Eu, hoje, sofro da tristeza que vem da impaciência bem feminina. É bem feminino esse dilacerar-se, querer resolver pessoas, coisas, situações, como se bate um bife, se descasca alho, se põe a roupa no varal: de estalo, de pronto, de supetão. Nessas horas, é preciso pensar como homem: o tempo distendido, dos quinze aos noventa os homens estão sempre iguais, a produção hormonal sempre igual, enquanto a gente dos treze aos cinqüenta tem esses picos de agonia e vales de profunda depressão, no mesmo mês.
Ok, ok, fisiologia não explica tudo, mas como diria Simone, anatomia é destino sim. Pelo menos numa sociedade que acha que a fisiologia explica tudo. Hoje estou impaciente, acordei zangada e quero resolver.
Essas horas são particularmente perigosas. As palavras, como se diz no Evangelho, escapam da barreira dos dentes com muita facilidade. Pra quê enviar email de desaforo? Pra quê revirar o passado e encontrar um fio, como Ariadne, e puxar não só Teseu mas o Minotauro e o Labirinto inteiro?
Lembro de Li Po e Tu Fu, na tradução de Cecília, na cabeceira, e os velhos chineses me salvam:
"Uma canção, ao longe... É um mendigo. Se ele canta, esse velhinho que jamais teve nada, porque gemes tu, tu que possuis tão belas recordações?"
Tu Fu, 712- 762 d.C, tradução de Cecília Meireles.

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