Andei lendo, nos dias chuvosos e sem grana do Carnaval, coisas muito interessantes.
Li de uma sentada Nos Submundos da Antigüidade, livro já clássico de Catherine Salles. É interessantíssimo: a autora reconstrói a prostituição, a escravidão, em Atenas, Corinto, Alexandria e Roma, para demonstrar como o ideal clássico da igualdade entre o belo e o bom estava ancorado numa sociedade aristocrática e de mecanismos ambíguos. Dá muito o que pensar as análises da economia sexual greco-romana: ao mesmo tempo em que o poderio de Alexandre e depois dos romanos crescia, as desigualdades internas aumentavam, e com isso, os conflitos entre os setores sociais e a tensão sexual.
Me animei e depois peguei Os reis taumaturgos, do Bloch, que já li uma parte; mas me aborreci ao lembrar que preciso terminar antes A sociedade feudal, e nisso o Celo me emprestou O caminho de Swann, larguei tudo e entrei em Combray, e fiquei felicíssima, completa, ao ler as descrições da igreja de Combray, criações do Proust em cima do Émile Mâle, grande historiador da arte que, em volumes corajosos de 1948, L'art religieux du XIIe au XVIII siècle en France, desvendou as origens das iconografias cristãs.
Uma das coisas mais incríveis da minha vida foi visitar o Camposanto de Pisa. No início do século XIII, a peste assolou a cidade e os munícipes construíram um lindo cemitério, um prédio retangular com um pátio central, circundado por conjuntos de ogivas e colunas. Pois bem. Pisa é, na origem, um aterro etrusco, depois uma cidade romana, e assim vai. Os pisanos do Trecento não tiveram dúvidas: ornaram as paredes de seu cemitério com os sarcófagos antigos, gregos, romanos, etruscos.
Os americanos, além de enviar duas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, bombardearam a asa de mariposa que é Pisa; o Camposanto foi totalmente destruído, sendo depois reconstruído, pedaço por pedaço, pelos carcamanos teimosos. Os sarcófagos antigos se salvaram, bem como os afrescos, as ogivas.
Na manhã ensolarada, digna da Toscana, em que adentrei o prédio, vi, sem fôlego, o que ocorre quando a luz do sol bate nas ogivas e depois, nos sarcófagos antigos. Um rapaz indiano me perguntou se aquilo era um cemitério mesmo; respondi que sim, e ele falou, como o Taj Mahal.
A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano.

7 comments:
É, eu ainda não visitei pessoalmente, mas esse deve ser um lugar que dá para dar aquela surtadinha básica, onde a vontade é querer que toda aquela beleza entre dentro de você e você possa levar para mostrar para os outros, o que na maioria dos casos é feita tirando todas as fotos possiveis e imagináveis, como se fosse realmente possível transmitir, através de uma miríade de detalhes dissociados um dos outros, toda a magnífica exuberância da experiência que é estar ali, diante do todo inefável e fugaz.
Beijos dudu, te adolo...
Bligada! hihihihi...
Bligada! hihihihi...
Bligada! hihihihi...
Oi, Paula,
Estava com saudade de você e resolvi passar por aqui, enquanto brigo com o relatório da Fapesp e preparo um currículo para tentar dar umas aulas por aí. Que coisa mais bonita esta sua frase: "A tradição clássica, pra mim, são livros, são as sombras das ogivas nos sarcófagos de Pisa, a manhã que passei lá, a pergunta do moço indiano"!
Beijo,
Eduardo (o dantesco)
Gente, quanta honra! Você não repara a bagunça, Eduardo. Eu fui responder o comentário do Celo e a rede aqui deu pau. Ficaram 4 respostas doidas! Não repara mesmo!
Fiquei super feliz com sua visita. Grande honra. Tô com tanta saudade de você! Verônica tá bem? Vamos ver se eu consigo ir pra SP o quanto antes! Tá louco, não aguento mais ficar lutando com as coisas. Beijo!
Estamos bem, na correria de sempre. A Veronica se preparando para o concurso do MAC e adiantando o relatório, que entrega em março; eu, hoje, entreguei o meu. E finalmente começamos a reforma do apartamento! Devemos nos mudar no dia 1 de março, se tudo der certo. Você vem antes ou depois?
Se você quiser alguma ajuda quanto ao projeto de pós-doc (você vai fazer, não vai?), é só dizer. Posso ler, dar dicas, o que for preciso.
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