Friday, June 02, 2006

Pé na tábua

Falando com Tati, amiga e leitora fiel deste brougui, me dei conta de que realmente, ando num mau humor desgraçado.
Essa semana foi lindja. Liguei na Fundação de Desamparo ao Pesquisador do Estado de São Paulo, vulgo FAPESP. Há três anos atrás, mandei um pedido de bolsa de doutorado. No meio do caminho literalmente, a bolsa de 4 anos virou 3, e como se sabe ninguém consegue escrever tese em 3 anos. Para pedir a renovação, os gnominhos da FAPESP decidiram que você precisa mandar o relatório anual dois meses antes. Foi o que fiz, me matando de trabalhar dezembro, janeiro, e tudo o mais. E até agora niente. Liguei na Batcaverna. Dois problemas me assolam: o fato da renovação não ter saído, e os gnominhos estão cobrando ( AINDA) coisas da passagem pra Chicago. Agora inventaram, depois de tudo, que tenho que pegar uma declaração da United Airlines dizendo que fui e voltei. Se eu não conseguir isso, tenho que pagar a passagem. Olha só que lindo!
Ou seja... resolvi procurar bicos por aí. Liguei em dois departamentos de universidades federais, atrás de concursos, cartaz de revisão, e boca no mundo. Vai em um, vai no outro, cobra palestra no IA, e la nave va. Um verdadeiro inferno. Consegui um bico pra fazer o currículo LATTES da minha amiga Ema, do Centro de Memória. O problema reside no fato que a Ema trabalha que nem uma louca, uma carreira de mais de quinze anos, e nunca tinha feito LATTES antes. Então vocês imaginam o que foi.
Pra piorar, fui ajudar o Paulo na aula pro primeiro ano. Os meninos resolveram não gostar de Michelângelo. Eu tava péssima, pensando no boleto que chegou e eu não tenho dinheiro pra pagar, essas coisas. Dei uma bronca neles que eles perderam o rumo da Sistina.
Ando chatíssima. Então, desculpem, leitores fiéis do Meio do Caminho, mas ando totalmente na selva obscura. O que me salvou foi o artigo na Entre Livros e as musiquinhas que fico baixando no Orkut. Agora tô ouvindo I got my mind set on you, do George Harrison. Lembram dessa? E de Uptown Girl, do Billy Joel? Agora, fiquei rindo três dias da versão do grupo Tremendo ( é, isso é tremendooooooooo) pra Easy Lover, do Phil Collins: Inflamável... meu, tradução Tabajara taí!

Sunday, May 28, 2006

Notas de rodapé

1)Não, não veio ainda a resposta da renovação da bolsa. Não sei como vou pagar as contas do mês que vem. Pela primeira vez em anos isso me acontece. Tô virando biscateira, a partir de agora. Se vocês souberem de alguém que precise de revisão de texto, traduções inglês ou italiano, digitação, aulas de História da Arte, Sociologia, História, aula particular de inglês, enrolação de brigadeiro e afins, favor contatar.
2)Se eu não sei como vou pagar minha próxima conta de luz, por incompetência da FAPESP, imagina o MASP. O meu ex-orientador e ex-curador do MASP, prof. Luiz Marques, quebrou um silêncio de anos ( e para muitos, uma inércia que veio a calhar na administração Júlio Neves) e deu uma entrevista bombástica para o Estadão, alertando para o fato que a elite paulistana não queria o MASP ( fruto, nunca é demasiado lembrar, dos métodos escusos de um pau-de-arara e de um carcamano) e concordando com a única afirmação inteligente que Cláudio Lembo fez na vida ( de que a elite branca e perversa de São Paulo não tá nem aí pra nada). Hebe Camargo, hoje, na coluna social da Folha, revoltou-se e disse que a elite é a grande vítima. Moral da história: o MASP precisa ser estatizado.
3)Na quarta-feira, dia da discussão da minha pesquisa no IEL, vesti uma calça que minha mãe me deu em 2000, quando da qualificação do meu primeiro mestrado. Detalhe, essa calça não entrava, não fechava há anos. Entrou, fechou e compôs minha elegância.
4)Estou escutando sem parar uma música que meu pai amava, La Bohéme, Charles Aznavour.

Saturday, May 27, 2006

C'est bon pour le moral

Revirando as comunidades no Orkut de música, achei essa pérola do La Compagnie Créole, regravada no Brasil pela musa épica Rita Cadillac.
Isso aí ressuscita até defunto. Foi o que me salvou essa semana. Começou tudo na alegria do lançamento da revista, vocês bem podem imaginar a minha felicidade. Na segunda-feira, lasquei a revistinha na galera da Unicamp.
Na terça, acordei cedíssimo e fui buscar Gerião e minha carteira de habilitação, que estava vencida desde setembro, fato que minha mãe descobriu quando do assalto. Mas os ladrões não levaram só Gerião, sumiram com os documentos do mesmo, que estavam dentro dele. E aí começou meu suplício. Pela legislação de trânsito, todo mundo deve trafegar com o documento de porte obrigatório, com os dados do veículo, RENAVAN, IPVA, etcs, etcs.
Fui no Perda de Tempo e fui informada que deveria anexar xerox do CIC, RG, blablabla, e uma declaração de próprio punho com firma reconhecida no cartório. Depois, deveria levar o carro pra vistoria, feita em dois lugares aqui em Campinas: no DETRAN da avenida Amoreiras, o inferno em forma de lugar, e o Campinas Shopping, na entrada da cidade, onde Judas perdeu a cueca. Sendo mais longe, e também num lugar feio pra cacete, fica vazio. Escolhi o tal do Peroba Shopping.
Eu deveria ter desconfiado, porque perguntei do procedimento quando fui buscar minha CNH no Perda de Tempo, e ninguém sabia me informar. Chegando lá, entrei no estacionamento do shopping, um monstro como só os campineiros sabem construir, pra descobrir que o negócio ficava do outro lado. Dei a volta, saí, e entrei num túnel moquifento. O guarda, você tem certeza que tá tudo aí?
Eu deveria ter desconfiado, né? Bom, parei o carro, veio uma moça com uma má vontade comovente. Ela, ah, mas tá faltando um xerox aqui. E taca eu sair do moquifo, dar a volta, entrar no shopping de novo, estacionar e ir tirar o xerox mais caro da minha vida, 0,30 ( pra vocês terem uma idéia, na Unicamp custa 0,10).
Comi um cachorro-quente muito bom, o que melhorou meu astral. Pego o carro e volto no DETRAN. Sou atendida por um cidadão de cabelos parafinados, um surfista na praia da Anhangüera. O cara, mas tá faltando o pagamento de uma taxa! Fiquei pasma! Falei, mas ninguém me informou nada! E o babaca, PROBLEMA SEU, não tenho nada com isso!
Nossa, gente, daí o caldo entornou. Eu costumo ser uma pessoa gentil e educada. Mas daí perdi a paciência. Tava nessa a um mês e meio. E falei, não, o problema é de vocês. Vocês não tem o sistema de vocês do cacete, que pra cobrar multa é uma beleza, agora pro resto é uma bela merda! E saí cantando pneu.
No dia seguinte, fui no Perda de Tempo e dei um chilique que vocês não fazem idéia!!!!!!! C'est bon pour le moral, capisce?

Fuscão Preto

Gerião, na mitologia grega, era o rei gigante, de tríplice corpo, da Hispânia. Um dos trabalhos de Hércules foi raptar os bois do gado desse rei, que alimentava os animais com a carne dos seus hóspedes desavisados. Nos vasos gregos, Gerião é um homem triplo, que luta com Hércules de forma violenta.
Dante leu Virgílio, que diz na Eneida ser Gerião "o da tríplice forma". Como Dante não conhecia as imagens dos vasos gregos nem estátuas antigas do rei, preencheu a forma tríplice com um rosto de homem justo, corpo de serpente e patas de leão. Gerião leva, de carona, Dante e Virgílio no abismo insondável do Inferno.
Meu carro é carinhosamente chamado Gerião, um monstrinho que me leva pra tudo quanto é lugar nessa vida. Trata-se do Celtinha preto, pé-de-boi, cuja presença causa dissabores ( agora Gerião está desbalanceado, e de vez em quando fica com fome, nas horas em que sua proprietária está sem nenhum dinheiro) mas também alegrias imensas.
Essa semana Gerião retornou à sua vala no Inferno, depois de ter sido levado pelos bandidos no assalto, ter sido largado no meio da Anhangüera, ter sido depenado num desmanche ou no pátio que a polícia o colocou, ter sido levado pruma oficina desonesta que queria empurrar peças de segunda mão para que a seguradora não desse perda total, ter ficado sem seus documentos por inépcia do DETRAN, ter repousado sem bateria na garagem da minha mãe.
Por isso que eu andava escutando que nem louca o clássico Fuscão Preto. Por isso.

Saturday, May 20, 2006

EXTRA! EXTRA! PANDA NAS BANCAS!

Tenho a honra de comunicar aos leitores do Meio do Caminho, o único blog dantesco do Brasil:


Está nas bancas o volume Dante Alighieri, volume 1 de uma série sobre os clássicos da Literatura, lançada pela revista Entre Livros. Ensaios de gente bacana, como os professores Carlos Berriel, Newton Bignotto, Andrea Lombardi, Aurora Bernardini, o poeta Eduardo Sterzi, sobre o grande florentino. E um ensaio sobre Iconografia Dantesca no Renascimento, escrito pela única panda que tem blog dantesco no mundo!!!!!!!!!!!!!!!
Isso mesmo!!!!!!!!! A revista está linda, super bem ilustrada e escrita. Está meio carinha, 12,90, mas acho que vale a pena. O número 2, sobre Shakeaspeare, também já está por aí. Corri pra buscar a minha, e detalhe, no meu ensaio, as fotos que vocês vão ver foram feitas pela própria panda, com a saudosa Porpetta ( pois é, os ladrões levaram a minha máquina fotográfica, mas a canseira em South Bend valeu a pena!).
Nem preciso dizer, estou super feliz e orgulhosa por ter participado dessa iniciativa pioneira. Convido a todos a leitura do meu ensaio e dos outros, é claro!

Friday, May 19, 2006

London, London

Gostaria de agradecer os comentários do Fabiano, que está em Londres.

Não é a primeira vez que me lêem de Londres. Reencontrei Tati quando estávamos as duas exiladas em terras anglo-saxônicas: ela, na cidade da Rainha, e eu, no fim de mundo ( literalmente) de Chicago.
De Londres só conheço a vontade de ir pra lá, e o que dizem: que chove o tempo inteiro, que a comida inglesa é uma porcaria, e que tudo é caríssimo. Tomara que o Fabiano esteja comendo bem, pegando sol e gastando quase nada! Hoje, impontualmente às quatro e trinta e nove, horário de Brasília, tomei meu Earl Grey Tea, da Twinings, com bolachas Água e Sal Marilan. À saúde do Fabiano!

Thursday, May 18, 2006

Tarsila

Num belo domingo universal,
a janela,
e o mamoeiro.


Ando desperdiçando beleza longe de ti.

Exegese bíblica

A carne se fez verbo
e o amor habitou entre nós.

Monday, May 15, 2006

Ataques em São Paulo

E São Paulo, cuja classe média e alta considerava cidadela inexpugnável, caiu nas mãos do PCC.
Os paulistanos ficaram anos vendo as coisas virarem guerra civil no Rio, sofrendo eventuais assaltos e percebiam que a coisa estava preta, mas nunca com essa magnitude. Toque de recolher, sugestão por parte do presidente da República de tropas, e o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, está a caminho para um encontro com Cláudio Lemos. 80 mortos, o caos numa cidade que já é caótica, inviável, desumana, com um sistema de transporte, em algumas regiões, pífio. Em Osasco e em Campinas, aconteceram coisas semelhantes. As crianças não foram pra escola, estudantes não foram para suas faculdades, gente a pé na rua, o desespero.
Bom, agora eu sei que vai ter leitor do Meio do Caminho que vai querer saber sobre as consequências políticas disso tudo: a candidatura de Geraldo Alckmin, que estava dura de decolar, vai emborcar de vez. Nosso ex-governador deu a declaração infeliz que não havia bandidos no nosso Estado, um dia depois os presídios se levantaram e não se abaixaram mais. Um delegado foi INCENDIADO.
Mas isso não invalida todas as críticas que se possam fazer, mais e algumas, à toda bandidagem do governo Lula. Eu acho que, nesses 21 anos de regime democrático, nós nunca estivemos numa situação tão pior, no nosso país. Se você olha pra direita, vê o PFLão de sempre com seu jargão idiota, e o tucanato imbuído dos mais medíocres métodos de administração pública. Se você olha pra esquerda, vê algo que meu pai, numa das nossas últimas discussões antes da sua morte, me disse: esses caras eram sindicalistas, e convenceram os letrados porque intelectuais da USP criaram a mística do PT. Mas o peleguismo, a falta de caráter, a quadrilha, isso não deu pra disfarçar, no governo federal.
E a bandidagem? Olha, desde o massacre do Carandiru ( emblemático) que se percebe, o sistema judiciário e policial, o governo, a coisa aqui no Estado de São Paulo vai mal, muito mal. Engano dos paulistanos que olham com pretensa superioridade para o Rio de Janeiro. A cidade, espalhada do jeito que é, esconde a podridão. O sujeito não vê a miséria na janela, não tem morro, mas o crime organizado é mais organizado que o aparelho estatal. Eles estão em todos os lugares, e aprenderam a agir em série. São apoiados por parte da população pobre. E vão continuar, mesmo que os líderem sejam mortos. Pena de morte não dá conta, não se iludam. Matam um, criam dez. Mataram no Carandiru, reforçaram a criação do PCC. Isolam os líderes, instala-se a guerra civil. E Cláudio Lemos é jurista, e do PFL paulistano, ou seja, o conservador dos conservadores. A Opus Dei não dá conta disso também. Que fazer? Não sei, estou em estado de choque.

Sunday, May 14, 2006

Mas que número mesmo você usa, bem?

Agora, post revolta.
Esse post surgiu de um papo, via msn, com Dani Manica, querida amiga e leitora do Meio do Caminho.
Fui comprar uma roupa pra ir na festa importante e chique em São Paulo ( esperem o post, está assando). Peguei o busão e fui pro Iguatemi, mais tranquilo que o monstro Dom Pedro, e como eu estava de Mercedes de motorista e cobrador, não ia pagar os famigerados 2,5 da taxa do estacionamento.
Me encaminhei para a Luigi Bertolli, loja que causa polêmica. Larissa e Dani aprovaram coisas que vimos juntas essa temporada, Ana Paula e Luisa dizem que lá tudo é muito porcaria. Enfim, quando entrei pro Programa de Formação de Quadros Profissionais do Centro Brasileiro de Análise de Planejamento ( para os íntimos, o conjunto Golden Boys, que toca junto com o vocalista Zé Arthur Gianotti, e motivo da festa), comprei coisas lá que duram até hoje, inclusive duas calças.
Bom, começou com a pergunta aí em cima. Eu falei, costuma ser 44. Olha bem, disse a vendedora, pra você é 46.
E não é que nem o número 46 entrava em mim? O chão abriu nos meus pés. Tudo bem, exagerei na feijoada um dia, fui jantar na Macarronada Italiana no outro, comi meio pacote de biscoito, mas peraí!
Como todas as mulheres leitoras podem imaginar, fiquei na crise existencial. Meu Deus,sou uma baleia, blablabla, etcs e tal. Fui pra Renner, peguei uma 46, a bichinha caiu aos meus pés. A 44 ficou perfeita. Cheguei em casa. Engordei nos últimos anos, mas a 42 que comprei há exatos cinco anos continua vestindo, fechando e tudo o mais. Detalhe, da mesma Luigi Bertolli.
Dani Manica teve a mesma experiência na Taco, loja muito boa inclusive, de jeans e camisetinhas bacaninhas. A irmã da Dani, na mesma compra, levou peças 42, 44 e 46. As duas ficaram pasmas e indagaram do gerente a razão da disparidade. Ele falou que cada peça é pensada para um público de idade diferente. Então, para as peças de gente mais jovem, o 38 vira 44. Agora, me diz, isso é um crime! Então garotas novinhas, que porventura sejam mais cheinhas, vestem 48, 50, quando na verdade estão no 42, 44. E não encontram roupas na Taco. Aliás, não encontram roupas em loja nenhuma, a não ser na Marisa, Renner e C&A, dependendo da linha desses lugares. Cara, vão todos catar coquinho no mato. Eu dou a maior força pro crescimento da indústria da moda brasileira: tem estilo, tecido bom, corte legal, idéias criativas. Agora, eu prefiro a seriedade das lojas americanas, onde a numeração é seguida a risca. Pra vocês terem uma idéia, nas lojas da GAP existem tabelas, e se a peça estiver fora do padrão, você pode pôr os caras no pau e levar uma grana.
Então, de novo, vão catar coquinho no mato, e o INMETRO que se vire.

Dia das Mães

Feliz Dia das Mães para todos! Mães, filhos, pais, tios, avós, sobrinhos, primos e primas, vizinhos e adjacências. Mãe é mãe, só tem uma, porque se tivesse duas... já pensou?
Minha mãe tá assando um frango, toda animada, porque meu irmão veio da Plataforma das Águas Profundas. O cara tá trampando na Petrobrás, fica vinte e cinco dias embarcado, quinze em terra, então vocês sentiram o drama.
Mãe é mãe. Não tem jeito. Um dos meus sonhos é um dia ser mãe. Vamos ver... penso em adotar, se não puder ter do jeito tradicional, e mesmo se puder. Primeiro, como todo mundo, quero estabelecer uma estabilidade profissional e financeira mínima, pra poder curtir os filhotes. Estabilidade emocional, sei que não vou ter mesmo, porque minha família é de gente desvairada.
Essa semana eu e a minha progenitora estávamos rindo, lembrando de minha avó Maria. Ela era brava, se estivesse por aqui ia puxar a orelha de todo mundo. O caso foi o seguinte: tive uma festa chique e importante pra ir em São Paulo ( post daqui a pouco). A Renner me salvou ( de novo), comprei um sapatinho e lasquei uma escova no cabelo. Mas fiquei com vontade de usar um anel, que minha santa Dona Meire ( a que me acolheu em sua barriga e passa a vida cobrando esse fato) me deu quando de minha formatura. Coisa simples, mas é de ouro. Fui pegar o anel, tava preto. E minha mãe lembrou que dona Maria recomendava pasta de dente para limpar anéis e coisas de ouro. E pensei, claro, o negócio é esse, imagina aquela Kolynos velha de guerra, ótima pra limpar tudo, até dente. Peguei a pastinha pós-moderna nossa de agora, que de abrasiva não tem mais nada, mas mesmo assim, pimba, ficou limpinho. Mãe é isso.

Tuesday, May 09, 2006

Uma mão no cravo, outra na ferradura

Notícias péssimas.
Pedi uma bolsa de três meses pra Newberry, pra voltar pra Chicago. Veio a resposta, negativa.
Hoje, fui atrás da bolsa CAPES PDEE, pra ir pra Itália, como havia combinado comigo mesma, com meu orientador... descobri que não posso pedir essa bolsa. O pessoal da secretaria da pós pôs a corda no meu pescoço. A renovação da FAPESP, nada. Enfim, mesmo sem bolsa, vou ter que escrever a tese na marra, sem ter ido pra Itália.
Chorei tanto... chorei demais. O sonho de ir pra Itália novamente adiado. O sonho de fazer uma tese decente, enfim, tudo, tudo.
Olha, leitores do Meio do Caminho. A coisa tá preta. Fazer o quê? Nem sei por onde começar. Parei pra pensar e achei que fiz tudo errado nesses anos do doutorado. Saindo de uma situação financeira pra lá de precária, a bolsa da FAPESP serviu pra eu viver, mas não financiou propriamente a pesquisa. Comprei brigas que não eram minhas, investi em colegas que me passaram pra trás, e deixei que minha vida sentimental azarada entrasse em tudo muitas vezes.
Acho que preciso me consolar pensando que fiz o que pude. E vamos pra luta.

Monday, May 08, 2006

De perdas e danos, em Campinas

Enfim, dois meses depois do assalto e a coisa continua empacada.
Os caras da seguradora resolveram me sacanear, pra completar a porcaria toda. Para baixar o valor do conserto e assim não dar perda total, colocaram peças de segunda mão ( roubadas, provavelmente... hahahahha) no carro. Bancos rasgados, cintos quebrados. Minha mãe foi à luta enquanto eu fui pros congressos da vida. Agora, de volta à Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, me vejo na seguinte situação: continuo a pé, e vou enfiar os caras no pau. E taca ir no Procon e tudo o mais.
Hoje fui no Perda de Tempo ( ops, Poupa Tempo) tirar a segunda via do documento de porte obrigatório do carro. Depois de duas filas, recebo a informação que preciso anexar a uma declaração xerox do CIC, RG e comprovante de residência. Estava sem o último, voltarei lá de novo.
Minha carteira de habilitação estava vencida desde setembro. Minha mãe descobriu depois do assalto. Fiz o curso da renovação, e quarta faço a prova. Depois escrevo do curso, foi hilário, graças ao meu instrutor, o Lima, um personagem digno do Meio do Caminho. Outro post, outro post.
E ninguém tinha me avisado que eu precisava justificar no referendo de armas ( estava em Chicago). E lá fui eu duas vezes no Cartório Eleitoral de Campinas. Me pediram pra voltar depois, porque o negócio estava burfado de gente. Agora não é prazo pra nada na Justiça Eleitoral, então estava vazio. Fui informada que deveria me encaminhar pro terceiro andar do Fórum de Campinas, que deve ser o prédio mais feio do mundo.
Chegando lá, depois do Perda de Tempo, aviso na porta, só abre meio dia e meia. Fiz uma hora no Franz Café, e depois subi pro Palácio da Justiça. Mas não é que tem duas escadas no prédio. Tô escalando, vem um polícia e me mostra a placa: ESCADA EXCLUSIVA PARA PRESOS, CONDENADOS E ADVOGADOS.
Me informam no terceiro andar que preciso ir ao térreo. Tomo o cuidado de descer pela escada certa, vai saber! Chegando no Cartório Eleitoral, sou prontamente atendida e recebo uma multa de R$3,51, para pagar em bancos ou casas lotéricas. Tem uma agência do Nossa Caixa Nosso Buraco EM FRENTE. Digo pro cidadão do Cartório, ah, eu pago na frente. Ele, não, peloamordedeus, eu briguei com a gerente, ela disse que esses pagamentos ( dos Guias de Recolhimento da União) não podem ser pagos aqui. Moral da história, tenho que descer de novo, ir no Nossa Caixa do outro lado do centro de Campinas, pago a taxa e fico quite com a Justiça Eleitoral.
Recebi minha última bolsa. Mês que vem, não tenho salário. Enviei o pedido de renovação em fevereiro, e até agora nada. É uma palhaçada. Pelo menos os gnominhos da FAPESP resolveram não me cobrar a grana preta que queriam, mas perderam o cartão de embarque do trajeto São Paulo-Chicago e tão me cobrando. Vou ligar lá amanhã e desancar.
Pra completar, preciso fazer uma tradução picareta, terminar um artigo sobre a Iconografia dos Profetas do Aleijadinho, dar uma aula na quinta ( tô de estepe do Paulo de novo no IA), começar meu exame de qualificação, e na sexta tem a grande comemoração dos 20 anos de Programa de Formação do Cebrap, programa ao qual a pequena panda deve muito. Reencontrarei amigos queridos e odiados desafetos. Agora me diz, nisso tudo, ouço Fuscão Preto, Almir Rogério, e segura na mão de Deus e vai, minha filha.

Monday, May 01, 2006

Lavou, tá novo

Para quem sentiu falta da panda blogueira, boemia, aqui me tens de regresso!


Entre desvãos de sentimento, encontros, desencontros, transas e caretas, ladeiras e novas e velhas amizades, compromissos profissionais e lavagens de roupa, passei o mês de abril. Eis que se inicia o mês das noivas com perturbações, leituras das Bucólicas do Virgílio, choros em lugares estratégicos e audições de instrumentos históricos. Pra vocês verem, ressuscitei do mundo dos mortos.

Agora, Assis, mini-curso, mais roupa pra lavar e depois resolver pepinos como os do carro ( ainda estou a pé), carteira de motorista e exame de qualificação. Ou seja, a agenda tá lotada, mas o Meio do Caminho vai ser retomado sim. Poxa vida, sinto falta dos comentários, da leitura dos milhões de fãs ( ehehehe, além de tudo sou modesta) e de organizar as idéias, porque, como diz um amigo meu, muito vento na cabeça dá problema na vesícula.

Estou feliz apesar dos problemas, vivi belezas apesar das muitas misérias internas e externas que me assolam. Esse período todo foi uma grande reviravolta pra mim. Vamos ver no que vai dar. Agora, retomar tudo. Bom, nem preciso dizer, saudades de todos.

Friday, April 14, 2006

Lerê, lerê

Baixei a música Retirantes, do Dorival Caymmi. A da Escrava Isaura, isso mesmo.

E tá sendo a trilha sonora perfeita. Tô escrevendo meu exame de qualificação, um texto pra apresentar num congresso em Mariana, MG, e tô traduzindo um texto de Sociologia do italiano, encomenda do Josué.

E aconteceu uma coisa muito legal, mas que vai dar um trabalhão. Eu e Celo mandamos propostas para Mini-Cursos no Encontro de História Antiga e Medieval, promovido pelo NEAM, Núcleo de Estudos Antigos e Medievais, do departamento de História em Assis. E o pessoal do NEAM, que conheci no Encontro do ano passado, aceitou nossas propostas. Mas preciso me preparar e preparar uma apostila para os alunos; serão dois dias.

O problema é que tudo isso encavalou. Estou vesga. E pra piorar, comecei as aulas do curso de renovação da carteira de motorista, três dias, da uma às seis da tarde, além de ter que limpar a casa, cuidar de roupa, blablabla.

Ou seja, estou no lerê lerê. Nada de resposta de FAPESP ainda, nada de nada, não sei como vai ser minha vida no próximo mês. Vou ter que me virar mais que pião pra pagar as contas, que como todos puderam notar, vieram altíssimas esse mês. E detalhe, tudo isso sem carro nem nada, a seguradora não deu sinal de vida essa semana.

Ah, e mais um evento-panda! Eu e Zé, meu ex-aluno mas sempre amigo, vamos agitar uma Lectura Dantis na Unicamp! Sim, sim! Todas às quartas, na Arcádia do IEL, vamos ler a Divina,seis e meia. Vai ter cartaz e tudo noticiando esse grande acontecimento-panda. Seguirei a veneranda tradição, iniciada por ninguém menos que Giovanni Bocaccio, e vamos adentrar na selva oscura. Com direito à bolacha Maria e chá de camomila!

Wednesday, April 12, 2006

Dizeres

Hoje começou a contagem regressiva pra Sexta-feira Santa, dia em que minha santa mãe faz bacalhau à Gomes de Sá ( sem ovo) e canjica.
Não sei porque, mas isso é hábito campista, fazer canjica na Sexta-feira Santa. A canjica campista, porém, não leva leite de coco e amendoim, como a baiana. A minha mãe faz com um pouquinho de leite condensado, bem pouco, e cravo.
De Campos minha mãe trouxe o r puxado, a canjica e dizeres engraçadíssimos. Dela peguei a mania de inventariar falas engraçadas, como por exemplo "Meu, você vai tirar o pai da forca e a mãe da zona?" ( pra neguinho que fica dando farol alto na Dom Pedro), "chamar Jesus de Genésio e urubu de meu louro" ( o desespero), e "chuta que é macumba"...

Mas as minhas favoritas de todos os tempos são: "Tá no inferno? Abraça o capeta!", "Chuta que é macumba", e "Pediu pra ser feio no Vale do Eco"... hahahahahah!

Sunday, April 09, 2006

Reflexões históricas

Pensar que no Brasil a escravidão existiu até 1888. O escravo era coisa, bem semovente. Era arrolado nos inventários junto com o gado.


Pensar que durante séculos existiu o Tribunal da Santa Inquisição, que fez churrasco de milhões de pessoas.


Pensar que dois terços da população européia morreu de peste.


E pensar que Roma foi destruída várias vezes, resistiu várias vezes, e hoje é sede do governo Berlusconi.


E pensar que hoje eu fiz um teste de inglês ( no msn.com.br) e constatei que meu inglês é milhões de vezes melhor que o do presidente George Bush.

Tô que tô

Baixei a trilha de Sol de Verão Nacional.

Lá em casa, meus pais não compravam trilha de novela não. Todo mundo lia a Veja ( pois é, já foi uma revista de esquerda) e ouvia Milton Nascimento. Mas em 1982, aconteceu um fenômeno. Meu pai comprou daqueles Gradientes prateados, e desde 1982, eu ouço música de todo o tipo todos os dias.
E esse disco apareceu lá em casa. Junto com o disco um da trilha de Roque Santeiro, os dois únicos discos de trilha de novela que ouvi na vida. Essa novela ficou famosa por um motivo triste, o ator Jardel Filho faleceu bem no meio, e era o protagonista. Sim, teve época que o Jardel Filho, o Paulo Autran, a Fernanda Montenegro eram protagonistas de novela da Globo, e sim, atores não tão bonitos assim divertiam a gente nos três horários do plim-plim.
Essa trilha é bacana. A música da abertura era sim, a Simone, na época em que era boa cantora, lascando "Tô que tô", dos gaúchos Kleiton e Kledir. Mas o mais legal é um samba bonito, bonito, da Beth Carvalho. A Beth Carvalho, bem como a Simone, angariou antipatias do Oiapoque ao Chuí com pagodinhos rastaqueira ( eu acho pior o caso da Simone, que gravava Chico com o próprio e cometeu aquele disco horrendo de Natal, que deveria ter sido denunciado pra Anistia Internacional), mas gravou um dia esse lindo "Tendência", que é de dona Ivone Lara, I presume. Samba é que nem bolero, quando é bonito, acompanha a gente o resto da vida.
Semana passada, tive discussões horríveis com amigos sobre baixar ou não MP3, e o fato de ter me afastado de Mozart e Bach pra ficar ouvindo trilha de novela oitentista. Fazer o quê, tem dia que "Tendência" faz com que eu me reconcilie com a vida. Em tempo, baixei também "Retirantes"', do Caymmi, sim, sim, a abertura de Escrava Isaura, o lerê lerê, vida de negro é difícil, é difícil como o quê. Essa aí eu vou por de fundo essa semana, porque amanhã é dia de negro, diferentemente do que os racistas diziam por aí.


Lendo aqui esse post, me dei conta que eu me lembro de uma época que o Brasil era um pouquinho, pouquinho melhor do que esse 2006, que até agora foi de lascar. Caymmi em trilha de novela, Simone que gravava Chico Buarque, e a Veja era de esquerda.

Domingo de Ramos

Seguindo a liturgia, hoje é domingo de Ramos, dia em que Jesus entrou, montado num burrico, em Jerusalém, saudado por palmas e alegria. Menos de uma semana depois, a história que todo mundo sabe.
Acordei mal, deprimida com tristezas passadas, presentes e futuras. Fui tentar ligar no celular do Luis ( no orelhão, já que aqui em casa vivo no Plano Favela da Telefónica), a pia entupiu e tive que encher o saco da minha vizinha, desci e fui pra Ki-Pão, o pão nosso de cada dia nos dai hoje. E vejo na banquinha, Suzane von Richthofen na capa da Veja, em close, sorrindo. Puta, aquilo me derrubou.
Faz anos que a Veja tá uma merda, e o povo lascou no Orkut a comunidade "Leu na Veja? Problema seu!"... entre Diogos Mainardis da vida, gente que fala que Mozart não era tão bom assim ( sim, claro, bom mesmo é Geraldo Alckmin), eu fico mal pra caramba, porque eu sou da época que a Veja era, sim, uma boa revista. Agora é um lixo, e nem dá pra usar pra limpar nada. Agora, essa psicopata na capa, sorrindo e limpando sua barra com a opinião pública... quer dizer que ela manda matar o pais de pancada pra ficar com a herança, e agora posa de menina sofrida?
Olha, como dizem por aí, eu sou da turma dos direitos humanos, muito difícil eu me bandear pras raias do autoritarismo de achar que bandido tem que morrer e coisa e tal. Mas essa filha da p*&^& não tem justificativa. O pai abusava? A mãe era uma escrota? Saísse de casa, fosse pruma quitinete. Deixasse de ser a riquinha mimadinha e idiota. Fosse pra luta. Não, matar pai e mãe é injustificável, pruma nega da classe alta paulistana ( elite boa essa que a gente tem, né? Daslu, Suzane, tudo isso dá uma idéia do que essa gente é)... e mais injustificável é essa revista de quinta categoria dar espaço e entrevistar essa desgraçada, que deveria estar presa.
Passei da depressão pra revolta. Olha, meu background católico é forte demais pra eu aceitar isso. PT roubando, nega matando pai e mãe, mas será possível? Virei a esquina e vi uma senhora com uma palma na mão, indo ou voltando da missa. E lembrei, começou a Semana Santa. Lava-pés, última ceia, e o Calvário.

Friday, April 07, 2006

Paulistânia

Tenho a alma deveras paulistana.


A padaria da esquina, os sobrados, os vários tons de cinza e azaléias. O trânsito na Paulista, o Fauno do Trianon, o pastel do Yokoyama, corre e atravessa a Sé, corre e atravessa a Brigadeiro, desce a Arcoverde e sobe a Teodoro Sampaio. Da Lapa a Móoca, a nova estação de metrô no Ipiranga. Volpi, Adoniran, Oswald e Mutantes. O peso das palavras quando ditas na USP. O café e a Oscar Freire. O caldo de cana e a Pinacoteca. E um dia me perdi e achei o Lasar Segall, me perdi e achei o Ibirapuera, mas entrei no portão errado, e tudo nessa cidade é longe e não tem retorno.

Thursday, April 06, 2006

Documentos

Hoje fui tentar resolver duas pinimbas.
Minha carteira de habilitação venceu em setembro, e eu não votei nem justifiquei no referendo das armas.
Bom, chegando na Justiça Eleitoral, uma senhora me pede que eu não faça a regularização do meu título porque o negócio estava burfado de gente. Essa semana é a semana da transferência dos títulos de cidade pra cidade e regularização da situação de gente que nunca teve título...
Fui no Poupa Tempo. Precisei tirar uma foto 3x4, onde obviamente saí com cara de doida, e pagar sessenta pilas. Descobri que vou ter que fazer um curso na auto-escola, mais sessenta pilas, na semana que vem. Que beleza.
Vou no Bradesco, também lotado, pagar uma taxa de um congresso que quero participar, no final do mês. A maquininha dá um pau danado. Depois fui na Renner pagar prestações vencidas e ver se achava algum paninho pra mim. Nada ficou bom, eu tomei chuva na rua e meu cabelo tava um desastre. Vi uma roupinha na vitrine, a blusa M ficou grande demais, a calça 44 pequena demais, e a jaqueta jeans uma estopa. Fiquei parecendo um espantalho!
Na outra loja, um vestido lindo de morrer, estampado, fundo preto e estampa verde. Totalmente fora das possibilidades econômicas do momento, o vestido me deixou uma pessoa decente, quiçá interessante. Mas pensei, cara, nem sapato tenho pra usar com essa coisa linda.
Na auto-escola, tinha uma maquininha pra verificar digitais (???) e meus dedos não batiam. Eu fiquei me sentindo uma ET, pensando no vestido e no fato de ter que gastar grana com besteira como auto-escola, segunda via de documento, e foi estranho ver roupas de inverno nas lojas. Depois do frio de Chicago, isso aqui é bolinho!

Wednesday, April 05, 2006

Romântica, muito romântica

Com esse negócio de baixar MP3, as lembranças vêm e vão.

E comprovo um traço da minha personalidade que é fogo. Eu sou muito romântica, chego a ser brega demais, é horrível.
Um olhar mais doce, um telefonema, uma atenção,e eu me derreto. Nossa, tive tantas paixões platônicas, daquelas platônicas mesmo, tipo Castro Alves, Álvares de Azevedo, um bolero sem fim essa minha vida.
E ao mesmo tempo, esse mundo vive dentro de mim, porque a timidez me acompanha. Não tenho coragem de me declarar, nunca; tento chegar perto, brincando ou inventando uma desculpa mais ou menos racional, sempre.
Eu tinha uns quatorze anos e gostava dum cara do colégio, que não dava a mínima pelota pra mim, claro. E um dia, na saída das aulas, criei uma coragem absurda e perguntei as horas pra ele. Detalhe: no pulso, eu tava com um relógio Casio gigante, amarelo... o cara olhou pra mim pensando, mas essa mina é louca... e eu, esse relógio tá quebrado...
Agora, eu resolvi escancarar. Tô com quase 30, não vou mudar nem melhorar. Durante muito tempo, meu projeto era virar uma mulher desencanada, solta, relaxada e moderna. Mas não adiantou nada, então é melhor assumir. Sim, eu gosto de Roberto Carlos, sim, eu adoro flores, e sim, eu me apaixono com uma facilidade ridícula. Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!

Monday, April 03, 2006

Pérolas musicais

Descobri que uns maluquinhos adoráveis estão disponibilizando, no Orkut, links pra baixar músicas. Ou seja, essa noite eu não dormi porque fiquei baixando pérolas dos cancioneiros internacional e nacional.
Gente, tem de tudo, e isso me alegrou, porque minha velha mania, a Rádio Terra, foi por água abaixo. Os caras decidiram do nada que não se pode mais ouvir as canções por mais de 30 segundos, um verdadeiro saco. Um menino muito inteligente montou uma comunidade no Orkut, "A Rádio Terra perdeu a graça", e eu entrei, lógico...
E aí, é um problema. Se você ouve a Rádio Yahoo, não pode escolher a seleção, e só pode pular cinco músicas. E se você quer baixar MP3 por aí, é sempre aquela preocupação com a infestação de vírus.
Mas o pessoal no Orkut resolveu usar um site alemão de compartilhamento de arquivos, e o processo fica rápido e seguro. Consegui músicas que queria há anos, desde o tempo eu que eu gravava tudo que queria em duas fitas cassete, gravadas e regravadas de forma absolutamente esquizofrênica.
Baixei coisas que são caras ao meu coração, mas que são verdadeiras porcarias musicais. Outras nem são tão ruins assim, como as do Pepeu Gomes, que eu acho um puta músico injustiçado. Isso me deu um pouco de alegria. Ontem me olhei no espelho e me vi envelhecida e sofrida, olhar em viés, anguloso e dolorido. Agora preciso ir dormir, insônia é fogo.

Friday, March 31, 2006

Quiproquós culinários

Se eu pudesse, teria um cozinheiro ou cozinheira trabalhando pra mim. Já imaginou o luxo, você chegar num profissional e falar, hoje quero comer bolo de fubá?
O problema é que, se tem uma coisa que me deixa louca, é errar com comida. Lembro de uma vez que, meio sem grana, comprei uns bifes e couve. Mas não é que eu salguei demais a couve? No domingo, gosto de estourar pipocas. É um costume antigo, quando eu era criança meus pais estouravam pipoca na hora dos Trapalhões. Estourei, as pipocas ficaram lindas, mas eu salguei demais.
Essa semana foi corrida, mas precisei enfrentar a cozinha em duas ocasiões. Na primeira, esquentei um macarrão que estava estrategicamente na geladeira e fiz uma omelete. Graças a Deus, o meu anjo da guarda cuidou para que a dita cuja ficasse bem gostosa, se bem que meio esbodegada, porque na hora de virar eu sempre desmonto a supracitada.
Hoje, descongelei dois pedaços de filé mignon, gentilmente cedidos por minha sogra, e fritei no clássico esquema pouco óleo e frigideira pelando. Depois, passei uma cebola e lasquei farinha de rosca. Essa é a clássica farofa de raspinha, inventada pela minha mãe e que era a nossa paixão nos dias do bife e da salada de agrião.
De outra feita, fui fazer um bolo,a receita tirei do jornalzinho dos alunos do IA. O bolo embatumou. Que raiva.
Mas me orgulho de uma canja que fiz, na madrugada, pra mim e pro André, que estava em casa estudando. Ou das lentilhas, agora que começar a esfriar vou atacar de lentilha, sopinha de feijão, e mandioquinha... agora, arreda o Exu tranca-panela!

Monday, March 27, 2006

Águas passadas não movem moinho, mas a SANASA cobra

Às vezes, tantos anos passam diante da minha frente... tantas coisas. Tantas recordações. Algumas eu perdi no meio do caminho, outras se transformaram no pão de cada dia, outras incomodam tanto que ficam anos na gaveta, até um dia ressurgirem e reabrirem feridas.
Tantas coisas... mas não dá pra viver no e de passado. Quero planejar meu futuro. No sábado, meu irmão veio, de Belo Horizonte, e estava na casa da minha mãe.
Quando meu irmão nasceu, eu tinha dois anos. Ele foi o meu grande afeto na infância, era tão ligada a ele que na hora de pôr o caçula na escola, a coordenadora pedagógica do colégio aonde eu estudava aconselhou meus pais a matricularem o pequeno em outro lugar, porque senão eu o sufocaria de mimos e atenções na hora do recreio. Eu sou uma Felícia, aquela menininha psicopata do desenho animado, que ama e aperta tanto os bichinhos que os esfola vivos. Dá vergonha, eu não consigo me controlar, se gosto de alguém chego a ser meio agressiva.
Depois, na adolescência, o meu grande amigo se transformou em alguém que a princípio me odiava, e depois demonstrava uma frieza tão grande que me desconcertava. Tivemos uma fase terrível, depois que nosso pai se foi. Ele chegou a fazer coisas muito horríveis, mas depois que saiu da casa da minha mãe, meu irmão vem se tornando em alguém afetuoso, às vezes engraçado, que me surpreende. No sábado, eu combinei de ir almoçar com eles na casa da minha mãe. Estava com muita enxaqueca, e liguei pedindo uma carona. Meu irmão veio me buscar, com torcicolo e tudo, e quando eu entrei no carro, pela primeira vez em muitos anos, ele me sorriu um sorriso igual ao da infância.
Eu sei que as coisas não são perfeitas. Que a vida é difícil. Sei que sou muito equivocada, que tenho defeitos graves e que muitas vezes errei. Mas também sei que depositei muito, muito afeto, em muitas situações, com muita gente. E é engraçado, você planta aqui, colhe ali. O mundo não é tão caótico quanto parece. Um sorriso, um abraço, um olhar de boa vontade. E você ganha o dia e conquista um continente.

Wednesday, March 22, 2006

Ainda mais essa...

No meio da zona que está minha vida ( que vocês podem bem imaginar, entre seguro de carro, pegar ônibus, fazer comunicaçao pra Encontro de História da Arte, etc, etc), ainda tem mais um episódio da série Pequenas Tragédias Cotidianas.
Cheguei dez horas da noite em casa na segunda-feira, carregada com umas comidas que minha sogra gentilmente me cedeu, devido a atual situaçao precária do meu lar. Pisei num envelope pardo com o temível simbolinho da FAPESP.
Neguinho resolveu me cobrar uma grana preta da viagem pros EUA. A conta deles nao bateu com a minha. Mas é uma grana preta, e eu, lendo tal correspondência, quase tive um ataque cardíaco. Estou sem grana pra nada, e ainda mais essa. Tô sendo cobrada por uma grana que eu nao gastei indevidamente.
Entrei em desespero. E aí acho que bateu tudo, o trauma do assalto, a tristeza por várias coisas, que ando sentindo há meses, e chorei. Chorei a noite toda, literalmente. Nao consegui dormir, fiquei literalmente em pânico.
Ontem precisei resolver rolos do carro, que é outra novela. Infelizmente, acharam meu carro depenado, e na sexta-feira eu e Celo fomos pra Sumaré buscar o falecido. Hoje, no meio da zona do meu sogro, liguei na Fundaçao e falei com a moça responsável pelo meu caso. Como eu desconfiava, eles nao entenderam que eu tive que pagar três meses de aluguel em Chicago, mesmo ficando dois meses e meio ( nao importa, aluguel é uma coisa mensal no mundo todo, como se sabe). Moral da história: preciso escrever um ofício explicando que Jesus nao é Genésio, e esperar a misericórdia do povinho FAPESP. Gente, ainda mais essa. Tá demais a urucubaca.

Saturday, March 18, 2006

Minha primeira coluna

Então, aí está minha primeira coluna pra Folha Popular, jornal de Lençóis Paulista, SP:

A Pequena Notável


É com grande satisfação que inauguro minha participação na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, exposições, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural.
Um lançamento editorial de peso do final do ano passado, e que está em destaque nas livrarias, é a biografia de Carmen Miranda, escrita pelo consagrado jornalista Ruy Castro ( Carmen, Editora Companhia das Letras, 632 páginas, R$55,00).
O livro, fruto de exaustivas pesquisas no Brasil e nos EUA, impressiona pela acuidade nas descrições de alguns episódios, como seus primeiros espetáculos na terra do Tio Sam, o show mal sucedido, no Cassino da Urca, para os homens fortes de Getúlio Vargas, em 1940, e sua morte trágica e prematura.
Um dos pontos fortes da biografia está na reconstrução do cenário musical e artístico do Rio de Janeiro das décadas de 20 e 30, de onde Carmen emergiu, ao lado de cantores legendários como Mario Reis, Sylvio Caldas e Aracy de Almeida, gravando as composições de Ary Barroso, Dorival Caymmi, Cartola, Lamartine Babo, Assis Valente, Noel Rosa... os nomes já dizem por si próprios. No Rio dos primeiros carros, primeiros playboys, das patuscadas e dos corsos no Carnaval, a portuguesinha chapeleira encontrou a forma máxima de sua expressão artística: o canto.
A maestria de Carmen como cantora, como bem ressalta Castro, é imbatível. Suas interpretações cheias de recursos e colorido, sua vivacidade e seu perfeito controle da voz levaram a música popular ao nível de grande arte e, ao mesmo tempo, numa história que põe muita teoria sociológica no buraco, artigo de consumo de massas.
Talvez a única observação a ser feita ao monumental trabalho de Castro é o fato do biógrafo acreditar ter encontrado a “verdadeira”Carmen, numa espécie de positivismo nas explicações das ações da personagem. Um exemplo é a narrativa sobre as relações amorosas mal fadadas da artista, especialmente o longo relacionamento com o músico e líder do Bando da Lua Aloysio de Oliveira e o casamento com o americano David Sebastian. Não resta dúvida que nos dois casos Carmen foi vítima de circunstâncias sofridas e seus parceiros não souberam amá-la e cuidar de sua saúde e bem-estar. Mas alguns detalhes íntimos, Castro deduziu de alusões feitas por suas fontes e o jornalista, que tanto pretende encontrar a ‘realidade’ sobre a vida da artista, cria uma narrativa de romance com poucos elementos documentais.
Mas o desejo principal é que a biografia de Castro, enfim, traga uma nova visão desta que foi, sem sombra de dúvida, nossa maior estrela, de vida tão sofrida e de memória tão injustiçada, como tantas outras figuras da vida nacional. Talvez esse tenha sido o maior pecado de Carmen: ser brasileira demais.

Homens na Cozinha

Escarafunchando meus arquivos, achei a receita do macarrão que comi na casa da Ana e do Gabriel, em Chicago! Essa receita é da dona Ercília, avó do Gabriel. Gente, é muito fácil e fica uma delícia! Eu e Celo fizemos hoje, é perfeitaaaaaaaaaaa....
Ingredientes:
1/2 quilo de macarrão tipo penne;
20 tomates bem maduros (mas firmes);
sal;
pimenta-do-reino;
azeite extra­-virgem;
farinha de pão (tipo italiano, de preferência); se não achar, farinha de rosca serve;
um punhado de queijo parmesão e
manjericão fresco.

Modo de fazer:
Para 1/2 quilo de macarrão cozido em muita água (o sal deve ser acrescentado depois de já fervida a água), prepara-se o seguinte molho: distribui-se numa assadeira 20 tomates bem maduros (mas firmes) cortados quatro vezes, com casca e semente. Adiciona-se sal e pimenta-do-reino a vontade, e rega-se fartamente com azeite extra-virgem. Joga-se a seguir dois fartos punhados de farinha de pão (tipo italiano, de preferência), um punhado de queijo parmesão e leva-se ao forno pré-aquecido por cerca de 20 minutos. Serve-se em prato fundo também previ­amente aquecido, sobre o macarrão. O toque final é dado por raminhos de manjericão fresco, e o prato está pronto.
Olha, a receita do bolinho de chuva é perfeita. Essa aí de cima não tem erro, por isso mesmo se chama Homens na Cozinha! Ah, esqueci, rende pra umas quatro, cinco pessoas, querendo fazer pra menos, diminuir os tomates e o macarrão... tô pensando em adicionar, da próxima vez, alho... o bom que isso aí é barato de fazer, comprei tudo e deu menos de vinte reais...

Geraldo Alckmin, a recuperação da panda e graças a Deus, Mozart

Muito obrigada aos meus queridos leitores pelas mensagens de apoio e carinho nessa semana tenebrosa que passei.
Pra variar, o No Meio do Caminho foi a válvula de escape. Eu me sinto com muito ódio, frustrada, impotente. Ontem, fui buscar meu carro em Sumaré. A seguradora me informou que eu tinha direito a uma assistência, um dia de táxi. Fomos eu e Celo pro 4o DP de Sumaré, que fica no bairro do Matão. O motorista alegou outro compromisso e nos deixou lá, dizendo que depois era só ligar no 0800 da Companhia e solicitar outro carro.
A escrivã preparou os documentos, mas o delegado desse DP está de férias. Precisávamos ir para o 3o DP, no bairro de Nova Veneza, do outro lado da Rodovia Anhanguera, pegar a assinatura do delegado de lá, e depois ir para o pátio onde estava o carro. Ligamos no 0800 e fomos brutalmente atendidos por uma vagabunda do telemarketing ( desculpa a revolta, gente) e ela nos informou que tínhamos direito a apenas UMA assistência, ou seja, "vocês que se virem, a pé, num município imenso como Sumaré, pra buscar o carro de vocês". Nem precisa dizer que o Celo resolveu a parada no método de seus antepassados pugliesi ( da velha Apúlia, sul da Itália), ou seja, no grito.
Enfim, no 3o DP, no meio do nada, desolado como as pessoas que estavam lá pra serem atendidas, pensei na situação política nacional. Na terça-feira, soubemos que o PSDB escolheu Geraldo Alckmin pra candidato a presidente. A situação nunca esteve tão preta. Esses quatro anos de PT, um sofrimento ver o partido desmantelado e corrompido. E agora, esse filho da mãe, um cara absolutamente conservador, da Opus Dei, do lado do mal mesmo. E que ainda faz esse discursinho "não sou político, sou responsável e competente". Sei, sei, a gente viu a competência do senhor no governo do Estado, o seu pessoal é bom pra pedágio.
Enquanto isso, busco um consolo em alguma coisa. Fui pra cozinha, fiz sagu, macarronada, e li numa sentada "Mozart, Sociologia de um Gênio", do Elias. Fico escutando sem parar o Quarteto de Cordas K. 387, na gravação do Mozarteum Quartett Salzburg. Tem no Terra Rádio e ainda dá pra ouvir, porque esses dias eles modificaram todo o site e agora a gente não consegue ouvir mais quase nada. Lá se foi meu i-pod de pobre.
Mas que é lindo esse universo do Mozart... salva a gente de qualquer coisa.

Thursday, March 16, 2006

Exorcismo

Sim, eu perdi meu pai aos vinte anos;
sim, eu quase morri aos quatro;
sim, eu quase morri de novo aos vinte e seis num acidente de carro;
sim, eu perdi um bebê aos dois meses de gravidez;
sim, eu amei um cara por cinco anos, e ele não queria nada comigo;
sim, é chato admitir, mas eu ganhei trinta quilos em dez anos de universidade;
sim, eu fui vítima duas vezes de assalto à mão armada e perdi muita, muita coisa nessas jogadas;
sim, eu me ferrei várias vezes. Levei vários foras, perdi várias amizades e empregos, a oportunidade de ficar calada, a paciência, muitas vezes me desesperei e tive ataques histéricos, fui infeliz e fiquei amargurada, teve horas que não tinha grana pra nada, nem pra comer, e precisava me humilhar de pedir emprestado pros amigos, tomei vários porres, dormi com os caras mais errados, fiz fofoca e falei mal dos outros, briguei horrores com minha mãe e com muita gente, fui acusada de várias coisas e fui traída e traí. E boto a cabeça no travesseiro, e ainda consigo dormir. Porque sou normal.

Wednesday, March 15, 2006

Carinho

Não consegui dormir depois do ocorrido de ontem.

Passamos a madrugada na delegacia, briguei com meu sogro e fui deitar cinco da manhã.

Acordei e me pus de pé porque precisava vir pra Unicamp, entregar uma papelada pra querida tia Lygia. Vim de carona com o Lucas Cabeção, primo do Celo e cabeça de abóbora nas horas vagas. Foi a primeira pessoa fofa do dia, tirante minha sogra e o próprio Celo.
Vim pra velha Unicamp, encontrei Pri. A minha velha comadre Pri, que sofreu o mesmo que eu ontem. Fiquei desesperada ao saber que a Camila, minha afilhada e grande paixão, sofreu esse susto horrível. Mas abraçar a Camila hoje foi uma das melhoras coisas da minha vida, assim como abraçar minha sogra e o Celo.
Encontrei milhões de amigos queridos de todos esses anos de Unicamp nesse longo e sofrido dia. E todos tiveram pra mim uma palavra de afeto, de conforto, de carinho... os velhos mestres Fernando e Josué. Lygia, Yna e as meninas do IA. Beto, Luiza, Luis Fernando. Camila e Pri. Rogério... tantos anos, tanta luta e alegria. Tive uma felicidade genuína ao ser reconhecida pelo grande mestre Gabriel Cohn. Simone. Cláudio. Gente que vai e vem, que pode ficar longe um tempo, mas que está junto no coração. Isso bandido nenhum tira da gente.

Violência

Infelizmente, aconteceu uma coisa muito chata com a gente ontem.
Saímos, eu e Celo, de nossa aula de italiano, felizes. Fomos para a casa da família dele, aqui em Barão Geraldo. Chegando em frente à casa, reparei em dois rapazes, bem vestidos, com jaquetas e mãos nos bolsos. No calor dos idos de março campineiros, pensei, mas são assaltantes. Demos um tempo, e os caras foram embora.
Entramos, janta na mesa, fui até o escritório fazer um telefonema, passou-se uma meia-hora, quando vejo o Celo na soleira da porta, me chamando. Pensei que fosse pra jantar.
Não era. Do lado dele, o cara da rua, encapuzado, com uma arma na mão.
Ficamos quatro horas no quarto do meu cunhado, de bruços na cama, rendidos e assustados. Levaram nossos cartões de banco, e os dois assaltantes, com celulares modernos, comunicavam-se com caras que recebiam os cartões, e iam nos caixas retirar o dinheiro. Percebi que tinham muitos cartões em seu poder.
Brincaram de roleta-russa nas nossas cabeças; um deles buscou a bombinha de asma da minha sogra. Depois de um determinado momento, eles resolveram limpar a casa, já que as vinte e duas horas chegaram e com elas o limite do saque nos bancos.
Foram quatro horas de pesadelo. No final, o que estava com a gente nos deu seu celular, e o outro nos ameaçou de morte. Foram embora com muitos objetos de valor ( computadores, a Porpetta, etc, etc) no meu carro.
Na 4a DP, no Taquaral, soubemos de quinze casos parecidos em Barão. Chego no IFCH hoje, aconteceu o mesmo com a Pri, sendo que os caras puseram a arma na cabeça da minha afilhada Camila, de doze anos.
O policial civil, gentil, que nos atendeu, disse o que eu já desconfiava. Campinas está na mão dessas máfias, o assassinato do Toninho foi só o sintoma mais grave do desamparo que a gente vive. Na delegacia sem piso, lembrei do Hospital Mário Gatti, onde fui parar depois de um acidente de carro que quase levou minha vida. As forças do mal estão reinando em Campinas.

Monday, March 13, 2006

Sonhos

Uma vez sonhei que estava no Inferno, abraçada ao Grande Lúcifer. Era tudo escuro e ele era peludo, pêlos longos de velho urso de pelúcia. Estava bom lá, quente e escuro, mas de repente pensei, aqui não é o meu lugar. E comecei a rezar Pai Nossos, e a cada Pai Nosso eu subia, subia um pouco mais. Me desgrudei do Caramunhão e passei a ver uma luz forte lá em cima. O Inferno era um grande poço, e eu subia, subia, à medida das orações. Terminei o sonho lá em cima, na luz.
Outra vez sonhei que tinha morrido. E estava num lugar como a Unicamp. Era igual à Unicamp, um lugar de estudo, com muita gente. Era como a Biblioteca Central, e eu consultava grandes listas, como listas telefônicas, amarelas, cheias de nomes. Procurando pelo sobrenome, vinha a lista de todas as pessoas de uma família, mortas, vivas ou a nascer. No meu sobrenome, vi uma lista e no final, o nome de dois homens, com datas vazias. Alguém ao meu lado me explicou que eram os nomes de pessoas que iriam nascer. E fiquei feliz e pensei, mas são meus filhos! E depois constatei que não, seriam meus sobrinhos, porque afinal eu já estava morta.
Mais um sonho, o último. Sonhei que o velho Instituto de Filosofia e Ciências Humanas era o prédio da minha infância. Eu subi as escadas e cheguei ao último andar. Lá, vi, à direita, o homem que amei sem ser correspondida por alguns anos, chegando, de preto, muito gordo. À esquerda, vi minha amiga querida Dani, de preto também, muito magrinha. Ela me disse: isso aqui não dá mais pra gente, essa estrutura aqui tá velha, passou, datou. Vamos embora. E me pegou pela mão e começamos a descer as escadas rápido. Meu antigo amor foi atrás da gente, e a certo momento disse, mas espera, eu ajudo vocês a descer. E nos pegou nas costas, e nos levou para fora.

Desconforto ligeiro

Tem dias que a gente sente um desconforto.
É a conta que vem alta demais, é a lembrança do que poderia ter sido e não foi, é o que não dá certo, é algo que parte a delicada casquinha com a qual a gente envolve o dia-a-dia.
E você fica ali, sem saber por onde recomeçar a delicadeza, o equilíbrio, a pureza da alegria dos dias.
Hoje de manhã cedo estava feliz e despreocupada. Desci e veio o condomínio alto demais. Fui pra universidade dar minha palestra, o Data Show se recusou a conversar com meu lap, cuja bateria descarregou de vez.
Um olhar mais duro de uma pessoa que admiro muito. Um almoço com amigas queridas e gente muito chata. É o café que veio frio, e você se lembra do mal estar, da angústia.
A vida às vezes dói de leve.

Thursday, March 09, 2006

Palestra, ou um pouco de marketing

Vou dar uma palestra na segunda-feira.
De vez em quando, o povo na Unicamp pede para eu dar umas canjas... eheheheheh, sabe como é a vida de panda pop star!
Vou falar no curso de Folclore, na sala AP 07 do velho Departamento de Artes Plásticas, no IA, Unicamp, Cidade Universitária Zeferino Vaz ( mais conhecida como o canavial que fica onde Judas perdeu as botinhas)...
Enfim. O professor Amir, responsável pela disciplina, junto com minha ídola Lygia Eluf ( uma das maiores artistas plásticas desse país), me convidaram para um momento panda assassino. Explico: os garotos manifestaram na primeira aula do curso insatisfação com as discussões sobre a antinomia cultura popular e cultura erudita. Quero dar uma de louca, vou lascar que esse negócio não existe, é coisa de burguês que coleciona Mestre Vitalino. I'm crazy, I'm very crazy, capisce?

Tuesday, March 07, 2006

Celo e a faxina

Esse post é pra declarar meu amor pelo Celo, meu fofo e adorável ursinho canadense.

Seguinte. Ontem, recomeço de aulas na Unicamp, e lançamento do livro do meu orientador em São Paulo. Entreguei artigos encomendados. Depois de dois meses de caos completo, o Celo, enquanto eu singrava a Rodovia dos Bandeirantes de volta a Campinas do Mato de Dentro de Jundiaí, trouxe a Júlia e os dois botaram ordem na toca da panda desmiolada.
Gente, eu cuido da minha casa, durante muito tempo fui faxineira, cozinheira, passadeira, lavadeira, do lar. Mas nesse verão eu realmente precisei escrever. Questão de vida e morte. E não deu tempo de lidar com a economia doméstica. Minha casa ficou um lixo, nem eu que vivi em república e tenho tolerância grande à zona, não tava mais suportando. E eu me conheço, quando chega nesse ponto, eu vou limpando, limpando, mas não tenho ânimo para a GRANDE FAXINA, sabe como, aquela que você começa de manhã cedinho e termina com o Jornal Nacional?
O Celo ainda deu um jeito no escritório, que tava uma filial do Inferno de Dante. Agora está totalmente fofo, estou com minhas roupas todas lavadas, e queria dizer, Celo, eu te amo muito, muito, muito, só você pra me aguentar... e, ah, você está aprovado de ursinho faxineiro!

Sunday, March 05, 2006

Brinquedos Estrela

Esse post veio de uma conversa nostálgica com o Clis no msn... beijinhos, Clis!
Eu morro de saudades de vários brinquedos Estrela que tive e não tive... vivo procurando no Mercado Livre e vendo a "cotação" de um Genius, de um Jogo da Vida... alguns vou comprar, mais pra frente.
A Estrela é uma fábrica brasileira, e nas décadas de 60, 70 e 80 tornou-se uma das melhores marcas de brinquedo, ganhando prêmios internacionais e tudo o mais. Como muita coisa no nosso país, quebrou com a abertura para importações e a concorrência com os brinquedos chineses de 1,99. Agora a fábrica parece estar melhor das pernas, e eles têm um site bonito e alegre. Também organizaram, em São Paulo, um museu do brinquedo Estrela.
O engraçado é que muitos brinquedos que eles próprios fabricaram, eles não têm. Não faziam arquivos, e aí... muita coisa vem de doação de colecionador.
Genius e Jogo da Vida, eu não tive, bem como o Arthur, aquele robozinho dourado que era febre e atravancava o armário de quem tinha. Eu e meu irmão tivemos um Ferrorama, três Aquaplays ( um quebrou, os outros dois estão inteirinhos e funcionando), e um negócio que eu vou comprar custe o que custar... era um brinquedo chamado Mini-Cine Disney Estrela. Vocês se lembram?
Era uma espécie de pistola vermelha, onde se encaixava um retângulo azul. Girava-se uma manivela e a gente via um filminho... no caso, era um filminho do Mickey como João do Pé de Feijão. Eu adorava a parte que o Mickey enrolava o gigante numa corda e o forte porém estúpido brucutu caia na terra....
Esse Mini-Cine foi relançado, mas agora é bem menor e só passa um filminho. No Mercado Livre é caro pra caramba... mas quero comprar. Também quero a boneca Emília. Eu tinha uma e uma faxineira roubou... chato, chato. Também queria achar um mini-aspirador de pó que perdi porque minha mãe esqueceu as pilhas dentro!
Lá em casa a gente moía os brinquedos... moía tanto que minha mãe decidiu separar os ditos em dois tipos: os que ficavam nas caixas e nos maleiros, e a gente só podia brincar em ocasiões especiais, e os de bater na parede, jogar na caixa de areia e assim por diante, que ficavam num cesto de vime ( os pedaços deles ficavam no cesto de vime, hahahahaha)... todo dia era esse cesto revirado e a gente querendo escalar o armário pra chegar no maleiro. O ser humano nunca tá satisfeito!

Saturday, March 04, 2006

Escrever para viver

Um dos melhores livros que li na vida foi o "Um Teto Todo Seu", da Virginia Woolf.
A escritora nesse livro defende a seguinte tese: de que uma mulher ( e homem também, o ser humano de forma geral), para escrever, precisa de um canto seu. Precisa ter um espaço físico e psicológico para ficar ensimesmada. Não adianta, enquanto a realidade te cobra lá fora ( é faxina, é família, é conta pra pagar, é almoço pra fazer) você não tem tempo nem cabeça pra adentrar no mundo das letras.
Por vários motivos, nos últimos anos dei aulas, muitas aulas, trabalhei em livraria, em instituto de pesquisa, etcs, etcs. Desde a minha experiência em Chicago, vivo algo inédito: eu escrevo pra viver. Literalmente. Nesses meses do verão, pela primeira vez precisei atender com urgência a FAPESP e encomendaram artigos pra mim. Os da Folha Popular ( a primeira coluna sai essa semana) e outros, que mais pra frente eu aviso aonde vão sair.
É legal e ao mesmo tempo, estranho. Minha casa virou uma bagunça. Nada da arrumação perfeita que minha mãe e a Luiza davam enquanto eu estava fora o tempo inteiro. Vivia fora de casa. Só nos finais de semana reparava no quanto meu apê era uma casinha de bonecas. Agora tudo está uma grande zona de guerra. Uma amiga veio aqui essa semana e eu vi pelo olhar que ela lançou no meu escritório que tudo está uma verdadeira peroba.
Eu, que vivia nas Renner, C&A e brechós da vida tendo que me virar pra me vestir pra trabalhar, agora uso as mesmas roupas velhas de guerra. Me dei conta essa semana que preciso comprar alguma coisa, volta às aulas, seminários e congressos e eu não posso usar a mesma saia florida que já está no bico do corvo.
Por outro lado, não me aborreço mais com gente chata que precisava encontrar, com cafés intermináveis, com o trânsito, com coordenadores pedagógicos e alunos rabugentos. No fundo, quer saber? Gosto de escrever pra viver.

Friday, March 03, 2006

Abandono de bebês

Nos últimos três meses, todos os dias, abro o Portal Terra e vejo mais uma notícia de bebês abandonados no Brasil.
É bebê no lixo, bebê enrolado no saco plástico, bebê no lago, e por aí vai. Nesse ritmo, o inevitável aconteceu: um dos cronistas da Vejinha São Paulo escreveu um emocionado discurso, denominado "Monstruosidade", se perguntando do porquê essas desnaturadas e psicóticas mães não encaminham seus filhos para a adoção ou os abandonam em românticas cestinhas, com mamadeiras quentes, nas portas de famílias "de bem". Sim, porque uma mulher que comete uma atrocidade dessas só pode ser uma degenerada.
Concordo que existe uma grande dose de irresponsabilidade e que milhões de mulheres, no nosso país e no mundo inteiro, têm seus filhos na mais completa miséria e mesmo assim não abdicam dos direitos e deveres de serem mães. Muitas mulheres passam por sofrimentos indizíveis, mas a partir do momento que se descobrem grávidas, fazem de tudo para oferecer amor aos seus nenês. Agora, esse cronista da Veja...
Só sendo homem para não compreender que a gravidez muitas, muitas vezes não é uma escolha. Que algo cresce na barriga contra a vontade, que se tenta esconder, retirar, que estar grávida não é sinônimo de felicidade. Que instinto maternal existe, assim como o sexual, mas que o ser humano não é feito só de instinto. É feito de sociedade.
E, no Brasil, a gente vive numa sociedade injusta, cruel, onde o direito à uma sexualidade livre e responsável é vetado; que o acesso aos anticoncepcionais não está ao alcance de todos. Que não existe um posto de saúde equipado a cada esquina, oferecendo preservativos grátis. Mesmo no campus da Unicamp, uma das maiores universidades do país, não há lugar para se comprar preservativos. Centenas de estudantes, professores e funcionários passam pela Cidade Universitária todos os dias, e não há uma farmácia, para se adquirir uma aspirina, um absorvente e mesmo uma pomada pra queimadura. Porque a Prefeitura do campus não põe nos banheiros as práticas e discretas máquinas de preservativos e absorventes?
E o cronista também esquece que o aborto não é legalizado e que entre chás e agulhas de tricô, muitas mulheres se ferem para sempre ou perdem suas vidas. A MULHER DEVE TER O DIREITO DE ESCOLHER SER MÃE. INSTINTO MATERNO EXISTE, mas assim como todos os assuntos humanos, deve ser uma opção, não um destino inexorável. Eu imagino o terror de ser pobre, à margem, estar grávida e com ódio do que se carrega no ventre. É muito fácil pra mim, menina de origem burguesa, com três refeições quentes por dia e vida sexual vivida com responsabilidade, privacidade e amor julgar e condenar a mãe que abandona o bebê, que para ela não é um bebê, é uma coisa que cresceu na barriga à sua revelia.
Peço desculpas aos leitores por expor meu ponto de vista de forma tão explícita. Mas há muitos anos, eu quero lutar pelo direito à maternidade no Brasil. Pelo acesso livre e irrestrito aos anticoncepcionais, à uma boa Educação Sexual, ao acompanhamento médico e psicológico de qualidade e gratuito, e sim, ao direito ao aborto, quando necessário. Tenho como "adversários" os conservadores de todos os calibres, como os cronistas reaça da Veja, e as bancadas religiosas no Congresso. Em tempo: sou totalmente favorável ao casamento homossexual, à não-obrigatoriedade do voto, a uma educação laica e estatal e à liberdade e tolerância.

Sunday, February 26, 2006

A polêmica dos bolinhos de chuva

Como diria Max Weber, as origens traem.

De vez em quando me dá vontade de comer umas coisas da minha infância, de Campos dos Goytacazes ou da velha família Vermeersch, que são totalmente proibidas hoje em dia, em nome da saúde e da boa forma. Eu às vezes sonho que tô comendo pernil com farofa, macarronada com frango assado e maionese, e docinhos de festa feitos com leite condensado. Tudo não-light, tudo cheio de colesterol e que, se eu comer, graças à extrema facilidade que tenho pra engordar e ter celulite, eu me transformo de panda em baleia.
Mas esses dias eu tive um desejo assassino, um desejo incontrolável, nos finais de tarde que tô em casa escrevendo: comer bolinho de chuva. Meu Deus, há quantos anos não como bolinho de chuva! Banana frita então esquece. Eu nunca fiz fritura aqui em casa, eu tenho colesterol alto e preciso me cuidar ( já não sou mais tão jovem, né, bela) mas que dá vontade de traçar pastel e bolinha de queijo, de vez em quando, dá.
Eu li um livro de um médico de São Paulo, muito bom, alertando para todos os perigos contidos na alimentação. Eu tô careca de saber que batata frita é veneno, Coca-Cola não pode e hambúrguer é cruel porque mata boizinhos. Mas eu não aguentei a vontade de comer bolinho de chuva, e fui atrás de uma receita na Internet.
Descobri que existe uma grande polêmica nacional sobre a receita dessas pequenas bombas contra as curvas de capa de revista. Acompanhei por toda a semana as discussões acaloradas nas comunidades do Orkut, de gente do país inteiro se matando e mandando diferentes receitas.
Metodologicamente, existem três grandes debates. O primeiro é sobre o número de ovos ( dois ou três): tem gente que prefere mais amarelinho, outros preferem mais branquinho ( meu caso, não curto muito ovo). O segundo é sobre a utilização ou de farinha de trigo ou maisena ( hum, isso é difícil, né?). O terceiro é uma novidade bombástica que tem dividido os corações: surgiu não sei de onde a receita perversa que traz leite condensado ( ai, se você olha a lata já ficou com 300000 calorias no quadril) na massa.
Eu ainda não fiz meus bolinhos, mas consegui uma receita boa. Lá vai:
NGREDIENTES : 1 lata de leite condensado, 2 colheres (sopa) de manteiga ou margarina, 2 ovos, 1 colher (sopa) de fermento em pó, 3 xícaras (chá) de farinha de trigo
MODO DE PREPARO : Numa tigela misture todos os ingredientes, e por último o fermento em pó, deixe descansar por 5 minutos mais ou menos. Frite as colheradas em óleo não muito quente.
RENDIMENTO : 45 bolinhos
Vou fazer uma dieta boa, perder dez quilos e quem sabe eu faço bolinho de chuva, rs, rs, rs!

Saturday, February 25, 2006

Dicionário Jorgês-Português

Eu tinha me esquecido de fazer um post que prometi pra Dani e pro Chris...

Negócio o seguinte. Nós passamos o Reveillón em casa do pai de Dani, dr. Jorge, cardiologista nas horas vagas e criador de gado kanchin e figura em tempo integral. Com ele, descobrimos um monte de coisas: que o boi hoje em dia vem em lata ( é, em lata, graças a inseminação artificial), que tem que cortar carne no sentido inverso da fibra, senão até filé mignon vira coxão duro, e o nome dos bichos, como o sapão horroroso que segundo a Dani tava a fim de mim, que dr. Jorge batizou como General ( graças às inúmeras condecorações em suas costas) e o gatinho cinza lindo e danado, o Fubá.
Mas a mais importante contribuição do dr. Jorge são suas expressões idiomáticas. Filho de alagoanos, e figura rodada na Paulistéia, dr. Jorge nos brinda com várias categorias, como Immanuel Kant, todas politicamente incorretas. Vejamos:
1) "bateu na trave": diz-se do indivíduo limítrofe, aquele que não caiu na idiotia completa ( muito comum, segundo dr. Jorge) mas também não é brilhante nos assuntos do intelecto.
2) "queimar na periquita": expressão com vários usos possíveis. O mais usual é sinônimo de sair às pressas, sair picando a mula. Outro é fazer as coisas rápida e destramente.
3) "mas vai chupar cu de periquito australiano": o pior xingamento possível a ser feito para um vivente.
4) "escambau de Madureira": lugar muito, muito longe.
5) "rolo de fumo de Arapiraca": outra expressão polivalente. No pior sentido, é utilizada para se descrever uma peculiaridade anatômica, no caso da história do Negão do INPS.
6) "Nem Thomas Mann nem Robespierre pagaram as minhas contas": frase do mais puro anti-intelectualismo, ou seja, da pior casca-grossice....

Sábado de carnaval, trabalho, o velho Gato e a melancolia

Começo de ano atípico nas terras tupiniquins, pelo menos pra mim. Nunca tive tanto trabalho no Carnaval.
Os congressos da categoria historiadores da Arte mirins, que costumavam acontecer no segundo semestre, esse ano pipocaram em março, abril e maio. Conclusão: se a pequena panda quer participar, tem que suar a pelagem branca e preta enquanto o povo tá no Sambódromo. E taca sabadão trabalhar, depois de almoçar num japonês muito bom, afinal ninguém é de ferro ( comida japonesa é um dos meus luxos. Outro é óleo de banho. Outro é música, e outro é ter brogue)...
Trabalhei ouvindo o The Very Best of Cat Stevens. Eu já postei algo sobre o velho gato lá, lá, lá atrás, nesse pequeno Meio do Caminho. Hoje deixei o disquinho rolar, na velha Terra Rádio ( outra das manias)... tão linda, "Lady D'Arbanville", me faz lembrar uma amiga muito querida. Ou "Very Young", ou "Another Sathurday Night", enfim, é tão bonito o mundo de Cat. Todo mundo sabe, o rock star inglês, filho de imigrantes, se converteu à fé muçulmana e hoje vive em Londres, pregando o Corão e arrumando confusão com o governo norte-americano.
É difícil descrever o estado de melancolia que as canções da década de 70 deixam essa pobre escriba. Eu me recordo de mim mesma, pequena, à tarde, depois de voltar da escola. E minha mãe e eu ouvindo rádio na cozinha, a nossa cozinha amarela, que tinha uma janela prum pátio interno que dividia o bloco em dois. Isso, lá no Cambuci. E tinha uma cestinha de plástico amarela onde a gente punha os pregadores de roupa. E as latas debaixo da pia. E minha mãe ouvindo "Rock and Roll Lullaby", do BJ Thomas, passando roupa. E brigando comigo. É engraçado, mas na minha cabeça tudo que é década de sessenta é meu pai, e setenta, minha mãe. Por causa dela gosto das 70's songs. Mas se eu falar isso pra ela hoje, ela vai dizer, que de coisa velha já basta ela... hahahahaha....

Thursday, February 23, 2006

Se você fosse sincera, ôôôô, Auroraaaaaaaaa...

Carnaval.
Todo ano eu esqueço do reinado de Momo.
Simples. Eu nunca tenho dinheiro pra ir pra lugar nenhum no Carnaval. E sempre tô trabalhando, fazendo alguma coisa, e o feriadão atrapalha.
Por um lado, é bom ficar em casa enquanto milhões e milhões de cidadãos da República Federativa do Brasil se acotovelam nas praias, usam fantasias de gnomos espaciais no Sambódromo, lotam as perigosas rodovias nacionais, rebolam ao som do último axé ou simplesmente bebem até cair.
Enfim, mais um ano que vou pular da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha pro banheiro...
Quando eu era criança, com uns sete anos, ganhei minha primeira fantasia, uma bailarina cor de rosa... depois, meus pais me levavam nas matinês de um clube, em Jundiaí. A segunda fantasia que eu tive foi aos dez anos, um Pierrô estilizado: um top e uma calça bufante de cetim branco listrado de vermelho, um colar de pérolas falso e uma máscara de lantejoulas prata com um penacho vermelho. Era elegante, né? E eu no meio do salão, confete, serpentina...
Agora, uma coisa. Eu adoro música de carnaval... marchinha antiga, axé da moda, eu acho tudo muito bacana... afinal, atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu, né vero, bello?

Monday, February 20, 2006

Os velhos irlandeses

Pesadelo brazuca. Além do abafa das últimas semanas, o ano que já começa com o IPVA atrasado, seguido, pedras rolantes e os homens da terra da Guinness. Pesadelo, pesadelo.
Eles vieram, o show é hoje, eu não tive dinheiro pra ir. Não tive dinheiro nem pra fazer compra no Pão de Açúcar e concorrer a ingressos. Me consolo pensando que Bono & cia ainda vão estar na ativa...
Eu era muito fã do U2, era fã desesperada, a ponto de aos treze anos ganhar de amigo secreto o The Unforgettable Fire. Enfim... lembro do desespero e da suprema glória de ouvir o magistral Achtung Baby. Nos últimos tempos, confesso que andei meio separada deles, não entendi direito o Pop e as mega turnês. Mas que é a melhor banda, é, o melhor vocalista é o Bono, o The Edge é uma lenda, eles são ultra simpáticos, corretíssimos, enfim, a depressão por não ver o show é grande. Vamos fazer uma camiseta, parodiando o Rock in Rio: Rolling Stones e U2, eu não fui...

70's songs

Quem me acompanha sabe que tenho minhas manias. Uma delas é a porcaria da Terra Rádio.

A vida toda escutei rádio. Escutava de tudo. Sou viciada. Estou em casa, o som tá ligado. Pra tudo. Agora que vivo presa no computador, essa Terra Rádio me pegou.

Tenho uma lista com umas 550 músicas, mas essa semana viciei numa coleção chamada Have a Nice Decade, com os hits da década de meu nascimento. São sete cds, com tudo, tudo mesmo. Procurei na internet e achei um site de um fanático por 70's songs. Tem a história de cada música, fotos dos artistas, comentários técnicos, muito legal: wwww.superseventies.com. A minha playlist, no meu ipod de pobre:


1)Kiss You All Over, Exile: banda do Midwest, mais precisamente do Kentucky ( eu adoro uns midweasterns, hahahaha). Essa música é demaaaaaaaaaaaais, boa pra namorar... hit de 78!

2)The Night Chicago Died, Paper Lace: muito engraçadinha, conta a história de um menino filho de policial, morando em East Side de... de... Chicago, sure, esperando o pai voltar nas noites que o Al Capone botava pra quebrar. Ai, que saudade dos gângsters, chuif...

3)Joy To The World, Three Dog Night: hit de 73, anima qualquer defunto.

4)Love Grows ( Where My Rosemary Goes), Edson Lighthouse: é que nem o povo que ia no Show de Calouros...

5)You Are so Vain, Carly Simon: Gente, essa é de 73 também, e sabe quem tá no coro? MICK JAGGER!!!!!!!! Confiram!!!!!!!

6)Long Train Runnin', Doobie Brothers: outra de Chicago, tá lá, Illinois Central e os trens passando embaixo do Art Institute.

obs) eu vou fazer a playlist brazuquinha, senão o povo me lincha e me chama de paga-pau de gringo!!!!! Não se esqueçam, como toda panda eu sou comunista!!!!!! ( mas não da linha maoísta, peloamordeMarx)...

Sunday, February 19, 2006

Projeto de Coluna, ou a Pequena Panda no Jornal!

Pois é, um dos meus pequenos planos panda vingou. Vou escrever uma coluna num jornal!


Calma, o New York Times ainda não me descobriu, nem o Le Monde. Negócio seguinte: tenho um amigo véio de guerra, o Luis Fernando. Essa peça escreve uma coluna sobre política, quinzenal, num jornal da cidade de Lençóis Paulista, chamado Folha Popular. O Luis me chamou pra escrever uma coluninha sobre assuntos culturetes. Não vou ganhar nada, mas estou super animada. A minha idéia é publicar na Folha Popular e aqui no meu broguetes. Abaixo, o projetinho de coluna que mandei e o Luis, famoso internacionalmente como Tio, aprovou:


É com grande satisfação que inauguro minha pequena coluna na Folha Popular. Meu projeto é escrever, semanalmente, sobre livros, CDs, filmes, revistas e notícias, ou seja, esquadrinhar e compartilhar impressões sobre a chamada vida cultural, nacional e internacional.
Um assunto que ocupa mentes e corações nestas abafadas semanas é o show que a banda inglesa Rolling Stones realizará na praia de Copacabana, no Rio, no dia 18 próximo. Os moradores do bairro posicionaram-se contra o evento, e notícias pipocam nos meios de comunicação, como o cardápio encomendado pelas veteranas pedras rolantes.
De certo, a abertura pelos Titãs e o tamanho do palco, com 22 metros de altura. Já a modelo, apresentadora e mãe de um filho de Mick Jagger Luciana Gimenez não garantiu presença, tampouco a do rebento, por temer o assédio da imprensa. Sei, essa nem a velhinha de Taubaté, velho personagem de Luís Fernando Veríssimo que acreditava em tudo, acreditaria.
No meio de tanto bafafá, só me resta apelar pro site Terra Rádio, que disponibilizou a discografia inteira dos Stones. O site, pra quem não conhece, é uma rádio online. O problema é que algumas gravadoras não permitem a execução das músicas por completo. Para a sorte de quem é fã dos Stones ou quem reconhece a importância da turma de Keith Richards na história do rock, a maior parte da discografia está inteira. E as pedras rolam.



Eu escrevi isso há duas semanas atrás. Fui uma pequena panda-Nostradamus. O show dos Stones foi ótimo, a Gimenez deu o ar da graça e eu continuei na velha Terra Rádio.

Friday, February 17, 2006

História Sem Fim

Todos os sábados, quando eu era criança e morava em São Paulo, eu ia com meus pais e meu irmão brincar na Cidade Universitária. Apesar da gente morar na Aclimação, era na USP que eu andava de bicicleta, corria, jogava bola, tomava sol. Só quando fiquei adulta é que descobri o motivo: meu pai, assim como eu, fez dois mestrados. Na época ele fazia um deles, na Poli, e assistia aulas enquanto eu rodava no Queijinho da Química.
Um sábado foi diferente. Meu pai foi com meu irmão pra USP, mas eu e minha mãe paramos na Paulista, no Cine Gazeta, pra assistir um filme. História Sem Fim.
Eu fiquei maravilhada com a história do Bastian, de Fantasia, do Atreiú, do Dragão da Sorte ( como eu queria ter um Fuchur na minha vida)... foi tanto encantamento que decidi ler o livro, que a Mara, amiga da minha mãe, tinha na estante.
Só pude comprar na Unicamp, no sebinho que tinha do lado da antiga cantina do IEL. Hoje, pedi pro Celo baixar a música-tema. Pra quem não sabe, é um homem que canta a voz principal, e o nome do cantor é Limahl. O cara usava um cabelo Chitãozinho e Xororó, mas tudo bem. História Sem Fim faz com que Fantasia não vire Nada, nunca.

Thursday, February 16, 2006

Urso panda

Eu estou me sentindo que nem um urso panda. Só quero saber de dormir, coçar a cabeça e comer bambus.
Explico: há três semanas não vou na minha análise, esse mês não fui à academia, perdi duas aulas de italiano, rachei a unha do dedão no meio, não vejo mais meus amigos, e minha toca está um lixo. Preciso fazer uma faxina, botar um tênis e ir andar, não faltar na análise, retocar a raiz do cabelo... retomar os planos.
Me convidaram pra escrever uns artigos aí, e não é em revista acadêmica. Não sei se vai dar certo, por isso não vou adiantar detalhes, mas se der, vai ser muito legal. Outros planinhos, nada de vai pagar minhas contas ou me deixar rica e famosa, mas pelo menos vou ser uma panda feliz.
Uma nota de rodapé. Olha, quem quiser me acompanhar, tem o Greatest Hits do Springsteen no Terra Rádio. Ouça "The River".... ou "Secret Garden"... ou "Badlands".... ou tudo mesmo.
Outra nota. Tem um monte de gente que diz que me lê, mas nunca deixa comentário! Poxa vida, aí é que eu fico me sentindo mais urso panda ainda... gordinha, branca, com olheiras e em extinção!!!!!!!!!

Tuesday, February 14, 2006

A epopéia-Canto II

Termina de cantar, ó musa blogueira, os feitos e desfeitos da pequena troiana no Piratininga, enfrentando a ira dos deuses.
Entregue o relatório, fui comer na Dona Deôla. Pedi um sanduíche show,tô lá, mas não é que meu dente volta a doer, que nem em Chicago? CECOM aí vou eu. Tratamento dentário na cabeça.
Ligo num amigo querido. Ele me convida pra ir na sua casa. Detalhe: o cidadão mora no Itaim, e eu estava no fim do Alto da Lapa. Pego um busão e desço na Paulista, no Trianon. Um cheiro de xixi matando, entro no Trianon. Só homem, e calados. O Parque dos Homens Calados de dia, o Parque dos Homens Animados de noite.
Entro pra ver e cumprimentar um velho amigo, o Fauno do Brecheret. Entrando no Trianon na entrada em frente ao MASP, você encontra a velha divindade dos bosques. Lindo, sólido... e abandonado. Vejo um buraco na bochecha da estátua: penso, mas isso parece um cano! Meu Deus, o que é isso, e chego perto do Fauno. Não vejo uma teia de aranha gigante bem na frente do meu amigo; entro na teia de aranha gigante... e lá fico.
Meia hora depois, desço contornando o MASP e vou pra Nove de Julho. Pego o primeiro ônibus Terminal Santo Amaro; penso, desço na São Gabriel a tempo. Mas a porcaria do ônibus lota, e eu não consigo ver nada, e... perco o ponto. Vou parar vinte quarteirões depois, na Cidade Jardim, quase Marginal de Pinheiros.
Desço do busão e ando, ando, ando, ando, ando, até conseguir pegar outro veículo com motorista e cobrador. Aviso o motorista, amigo, preciso descer na São Gabriel. De novo, o busão lota, o cobrador pega no sono... e vou parar na casa do ca&*))_. Volto tudo de novo a pé, já com o desespero na alma, e falando, nunca mais vou sair de casa pra nada.
Na São Gabriel, paro numa floricultura e vejo uma pimenteira amarela, com flores, linda, e decido comprá-la para o meu amigo. Mas a floricultura não tem REDE SHOP; você paga na padoca vizinha, porque o dono da floricultura, que pôs uma tv no balcão e fica deitado no chão paga a conta da padoca assim.
Na padaria, uns dois velhinhos cantando a moça do expresso e ninguém no caixa. Meia hora depois, desço a rua Itacema, a primeira transversal da São Gabriel, com a pimenteira e uma rosa amarela. E penso, mas essa rosa eu podia dar pra irmã do Paulo... o que eu não me dei conta é que minha combalida mente, disléxica e cansada, estava me alertando pro fato de eu estar descendo a rua do irmão do Paulo, não a dele, que é a próxima, a Pedroso Alvarenga.
Me dou conta do meu erro lá, lá, lá embaixo. Subo tudo de novo, com pimenteira, rosa amarela, e penso, eu joguei pedra na cruz.

A epopéia- Canto I

Canta, ó musa, as intempéries enfrentadas por esta pequena troiana, nas plagas do Piratininga, ao enfrentar a ira dos deuses do Olimpo para entregar seu terceiro relatório FAPESP, com pedido de prorrogação...
Tudo começou às sete e meia da manhã, quando o despertador tocou e acordou essa que vos escreve, depois de uma baita noite de insônia. Fui deitar quatro da manhã.
Meu etrusco acordou comigo e me levou no Hades ( Rodoviária de Campinas). Saindo da minha casa, tudo entupido, campineiros enlouquecidos com obras na Avenida Aquidabã, ironicamente chamada de Expressa ( de Expressa não tem nada)...
Peguei um Cometão. Na saída da Rodoviária, o motorista brecou forte e uma senhora que estava no corredor enfiando malas no bagageiro caiu. Só ouvi os "ai, ai, ai, estou morrendo"... pára tudo, desce o motorista, busca enfermeira e moças da empresa,que tentam, junto com o senhor de cara preocupada que se tornou instantaneamente o líder dos demais passageiros, dissuadi-la de prosseguir viagem e ser atendida num Pronto-Socorro.
Nisso, o ônibus ficou parado 50 minutos ( é, meus caros, 50 minutos), de uma lenga-lenga infindável. Eu não sabia, mas por lei a empresa precisa mudar o motorista, o ônibus, tudo, e dar total assistência ao passageiro. O pessoal da Cometa fez tudo isso, mas o que demorou foi a conversa com a acidentada, que ao mesmo tempo que se recusava a ficar e ser medicada, ficava gemendo e dizendo que estava pra morrer.
Cheguei na Rodoviária do Tietê com uma hora e meia de atraso. Precisava passar na casa do meu orientador, na Lapa, pegar assinaturas, e ir pra Batcaverna, vulgo FAPESP, que fica no mesmo bairro. Em vez da via-crúcis de pegar o metrô, descer na estação Paraíso, mudar de linha, descer na Vila Madalena e pegar um ônibus pra Lapa, peguei um táxi na Rodô mesmo, corrida fechada.
Mas o taxista, muito simpático por sinal, insistiu em ir pela Vila Romana. Pra quem não conhece, o bairro da Lapa, na nossa combalida capital, é um dos maiores da cidade, e tem uma engraçada peculiaridade: é na verdade um monte de morros, ou seja, ladeiras e ladeiras de quase 90 graus. No meio, tem essa Vila, em que todas as ruas têm nome de romanos. Nos perdemos no meio de Titos, Lívias, Augustos, até achar a rua do meu orientador.
Assinaturas pegas, tudo pronto, vou pra Batcaverna. E descubro: meu chefe mora no Baixo da Lapa, a FAPESP fica no Altíssimo da Lapa. Subo uma ladeira em 90 graus, sol de meio-dia, dez quarteirões. Entro na rua Cerro Corá, ainda muito longe da FAPESP; pego um ônibus. No busão, comecei a pensar que tinha esquecido um dos formulários X3POzeta; abro a mochila, a pasta, e nisso tudo...
A rua Cerro Corá sobe, sobe, sobe, e tem um ponto num supermercado Pão de Açúcar. Você desce nesse ponto; do outro lado, a mítica Padaria Dona Deôla anuncia que sim, você está na rua Pio XII, a rua da Batcaverna. Mas tem o seguinte: depois desse ponto, o ônibus vira uma transversal, a famigerada rua Bairi, outra ladeira em 90 graus. No meio do rolo de pasta, mochila, o escambau, o clássico acontece. Perco o ponto.
Puxo a corda desesperada. Todos no ônibus riem de mim; o cobrador e o motorista não dão sinal de vida. E vou parar de novo no Baixo da Lapa, dez kms depois.
Outra ladeira, chego na Batcaverna parecendo uma figurante de filme de Vietnã. Suando em bicas, fedida, parecendo uma Medusa. Estou lá, esperando o mocinho da FAPESP ver todos os meus erros e passar errorex em todos os meus formulários, e ouço a conversa de outros dois atrás.
As planilhas da FAPESP são no Excel, coloridas, pesadas, e mágicas: tudo que você põe nelas some. Pois bem: os dois funcionários da Fundação discutiam o fato deles não conseguirem imprimir o que eles próprios põem no site e obrigam todo mundo a fazer e assinar. Entrei na conversa e afirmei que tive o mesmo problema desde sempre. E sabe o que eles fazem? Me dizem assim, mas olha, a gente vai te passar o email e o telefone do cara que fez isso, e você reclama, por favor, porque a gente já cansou de mandar o dito ir catar coquinho. HAHAHAHAHAHA...

Monday, February 13, 2006

Balada dos dois jogadores

-Nós dois somos cartas marcadas,
nós dois já jogamos demais.
Dos ases, nenhum permaneceu.
A sensação de sentir
Sua perna pressionando a minha
Debaixo da mesa de pôquer
Não é mais a mesma, amor.
O sentimento amadureceu.

-Disse bem. Agora somos,
homem e mulher, e só,
não mais adversários, no fim.
A excitação passou,
e entre copas, ouros e espadas
vejo em teus olhos o doce palpitar
de quem encontrou a quem amar.

-Dê-me sua mão. É hora
de levantarmos da mesa.
Somos nós dois, não mais coringas,
mas rei e rainha do mesmo naipe.
Guarda o baralho, porque nossas vidas
já encontraram as cartas.

Uma pequena dúvida

Se amar não vale a pena
porque o poeta antigo
colocou palavras doces no poema?

Relatório FAPESP

Sou considerada elite científica do país. Pago minhas contas com uma bolsa de doutorado da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
A gente está numa situação tão preta, na universidade, que sou um bicho raro, invejado pelos colegas, que têm que se virar pra levar seus cursos de pós-graduação. Muitos de meus amigos mandaram pedidos e não foram atendidos; a Grande Mãe me socorreu porque eu participava de um Projeto Temático, que inclusive já foi pro espaço.
Foram meses na biblioteca, escrevendo o projeto nos moldes da FAPESP. Quase não mandei, problemas de comunicação com o orientador.
Um ano depois, a hora temível. O relatório. Se você foi bolsista da FAPESP, sabe o que é. São trezentos formulários, todos coloridos e numa planilha do Excel que teima em sumir ou travar seu pobre micro. Você escreve tudo o que fez no ano, tudo que pesquisou, se justifica de todas as formas possíveis, explica até porque foi na casa da tia no Reveillón.
Nessa linda hora, onde o bolsista se acha a pior pessoa na face da Terra, o ser mais desprezível de todas as cadeias alimentares, e nem pode desabafar na cantina, porque senão corre o risco de ser linchado por todos os colegas que não tem bolsa nenhuma, quanto mais da FAPESP, sofri um terrível acidente de carro. De volta pra casa, onze da noite, com a Comédia, a Bíblia, um fac-símile da Crônica de Nuremberg ( livro publicado nessa cidade em 1497) e mais um monte de coisa no porta-mala, um louco enfiou o carro na minha porta.
Capotei duas vezes e quase morri. Por sorte, os livros saíram ilesos. Mas atrasei o relatório três dias, e tive que mandar a radiografia da minha cabeça e o BO do acidente pra Grande, descobri, Madrasta. Engraçado que eu tinha um piercing na orelha, na radiografia aparecia como se eu tivesse um parafuso... hahahahahaha....
Mas enfim. Desde então desenvolvi uma neurose Relatório FAPESP. Fico com medo de tudo: do negócio não ser aceito, dos caras mandarem mafiosos me matarem porque errei no CPMF dos cheques da Reserva Técnica...
Janeiro e fevereiro foi eu, em casa, ouvindo rock e escrevendo o bichinho que hoje ficou pronto, foi impresso e espera que sua dona o leve até a Batcaverna ( o prédio da FAPESP), lugar super bem localizado no velho Piratininga ( no Alto da Lapa. É, a Batcaverna fica no Alto, Altíssimo da Lapa. Eu sempre pego o ônibus errado e tenho que subir a pé o Gólgota).
Chega lá, é a lenga-lenga de sempre. Não, eu não trouxe o extrato da conta Reserva Técnica porque fiquei sem movimentar o dinheiro mais de 60 dias e a Nossa Caixa não dá extrato nesse caso. Não, eu esqueci de imprimir o formulário X3PO mas o GHJ&8zeta tá aqui. Depois eu saio e vou na Dona Deola. É uma padaria na frente da Batcaverna. Como um bauru e penso, elite científica é isso aí.

Wednesday, February 08, 2006

O despertar

Terminando o relatório FAPESP. Agora faltam as pendengas: Caderno de Imagem, formulários, em suma, minha vida está uma chatice. O dia inteiro na frente do computador. Tem dias que não rende, tem dias que rende, vida de escrevinhador é assim.
Mas hoje tive um lindo despertar. Eu fui dormir altas horas da madrugada, devido à minha clássica insônia, depois de muito ouvir o Abbey Road. Eu viciei de novo nos Beatles, e o que tem me mantido viva esses dias foi o famoso lado B desse disco ( agora CD que não tem lado), aquela pancada linda, onde as músicas se fundem todas numa beleza só.
Eu deixei a janela aberta e dormi mal. Mas acordei com o dia despertando, cedinho, cedinho, estava chovendo uma chuva fininha e tudo estava branco, ao meu redor e dentro de mim. E acordei pensando, Here Comes the Sun.

Saturday, February 04, 2006

E também tem o seguinte...

No post abaixo, tava falando do meu amor irrestrito e incontrolado pelo rock.
Mas tem mais. Eu vivo enfurnada no século XV, entre gente muito culta e ótima. Mas percebi uma tendência interessante em alguns colegas: o povo acaba escutando música do período que estuda.
Eu adoro música. De todo tipo. Eu ouço de tudo, desde os Concertos de Bradenburgo até Genival Lacerda. Eu acho que música não tem fronteira, você pode sentir vários universos. A alma da gente não é uma quitinete.
Mas eu amo muito o seguinte contraste: tô escrevendo algo sobre o Dante, escutando Rolling Stones. Escrevi uma dissertação sobre Adorno ouvindo Creedence, Dire Straits e Eric Clapton. Sabe porquê? Porque eu acho que esse contraste me salva um pouco da ilusão meio positivista que, no fundo, todo historiador alimenta: de descobrir a verdade sobre o período que estuda. Esse contraste me lembra que tudo é uma construção, que eu não posso criar ilusões, que estou fazendo uma opção, e que meu estudo, ele próprio, tem a marca do humano, que é a marca do tempo.
E também tem outra. Eu tenho pra mim que o Dante seria um roqueiro.