Tuesday, September 04, 2007

Soul Driver

E eu fiquei lendo Jung, o "Memórias, Sonhos e Reflexões".

No meu primeiro ano de Ciências Sociais, fiz o curso de Política Clássica com a mestre jedi Amnéris Maroni. Pequena no tamanho e carinhosamente apelidada, por mim e pela minha mãe, de duendinha, vinha dar aula na IH 02 lotada por calouros burros de guarda-pó branco, impecável. Às duas horas, Amnéris começava as suas análises meticulosas, perfeitas. Eram sempre duas aulas sobre ensaios de grandes historiadores sobre o período do pensador que vinha a seguir: Jacob Burckhardt e sua "Cultura do Renascimento na Itália" abriram o universo de Maquiavel; Christopher Hill o de Hobbes e Starobinski, o de Rousseau.
Era um universo múltiplo, enriquecedor ao extremo, apesar da braveza sem limites da supracitada mestra. Um dia o Smith, de saudosa memória no IFCH, chegou às quatro e meia e sentou na primeira fileira ( as duas primeiras fileiras sempre ficavam vazias, todo mundo se espremia no fundo de medo da pequena duende, com nome de princesa egípcia vilã de ópera do Verdi) e começou a coçar o pé sujíssimo na havaiana desbotada. E a mestre, que compartilha o sobrenome com ninguém menos que Públio Virgílio, discorria concentrada sobre a máxima maquiaveliana do "É melhor ser temido que amado". Smith:" Pô, Amnéris, o príncipe só quer ser amadoooooooo".
Amnéris sempre nos chamava de senhor e senhora. E pelo sobrenome. Então pra ela eu era a senhora Vermeersch, e não tinha conversa. E nesse dia o tempo fechou e Amnéris bradou: "O senhor Smith tem a cara de pau de chegar às dezesseis e meia da tarde, sentar na minha frente e coçar seu pé sujo e fedido nessa havaiana maldita e ainda me dizer a maior bobagem proferida por um ser humano desde os tempos da escrita cuneiforme dos sumérios. Pois o senhor suma da minha frente, senhor Smith, senão serei obrigada a lhe rogar uma maldição terrível!".
Outra peculiaridade da duende-egípcia-etrusca: ela é jungiana. De carteirinha. Talvez, depois da dra. Nise da Silveira, a maior apaixonada pelo dr. Carl Gustav na terra brasilis. O nó-górdio da questão é que Amnéris era jungiana depois de ter sido, muitos anos, uma das marxistas mais articuladas das plagas do IFCH, e autora de um estudo célebre sobre as greves de 68 ou 78, nunca sei direito, porque ela renegava esse livro. Ela dizia, de forma sincera e heterodoxa pra academia, que havia sofrido uma experiência de descentramento psíquico violenta, uma descida aos infernos trágica, e desse processo de sofrimento atroz ela havia saído outra. E que a obra de Jung condensava seu ideal de vida, seu projeto intelectual mais completo.
A erudição, a braveza e a doçura inesperada fizeram da Amnéris, pra mim, uma heroína. Eu tive a coragem de fazer o Leviatã do Hobbes em quadrinhos pro seminário dela, a melhor coisa que fiz em todos esses anos de universidade. No último dia, ela falou que queria aceitar alunos pra projetos de iniciação científica. Eu estava sentada no fundo, com um vestido florido que ela elogiava muito, e que eu comprei no Bom Retiro, na compra de roupa que meu pai me deu "pra poder ir pra Unicamp"( antes disso, não tinha roupas, porque nos anos do colegial usei uniforme, e algumas peças velhas de ficar em casa). Levantei emocionada. Mas detalhe, estava menstruada e uma colega invejosa logo veio me dizer que o vestido tava manchado. Pensei, que se lasque, eu queria tanto essa bolsa, queria tanto que Amnéris fosse minha orientadora.
E assim foi. Muito, muito, muito aprendi com ela. Nos anos que se seguiram, minha vida girou em torno de várias questões apresentadas por ela, solucionadas prematuramente por ela, ou que ela enunciou pra mim. Em várias ocasiões ela foi terrível, mas em todas ela me abriu o caminho. E hoje, na cama, li o final da autobiografia do mestre da minha mestra. Ele escreveu, ainda jovem, uma obra de caráter gnóstico, sermões para os mortos. Uma coisa bela, intrincada. E é linda a idéia de Jung, que os mortos precisam dos vivos para conhecer: porque só mundo das três dimensões pode-se entender os processos. E que os mortos só sabem o que sabiam no momento da sua morte. Pensei no porquê de ter estudado o personagem Virgílio na Comédia: e a relação Dante-Virgílio é exatamente essa: o passado, a memória, unido ao calor do afeto, do sofrimento de quem vive. E o Bruce, de quem eu gosto tanto, tem uma canção graciosa no Human Touch, chamada Soul Driver. Tem pessoas que são Soul Drivers, vivas e/ou mortas.

Monday, September 03, 2007

Samba Italiano

E no IEL continua a saga da maledetta, diligentemente revisada pela mãe da Ju e que é corrigida pela panda em momentos de ternura extrema, ansiedade horrível e nervoso maluco.

O que salva é a trilha sonora. Hoje acordei cedérrimo, porque eu precisava ir à 7a. Delegacia de Trânsito de Campinas. Sim, porque quando ataquei de panda-enfermeira, e salvei o Celo de um infarto do miocárdio, passei em alguns radares a 65 km/h, quando o limite permitido seria 60 km/h; tais infrações somaram pontos na minha carteira, que hoje foi devidamente suspensa, por um mês, pelo supracitado órgão.
Porque acordei cedo e fui dormir tarde, esqueci de pôr Neguinho do Pastoreio pra recarregar. Tive que apanhar três CDs na estante, pra agüentar a maledetta no IEL. Peguei o Yamandu Costa e o Paulo Moura, lindo, lindo, Elis e o Falso Brilhante e Adoniran. Porque sem Adoniran não dá, vamos combinar.
E piove, piove. Hoje a mardita me deu alegrias: apesar de molhada pela água da minha garrafinha, com orelhas de burro, toda rabiscada e suja de café, fez gente chata engolir o dito "não se pode escrever nada de novo sobre Botticelli". Hihihihihi, panda vingativa. Tô Cambuci demais, e lá vai pedrada na ladeira da Lavapés!
Eu estou a pé, mas a marrrrrdita vai no fim. E recebi a primeira notícia boa pelo correio, em mais de cinco anos ( eu sempre pisava no maldito simbolinho da FAPESP, sinal de que tinha me ferrado, conta pra pagar, aviso da Renner que eu tava indo pro SPC, multa e malices em geral): tenho um dinheirinho no meu Fundo de Garantia, esperando por mim. Não é muito. E na atual conjuntura sócio-econômica, seria prudente não torrar. Mas tô nem aí: vou me pirulitar e rever o Tietê. O pógreçio vem do trabaio, amanhã vou trabalhá, se Deus quiser, mas Deus não qué.

Sunday, September 02, 2007

Proibido para menores


Segundo Michel Foucault, falar sobre sexo é uma maneira de evitar fazer sexo. Se for verdadeira essa máxima, nunca se fez tão pouco sexo, na história da humanidade, quanto nessa pós-revolução sexual.Você tá na fila do supermercado, e na gôndola de coisas inúteis mas que todo mundo acaba comprando, lá está uma moça lindíssima de vestido transparente, pose provocante, na capa da revista Nova. As chamadas são explícitas: "240 novas posições", "Lamba seu gato com técnicas surpreendentes", "Vá às alturas com cubos de gelo e algemas de pelúcia"...Em outra revista, a Vip, outra moça lindíssima, em pose provocante, mas mais vestida do que na capa da Nova ( o que é engraçadíssimo, vocês hão de convir), e outras chamadas: "Enlouqueça as mulheres com a técnica do canguru perneta invertido", e la nave va.
Na internet, sites e sites pornôs funcionam e trazem, 24 horas por dia, as imagens de uma grande orgia, inesgotável, uma transa que nunca acaba,mas que sempre é a mesma, se renovando ad infinitum.
E eu, do fundo da minha pandice e catolicismo mal digerido, me pergunto: seremos mais felizes, na cama, do que nossos avós? Tudo leva a crer que sim.As mulheres podem tomar a iniciativa, podem morar sozinhas. Apesar do meu cristianismo, eu não me escandalizo com nada.Estranhamente, eu, vinda de uma família bem conservadora, machista e católica, herdei do meu avô holandês e das minhas tias birutinhas uma atitude muito liberal nesses quesitos.Não concordo com o discursinho "O sexo está banalizado, voltemos às origens, ao romantismo, ao significado profundo da subjetividade do eu expresso na emotividade do ser". Mas que nada.
Como dizia o guru máximo Serge Gainsbourg, tem hora que todo mundo, todos os seres humanos depois de uma certa idade e da chuva de hormônios da puberdade, enfrentam o transversal dos anos eróticos.Tem hora que o tempo ruge, e o bicho pega mesmo. Daí meu ceticismo diante de todas as tentativas de repressão sexual, menos as que vão direto à práticas criminosas, obviamente ( pedofilia e violência, abaixo da linha da miséria).O tio Freud tava certo, a pulsão e é isso. Repressão dá neurose, histeria, sensação de morte iminente, inveja, ressentimento, vida cinza, mania de perseguição e chatice generalizada. Certo que todo mundo também passa por períodos de baixa, entressafra, mas não tem nada mais chato que gente que fica controlando a vida do alheio, nesse aspecto.Não concordo com o machismo da "mal comida", tem homem que também é histérico e pé no saco. Gente não nasceu pra passar fome, e sim pra brilhar. E como diria Gainsbourg de novo, e como brilham a ilha nua, e as vagas do mar, no amor físico.

Cambuci

Então, a pouco menos de um mês do meu aniversário, tenho pensado muito no meu bairro de origem. O velho Cambuci.

Eu nasci, a rigor, no Ipiranga; como a Independência brasileira, às margens deste. Mas com um dia de vida subi a ladeira e me instalei na Theodureto Souto, no coração da chamada Vila Deodoro, paralela à Lins de Vasconcelos. Meu avô, que já virou personagem do Meio, ( ver lá atrás), por obra e graça da minha conterrânea Dani Mônica, ops, Manica, era zelador num prédio ali. Meu pai, jovem engenheiro da Light, nos dias que se seguiram ao parto, foi convidado para trabalhar na CESP. E minha avó era brigada com minha mãe, o que fez com que a napolitana Dona Ofélia, moradora do primeiro andar e que fazia massas, me adotasse e me desse os primeiros banhos, me levasse nos primeiros passeios e me integrasse na cultura ítalo-paulistana.
Cultura essa que, no Cambuci, granjeia. Como já foi observado por importantes personalidades do bairro, como Alfredo Volpi, dona Ofélia, Dani Manica e o povo da comunidade do Cambuci no Orkut, o Cambuci não é um bairro: é uma garantia que você vai ser um monte de coisas.
Em primeiro lugar, você amará com todas as suas forças comer. É sabido que o melhor lanche da cidade de São Paulo é o da Chapa, o melhor pastel, do Yokoyama, o melhor espanhol, e uma das melhores pizzas. E padarias. E gente que cozinha de tudo. E muito. E que convida a rua toda pra comer. Comer faz bem e alimenta!
Em segundo lugar, você falará muitos palavrões. Em todas as ocasiões, de velório a aula em colégio de freira. Não temerá a opinião classe média de outros bairros, cidades e países, de que ser desbocado não é bom. Sim, você será desbocado. Perderá o amigo mas não a piada. Perderá a classe, a grana, a mulher, mas não o bom humor. Baterá o carro, quase morrerá, seu time perderá o campeonato, mas o Cambuci te segura. O sotaque te segura. Porque sempre terá alguém pra te zoar. E pra você zoar. E é tudo anárquico mesmo, o anarquismo em São Paulo, segundo consta, surgiu no Cambuci. O povo se escondia na igreja de Nossa Senhora da Glória, o agulhão em cima do morro, e jogava pedra na polícia de catapulta. Sim, porque no Cambuci o padre era anarquista e jogava pedra na polícia.
Não, o Cambuci não é fashion. Não tem prédio bonito. Aliás, não é bonito, ali perto tem a Baixada do Glicério, é feio, pobre, acanhado. Tem cortiço, tem mendigo, é sujo. Sim, quase é engolido pela gigantesca Móoca, pela fresca Aclimação, pelo contraditório Ipiranga. Mas o povo malha o Judas. Eu lembro que na rua dos Lavapés o povo sempre malhava o Paulo Maluf. Evidente que a polícia passava, o povo dizia que o Judas era o Judas. Era a viatura dar meia volta e ir embora e o povo punha os óculos e a plaqueta Paulo Maluf, o governador da época, e malhava, malhava, malhava.
As crianças do Cambuci achavam viável vender pipoca na rua. E jogar o tênis do amiguinho na fiação elétrica. Sim, porque em terceiro lugar, se você foi criança no Cambuci, você andava no Parque da Aclimação, teu pai te levava pra comer na Liberdade, e você achava a Catedral da Sé um portento. E seu peito tremia, quando, de Fusca, você singrava a Paulista. Ou ia ao Shopping Ibirapuera ver brinquedos que você nunca teria. Mas pelo menos você malhava o Judas e comia pastel no Yokoyama. E morava perto de Volpi e não sabia!

Thursday, August 30, 2007

Haikais de agosto

Tristeza

Amoras
pisadas
poeira e vento


Ansiedade

Mesma sopa
porém
em vão


Espera

Flor do ipê
amarela
em cima do carro


Saudade

Velha igreja
do bairro natal,
fruta que não mais existe

Wednesday, August 29, 2007

A tese e o telefone

Esses meses todos, o glorioso invento de Graham Bell bateu de frente com minhas tentativas de análise dos disegni do Botticelli.
Começa logo de manhã. Depois de um reforçado café, sento no Caronte pra adentrar no mundo dos homi do século XV, tarefa hercúlea para eu, mulher, afro, ameríndio, batavo e luso descendente, pobre e burronilda, mas enfim, tentaremos. Toca o telefone. É Celo sendo fofo na hora que não pode. Falo, Celo, depois a gente conversa, e ele do outro lado, humpft.
Toca o celular. É minha mãe. Ela comprou um milhão de créditos e agora insiste em só ligar no celular, de celular pra celular , pra torrar os créditos dela. O que faz com charme e requinte: liga pra berrar no meu ouvido que vou perder minha carteira de motorista, que isso é um absurdo, que piriri e pororó. Falo, mãe, tô ocupada. Já reparei que é uma questão de gênero: se um homem fala eu tô ocupado, todo mundo respeita. Mas se é mulher, ai, não, tira cinco minutinhos pra mim. Ninguém respeita mulher escrevendo. Nem dando de mamar. Nem cozinhando. Nem nada. Mulher é pra atender todo mundo, é a tese no micro, o telefone que toca, a panela no fogo e a lista inteira de coisas cacete pra fazer, como ir na Caixa Econômica Federal atrás de caraminguás de fundo de reserva, ir no sapateiro trocar a sola do sapato, ir na costureira e ainda passar no varejão, porque, sim, vai ter gente pra janta hoje.
Toca o telefone de novo. É da casa da Lúcia? Não, meu senhor, tenho certeza que não é. Os humanistas do século XV tinham criadas, moravam todos, no caso dos florentinos, na belíssima Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. E não tinha telefone. Agora é banco, oferecendo dinheiro. Não, meu senhor, eu até queria ter dinheiro pra ir pra Florença, ficar na Villa dos Medici, entre ciprestes, prainhas onde nasce a Vênus e flores cheirosas. Mas depois eu não tenho um Lorenzo de Medici pra pagar a conta.
E mais telefone. Um amigo, mágoas de amor. Sim, ela foi filha da puta com você. Sim, isso não se faz. Puta que pariu, ela fez isso? Meu, corta essa pessoa. Não, quer dizer, você não tá me atrapalhando. Eu só tava no meio de uma nota de rodapé sobre a edição de 1506 da Divina Comédia, do editor Fillipo Giunti, que tem o Mapinha do Inferno... não, ela realmente foi uma filha da puta.
Mais. Baby amiga, agora não dá... eu tenho que terminar a tese. Enfim. Sim, você é legal, linda e maravilhosa e merece ser feliz. Mas pára de fazer besteira... sim, isso. Isso que eu tô falando, concentra-se nas suas coisas. O cara vai te procurar, se gostar de você... claro que vai. Take it easy. Fica bem, puxa, você é tão legal...
Mais. Mas você fez isso? Agora pra consertar, deixa eu ver... puta agora vai ser foda. Não, para de chorar! Vai dar tudo certo!
No final, um amigo me falou: não atenda. Eu não tenho bina. Eu não tenho nada contra quem me liga. Mas agora, eu preciso terminar o Caderno de Imagens da minha tese. Com 250 imagens.

Tuesday, August 28, 2007

Onde haja um tobogã, onde a gente escorregue

Revisão da tese. Trabalho delicado, difícil. E tapar os últimos buracos.

Passei os últimos dias meio mal, ansiosa demais. Dor de cabeça, de barriga, de tudo. E pra piorar veio o aviso do DETRAN, multas tomadas na semana que o Celo tava no hospital. E questões pessoais dolorosas.
É chato a gente saber que tem gente que fala mal da gente. E no caso, soube que disseram que eu precisava me tratar ( essa foi a expressão que usaram). Que era doida. E eu tô me tratando, eu tô enfrentando os meus problemas. É chato ser acusada, é chato ser sugada e invadida. No final, essas pessoas não pagam minhas contas, não sabem da dor e delícia de ser eu. Chato porque como bem diz Chico, pra essas pessoas eu fiz o bem, emprestei dinheiro, então elas tem motivo pra falar de mim. E eu tô, como diz ele, injuriada.
E de repente, no meio disso tudo, como sempre, pintam momentos legais. Pessoas legais, surpresas delicadas, transas, comunhões, planos de vamos fugir, qualquer outro lugar ao sol, qualquer outro lugar ao sul. Utopias? Utopias. Impossíveis horizontes? Como eu disse pro André, no final da tarde escuro, planos longa duração, citando Braudel. Posso ser doida, equivocada, nervosa, angustiada, mas sempre há uma esperança de vamos fugir, give me your love.

Sunday, August 26, 2007

What's Up, Tiger Lily?

Eu sempre precisei de amigos descolados pra me apresentar as coisas. Músicas, filmes, roupas, modas e sensações do momento, eu sou super atrasada e conservadora. Demodé mesmo.
Minha mãe é que me apresentava as coisas: lembro dela toda empolgada passando gel New Wave no meu cabelo, ou comprando presilhinhas, essas coisas. Depois outras figuretes descoladas surgiram, sempre pra me pôr em dia porque eu sou de lascar de atrasada. Tipo Dani Nenem, que me deu o Caio Fernando Abreu dela, o Morangos Mofados; ou os meninos Julinho e Chaplin, Táta e Little, Celo, ou seja, sempre tem que ter alguém interpretando e trazendo pra mim as coisas.
Ontem foi um dia desses, por exemplo, a Little resolveu fazer pavê e Lady Monique, brownie ( receitas, meninas, please). Chapolin Colorado e Lelê trouxeram o primeiro filme cômico do Woody Allen, parece, What's Up, Tiger Lily? de 66, um Batman na Feira da Fruta ( filme redublado) engraçadíssimo e chapadérrimo. No quarto da Little, mais uma vez Nenem me envia, dos céus dos descolados, uma indicação preciosa: Santiago Nazarian. Verônica Stigger, minha amiga, foi arrolada, junto com ele, na tal nova geração literária; ele tem a minha idade exata e Dani Nenem é amiga dele. Lindo o livro, li à noite em meio a uma paz de espírito rara de encontrar, na fase que estou: A Morte sem Nome, a personagem vira o jogo e o autor se torna refém dela, num espelho revirado da Macabéa de Clarice. Muito bom.

Wednesday, August 22, 2007

De repente, 30

Daqui a um mês, 30.


Nem parece. Mas os cabelos brancos, a falta de assunto e um jeito meio triste de ver as coisas, já apareceram faz tempo.


A crise veio, o returno de Saturno existe e é bravo, aviso aos navegantes. E ainda mais essa, um mês de inferno astral, ninguém merece, depois de uns dois anos de crise absoluta, total e irrestrita.

De repente, 30. Teve épocas que eu pensava, gente de 30 já tem que ser respeitável. Gente mais velha é madura, decidida, equilibrada. E eu, no meio do turbilhão dos 20, pensava, aos 30 terei meus filhos. Aos 30 serei um mulherão. Aos 30, o emprego, a estabilidade. O barco vai atracar no cais, mas que nada. Aos 30, uma certeza, enquanto temo, no espelho, pela primeira ruga: sou a mesma garota looser de sempre. Só que agora, com fartos cabelos brancos, muito drama, pé na estrada e coração um tanto quanto empoeirado. As músicas de sempre. Os amigos de sempre. Play it again, Sam.

Tuesday, August 21, 2007

Cláudio Lembo, a fofoca e a Inconfidência Mineira

Hoje, no site do Terra, texto excelente, fundamental mesmo, sobre a fofoca. Pelo ex-governador Cláudio Lembo, o cara que pegou o nabo do Alckmin, isso mesmo:


Sim, o cara é pefelê. Sim, o cara é conservador. Mas o texto é maravilhoso: investiga um dos males que grassa na terra brasilis, a maledicência, a intriga, a fofoca, a inveja idiota dos medíocres. Para Lembo, o mal começou nas práticas sociais ligadas à Inquisição: o carinha dedava o outro, ou mesmo inventava coisas do arco-da-velha, e conseguia emprego, posição, estima. O fofoqueiro é estimado e temido ao mesmo tempo; o língua de trapo, assim, consegue a façanha de conjugar, no mesmo ato, o impossível segundo Maquiavel ( para o grande pensador florentino, era melhor ser temido que amado). E isso é de grande valia, numa terra de desvalidos, de degredados, de gente sem eira nem beira.
Lembrei do caso do delator da Inconfidência Mineira, Joaquim Silvério dos Reis. Procurei na net e achei um site, onde alguém pôs a carta-denúncia, enviada por esse oficial ao Visconde de Barbacena, governador das Gerais. O melhor de tudo é, que na página, a pessoa defende Joaquim Silvério: diz que o pobre era homem de confiança do governo e tinha que entregar mesmo o povo.
Antes mesmo de ler a carta, pensei: esse carinha só podia ter inveja brava do gatão e um dos maiores poetas da língua que escrevo, ele, o meu amor Tomás Antônio Gonzaga. E não dá outra: o cara começa a carta dizendo da revolta que sentiu por não ser promovido de patente, diz que se exaltou e aí um dos conjurados o procurou para participar dos eventos, liderados por Gonzaga, preocupado em salvar os patrícios dos exorbitantes impostos cobrados pela Coroa, na condição de Procurador, em Vila Rica. O leitor do site diz que os inconfidentes não queriam libertar o Brasil. Como Cláudio Lembo, eram conservadores, isso todo mundo sabe ( pra não se cair na idealização do movimento, feita na Primeira República). Mas que o Joaquim Silvério separou Marília de Dirceu, e a cabeça do alferes Tiradentes do resto do corpo, isso ele fez. Como diria a grande Cecília em seu Romanceiro, vai ser pusilânime assim no inferno. Fofoca é do mal.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Silv%C3%A9rio_dos_Reis: e o filho da puta ainda se deu bem. Por isso que fofoca é do mal, mas é endêmica, como diz Lembo.

Monday, August 20, 2007

Da cafonice do amor

Dia desses, na biblioteca do IEL, li um livrinho do Flávio Gikovate sobre o amor.

Sei que o Gikovate, bem como a psicóloga que citei, da revista Caras, são pop, daí entendo a cara feia de alguns leitores. Mas o amor é pop, cafona, brega, sem noção, mesmo. Então tudo bem. O Gikovate dizia que o sofrimento é inerente ao amor, e que amor é algo que dói mesmo, sofrimento de amor não é besteira. Bem sei eu.
Sofrer de amor é estar pela metade, incompleto, latejante. Não adianta, como eu disse outro dia, "se amar primeiro pra amar o outro". Não. O amor por si surge no amor pelo outro, na sua plenitude. Quem ama pode, um dia, a vir a se amar. Mas é necessário o descentramento primeiro.
Daí, minha delicadeza e atenção aos atos e desvarios de amor. Gosto de pensar que vivo sob o signo de Vênus, por conta do tiozinho barrilzinho: a alegria, o prazer, a vivacidade, o sexo, o melhor da vida vindo à praia, nas palavras de Homero. Sou boa confidente, percebo que muitas pessoas vem contar pra mim suas agruras, e gosto de dar conselhos. Também gosto de amar, já tive grandes paixões, todas obviamente fracassadas mas que me fizeram mais eu. Errei. E erro. Fazer o quê, né? Se chorei ou se sorri, o importante, como diria Roberto...

Wednesday, August 15, 2007

A Cúpula de Brunelleschi e a memória


Tapando os buracos da maledetta, que continua uma rodovia Rio-Bahia, esburacada e desajeitada, mas no fim.


E um buraco: a menção, feita pelo poeta florentino Alessandro Parronchi, que os desenhos do tio-barrilzinho eram estudos para a decoração do colossal, espetacular e causador de ataques de asma em pandas Duomo de Florença. E eu por desencargo de consciência, aborrecimento misturado com dever profissional, pus no Google de forma desleixada o nome do homem que escreveu o tal documento, citado por Parronchi, atestando o desejo de Filippo Brunelleschi em adornar o interior da cúpula, obra-prima da arquitetura e malandragem renascentistas, com mosaicos.
Uma geração pra frente, Parronchi diz que o tio barrilzinho ia pintar afrescos com cenas da Comédia no Duomo. Enfim, a hipótese é assim, uma coisa de louco, e não é citada no catálogo italiano ruim dos desenhos. O fato é que achei, no site da Catedral ( que tem o lindo nome de Santa Maria del Fiore, Santa Maria da Flor é demais) todos os documentos da construção da cúpula, e todos os documentos da construção do prédio. Fiquei felicíssima, e me lembrei que quando comecei o doutorado, as fontes na Internet eram pouquíssimas. Hoje, você pode consultar com todo conforto e segurança todos os vinte e poucos comentadores renascentistas da Comédia, quatro, cinco tomos cada às vezes, pelo portal que meu ídolo, o prof. Robert Hollander, de Princeton, preparou nesses anos. Tanta coisa se pode acessar hoje.
E me lembrei do que senti quando vi o Duomo: ataque de asma. E dos dias em Florença, tanto frio, e os dias em Chicago, e os dias aqui, o cheiro nos finais da tarde de Campinas, em 2007, na minha cozinha na hora do chá. E lembrei da dor extrema que senti, assistindo uma aula do André sobre o Duomo, e pressentindo a doença do Celo.

Tuesday, August 14, 2007

Notas de leitura

1) E eu continuo curtindo a biografia do Ruy Castro, da Carmen. Apesar de algumas críticas, o livro é um dos meus favoritos. E eu li a história do filme "Alô, Alô Carnaval", de 1936, onde Carmen aparece dançando e cantando "Querido Adão", uma marchinha que, como bem diz o Ruy Castro, você ouve e não esquece nunca mais. Tá no Youtube a cena. E o povo diz lá que assitiu ao filme, em cópia restaurada, no Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo. Fiquei morrendo de inveja, gostaria de assistir esse que é o único filme carnavalesco, dos tempos heróicos da Velha Guarda, que restou nesse país sem memória e sem vergonha. Vale a pena assistir Carmen no Youtube, tem vários clipes memoráveis, raríssimos, dela lá, graças ao amor de colecionadores e fãs de todas as idades e de vários países. Outro dia, eu, na Unicamp, com o Neguinho do Pastoreio lotado das jóias raras coletadas graças à comunidade Marchinhas de Carnaval e do sr. Raimundo Floriano, comentei com uma colega da História se ninguém do CECULT ou de outro centro estava no tema música popular. Ninguém, ela me disse, parece que tinha uma colega mas ela não está mais lá. Pena isso, pensei, porque o Alcir Lenharo foi tão grande no reescrever da história dos cantores do rádio...
2)E eu fui pro centro hoje, banco e ficar vendo as prateleiras de lojas de cosméticos, um fraco eterno da pequena e sempre desmiolada panda. Sem dinheiro, usando um vestido florido de fundo branco e flores pink com casaquinho pink ( meu mau gosto já é notório) e falando sozinha, tomando as últimas notas da tese na frente da velha e linda Catedral de Campinas. Depois fui tomar expresso no Fran's. Li na Folha de hoje bonita coluna do Bernardo Carvalho na Ilustrada, sobre a situação política russa ( cadê o senhor Na Prática?) e o trágico fim dos poetas da vanguarda. Me comovi lembrando do último poema de Maiakóvski, aquele que virou música do Caetano e que Gal canta tão forte. Uma das poetas, Marina Tsvetáieva, que perdeu uma filha por inanição, escreveu em carta à Bóris Pasternark: "sou uma moça num vestido velho". E Carvalho escreveu: "É uma imagem enfática da poesia hoje, num mundo cada vez mais utilitário e consumista, esvaziado da transcendência, onde ela já não precisa ser silenciada, pois não tem mais lugar nem importância". E eu, num surto, pensei: ainda bem que posso escrever o que eu quiser, ninguém vai ler, mas ninguém vai querer me matar nem me mandar pra Sibéria por isso. Tudo bem que nunca vai chegar aos pés da Marina Tsvetáieva ( apesar de eu não conhecer nada dela, só pela frase da carta já a considero grande poetisa), nem de Maiakóvski. Mas dessa forma irresponsável presto minha humilde homenagem a eles.
3) Daí passei pra revista Caras, pra ver o quão ridículo são os figurinos de quem tem dinheiro mas não tem gosto ( eu também sou cafona pra burro, hoje por exemplo tava lindja, mas pelo menos eu só espanto, comparativamente, poucas pessoas). E lá tinha uma coluna de uma psicóloga e psicanalista de São Paulo, Rosa Avello, que eu gostei demais. Gostei profundo mesmo, porque ela lascou em plena revista Caras ( imagino que a coluna dela não deva ser muito popular): "É comum as pessoas confundirem atos de controle, desejo, ciúme, apego, paixão e até de ansiedade com atos de amor". Amor não é um fenômeno espontâneo, é escolha. Assino embaixo, na minha experiência e na observação, no consultório sentimental da panda. E ela termina: "Essa façanha ( amar) exige de nós habilidades desconhecidas de nós mesmos. Em resumo, amor é para poucos, coisa de gente grande". Amor é escolha, não acontece: amar exige dedicação, responsabilidade, e até assumir o risco de ter que sumir pra todo o sempre da vida do outro. É, como diz um colega filósofo, ter ética. Acho que Rosa Avello é da turma do Flávio Gikovate, que consegue destruir os livros de auto-ajuda em cinco minutos, fantástico ( como o axioma bobo de "pra amar é necessário amar a si mesmo primeiro", falso porque amor se dá na presença do outro, auto-estima é outra história, e ego inflado, outra ainda). Eles podem ser populares e de boteco mesmo, mas são sensatos pra burro.

Monday, August 13, 2007

Rios, um barquinho e felicidade

Tive um sonho tão lindo, hoje. Um dos mais bonitos que já tive.

Sonhei que fui morar na Amazônia. Era uma cidade como Veneza: rios afluentes do Amazonas eram canais, casas construídas na beira das águas profundas, escuras e cheias de vida. O sonho trazia três momentos distintos, mas simultâneos, e aqui vou narrar na seqüência ( eu tava lidando com a seqüência dos desenhos do Botticelli, ontem, de trás pra frente, daí minha confusão mental).

Eu fui morar lá e o Celo foi comigo pra ajudar na mudança. Ele achou uma casinha que era uma mansarda, ou seja, o porão de uma casa enorme, no fim de um desses canais, parecida com o meu puxadinho em Pisa, Via del Marche. A casa era de uns senhores muito de idade, sentados, imóveis, na varanda enorme, meio bravos que me olhavam de cima, três senhores conservadores e machistas ( lembro que pensei isso no sonho). A casa era muito cheia de gente, bonita e confortável, e eu vivia no fundo, onde passava outro rio e onde eu ancorava meu barquinho. Minha mãe foi me visitar. E depois eu fui buscar, no porto do lugar, depois, a figura do email da semana passada ( me respondeu e tá tudo OK). Eu estava feliz por remar meu barquinho, e levar a tal figura pra minha casa, e eu remava e o sol batia no meu rosto, e muitos pássaros cantavam e muitas pessoas olhavam, nas casas coloridas dos rios imensos mas mansos, cheios de vida, cheios de sentimentos e mudanças. E acordei numa felicidade tão imensa, tão profunda, tão serena, ouvindo os pássaros do Bosque e com o quarto cheio de luz.

Friday, August 10, 2007

O fenômeno

Assim como Ronaldinho, o Meio do Caminho virou fenômeno.


Vou explicar. Faz tempo que tô pra postar aqui, pra vocês, a respeito do sucesso que, pro meu espanto, o Meio do Caminho faz por aí. Quando comecei a postar, há um pouquinho mais de dois anos, nem saber mexer no troço sabia. Por isso que ficou preto, e sem acessório nenhum, o Meio do Caminho. Meus leitores, três. E eu era feliz assim.
Nunca pensei que, ao pôr o link do blog no meu perfil do Orkut, receberia cada vez mais visitas. E visitas trazem visitas. E inesperadamente, cada vez mais visitas. E Chicago, e Pisa, e problemas, e a autora que vira panda, e figurinhas, musiquinhas e essa transa toda.
Ao contrário de muita gente na blogosfera, eu nunca tive grandes problemas, quiproquós pessoais, devido ao Mezzo, tirando um ou dois mal entendidos de leitores afoitos em saber a verdade por trás do pretume virtual. E hoje eu tenho plena consciência que muita, muita, muita gente me lê.
Fui descobrindo isso aos poucos; ia contar ou comentar alguma coisa com conhecidos, e a pessoa dizia, puxa, isso eu já sei, li no seu blog; ou quantas vezes a pessoa não fala nada e te olha com a cara eu-leio-seu-blog-mas-não-vou-te-falar; e tem gente que não fala comigo pessoalmente, até não vai nem um pouco com a minha cara, ou não gosta de mim mesmo, mas virtualmente me lê, analisa e acha isso tudo uma babaquice, mas acabei sabendo na fofoca ou no acaso. E gente que eu não conheço/conhecia pessoalmente, e que apareceu na minha vida graças ao blog dantesco. Engraçadíssimo.
Daí, esse ano, em que o blog teve seu boom mais prolongado, eu tomei decisões que as pessoas nem perceberam, mas hoje queria falar sobre elas.
É uma opção minha hoje, consciente, deliberada, em não utilizar nenhum tipo de controle sobre a visitação do blog. Não, eu não vou fechar o blog, porque simplesmente eu posso compartilhar muito da minha vida aqui, mas não sou exibicionista a ponto de postar algo muito íntimo. Tudo que eu ponho aqui todo mundo pode saber. E é por isso que me divirto a valer, nas muitas vezes que percebo que tem gente que acha o máximo poder me ler escondido. Dou esse gostinho ao meu leitor, porque sei que é gostoso espiar a vida do alheio.
Também não vou quantificar quanta gente me visita, até pra não ficar na paranóia e perder a naturalidade de um cantinho infernal, escondido, pretinho básico, sem nada, que dá pra mexer, ler, detestar ou curtir, sem o cara virar um número ou cair num mecanismo de identificação de visita. Sim, pessoinhas, podem me visitar à vontade, não sei mesmo quem me visita nem quero saber. Isso não me incomoda, eu escrevo porque não sei viver sem escrever.
E outra coisa. Cada post é fruto de uma deliberação. Sim, é crônica, um gênero literário, exercido de forma canhestra e modesta, mas é crônica, não é reality-show. A panda comentadora de Dante, a Maria, são eus líricos. Sim, o Meio é literatura. De má qualidade. Mas literatura. E a gente vive nessa cultura da literalidade, daí a pessoa lê no teu blog e acha que aquilo é Big Brother. Claro que eu dou tratamento literário, e que escondo 99,9% das coisas. E que finjo que ninguém me lê pra todo mundo ficar tranqüilo e me ler à vontade. Me sinto feliz, muito feliz com o Meio: ele é o melhor meio do caminho que eu poderia querer. Eu escrevo pro blog: ele virou uma coisa querida pra mim, um amigo lindo e discreto, gentil e generoso. E, no frigir dos ovos, a alegria é sempre a prova dos nove, ao contrário de tanta paranóia, neurose e chatice no mundo virtual.

Thursday, August 09, 2007

Eu quero!!!!!!!!!!!!!!!!

Eu tava aqui, no lerê lerê, procurando uma pintura, de Domenico de Michelino, pintor florentino que fez uma tela sobre Dante, em 1465. O velho Google Images chegou ao site dos sonhos da pequena panda comentadora-mirim do tiozão narigudo!Gringos fizeram uma página com as recorrências do tiozão na cultura contemporânea, EM FORMA DE BENS DE CONSUMO! Sim, porque existem bares Dante, brinquedos do Inferno, cafés decorados, bolo dos glutões ( um negócio que parece ser demoníaco, com uma edição da Comédia ao lado) e tudo que uma pequena panda consumidora gostaria de ter em seu lar.
Escolhi esse bolo salgado aí, gente, que beleza isso. Vou fazer um igual pra mim! Com recheio de calabresa apimentada!

Tuesday, August 07, 2007

Arco-íris já mudou de cor

Sempre fui melancólica, sentimental eu sou. Difícil eu cortar a pessoa da minha vida, tem que acontecer um desastre completo pra isso acontecer. Mas devo reconhecer que tem gente que se esforça em te magoar, gente que faz muita besteira com o sentimento dos outros.


Eu estava muito incomodada com uma figura, porque tivemos uma conversa meio assim, digamos, chata, e eu mandei um email, aquele clássico, de oi, duas semanas depois. Nada. Continuei incomodada. Hoje resolvi acabar com essa chateação, e escrevi o também clássico "que que há", porque não vejo essa figura muito freqüentemente. Gostaria de saber se dei mancada, se posso pedir desculpas, se posso dizer que minha intenção foi a melhor possível ( não é justificativa, mas é o que posso fazer).
Nisso, vejo uma terrível troca de emails com aquela moça que tanto me fez sofrer no ano passado. Uma coisa tenebrosa. A cidadã cobra da outra coisas que ela própria não fez por ninguém, fala que não dá pra ter "amizade superficial"e que ela, muito nobre e fantástica, não é falsa. A mesma pessoa que dizia que eu era interesseira e depois sentava do meu lado, na minha casa, comendo a minha comida. A mãe de outra amiga, querídissima, (a que tá meio dodói mas que logo, logo, sara), observou que a pior coisa que se pode fazer no século XXI, em termos de convivência humana, é o julgamento sumário, sem recursos por parte do suposto réu; o fim do relacionamento por telefone, por email, por sinal de fumaça, ao invés dos olhos nos olhos. Ao invés do carinho, da coragem, o egoísmo, a grosseria, a falta de noção. O falar mal, o desprezar, o menosprezar. Eu vou começar uma campanha séria aqui no Meio: se você tem problema com alguém, converse. Saia pra tomar um chá. Olhe nos olhos do outro, não saia da vida de ninguém sem antes dizer o porquê, de forma sensata, pessoalmente. Seja elegante. Seja gente.
Se o seu coração está um pote até aqui de mágoa, escreva uma carta. Sim, pegue uma caneta e escreva, e guarde numa gaveta uns dois dias, enquanto isso dê uma volta num parque, faça feliz uma criança. Quando ler a carta de novo, vai achar meio ridículo a entonação da raiva, do desamor. E vai ser o início do teu esquecimento e do teu processo de perdão. Se continuar concordando com aquilo ( olha, pouquíssimas vezes na minha vida eu continuava concordando com a carta da gaveta), mande. Mas dispense o correio.
( créditos: Comunidade MPB MP3)

Monday, August 06, 2007

This is the end


Ontem, onze da noite, tomando um belo banho quente, dei com o finalzinho da maledetta. Ei-lo:



"Saio desse texto, as minhas forças, que já não eram muitas, me faltam e o sofrimento me ensinou que, mais do que autora destas páginas, fui apenas a inventariante de tantos sonhos, de tantas camadas de sentimentos e idéias presentes nas linhas tênues da ponta de prata do antigo mestre, que as portas desse labirinto se abriram, e não posso calar. Devo prosseguir nas minhas tentativas, por mais que os entraves institucionais, nessa hora da defesa e do acolhimento dessa tese na estante da biblioteca do Instituto, no meio a tantas teses, façam que minha voz fique inaudível, até para mim mesma".
Acima: Canto X, Inferno ( Punição dos hereges- eternamente encerrados em túmulos de fogo, e diálogo com Farinata). Sandro Botticelli, 1480-90. Lápis, ponta de metal e têmpera sobre pergaminho. Roma: Biblioteca Apostólica Vaticana.

Friday, August 03, 2007

A parábola dos talentos

Não sei em que lugar dos Evangelhos, tem a parábola dos talentos. Diz que um chefe deu, pra dois funcionários que se saíam muito bem, como recompensa, dois talentos ( barras) de ouro. Um funcionário, com medo da inveja alheia e da própria incapacidade, enterrou o talento no quintal. O outro fez alguns negócios, de forma previdente, e lucrou. Tempos depois, no bar da Santa Ceia, o chefe perguntou pros caras o resultado do assunto, e a moral da história é clara.

Pelo meu temperamento e educação, uma clássica educação cristã, de matriz franciscana, eu aprendi a ser humilde, a ser gentil com os outros. A não contar vantagem, a não humilhar, a não passar a perna nem tirar sarro de forma cruel do próximo. Mas, como venho discutindo comigo mesma a muito tempo, e também na minha atual terapia, tudo tem um limite. Nem Jesus Cristo conseguiu agradar a gregos e baianos, e eu tô cansada de enterrar meu talento no quintal.
Hoje fui pra Unicamp, sonada e confusa, porque tinha me esquecido do horário do dentista no CECOM e marquei cabelereira no mesmo horário. Desfeita a confusão, corri pro CECOM, e depois fui bater papo com o pessoal no IFCH. Lembrei de uma referência que o Sterzi me passou e corri com o Celo pro IA, pra pegar um livro, recente, do Georges Didi-Huberman, professor da École e atualmente um grande estudioso de umas coisas tipo panda.
Encontramos conhecidos, fomos e voltamos. Há quatro anos, toda vez que eu encontro uma certa figura, ela me lasca: ai, que há de novo pra se escrever sobre Botticelli? Ainda se fala nesse cara, credo, o que se tem de novo pra falar sobre ele.
Bom, pra mim a ignorância é assim, etimologicamente, a pessoa ignora algo, não teve acesso, não é a área dela, enfim, ela não tinha a obrigação de saber, é uma coisa. Agora, uma figura que ganha um salário mensal e que se arvora a falar sobre o assunto em cursos de graduação e pós, e me fala uma coisa dessas. Eu sempre sorria amarelo e não falava nada. Mas hoje eu desci das tamancas, porque quinze minutos antes, o pessoal me perguntou sobre a tese e eu falei, aos trancos e barrancos vai. E eu pensei na minha tese, no pouco que eu sei, mas eu sei um pouco a respeito, muito pouco, mas eu sou honesta. E aí falei, olha, qualquer um que conhece minimamente a bibliografia sobre o artista e a historiografia a respeito, sabe quanta lacuna tem, quanto se falta pra estudar. Mas falei brava.
A pessoa ser ignorante por opção, é foda. E o final da história foi lindo, a figura saiu pra ir pra biblioteca ver livros,porque teve inveja até do livro que eu acabei de pegar na biblioteca.
Mas o bom disso tudo é que tive a nítida noção de que, na maior parte do tempo, estou em algum ponto perdido de mim mesma, sofrendo. Mas que se tem gente que me inveja, realmente, estou no caminho certo. E voltei pra tese feliz e com a sensação de que, sim, infelizmente pra umas pessoas, eu falei algo de novo sobre Botticelli. Infelizmente pra outras, sou legal, blá, blá, blá. E infelizmente pra todas, sou muito feliz, apesar de todos os meus problemas, e posso ser meio coió, mas a matuta panda aqui tá com os óio aberto.

Wednesday, August 01, 2007

Foi a camélia que caiu do galho

E em meio aos meus sofrimentos e tormentos habituais e eventuais desavenças com o cotidiano e a ordem normal das coisas, melhor dizendo, shit happens all the time, tese indo aos trancos e barrancos, muito cansaço e um frio de filme de terror. Dormindo mal, vivendo mal, só hoje consegui me recompor um pouco.

E reafirmo meu titânico amor pela música popular brasileira. Reli alguns trechos de Verdade Tropical, do Caetano. Por mais que muita coisa seja pura vaidade, ego inchado mesmo, achei um desperdício o livro ter passado em brancas nuvens quando do seu lançamento. Na época, 1997, eu me esgoelava pra fazer uma monografia sobre o Tropicalismo, a partir das indicações metodológicas, vamos assim dizer, do historiador suíço Jacob Burckhardt, autor do clássico A Cultura do Renascimento na Itália ( dã? Sim, era isso mesmo. Idéia da pequena duende-mestre jedi Amnéris Maroni, mas de acordo com a temeridade da empreitada, por parte da panda que vos escreve, de fazer uma história em quadrinhos do Leviatã, sim, meus caros, de Thomas Hobbes).
Era assim. Eu podia ler o que eu quisesse sobre a Tropicália, e sobre a ditadura militar, e esperar alguns rasgos intuitivos sobre o Zeitgeist, a partir das obras dos caras. Também deveria analisar as relações entre as três "potências"burckhardtianas: a Religião, o Estado, a Cultura. Quem gosta de música popular faz isso o tempo inteiro, sem perceber: você ouve Pisa na Fulô, do Velho Lua, e lembra das modificações pelas quais passou a música nordestina, depois do programa de rádio, célebre, de Gonzagão, e pensa que leu não sei aonde que o grande cantor e compositor inovou, e muito, na engenharia de som,e ainda recorda da sua mãe te chamando de Nega Fulô e lhe dando cana pra chupar, nos ancestrais Campos dos Goytacazes. Ouve Desafinado, João Gilberto, e outra porta pra outro labirinto inesgotável se abre, tanto de considerações políticas, econômicas, afetivas, sexuais, enfim, a vida inteira, no leque moleque, como diria, mais uma vez aqui no Meio, Alceu.
Em língua inglesa, atualmente, quem faz isso na perfeição é o Nick Hornby, autor do Alta Fidelidade. Quando eu estava nos EUA, descobrindo, via Rádio Terra, the Boss Springsteen e Carmen, li comovida Hornby e suas linhas sobre Thunder Road, do maravilhoso Born to Run. A pequena panda é uma Hornby mirim do norte fluminense: as canções pra mim são tudo, o meu pão de cada dia.
Reli Caetano. Muita coisa não se gosta, mas reli e relembrei, comovida, o que Caetano escreve sobre Orlando Silva e Francisco Alves, presentes em Neguinho do Pastoreio com, respectivamente, a lindíssima A Jardineira e a controversa Ai, que Saudades da Amélia, e os outros cantores do rádio. Diz Caetano que a audiência dos programas de rádio era, basicamente, de mulheres pobres, que veneravam com a toda força de seus corações Silva, Alves, Emilinha Borba, Marlene, Nora Ney, entre outros. Tais mulheres foram chamadas, pejorativamente, de macacas de auditório, porque, como lembra Caetano de forma delicada, quando se cai na escala social, no Brasil, mais a cor da pele escurece. Música popular era coisa de mulher sofrida, pobre, que desmaiava no programa e que, na lembrança do menino Caetano, em férias no Rio, inferiores a ele, um tanto quanto constrangido por estar ali. No início do livro, porém, Caetano lembra que passou ao largo do nascente rock and roll, e que João Gilberto e a Bossa Nova, fã incondicional de Orlando Silva ( e Neguinho lasca A Jardineira, nos meus ouvidos, e realmente a voz de Orlando é algo celestial), trouxe a música popular pros ouvidos da classe média urbana,com choques e bastante sofrimento. E que, no final da década de 60, mulheres da classe média, brancas, universitárias, confessavam sem nenhum constrangimento serem suas "macacas".
Lembrei-me, com muita ternura, da minha avó paterna, mulher sofrida que queria, sem conseguir, comprar um pouco de pó facial, grande fã dos programas do rádio, e envergonhada do pai mulato. E a delicadeza da marchinha me traz perto do meu eu mais profundo, mais cintilante, mais digno e mais honesto de mim mesma, fruto do sofrimento indizível de ser mulher, e brasileira.