Há exatos dez anos atrás, eu perdi meu pai. Um pouco antes do falecimento dele, saiu um edital pra um mega concurso da Prefeitura aqui de Campinas, vagas em muitas coisas. Eu tava no último ano de Sociais, e começava já a me preparar para o mestrado. Lembro que comprei e estava lendo trechos da Formação da Literatura Brasileira, do Antônio Cândido, e ia conversar com a professora Élide. Pensei em me encaminhar pra área de Pensamento Social, estudar Caio Prado, e comentei isso com meu pai, ele já no hospital.
Ele faleceu, dias depois. Fiquei em casa, em estado de choque, durante muitos dias, tomando sedativos. Um dia acordei e parecia que uma manada de elefantes havia passado em cima de mim; resolvi não tomar mais os remédios e fazer alguma coisa da vida, reagir. Não podia prestar o concurso para a vaga de socióloga, não tinha ainda o diploma. Mas uma coisa no edital da Prefeitura me chamou a atenção.
Abriram, não se sabe porquê, uma vaga em Técnico em Astronomia. Era pra segundo grau, e pra trabalhar no Observatório de Capricórnio. O Observatório tem o maior telescópio ótico do Hemisfério Sul, uma coisa ultrapassada tecnicamente vamos dizer, mas por isso mesmo encantadora. O astrônomo francês Jean Nicolini montou o Observatório na serra das Cabras, em Joaquim Egídio, que é um dos lugares mais bonitos que já fui e um dos meus favoritos.
Não tive dúvida. Me inscrevi pro Técnico em Astronomia, e comecei a estudar. O programa era simples: Astronomia de posição ( ou seja, trigonometria), um pouco de Ótica, um pouco de Geometria euclidiana, coisas básicas de Astrofísica. Tipo, era pra alguém limpar as lentes do telescópio, falar pras crianças que astrólogo não é a mesma coisa que astrônomo e gastar as noites de inverno atrás de Marte.
Comprei um livro russo de Astronomia num sebo ( era uma versão em espanhol de um manual russo) e comecei a estudar, pus o Poliótico ( vocês lembram desse brinquedo? Era um conjunto pra montar binóculos, microscópios, lunetas, excelente) na sala e comecei a montar, com as lentes, pequenos objetos de observação. Desencavei a velha coleção das SuperInteressantes, uma coleção de Matemática que era o orgulho do meu pai e do meu irmão, o compasso e a régua, e gastava meu tempo calculando as posições da Beta do Centauro, entre zênites e esplendores.
Quando a gente olha pro céu estrelado, vê o passado: muitas daquelas luzes nem existem mais, a luz viajando tão rápida no espaço infinito. Às vezes, saía com meu ex-namorado, um químico, cientista brilhante, pra ver estrelas, e me consolava saber que olhava pro passado, antes mesmo do meu pai nascer, e que aquelas luzes atravessaram o vazio enquanto ele viveu. Eu saía da dor, do sofrimento, pensando na trajetória irregular de Plutão e enquanto limpava minhas lentes. Tantas vezes pensei que queria me transportar pra outras galáxias, outros sistemas planetários, e pensava no quanto a gente é pequeno, infinitamente pequenino, diante dos mistérios do Cosmos.
Fiz a prova sob a reprovação da minha mãe e meu irmão, no velho colégio Carlos Gomes. Lembro que o filho do astrônomo Ronaldo Rogério de Freitas Mourão prestou a prova ( era fácil saber que ele era filho do cara, era a cara dele).
Ontem, eu tava remexendo meus documentos atrás das coisas pra outro concurso, esse agora pra História da Arte. Nem sei se vou poder me inscrever, o meu título de doutorado não foi homologado ainda ( burrocracias da cidadela zeferinítica). Mas eu tava lá, atrás dos meus diplomas de Primeiro e Segundo Graus ( sim, eu sou desse tempo). Achei um caderninho de anotações do meu pai, instruções para mexer em alguma cenozóica versão do Word Windows, e no caderninho tinha umas contas na letra horrível do meu irmão e um mapa maluco da Unicamp, esse da minha lavra. Nem sabia que esse caderno existia. Não lembrava de nada disso.
E junto com meu diploma de Primeiro Grau, estava um jornal amarelado. Era a chamada do concurso da Prefeitura. Sim, caros leitores: a panda foi aprovada em Técnico em Astronomia Júnior, até com uma pontuação decente para quem na época cursava Sociologia e Antropologia. Evidente que jovens físicos passaram na minha frente, mas eu era candidata habilitada à vaga.
Pus isso no meu currículo LATTES. Fiquei feliz. Não é sempre que um Poliótico ajuda alguém a passar em um concurso público.

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