Tuesday, December 27, 2005

Opus Dei

Hoje fui com o Celo levar minha mãe ao aeroporto.
Passamos pela La Selva, e vi As Crônicas de Nárnia, de C.S.Lewis ( a gente assistiu ao filme essa semana), a biografia da Carmem Miranda do Ruy Castro, e o livro Opus Dei- A Falsa Obra de Deus, cuja autora, Betty Silberstein, teve o filho desaparecido na grandiosa e sinistra obra de Josemaria Escrivá.
Vi a capa do livro e isso provocou uma enxurrada de lembranças. E idéias nada agradáveis. Chegando em casa, fuçando no Orkut, descobri comunidades discutindo essa Igreja dentro da Igreja. A maior parte contra, e indicando o site www.opuslivre.org. Nesse site, de utilidade inquestionável, ex-membros contam o terror totalitário dessa estrutura de poder montada durante o franquismo, para apoiar tal regime na guerra civil.
Lendo os depoimentos, me vi em 1996, segundanista de Ciências Sociais na Unicamp. Havia acabado meu primeiro namoro de forma um tanto quanto desastrada demais, acabado de ler Marx, de aprender a dirigir e de escrever um projeto de iniciação científica. Nesse torvelinho, uma colega, que eu gostava e simpatizava muito, se aproximou de mim.
Na época, eu me sentia meio deslocada na turma de faculdade, porque ao contrário da maioria, morava com os meus pais e era muito mais nova, quase sem nenhuma experiência de vida. Também não colaborava com a situação o fato do meu pai ser um rematado pão-duro. Me vestia super mal, não saía pra nada e não tinha condições de acompanhar as meninas da turma que eu admirava nos programas.
Bom, essa colega era simpática, engraçada, e me convidou pra ir passear em São Paulo. Ela morava muito perto da CESP, e meu pai consentiu em minha mãe ir buscá-lo, depois de uma consulta minha no dentista, e me deixar na casa dela. Foi um sábado muito agradável, e ela passou a me chamar pra tomar lanche, essas coisas.
Um dia, ela me convidou para ir a um Centro Cultural no Guanabara. Era no caminho do ônibus pra casa, topei na hora. Ansiava por ter uma vida cultural, por eventos grátis, e era uma casa antiga, onde todas as moças eram simpáticas. Havia uma boa biblioteca e conversas legais.
Comecei a frequentar o local, e um dia, uma das moças simpáticas me chamou num canto. Perguntou se minha família era católica, e eu confirmei.
Um tempo depois, minha amiga me contou que era um Centro Cultural pertencente à Igreja. Não vi nisso nada de mal, apesar da minha crescente desconfiança em relação aos dogmas e de ter lido Marx com afinco. Minha experiência em Jundiaí com os padres salvatorianos, amigos do meu pai, era muito boa: meus livros de religião eram da Editora Vozes, e os padres falavam em Teologia da Libertação, Comunidade Eclesial de Base e São Francisco de Assis. Valores que não eram tão contrastantes ao IFCH e nem ao pensamento esquerdinha que eu sempre tive.
Em nenhum momento me foi explicado ou dito que ali era o Centro do Opus Dei, seção feminina, de Campinas. Mesmo quando, meses depois, fui convidada para ir pra Piracicaba, junto com outras garotas, passar uma semana das minhas férias de julho numa escola de periferia, fazendo atividades recreativas com as crianças do bairro.
Dormíamos nas salas de aula e tomávamos banho na creche ao lado. Um frio horroroso e um esquema de atividades surreal, que eu enfrentava porque sempre fui meio hiperativa. Lembro que na turma destoava uma mulher mais velha, sempre em roupas severas, e que me tratava meio no deboche. Um dia, uma das meninas veio me repreender porque eu saía pelada do banho, com a toalha amarrada na cabeça ( além de hiperativa sou uma pequena tupinambá). E algumas garotas rezavam muito. E a comida que a gente comia era duzentas vezes melhor que as roscas duras e o leite de soja azedo que se dava às crianças.
Voltei pra Campinas e um dia, num passeio pela Unicamp, com outras colegas, confessei que tinha perdido a virgindade meses antes, e minha amiga passou a me evitar. Deixei de ser convidada pro Centro.
Ela ainda tentou me chamar um ano e meio depois. O Centro estava numa mansão no Taquaral, e lá eu fui chamada para uma missa. E pela primeira vez eu vi um padre espanhol, vestido de negro dos pés a cabeça, tão diferente dos bonachões salvatorianos da minha infância.
Ali percebi que o Opus Dei era algo meio sinistro. As garotas que moravam no Centro viviam uma vida estranha, longe das famílias. Minha mãe, sempre avessa à Santa Madre, passou a sabotar as tentativas de contato de uma das meninas do Centro.
Minha colega não desistiu, porém. Depois da morte do meu pai, eu já saída da casa da minha mãe e recém-ingressa no mestrado de História da Arte, me chamou para dar uma palestra sobre Arte renascentista num Centro de São Paulo. Peguei um paletó risca de giz que até hoje me acompanha e fui encontrá-la na estação Vergueiro. Dessa vez, fui parar num lugar definitivamente sinistro, com pessoas estranhíssimas, parecendo cena de filme do Fellini.
Falei de Leonardo, Michelângelo e Rafael com a desenvoltura de quem sabe que a fé católica deles era pré-Concílio de Trento, ou seja, nada mais longínquo de Escrivá. Bom, essa minha amiga, perdi o contato, só a encontrei na exposição dos Manuscritos do Mar Morto ano passado. Magérrima, sofrida, envolta num pulôver que era da época em que ela ainda sorria. Ao lado de um marido de olhos ausentes e um menino.
Fiquei feliz de reencontrá-la. Ela me olhava de um dos piores jeitos que alguém já me olhou. Disse que havia tido uma filha e que a menininha faleceu. Fiquei chocada com o jeito horrível com o qual ela falou isso. Ela me disse que eu estava muito gorda, e que precisava me cuidar. E foi só. E pensei, ela continua na Opus Dei. Ela aceitou a morte da filha, aceitou casar com um idiota qualquer, aceitou perder a alegria, tudo porque é vontade de Deus.

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