A princípio, Vinícius era o tio que havia escrito as letras das músicas dos dois discos que eu tanto gostava, A Arca de Noé. Depois, na escola, durante o ginásio ( sou do tempo que o ensino fundamental era chamado ginásio, e do tempo que poetas escreviam para crianças), fui descobrindo os sonetos, os textos em prosa, o mundo Vinícius.
Não tínhamos em casa os LPs gravados por ele e Toquinho, mas eu sabia de algumas coisas com o Tom. O poeta, porém, falou mais alto, e em várias excursões pelas bibliotecas dos dois colégios onde estudei, Vinícius era o preferido e o eleito. Copiava, com canetinha hidrocor, nas agendas, versos vários, e Para Viver um Grande Amor talvez tenha sido um dos primeiros livros que comprei, descobrindo os sebos da cidade. Logo, porém, Vinícius começou a conviver com Carlos, o Drummond de Andrade, e com Fernando, o Pessoa, nas minhas preocupações juvenis. Adorava as antologias poéticas das apostilas, que me apresentaram Gregório, o de Matos, Tomás, o Antônio Gonzaga... até Paulo, o Leminski. Vinícius foi a porta do amor pela poesia, amor este que já me fez declamar, nos arroubos da juventude, Baudelaire na frente de um pasto, e Gonzaga na frente de um flamboyant. Enfim. Passados os arroubos da juventude, fiquei muitos anos sem ler o poetinha, porque de fato ele não é bem visto na academia.
Hoje, me deitei à tarde, com um pouco de febre, e Para Ler um Grande Amor. Fiquei até meio com raiva: Vinícius escreve tão simples que chega a ser meio pateta, chega a abusar da boa vontade do leitor intelequitual e metido. Mas depois, a gente vê as referências do homem, e lembra da trajetória: de poeta metido e intelequitual, até com tons meio fascitóides, Vinícius virou um monumento, um colosso da delicadeza. Pensei no quão árduo foi para ele ser simples. A coisa mais difícil do mundo é ser e escrever simples. A coisa mais difícil do mundo é se despir de tantas explicações racionais, pseudo racionais, irracionais e o caramba a quatro, e se tornar a gente mesmo.
Daí, entrei no http://www.viniciusdemoraes.com.br/. Já ouvira falar da generosidade dos herdeiros, em abrir tudo da obra do poetinha na internet. O site é tão delicioso quanto Vinícius; a gente pode montar nossa própria antologia, com capinha, cores e tudo, e mandar pros amigos. Como diz Vinícius sobre uma gaiola de canário e Rubem Braga, imaginem para quanta mulherzinha vocês não vão poder mostrar esse truque! Essa é uma senhora cantada virtual... Fiz a minha e já enviei, em destaque o Soneto de Florença, que foi epígrafe da minha tese.

2 comments:
Até eu, um ogro de coração, já gostei do Vinícius.
No meu tempo era quinta a ouitava série mesmo, primeiro grau. Ginásio era no tempo da minha mãe!
Era do meu tempo também. Olha! Eu sou do tempo da sua mãe!!!!!
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