Thursday, August 14, 2008

Os sete filhos

Hoje, fui ao centro, banco, correios, aquelas coisas. Singrando a rua Ferreira Penteado, paro em frente a dois sebos simpáticos que ficam um do lado do outro, estupefata: de dentro de um deles, soava, garbosamente, o Hino à Bandeira.
Olha, não sei há quantos anos eu não ouvia o "Salve, lindo pendão da esperança/ Salve, símbolo augusto da paz". E de repente, voilà, como diria Proust: eu estava no primário, no Colégio Anglo Latino, situado na Muniz de Souza, Aclimação, São Paulo, Brasil. O colégio ( Anglo Latino, entra burro sai cretino, como se dizia) faliu e não existe mais. Não sei o que foi feito dos amplos prédios, bem ao lado do Parque da Aclimação e de uma Biblioteca Municipal Infantil, onde Monteiro Lobato andou.
Tinha uma professora bem velhinha. Pra minha vergonha, eu que sempre louvo a memória dos meus professores, não me lembro do nome dela, Sílvia, era nossa professora de música. Basicamente, íamos pra um auditório, com os assentos de madeira com escritos como "Vamos invadir sua praia", e ela dedilhava ao piano os hinos: o Nacional, o da Bandeira, o da Proclamação da República e do da Independência. Também não me lembro de muita simpatia na nossa professora de música, mas ela era séria: nos passava as letras cheias de inversões e palavras pomposas e lascávamos nossas taquaras rachadas nos estribilhos como "aceita o afeto que se encerra em nosso peito juvenil", "ouviram do Ipiranga, às margens plácidas", "de esperança de um novo porvir", e que tais. Gostava de cantar e ouvir o piano, e os hinos brasileiros não são tão horrendos quanto a nossa falta de nacionalismo gosta de supor.
O meu favorito era o Hino da Independência, cuja música foi supostamente composta por Pedro I. Sabemos todos que nosso primeiro monarca era mais afeito à aventuras amorosas e a domar cavalos xucros, mas enfim, de fato a letra é legado de Evaristo da Veiga, mineiro que era dono de livraria no Rio dos primeiros Oitocentos, e que era jornalista e depois dono de jornal, combativo defensor de um Iluminismo mineiro: como diríamos hoje, um Iluminismo temperado com queijo meia-cura. Nós, garotinhos e garotinhas da Aclimação, muitos nipo-descendentes, adóravamos transformar o "Já podeis da Pátria filhos" em "Japonês tem sete filhos/ o primeiro é sapateiro, o segundo vagabundo", pra horror da nossa professora.
Voltei pra casa cantarolando nossos hinos, ou o que a minha memória cata-cega lembrava deles. Cheguei e consegui uma pastinha com os hinos todos, em versões cantadas, o que me faz supor serem da Base Aérea de Brasília, de Canoas, algo assim:
Com todo o respeito, baixei os nossos hinos. Como dizia minha professora, em tempos de reabertura democrática, todos em plena voz!

4 comments:

Dani said...

A versão que eu aprendi eram quatro filhos... rs... talvez efeito das políticas de controle da natalidade (ai, só consigo pensar nisso agora... grrrr).

O anglo ia virar um luxuoso condomínio de edifícios, mas conseguiram vetar por alguma legislação referente à proximidade de parques urbanos... Na última notícia que vi, estavam querendo transformar em centro cultural. Tomara que a proposta prospere... adoraria voltar a passear por lá.
Em tempos olímpicos, até deu saudade das aulas de educação física no parque da aclimação...

Maria said...

Flor, vc lembra do nome dessa professora??? Vc lembra dessas aulas? Eu tô há dias pra te perguntar isso...


Eu morro de saudades do Anglo. Era legal, tinha balas Sings na cantina, lembra disso? Tanti baci.

Dani Araújo said...

Não sei se por influência do seu post, mas ontem vendo o Cielo no pódio e o Hino Brasileiro ao fundo, meus olhinhos abriram as comportas...
E justo eu que não gosto de esporte, que sou avessa a nacionalismos.
Mas ver o moço abrindo o berreiro no pódio, e a galera brasileira correndo por abraço, foi muito fofo.
Haja ambivalência com esse troço de ser brasileira, viu.

Dani said...

Não era Odete?

O que eu mais me lembro eram aquelas cadeiras de madeira do anfiteatro (que dobravam o assento, né?) e, sei lá eu porque cargas d´água, o afoxé. Era o instrumento que mais me intrigava... Memória seletiva totalmente aleatória... rs...

E sonho até hoje com aquela pizza da cantina... na chapa, vinha dobradinha, no papel, queijo derretido escorrendo...

E Danizinha, tb fiquei emocionada. E tem como não ficar, com o espetáculo todo? E tem algum outro lugar pro nacionalismo que não seja no esporte?