letras das universidades brasileiras) mas que soube construir um edifício incomparável em língua portuguesa. Existem passagens belíssimas, cinematográficas, plásticas, sonoras, cinestésicas, que deixam a gente sem reação, esperando o próximo passo, o próximo desdobrar.
Inevitável pensar no tempo que corre, e nas coisas que se repetem. Desde Pedro Missioneiro, o mestiço de índio que foge da destruição das Missões jesuíticas, e de Ana Terra, a moça paulista presa ao pragmatismo português mais chão, os Terra Cambará tiveram paixões e sofrimentos que se repetiram, que voltaram, e a gente fica a se perguntar o quanto a gente tem das gerações passadas e não sabe. Quanta história perdida, e o mais importante é o que não ficou dito, o que não foi realizado, o destruído, o minuto que se vai.

Friday, March 14, 2008

Allons enfants de la patrie!

Caríssimos! Ao som da Môme cantando a Marselhesa, declaro abertos os portos, a Bastilha e o velho, combalido e censurado Meio do Caminho!


Tive semanas péssimas, e o Meio sofreu graves desagravos, pela primeira vez em sua trajetória no hiperespaço. Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada. Eu ouvi por acaso a grande Piaf cantando o hino dos narigudos que tacaram fogo na Bastilha e aboliram aquelas peruquinhas brancas ( vamo combinar, devemos isso aos grandes jacobinos). Ontem eu estava lendo, da coleção Vida Privada, Paris no tempo do Rei Sol, do Jacques Wilhelm, e você entende porque eles fizeram isso. Tudo bem que hoje a França virou Sarkoland, mas pensemos na trajetória histórica, como diria Marx.
Lembrei que, quando tinha uns 12 anos, foi o segundo centenário da Tomada da Bastilha. Veio, junto com a Istoé que meu pai assinava ( eu sou da época que a Veja e a Istoé eram boas revistas), um volume, traduzido, sobre os acontecimentos revolucionários. Apesar da pequenina panda ser uma menina católica de Jundiaí, na hora escolhi de que lado estava, e me apaixonei desesperadamente por Robespierre. Só hoje lembrei do livro, da minha paixão por Rousseau, e resolvi abrir de novo o Meio e mandar pra guilhotina do meu coração os eventuais chateados com minhas pobres palavras!

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!

Tuesday, February 26, 2008

A mulher de Lot


Diz o Gênesis que Deus mandou destruir Sodoma e Gomorra, por motivos bastante conhecidos. A família de Lot, sobrinho do patriarca Abraão, foi avisada e os anjos vingadores avisaram: nada de olhar pra trás. Lot, a mulher e as duas filhas saíram correndo; mas a saudade, a curiosidade, a fraqueza fizeram a mulher olhar para trás, e ela virou uma estátua de sal ( Gênesis, Capítulo 19, versículo 26).



Hoje pensei, uma coluna de sal, de tantas lágrimas que verteu. Olhar para frente, olhar para frente.
Acima, La femme de Loth, escultura em mámore de Ciane, escultura francesa contemporânea. Academia Aix-Marseille.

Sunday, February 24, 2008

Mulher ansiosa e poeta chinês

Eu, hoje, sofro da tristeza que vem da impaciência bem feminina. É bem feminino esse dilacerar-se, querer resolver pessoas, coisas, situações, como se bate um bife, se descasca alho, se põe a roupa no varal: de estalo, de pronto, de supetão. Nessas horas, é preciso pensar como homem: o tempo distendido, dos quinze aos noventa os homens estão sempre iguais, a produção hormonal sempre igual, enquanto a gente dos treze aos cinqüenta tem esses picos de agonia e vales de profunda depressão, no mesmo mês.
Ok, ok, fisiologia não explica tudo, mas como diria Simone, anatomia é destino sim. Pelo menos numa sociedade que acha que a fisiologia explica tudo. Hoje estou impaciente, acordei zangada e quero resolver.
Essas horas são particularmente perigosas. As palavras, como se diz no Evangelho, escapam da barreira dos dentes com muita facilidade. Pra quê enviar email de desaforo? Pra quê revirar o passado e encontrar um fio, como Ariadne, e puxar não só Teseu mas o Minotauro e o Labirinto inteiro?

Lembro de Li Po e Tu Fu, na tradução de Cecília, na cabeceira, e os velhos chineses me salvam:
"Uma canção, ao longe... É um mendigo. Se ele canta, esse velhinho que jamais teve nada, porque gemes tu, tu que possuis tão belas recordações?"
Tu Fu, 712- 762 d.C, tradução de Cecília Meireles.

Thursday, February 21, 2008

Técnica em Astronomia

Há exatos dez anos atrás, eu perdi meu pai. Um pouco antes do falecimento dele, saiu um edital pra um mega concurso da Prefeitura aqui de Campinas, vagas em muitas coisas. Eu tava no último ano de Sociais, e começava já a me preparar para o mestrado. Lembro que comprei e estava lendo trechos da Formação da Literatura Brasileira, do Antônio Cândido, e ia conversar com a professora Élide. Pensei em me encaminhar pra área de Pensamento Social, estudar Caio Prado, e comentei isso com meu pai, ele já no hospital.
Ele faleceu, dias depois. Fiquei em casa, em estado de choque, durante muitos dias, tomando sedativos. Um dia acordei e parecia que uma manada de elefantes havia passado em cima de mim; resolvi não tomar mais os remédios e fazer alguma coisa da vida, reagir. Não podia prestar o concurso para a vaga de socióloga, não tinha ainda o diploma. Mas uma coisa no edital da Prefeitura me chamou a atenção.
Abriram, não se sabe porquê, uma vaga em Técnico em Astronomia. Era pra segundo grau, e pra trabalhar no Observatório de Capricórnio. O Observatório tem o maior telescópio ótico do Hemisfério Sul, uma coisa ultrapassada tecnicamente vamos dizer, mas por isso mesmo encantadora. O astrônomo francês Jean Nicolini montou o Observatório na serra das Cabras, em Joaquim Egídio, que é um dos lugares mais bonitos que já fui e um dos meus favoritos.
Não tive dúvida. Me inscrevi pro Técnico em Astronomia, e comecei a estudar. O programa era simples: Astronomia de posição ( ou seja, trigonometria), um pouco de Ótica, um pouco de Geometria euclidiana, coisas básicas de Astrofísica. Tipo, era pra alguém limpar as lentes do telescópio, falar pras crianças que astrólogo não é a mesma coisa que astrônomo e gastar as noites de inverno atrás de Marte.
Comprei um livro russo de Astronomia num sebo ( era uma versão em espanhol de um manual russo) e comecei a estudar, pus o Poliótico ( vocês lembram desse brinquedo? Era um conjunto pra montar binóculos, microscópios, lunetas, excelente) na sala e comecei a montar, com as lentes, pequenos objetos de observação. Desencavei a velha coleção das SuperInteressantes, uma coleção de Matemática que era o orgulho do meu pai e do meu irmão, o compasso e a régua, e gastava meu tempo calculando as posições da Beta do Centauro, entre zênites e esplendores.
Quando a gente olha pro céu estrelado, vê o passado: muitas daquelas luzes nem existem mais, a luz viajando tão rápida no espaço infinito. Às vezes, saía com meu ex-namorado, um químico, cientista brilhante, pra ver estrelas, e me consolava saber que olhava pro passado, antes mesmo do meu pai nascer, e que aquelas luzes atravessaram o vazio enquanto ele viveu. Eu saía da dor, do sofrimento, pensando na trajetória irregular de Plutão e enquanto limpava minhas lentes. Tantas vezes pensei que queria me transportar pra outras galáxias, outros sistemas planetários, e pensava no quanto a gente é pequeno, infinitamente pequenino, diante dos mistérios do Cosmos.
Fiz a prova sob a reprovação da minha mãe e meu irmão, no velho colégio Carlos Gomes. Lembro que o filho do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão prestou a prova ( era fácil saber que ele era filho do cara, era a cara dele).
Ontem, eu tava remexendo meus documentos atrás das coisas pra outro concurso, esse agora pra História da Arte. Nem sei se vou poder me inscrever, o meu título de doutorado não foi homologado ainda ( burrocracias da cidadela zeferinítica). Mas eu tava lá, atrás dos meus diplomas de Primeiro e Segundo Graus ( sim, eu sou desse tempo). Achei um caderninho de anotações do meu pai, instruções para mexer em alguma cenozóica versão do Word Windows, e no caderninho tinha umas contas na letra horrível do meu irmão e um mapa maluco da Unicamp, esse da minha lavra. Nem sabia que esse caderno existia. Não lembrava de nada disso.
E junto com meu diploma de Primeiro Grau, estava um jornal amarelado. Era a chamada do concurso da Prefeitura. Sim, caros leitores: a panda foi aprovada em Técnico em Astronomia Júnior, até com uma pontuação decente para quem na época cursava Sociologia e Antropologia. Evidente que jovens físicos passaram na minha frente, mas eu era candidata habilitada à vaga.
Pus isso no meu currículo LATTES. Fiquei feliz. Não é sempre que um Poliótico ajuda alguém a passar em um concurso público.

Wednesday, February 20, 2008

Firmar o pé

Nos últimos dias, coisas boas aconteceram. Fui pra SP, e encontrei por acaso a Patrix
, dona de um bonito blog que eu lia sempre. Coisas aconteceram na blogosfera, ela fechou o blog. A gente comentou, no metrô direção Jabaquara, como essa coisa de blog faz bem e como às vezes tem gente que confunde tudo, acha que o blogueiro é tiozinho do Big Brother. Falando em blog, achei o do Luiz Felipe de Alencastro, olha lá, sr. Na Prática:http://sequenciasparisienses.blogspot.com/

Vi Eduardo, Verônica e Zé, foi engraçadíssimo porque vi os três figuras no mesmo buraco do espaço-tempo, as pontas de SP vão se unindo e eu vou ficando com cada vez mais vontade de me pirulitar, de vez, pro velho Piratininga.
Resolvi prestar um concurso aí. Não tenho chance nenhuma, tem sete colegas mais velhos do eu que vão se inscrever, isso do que eu sei. Mas eu tenho que tentar, e fico escrevendo meu memorial sem o menor entusiasmo. Tô de mau humor com essa história, preciso melhorar.
Fui na casa de uma amiga consultar uns livros pra um dos pontos do concurso, sobre história da gravura no Brasil, e descobri o acervo que existe no Centro Cultural São Paulo, que tá fechado por causa do imbecil que jogou um balão, que caiu em cima do negócio ano passado. Esse balão pode ter destruído Rugendas, Matisse, o fantástico acervo que, agora eu sei, existe lá por obra de graça do Sérgio Milliet e da Maria Eugênia Franco, os antigos responsáveis pela Biblioteca Municipal Mário de Andrade. Fiquei emocionada ao ler o depoimento do Marcelo Grassmann, sobre a importância da Biblioteca no cenário artístico de SP, nas décadas de 40 e 50. Meu pai não entendia muita coisa sobre arte, mas quando eu manifestei o desejo de estudar "essas perfumarias", ele me levou à Mário de Andrade. Bingo pro seu Pedro.
Firmar o pé, firmar o pé. E o boco do Lelê me apresentou Nino Ferrer, conhecem? Taí Mirza:

Friday, February 15, 2008

L'Aurora

Eu não vou mais encher o saco de vocês falando que tô triste. Panda triste já tá uma coisa óbvia. Me falta grana, me falta saco, o carro enguiçou por conta de combustível adulterado ( meu, é o segundo posto daqui de Campinas que fode com o Gerião por colocar álcool demais na gasolina), eu salguei demais o arroz com ervilha e presunto, não recebi meu salário, confusões com jornalistas, enfim, de tudo, foi variado o nervoso.
Teve o aniversário de falecimento do meu pai, dez anos sem seu Pedrão. Saudade, muita. Mas tudo bem, eu revi gente querida, trabalhei em coisas legais, estudei, fiz coisas novas e vocês vão me desculpar, hoje vou falar de Eros Ramazzotti. Isso, Eros Ramazzotti. É brega mas como eu já falei aqui no Meio, a Itália é inteira brega, eu sou cafona e o Sarkozy deu o mesmo anel horroroso Dior de coração cor-de-rosa pra ex e pra atual ( vocês hão de convir que isso, mais a nova legislação de imigração que o cara quer fazer a francesada engolir, é mais terrível que pandinhas ouvindo Eros Ramazzotti).
Enfim, como todo bom estudante de italiano, você ouve Lucio Dalla e eu queria muito fazer uma Teoria da Tradução na Música Comercial Brasileira, porque você descobre que Tutta la Vita do cara virou Tô p. da vida do Dominó ( e quando vai estudar français, confere que Joe Le Taxi da Vanessa Paradis vira Vou de Táxi da Angélica). O Eros é de lascar, reconheço, tem umas coisas dele que dá vontade de chorar de... nervoso, de novo. Mas tem uma cançoneta dele que eu gosto demais, L'Aurora. Eu gosto demais da idéia que ter o sonho realizado é como a aurora. Hoje acordei cedo e vi a aurora na rua, é rápido ver um novo dia nascer. E quando o sonho calha de acontecer, é tão rápida a felicidade, também, e eu fiquei cantando a plenos pulmões, no meu italiano Adoniran, L'Aurora.
"(...)Forse un giorno tutto cambierà/ più sereno intorno si vedrà/ voglio dire che/ forse andranno a posto tante cose/ ecco perché/ ecco perché/ continuerò/ a sognare ancora un po'uno dei sogni miei/Quello che c'è in fondo al cuore non muore mai/ se ci hai creduto una volta lo rifarai/se ci hai creduto davvero/ come ci ho creduto io/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà/ Sarà sarà l'aurora/ per me sarà così/sarà sarà di più ancora/tutto il chiaro che farà"...

Monday, February 11, 2008

Sonhos


Como sempre, ando perdida em pensamentos. Mas tive que enfrentar umas coisas não muito agradáveis, pro meu próprio bem, nos últimos tempos.



Durante muito tempo, tenho que confessar que preferi ser a dama de companhia, ou a amiga engraçada, a coadjuvante nas histórias de amor, de sucesso profissional, de viagens, de algumas amigas queridas. Eu sempre dava um jeito de estar perto, de ajudar, de torcer, de desejar tudo de melhor da vida para elas. Cheguei a agir, de forma concreta, no sentido de estabelecer uma ponte entre o que elas diziam querer e seus objetivos; às vezes essas pontes eram pontes Rio-Niterói, grandes construções da ditadura militar, muito concreto e milhares de operários nordestinos socando a lenha, noite e dia.


O que ocorre é que, nos últimos três anos, essas amigas se afastaram de mim, por motivos vários. Em alguns casos, evidente que me senti rejeitada, sozinha, e injustiçada. Mas, faz algum tempo, percebi que a responsável de toda a situação era eu mesma. No final, quantas vezes eu preferi não pensar nas minhas coisas, não correr atrás do que eu queria, não encarar o que me fazia sofrer.


Um amigo queridíssimo me disse dia desses, foque nos seus sonhos e nas amizades lindas que ficaram. Sim, ele tem total razão. É isso em que consiste o pão de cada dia, a matéria da vida.


Em cima, da série fotos panda ao redor do mundo, a entrada de um sobrado em Golden Coast, na Chicago que tanto amei.


Hoje, me sinto em alguns momentos solitária, sozinha, vazia. No final, fugi tanto dos meus sonhos, e eles é que me fizeram companhia, mesmo relegados ao terceiro, quarto plano; eles permaneceram comigo todo esse tempo. Sou grata a eles, por terem me acompanhado mesmo assim, por não terem morrido, por existirem com tanta força e beleza quando me apareceram pela primeira vez. Vi num relance, numa livraria, um livro de auto-ajuda entitulado "Dá trabalho ser feliz". Sim, dá. Muito.

Saturday, February 09, 2008

Da tradição clássica


Andei lendo, nos dias chuvosos e sem grana do Carnaval, coisas muito interessantes.


Li de uma sentada Nos Submundos da Antigüidade, livro já clássico de Catherine Salles. É interessantíssimo: a autora reconstrói a prostituição, a escravidão, em Atenas, Corinto, Alexandria e Roma, para demonstrar como o ideal clássico da igualdade entre o belo e o bom estava ancorado numa sociedade aristocrática e de mecanismos ambíguos. Dá muito o que pensar as análises da economia sexual greco-romana: ao mesmo tempo em que o poderio de Alexandre e depois dos romanos crescia, as desigualdades internas aumentavam, e com isso, os conflitos entre os setores sociais e a tensão sexual.


Me animei e depois peguei Os reis taumaturgos, do Bloch, que já li uma parte; mas me aborreci ao lembrar que preciso terminar antes A sociedade feudal, e nisso o Celo me emprestou O caminho de Swann, larguei tudo e entrei em Combray, e fiquei felicíssima, completa, ao ler as descrições da igreja de Combray, criações do Proust em cima do Émile Mâle, grande historiador da arte que, em volumes corajosos de 1948, L'art religieux du XIIe au XVIII siècle en France, desvendou as origens das iconografias cristãs.


Uma das coisas mais incríveis da minha vida foi visitar o Camposanto de Pisa. No início do século XIII, a peste assolou a cidade e os munícipes construíram um lindo cemitério, um prédio retangular com um pátio central, circundado por conjuntos de ogivas e colunas. Pois bem. Pisa é, na origem, um aterro etrusco, depois uma cidade romana, e assim vai. Os pisanos do Trecento não tiveram dúvidas: ornaram as paredes de seu cemitério com os sarcófagos antigos, gregos, romanos, etruscos.


Os americanos, além de enviar duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, bombardearam a asa de mariposa que é Pisa; o Camposanto foi totalmente destruído, sendo depois reconstruído, pedaço por pedaço, pelos carcamanos teimosos. Os sarcófagos antigos se salvaram, bem como os afrescos, as ogivas.


Na manhã ensolarada, digna da Toscana, em que adentrei o prédio, vi, sem fôlego, o que ocorre quando a luz do sol bate nas ogivas e depois, nos sarcófagos antigos. Um rapaz indiano me perguntou se aquilo era um cemitério mesmo; respondi que sim, e ele falou, como o Taj Mahal.


A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano.

Monday, February 04, 2008

Arlequim e Colombina

E estamos em pleno reinado de Momo.


Como sói acontecer no festival da carne, as atividades da panda no feriadão se resumem em pular loucamente... da sala pro quarto, do quarto pra cozinha e assim sucessivamente.

Tentei com todas as minhas (poucas) forças escrever um trabalho para inscrever num concurso. Mas, segundo o regulamento, eu precisaria entregar 100 páginas no dia 7. Não tive forças. Odeio não fazer o que me proponho, em termos de trabalho, mas nos últimos dias tive uns aborrecimentos foda, ando triste, cansada e cheguei a entrar num certo desespero. Às vezes, confesso aos caros leitores ser difícil por a fitinha de Rambo na cabeça, tomar duas doses de uísque e entrar na selva oscura da História da Arte.
O que me salvou, como sempre, foram os amigos e o Celo. Revi gente muito querida, e ganhei um super estojo Panda do Clis ( hihihihi, Clis, thanks!). Assisti também, de presente de Dani Mônica, "O Gangstêr", e adorei rever o Russel Crowe ( né, Dani).... Gustavo e Marilinha foram os anfitriãos perfeitos, e ainda tive tempo de jantar com o Milton, que há tanto tempo não via. E a commedia dell'arte da vida continua, entre confetes, serpentinas e Pierrôs apaixonados.

Thursday, January 31, 2008

Persianas

Essa semana fez aniversário minha afilhada Mi, que recentemente perdeu seu pai. Há muito tempo sou uma madrinha destrambelhada, que vê a Mi uma vez por ano. Acho que há muito tempo eu sou destrambelhada em tudo, enfim.
Uma vez, a linda Mi ouviu um desabafo meu. A minha vida estava complicada demais, o meu coração estava aturdido demais. Ela me ouviu ( foi só um parágrafo, tipo, Mi, essa vida é complicada demais pra quem ama, com um suspiro)- e calma, me respondeu: "a gente tem que tentar ficar perto de quem a gente ama, eu acho".
Talvez tenha sido uma das coisas mais verdadeiras, mais calmas, profundas e sinceras que alguém me disse. Como olhar o fundo de um rio, as águas, de turvas, ficarem cristalinas. Como ter que apertar os olhos, quando o sol aparece detrás da nuvem.
O problema é que, em termos de sentimento, muitas vezes a vida da gente é um quarto, às duas da tarde, com as sombras das persianas nas paredes.
Eu queria ser simples, não ter essa engenharia complexa dentro de mim, essas dores, essas memórias e esses arrependimentos. Queria estar onde estou, ver as coisas como são, e não como eu, um dia, quis que elas fossem. E que meus dias fossem tranqüilos, como a voz da Mi me dizendo uma das coisas mais difíceis da vida.

Tuesday, January 29, 2008

Bandeira Branca

Fui ministrar um curso em Araçatuba, na Oficina Cultural de lá. Foi super cansativo, idas e vindas nas rodovias Marechal Rondon e Washington Luís, nove horas no busão mais dois finais de semana, das 9 às 18, de aulas direto. O tema era História da Arte na Escola, então foi muito bacana conversar com professores, com o pessoal de lá, das redes pública e particular de ensino.
Enfrentei tudo como pude. O problema é que desde muito pequena, quando encarava o estradão para acompanhar meu pai nas subestações e usinas da vida, viajar pelo interior significa pra mim passar um pouco mal, no sentido físico, mas tudo bem.
Viajar é bom. Eu fiquei muito presa nessa casa, no Caronte, escrevendo a maledetta, no ano que passou. O ruim é que, nas idas e vindas do e para o Noroeste paulista, fiquei com saudades de queridos que estão longe. Como diria Dalva de Oliveira, saudade, mal de amor. Mas vamos ver se, pondo bandeiras brancas nas minhas janelas, os queridos reaparecem!

Sunday, January 13, 2008

Mora na filosofia

Faz tempo que eu queria escrever sobre a tal música popular brasileira. Ouço muito, há um ano, gravações da chamada Velha Guarda, por obra e graça de seu Raimundo Floriano, grande colecionador e que generosamente, através de algumas comunidades no Orkut, compartilha seu fantástico acervo de marchinhas, dobrados, frevos, sambas-canção, sambas de raiz e desse tudo que é a música brasileira. Me apaixonei por Francisco Alves, Marlene, Mário Reis, Orlando Silva e todos os heróis dos nossos avós, os talentosos e brilhantes cantores do rádio.
Muitas das músicas tem um sabor todo especial porque trazem vestígios da nossa sociabilidade mais profunda, mais íntima e mais dolorosa. Nos dias que correm, nenhum grande compositor como Lamartine Babo cometeria O Teu Cabelo Não Nega, Mulata: o sujeito que diria pra uma moça a cor não pega, então mulata, eu quero o seu amor, levaria uns bons e merecidos tabefes. Mas é inegável que por mais pós-modernismo, pós-estruturalismo, pós-tropicalismo e, mais grave para a MPB, pós-chicobuarquismo ( vai ser difícil emplacar com o Chico por uns bons vinte anos, se não mais) a nossa intimidade ainda tem muito de racista, sexista, misógina, agressiva, em uma expressão, ainda muito de império colonial ultramarino português.
Hoje eu esperava a anjinho Edna limpar meu escritório quando peguei distraída O Trato dos Viventes, do Luiz Felipe de Alencastro, da estante. Eu li esse livro e tive a oportunidade de discuti-lo, de perto, com o autor no Cebrap, que me fez uma bonita dedicatória. Numa parte, o Alencastro faz uma comparação entre Angola e Brasil: nos dois lugares, houve miscigenação, ou seja, o estupro sistemático das mulheres das populações locais. Mas no Brasil, a miscigenação deu origem ao fenômeno da mestiçagem, ou seja, os mulatos, mamelucos e cafuzos formaram um estrato social, enquanto que em Angola os mestiços se "africanizavam", não permaneciam perto de seus pais portugueses como escravos ou dependentes. E o Luiz Felipe cita belos versos de um poeta anônimo, degredado em Angola, à página 351:
Aqui onde o meu desejo
não chega ao seu fim
porque me acho sem mim
quando me busco
Aqui onde o filho é fusco
e quase negro o neto
e todo negro o bisneto
e tudo escuro.
O que, para o autor, é o oposto de versos de Gregório de Matos, uma ode às mulatinhas da Bahia que, para o eu-lírico embevecido, na hora dos fatos pediriam a violência nos gestos( no caso, gritando "arromba, arromba"). Quando li esse trecho do livro, pensei em vários sambas e canções antigas, de dor nas relações amorosas, assimetrias, perdições, zombarias, como o de raiz Mora na Filosofia, cantado por Marlene à moda das cantoras do morro ( Caetano, no seu Verdade Tropical, atesta o estranhamento, seguido de xingamentos racistas, dos estudantes paulistanos ao receber, num festival, Clementina de Jesus).
Os versos de Mora na Filosofia, composta por Monsueto e Pessoa, são um primor desse lirismo amargo da língua portuguesa, como os do poeta degredado nas terras d'Angola ( não esquecer que mesmo Chico, que subverteu séculos desse lirismo ao dar voz às mulheres, cantou a Morena de Angola como Lamartine cantaria):
Eu vou lhe dar a decisão / botei na balança e você não pesou/ botei na peneira e você não passou/ mora na filosofia /pra que rimar amor e dor /se seu corpo ficasse marcado por lábios ou mão carinhosas eu saberia, ora vai mulher... à quantos você pertencia/ não vou me preocupar em ver/ teu caso não é de ver pra crer/ tá na cara.
Pois é, tá na cara que a mulata, a tal, em matéria de fidelidade, não mora na filosofia. Como diz Alencastro, há tanta coisa rolando nesses versos todos.

Thursday, January 10, 2008

Pescaria


Hoje, vagando pelo site da mega loja Mini Kimono, na Liberdade( http://www.minikimono.com.br/), pra ver as novidades( quero comprar um obi, faixa de quimono, pra usar com camiseta branca e jeans), descobri algo lindo.
Nas páginas do site da loja, estão bonequinhos de sete divindades xinto, os chamados sete deuses. Eu não entendo nada de xintoísmo, apenas o óbvio e ululante ( o culto aos ancestrais, e os rituais de passagem, como o festival dos desejos nas árvores). Mas li no site, e depois fiz uma pesquisinha, sobre o deus que considerei, de cara, o mais simpático pra mim: Ebisu.
Ebisu é o deus xinto da pescaria e da felicidade. Fez todo o sentido pra mim. Viver é estar na margem de um rio, de caniço e samburá, mascando matinho e pondo minhoca pra nadar. De vez em quando, a gente pega dourado. E de vez em quando, nada. Mas ouve o vento, as folhas no vento, põe os pés na água fresca, pensa nas águas que já passaram, nas que vêm. Nos amigos, em outras pescarias; faz planos de trazer, da próxima vez, uma garrafa maior de água, e uma garrafa de batida de limão. Ops, fisgada na linha. E enquanto os pensamentos correm, quando a gente menos espera... e tem que pegar firme a tal felicidade.
Ebisu é sempre mostrado carregando um enorme peixe, pescado por ele, e quando os pescadores têm pesca boa, agradecem o generoso pescador lá de cima. Tem dias bons, tem dias ruins pra pesca. Épocas do ano que não dá nada mesmo. Mas a batidinha de limão...

Tuesday, January 08, 2008

Arroz com feijão

Depois de meia faxina ( a idade pesou e tive que parcelar a limpeza da casa em hoje e amanhã) recebi uma mensagem no celular da Jujuba, dando a feliz notícia que acharam o Picasso e o Portinari do MASP.
Enquanto não vi maiores informações, nos sites da CBN, Globo, Estadão e Terra, não sosseguei. Parece que estão intactos o belo lavrador e a cantora.
Além da idade, hoje pesou o fato de que preciso preparar um curso para a Oficina Cultural de Araçatuba; o curso começa semana que vem, e é de capacitação docente. Eu pus o nome de História da Arte na Escola, e selecionei uma bibliografia, que agora leio e/ou releio. No meio, eu fiz questão de por um velho livrinho que sempre me impressiona, O que é Arte, do prof. Jorge Coli.
A coleção Primeiros Passos, ou como dizia a mestre Amnéris, Primeiros Tropeços, foi decisiva na minha formação universitária. Lembro bem do Ideologia, da Marilena Chauí, bem escrito e que ajudava todo mundo na temível Sociologia de Marx. Em papel jornal, formato de bolso e escritos por especialistas, essa coleção é do tempo em que algumas pessoas acreditavam, como eu, ser necessário ampliar o acesso à cultura no nosso país.
Acompanhei, de coração na mão, a discussão sobre a administração do MASP, na imprensa e no blog do jornalista Daniel Piza, que me surpreendeu. Não gosto nada do Piza, mas ele teve a coragem de descer a lenha no Júlio Neves. Muitos pensam, no Brasil, que arte é luxo. Que o mais importante é dar comida. Como diziam os Titãs, a gente não quer só comida...
O velho livrinho do Jorge, escrito em 1981, tem na capa um quadro com um prato de arroz e feijão, o que é genial. Infelizmente, a Brasiliense não pôs o nome da pessoa que idealizou isso ( pelo menos na minha edição, a 12a., de dez anos depois, não aparece esse dado). Na discussão sobre o MASP, sei que muitos podem pensar que é futilidade se preocupar com Picassos, Portinaris, Poussins e etcéteras, num país como nosso. Mas isso é um erro crasso. Infelizmente, a pobreza do nosso país é agravada pela falta de amor à cultura, à erudição, à arte.
O livro do Jorge é atual, é exato, é contundente. No final do livrinho, o Jorge escreveu um pequeno texto intitulado "O acesso à arte", em que desdobra o problema da freqüentação das obras no Brasil. Dirigindo-se ao seu leitor, avis rara num país de analfabetos e de pessoas sem nenhum acesso à nada, Jorge escreveu: "Num sistema de ensino voltado para a formação a mais pragmática e tecnológica, sob o desinteresse e a incompetência dos 'responsáveis', e bombardeado por emissoras de rádio e TV regidas pelo princípio absoluto do lucro, você se encontra numa situação de grande miséria intelectual. As parcas manifestações artísticas de algum interesse neste país são pouco freqüentes, em geral muito caras e sempre se localizam nas grandes capitais. (...). E como, evidentemente, a solução não está nas lamentáveis operações demagógicas que aparecem de quando em quando, quem se interessa pelas artes no Brasil continua sendo um fruto bizarro e teimoso".
E o professor conclui, no finzinho: "Assim, as pessoas que, em nossa sociedade, têm consciência do papel fundamental desempenhado pela arte no seio da cultura, são forçosamente obrigadas a colocar o problema do acesso à obra. É necessário exigir os meios da freqüentação."
Eu quero lutar por uma administração melhor no MASP, por exemplo. Eu quero lutar porque eu era uma menina nascida na pobreza, e que vivia no Cambuci, e que aos seis, cinco anos foi levada ao MASP e teve um choque profundo. Ou que foi impedida de entrar no Museu para assistir aulas, porque sua bolsa foi passada para a filha bem produzida de um empresário. Ou que, depois de formada professora, dava aulas a uma servente de escola, que com muito sacrifício pagava a faculdade particular fuleira na qual eu dava aulas. E num sábado, essa senhora, na frente do Céu Estrelado do Van Gogh, me perguntou se aquilo era uma reprodução. Diante da minha negativa, ela chorou diante do velho holandês.
Quando li o livrinho do Jorge, tive a certeza de seguir a História da Arte. Diferentemente de alguns colegas, que assim o quiseram por madamice, por serem de origem burguesa e por que o mundo das artes traz status, eu quis por acreditar que devo permitir o maior número possível de pessoas tomar contato com que a humanidade já fez de belo, de grandioso, do que dá sentido aos dias.

Monday, January 07, 2008

Previsão do tempo

Eu tô pensando aqui que, às vezes, se relacionar é enfrentar condições metereológicas. Tem dia que sai lindo, o céu azul do bem querer, o sol do afeto, a brisa leve e gostosa da amizade fazem com que a gente ponha um vestido colorido e saia pra rua nem que for pra ver o vento nas folhas do viver.

Mas tem dia que ou os outros ou a gente estamos numa maré adversa, numa chuva de granizo da discórdia. Nem sempre chuva é problema; a água fertiliza a terra e não tem nada melhor que chuva fininha de carinho nas costas e o cinza das paixões físicas levadas ao seu término. Mas tem chuva de verão, aquela pancada de alegria que só a presença dos queridos traz, mesmo que rápido, e temporais, furacões, ciclones de desamor, de angústia, depressão e outros males d'alma.
Seria bom a gente ter uma previsão do tempo dos afetos da gente; você pegaria um jornal escrito só pra você e lá estaria escrito: Chefe- bom tempo com pancadas de chuva no decorrer do período, Namorado- tempo bom, com sol, temperatura mínima de 18 graus, Amigo, Amiga, Cachorro, Filho, Pai e Mãe, e assim por diante. Porque a maior parte das zicas com pessoas é que nem quando a gente sai de casa sem levar casaco e passa frio na rua, ou não leva guarda-chuva e além de se molhar inteiro ainda estraga o sapato bonito e o penteado- depois de dias de banho de creme e tentativas no espelho- por milagre, e pela Lei de Murphy, bem naquele dia, justamente naquele dia, que o ponto de ônibus que a gente tá não tem cobertura.

Seria necessário uma iniciativa nesse sentido. Depois de uma linda noite estrelada de amor, um amanhecer fabuloso de uma nova relação; ou depois daquela manhã nublada de mau humor, o sol, de novo o sol, sempre o sol do afeto, a nos aquecer e a nos guiar com ética e acerto de decisões. Eu tomei uma decisão: seja qual for o tempo agora, sairei com guarda-chuva, capinha e galochas, porque teve gente nos últimos dias que choveu demais.

Friday, January 04, 2008

SOS MASP

O prof. Luiz Marques, ex-curador do MASP e meu ex-orientador, estava na lista do meu email indignado com o roubo das obras no museu. A princípio muito cético e meio amargurado, o Luiz não achava que era possível fazer algo pra salvar o museu do descalabro da administração atual. Mas depois de uns dias, ele me mandou um email, dizendo que minha mensagem o havia encorajado, e ele havia escrito um documento intitulado SOS MASP: Um Apelo aos Poderes Públicos.
A idéia é a intervenção estatal no museu, o fim dessa administração, ou seja, a salvação do acervo, do prédio, do nome, de tudo. Agora, o movimento tem um site: http://www.sosmasp.com.br. No site, é possível assinar o abaixo-assinado, através de um simples cadastro, e conferir as assinaturas de quem já passou por lá. Em tempo: hoje, no Caderno Cidades do Estadão, saiu uma nota sobre o documento e o movimento, enfatizando a assinatura de João Cândido Portinari, filho do artista autor de uma das obras-primas roubadas.
Nem preciso dizer que o Mezzo apóia incondicionalmente a iniciativa do prof. Luiz e convida a todos a assinatura. Por favor, repassem aos conhecidos e etc e etc ( alô povo do Banco Central, tô precisando de vocês nessa! Alô povo querido que me lê!)

Thursday, January 03, 2008

Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza

Espero que os queridos leitores ( se é que o velho Mezzo ainda os têm) tenham passado bem suas Festas e feito todos os seus votos de um feliz 2008, porque estamos todos precisando de grana, amor, paz e saúde!
Andei bastante nos últimos dias. Pra vocês terem uma idéia da programação, depois de toda a maratona Centro-Oeste ( posso atestar que a crise aérea é algo muito, muito cacete, e que a Chapada dos Guimarães é um dos lugares mais lindos desse mundo), tomei banho de piscina, coordenei cozinha pra ceia de reveillón e dormi bastante, que tava precisada. Achei musiquinhas pra baixar, e retornei minhas atividades panda, como responder email de três meses atrás, lavar um pouco de roupa e dar um giro pelo centro da cidade.
Eu queria escrever sobre um monte de coisa, mas acho que tenho que parcelar, até porque minha alma anda leve, despreocupada e desatenta; não é um estado de espírito propício para a escrita, ainda mais com temas dantescos como os que eu deveria enfrentar. Não reparem, é o verão.
Citação do dia: "Os amantes podem andar nos fios de uma teia de aranha que balança com a brisa lânguida do verão e, mesmo assim, não caem. Os prazeres deste mundo têm esta mesma leveza", William Shakespeare na boca de Frei Lorenzo, Romeu e Julieta, Cena VI, Ato II. Tradução de Beatriz Viégas-Faria.

Wednesday, December 26, 2007

Boas Festas!

A todos os leitores do Meio do Caminho, meus votos panda de Boas Festas, diretamente do Centro Oeste do país, no ponto eqüidistante entre o Atlântico e o Pacífico, onde nasciam os bororo e onde segundo Caetano nascerá o índio, impávido que nem Mohammed Ali.
Meus votos de paz, saúde e prosperidade, que trouxe do primeiro banho de cachoeira que tomei, em meio a águas douradas, amigos, cheiro de mato e picolé de chocolate recheado com coco!

Friday, December 21, 2007

A memória, algo afetivo e inútil

Aprendi a cantar Guantamera em Roma, com uma senhora uruguaia, viúva de um guerrilheiro Tupac Amaro.
E lembro de um homem que amei muito, comendo arroz, feijão, bife e batata frita na minha frente, depois de perguntar se eu estava servida.
Também me vem à cabeça eu flutuando no mar de Búzios, esperando o entardecer.
E hoje cheguei rindo em casa, sozinha, porque lembrei que o Mussum, quando era chamado de preto, lascava na hora: "preto é seu passado e negra vai ficar sua situação"...

Thursday, December 20, 2007

O Portinari roubado


Gente, aqui vai o Lavrador de Café, do Portinari, obra que foi roubada do acervo do MASP nessa madrugada. Esperemos que, amanhã, os Cézanne, Van Gogh, Gauguin, Renoir, Dégas, Poussin, Delacroix, Rafael, Tiziano, Goya, Portinari, Anita Malfatti, Vítor Meirelles, Chagall, entre tantos outros, continuem nas paredes horríveis e mal iluminadas da atual tosca expografia do museu, sem conservação adequada, mas no museu.


O Lavrador de Café, 1939. Óleo sobre tela, 100x81cm.

Absurdo


Caríssimos,



Hoje acordei e dei com a nota no Terra: roubaram o MASP. Levaram o Retrato de Suzanne Bloch, do Picasso, e o Lavrador de Café do Portinari.


Escrevi indignada pra minha lista inteira de emails. É preciso fazer alguma coisa em relação ao MASP. Não dá mais pra gente, digo, a gente que trabalha com Arte, História, ignorar a situação e achar que o problema não é nosso.


Deixo aqui o meu protesto mais veemente contra a administração ineficiente, idiota, incompentente e tudo de ruim que se apoderou do Museu há anos e corrói acervo, prédio, o nome da instituição, e a minha paciência. Qualquer sugestão de manifestação, passeata, qualquer coisa, é bem-vinda.


Em anexo, Retrato de Suzanne Bloch, óleo sobre tela, 65x54cm, 1904. Rezemos pra que os bandidos que fizeram isso não destruam essa obra- prima. Em cima, o Lavrador de Café do Portinari.

Tuesday, December 18, 2007

Bolinha amarelinha

E como dizia a música antiga, Ana Maria olhou-se no espelho, e viu-se quase despida afinal...


A panda passará os festejos natalinos em outro estado, na casa de amiga antiga e queridíssima, que me presenteará com sua hospitalidade. A história começou com um papo no msn ( pra variar...). Ela me mostrava umas fotos de cachoeiras, de um passeio com a irmã fofa e uma amiga querida. Num momento de ousadia, confessei pra Ju que, nunca na minha vida, eu entrei numa cachoeira. Ela não acreditou, e eu confirmei.
Daí a Jujuba resolveu que ia me ajudar nesse negócio de cachoeira, e eu vou enfim conhecer o que é um jato de água fria nas costas, num lugar paradisíaco.
Exausta, cumpri algumas das minhas últimas obrigações profissionais, como entregar notas, documentos, apostila... andando pelo centro da cidade, a caminho do correio, vi uma loja de... moda praia.
Quando eu criança, e tenho fotos pra provar, tinha lindos biquínis, um de maçãzinha, outro Poésie ( gente, alguém aí tinha biquíni Poésie??????) verde-água, e maiôs transadíssimos, mas depois de mocinha, jovem e agora balzaquiana, com atividades de lazer quase nulas, passei anos sem biquínis. Um preto de senhora, comprado em Búzios, ficou filho único de mãe solteira durante anos, seguidos por outros, presentes da minha mãe, intocados, e dois do Carrefour que de vez em quando eu ponho pra fazer faxina e dar uns mergulhos na piscina do Clis.
Resolvi que o primeiro banho de cachoeira merecia um biquíni novo. Vi na vitrine um lindo, preto com florzinhas, e entrei. Mas uma multidão digna de filme bíblico estava lá dentro, mulheres histéricas atrás de pedaços de lycra menores do que lingerie.
Daí começou meu martírio. Cheguei pra uma das duas senhoras com cara de respeitáveis que atendiam, e timidamente perguntei se o da vitrine tinha no meu tamanho. A velhinha berrou, não minha filha, aquele ali só PP, tenho não pra você. No meio daquela zona, me acheguei na outra senhora e falei, mas o que vocês tem no meu tamanho? Ela também berrando ( gente, porque isso?), "ah, no tamanho seu só tenho um sutiã com bojo" ( gente, tem biquíni com bojo hoje em dia!) e me passou um sutiã que serviria perfeitamente pra Gina Lollobrigida em tempos idos ( eu sei gente, eu sou velha, fazer o quê?).
Claro que a velha Panda the Kid tá longe de ser uma musa do cinema italiano, mas vamos dizer, no quesito em que Jane Mansfield e Gina se tornaram célebres, não me faltam, digamos, exuberância de atributos. Peguei o transatlântico pink de bojo e entrei na cabine. Lógico que deu, mas eu ainda agüentei a nega entrando, apertando os laços e berrando, olha bem, pra você só esse tamanho e só tem esse, pra levantar sua comissão de frente.
Saí da cabine e de novo perguntei sobre estampas diferentes ( aquele pink era puro delírio). Ela sempre berrando ( gente, vendedora de biquíni tem problema de audição?) dizendo que não, que o meu tamanho era Extra Large Mega Ultra Plus Super. E eu, finalmente tendo uma reação, berrei de volta, então eu tenho que fazer uma cirurgia... de redução de peito!
Chutei quem tava na frente e, puta, me encaminhei pro correio. Resolvi pinimbas e, subindo a Moraes Salles, pensei, eu sei, tô gorda, velha, mas peralá. Eu sei que tenho um perfil, digamos, clássico, e lembrei de uma Vênus romana que vi em Chicago, que parecia eu pelada no espelho. Pronto, pensei que em 45 d.C, eu faria sucesso nas praias de Herculanum, e me acalmei.
Aqui perto de casa, tem uma loja de uma marca famosa de moda praia, que sempre namoro nas minhas idas e vindas. As vitrines, sempre atraentes, mostram coisas lindas, e meio caras. Há anos a gerente, uma perua típica campineira, me encara com desprezo e nem me atende, porque eu nunca compro nada. Eu, hoje, com um dinheirinho suado sobrando, só queria comprar um biquíni.
Outra multidão, agora de madames, adolescentes e suas mamães orgulhosas. Esperei pacientemente uns quarenta minutos pra ser atendida, e mal, por duas meninas perdidas em meio a tanta frescura e chiliques. A gerente me olhava como se eu fosse um ET. Nada pra mim. Vejo a senhora do lado com algo bonito, estampado em fundo lilás. Pedi o modelo, e me encaminhei pra cabine. A gerente, sádica, falou, ah minha filha, tem filinha, viu? De gente que obviamente, ela atendeu de forma gentil e prontamente enquanto eu era ignorada no balcão, gente que não demorou cinco minutos pra pegar um modelo.
Como uma lady, entrei na fila. O biquíni era tão bonito, que eu pensei, foda-se essa nega maldita ( diga-se que ela é feia também, coitada, parece assombração, eu fiquei com dó na verdade). A moça do caixa percebeu a situação e veio ao meu socorro, super doce. E o biquíni ficou tão lindo, que eu a princípio estranhei. Mas acabei me dando de presente, e toda garbosa, com a loja inteira me admirando, comprei o conjunto transadíssimo. Cheguei em casa e pus meu biquíni novo, e da sala pro quarto e do quarto pra sala, tava me achando a própria Brigitte Bardot!

Sunday, December 16, 2007

13

Há treze anos atrás, eu enfrentava as provas da Universidade Federal do Paraná, da Unesp, da FUVEST e da Unicamp. Esta última, por puro acaso.


Eu queria ser jornalista. Queria escrever em revistas, principalmente a Capricho, que eu assinei durante um certo tempo. Queria viajar, ou trabalhar na National Geographic. Ouvia muita música, tocava teclado, e escrevia muito. Diários e poesias. Também desenhava e cuidava das crianças dos vizinhos, e estudava por conta. O meu colégio havia inaugurado, naquele ano, aulas de reforço, à tarde, para o pessoal do terceirão. Um grupo de amigos fiéis se uniu em torno do desafio de conseguir uma vaga numa universidade de prestígio, ou seja, as universidades públicas.
O povo queria estudar na Unicamp; já eu sonhava com a ECA e com um retorno à minha cidade natal. A minha melhor amiga era a Débora, a única afro-descendente do colégio, linda de morrer, e inteligente demais, filha de uma das enfermeiras chefes do HC da Unicamp. A Débora vivia entre a casa do pai e a da mãe, e num desses desencontros, o pai e ela compraram dois manuais do vestibulando, por pura afobação. Pra não deixar minha amiga no prejuízo, comprei o manual dela. Só por isso prestei Unicamp.
Sem Jornalismo como opção, fiquei entre Letras, História e Ciências Sociais. Nas costas do meu pai, preenchi Sociais na fila da entrega do formulário. Sem estudar nada pro famigerado e diferenciado vestibular da Unicamp, entrei na disputa dos vestibulares. Fui pra Curitiba com meus pais e meu irmão, e num flat passei o frio típico curitibano. A FUVEST foi aquele desespero de sempre, e passei pra segunda fase apertada, mas passei. A Unicamp não me preocupava; achava a cidadela zeferinítica o fim do mundo, uma roça, e toda vez que tinha que buscar meu irmão na casa de um amigo lá, achava tudo aquilo, realmente, o fim.
Na segunda fase da birosca unicampítica, um acidente de percurso. Eu me sentei atrás do Márcio, que conheci na primeira fase da FUVEST e de quem já tinha ficado amiga. Só que o Márcio era um armário de três metros por quatro. Eu me sentei atrás dele, no final de uma longa fila de carteiras, numa sala da Engenharia Básica, e no outro dia tanto eu quanto ele não tínhamos mais carteiras com nossos nomes. A sala estava repleta de vestibulandos pra Sociais; uma menina riu e falou, bom, dois a menos. Senti muita crueldade nela e em outros, que riram. Contrariando as previsões, eu e o Márcio passamos, e eles, não, os caras da COMVEST só quiseram mudar a gente de lugar.
Chorei muito no dia em que vi que, por dois lugares, caí na lista de espera da FUVEST. E no mesmo dia, no Ciclo Básico, vi meu nome nas listas. Uma amiga querida da minha mãe, a Sônia, argumentou comigo que me via muito mais como professora universitária do que como jornalista.
Há treze anos, entrei no IEL pensando que era o IFCH. Consertado o erro, dei com o Márcio e a Ísis, amiga de colegial, felicíssimos, cheios de planos, esperando a primeira aula de Antropologia. Eu não fazia idéia do que encontraria no curso; pensava que poderia até enfrentar um cursinho, e outra tentativa. Mas não, no primeiro mês vi que a Sônia me conhecia bem demais.
Há treze anos, eu firmei na minha cabeça que a carreira acadêmica era o que eu queria pra minha vida. Eu tinha dezessete anos, desenhava, tocava teclado, era magérrima e meio dentuça. Usava só moletom e passei a paquerar mais os meninos naquele ano. Li num artigo xerocado da Times, na aula de Economia, que existia algo chamado internet. Enfrentei minha primeira terapia no CECOM, e também duas cirurgias de extração de dentes de ciso.
A Unicamp era muito diferente, eu era muito diferente. Nas festas, a gente ouvia sempre a mesma fita cassete, obra e graça de um colega da Engenharia; paquerava os garotos da Biologia e fazia seminários e fichamentos. Mas eu tinha essa certeza.
Semana passada, encontrei um professor, que escreveu um dos livros que a gente lia, em parte, no nosso primeiro ano. Ele me disse que eu podia ir embora agora, que a porta estava aberta, você é uma doutora, ele me disse. Eu falei que queria ir, ele me disse, agora você pode. E depois passamos a falar de coisas da universidade. E daí percebi que ele sabe, tanto quanto eu, que a gente fala até logo, mas nunca adeus, pros anos mais importantes da vida da gente.

Wednesday, December 12, 2007

Chuvas de dezembro

Contrariando Tom, são as chuvas de dezembro, é o fim da canseira.


Trabalhando em excesso, cansada demais. E tenho notado uma coisa em mim. Não ando muito generosa, não. Não tenho tido vontade de espalhar o que sinto, penso, o que tenho. Eu que já espalhei tanto, já me dei tanto, hoje fecho as portas. Pensei em pôr milhões de coisas aqui, me desculpem, não vou. Vou guardar pra mim, o meu ouro, as minhas jóias de sentir. Pra pôr só nas grandes ocasiões, ópera no Municipal, vestido de veludo e jantar com vinho branco, com as jóias, as pérolas, as lembranças, como uma senhora elegante que se preze.
"Uma pérola é sofrimento transformado em jóia", provérbio budista.

Thursday, December 06, 2007

Dra. Panda Maria Alighieri

Dra. Panda comunica aos fiéis leitores do Meio, agora abertamente francófilo, que pode aviar receitas de remédio e que atenderá pelo seu título em todas as instâncias deliberativas como Orkut, Blog e msn por uma semana.

Monday, December 03, 2007

Amanhã...

E para os leitores fiéis do Nel Mezzo, agora cantando a plenos pulmões junto com La Mome...

Amanhã, enfrentarei o inevitável e posso trazer para a casa o título de doutora. Posso ser reprovada. Não convidei ninguém pra defesa, porque eu sei que a tese está mundos aquém do que deveria, está uma verdadeira josma, mas enfim, agora é tarde pra chorar pela tese derramada.
O povo reclamou, teve gente que quis usar de expedientes como chantagem emocional, ver no site da Unicamp, se convidar na cara dura e me consultar pelo msn sobre a possibilidade de assistir o massacre. Bom, o rebaixamento do Coríntiã deu uma esfriada nos ânimos da galera, pelo menos não sou a única a ser massacrada nem estar em maus lençóis nesta semana que Deus pôs no mundo.
Aos leitores que acompanharam a saga da maledetta, desde seus primórdios até o gran finale, torçam por mim, gritem merda, ou acendam aquela vela vermelha. Que Dante e Botticelli me protejam!