Ontem, estava ouvindo rádio e fazendo café, telefone tocou, era Dani.
Companheira de baladas e desventuras desde o longínquo 1996, Dani queria tomar um café. Deixei a Belletti entornada e a mala por desfazer, e levei um casaco de couro e um sutiã que ela me emprestou no ano retrasado ( pois é, pois é, depois tem gente que acredita em horóscopo e diz que como toda a virginiana eu sou organizada e certinha) e o secador de cabelo que comprei no Walgreen's do lado da Newberry.
Nem precisa dizer que as duas comadres fofocaram a tarde toda, que do café passamos pro hambúrguer light, e daí pra bolinha de queijo com cerveja... os respectivos companheiros chegaram, e cada uma tomou o seu rumo, com as dietas estragadas e a alma feliz.
Mas antes, muita conversa, muita lembrança, muito amor que se foi. Mas que dor essa, né, Dani? O amor que se foi. Aquela hora em que tudo brilhou e depois... só o disfarce, como diria nosso lindo Springsteen.
Eu tinha perdido meu pai. De uma hora pra outra. Perdi o pai, o melhor amigo, o incentivo, o apoio, a compreensão. O namorado termina comigo. O irmão e a mãe... e no meio daquele abandono, daquele sofrimento, surgiu o convite da amiga tão querida. Vamos com todo mundo pra Vitória do Espírito Santo, pro congresso da Associação Brasileira de Antropologia. O último ano da graduação, e eu chorando a viagem inteira, ligando em cada parada pro namorado, peloamordedeus volta pra mim.
Chega em Vitória, aquela confusão, gente saindo pelo ladrão, e dois colegas da Unesp querendo vaga no ônibus. No hotel, chorava, chorava, e as meninas me proibiram de ligar pro namorado irredutível. E me tacaram na festa, no Forró dos Argonautas, onde só se vendia tequila pra beber. E o colega na Unesp lá. E deu uma epidemia de soluço no povo, passava de uma pra outra.
Dani lembra. Daqui a pouco, a Tati, louquinha mas sempre mãezona, cadê a Paula? As meninas doidas de preocupação, menos a Dani, óbvio, que com seus poderes de menina-xamã sacou tudo. Deixa a outra, o amor queria carona no ônibus, gente.
Tantos anos depois, eu me lembro, Dani lembra, do moço alto, de barba, arqueólogo de profissão, caminhoneiro de coração, que pegou umas malárias escavando na Amazônia, e que veio uma vez me ver em Barão. Tudo isso pra sair correndo sem olhar pra trás. É a vida.

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