Saturday, March 31, 2007

Ao sugo

Estou numa correria danada.
Explico: preciso entregar o último relatório pra FAPESP agora dia 10, e resolvi tentar um concurso, que será dia 12, mas nem sei se consigo me inscrever. Enquanto isso, na sala de justiça, fui tirar a segunda vida do meu RG, dei aula no IA pro primeiro ano sobre os afrescos de Giotto em Assis, cuidei da baixa na minha carteira de trabalho e entreguei as maquetes dos meus alunos do semestre passado, na PUCC( tarefa que me tomou toda uma manhã, porque as maquetes eram lindas, enormes: precisei parar o prédio, descer tudo de um jeito louco, lotar meu carro e encher a paciência de cinco funcionários da PUCC). Coisas que estavam atrasadas, enquanto outras ( o tratamento dentário, o vaso sanitário e o chuveiro quebrados, a vontade de comprar um violão e de aprender a tricotar) permanecem adiadas.
Acordo de manhã e a primeira coisa que penso, ainda dormindo, é "o que que eu tenho pra fazer hoje". Hoje, sabadão sertanejo, acordei cedo, fui tirar xerox de n coisas e zarpei rumo ao cartório da rua Barão de Jaguara. Fechado. Corri na loja central dos Correios, na Glicério ( um lindo prédio art-déco destruído por uma cor horrenda, o velho mau gosto campineiro). Depois, faxina.
Pois é. Eu que faço tudo, tudo, aqui em casa. Faxina, supermercado, banco, Perda de Tempo (ops, Poupa Tempo), pagar conta, arrumar dinheiro pra pagar as contas. Porque aqui é uma república de um, ou melhor, de uma panda só. Há dez anos, desde que saí da toca da minha panda-mãe, sou arrimo de família ( no caso, a família consiste na pequena curumim aqui). Se eu não faço, ninguém faz, por mais que Celo, amigos e dona Meire quebrem galhos imensos, ou melhor, árvores e florestas inteiras, muitas vezes. Eu tô acostumada, mas tem hora que cansa a beleza. Tipo hoje, eu preciso escrever umas linhas sobre o Tratado da Pintura, do Leonardo, mas tive que encarar um lerê-lerê básico, porque isso aqui tava uma zona.
E taca passar aspirador, lavar dois banheiros. O mais incrível é que eu gosto de fazer algumas coisas de faxina. Tipo lavar banheiro, eu ADORO lavar banheiro ( pois é, cada louco com sua mania). Lá em casa, durante muitos anos, nós não tínhamos faxineira. E aí, a gente fazia tudo, eu, minha mãe e meu irmão. Em contrapartida, eu odeio passar roupa e limpar a cozinha. Arear panela e peça de fogão é uma tortura pra mim, mas o pior é o chão da cozinha, o meu pesadelo constante.
No meio do segundo banheiro, a fome. E agora, José? Penso em descer na feirinha hippie e traçar um espetinho do japonês, mas a minha lombar começa a dar sinal de vida. Fico com saudade de anos atrás; quando tinha visita em casa, eu fazia a faxina com perfeição, descia, corria no supermercado, fazia o almoço, me arrumava, arrumava a casa, botava a mesa e até sobremesa tinha. Agora, com essa dor na coluna, não ando dois passos. Vou até a cozinha e espio o armário. No final comi farfalle no.65 da Barilla ( o famoso gravatinha) com um sugo que eu inventei.
Tinha uma lata de tomate pelado da Mastroianni, mas qualquer lata dessas serve. Tem que ser o italiano, que andou em promoção por aí, porque daí não fica ácido. Alho, manjericão, molho de carne e um pouquinho de geléia de pimentão. Isso, geléia de pimentão da Companhia das Ervas, doce, vale a pena o investimento. Queijo por cima e boa. Agora, ao chão da cozinha, depois, ao Leonardo, depois, ao nervoso com o concurso, e depois chega.

Tuesday, March 27, 2007

Leonardo da Vinci

De Chuck Norris a panda passa para messer Leonardo. Esse bróugui é uma beleza! Abalou Bangu, abalou Bangu!
Então, eu costumo dizer pros meus alunos, olha, o "Código Da Vinci" é legal, bom entretenimento ( se bem que eu achei cacete, bobo e mal escrito, mas enfim), agora esqueçam disso quando a gente estuda a obra do grande toscano. Leonardo foi genial, sem dúvida. Leonardo sabia de milhões de coisas que a gente nunca vai passar perto, isso nem se discute. Mas quando a gente estuda História da Arte, entende que falar que Jesus foi casado com Maria Madalena é fichinha perto das realizações de Leonardo.
Os seus papéis desordenados são a prova de que a mente leonardiana era um esplendor. Conta de açougue, piadas ouvidas na rua, pequenas fábulas convivem com os desenhos espetaculares e a invenção do helicóptero, da bicicleta e receitas de sopas. Giorgio Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, nos conta da beleza excepcional de Leonardo, e de sua carreira como cortesão. Sim, messer Leonardo deixou de pintar e passava de corte em corte construindo catapultas, inventando danças, tocando músicas e escandalizando com suas túnicas curtas e de cores fortes. Amigo dos rapazes, Leonardo desenvolveu uma relação estranha com Salai, um de seus discípulos, e por onde passava deixava um cartão, um desenho, uma obra inacabada e consequentemente um rastro de destruição.
Eu amo com ardor o "Tratado da Pintura", compêndio de algumas anotações do mestre sobre a arte da pintura, que ele, de maneira heterodoxa e escandalosa, considerava maior que a poesia e a escultura. Agora, eu escrevo partes dos meus capítulos da tese, um trabalho cacete e horroroso, pra entregar como relatório à famigerada FAPESP. E Leonardo veio ao meu socorro, porque, como contemporâneo de messer Sandro ( os dois tinham três anos de diferença e estiveram juntos no ateliê de Andrea del Verocchio), alguma coisa poderia dizer sobre o embate entre poesia e pintura. O único artista que Leonardo cita no Tratado é justamente "o nosso Alessandro", de forma negativa: Leonardo critica o desinteresse de Botticelli pela paisagem, e diz que o pintor da Vênus afirmava que "para se fazer uma paisagem, era só molhar uma esponja com tinta e pronto". Mas é o único artista citado. E a primeira parte do Tratado, sobre o paragone ( a disputa) entre poesia e pintura... e toca citação do caso de Apeles, sendo que Alessandro foi o Apeles dos florentinos daquele tempo.
Na historiografia tradicional, século XIX, Leonardo passou como um homem do século XVI, e Botticelli, um artista um tanto quanto ultrapassado, do século XV, um homem ainda ligado ao gótico, ao decorativo e à tradição artesanal, quase nada perto da explosão de três das tartarugas-ninja ( a tríade Leonardo-Michelângelo-Rafael teria ofuscado os caminhos das gerações anteriores, incluindo Donatello. O que sempre me intrigou foi a escolha dos nomes das tartarugas-ninja....risos). Vasari contribui pra isso, porque coloca Botticelli na segunda fase da sua história das artes italianas, e Leonardo no início da terceira, com Giorgione ( um esquema bem bolado do biógrafo).
É duro ter que escrever sobre Leonardo, sendo que tanta besteira é dita sobre ele hoje em dia. Eu também vou escrever um monte de bobagem. Mas a minha idéia principal é que Botticelli e Leonardo estavam mais próximos do que usualmente se supõe.

Monday, March 26, 2007

Chuck Norris

Outro dia eu tava falando com os meninos do IA, Filipe, Mário e Vitor. Todos foram meus alunos, eu já tô no IA há tempo demais. O Vitor comentou que viu na tevê um filme com o velho Chuck Norris e o Carradine, e chorou de emoção.

O meu sonho era ser o Chuck Norris, chegar resolvendo no braço, na voadora, na porrada mesmo, o que não tá certo nesse mundo sofrido de Deus. Eu vou encher de porrada esses filhos da puta! Vou chegar no Chuck Norris! Tô de saco cheio de gente idiota, estúpida, medíocre, retardada, sem noção!
Número um. Você, pessoa nefasta que me lê. Desculpem os queridos leitores do Meio, mas tem gente nefasta nesse mundo, e por increça que parível, eles podem me ler a qualquer momento. Pra quem é querido, fofo, panda, desconsidere. Mas pra você, filho da putinha. Sim, você mesmo, que maquina tretas. Vai se fuder.
Número dois. Não pense, pessoa nefasta do quinto dos infernos do cacete da puta que te pariu, que suas ninharias, mixarias, idiotices, dramas ridículos, não são percebidos e devidamente postos na lata de lixo. Sim, todo mundo percebe o que você faz, mas é tão ridículo; todos os dias todos jogam fora sua idiotice e sua perfeita falta de sentido no mundo. Quando você nos irrita, é pelo acúmulo, é porque você já abusou da boa vontade, já passou dos limites do que a gente tolera porque sim, nós, que temos nossos defeitos mas não descontamos nossa infelicidade nos outros ( e essa é a diferença das pessoas boas e das ruins: a gente não acha que o mundo nos deve nada, a gente não desconta nada nos outros e ponto) não somos melhores nem piores que você. Somos apenas mais felizes. Morra de inveja. Isso, morra mesmo, vá pro inferno, como diria Dante.

Sunday, March 25, 2007

I'll be here where the heart is

Eu li os posts desse mês encalorado e sofrido de março de 2007. Vagando pelo Orkut, dei com a relação da trilha sonora de Flashdance e me lembrei de uma música ( tá meio Em busca do tempo perdido musical, esse bróugui). Vou falar um pouco dessa música, do filme, de mim, e penso que tudo isso faz um sentido, dentro do meu coração, no dia de hoje.
Eu amava o filme Flashdance. Lembro que minha melhor amiga, a Roberta, tinha em vídeo, e a gente assistia sem parar, na casa dela, ficando vermelhas quando as moças ficavam peladas ou eles transavam. Claro que a gente dançava que nem duas possuídas, ao som de "What a Feeling" e "I love rock'n roll". Claro que a gente não entendia patavina do que se passava, pra nós a garota do Flashdance era a irmã mais velha que a gente queria ter. Tudo da Alex, personagem da Jennifer Beals, a gente queria ter: o cabelo crespo com franja ( e isso a gente teve a bela idéia de ter, claro),o moletom cinza com decote canoa, o rebolado, a resposta pronta, a cara-de-pau de tirar o sutiã de dentro da blusa, o cachorro, a bicicleta, o trabalho de soldadora, o namorado velhão, a velhinha bailarina, as amigas birutas.
O filme foi muito criticado, pelas coisas meio inverossímeis: a diferença de idade dos dois ( ela tem 18, ele 36), o trabalho de soldadora combinado com o de dançarina, o complexo de Cinderela ( muito fácil conseguir uma audiência namorando o chefe do Porsche preto, alegaram as feministas, os machistas e tout le monde), enfim, mas virou um ícone. Eu tava pensando no filme, acho que muita crítica procede. Mas me lembrei dessa música, "I'll be here where the heart is", da Kim Carnes.
http://en.wikipedia.org/wiki/Flashdance, veja o artigo na Wikipedia.
Essa música toca quando a Alex sabe que a velhinha, sua professora, morreu, o cara deu no pé, a melhor amiga escorregou no show de patinação no gelo e foi parar numa espelunca, nua, dançando pra idiotas, o namorado da amiga, cozinheiro e que sonha em ser humorista, foi tentar a sorte impossível na Califórnia, e ela tá ferrada e mal paga. Olha, querer que um filme de Hollywood seja verossímil, é pedir que laranjeira dê banana. E a vida não é verossímil.
Justamente. Assim como a Alex era soldadora e dançarina de strip-tease, andava de bicicleta por Pittsburgh, eu muitas vezes na minha vida tive que encarar audiências de dança, e sem What a Feeling atrás. Enfim. Mas eu me lembrei dessa linda balada da Kim Carnes, outra ídola, que aparecia às vezes no Fantástico.
Essa é pra quando tudo já se esfacelou, e só resta a poeira dos dias. O aperto no coração, que era constante, virou uma dor aguda que dá no meio da noite, das noites longas de inverno, quando a gente acorda e percebe que há tanto tempo, o amor existiu, deixou de existir, o mundo girou tantas vezes que se perdeu a conta, a esperança virou um vago desejo de ver o outro, só ver, há tempos que não te vejo, a delicadeza do meu sentimento se transformou na luz amarelada do abajur, na madrugada, eu acordo e percebo que o tempo passou, mas continuo aqui, o meu coração ainda está aqui, comigo. Por incrível que pareça, porque a esperança já foi, eu não sei quanto vou te ver, tudo em mim é melancolia.
Todo esse mês, eu entendi que as memórias dos anos 80 se mesclaram aos meus sofrimentos de hoje, aos meus desvãos de sentimento. Os mapas do meu coração não me deixam perder o rumo, só me construíram e me fazem ser quem eu sou, com todas as minhas inverossimilhanças. A vida são os sonhos do meio da noite, as incertezas e as lembranças, as tristezas e as nossas glórias momentâneas.

I can't help myself

Em primeiro lugar, o Celo já está bem, em casa, e ontem até jantar japonês encarou. Fiquei super feliz de estar com ele nesse momento, com a coisinha, ops, Vanessinha, e o Lelê. A gente estava alegre, e entre sushis e refrigerantes light, comemoramos a volta do ursinho.
Porque, vamos combinar, essa semana foi uma das mais difíceis que já tive. Juro mesmo. O Celo ficou hospitalizado, da UTI saiu na quarta, e enquanto isso na sala de justiça a panda teve que encarar uma barra pesada. Se não fosse Dani Nenem, Vanessinha, Lelê, Ema, minha mãe, etcs, enfim, se não fosse a guarda montada canadense, acho que a panda teria ido parar, ela própria, no hospital.
Ontem e hoje de manhã, pensei nas trocentas coisas chatas que preciso fazer, num alívio que vocês não imaginam. Eu não queria me queixar, queria escrever pra vocês que está tudo bem, que eu vivo um dia de cada vez, que entre mortos e feridos salvaram-se todos. Até ganhei uma multa porque estacionei em lugar proibido, em plena Unicamp, e alguém bateu ou eu bati, sei lá, tá lá a lataria do Gerião amassadérrima, coisa de filme, sabe? E que eu fiz tudo o que podia, supermercado, palestra, cabelereira, ver ursinho no hostipal ( ops) e lançar livro.
Pois é, a panda começa a atacar no mercado editorial brasileiro. Escrevi textos sobre três Portinari que temos no acervo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas José Pancetti, vulgo MACC Campinas. E esses textos foram publicados num livrinho, lançado entre amigos e colegas na sexta. Eu ainda consegui desencavar uma blusinha na Renner, que não sei como vou pagar, pra aparecer no vídeo do lançamento ( além de escritora, a panda ataca agora de VJ da MTV, uma coisa pop, entende?).
E ontem, com o Celo de volta, todo fofo e serelepe, eu pude relaxar e ouvindo "Band of Gold", do Sylvester ( trilha sonora da novela Guerra dos Sexos), me lembrei da minha vizinha fofa de Chicago. A carinha querida dela ia e voltava, e um bolinho recheado que era um crime e que eu comprava na Walgreen's, assim como uma melodia, lá do fundo da memória. Tentei cantar pro Celo, mas eu não lembrava de nada, nada, e ele rindo. Só lembrava do início da música, cuja melodia parece com a da "Band of Gold", o final do refrão, "and nobody else", daí fica difícil. Mas depois eu consegui juntar as peças, Freud explica. A minha vizinha fofonilda de Chicago me chamava de sweetheart, honey e de honey bunch. Honey bunch era o bolinho recheado, tipo uma Ana Maria mais perversa, e o refrão dessa linda sixtie song começa com "sugar pie, honey bunch"! Graças ao Carioca, da super comunidade Antena 1 RJ, taí pra vocês. 'Morning, honey bunch!

Wednesday, March 21, 2007

Celo

E o Celo, ursinho-arqueólogo-escrevedor de blog, tio do Felipe e do Murilo, companheiro da panda na estrada da vida, como amigo, colega, namorado, comentador de blog e faz-tudo geral, ficou muito, muito, muito dodói.
Foi um susto tremendo, um dos maiores da minha vida. Toda dor e angústia da semana passada, eram uma premonição, um alarme, um sinal. Agora o Marcelo vai bem, o quadro dele é estável, ele estava bem, falante ontem até, com a mesma carinha lampeira de sempre, e eu fui me cuidando da melhor maneira que pude. Eu queria pedir a vocês, queridos leitores do Meio, toda força, energia positiva, pro pronto reestabelecimento do ursinho, que ele fique bem, que cumpra seu potencial, que continue sendo aquele coração imenso, e que tenha o mesmo sorriso doce, a carinha lampeira, que volte pra casa são e salvo pra se cuidar, cuidar muito, pra encontrar a gente e continuar do nosso lado.

Saturday, March 17, 2007

Sopa de feijão com macarrão

Hoje fiz uma sopa de feijão com macarrão, no improviso. Choveu pacas em São Paulo, fomos encontrar o prof. Jorge Coli na Pinacoteca, o Jorge tava nervoso porque a exposição do Almeida Júnior, como escrevi posts atrás, está muito ruim: expografia confusa, abordagem antiquada, enfim. Era o dia de graça na Pina, milhões de pessoas, chuva, meu sapato me machucou o pé, tudo ruim, e as dores de ontem ainda no peito.

Quando estou muito angustiada, não como. Dormi no ônibus, e acordei com tesão e uma fome daquelas. Ou seja... a angústia volta outro dia. Chuva, chuva, frio, essa semana peguei chuva na quarta e passei frio, e a obturação do outro lado já dói, mais CECOM na cabeça. Vi meu casaco de lã cinza no armário, me deu vontade de levar e usar. Acabou meu dinheiro, mas hoje falei com uma amiga querida, e a sopa de feijão com macarrão deu conta do recado, refoguei bacon, cebola, alho, fiz torradinhas com azeite e orégano. Tô com um saquinho de feijão branco aí, esfriando mais, cassoulet na cabeça da galera.

Dor

Ontem, fui dar aula no IA, com Paulo e André. O André falava sobre a arquitetura de Florença, Brunelleschi e a picaretagem mais linda do mundo ( a cúpula inacreditável da Catedral) e Alberti e a robustez romana. Olhando os slides de Santa Maria del Fiore, lembrei do dia que cheguei na Toscana, com o Giovanni, vinda de Milão. Paramos em Firenze Rifredi, uma estação antes de Santa Maria Novella. E o Giovanni me falou, mas tá lá algo óbvio pra você. No meio dos morrinhos azuis tipo Minas de Guignard, a cúpula. E lembrei do dia em que tomei coragem e parti de Pisa rumo a Florença, pra descer em Santa Maria Novella, a estação fascista e feia encostada na velha igreja dominicana. Fazia frio, e tudo era muito elegante pra mim: as vitrines das lojas de grife, as pessoas, os preços nas tabelas dos restaurantes. Perdida no meio da cidade, virei uma esquina qualquer e tive um dos piores ataques de asma da minha vida, quando me deparei com a Catedral. Ouvindo o André, lembrei que não existe nenhum recuo da Catedral pra cidade, ela é grande, possante, 120 metros de altura no meio de uma cidadezinha Legoland. E como chorei, desnorteada, quando vi as portas de bronze do Batistério, que eram chamadas, por Michelângelo, as portas do paraíso.
E lembrei do que sentia e das minhas esperanças nos dourados, frios, solitários e magníficos dias toscanos. E uma dor me transpassou inteira, o corpo inteiro, a alma inteira, até os ossos. Uma dor nunca sentida antes, um acúmulo de angústia, de desesperança e tristeza. Se tudo o que eu esperava, ansiava, desejava nos meus dias na Toscana, for em vão, só me restará a dor, essa mesma dor que ficou insuportável, no meio da chuva de ontem? Saí da sala. Essa semana, tive o azar de sempre sair e dar de cara com figuras nefastas ( por exemplo, a nega que batia na mãe, minha vizinha fofa, pra roubar dinheiro, lembram dela?), e assim foi. Eu sentia uma dor funda na clavícula esquerda, e sem perceber pus a mão em cima, pressionando e andando meio de lado. Uma figura que nem é tão nefasta assim, apenas equivocada, me disse, mas que horror, que que você tem? E eu, dor.
Consegui chorar depois, consegui lembrar que sentei na Basílica de Assis e pedi a São Francisco, cuja prece, comprada numa lojinha de lá, adorna minha vista nesse instante, paz, saúde, amor, consegui me lembrar que tem gente que me ama, me lembrei que perto do túmulo do santo, muitas mães colocam almofadinhas bordadas com o nome dos bebês pedidos ou salvos pelo Poverello, e numa delas eu li, Davi. E lembro que tinha um monge alemão falando coisas que pareciam ser interessantíssimas, mas eu não entendo alemão, daí entrei numa das capelas laterais da Basílica Inferior, as dos santos padroeiros ou ligados de alguma forma à fé franciscana, e caí bem na de Maria Madalena. E me lembrei que tudo o que eu mais quero na vida é algo simples. E que eu nunca vou esquecer do dia em que quase duvidei do que me é mais caro nesse mundo.

Friday, March 16, 2007

Muro

E eu precisava dar dois, três telefonemas, marcar uns encontros, essa semana. Ontem, fiquei em casa, e aconteceu uma coisa maravilhosa, duas boas e uma ruim. A maravilhosa é que eu fui ao médico e está tudo bem comigo, tudo lindo, tudo azul. Dr. Antônio me examinou e falou que eu está tudo na mais perfeita ordem comigo. Saí do consultório, passei na Francisco Glicério, na frente da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, nome de batismo da minha avó materna, e derramei uma lágrima por isso. Lindo, fui ao supermercado plena da mais delicada e linda vontade de viver.
As duas boas é que dois textos que eu escrevi/traduzi foram lançados, e as pessoas queridas que me arrumaram esses trampinhos lindos me contactaram, via emails que foram vistos porque limpei o Hotmail das porcarias acumuladas por três meses, pra me dizer pra buscar os livros. Aliás, na semana que vem, sexta-feira, dia 23, às 19 hs, estarei num debate sobre o Catálogo do Museu de Arte Contemporânea de Campinas, o velho e agora reestruturado MACC. No Catálogo, escrevi sobre os Portinari do acervo.
A ruim, é que bati num muro, numa impossibilidade. Era uma coisa tão simples, e eu não consegui. Era uma coisa tão boa, e virou uma tristeza, uma aflição medonha, daquelas tão fundas que no sono, some, mas no primeiro momento do despertar, vem com toda força estrangular o peito da gente. A pimenteira daqui de casa secou, e amigos legais me falaram, que beleza. Então, senti/pressenti e digo aos sete mares: invejosos de plantão, gente mesquinha e pequena, essa semana eu consegui me sentir como vocês, ou seja, no chão. Eu que estava alada e frágil, porém alada. A culpa não é de vocês, não se sintam tão poderosos assim: o mal é algo que se nutre de si mesmo. Mas não tem importância, prossigo no velho esquema vão-se os anéis, ficam-se os dedos, e modéstia às favas, possuo lindos dedos de pianista.

Wednesday, March 14, 2007

E lá se vai mais um dia...

Hoje o meu dia não foi muito bom. Aliás, tudo deu meio errado, sabe como?

Em primeiro lugar, eu tô em plena atividade na barraca de correio elegante da panda. Hoje, três amigos muito queridos, amados e tal, estavam com seus problemas sentimentais a toda. O problema é que eu não dei conta, pifei. Primeiro, porque ando muito, muito pensando nessas coisas, e segundo porque tese, fim de bolsa, relatório FAPESP, dente quebrado, privada quebrada... pifei, pifei. Só não pifei total porque Deus enviou Jujuba, Luís Fernando, Beto, Senhor e Lori. Moral da história: não vai dar mais pra levar barraca de correio elegante, tese, e tudo o mais, conjuntamente. Encerrei as atividades de consultora sentimental, não tô podendo nem pra mim. Estou numa ansiedade monstro, como em poucos momentos da minha vida, sofrendo ainda com as coisas do ano passado, meio depressiva, triste, melancólica e com dois capítulos pra escrever.
Eu no almoço pensava tudo isso, vendo minha amiga triste. Não deu. Me senti péssima, Jujuba me salvou e me acompanhou no que eu realmente precisava fazer, o que eu tinha que fazer, por mim, infelizmente às vezes eu preciso fazer coisas, pra mim. Não acho que o mundo deve girar ao meu redor, não acho que quem eu amo precisa me pôr em primeiro lugar, EU preciso me pôr em primeiro lugar. Ando insegura pela hora da morte. Mas não posso querer dos outros a solução. Sei lá, eu tô vivendo num countdown fudido, e aí tudo vira bosta, como diria Rita Lee. Tudo vira. Até o que seria o melhor da vida. Até o que seria o meu melhor. Até o momento mais importante, mais decisivo, pra mim, pra mim. E eu deixo passar muitas oportunidades, muitas chances de ser feliz. E lá se vai mais um dia. E eu que vou ter que correr atrás do prejuízo. Enfim. E quando eu fico assim, eu me escondo no meu bambuzal. Não, dessa vez, não, eu vou correr atrás do que eu realmente quero. Mesmo que pra isso meus amigos queridos fiquem, por uns tempos, em segundo plano.

Monday, March 12, 2007

Amar é

Dia desses, a Dani e a Vanessinha acharam e me deram um pacotinho de figurinha Amar É. Eu tinha um joguinho de lençol com os bonequinhos, imagina só.

Ouvindo "Amor I Love You", fase brega-night ( lembrem-se do Reggae Night do Cliff) da Marisa Monte, e pensando no amorrrrr. Sim, porque observo que cada dia mais a barraca de beijo da panda tá cheia de gente com problema sentimental. Daí resolver postar minhas opiniões sobre o amor. Sim, o amor. Amar é...
1)brega. Sim, não adianta, flor da samambaia. Se você ama, entrou no time. Não adianta disfarçar, você pode ser o aristocrata em pessoa, que só ouve Bach e dorme em lençol de linho egípcio, ao invés de lençol Amar É. Mas vai escorregar no bom gosto, não tem jeito: amar é flor de plástico e toalha quadriculada com bolo de fubá bem amarelinho em cima. Brega básico.
2)sofrido. Sim, também não adianta, caro leitor. Desde que o mundo é mundo, amar é sofrer. Mesmo que você seja casado/a com a figura amada, que a figura amada esteja com você 24 horas, mesmo que a figura amada até te aborreça um pouco com seus ardores: amor dói no coração.
3)roubada. Sim, todo amor, na verdade, é uma puta roubada. Eu percebo uma tendência contemporânea, todos dizem pra mim que "ai, meu amor é roubada, preciso sair dessa". Olha, nessa longa estrada da vida, nunca vi um amor que não tivesse um pé na jaca, obrigatoriamente. Sim, nenhum amor tem solução. Amor não é equação de segundo grau pra ter solução, não é cinema pra ter saída de emergência, não é um passeio no parque, é um passeio num trem fantasma. Cansa, enfastia, enlouquece, pira, cria distúrbio. E é uma puta, puta roubada.
4)igual pra todo mundo. Nem vem que não tem, não adianta você alugar a panda ou qualquer outra alma por aí dizendo que amor igual ao seu, não tem outro no mundo. Todo mundo sofre quando ama, todo mundo se lasca. Se é de verdade, se é pra valer, mesmo quem deu o pé na bunda tá sofrendo. Mesmo quando foi algo leve, queimadura de primeiro grau. Mesmo que a pessoa não te responda email, não atenda seus telefonemas, não fale com você; se um dia você olhou nos olhos do outro como a gente olha o céu estrelado, meu amigo, minha amiga... você incomoda sim. Então faz favor de ouvir "Tunnel of Love", do Dire Straits.
5)parafraseando a Cris de novo, não é Coca-cola mas é isso aê.

Alvo lírio e rubra rosa

Outro dia, encontrei uma colega no café do IEL. Papo vai, papo vem, ela me diz que pesquisa a obra de um importante escultor brasileiro, 0 Rodolfo Bernardelli. Eu tenho um lado meio obsessivo: segundo minha mãe, padeço do mesmo mal do Roberto Carlos, ou seja, tenho TOC. Bom, pelo menos o Roberto canta bem pra cacete e compôs "Cama e Mesa", com TOC e tudo. Eu nem isso. Mas voltando.Lembrei que numa das minhas fases obsessivas, eu ia pro Centro de Documentação Alexandre Eulálio, aqui no IEL, e ficava lendo as revistas do final do século XIX e início do XX, caçando os artigos de crítica de artes plásticas. Porque eu fazia isso? Porque era pesquisadora voluntária num projeto de digitalização desses trens, que eu batizei carinhosamente de Projeto Pererê: o projeto era pobre, afro-descendente, com uma perna só e mesmo assim todo mundo queria engarrafá-lo. Uma professora tentou roubar a garrafa onde a gente guardava o nosso Saci, e fim. Botei minha obsessão no blog, em baixar música na internet e outras atividades.
Bom, eu lembrei de tudo isso porque nessa fase CEDAE, eu li um artigo ilustrado, de mais de dez páginas, sobre o Túmulo-Monumento do Carlos Gomes, na nossa combalida Campinas. O Túmulo-Monumento, situado na Praça Bento Quirino, na frente da Igreja do Carmo, é obra do Bernardelli. A Maria, minha colega, ficou louca. Hoje acordei cedíssimo, dentista no CECOM, delegacia de Barão, caronas, e resolvo desencavar o tal do artigo, pra fornecer a citação pra ela. Fui no Centro de Memória e a Ema me passou a data do tal monumento: corri no CEDAE e achei artigo, na revista Renascença, e boas. A revista é bem legal, ilustrada com fotos do Brasil inteiro, cheia de coisas interessantes que dariam ótimos artigos e viagens pra congressos. Esse eu dei de presente, outros me esperam. Mas eu achei outra coisa, e vou pôr aqui, uns poemas do Anacreonte, traduzidos por alguém chamado dr. Lireu de Almeida. Coloco em português castiço pra dar mais charme à coisa:
"Lyrica Ero-Archaica
Monostrophes de Anacreonte vertidas pelo Dr. Lireu de Almeida
A uma moça
Não m'enxotes, escarninha,
Pelo branco do cabêllo,
Porque a pelle já m'enruga,
Do inverno o frio gêlo,-/
Ao passo que tu,-ó bella!-
Na seiva da puberdade
Tens o negror nas madeixas
As lavas da tenra idade.../
Nos festões que a deusa Cypria,
Em lédas justas de Amôr,
Distribui, por entre risos,
Á gloria do vencedôr,/
Bem sabes, travêssa, esquiva,
M'escapando desdenhosa
Que, enlaçados, arfam juntos,
Alvo lyrio e rubra rosa."
A revista, Renascença, dirigida pelo Henrique Bernardelli, irmão do Rodolfo ( tá explicado a publicidade em cima do túmulo do maestro campineiro), setembro de 1909, tá aqui na coleção de periódicos do CEDAE. Esse alvo lírio e rubra rosa, mas não dá um samba do bom?

Saturday, March 10, 2007

Recuerdos de Ipacaraí

O post abaixo suscitou risadas saudosistas no Clis. Resolvi então prosseguir na memorialística da década perdida.
Nos longínquos anos 80, o herói dos filmes favoritos podia ser um ferrado, como você era, sem tirar nem pôr. Vide a Molly, a garota de rosa-schocking ( sim, o título em português ficou assim). A nega não tinha onde cair morta, e da primeira vez que sai com o bonitão pretendido, pede de forma brava que ele a deixe seis quarteirões da casa onde mora, pra que ele não veja o moquifo. Ou vide mesmo o Ferriss, que vai se formar e não sabe o que vai ser do Cameron, nem da namorada que ainda vai aguentar um ano naquele colégio do diretor psicopata.
Também acontecia do herói ter manias como as suas, como dançar na frente do espelho, se esconder no banheiro porque a roupa era muito ferrada, ter chulé e cabelo mal assentado. Hoje em dia, tudo é perfeito, todo mundo usa roupa de grife, os cabelos são de propaganda de xampu e ninguém tem problema: se você faz academia, é malhado, tem dinheiro pra comprar roupa de grife, toma anti-depressivo e segue as receitas de 128.3905 posições sexuais da revista Nova, você não tem problema. Então, pra que ouvir Echo and the Bunnymen e The Smiths? Na década de 80, a gente ouvia Echo and the Bunnymen e The Smiths quando tava na fossa, além de Bonnie Tyler, Rosana e Vinícius Cantuária ( falaê, agora desenterrei!).
Você sabia exatamente que era ferrado e looser, ouvia rádio o dia inteiro, adorava um moletom ( meu Deus, durante anos e anos da minha vida eu só usava moletom) e camisetona que ia até os pés, com calça fuseau e tênis. A camiseta até os pés era o básico, mas o mais legal era quando ela te enforcava no pescoço, ou deixava seus ombros de fora, num decote canoa gigante. Você adorava Paralamas, Titãs ou Legião, mas ouvia também Ursinho Blau Blau e música da Xuxa. Lá pelos treze anos você descobria que o mundo era complexo, porque beijar na boca não significava namorar, e sim ficar, e o que era ficar era algo amplo, que ia desde os finalmentes até bitoca em bailinho, e você nunca sabia quando era a hora de ir pros finalmentes nem quando era pra só dar bitoca e sair correndo, e geralmente você tentava fazer as duas coisas nas ocasiões erradas.
Você achava ótimo ir em bailinho, porque sempre ficava com a vassoura e chorava escondido depois, numa demonstração que sim, você era masoquista, porque só masoca pra curtir uma tortura dessas, dançar com vassoura de piaçava ao som de Take My Breath Away. E nos anos 80, sim, ser peituda era motivo de crises, usar moletom ( falei, falei) embaixo de 45 graus, andar encurvada e a mãe levar no ortopedista, que olhava e falava, olha, o busto da sua filha é meio grande ( naquela época, as mulheres não tinham peito, tinham era bunda) e o seu sonho dourado era fazer uma plástica, pra, olha só, DIMINUIR a comissão de frente, não aumentar, porque ninguém nesse mundo aguentava os coleguinhas chamando de Fafá de Belém.
Se você era menino, o seu sonho era ter o cabelo reco ( raspado dos lados e cheio em cima) e seu pai queria te matar, porque nos anos 60 o véio teve que ter cabelo reco porque ele era reco, servir o Exército pro seu pai tinha sido o fim da picada. Você esperava seus pais dormirem pra assistir duas coisas: o Acredite se Quiser, que passava tarde da noite na Manchete, depois da Maitê Proença pelada em Dona Beija ( essa aí seu pai assistia escondido), e o Perdidos na Noite, na Band, e sim, o Faustão era um cara super legal, e a abertura do programa era ao som de Tarzan Boy, do Baltimora. E seu sonho máximo era entrar pra equipe do TV Pirata ou chutar uma bolinha ao lado do velho Casa e do doutor Sócrates, ou conseguir afastar seu pai da frente da tv na hora que passava a Dona Beija!

Wednesday, March 07, 2007

Ritchie e outras cositas más

Esse Orkut salva a gente. Tem uma comunidade, uma das minhas favoritas, a “Músicas Baranga dos anos 80”. Porque sim, vamos combinar, não tem nada mais baranga que ouvir bem baixinho, pros pais não acordarem, “Total Eclipse of the Heart”, da Bonnie Tyler, molhando de lágrimas sua camiseta verde-limão da Pakalolo e sua calça semi-baggy ( a famosa Saint-Tropeito) porque o Renatinho não te falou oi na escola.

O revival dos anos 80 já fez muita grana rolar na economia recessiva dos anos 2000, e até reportagem da Veja virou, ou seja, datou, mumificou há séculos. Tudo que vira reportagem na Veja, foi moda no verão retrasado, é incrível a falta de antena dos caras.

Pra mim, no entanto, foi a volta dos que não foram, porque eu nunca deixei de ouvir as pérolas do período em que eu enfiava gel com purpurina na cabeça e achava o máximo. O meu grande ídolo é o Ritchie.

O Vasari, biógrafo dos artistas do Renascimento, escreve que a grandeza do Rafael, entre outras coisas, consistia no fato de que ele fazia tudo como se esforço nenhum demandasse. Guardadas as devidas proporções ( pelamordeudeus, não me crucifiquem) eu falo o mesmo do autor de “Menina Veneno”: parece que o cara fez a música que grudou na sua cabeça a vida toda em cinco minutos.

Primeiro, são ótimos os tecladinhos, sintetizadores e solos de sax. Depois, tem o eu-lírico do cara, um sujeito melancólico no bom sentido do termo, digamos, no sentido inglês do termo. Eu adoro com todas as minhas forças “Pelo Interfone”. O cara aperta o botão no prédio da moçoila, uma luz acende na janela, e a voz no interfone lasca “ela não está/ não sei se vai chegar/volte amanhã, mas antes telefone”. E o cara, desiludido, não sabe se vai ou se fica, e disca. Toca, toca, toca, finalmente a nega atende. Minha filha, preciso falar com você pessoalmente. Que telefone, celular, msn, que Orkut, que email que nada, o negócio é ali, no duro, ao vivo, olho no olho, dente por dente, é uma noite a menos pra gente, e a noite é para a gente. Nos anos 80, a gente era brega e falava com as pessoas pessoalmente.

Na comunidade, outro dia, pelas mãos de alguém que precisa ser canonizado, ressurgiu “Sopra o Vento”, música-tema da personagem Jô, da Christiane Torloni, na antológica novela “A Gata Comeu”. A Jô tinha um cabelo que todo mundo queria, um chanel crespíssimo assimétrico, vivia de ombra de fora, cintão de couro branco e minissaia, e tinha uma família comédia, que vivia cobrando o fato da cidadã ser rabugenta, chata e encalhada, enquanto a irmã, a Bia Seidl, era meiga, doce e cheia de pretendentes ricos. Uma turma de amigos, cheia de crianças, fica presa numa ilha, e a tal da Jô conhece um professor atrapalhadíssimo, duro e cheio de problema, o Nuno Leal Maia. Foi-se o tempo que a mocinha tinha o cabelo crespo, era rabugenta e encalhada, a fim de um professor de escola pública, e com uma música do Ritchie de presente, que o britânico eu-lírico lembra que a primeira vez que viu a moça, que vive de “alô e olá”, passando como o vento, foi na praia ( e não no msn).

Tudo isso pra dizer que são onze da matina, eu perdi esse post três vezes, e em pleno IEL a tese vai aos trancos e barrancos.

Tuesday, March 06, 2007

Mallarmé

No dia triste e chato de ontem, peguei por acaso, na biblioteca do IEL, as Poesias de Stéphane Mallarmé, edição e tradução de José Lino Grünewald, Nova Fronteira. Li um poema que achei belíssimo, mas não sei porque, me deu vontade de fazer uma tradução livre, diferente da do Grünewald. Isso é de uma petulância extrema, porque não sei falar nécaras de francês, e Mallarmé foi Mallarmé, Grünewald Grünewald e tal. Então, vocês me perdoem, mas o que me consola é que essa petulância minha não sairá do Meio, prometo.
"Me introduzir na sua história
É como herói espantado
Se o calcanhar havia tocado
Qualquer grama do território/
Às geleiras atento
Desconheço o pecado ingênuo
Que tu não proibirias
De rir bem alto sua vitória/
Diga se eu não sou feliz
Eixos no meio e rubis
De ver no ar que o fogo traz/
Com os reinados nas relvas
Como morrer púrpura a roda
No vir das minhas carruagens"
O traço é pra separar os versos, esse Blogger não colabora quando o assunto é poesia.

Monday, March 05, 2007

Dito e feito- A hard day's night

Taí, o post debaixo não me deixa mentir. Tive uma puta crise de angústia, hoje, no meio do campus encalorado ( que calor dos infernosssssssss).


Foi assim, eu acordei meio tipo assim mal. Precisava ir buscar meus documentos, na casa da família legal que os guardou pra mim, passar na delegacia, antes marcar médico e dentista ( aqueles problemas passados da panda), escrever alguma coisa da tese e do relatório FAPESP (sim, olha aí o relatório FAPESP aí, genteeeeee, povo da Sapucaí). Fiquei duas horas pendurada no telefone pra marcar os compromissos saúde pública( tratamento de canal, limpeza de gengiva, retorno de tratamento do médico do pesadelo). Depois rumei pra Barão ouvindo "It's a Hard Life", do Queen. Bota hard nisso, pensando no vaso sanitário e no chuveiro quebrados, no protetor de carter do carro e na porta quebrados, no dente quebrado, final de bolsa e tese emperrada.
Cheguei no IFCH, Celo em aula, começando o doutorado. Achei Alessandro, que faz dupla dinâmica com Luís Fernando, que faz dupla sertaneja comigo. E na escadaria, vejo a fulana que mais me fez sofrer na vida. Foi horrível. Almoço na cantina da Bete com amiga, omelete e abóbora. E o povo que mais me fez sofrer na vida do outro lado, rindo, um dia na vida de seriado norte-americano da burguesia campineira feliz. Com a graça de Deus, Luís Fernando de camisa nova me oferece uma grana e almoço.
Acho Celo. O carro não tem um pingo de gasolina e eu não tenho um mínimo de saco. Vou pro IEL estudar. Por sorte, acho uma colega querida que não via há tempos. Sento no computador da salinha cheia de ielinos desesperados pra ver o Orkut. E o Landino não colabora.
Vou tomar um café com a colega. Lá está o cordão da bola preta. Nota de rodapé: a colega sempre foi ridicularizada e teve a orelha queimando durante anos por conta dessa gente. Volto pra biblioteca com outra colega fofa, essa do Latim, que me socorre no Virgílio vezinquando. Landino e Botticelli resolveram ir passear. Luto contra minha ignorância e graças a um velho caderno e linhas escritas há dois anos atrás, em São Sebastião do Rio de Janeiro, escrevo duas míseras páginas. Nunca me senti tão mal intelectualmente falando, em toda minha vida.
Tento ligar pra amigos em São Paulo, do orelhão, no cartão que achei escondido no chão do carro. Nada. Sento na calçada entre o IEL e o IFCH, e choro. Ouvindo "It's a Hard Life", do Queen, em plena crise de paranóia: ninguém me atende porque as pessoas sabem que sou eu no outro lado da linha e ninguém quer falar comigo. Deus se compadece, e manda o Celo, nessa justa hora.
Celo me consola como ninguém, super fofonildo. Vamos pra casa dele. Minha sogra leu meus pensamentos e fez sopa de músculo e legumes. Leio a Bíblia pra achar o Livro de Ester e o fio do meu último capítulo, depois de colocar uma grana emprestada de gasolina no carro. Sim, porque no meio disso tudo tentei tirar dinheiro no Nossa Caixa Nosso Problema, mas dia de pagamento é isso aê. Amanhã terei que amanhecer no lado de fora da minha agência, que vem a ser a da Reitoria da Unicamp, por infortúnio dos deuses.
No msn, Elisinha fofa fica com pena de mim, e uma ex-aluna da PUCC diz que tem saudades. E leio na Bíblia que Moisés passou 40 anos no deserto com uma gente que não colaborava em nada. Penso no Dante, no Landino e no Botticelli, e acho que eles gostariam da sopa da minha sogra.

Segunda-feira

Sou um pouco como o Garfield. Adoro lasanha e não sou fã das segundas-feiras.



Ontem fui dormir chateada. Com pessoas e situações. Quando eu fico muito chateada com alguém ou alguma coisa, eu desconto em outra, uma coisa mega ultra super racional, sabe como? Tipo, daí eu fico com vontade de ferrar uma outra relação, outra situação, esquema Apocalipse. No fundo é assim, o negócio já tá preto, que fique mais preto. Aí eu ligo em alguém de quem eu gosto pra brigar, ou crio uma arapuca pra mim mesma.
Dói ficar magoada. Ano passado, sofri demais por gente que eu considerava tudo no meu mundinho. Que saco, ontem eu lembrei dessas coisas, e cheguei em casa na beira do precipício. E eu não gosto de falar mal dos outros, fico me sentindo super culpada. Falar mal eu falo como todo mundo, mas eu não sou muito maledicente por natureza, sei lá, acho que sou cristã demais. Vai ver é isso.

Sunday, March 04, 2007

Citação, pra pequena Yna, e pra mim

"Apelli fuit alioqui perpetua consuetudo numquam tam occupatum diem agendi, ut non lineam ducendo exerceret artem, quod ab eo in proverbium venit".

Nulla dies sine linea.

Acima de tudo, era um costume regular de Apeles nunca deixar um dia ser tão ocupado a ponto de não praticar sua arte desenhando uma linha que fosse, o que se transformou para ele um provérbio: Nenhum dia sem uma linha.


Plínio, o Velho. Historia Naturalis. Livro XXXV, 84-85

Graças ao Celo, o ursinho arqueólogo, achei essa citação. A tradução, livre, é minha, em cima do inglês britânico do H. Rackham, da edição da Loeb. Apeles foi o principal pintor grego, e messer Sandro Botticelli foi considerado, por seus contemporâneos, o Apeles moderno. No Proêmio de seu Commento Sopra La Comedia, Cristoforo Landino cita Plínio sobre a arte grega, e dos gregos passa diretamente para Cimabue, Giotto e os artistas florentinos já falecidos em 1481, ano em que escreve. É interessante pensar que um artista próximo ao comentador estava a caminho de uma consagração tão absoluta, ser chamado pelo nome de quem, segundo Plínio, "Verum omnes prius genitos futurosque postea superavit Apelles Cos olympiade centesima duodecima", ou "Mas foi Apeles de Cos que superou todos os pintores que o precederam e que existiriam depois dele; e ele nasceu na 112o Olimpíada", aproximadamente de 352 a 329 a.C.

Felicidade

E tem uma hora, na vida, que a gente descobre que felicidade não é um estado geral, permanente, conquistado após guerras e guerras, e daonde se vê o resto da humanidade lá de cima, como num Forte Apache de brinquedo. Felicidade são momentos.
Hoje eu fiquei feliz porque acordei às nove da manhã e na minha janela me esperava um dia lindo, lindo, azul. Ontem eu fiquei feliz porque fui na feirinha hippie, do Centro de Convivência aqui em Campinas, e comi um espetinho de frango do japonês ( não sei qual é o tempero do cara, mas é muito bom), e depois esfarelei torta de palmito pros pombos. Saí da minha cadeira, veio um pai e sua filhinha e ela ficou feliz dos pombos estarem do lado.
Outro dia, eu fiquei feliz porque encontrei a Nenem e a gente tomou chuva indo pra DAC. E eu sempre fico feliz filando café no Luís Fernando.
Muitas vezes eu sou feliz escrevendo o Meio do Caminho, às vezes sou feliz escrevendo a minha tese, como no dia que eu descobri que o Cristóvão Colombo tinha os livros do Landino, o humanista que eu estudo, e isso é uma ótima desculpa pra ir pra Espanha ver livrinho do século XV.
E eu fico feliz quando escuto o Roberto cantando "Amor Perfeito", porque cada minuto é muito tempo sem você, e porque tristeza de amor vira parte da gente, com o tempo, vira o que talvez nos faça inteiros, mesmo quebrados.

Friday, March 02, 2007

A família Dó-Ré-Mi

Com essa comunidade Marchinhas de Carnaval, baixei músicas que eram verdadeiros sucessos no hit parade lá de casa.


Meus pais adoravam música, a gente ouvia música o dia inteiro. Todo tipo de música. Já falei aqui do Gradiente prateadão, que foi nossa alegria nos idos de 1982 ( pois é, a panda sofre de problema de dna, data de nascimento antiga)... e das fitas Basf laranjas, que eram ocupadas pelos pedidos de todos, dos meus pais, do meu irmão e meus, da Teresa, que durante algum tempo ajudou minha mãe nas lides da casa, dos nossos amigos, que partilhavam nossas famosas mesas de lanche ( lá em casa não tinha janta. Mas tinham os lanches, que começavam às três da tarde e terminavam de madrugada, se deixasse).
Mas umas músicas, digamos, mais antigas, eram esgoeladas nos nossos ouvidos, com letras trocadas, inventadas e/ou substituídas por infernais sucessões de pá pá pá, lá lá lá e tchubi tchubi du, pelo internacionalmente famoso seu Pedro, que vinha a ser, dentre outras coisas ( engenheiro, professor, torcedor enrustido do Parmeira e cantor) meu digníssimo pai.
O show de calouros começava cedo. Seu Pedro esgoelava nos meus ouvidos, enquanto minha mãe lascava a escova na minha cabeça sonolenta e preocupada com mais um dia de escola, a clássica Nega do Cabelo Duro, que ele entrecortava com trechos recitados de Nega Fulô, do Jorge de Lima. Não satisfeito, ele saía de casa gritando o lerê lerê dos Retirantes, do Dorival Caymmi.
Depois, no retorno, todos os dias, eu disse, TODOS OS DIAS, enquanto viveu, ele lascava Saudosa Maloca da porta de casa. Não, era um espetáculo, no coração do Cambuci, a poucas quadras de onde vivia Alfredo Volpi e Dani Mônica, da baixada do Glicério e da igreja neogótica agulhão, o cara trotava o samba do Adoniran na maior. Depois, no sopé da Serra do Japi, e no chapadão de Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, era a Saudosa Maloca, às sete da noite, de um lado, e o Guarani do Gomes no outro, anunciando a malfadada Voz do Brasil, e uma hora de rádio desligado, o que pra mim era uma tortura. Outra era ver o seu Pedro exigindo o café e o queijo minas dele, e chamando minha mãe de Flozudinha ( cara, daonde o cara tirava, eu não sei). De lascar.
Minha mãe tinha outro repertório. Ela é difícil de ficar alegre, sabe esse tipo? A própria rabugenta. Mas de vez em quando baixava o santo, e ela desfiava a Chiquita Bacana pra mim. Que lindo, pra um eu era a Nega do Cabelo Duro, pra outra, a Chiquita Bacana. A panda sofria. Mas às vezes, meu pai presenteava todos com sua fantástica interpretação do Leãozinho, do Caetano, ou de Eu Também Quero Beijar, do Pepeu ( vocês podem imaginar o que era!). E de Milton Nascimento, eu berrava os Peixinhos, do Sentinela, ou Não se Reprima, dos Menudos. Não é à toa que meu irmão se revoltou e anos depois era só Iron Maiden pra todos.
E era Elis, Chico, e era a rádio de música sertaneja, depois, em Campinas, pra agradar a Luzia, e todo mundo ficou fã escondido de Leandro e Leonardo. A coisa era feia lá em casa. Disso sobrou um enigmático e compulsivo amor por música, de todo naipe. Pelo menos, eu canto a letra inteira, se bem que num estilo heavy metal, segundo o Celo. Ah, e o filme preferido lá em casa era a Noviça Rebelde!