Já faz um tempo que o Meio não comenta assuntos das trevas infernais, digamos que a panda entrou num purgatório emocional faz tempo, o que muito me conforta. Mas o caso da menina Isabella Nardoni me deixou com os cabelos em pé, vocês me desculpem mas eu preciso comentar algo.
Não é só no Brasil que casos extremos de violência contra crianças, idosos, mulheres e homens, plantas e animais, ocorrem com uma regularidade e insistência que exaurem a gente, até os ossos. E a cobertura da mídia, sempre aquele circo, além de todo lixo veiculado na internet ( tem quem faça comunidades no Orkut comemorando a morte brutal da garotinha, tem quem brinque e ache legal, e no fundo pense em fazer o mesmo qualquer hora dessas). Tudo tão grotesco, que se repete, sempre se repete, ad nauseaum. Eu sempre penso que a violência e a pornografia, nos dias que correm, são os dois lados da mesma velha e gasta moeda: na pornografia, os casais/trios/equipes sempre transam do mesmo jeito, o mesmo roteiro, a mesma cópula repetida ao infinito ( com requintes da perversão, pro povo comprar pelo fetiche novo ou aberração diferente), e no caso da violência, sempre uma escalada rumo ao terror, ao horror, à brutalidade pura e simples. Tudo virtual, daí pra passar pro real é tão fácil, tem tanta gente no mundo, pode-se matar e jogar pela janela, que está tudo beleza.
Fazendo isso no Brasil, então, ótimo, esse país com essa tradição da violência gratuita, da impunidade, de gente que arrota burrice e acha isso o máximo... penso em todas as vítimas inocentes desse sistema que reinventa, sempre, o significado da palavra perversidade.
Será que Eros vencerá Tânatos, ao menos no íntimo de alguém, nos dias que correm? E no caso Isabella, a montagem de uma cena do crime tão incoerente... uma das características do mal é a arrogância. Sempre que tem arrogância, tem coisa podre, morta, perversa, narcísica grotesca. Podem reparar: quem mata, abusa, corta árvore, mata bicho, é arrogante. Pensa que é imbatível. No nosso caso, voltando, a impunidade reforça a perversidade de muito neguinho desocupado. Nesse vale de lágrimas, só a compaixão, como diria Rousseau, nos salva. Só o ato desprovido de egoísmo: e não, não existe nenhuma razão fora do mundo para que as pessoas ajam corretamente ( não existe mais Deus, nem metafísica, nem nada): essa razão surge do diálogo e do conforto de se saber gente. Do dia-a-dia, do cuidado de si e dos outros, da pitié, essa palavra tão bonita que o Rousseau usa pra dizer da luz delicada de outono, que existe quando o bem surge entre os homens, quando a justiça é feita e quando o mal não é reparado, mas não é esquecido. Ontem saí de casa, e senti o cheiro do inverno, de vida, de piedade e de luto.

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