Depois de meia faxina ( a idade pesou e tive que parcelar a limpeza da casa em hoje e amanhã) recebi uma mensagem no celular da Jujuba, dando a feliz notícia que acharam o Picasso e o Portinari do MASP.
Enquanto não vi maiores informações, nos sites da CBN, Globo, Estadão e Terra, não sosseguei. Parece que estão intactos o belo lavrador e a cantora.
Além da idade, hoje pesou o fato de que preciso preparar um curso para a Oficina Cultural de Araçatuba; o curso começa semana que vem, e é de capacitação docente. Eu pus o nome de História da Arte na Escola, e selecionei uma bibliografia, que agora leio e/ou releio. No meio, eu fiz questão de por um velho livrinho que sempre me impressiona, O que é Arte, do prof. Jorge Coli.
A coleção Primeiros Passos, ou como dizia a mestre Amnéris, Primeiros Tropeços, foi decisiva na minha formação universitária. Lembro bem do Ideologia, da Marilena Chauí, bem escrito e que ajudava todo mundo na temível Sociologia de Marx. Em papel jornal, formato de bolso e escritos por especialistas, essa coleção é do tempo em que algumas pessoas acreditavam, como eu, ser necessário ampliar o acesso à cultura no nosso país.
Acompanhei, de coração na mão, a discussão sobre a administração do MASP, na imprensa e no blog do jornalista Daniel Piza, que me surpreendeu. Não gosto nada do Piza, mas ele teve a coragem de descer a lenha no Júlio Neves. Muitos pensam, no Brasil, que arte é luxo. Que o mais importante é dar comida. Como diziam os Titãs, a gente não quer só comida...
O velho livrinho do Jorge, escrito em 1981, tem na capa um quadro com um prato de arroz e feijão, o que é genial. Infelizmente, a Brasiliense não pôs o nome da pessoa que idealizou isso ( pelo menos na minha edição, a 12a., de dez anos depois, não aparece esse dado). Na discussão sobre o MASP, sei que muitos podem pensar que é futilidade se preocupar com Picassos, Portinaris, Poussins e etcéteras, num país como nosso. Mas isso é um erro crasso. Infelizmente, a pobreza do nosso país é agravada pela falta de amor à cultura, à erudição, à arte.
O livro do Jorge é atual, é exato, é contundente. No final do livrinho, o Jorge escreveu um pequeno texto intitulado "O acesso à arte", em que desdobra o problema da freqüentação das obras no Brasil. Dirigindo-se ao seu leitor, avis rara num país de analfabetos e de pessoas sem nenhum acesso à nada, Jorge escreveu: "Num sistema de ensino voltado para a formação a mais pragmática e tecnológica, sob o desinteresse e a incompetência dos 'responsáveis', e bombardeado por emissoras de rádio e TV regidas pelo princípio absoluto do lucro, você se encontra numa situação de grande miséria intelectual. As parcas manifestações artísticas de algum interesse neste país são pouco freqüentes, em geral muito caras e sempre se localizam nas grandes capitais. (...). E como, evidentemente, a solução não está nas lamentáveis operações demagógicas que aparecem de quando em quando, quem se interessa pelas artes no Brasil continua sendo um fruto bizarro e teimoso".
E o professor conclui, no finzinho: "Assim, as pessoas que, em nossa sociedade, têm consciência do papel fundamental desempenhado pela arte no seio da cultura, são forçosamente obrigadas a colocar o problema do acesso à obra. É necessário exigir os meios da freqüentação."
Eu quero lutar por uma administração melhor no MASP, por exemplo. Eu quero lutar porque eu era uma menina nascida na pobreza, e que vivia no Cambuci, e que aos seis, cinco anos foi levada ao MASP e teve um choque profundo. Ou que foi impedida de entrar no Museu para assistir aulas, porque sua bolsa foi passada para a filha bem produzida de um empresário. Ou que, depois de formada professora, dava aulas a uma servente de escola, que com muito sacrifício pagava a faculdade particular fuleira na qual eu dava aulas. E num sábado, essa senhora, na frente do Céu Estrelado do Van Gogh, me perguntou se aquilo era uma reprodução. Diante da minha negativa, ela chorou diante do velho holandês.
Quando li o livrinho do Jorge, tive a certeza de seguir a História da Arte. Diferentemente de alguns colegas, que assim o quiseram por madamice, por serem de origem burguesa e por que o mundo das artes traz status, eu quis por acreditar que devo permitir o maior número possível de pessoas tomar contato com que a humanidade já fez de belo, de grandioso, do que dá sentido aos dias.

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