Monday, January 19, 2009

Os amantes de Roma

A primeira vez que estive em Roma, tinha 20 anos.


Foi a primeira cidade que conheci, o primeiro lugar fora do Brasil. Lembro da chegada, de manhãzinha cedo, era novembro e fazia frio. No trem de Fiumicino para a cidade, eu vi trigais dourados, e no táxi o cara ouvia Elton John. Mas era Roma.
Eu não sabia o que queria da vida, era boba e mané de tudo. Mas chegando, fomos ver, eu e o grupo que acompanhava um de nossos professores, a Porta Pia de Michelangelo. Puxei a manga do casaco de um amigo e perguntei, mas esse é o Michelangelo da Sistina? E ele, é, shiiiit.... fala baixo. E eu descobri que tem gente que é pintor, escultor, arquiteto e que é, enfim, Michelangelo. E era Roma.
A pequena panda, sempre desligada e nada a ver, se perdia horrores do grupo, era deixada pra trás em tudo quanto era ruína, igreja, ruela, buraco, ônibus pro Vaticano e salas com Caravaggios, Tizianos e outros do mesmo quilate. Consegui entrar na igreja de Gesù sozinha e ir a Santa Maria Maggiore, no caminho inverso ao que todo mundo fazia. Mas era Roma.
Não entendia picas de italiano, e o chuveiro do meu quarto no hotel quebrou. Estava com uma senhora uruguaia, e uma mocinha nipo-descendente, que chorava todos os dias de saudade da mãe. A senhora não queria ligar pra portaria e a mocinha começou a chorar.A portaria, lotada de rapazes da La Sapienza, que inclusive fumavam um ali, era realmente um obstáculo difícil. Liguei pro nosso professor, ele tinha saído, mas me armei de coragem e falei com os tios. Um deles atendeu e eu falei em inglês, e ele em francês. No meio da zona toda, lembrei-me que fui criada no Cambuci, uma espécie de mini-Nápoles. Falei com o cara em português e ele entendeu perfeitamente. E ainda era Roma.
Se o chuveiro eu resolvi, evidente que meus pedaços de pizza vinham frios, eu não sabia que caldo era quente, enfim. E evidente que um dos rapazes do hotel, numa da noite, resolveu me levar pra passear e me agarrar, eu tinha 20 anos e era Roma.
Era Roma, eram as cores ocres, amarelas, os tons terrosos, as laranjeiras nos vasos, eram as fontes e as igrejas, eram os homens lindos e os padres todos de negro.
Quando voltei, é outra história, mas conheci um grande amigo, que me apresentou essa pérola do Gianmaria Testa, Gli amanti di Roma. Logo depois que voltei, então hoje eu queria deixar um pouco da minha Roma, um pouco do meu mistério pra vocês:

Saturday, January 10, 2009

E dá-lhe tiozão!


Provando que o tiozão narigudo mais sexy da História da humanidade continua no hit parade da cultura popular, com seu charme e nariz característicos, adentrando as valas das almas danadas da internet para pesquisar detalhes de ilustrações do Inferno, achei nada mais nada menos que esse jogo de tarô, publicado pela La Scarabeo, editora italiana especializada em baralhos de tarô, em 2001.
Andrea Serio desenhou e Giordano Berti coloriu a pastel as 78 cartas, perfazendo arcanos maiores e menores. Agora, o tarô deve ser gracinha porque além dos símbolos e personagens da Comédia, também tem cartas que representam episódios da vida do tio, como ele nos conta na própria Comédia e na Vita Nuova, e conceitos por ele discutidos no Convivio, De Monarchia e em outros escritos.
Pelo menos, com esse tarô, você fica sabendo antecipadamente se sua vida vai virar um verdadeiro inferno!

Thursday, January 08, 2009

Lema

Outro dia, eu estava no 4shared, baixanu umas musiquinhas como de hábito. Search vai, search vem, e eu acho uma pérola da música infame popular brasileira. Eu já conhecia a dupla Teodoro e Sampaio por outras canções horríveis, como Quem vai mandar no mundo é a mulher e A Rabanada da minha cunhada.
Mas essa que eu achei superou minhas expectativas trash, tá no quilate de um Fuscão Preto ou de um É bom para o moral, da Rita Cadillac.
Sabem, eu andei tendo umas decepções feias com pessoas muito queridas por mim, como todos já puderam ler no Meio. Estou muito melhor, tanto é que achei graça na cançoneta dos infernos, e pus o título no messenger, o que provocou perguntas, risos e perplexidades dos meus sempre carinhosos e pacientes interlocutores. Mas é o seguinte: como é um pára-choque de caminhão, acho que pode ser sim um bom lema de vida, uma boa orientação moral, um dístico digno de um brasão pra pôr no meu velho e combalido Gerião, o carrinho também carinhosamente apelidado de Exumóvel.
Pois é o seguinte, meus caros leitores: agora, eu só dou carona pra quem deu pra mim.

Sunday, January 04, 2009

Com que roupa eu vou

Tendo atividades profissionais em vista, e coisas meio importantes, a panda teve que encarar as plagas dantescas dos shoppings, calçadões e outros lugares apinhados de gente atrás dos descontos de janeiro para descolar um figurino à altura da minha habitual deselegância.
Noel Rosa matou tudo. Difícil escolher a roupa pra ir pro samba que me convidaram. Primeiro, rondo as vitrines. Fiquei namorando uma camisa na Forum, namoro totalmente platônico e não-correspondido. Dou um suspiro e reconto mentalmente meu (baixo) orçamento. Vamu lá, entro na C&A, e tudo até simpático, mas muito decotado, muito florido, muito alegre, sexy, atrevido. Ué, tá certo, as pessoas nessa época do ano estão na praia, curtindo o verão. Se eu pudesse, enfiava esse biquíni, a havaiana bacanuda e a saída de praia gracinha e ia tomar chicabon. Outro suspiro, me imagino enfrentando o que terei que enfrentar de biquíni branco, havaiana de plataforma e saída de praia multicolorida, com um chicabon na mão. Pelo menos eu ia me divertir mais!
Vamos lá, verás que uma filha tua não foge à luta, ó Pátria ingrata que me faz trabalhar quando na verdade eu queria estar em Fernando de Noronha olhando os golfinhos pularem. O meu consolo é que o pintor Peter Paul Rubens teve que pintar golfinhos pulando pra Maria de Médicis, nega muito mais baranga e muito chata que nem deixar o rapaz descansar deixava.
Entro na Luigi Bertolli. Pego umas peças, uma camisa, algo assim. Mas quando eu entro no provador, cara, tudo com cara de secretária. Tá bom que desisti de ir pra praia tomar chicabon, mas também não preciso passar o verão metida em roupa de executiva. Eu tenho um problema: o mau gosto. Adoro roupa estampada, colorida, coisa diferente e sou 80´s total, acho certas coisas muito caretas. Tudo bem que já passei da idade de ser moderninha (se bem que meu sonho às vezes é pintar o cabelo de azul), mas também o que vesti na Bertolli tava muito senhôra, se é que vocês me entendem.
Vou pra Zara, milhões de campineiras enlouquecidas e um monte de roupa bonita... pro inverno. Cara, tudo bem que a Zara é européia, mas casaquinho xadrez nesse calor vai ser dureza.
Resolvo que vou pintar o cabelo de azul, ir com minha calça jeans rasgada (é, meus caros, a panda rasgou suas carsas jeans antes do Natal), minha camiseta Hering e beijomeliga. Cansei!

Saturday, January 03, 2009

Desejo de ano-novo


Do site http://www.mcphee.com/, que tem coisinhas exóticas tipo máscaras, camisetas maneiras, caixas de mágicas, essas coisas que a gente adorava ver anúncio nos gibis da Mônica, eu tirei isso aqui, meu desejo master de ano-novo. Diz aí se essas balinhas de canela não são o máximo!

Friday, January 02, 2009

Brilliant disguise, ou como pandas saem de bad trips

Espero que todos vocês tenham passado bem o reveillón. Eu passei, sim, ao lado de gente muito amada e com muita comida e bebida, e muitos fogos.

Passado o feriado, voltei para minha toca e meus afazeres da minha panda vida, agora vida de panda concurseira. Para meu desespero, tenho provas já no início deste janeiro, o que me impediu de esticar o feriadão e ficar no dolce far niente, na rede tomando água de coco. Precisava arrumar material pra dois pontos dignos de Hércules, e no final acabei meio cansada e tendo umas bad trips de cansaço mesmo.
Daí no meio de uma bad trip, eu resolvi fuçar coisas no Youtube, sempre ajuda a gente a se distrair e parar de noiar em coisa do passado, coisa que não dá pra resolver, coisa inútil e/ou tudo isso junto. Decidi procurar o clipe de Brilliant Disguise, que é uma das minhas canções favoritas e que eu nunca tinha visto.
Todos sabem que um dos meus ídolos, além do tiozão narigudo renascentista, é o tiozão ítalo- batavo-irlandês de New Jersey. Eu sou fã do Bruce Springsteen, tenho tudo de todas as fases dele, mas talvez uma das canções que mais me emocionam dele é essa do disfarce brilhante. Ele escreveu essa música quando estava se divorciando da primeira mulher, uma modelo-atriz belíssima,entre 1987 e 88, porque havia se apaixonado pela Patti Scialfa, guitarrista e vocalista da sua banda, uma mulher bonita mas que não estava no padrão bonequinha de luxo da outra.
O primeiro casamento do cara, segundo consta, foi um desastre tão grande que ele paga uma nota até hoje pra ex-mulher não escrever um livro tell all, enfim. Daqueles desastres tão desastrosos que ninguém acredita que aconteceram. E ouvindo essa música de novo, pela milionésima vez, fui salva da minha bad trip totalmente.
A gente entra em tanto labirinto de sentimento, depois pra sair tem que achar o fio de Ariadne, ou melhor, uma música do Bruce...

Tuesday, December 30, 2008

Caro amico, ti scrivo, cosi mi distrago un'po



A tempo de lhes desejar um Feliz Ano Novo, a panda se apresenta na blogosfera. Espero que todos tenham passado um excelente Natal, e agora é só no sapatinho até o carnaval, né mesmo?


Eu estou há tempos para postar um pequeno presente para os meus leitores... aqui vai, uma canção do Lucio Dalla, L'ano che verrà. Dá pra entender o italiano, e é bom pra treinar o nobre idioma do outro tiozão master ultra narigudo. Então, eu, o Lucio Dalla e o Dante desejamos a todos, no ano que virá, tudo de bom que podemos ter na vida!http://www.4shared.com/file/78269463/1f0a80ca/06_LAnno_Che_Verr.html
Ao lado, cenotáfio do tio na igreja de Santa Croce, Florença. Muito turista vai lá e fica triste, pensando que é o túmulo dele, mas não é não, é só pra turista ficar triste mesmo!

Wednesday, December 17, 2008

Sei lá tipo assim

Seguindo a sugestão do amigo do folclore brasileiro Pererê, que sempre me lê... resolvi me animar.
Hoje tive uns dissabores, e pior, tive dissabores com uma dor horrível na coluna, não sei que mau jeito dei, no domingo acordei bem e créccccccc... acho que uma vértebra foi pra um lugar onde não devia. Estou rifando minha coluna, se alguém quiser... e também tô rifando concurso público, isso é muito chato. Demais. Pra me inscrever, eu tive que levar uma mochila de alpinista com oito cópias de um trem chamado memorial, e depois agora tenho que estudar um mundo de coisas, minha sala e escritório tomados de livros, a cabeça tensa e a competição toda. Muito chato dor na coluna e concurso público.
Mas eu preciso me animar com alguma coisa, senão se mata. Vida de panda não é fácil, todo mundo te acha fofinho mas é difícil achar a tonelada de bambu que te alimenta e convencer o governo chinês a te deixar passear por aí. Enfim. Mas voltando à animação. Consegui encaixar o tiozão narigudo em todos os pontos do concurso, não me perguntem como, mas o tiozão vai comigo pra mais uma roubada, pelo menos tenho companhia ilustre pra esse mês de estudo e nervoso. Em meio a Jingle Bells e tudo, também consegui terminar as bancas da Pucc e minhas aulas, e até estudar um pouquito de gramática francesa, no meu livro de lições de casa sempre atrasadas.
E outra coisa me deixou animadeeenha. Outra noite dessas, estava na nau dos desesperados, vulgo Internet, quando me deparei com uma cançoneta disco, de uma dupla de cantoras americanas chamada Slick. Tal dupla lançou, em 79, um compacto com essa música, Sexy Cream, que foi censurada no Reino Unido. A música foi considerada obscena, porque as moças languidamente pedem um tal creme sexy, coisa e tal. Enfim, rodei pra achar, mas o pessoal da comunidade da rádio Antena Um sempre salva pandas que gostam de musiquinhas velhotas:
Pelo menos se alguém quiser ferver na pistinha, nesse pré-Natal, taí uma sugestão. Com dor na coluna e concursos pra prestar, estou também rifando ferver na pistinha. A animação da panda vai até um certo ponto.

Sunday, December 14, 2008

Resposta ao tempo

E como na música do Aldir Blanc, pela voz da Nana Caymmi, eu bebo um pouquinho pra ter o argumento, quando o tempo vem cobrar as dores, arrependimentos, besteiras que a gente faz.

Claro que tem coisas que a gente gostaria de apagar da biografia, mas o pior é, como sempre, o que a gente deixou de fazer, por distração, covardia, tosquice ou sei lá mil coisas. E se eu não tivesse surtado, e se na hora tivesse pintado uma paciência maior, uma consciência maior, uma visão maior, e se eu tivesse me esforçado um pouco mais, se não tivesse fugido da verdade; e se eu... tivesse sido eu. E não outra, e não aquela que você viu.

Hoje, conversando com gente muito querida, sobre coisas passadas, me veio aquela dor do lado, do "e se eu"... bobagem de gente velha. Eu tenho tanta saudade, daquele tempo, é, daquele tempo mesmo. Ontem, de madrugada, ouvindo tangos, pensei em tanta gente. É, gente, sábado à noite e eu com uma cerveja, uma só, ouvindo tangos.

Saturday, December 13, 2008

Como uma virgem





E a nega veio e vai quebrar o Maracanã. Pois é, gente, ela, a louca, a maluca, a absoluta Nossa Senhora do Pop, i'm a fucking catholic bitch and you know, you like it. O que toda mulher é, vai ser, será, e se não foi não sabe o que tá perdendo.




E eu tinha apenas nove anos quando ganhei uma fita K-7 dessa pirada, vestida de toureiro e lascando no Everybody. Eu ficava dançando o dia todo, ela sempre teve o dom de me fazer dançar, cantar e me olhar no espelho com a cara toda vermelha, descabelada, e me sentir ótima. Lembro do que foi Like a prayer, eu, menina católica de Jundiaí, ver a minha ídola fazer aquilo foi demais. Na época, a gente achava legal ser louca, strike a pose, i´m a material girl.




Fiquei uns anos meio ressabiada com essa criatura, porque como todo doido, andou fazendo coisa chata, sem graça, como casar com aquele Guy Ritchie e achar que era uma nobre inglesa. Mas de novo ela me pegou pelo pé com Hung Up, e outro dia, estava em Piracicaba depois de uma palestra, e fui beber, mesa cheia de marmanjo, puseram o vídeo da outra turnê dela, e todos, o bar inteiro, parou pra assistir ela se crucificar, ela rebolar, ela lamber o microfone, e o corpo flexível, impávido colosso.


Acima, o meu vídeo favorito, o Like a Virgin, onde se vê, nitidamente, uma incorporação da Pomba Gira em Madonna, em plena Veneza. Esse clipe é um dos meus favoritos da História inteira, porque toda mulher quer que a Pomba Gira baixe em Veneza. Notem para a hora que a nega se acende e acima, um bando de carcamanos abismados com a sacrílega e deliciosa italian mid westearn girl. A tradição clássica é isso aí: a Madonna rebolando numa gôndola e cantando algo que, de novo, toda mulher sente por um cara especial: que a gente é, de novo, uma tímida moçoila casta e pura, pronta pra botar pra quebrar.






Sunday, December 07, 2008

Mais uma estrela


Botando banca

E eu essa semana encarei, intrépida, a argüição de 14 trabalhos de graduação, dos meus ex-alunos da Pucc. Sim, meus caros e raros leitores, 14, uma maratona de duas noites...

Estreei nessa coisa de ser banca. Eu já tinha lascado pareceres por aí, mas banca essa é a primeira. Foi muito bom ver os meninos se formando, alunos que detestavam minha aula de Estética citando Platão, enfim, e mesmo os trabalhos com os quais a gente não se identifica tanto, sempre rola uma sugestão, uma conversa, um desacordo legal. Os meninos estão expostos no Palácio dos Azulejos, vulgo Museu da Imagem e do Som, então se alguém quiser ver...
Me disseram que nas primeiras vezes a gente é meio feroz, por insegurança e pra mostrar serviço, e depois me falaram que a pessoa mostra a sua verdadeira personalidade sendo banca. O engraçado é que se a primeira assertiva não foi verdade comigo, a segunda não poderia ser mais verdadeira. A primeira banca aconteceu no dia em que fiz um ano de doutoramento; comecei minha primeira fala agradecendo o convite e lembrando disso, e fiquei muito, muito tímida. Sempre soube que era uma pessoa introvertida, mas acho que cultivei a ilusão de que não fosse tanto. Engraçado que em aula eu consigo não olhar pra ninguém e passar conteúdo, eu como professora sou meio conteudista, fico correndo atrás do programa pra cumprir minhas obrigações.
Boizé, eu sou tímida e, acredito, fui discreta nas minhas colocações. Nunca mais vou dar ouvidos a quem fala que eu sou, como direi, um tanto quanto grossa.

Tuesday, December 02, 2008

Advento

Quatro domingos antes do Natal, começa o Advento, a preparação para a grande festa cristã. Já estamos em pleno Advento; é hora do povo pôr luzinha, guirlanda, Papai Noel alpinista e tudo o mais, hora do comércio fechar mais tarde, eu jurar que não vou fazer nada no Natal pra depois me arrepender e como todo mundo enfrentar fila de supermercado, shopping e o escambau e ainda suspirar de melancolia quando dia 26 chega e com ele meio peru roído e nozes pela casa.
Sumi do blog porque estava triste. Enfim, eu tava triste, essas coisas acontecem, vocês não reparem. Lembrei muito do amigo virtual Pererê dizendo da minha dificuldade em aceitar a felicidade, a alegria, o prazer. È vero, amigo do folclore brasileiro, se você ainda estiver do outro lado, você tem total razão. Demoro muito pra admitir que certas situações, pessoas, coisas, me são totalmente intoleráveis, demoro muito pra admitir o que eu quero de verdade e nisso tudo demoro muito às vezes em infelicidades que são dispensáveis. Como diz outro grande amigo meu, igualmente folclórico, mister Vitão, eu sou mirim.
Mas isso não ocorre por incapacidade total; o que incomoda incomoda até os santos e anjos do céu. Tem um verso bonito do Rimbaud que poderia servir de legenda pra mim: "Par délicatesse/ J'ai perdu ma vie". Tantas vezes não admito que não gosto do que vejo, ouço e presencio para dar chance aos outros viverem, falarem, sentirem, quantas vezes me vem na beira da cabeça que aquilo não é pra mim, mas como recusar, como causar embaraço, sofrimento ou mesmo um leve contratempo aos outros, eu sou uma pessoa que pensa nos outros, eu dou meu lugar na fila, no ônibus, por pura delicadeza, distração de mim mesma e por achar que a vez é a vez dos outros, a minha vem depois.
Eu hoje por exemplo vivi uma situação assim, totalmente incômoda, mas não disse nada, só pedi água e um pão de queijo, a água desceu raspando na garganta e eu quase não engoli, me senti meio desolada mas mesmo assim me manti firme, dizendo pra mim mesma, mas você é muito besta, porque você não aceita isso de boa e tal, me sentindo meio culpada por não gostar. Enfim. Fui almoçar e de repente encontrei um professor muito querido, que estava de saída, indo levar um grupo de outros professores, de outras áreas, desde Biologia, todas as Engenharias e tal, para conhecer o centro de Campinas.
Ora, direi, ouvir estrelas, como dizia Bilac, o que tem pra ver no centro de Campinas, os mais céticos estarão se indagando. Fomos ao Solar dos Azulejos, no Museu da Imagem e do Som, já rolou milhões de coisas legais, risadas, e depois fomos à linda Catedral de Nossa Senhora da Conceição. Lá, nos esperava o cônego, o responsável pela igreja oferecer três missas diárias, banheiro, abrigo, apoio psicológico ou mesmo um banco com sombra pra milhares de pessoas por mês, e o arquiteto responsável pela restauração do prédio, intrépido no subir e descer escadas, limpar retábulos, salvar cabeças de apóstolos e quetais e pela primeira vez eu pude subir até a torre, os sinos, os anjos tão queridos lá debaixo, a 13 de Maio inteira, o cedro, sentei no órgão, entrei debaixo do altar...
A Catedral de Campinas, pra quem não sabe, demorou mais de um século pra ficar pronta, obra da determinação da cidade em ter uma igreja bonita e durável. Então, durante décadas, os campineiros amassaram o que vinha do chão vermelho, socaram em formas de madeira de um metro de lado, e com pilões de seis, sete quilos, encaixaram a lama para subir as paredes, paredes que estão lá até hoje, cheirando à terra fresca. Depois, dois artistas de talento esculpiram cedro, encaixaram os ornamentos, e por último um grande arquiteto remodelou a fachada, dando-lhe uma imponência que vem antes da simplicidade que da escala.
E foi tudo tão bonito, tão emocionante, e o cônego me lembrou que o Advento é o início do ano litúrgico, o calendário das festas, todo mundo esperando o menino nascer. Fiquei pensando em tanta coisa, no fato dos bravos campineiros do passado que socavam terra no pilão pra construir uma casa que lembrasse a jovem judia, de mil e oitocentos anos antes... peguei chuva e fiquei tão feliz, tão leve, e cheia de esperança, e cheia de palavras de novo, mais uma vez renovada e mais uma vez um pouquinho mais perto de mim mesma.

Thursday, October 02, 2008

Do perdão, da vida e de tudo que a gente vive

Ontem eu tive uma avalanche no messenger. Eu confesso: sou meio viciada nesse trem. Trabalhando em casa, com as tarifas telefônicas impraticáveis, essa Praça é Nossa Virtual me faz conversar com gente muito querida, que está longe. Geralmente, falo sempre com as mesmas pessoas.
Mas ontem, como eu disse, entrou gente do aquém do além do universo, com as histórias mais preocupantes, tristes, alegres, de alívio, de dor. Enquanto um amigo singrava os céus do Brasil pra voltar pra Campinas, outra estava no calor de rachar do cerrado, e outro ainda do Rio mandava aquele abraço. Gente de todos os lugares, dando notícia, perguntando qual é a do dia, e nisso eu fiz a maior ginástica, consegui fazer o almoço e responder 12 pessoas ao mesmo tempo, e mais importante, sem queimar o arroz.
Hoje, eu preciso descansar de tudo isso, foi uma coisa doida. Lembrei de uma crônica bonita da Clarice Lispector, em que ela conta que conheceu de certa feita uma moça no dia que ela ia comprar seu enxoval. Depois de um tempo, ligando a televisão, descobriu que aquela moça meio insípida era uma grande pianista, vibrava o instrumento com grande perfeição de sentimento. Atarantada, Clarice ao pegar um copo d'água cruzou com o filho caçula, que lhe perguntou a razão do mau estar, e ao que ela disse que ia buscar um calmante, o filho respondeu: a senhora está tendo uma emoção! E Clarice chorou, mansamente.
Eu tive uma sensação parecida ontem. Não consegui dormir direito, acordei com uma grande dor de cabeça, e depois de ir buscar um pão percebi que precisava deitar, e como diz o Celo, processar a emoção. Senti muita tristeza, mas no final, pensei em coisas boas, fiz planos, e vi que quero pensar no futuro, nas inúmeras possibilidades do vir a ser. Nisso, fiquei tão feliz, pensei que o que importa é a vida que, dia após dia, dá cada rasteira na gente.

Friday, September 26, 2008

Kit do Exu Mirim

Eu não sei porquê, mas um tempo atrás, eu tive o desprazer de encarar umas criaturas que de vez em quando mandam ver no atabaque e, clamando ou por Iemanjá, ou pela Caboclinha Teresa e o Coisa-Ruim da Capa Preta, enchem a paciência não só das venerandas entidades quanto da pequena panda que vos escreve. Eu tenho pra mim que os do poder, que fazem a cabeça e tudo o mais, nossos ancestrais yorubá, ameríndios e habitantes do além, tem muito mais o que fazer do que trazer a pessoa amada em não sei quantos dias, decidir eleição municipal ou, pior que tudo, ficar ouvindo queixa de gente desocupada.
Um amigo meu, muito querido, uma vez viu um Preto Véio descer no terreiro e, ao ouvir as múltiplas reclamações do crazy people, lascou: "Capinar terreno de mandioca, ninguém quer, humpft", sumindo nas trevas e luzes da vida post mortem. Esse Preto Véio era legítimo. E de mais a mais, minha avó, caiçara, demonstrava ceticismo diante dessas tentativas de, através de roubo de cuecas, feitiço da bola de farinha e vela vermelha, passar no vestibular ou fazer coisas que estão perfeitamente no nosso raio de ação.
Outro dia, eu me descabelei de tanto rir com um videozinho do Youtube: o fantástico serviço Umbanda Larga Tabajara, das sempre de vanguarda Organizações Tabajara. Vejam isso e me digam se não é de deixar qualquer Pomba-Gira doida, "o provedor de acesso ao mundo dos orixás":
http://www.youtube.com/watch?v=VVbxGOjJY-0
Mas hoje eu consegui descobrir uma coisa ainda pior: o serviço Macumba On Line!
http://www.macumbaonline.com/. Você vai lá, escohe o despacho ( tem pra tudo, desde "foder a vida", aos clássicos "trazer a pessoa amada" e "deixar vesgo") e, no sossego do seu lar, gratuitamente, manda o Tranca-Rua lascar o povo, sem enfrentar encruzilhadas escuras, terreiros superlotados (ainda mais em época de eleição, já viu, as entidades estão megaocupadas) e ainda guarda o frango com farofa pro domingo! Juntou com a maionese e o Cocão de dois litros, fechou! De qualquer forma, taí a dica, pra se fazer o ebó ao som de "Eu vou botar teu nome na macumba", do Zeca Pagodinho.
Agora, no contraponto, ninguém pode esquecer o célebre axioma do filósofo do futebol Nenen Prancha: "Se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano terminava sempre empatado." Eparrei!

Saturday, September 13, 2008

I've been to paradise


Um post da Pati me fez deixar um comentário no blog dela. E escrever aqui. Coisa rara: eu comentar bróugui dos outros e retomar o Meio, sempre no Meio do caminho.



Acho que qualquer nega aos 30 anos se pergunta sobre o que viveu, o que quer pra si mesma e coisa e tal. É muitíssimo comum, na idade balzaquiana, a cidadã ficar acometida de uma grande ansiedade, se ainda não contraiu matrimônio nem gerou descendentes. Daí a indivídua, tomada de grande loucura, comete crimes sentimentais, coisas que nunca nem pensou fazer, na maior cara de pau. Sei de amigas e conhecidas, moças bonitas, inteligentes, descoladas e legais, que de repente, ao chegar ao fatídico trigésimo aniversário, se tornaram vilãs das novelas do Manoel Carlos- ou seja, o pior tipo de mulher que existe, a da classe média alta brasileira. Sim, aquela que engravida pra segurar o cara, liga 34465 vezes no celular do sujeito, bate, xinga, tem ataque histérico e o pior de tudo: sai toda produzida com amigas igualmente em desvario e senta na mesa do bar, afastando todos os portadores de cromossomos Y num raio de 56778 kms.



Isso a gente sabe desde os 14 anos: ficar ansiosa só afasta os pretendentes e os parceiros. E achar que o homem tem obrigação de casar e ter filhos também. Ninguém tem obrigação de nada, o amor não é uma coisa compulsória. Costumo dizer que as pessoas se encontram, não se pertencem. É, é difícil. Muitas vezes a gente precisa falar tchau pra quem a gente gosta. E é chato aguentar pai, mãe, parente, vizinho e até o porteiro do prédio olhando pra gente e falando, coitada, tão bonita e sem marido. Porque tem essa bosta, a mulher de classe média alta brasileira PRECISA ter um marido. Não passa pela cabeça das personagens de novela do Manoel Carlos ir fazer um curso qualquer, viajar, ter uma carreira ou montar um banda de heavy metal. Não: todas tem que casar, ter filhos e depois esfolar as noras.


Tão triste isso. Eu acho que casar e ter filhos é lindo, incrível. Mas cara, não dá pra surtar e virar vilã de novela do Manoel Carlos. Eu ando por exemplo numa fase chata no meu trabalho: me doutorei e agora começou a selva oscura dos concursos, dos caminhos cruzados e quetais. Mas se eu pirar e, pior, virar vilã de novela do Gilberto Braga, tô lascada! Eu vejo colegas fazendo picaretagens dignas de uma Maria de Fátima, de uma Odete Roitmann, umas manobras horríveis. Aos 20 anos, todo mundo é legal. Aos 30, é que são elas: pega a competição pela vaga, mas eu me recuso a entrar nessa nóia e encher meu currículo LATTES de porcaria só pra impressionar os negos.


Todo mundo quer encontrar o amor da vida, ter um emprego incrível, filhos lindos e geniais, ficar magra e antes de mais nada, não ter celulite. E lógico que dá a maior frustação, depois de algumas relações, estar mais encalhada que baleia em piscina Regan. Ou, no meu caso, cheia de trabalho sem remuneração ( tucanei a dureza financeira... ehehehe). Eu ando com problemas, como todo mundo. E também queria ter uma casa na praia, com o Javier Bardem e um moleque me chamando de mamãe, além de um milhão no banco. Agora, se pra conseguir isso, eu tiver que deixar de ser eu mesma, passo. Então, vou tentar atravessar a tormenta com a mesma graça e dignidade com que tentei atravessar o resto, sendo a mesma panda de sempre.


Acho que o que me salva um pouco da maluquice é o fato de ter visto o Camposanto de Pisa. Andei esses dias trabalhando nas fotos e nas lembranças da cidade do campanile caduto, e toda vez que começo a ficar muito piradinha, lembro de que estive no meu paraíso. E pra lá, posso voltar sempre, no meu coração.

Tuesday, August 26, 2008

Pão de queijo no palito

Passei os últimos dias singrando uma tradução mega difícil. Fui indicada para uma editora de São Paulo por um conhecido, e a moça me enviou um livro que seria supostamente de auto-ajuda. Mas os caras compraram gato por lebre, e o livro era de Psicanálise e Psiquiatria.

Bom, quando o Freud morreu, no exílio, as obras completas do tiozinho foram publicadas numa tradução em inglês, que depois foi contestada pelos franceses e alemães. Durante muitos anos, por exemplo, no Brasil, a gente tinha a tradução da tradução do inglês e umas edições em espanhol, decalcadas tanto do inglês quanto do alemão. A zona toda é que até hoje, alguns termos de Psicanálise nos EUA são uma coisa, e no resto do mundo outra. Os termos em Psiquiatria foram mais fáceis, geralmente as palavras científicas no inglês vêm do latim, mas tinha todo um negócio de Medicina que foi lasqueira. E pior, o tiozinho autor do livro escreve romances, e o inglês dele de resto tinha muito do gênero noir, policial, uma coisa bonita mas foda de transcrever.
Enfim, eu passei dias e noites mergulhada na tradução, e ontem Deus se compadeceu da pequena panda tradutora e acabou o martírio. Fui pro centro pra ir no Perda de Tempo e nos Correios, e eu atravessava a Rua Conceição quando me deu vontade de tomar um suco.
Onde tomar um singelo suco no centro de Campinas? Me encaminhei para o Shopping Center Conceição porque lembrei que numa quina existe uma simpática lanchonete de sucos, Melão & Cia, um negócio bem oitentista no nome e no visual. O japonesinho atendente anunciava uma novidade: pão de queijo no palito. Também nos anos 80 neguinho vendia crepe no palito, vocês lembram disso? Mas a crepe esturricava. Resolveram pôr massa de pão de queijo no palito, com recheio de queijo, e cara, ficou excelente. Tomei um dos sucos com nomes de cidades italianas do cardápio ( Torino, maçã com pera) e foi genial. Depois desse lanche tão gostoso entrei numa livraria e vi uma edição, de capa amarela, da coleção completa do célebre jornal O Planeta, do povo que depois se juntou com a Casseta e deu no que deu. Cara, eu ri sem parar, os caras eram muito bons. Manchete do jornal: Sílvio Santos foge com Lombardi. Eu preciso comprar esse livro! E mandar pra dentro mais um pão de queijo no palito!

Sunday, August 17, 2008

Às armas, cidadãos!

Nessa coisa hinos, queria passar pra vocês duas versões da velha e sempre aguerrida Marselhesa:


1) com a Mireille Mathieu, a tradicional versão que abala todas as estruturas das Bastilhas da vida:
http://www.4shared.com/file/59414151/aea39bd7/marseillaise-mireille_mathieu.html


2) e com o Serge Gainsbourg, "Aux armes et caetera", vejam o que a picaretagem humana é capaz de fazer:
http://www.4shared.com/file/59415590/caa42bf4/la_marseillaise_gainsbourg.html


A mesma praça, o mesmo banco mas porém todavia contudo... grande Serge e linda Mireille...

Thursday, August 14, 2008

Os sete filhos

Hoje, fui ao centro, banco, correios, aquelas coisas. Singrando a rua Ferreira Penteado, paro em frente a dois sebos simpáticos que ficam um do lado do outro, estupefata: de dentro de um deles, soava, garbosamente, o Hino à Bandeira.
Olha, não sei há quantos anos eu não ouvia o "Salve, lindo pendão da esperança/ Salve, símbolo augusto da paz". E de repente, voilà, como diria Proust: eu estava no primário, no Colégio Anglo Latino, situado na Muniz de Souza, Aclimação, São Paulo, Brasil. O colégio ( Anglo Latino, entra burro sai cretino, como se dizia) faliu e não existe mais. Não sei o que foi feito dos amplos prédios, bem ao lado do Parque da Aclimação e de uma Biblioteca Municipal Infantil, onde Monteiro Lobato andou.
Tinha uma professora bem velhinha. Pra minha vergonha, eu que sempre louvo a memória dos meus professores, não me lembro do nome dela, Sílvia, era nossa professora de música. Basicamente, íamos pra um auditório, com os assentos de madeira com escritos como "Vamos invadir sua praia", e ela dedilhava ao piano os hinos: o Nacional, o da Bandeira, o da Proclamação da República e do da Independência. Também não me lembro de muita simpatia na nossa professora de música, mas ela era séria: nos passava as letras cheias de inversões e palavras pomposas e lascávamos nossas taquaras rachadas nos estribilhos como "aceita o afeto que se encerra em nosso peito juvenil", "ouviram do Ipiranga, às margens plácidas", "de esperança de um novo porvir", e que tais. Gostava de cantar e ouvir o piano, e os hinos brasileiros não são tão horrendos quanto a nossa falta de nacionalismo gosta de supor.
O meu favorito era o Hino da Independência, cuja música foi supostamente composta por Pedro I. Sabemos todos que nosso primeiro monarca era mais afeito à aventuras amorosas e a domar cavalos xucros, mas enfim, de fato a letra é legado de Evaristo da Veiga, mineiro que era dono de livraria no Rio dos primeiros Oitocentos, e que era jornalista e depois dono de jornal, combativo defensor de um Iluminismo mineiro: como diríamos hoje, um Iluminismo temperado com queijo meia-cura. Nós, garotinhos e garotinhas da Aclimação, muitos nipo-descendentes, adóravamos transformar o "Já podeis da Pátria filhos" em "Japonês tem sete filhos/ o primeiro é sapateiro, o segundo vagabundo", pra horror da nossa professora.
Voltei pra casa cantarolando nossos hinos, ou o que a minha memória cata-cega lembrava deles. Cheguei e consegui uma pastinha com os hinos todos, em versões cantadas, o que me faz supor serem da Base Aérea de Brasília, de Canoas, algo assim:
Com todo o respeito, baixei os nossos hinos. Como dizia minha professora, em tempos de reabertura democrática, todos em plena voz!

Um desenhítico


Uma igreja de Ouro Preto, na memória, no computador o rabisco.

Tuesday, August 05, 2008

Sonhos, noites árabes e livros raros


Hoje eu dormi no colchão do escritório, no meio dos labores ingratos da tradução que peguei. Tão estranho, eu fui professora durante dez anos, e fazia minhas pesquisas. Agora, sou tradutora, e como disse o rapaz da Net, que veio aqui trocar meu modem, que pifou nessa grande chuva de domingo, faço home office. Dormi e tive dois sonhos: sonhei que caminhava, com conhecidos, pelo Minhocão, até que o dito terminava numa mistura de floresta e monte de entulho, e eu entrava na casa de uma família imaginária. Depois sonhei que um grande incêndio consumia meu prédio, com direito a cenas horríveis, e eu salvava o livro da tradução, meu laptop e saía correndo, em meio a pessoas bem imóveis.


Enfim. Daí depois entrei na Praça é Nossa virtual, vulgo msn, e comecei a querer ajudar o Filipe numa pesquisa sobre ilustrações do Sacode a Espada, o tiozão das ilhas, vulgo Shakespeare. Fuça daqui, fuça dali, achei uma livraria de livros raros na Tailândia (???) e eu lembrei de outro sonho que tive ( ando numa fase Kurosawa), em que eu era a maior dançarina do ventre do Egito (?????????????) e eu ficava dançando, dançando e tal. Depois eu fiquei pasma, entrei no Youtube e vi a Lucy, de fato considerada a maior dançarina do Egito, e eu dançava com ela no sonho. Lembrei de uma edição infanto-juvenil que li, quando eu era, de fato, infanto-juvenil, das Mil e Uma Noites, e achei na livraria de livros raros da Tailândia uma edição ( Rosenthal, Leonard: The Kingdom of The Pearl. London: Nisbet & Co. Ltd. 1920), nem vou falar o preço, uma fábula, mas ilustrada por um tal Edmund Dulac, vocês vejam aí em cima a história da princesa Badoure, a princesa da China, que se envolve em mil peripécias com a princesa Haia, em intrigas de corte e jóias espetaculares.
Estou pouco discreta nos meus sonhos, não reparem!

Sunday, July 27, 2008

De tudo ao meu amor serei atento

O meu primeiro poeta, assim como o de muita gente, imagino, foi Vinícius de Moraes.



A princípio, Vinícius era o tio que havia escrito as letras das músicas dos dois discos que eu tanto gostava, A Arca de Noé. Depois, na escola, durante o ginásio ( sou do tempo que o ensino fundamental era chamado ginásio, e do tempo que poetas escreviam para crianças), fui descobrindo os sonetos, os textos em prosa, o mundo Vinícius.


Não tínhamos em casa os LPs gravados por ele e Toquinho, mas eu sabia de algumas coisas com o Tom. O poeta, porém, falou mais alto, e em várias excursões pelas bibliotecas dos dois colégios onde estudei, Vinícius era o preferido e o eleito. Copiava, com canetinha hidrocor, nas agendas, versos vários, e Para Viver um Grande Amor talvez tenha sido um dos primeiros livros que comprei, descobrindo os sebos da cidade. Logo, porém, Vinícius começou a conviver com Carlos, o Drummond de Andrade, e com Fernando, o Pessoa, nas minhas preocupações juvenis. Adorava as antologias poéticas das apostilas, que me apresentaram Gregório, o de Matos, Tomás, o Antônio Gonzaga... até Paulo, o Leminski. Vinícius foi a porta do amor pela poesia, amor este que já me fez declamar, nos arroubos da juventude, Baudelaire na frente de um pasto, e Gonzaga na frente de um flamboyant. Enfim. Passados os arroubos da juventude, fiquei muitos anos sem ler o poetinha, porque de fato ele não é bem visto na academia.
Hoje, me deitei à tarde, com um pouco de febre, e Para Ler um Grande Amor. Fiquei até meio com raiva: Vinícius escreve tão simples que chega a ser meio pateta, chega a abusar da boa vontade do leitor intelequitual e metido. Mas depois, a gente vê as referências do homem, e lembra da trajetória: de poeta metido e intelequitual, até com tons meio fascitóides, Vinícius virou um monumento, um colosso da delicadeza. Pensei no quão árduo foi para ele ser simples. A coisa mais difícil do mundo é ser e escrever simples. A coisa mais difícil do mundo é se despir de tantas explicações racionais, pseudo racionais, irracionais e o caramba a quatro, e se tornar a gente mesmo.
Daí, entrei no http://www.viniciusdemoraes.com.br/. Já ouvira falar da generosidade dos herdeiros, em abrir tudo da obra do poetinha na internet. O site é tão delicioso quanto Vinícius; a gente pode montar nossa própria antologia, com capinha, cores e tudo, e mandar pros amigos. Como diz Vinícius sobre uma gaiola de canário e Rubem Braga, imaginem para quanta mulherzinha vocês não vão poder mostrar esse truque! Essa é uma senhora cantada virtual... Fiz a minha e já enviei, em destaque o Soneto de Florença, que foi epígrafe da minha tese.

Thursday, July 24, 2008

Back in the high life again

Tem uma música que eu gosto, há muitos anos. Do Steve Winwood, Back in the high life again.


Essa música traduz muito do que sinto, nos últimos tempos. De volta à vida. Depois de tantas perdas, hoje sinto que o saldo tá começando a positivar. Minha psicanalista dizia pra mim que era do meu feitio ver tudo sempre no negativo. Mas é aquela velha história, copo metade cheio, metade vazio...
Agora, tem outra frase que eu gosto muito. Está no Memórias de uma Gueixa, o livro, não o filme: a adversidade é como um vento forte: ela não apenas nos afasta dos lugares onde queremos ir, mas também do lugar onde estamos. Ok, ok, tudo isso é clichê da cultura de massa internacional, Adorno se reviraria do túmulo agora. Não posso evitar de ser uma pessoa meio óbvia. O fato é que depois de tantas ventanias, de tantas perdas, eu sinto que meus pés estão mais firmes, e a subida, mesmo que íngreme, compensadora: começo a ver paisagens, horizontes e possibilidades. Começo a ver, depois de tanta neblina, e estou tão feliz por isso. Fico feliz por não ter desistido, mesmo nos momentos mais difíceis, de ser eu mesma e de querer o que quero, porque é tão simples.
Ando tendo conversas significativas, e isso é ótimo, mais que perfeito. Vejo o que desejo, e não vou me culpar por isso. Quero voltar, abrir portas que fechei, ver pessoas, escancarar sentimentos. Não tenho culpa pelo que sinto, pelo que vivi e por quem sou. Não, não tenho, mesmo que alguns fiquem no desagrado. Estou de volta.

Tuesday, July 22, 2008

Tutti buona gente!

Hoje acordei com uma doce tarefa: comprar o Correio Popular e encontrar, na primeira página do Caderno C, o tiozão narigudo mais sexy da história!

Isso mesmo! Rufem os tambores! Panda in the news! Panda in the news! Eu vou escanear e pôr aqui pra vocês!

Friday, July 18, 2008

A um amigo florentino

" (...) Não é essa, meu Pai, a maneira de retornar à pátria. Mas se outra, vinda de Vós ou de outros, se encontrar, outra que não destrua a fama e a honra de Dante, eu me colocarei nessa a passos não lentos. Se, por nenhuma outra de tais maneiras em Florença se pode entrar, e eu em Florença não entrarei jamais. E isso, porque? As esferas do sol e das outras estrelas, não poderei talvez contemplar em outro lugar? Não poderei, em qualquer lugar sob a volta do céu, meditar sobre as dulcíssimas verdades, antes de me render subjugado ao povo e à toda cidade de Florença? E nenhum pão me faltará."
Dante Alighieri, "All'amico fiorentino", in RUSSO, L. I classici italiani dal Duecento al Quattrocento. vol. I. Firenze: G. C. Sansoni Editore, s/d, p. 267, tradução livre da dra. Panda Maria.
Nessa carta, Dante recusa voltar a Florença, sob condições que acha humilhantes, como aceitar as acusações que lhe foram feitas, segundo ele mesmo, injustamente. Agora notem, meus queridos leitores, a força da moral do tiozão: exilado, ele teve que procurar refúgio em cidades inimigas de sua Florença, trabalhar como qualquer um em situações perigosas e, segundo o Tratatello de Boccaccio ( a ser traduzido na seqüência), ainda arrumar tempo para as muitas namoradas, conviver com os filhos e escrever a Commedia! Guarda che bravo ragazzo! O resto é conversa, morou!

Sunday, July 13, 2008

Saturday, July 12, 2008

Thursday, July 10, 2008

Per me si va nella città dolente...


Um belo dia, no lascado 2007, encaminhei-me para a cidadela de Dite, ops, Unicamp, para terminar as coisas da maledetta, ops, tese, como todos vocês acompanharam assiduamente pelo Meio, ops, blog.


Fui almoçar nas velhas paragens do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. E encontrei no balcão o amigo Marcão, ajudando na lida da família. Marcão foi meu aluno no IA, no departamento de Artes Plásticas, e é filho do pessoal dono da cantina. Muitos anos de amizade, de conta pendurada, de papos e desabafos. A gente atravessara o cabo da Boa Esperança juntos, até. E num dia, numa circunstância da qual eu não me recordo, bem no estilo das coisas muito boas que acontecem com a gente de improviso, Marcão me disse que ilustraria o Dante, em minha homenagem, pra minha defesa de tese.


Fiquei comovida com o gesto de amizade, logo reforçado pelo intrépido Saul. Um dia a emoção era tanta que a panda esqueceu de puxar o freio de mão até o fim e Gerião despencou ladeira abaixo, destruindo o carro de uma professora do IEL, absorvida no trabalho de contar pros meninos as peripécias do tiozão narigudo no Inferno das égua. Enfim. E num desses dias normais, comuns, a Flávia, amiga querida e supervisora do Centro de Documentação Alexandre Eulalio, o arquivo do IEL, viu a telinha diligentemente trabalhada pelo Marcão, nos intervalos de servir pratos e conferir troco. Eram Dante, Virgílio e as Górgonas, gostosas retiradas de sites pornôs, uma grisalha em acrílico. E veio o convite, vieram Mário, Filipe, Max, André e Vivi...


No dia da tomada da Bastilha, a panda orgulhosamente apresenta Città Dolente. É uma exposição de pinturas, desenhos, escultura, gravuras, só sobre.... isso mesmo! O tiozão narigudo! As obras são inéditas, 29 obras, feitas especial e carinhosamente para nossa exposição, que consta da programação oficial do sexagésimo aniversário da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Vai ter filme, palestra, bolo de fubá... tudo que o Dante, os meninos e a Flávia merecem!


Parece um sonho... os demoninhos ganharam vida de novo, bem como Virgílio, os monstros todos, mais uma vez, desde 1320, o tiozão serve bem para servir sempre! O cartaz da expo pra vocês, estão todos convidados! Não é todo dia que os nego do Inferno voltam em cena!

Sunday, July 06, 2008

Bruxas, duendes e pandas

Nunca me afetei pelo clima new age que dominou a cena anos 90, melhor dizendo, da segunda parte da minha juventude. Nesses sofridos anos surgiram várias lojas esotéricas, vendendo roupas indianas, miniaturas de duendes em durepox e fontes de água pra gente pôr no escritório. Eu gosto de roupa indiana e até acho que as miniaturas dos duendes são simpáticas, mas meu ceticismo é bastante elevado, considerando o que o pessoal faz por aí.
Ontem, eu fui na Livraria Cultura do Iguatemi, lugar que me deixa com sentimentos contraditórios: por um lado é uma beleza um lugar desses em Campinas, por outro eu perdi a desculpa de ir passear na Paulista pra poder ver as novidades na Cultura do Conjunto Nacional. Enfim, como diria o poeta, minha alma é uma praia assolada por ventos em direções contrárias. Mas de qualquer forma é melhor ver os livros que eu não tenho dinheiro pra comprar, num sábado à noite, que ficar em casa vendo a parede. Vi uns livros da sempre simpática Márcia Frazão.
Antes que me crucifiquem, apedrejem, e me queimem viva, a simpática bruxa fluminense Márcia não ensina ninguém a contradizer as teses de Newton, de Einstein e da Física Quântica ( que são contraditórias entre si, nunca é demasiado lembrar). Só ensina a fazer bolo de fubá e tomar com chá de cidreira pra melhorar o ânimo, o que qualquer um pode fazer, e é barato e ninguém morre com isso. Realmente, bolo de fubá com chá de cidreira melhora o astral de qualquer cristão ou ateu, bem como derramar lavanda ( é, a melhor é a Johnson's, pra bebês) nos lençóis quando a gente troca a roupa de cama. Eu sempre gostei muito dessas coisas simples, como queimar um incenso, pôr Mozart, lavar roupa ou fazer biscoitos quando estou triste, mas andei tão, tão triste que nem essas coisas simples eu tava conseguindo fazer. E tava encarando tudo daquele jeito cinza e limitado quando a gente tá no bico do corvo, como se diz por aí.
É impossível prever o futuro ( mesmo que ele exista, segundo Einstein), bem como é impossível voar ( tirando a possibilidade de pegar um avião, segundo os cálculos de Newton), e é impossível impedir que coisas ruins aconteçam e que infelizmente, muitas vezes o pior aconteça. Mas pelo menos bolo de fubá com cidreira ajuda tanto a gente a levar essa vida lascada. Li umas linhas dela e me senti melhor, com mais ânimo pra cuidar da minha casa, de mim e das minhas coisas. E se existe bruxaria, o verdadeiro feitiço é esse.

Thursday, July 03, 2008

A panda no corredor da morte

Comecei a trabalhar aos quinze anos. Acho que já contei aqui em algum momento; fui trabalhar no Mc Donald's da avenida Norte-Sul, aqui em Campinas. A loja, até hoje, é um inferno digno do dantesco: zilhões de clientes chatérrimos do Cambuí e da Nova Campinas, mais uns transeuntes, o dia inteiro, os sete dias da semana.
Hoje passei pelo Mac da Glicério ( aliás, num lindo sobrado meio Art Nouveau) e vi os meninos ali na labuta. As meninas que ficam no balcãozinho do sorvete são umas heroínas, porque devem atender metade da população de Campinas num dia, e a outra metade no outro.
O Mac assinava carteira e pagava um salário mínimo. Meu horário era das quatro da tarde até as nove; eu era menor e não podia passar das nove, mas de fato acabava, todos os dias, fazendo horas extras, devidamente não pagas pelo meu empregador. Na época, a loja não era franquia: nós éramos funcionários, todos, da matriz mesmo. Depois um médico cheio da grana e da pretensa humildade arrendou a franquia. Mas enfim. Entrei no emprego e me deram a incumbência de fritar as carnes do Mc Chicken, Mc Fish, as tortas, os nuggets e montar os dois sanduíches. Tudo isso é feito, até hoje, num corredor no interior da cozinha que sai da cuba das batatas: cubas lotadas de óleo vegetal, que a gente tirava com uma pá e luvas, punha nas cubas e é aquecido a não sei quantos graus centígrados. Os pães ficam numas torradeiras, e a gente tinha pistolões de maionese. Tudo era muitíssimo limpo e o povo era muito chato com todas as regras de higiene, pelo menos na minha época era assim.
O problema todo eram dois gerentes, irmãos, que pegavam as meninas e levavam pro grande refrigerador, que devia ser do tamanho do meu apartamento. As meninas que aceitavam o assédio eram lotadas no balcão. Lógico que a pequena panda já era meio da pá virada e não aceitou fazer nada no congelador a não ser pegar latões de picles pros sempre atarefados e legais colegas chapeiros, os que ficam no pior dos serviços da loja: virar as carnes dos hambúrgueres e Big Mcs. Logo, os gerentes me deixaram para toda a eternidade no corredor do Mc Chicken, carinhosamente apelidado Corredor da Morte.
Pois é, meus caros. Eu ficava sempre no corredor da morte. Agora, pensem: se o pessoal chamava minha área disso aê, vocês podem imaginar o que era minha panda vida. Só não me mandaram limpar a caixa de gordura, o pior dos serviços imagináveis de toda a humanidade. Também era sempre solicitada a limpar o chão da cozinha, o que fazia com um esfregão que era do meu tamanho e ficava num balde que tinha o meu peso. Tinha dias que eu entendia perfeitamente o Chaplin nos Tempos Modernos: uma vez, uma chata cliente pediu Mc Chicken sem maionese, e eu simplesmente não conseguia impedir o gesto de pegar o pistolão de maionese e tacar no pão. Outra vez, me pediram uma virada, como a gente dizia, de 6 por 6: ou seja, montar a capacidade máxima da área, seis Mc Chickens por vez, até que o gerente que estava na produção ( o cara que embala os lanches e controla o fluxo de pedidos pra cozinha) pediu pelo amor de Deus pra eu parar. Resultado: no nosso break, ou seja, na parada pro lanche, todo mundo comeu Mc Chicken, me olhando feio.
A panda, seguindo sua tradição, ficou muito popular com o setor povão da loja, os chapeiros e o pessoal do fechamento, uns rapazes que trampavam em n outras coisas e chegavam às onze da noite, pra fechar a loja, ou seja, os doze trabalhos de Hércules. Eram uns rapazes afro-descendentes imensos, um verdadeiro time de basquete, que a gente chamava de Globe Trotters. Vendo meu prestígio com os chapeiros e os Trotters, um dos gerentes escrotinhos do assédio sexual refrigerado resolveu me exilar no lobby, ou seja, fazer a limpeza dos salões e atender pirralhos que deixaram cair Coca-Cola no olho das suas mamães.
Lá uma vez, no quartinho das vassouras, uma caiu na minha mão esquerda, abrindo todo o meu mindinho ( tenho a cicatriz). De novo, fiz sucesso com os clientes e os Escroto Brothers me mandaram pro pior dos exílios: dar as festas de criança. Os chapeiros, os Trotters e os lobbistas tentaram dissuadir os caras disso, e me olhavam com uma pena digna dos piores momentos dos gulags soviéticos. Entendi no primeiro dia, em que tive que animar e servir em quatro festas de criança seguidas. Só me arrependo de uma coisa que fiz: num final de festa e com o horário apertado, tive que falar para a mãe do aniversariante que precisava limpar o salão. Tinha ficado pra trás um menininho cuja mãe não aparecia. A mãe do aniversariante me passou um pito por ter falado na frente do garotinho, que tremia de medo. Foi a única vez que percebi o quanto o serviço me alienava: em condições normais de temperatura e pressão, eu mando a regra à merda pra não ferir uma criança, ou quem quer que seja.
Enfim, no frigir das tortas de banana, até que me virei bem. Um colega, uma vez, revoltado, bateu nas costas de um cliente maldito com a bandeija, em pleno estacionamento, no que foi silenciosamente apoiado por todos, inclusive os Escroto Brothers ( o cara era um filhinho de papai do Notre Dame que vivia pra nos humilhar). Porque a gente podia fritar batatinha, mas não era o Ronald Mc Donald!

Monday, June 30, 2008

Expresso duplo sem açúcar

Tem um conto muito bonito do Calvino, nos Amores Difíceis. É a história de uma jovem, casada há pouco, cujo marido viaja, que sai com umas amigas e acaba passando a noite com um rapaz, conversando, se divertindo. Ela chega no prédio onde mora e percebe que está sem a chave do portão, e não pode, sob pena de ficar falada pela zeladora, aparecer naquele horário. Daí ela vai para um bar na esquina, está frio, ela com a aba do casaco levantada e o rapaz esquentando a máquina do expresso.
Eu tô me sentindo assim, manhã cedo e eu esperando esquentar a máquina do expresso, batendo a colher de metal cheia de pó na pia e vendo a água ferver. Eu pensei num post muito bonito hoje de manhã, quando vagava pelo frio da cidade. Gosto das manhãs bem cedo. Aqui do lado de casa tem uma padaria muito velha, que passou incólume pelas reformas que deixaram as padarias todas com a mesma cara, a cara de quem fez cirurgia plástica. Eu tinha um colega muito querido que uma vez defendeu essa padaria da minha rabugice, dizendo que ela tinha cara de São Paulo: feia, velha e eficiente. E eu não saio de lá. Tá sempre aberta, e sempre com um café bom.
O post era sobre a escrita da História: o meu pensamento vagava em alguma frase do Marc Bloch, enquanto eu olhava um novo ângulo dum velho casarão. Tô fazendo coleção de fotos das coisas do chamado Ecletismo ( final do século XIX, início do XX) de Campinas, mas tem muito casarão, e hoje eu vinha descendo pela Ferreira Penteado, quase esquina da Barão de Jaguara, e vi que esse casarão tem janelas encimadas por carinhas de leões, muito bonito mas quase arruinado obviamente. Não sei, o post estava bem claro na minha cabeça, mas depois eu cheguei em casa muito cansada, deitei um pouco e acordei com a luz fraquinha do sol batendo na porta da minha sacada, e eu fiquei olhando a luz do sol e os meus dedos, e perdi o post.
Tô batendo o pó aqui. O cheiro da máquina, do pó de café. Eu acho que alguém deveria salvar a Amy Winehouse. Dani já me disse que isso é impossível, e não sei quem me disse que ela não quer ser salva. Concordo, mas ela tem uma voz tão bonita, enquanto isso a gente tem que suportar a Mariah Carey e a Celine Dion. Sei lá. Tem quem queira salvar as baleias, eu quero salvar as baleias e a Amy Winehouse.
O post também dizia que eu não acredito em historiador que não saiba narrar bem. Faz muitos anos que eu não leio tanto quanto eu deveria, leio muito menos do que quando era mais nova. Acho que a gente que trabalha com Humanidades sempre fica tão atolado com as leituras profissionais, e a escrita, que pára de ler com o prazer e o descompromisso que deveria. Mas o pouco que eu consigo ler, eu leio romances, biografias e historiadores. Eu adoro aquela coleção velha, ainda do Círculo do Livro, A Vida Cotidiana. Pode-se dizer que as teses apresentadas estão passadas e tal, mas eu gosto de livro de História bem escrito. Às vezes você sabe, por outra coisa, que as informações ali estão um pouco arredondadas pelo autor ( como no caso do volume de Roma, do Carcopino, que aponta a decadência de Roma como produto, dentre outras coisas, da decadência de costumes das matronas), mas essa é a grandeza do historiador. O cara apresentar a sua versão, a sua narrativa, não aquela coisa chata positivista do cara querendo te convencer que achou o documento que prova sei lá o quê, sendo que documento é a coisa mais fácil de manipular.
E eu termino ouvindo Eye of the Tiger, sei lá porque me veio na cabeça a imagem clássica do Sylvester Stallone como o Rocky Balboa. Tô de volta mesmo.
"Risin' up, back on the street/ Did my time, took my chances/ Went the distance, now I'm back on my feet/ Just a man and his will to survive/ So many times, it happens too fast/ You change your passion for glory/ Don't lose your grip on the dreams of the past /You must fight just to keep them alive"

Sunday, June 29, 2008

Lavou, tá novo

Pois é. Meninos, voltei!!!!!!!!!!!!!


Pensei muito esse tempo aí. Pensei, pensei, gastei fosfato da minha pobre cabeça. E como dizia, é nóis na fita! It's now or never!


Fui tirando pétala por pétala da flor do meu querer. E sobrou uma pétala para o Meio. Para o querer bem do blog dantesco. A panda tá de volta! Arredem as cadeiras! Escutem os trombones! Rufem os tambores! Kung Fu Panda is back!

Tuesday, June 03, 2008

Despedida?

Aos caros leitores do Meio do Caminho,


Eu fechei o blog de novo, como todo mundo viu, por razões pessoais. Agora abro pra dizer uma coisa importante pra vocês.


Apesar do Mezzo ter sido algo muito importante na minha vida, tenho pensado seriamente em deixá-lo. A razão mais forte é que eu não sinto mais vontade de escrever. Bom, pelo menos aqui, agora. Acho que todo blog tem prazo de validade: o Meio até durou bastante, três anos initerruptos de sucesso e alegria. Não sei ainda se é isso que eu quero fazer. Mas hoje, pela primeira vez nesses três anos, venho dizer que não tenho vontade de dizer nada. Um beijo carinhoso a cada um de vocês!

Wednesday, May 14, 2008

Educação

Estava eu tirando mais fotos de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, eis que senão quando eu adentro a Praça Carlos Gomes, obra e graça de Ramos de Azevedo e dos mestres jardineiros Calixto Marin e Juvenal Kirstein ( maiores informações no http://www.campinas.sp.gov.br/cultura/patrimonio/bens_tombados/processo_001_95/ ), quando de repente elegante criaturinha de penas respeita a placa, coisa rara nas terras da antiga Vila de São Carlos. Depois uma bonita menina de boné me informou se tratar de uma garça. Uma garça em pleno centro de Campinas, que respeita a placa e não pisa na grama!

Monday, May 12, 2008

De joelhos

Faz tempo que eu ando pensando em fotografar algumas coisas em Campinas.

Não morro de amores pela cidade. É cara, violenta, sem nada pra fazer e cheia de um espécime raro de gente chata: os campineiros. Enfim. Mas o fato de não morrer de amores não significa detestar e não ver nada de bom, como muitos. Tenho um carinho ilimitado por algumas coisas. E dentre essas coisas tem uns cantinhos no centro da cidade, que são de um outro tempo.
Um tempo em que Campinas, rica e orgulhosa, se dava ao luxo de nem se importar com a primeira exposição de Lasar Segall, a rigor, a primeira exposiçao de arte moderna no país. Simplesmente porque a elite daqui era muito mais escolada, viajada e quetais que a paulistana, que levaria uma porrada quatro anos depois, com Anita Malfatti. Viagens de historiador à parte, eu me comovo com algumas coisas da arquitetura, do tempo que a cidade era toda art-nouveau, e resplandecia no dinheiro do café.
Pois hoje eu estava com a máquina na mochila e idéias na cabeça. Comecei fotografando algumas coisas de perto da Estação Ferroviária, inclusive a própria, e fui descendo o calçadão da 13 de Maio. Como nunca ninguém fotografa nada nessa cidade, logo eu própria, a pandinha velha de guerra, virou atração turística, com sua mochilinha vermelha e cachecol azul.
O povo parava pra me ver e ficava observando. Fiquei meio cabreira porque sou desligada e pra me assaltarem seria um pulo. Alguns encaravam feio, achando que tava tirando fotos das mercadorias nas lojas; meninos ficaram um tempão me vendo fazer contorcionismos pra tirar foto de um singelo hotelzinho art déco, perto do Terminal Central de ônibus, que, junto com o Fórum e a Prefeitura, concorrem ao título de coisa mais feia no universo conhecido ( junta com o Shopping Dom Pedro e teríamos os Quatro Horrores da Humanidade)...
Fui descendo e clic, clic, e os populares ali. Consegui bater fotos do lindo e destruído Palácio da Mogiana, e de um sobradinho que o povo pintou de laranja apaga-a-luz. Sim, porque existem tradições campineiras que são mantidas à risca: ninguém fotografar o centro, podarem tanto a copa das árvores que acabam matando as coitadas, e gastar a cartela inteira da Suvinil e escolherem as piores cores pra pintar tudo ( vide a linda Escola de Catetes, no Chapadão, sempre em rosa bebê, o que avilta a fama já aviltada da nossa urbs).
Pois bem, na frente da Catedral Nossa Senhora da Conceição ( cuja história é interessante: dentro, do início do século XIX, fora, do início do XX: dentro, em cedro, oficina baiana que fez Senhor do Bonfim, fora, risco de Ramos de Azevedo), sai a rua Conceição, que logo ali encontra com a Barão de Jaguara. Na esquina, está um casarão, que hoje é uma farmácia. Pois bem. Quis tirar uma foto de algo que sempre me encantou; o medalhão que encima a fachada, e que fica espremido, hoje, por uma horrenda placa. Tentei do outro lado da rua e não obtive sucesso. Só que detalhe, duas da tarde de uma segunda-feira, eu no coração da velha Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, Ponte Preta que perdeu de novo, aquilo tava mais cheio de casamento de pobre.
Tento e só dá fio do poste, neguinho me empurrando, os negos da farmácia achando que eu tava tirando foto de prateleira de remédio ( ó Senhor, pra quê?), uma chata com um carrinho de bebê, uma multidão dos jovens da Toca de Assis, e um mendiguinho que achava tudo um barato. Vou pro outro lado, e passa carro, resolvi ir pra perto e tentar, mesmo sem muito recuo, pegar uma imagem. Nada, recuei o zoom da máquina, até que...
Sem perceber, fiquei de joelhos. Foi algo surreal, no meio daquela gente toda, eu de joelhos, mochila, cachecol, e de joelhos, na esquina da Conceição com a Barão de Jaguara, tirei essa foto aí de cima. Não é Paris, meus amores; sim, é Campinas.

Monday, May 05, 2008

O pulo de Guido


Boccaccio nos conta, no Decameron, que de certa feita o poeta Guido Cavalcanti, amicíssimo de Dante e homenageado pelo tiozão na Comédia, estava a andar por Florença, quando perto dos túmulos do cemitério foi atacado por jovens inúteis da cidade, em seus cavalos. Os jovens desocupados quiseram pegar o poeta, que cortesmente se despediu e, dando um salto e uma pirueta, saiu voando e fugiu por entre as sepulturas.

Ítalo Calvino, nas suas Seis lições americanas, que aqui no Brasil sairam como Seis propostas para o próximo milênio, dedicou um belo texto ao caso, sob o título e na qualidade da Leveza. Segundo Calvino, a marca da poesia de Guido era justamente a leveza, ou, como num poema seu, a singeleza de um floquinho de neve, de uma gota de chuva na vidraça, de uma borboleta amarela no caminho ou de um pouquinho de queijo ralado em cima do macarrão na manteiga. A leveza, segundo Calvino, era atributo dos heróis e dos deuses: basta pensar em Perseu, cavalgando Pégaso pelos ares, ou de Hermes e suas sandálias aladas. Porque a leveza não vem da superficialidade, como alguns se permitem supor: como diria Bashô, vem do pulo da rã no tanque.

Hoje eu acordei, fiz a lista dos meus afazeres, preparei um capuccino bem cremoso, e me deitei enroladinha no cobertor azul. E pensei em várias coisas, no meu trabalho e na minha vida, nos últimos anos. Pensei, com muita clareza, que meus anos do doutorado foram uma incursão num mundo de trevas, de dor, de destruição e angústia: esse Meio do Caminho tudo registrou, anteviu, e discutiu. Eu me sentia pesada, em todos os sentidos. Nunca tive o dom, meio paranóico, de ver/antever adversários, oponentes, ou meros mauricinhos de Florença em seus cavalos cheios de plumas. Me sentia pequena, insignificante, a ponto de estar sempre fora das competições, dos torneios da vida acadêmica. Hoje sei que nem tanto ao mar, nem tanto à terra: sim, continuo sendo alguém de posição muito modesta, mas que encontrou jovens florentinos pelo caminho sim. A sorte é que, no último minuto, meu último pulo me levou rumo a um novo caminho, a este novo caminho que o Meio registra também, em sua generosidade.

Numa de minhas novas tarefas, descobri algo muito lindo: um manuscrito florentino, circa 1427, do Decameron. Está guardado na Biblioteca Nacional da França, sob o tombo de Ms.Italien 63. Dá pra ver todas as ilustrações dessa maravilha no portal Mandragore, em http://www.bnf.fr/. Digitar Bocacce, se não não vai. Ficou inacabado, mas é uma jóia, e ver Boccaccio ilustrado é como ver o tiozão ilustrado: ou seja, uma panela cheia do melhor macarrão, ou uma noite de amor daquelas! Porque todos nós temos que ter um pulo de Guido.

Thursday, April 24, 2008

Meu mundo caiu....

Ontem o Celo me disse que a querida Elisa tava preocupada comigo. Disse que ela de vez em quando passa por aqui e tem a impressão do mundo estar caindo! Achei engraçado a expressão que ele usou, ou que ela usou, não sei... dá vontade de cantar a plenos pulmões, meu mundo caiuuuuuu....
Então. Sim, meu mundo caiu sim. Mas isso foi ótimo! Vou tentar explicar. Eu estou diferente, só isso. Tive a comprovação ontem, fui na Unipunk, compromissos e tal. Rever o lugar, as pessoas, mas me sinto tão diferente... teve um hora, durante o dia, que temi voltar pro mais do mesmo. Mas depois, conforme as horas foram passando, percebi que isso não vai acontecer, não acontece mais, simples assim. Estou diferente. Um certo mundo caiu, mas outro começou no lugar, não se preocupem, fofuras da minha vida! A panda está trampando mais do que nunca, lutando demais e conseguindo coisas legais pra ela. Apertos a gente passa, mas é o normal, o esperado.
Senti ontem, em pessoas, a tensão de "o que essa nega vai fazer agora da vida". Quatro anos no tiozão narigudo e no tiozinho barrilzinho deixaram as pessoas traumatizadas, com medo que a panda virasse uma figura alegórica num afresco de Giotto, ou uma coisa que o valha. Mas não, pessoas, eu sobrevivi, e aquela Paula de antes inventou um lugarzinho pra si própria, sem tanta tensão, sem tanto sofrimento, e melhor, sem algumas almas danadas que me atazanavam a vida! Eu acho que tenho motivos pra comemorar, pra poder ver que realizei algo, pequeno, modesto, mas como disse uma amiga ontem, sério, e que me faz muito feliz.
Foi muito bom essa parada, essa saída do meu novo lugarzinho, e ver que andei até chegar a ele. Tudo nessa vida custa, e às vezes as coisas custam muito. Estava cansada, exausta mesmo de tanto trabalhar,e ontem percebi com clareza que apesar disso, estou muito bem. E que estou mais e mais animada com minhas coisas e meu lugar... estou feliz.

Wednesday, April 16, 2008

Anunciação


Fiquei muito triste nos últimos dias, faleceu o querido professor Luiz Carlos Dantas, do departamento de Teoria Literária. O prof. Dantas foi alguém super importante na minha trajetória, devo muito a ele, e aqui expresso meu pesar e minha homenagem singela.
Mas talvez a melhor maneira de se homenagear um mestre querido que se foi é continuar na luta, na labuta, no plantio e colheita. Hoje acordei mal, mas depois consegui me empolgar com um dos projétios Tabajara e acho que vai rolar. O anjo veio e anunciou, e eu respondo, faça em mim a vontade do Senhor!


E segundo Alceu, a gente escuta os sinais, daquele que vem. Eis, que depois da consumação, a névoa.

Anunciação, atribuída ao jovem Leonardo ou à oficina de Verrocchio, circa 1474.

Saturday, April 12, 2008

Eu vejo flores em você...

Acabei de ver um email da Nenem com a linda notícia de que nasceu ontem, dia 11, Isabela, filha da Ziza e do Mi. Isso porque há dez minutos atrás, chegando na casa do Celo com o próprio, no meu carro, eu gritei desesperada, cadê meu carro! Roubaram! Vejam como está a cabeça da panda!
Mas agora tudo está divino maravilhoso. Parabéns ao Mi, à Ziza, à Nenem, ao Clis e a nós todos, por termos mais uma companheirinha de nachadas e baladinhas. Que a Isabela seja muito feliz, tenha saúde, amor, paz e tudo de bom que a vida oferece, inclusive tias panda!
Voltando ao momento panda stress. Assim como os panda, que são alugados pelo governo chinês para zoológicos de todo o mundo, e de vez em quando precisam morder negos bêbados que entram em suas jaulas ou posar para fotos com a rainha da Espanha, a panda nunca trabalhou tanto na vida. Sério, gente. Agora, nesse momento, eu preciso fazer uma tradução do inglês de um livro de 300 páginas ( pra pagar as conta! O pogréçio vem do tabáio, já dizia Adoniran), estudar pra um concurso de História da Arte brasileira ( no qual minhas chances de aprovação são nulas,ou melhor, inexistentes, mas mesmo assim não vou relaxar e dar vexame, chamando Franz Post de Genival Lacerda), preparar aulas sobre Dante ( sim, caríssimos, chamaram a panda de volta às paragens infernais, aos monstrinhos da Antigüidade e ao tiozão narigudo) e mais cúrsios e projétios Organização Capivara de História da Arte, para diversos meios e fins. Trambiques, tramóias, picaretagens e eventuais surtos à parte, eu acho que nunca estudei tanto na vida.
Talvez no vestibular... onde peguei firme, mas minha vida escolar sempre foi marcada por marretagens de toda a espécie ( as piores delas foram minha tese de doutorado, e um mapa-múndi em quebra-cabeça que fiz na sétima série... acho que a tese foi pior!)... resolvi me tornar uma pessoa séria, ir no Kalunga, comprar cadernos e pastas, arrumar estojos com canetas funcionando, apontar meus lápis... e verás que uma filha sua não foge à luta! Nem teme, quem te adora, a própria morte! Nesse processo de "seriedificação", viciei-me em post-its! Alguém aí é viciado em post-it? Agora inventaram um grandão com pauta, nove pilas, que está na minha wish list, junto com uma passagem para Katmandu e um rolex de Ouro ( mais fácil eu conseguir, em sorteios do feijão Broto legal, os dois primeiros itens, que o post-it com pauta)...
Pois bem, caríssimos. Já podeis da Pátria os filhos, ver contente a mãe gentil.

Sunday, April 06, 2008

De amor e de sombras

Já faz um tempo que o Meio não comenta assuntos das trevas infernais, digamos que a panda entrou num purgatório emocional faz tempo, o que muito me conforta. Mas o caso da menina Isabella Nardoni me deixou com os cabelos em pé, vocês me desculpem mas eu preciso comentar algo.
Não é só no Brasil que casos extremos de violência contra crianças, idosos, mulheres e homens, plantas e animais, ocorrem com uma regularidade e insistência que exaurem a gente, até os ossos. E a cobertura da mídia, sempre aquele circo, além de todo lixo veiculado na internet ( tem quem faça comunidades no Orkut comemorando a morte brutal da garotinha, tem quem brinque e ache legal, e no fundo pense em fazer o mesmo qualquer hora dessas). Tudo tão grotesco, que se repete, sempre se repete, ad nauseaum. Eu sempre penso que a violência e a pornografia, nos dias que correm, são os dois lados da mesma velha e gasta moeda: na pornografia, os casais/trios/equipes sempre transam do mesmo jeito, o mesmo roteiro, a mesma cópula repetida ao infinito ( com requintes da perversão, pro povo comprar pelo fetiche novo ou aberração diferente), e no caso da violência, sempre uma escalada rumo ao terror, ao horror, à brutalidade pura e simples. Tudo virtual, daí pra passar pro real é tão fácil, tem tanta gente no mundo, pode-se matar e jogar pela janela, que está tudo beleza.
Fazendo isso no Brasil, então, ótimo, esse país com essa tradição da violência gratuita, da impunidade, de gente que arrota burrice e acha isso o máximo... penso em todas as vítimas inocentes desse sistema que reinventa, sempre, o significado da palavra perversidade.
Será que Eros vencerá Tânatos, ao menos no íntimo de alguém, nos dias que correm? E no caso Isabella, a montagem de uma cena do crime tão incoerente... uma das características do mal é a arrogância. Sempre que tem arrogância, tem coisa podre, morta, perversa, narcísica grotesca. Podem reparar: quem mata, abusa, corta árvore, mata bicho, é arrogante. Pensa que é imbatível. No nosso caso, voltando, a impunidade reforça a perversidade de muito neguinho desocupado. Nesse vale de lágrimas, só a compaixão, como diria Rousseau, nos salva. Só o ato desprovido de egoísmo: e não, não existe nenhuma razão fora do mundo para que as pessoas ajam corretamente ( não existe mais Deus, nem metafísica, nem nada): essa razão surge do diálogo e do conforto de se saber gente. Do dia-a-dia, do cuidado de si e dos outros, da pitié, essa palavra tão bonita que o Rousseau usa pra dizer da luz delicada de outono, que existe quando o bem surge entre os homens, quando a justiça é feita e quando o mal não é reparado, mas não é esquecido. Ontem saí de casa, e senti o cheiro do inverno, de vida, de piedade e de luto.

Monday, March 31, 2008

O velho Roque

Eu devia ter uns doze anos, quando gravei, no meu primeiro Mini System, uma fita cassete com um especial, narrado por mim mesma, da História do Rock and Roll. Sério. Começava nos Beatles e terminava num excurso sobre o rock brazuca, no caso, os Mutantes e os Titãs ( nunca demasiado lembrar, a panda é do tempo que os Titãs eram os Titãs do Iê Iê Iê).

Na época, eu era uma leitora contumaz da revista Bizz, e colecionava umas fichas de bandas, pôsteres e canções, gravadas do rádio. Notem que eu morava em Jundiaí e tinha 12 anos, ou seja, as minhas possibilidades estético-artístico-musicais eram muito limitadas. Eu adorava assistir o Som Pop, domingo à noite, na TV Cultura. O Kid Vinil apresentava os vídeo clipes, a única forma de atualização da então panda mirim no velho e bom roque-ên-rou. Depois, surgiu a MTV no Brasil, e eu lembro que a gente tinha que pôr o UHF na antena, ( sim, aquela pirâmide de plástico) e pedir pro irmão mais novo segurar a tal numa determinada posição, fazer uns passos de macumba e rezar pra que a transmissão não caísse, antes que o irmãozinho não resolvesse te denunciar pra mãe ou pra qualquer ser de mais de 18 anos. Lembro da primeira transmissão, quatro da tarde, o clipe foi Garota de Ipanema com a Marina, linda e elegantíssima, de laranja.
Os clipes eram um mundo a parte. Achei ontem no Youtube e passei na mesma hora pro Celo e pra Danis um dos meus favoritos de todos os tempos, PHD e I Won't Let you down ( aaaaaaaaa, eu vou ler jornal, vou ler jornal, vou ler jornaaaaaaaaal). Mas isso ainda não é rock, vão me dizer. É pop do mais descarado, sim, sim, eu ouvia Jovem Pan, no Gradiente prateado da sala.
O roqueiro mesmo é o cara udigrúdi, que vai no barzinho obscuro e conhece as bandas obscuras de todos os tempos. Pressupõe um meio ambiente que eu estava longe de participar, a mundos de distância. Mesmo depois de um pouco crescidinha, nunca fui descolada, nunca apresentei bandas pros amigos e sempre me detive no clássico. E sempre gostei do pop, e das fusões com funk, soul e sei lá mais o quê. Sim, claro que eu tive meus All Stars, e minhas trocentas calças jeans, com uma camiseta bege e a letra de Starway to Heaven. Gostava de Prince também, gostava de tudo, até hoje gosto, sou um dos raros casos de ecletismo musical que já vi na minha vida.
Agora, eu percebia claramente, nos meus 12 anos, que rock é atitude. Sede é tudo, imagem não é nada: roqueiro não se cria, não se copia, se é. E pronto. Tem gente que achava, nos meus tempos de juventude, que era comprar o vinil obscuro e tecer um discurso blasé-rock-punk-funk-s'il vous plaît e tava valendo, referências obscuras e muito intelequitualismo faziam o roqueiro. Roqueiro também não é o que enfia o pé na jaca 24 horas por dia, isso é o lado superficial da coisa. Difícil é manter o topete roquêro em pé quando se precisa...

Tuesday, March 25, 2008

Missão impossível

E daí que aqui em casa, as coisas acabaram. Sabe quando até aquele pacote de macarrão, do mais barato, que a gente deixa em caso de hecatombe nuclear, escondido embaixo da pia, foi embora?
Bem, acabou até o papel higiênico, e mesmo eu sendo uma panda pobre, tive que encarar um mercado na minha vida.

Eu notei, na última visita ao supermercado, que as coisas ficaram muito mais caras. Alguns produtos subiram 50%, e o orçamento do brasileiro vai que vai, só no sapatinho até o dia clarear. Não li nada de muito conclusivo na imprensa a respeito, mas o fato é que eu fiquei uma panda mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Peguei cinqüenta reais, que era tudo que eu dispunha, e fui pro Atacadão.
Aqui em Campinas, já faz uns anos que existem grandes atacados, três deles no final da rodovia Dom Pedro, o Makro, o Tenda e o Atacadão. A panda dona-de-casa gosta mais do Tenda, sei lá porque, e há anos faço minhas compras lá. Por mais enjoado que possa ser chegar ao local, e pegar caixas de papelão porque não existem sacolas, e enfrentar as multidões de donos de bar, cantinas, restaurantes ou, pior, chefes de famílias que precisam comprar cinco pacotes master de Salsicha Sadia, o Tenda era minha única opção para comprar pão, leite, dois produtos de limpeza, biscoito Marilan e papel higiênico, bem como pacote de macarrão pra repor o da hecatombe, com meu apertado orçamento.
Bom, queridos leitores, agora vocês vão precisar de um trilha sonora mental: a musiquinha do filme Missão Impossível. Sim, porque do jeito que a coisa está, é mais difícil fazer compra do mês do que detonar a base escondida de espiões chineses numa ilha paradisíaca, com uma loira peituda do lado e um clips de papel que na verdade é uma mini bazuca.
Agora já tá tocando a musiquinha! Entro no Tenda, com meu carrinho e vejo pilhas pro meu mp3. Não, não dá pra comprar, desvio das pilhas e vou direto nos produtos de higiene. Música é luxo! Sabonete? Palmolive, peloamor, sou pobre mas vou ficar fedida? E a musiquinha continua, eu faço as contas mentalmente e dou uma guinada com o carrinho nos produtos de limpeza. Preciso fazer faxina amanhã, acabou o produto para o piso. Como eu faço? Lambo o piso? Não, desvio de cinco donas de casa, um estoquista e um menininho chorando, e vou pros Vejas. Veja maçã verde Limpeza Pesada, um toque oitentista no seu lar ( quem lembra dos produtos de maçã verde do Boticário? Só eu?), mais uma guinada perigosa e a panda superdetetive vai pros leites. Esbarro num senhor com cara de sofrimento e um carrinho que explica sua cara de sofrimento ( o cara deve sustentar umas 40 pessoas! Quase peço pra ser adotada...) e eu e ele vivemos a emocionante missão de pagar o leitinho das crianças no preço que tá.
Corta, alguém já viu os quadros do Terça Insana? Quem não viu, procure a líder comunitária que escreveu "Como Criar seu Filho na Favela", Terça Insana, no Youtube. Veja lá, e você vai entender: difícil comer morango com chantilly, no preço que tá.
Levo um susto nas massas: até o macarrão, gente! Até o macarrão que sempre salva a vida do povo, nos traiu, nos abandonou! Lembro da Carolina de Jesus, no seu Quarto de Despejo, não leu, leia agora. Ela bonitinha viu o feijão subido, e lascou: agora tu é aristocrata, né, negão? O velho carcamano que não deixa panda nenhuma na mão, que não deixa o barraco cair, que pode ser feito de todas as formas que a culinária raçuda permite ( e são inúmeras!), até o macarrão foi pro time dos bem-nascidos.
Dureza! Por isso que eu falo, por isso que eu clamo, por isso que eu digo:a missão impossível do Tom Cruise não é nada! Quero ver pôr o cara no Tenda Atacado com a lista que eu tinha, e com o meu orçamento!!!!!!!!!!!!!!!

Sunday, March 23, 2008

Páscoa

Todos os anos o Meio acompanha o calendário litúrgico. Por hábito mesmo, hábito antigo, arraigado, eu sigo mais ou menos o calendário das festas cristãs, mais do que do calendário laico, republicano. Mesmo que eu não faça nada, eu vejo as luas e as estações do ano pelo Natal, Páscoa, etc. Ano passado, vi a lua cheia do Natal, pura prata, na Chapada dos Guimarães, lendo um lindo livro Em Nome da Mãe, Erri de Luca, Cia. das Letras, que a Ju tinha dado pra mãe dela. O Luca escreve a história de Maria, Myriam, em primeira pessoa, muito tocante.
Semana Santa, eu sempre fiquei triste. Quem tem educação católica sabe porquê. Mas esse ano aconteceu algo inédito, eu fiquei feliz a semana inteira. Porque é Páscoa. Pela primeira vez eu pensei no lado glorioso da coisa e tocou Haendel dentro de mim, a semana inteira em graça, na mais pura graça.
Saibam que tudo na Comédia acontece em três dias: Dante se perde na selva oscura na Sexta-Feira Santa, está no Purgatório no Sábado de Aleluia e vê Beatriz nas primeiras horas do Domingo de Páscoa. Agora ele já está no Paraíso de novo, com ela... encontrando São Bernardo, São Francisco, e seu tataravô Cacciaguida. Então, l'amore, che muove il sole e altre stelle... é lua cheia de novo, estou feliz. Beijos pascais-dantescos para todos!

Wednesday, March 19, 2008

Um certo capitão Rodrigo

Uma das tarefas que pus pra mim, nos últimos tempos, foi a leitura de O Tempo e o Vento, do Érico Veríssimo. Li os sete volumes, direto, sem parar e sem querer parar. No meio, li a fonte de muito daquilo tudo, o Caminho de Swann, do Proust, e estou surpresa comigo mesma, porque sempre fui impaciente o bastante para encarar romances muito extensos, e os meus gêneros favoritos foram o conto e a poesia,desde muito cedo.
Mas os Terra Cambará se tornaram meus amigos, de um jeito que me despedi, com melancolia, de Ana Terra, Bibiana, o capitão Rodrigo, Maria Valéria, o doutor Rodrigo, e os belos e tristes Floriano e Sílvia.
Recomendo a saga para todos, o Veríssimo é um cara muitas vezes injustiçado na academia ( aliás, a gente poderia fazer uma lista dos autores que são mal estudados ou simplesmente ignorados pelos doutores em Letras das universidades brasileiras) mas que soube construir um edifício incomparável em língua portuguesa. Existem passagens belíssimas, cinematográficas, plásticas, sonoras, cinestésicas, que deixam a gente sem reação, esperando o próximo passo, o próximo desdobrar.
Inevitável pensar no tempo que corre, e nas coisas que se repetem. Desde Pedro Missioneiro, o mestiço de índio que foge da destruição das Missões jesuíticas, e de Ana Terra, a moça paulista presa ao pragmatismo português mais chão, os Terra Cambará tiveram paixões e sofrimentos que se repetiram, que voltaram, e a gente fica a se perguntar o quanto a gente tem das gerações passadas e não sabe. Quanta história perdida, e o mais importante é o que não ficou dito, o que não foi realizado, o destruído, o minuto que se vai.

Friday, March 14, 2008

Allons enfants de la patrie!

Caríssimos! Ao som da Môme cantando a Marselhesa, declaro abertos os portos, a Bastilha e o velho, combalido e censurado Meio do Caminho!


Tive semanas péssimas, e o Meio sofreu graves desagravos, pela primeira vez em sua trajetória no hiperespaço. Mas hoje aconteceu uma coisa engraçada. Eu ouvi por acaso a grande Piaf cantando o hino dos narigudos que tacaram fogo na Bastilha e aboliram aquelas peruquinhas brancas ( vamo combinar, devemos isso aos grandes jacobinos). Ontem eu estava lendo, da coleção Vida Privada, Paris no tempo do Rei Sol, do Jacques Wilhelm, e você entende porque eles fizeram isso. Tudo bem que hoje a França virou Sarkoland, mas pensemos na trajetória histórica, como diria Marx.
Lembrei que, quando tinha uns 12 anos, foi o segundo centenário da Tomada da Bastilha. Veio, junto com a Istoé que meu pai assinava ( eu sou da época que a Veja e a Istoé eram boas revistas), um volume, traduzido, sobre os acontecimentos revolucionários. Apesar da pequenina panda ser uma menina católica de Jundiaí, na hora escolhi de que lado estava, e me apaixonei desesperadamente por Robespierre. Só hoje lembrei do livro, da minha paixão por Rousseau, e resolvi abrir de novo o Meio e mandar pra guilhotina do meu coração os eventuais chateados com minhas pobres palavras!

Aux armes, citoyens! Formez vos bataillons!