Monday, March 31, 2008

O velho Roque

Eu devia ter uns doze anos, quando gravei, no meu primeiro Mini System, uma fita cassete com um especial, narrado por mim mesma, da História do Rock and Roll. Sério. Começava nos Beatles e terminava num excurso sobre o rock brazuca, no caso, os Mutantes e os Titãs ( nunca demasiado lembrar, a panda é do tempo que os Titãs eram os Titãs do Iê Iê Iê).

Na época, eu era uma leitora contumaz da revista Bizz, e colecionava umas fichas de bandas, pôsteres e canções, gravadas do rádio. Notem que eu morava em Jundiaí e tinha 12 anos, ou seja, as minhas possibilidades estético-artístico-musicais eram muito limitadas. Eu adorava assistir o Som Pop, domingo à noite, na TV Cultura. O Kid Vinil apresentava os vídeo clipes, a única forma de atualização da então panda mirim no velho e bom roque-ên-rou. Depois, surgiu a MTV no Brasil, e eu lembro que a gente tinha que pôr o UHF na antena, ( sim, aquela pirâmide de plástico) e pedir pro irmão mais novo segurar a tal numa determinada posição, fazer uns passos de macumba e rezar pra que a transmissão não caísse, antes que o irmãozinho não resolvesse te denunciar pra mãe ou pra qualquer ser de mais de 18 anos. Lembro da primeira transmissão, quatro da tarde, o clipe foi Garota de Ipanema com a Marina, linda e elegantíssima, de laranja.
Os clipes eram um mundo a parte. Achei ontem no Youtube e passei na mesma hora pro Celo e pra Danis um dos meus favoritos de todos os tempos, PHD e I Won't Let you down ( aaaaaaaaa, eu vou ler jornal, vou ler jornal, vou ler jornaaaaaaaaal). Mas isso ainda não é rock, vão me dizer. É pop do mais descarado, sim, sim, eu ouvia Jovem Pan, no Gradiente prateado da sala.
O roqueiro mesmo é o cara udigrúdi, que vai no barzinho obscuro e conhece as bandas obscuras de todos os tempos. Pressupõe um meio ambiente que eu estava longe de participar, a mundos de distância. Mesmo depois de um pouco crescidinha, nunca fui descolada, nunca apresentei bandas pros amigos e sempre me detive no clássico. E sempre gostei do pop, e das fusões com funk, soul e sei lá mais o quê. Sim, claro que eu tive meus All Stars, e minhas trocentas calças jeans, com uma camiseta bege e a letra de Starway to Heaven. Gostava de Prince também, gostava de tudo, até hoje gosto, sou um dos raros casos de ecletismo musical que já vi na minha vida.
Agora, eu percebia claramente, nos meus 12 anos, que rock é atitude. Sede é tudo, imagem não é nada: roqueiro não se cria, não se copia, se é. E pronto. Tem gente que achava, nos meus tempos de juventude, que era comprar o vinil obscuro e tecer um discurso blasé-rock-punk-funk-s'il vous plaît e tava valendo, referências obscuras e muito intelequitualismo faziam o roqueiro. Roqueiro também não é o que enfia o pé na jaca 24 horas por dia, isso é o lado superficial da coisa. Difícil é manter o topete roquêro em pé quando se precisa...

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