Tem um conto muito bonito do Calvino, nos Amores Difíceis. É a história de uma jovem, casada há pouco, cujo marido viaja, que sai com umas amigas e acaba passando a noite com um rapaz, conversando, se divertindo. Ela chega no prédio onde mora e percebe que está sem a chave do portão, e não pode, sob pena de ficar falada pela zeladora, aparecer naquele horário. Daí ela vai para um bar na esquina, está frio, ela com a aba do casaco levantada e o rapaz esquentando a máquina do expresso.
Eu tô me sentindo assim, manhã cedo e eu esperando esquentar a máquina do expresso, batendo a colher de metal cheia de pó na pia e vendo a água ferver. Eu pensei num post muito bonito hoje de manhã, quando vagava pelo frio da cidade. Gosto das manhãs bem cedo. Aqui do lado de casa tem uma padaria muito velha, que passou incólume pelas reformas que deixaram as padarias todas com a mesma cara, a cara de quem fez cirurgia plástica. Eu tinha um colega muito querido que uma vez defendeu essa padaria da minha rabugice, dizendo que ela tinha cara de São Paulo: feia, velha e eficiente. E eu não saio de lá. Tá sempre aberta, e sempre com um café bom.
O post era sobre a escrita da História: o meu pensamento vagava em alguma frase do Marc Bloch, enquanto eu olhava um novo ângulo dum velho casarão. Tô fazendo coleção de fotos das coisas do chamado Ecletismo ( final do século XIX, início do XX) de Campinas, mas tem muito casarão, e hoje eu vinha descendo pela Ferreira Penteado, quase esquina da Barão de Jaguara, e vi que esse casarão tem janelas encimadas por carinhas de leões, muito bonito mas quase arruinado obviamente. Não sei, o post estava bem claro na minha cabeça, mas depois eu cheguei em casa muito cansada, deitei um pouco e acordei com a luz fraquinha do sol batendo na porta da minha sacada, e eu fiquei olhando a luz do sol e os meus dedos, e perdi o post.
Tô batendo o pó aqui. O cheiro da máquina, do pó de café. Eu acho que alguém deveria salvar a Amy Winehouse. Dani já me disse que isso é impossível, e não sei quem me disse que ela não quer ser salva. Concordo, mas ela tem uma voz tão bonita, enquanto isso a gente tem que suportar a Mariah Carey e a Celine Dion. Sei lá. Tem quem queira salvar as baleias, eu quero salvar as baleias e a Amy Winehouse.
O post também dizia que eu não acredito em historiador que não saiba narrar bem. Faz muitos anos que eu não leio tanto quanto eu deveria, leio muito menos do que quando era mais nova. Acho que a gente que trabalha com Humanidades sempre fica tão atolado com as leituras profissionais, e a escrita, que pára de ler com o prazer e o descompromisso que deveria. Mas o pouco que eu consigo ler, eu leio romances, biografias e historiadores. Eu adoro aquela coleção velha, ainda do Círculo do Livro, A Vida Cotidiana. Pode-se dizer que as teses apresentadas estão passadas e tal, mas eu gosto de livro de História bem escrito. Às vezes você sabe, por outra coisa, que as informações ali estão um pouco arredondadas pelo autor ( como no caso do volume de Roma, do Carcopino, que aponta a decadência de Roma como produto, dentre outras coisas, da decadência de costumes das matronas), mas essa é a grandeza do historiador. O cara apresentar a sua versão, a sua narrativa, não aquela coisa chata positivista do cara querendo te convencer que achou o documento que prova sei lá o quê, sendo que documento é a coisa mais fácil de manipular.
E eu termino ouvindo Eye of the Tiger, sei lá porque me veio na cabeça a imagem clássica do Sylvester Stallone como o Rocky Balboa. Tô de volta mesmo.
"Risin' up, back on the street/ Did my time, took my chances/ Went the distance, now I'm back on my feet/ Just a man and his will to survive/ So many times, it happens too fast/ You change your passion for glory/ Don't lose your grip on the dreams of the past /You must fight just to keep them alive"

10 comments:
Puxa, e de volta com tudo pelo jeito!!
Fez falta!
Welcome back!
beijos
chris
Rocky rocks!!!
bjs
M
“The only possible interpretation of any research whatever in the 'social sciences' is: some do, some don't”
Ernest Rutherford, Nobel Prize 1908
Nossa, que saudades dos meus leitores... brigada gente! Beijossssssssssssss!
E o Rocky é foda mesmo... hi hi hi...bjo!
Ah, a citação em inglês. Infelizmente para os positivistas, o documento é facílimo de ser manipulado mesmo. Pois é. Bem como o artigo de jornal, ou qualquer outro vestígio. Nunca me esqueço do caso de uma múmia, de uma nobre egípcia, que passou para a história como uma beldade, por conta das inscrições nas paredes do seu túmulo. Fizeram a reconstrução da face da tiazinha e ela era um espanto. Dante porém dizia que era feio e era mesmo. Contar sempre com a sinceridade dos outros faz com que a margem de erro seja muito grande, sem dúvida... rssrsrr...
E tambem e' possivel detectar a fraude, gracas ao bom positivismo.
E a Amy Winehouse nao tem salvacao. Se eu fosse um desses videntes picaretas eu previa a morte dela ano que vem.
Daí que você erra. Às vezes tem que interpretar o documento, e não há positivismo que faça isso.
Bom, como diria a Mãe Dinah, acho que a Amy não vai muito longe. E como diria a Mãe Dinah, o padre de Santa Catarina também não ia ser encontrado vivo. Milagres acontecem mas o impossível não!
O ultimo era meu, gente, eu deletei porque era duplicado... eu com esses botões! Humpft!
ah, a interpretacao... ai eu nao me meto. Mas sei que com palavras ou dados a interpretacao e' sempre limitada: pelo significado das palavras e pela realidade. E nos dois casos se a interpretacao for descabida outros se encarregarao de apontar e desacreditar essa interpretacao.
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