Essa música de Natal é de lascar, não é mesmo? E me lembra uma história triste.
Minha mãe deveria ter uns cinco anos, e ouviu essa música. Convenceu os irmãozinhos a por os sapatinhos na janela. No outro dia, criança pobre de Campos dos Goytacazes, só viu sereno nos sapatinhos.
Meu pai, ouvindo essa história, xingava o sogro que não conheceu, e acrescentava que seu pai, o internacionalmente famoso Seu Armando, podia ser um duro, mas comprava presente da Natal pros seis filhos. Presentes simples, mas que mantivessem na cabeça e no coração dos filhos a imagem do São Nicolau secularizado.
Por isso, digo e repito a máxima: o Natal é das crianças. E não importa o valor do presente, é óbvio. Sim, eu sou piegas. Chega essa época do ano, eu juro por todos os orixás que não vou enfrentar supermercado e essas pragas da vida moderna chamadas shopping centers. Que não vou me render ao capitalismo selvagem e que de mais a mais nem boa cristã sou, eu que aos quinze anos deixei de ir no curso de crisma pra ficar assistindo Simpsons, que coleciono pecados veniais e capitais a torto e a direito, que desde os dez anos não me confesso e quando comungo, de dez em dez anos, o faço no trágico estado de pecado sem remissão.
Mas não adianta. Vai chegando perto da data, lembro do sorriso do filho de uma amiga, do sorriso da amiga, daquela pessoa que me deu tanta força o ano inteiro, do bom funcionário do prédio, enfim, e enfrento as filas dos supermercados, shopping centers, compro uma roupa nova e lasco dois quilos a mais por causa do tender, peru, farofa e nozes. E lembro da velha lição franciscana do presépio, da simplicidade de caráter, do menino judeu nascendo, e canto a musiquinha da Vida de Bryan, do Monty Phyton.

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