Friday, December 02, 2005

Disneylândia

Se você, como eu, um dia foi criança em meios urbanos, com certeza não passou imune ao mundo de Walt Disney.
A primeira referência dos EUA, além da Coca-Cola que minha tia comprava nos Natais acalorados e calorentos no Rio, com certeza, foi um Mickey de pelúcia mal-ajambrado que eu tinha, sei lá quem me deu, e que figura no meu álbum de fotografia de bebê.
Aqui perto do meu apartamento, fica a loja da Disney em Chicago. Nem precisa dizer que é um monstro, que tem tudo e etcs e etcs. Hoje, depois do salvamento via Western Union, retomei ao meu projeto compra de presentes. Quero levar lembrancinhas a todos os queridos e queridas que ficaram no Brasil.
Entre esses queridos e queridas, estão alguns pequenos e derivados, como minha afilhada Camila, que de pequena não tem mais nada, mas que continua a ser, na cabeça da madrinha teimosa, quase aquela menininha.
E o que comprar pra gurizada? Vi milhões de brinquedos na Gringoland, alguns alternativos e engraçadíssimos na loja do Museu de Arte Contemporânea, como os Ugly Toys. São bichos de pelúcia horrendos, sangrando, cheios de espinhas ou caolhos. Mas pro meu azar, tudo que é alternativo, artesanal e bacana, custa os olhos da cara aqui.
Andando pela Avenida Michigan, frio da joça, multidões enlouquecidas cheias de pacotes, entrei na loja da Disney. Cansei de brigar com o capitalismo, façamos os pequenos felizes.
Realmente, a loja tem de tudo, super bonito, bem arrumado. Fantasias caríssimas e caprichadíssimas vestem a molecada de Cinderela, Nemo, todos os heróis e heroínas dos desenhos tão queridos. Pijamas, canecas, orelhas de Mickey e Minnie, enfim, o mundo da parafernália.
No meio de tudo isso, e de uma pequena multidão enlouquecida de gringos vivendo e respirando Natal ( depois do Ação de Graças, a verdadeira obsessão americana), a fatal promoção. Que colocou essa tentativa de intelectual de quase meia-idade ( esses quase matam) pra escanteio: o cidadão comprava um bichinho de pelúcia, ganhava outro.
Meu Deus! E toca revirar Patos Donalds, Tigrões, Ursinhos Puffs, Bambis, todos charmosos, lindos, bem-feitos ( na China, claro) e fofos, fofos, fofos demais. Todo mundo comprando, pirando, mas é o Dumbo, que fofo! Mas é a Marie dos Aristogatas! Eu amava esse desenho! E todos os 1001 Dálmatas, e eu me lembrei das tardes de sábado, em que meu pai levava a gente pra assistir filme no auditório do prédio da CESP, na Paulista, aquele que pegou fogo.
Prédio lindo, auditório super-caprichado, e muitas sessões de Pinóquio, Branca de Neve, A Bela Adormecida... e um desenho belga tipo Disney, A Ratinha Valente... Fievel... e a alegria de ter Branca de Neve no meu bolo de aniversário, ou a carinha sorridente do Mickey... e as revistinhas, e o sonho de ir pros parques.
Por um momento, o lado rabugento, aprimorado por dez anos de IFCH, veio à tona, mas que ridículo, a gente sabe muito bem que o Walt era canalha de marca maior, roubava as idéias da equipe e era fascistão. Que esse mundo de fantasia é só pra fazer o povo gastar grana em bobagem e o fetichismo da mercadoria, e enquanto isso na favela do Rio uma criança passa fome, e pá, pá, pá, e a ruína da civilização ocidental, e o estabelecimento da neurose enquanto solo do grande e sinistro e devorador edifício do modo de produção capitalista...
E eu lembrei do sorriso do Felipe, sobrinho do Celo, bebê ainda, quando viu o Tigrão de pelúcia que o tio comprou, no início do nosso namoro, e que a gente pôs no carro sentado no banco de trás. E eu lembrei do sorriso da Ana Clara, filhinha da Elisa, quando pusesse a mão na Bu, a menininha tão fofa do Monstros S.A... e aí, meu filho, a coisa foi pras cucuias. Sentimental eu sou, voltei pros bichinhos. O Mickey de aprendiz de feiticeiro sorria.
Um menino negro atendendo, jeito humilde, mas muito sorridente, me ajudou a escolher os fofos. E me deu uma super cesta pra pôr meus novos amiguinhos. E dizia sorrindo, mas é muito fofo mesmo, olha só esse Pluto vestido de duende...
Fila imensa, nem precisa dizer. O estranho é que tinha muita criança, mas todas muito obedientes e quietinhas. Em quinze minutos, forrei a minha mala de volta de sonhos, saudades, lembranças... e dois Tigrões natalinos, um Mickey que toca violino, uma Bu segurando um monstrinho....

4 comments:

Anonymous said...

Nossa, eu tou adorando acompanhar essa viagem, cheia de sustos, prazeres e emoções! Agora "quase de meia idade", tenha dó! Bjs ( de alguém que pelo visto já tem idade completa), Nan.

Maria said...

Hihihi, que bom que vc postou um comentário... eu agora preciso escrever um post em sua homenagem.... beijos!


obs) esse negócio de meia-idade, é por que eu li um trecho do Balzac!

Skywalker said...

Duedu, vc está escrevendo muito bem e de forma muito agradável e prazerosa.

Parabéns!!

Beijos,

Celo

Maria said...

Duds, isso acontece porque eu te amo, hihihihi....