Tuesday, August 07, 2007

Arco-íris já mudou de cor

Sempre fui melancólica, sentimental eu sou. Difícil eu cortar a pessoa da minha vida, tem que acontecer um desastre completo pra isso acontecer. Mas devo reconhecer que tem gente que se esforça em te magoar, gente que faz muita besteira com o sentimento dos outros.


Eu estava muito incomodada com uma figura, porque tivemos uma conversa meio assim, digamos, chata, e eu mandei um email, aquele clássico, de oi, duas semanas depois. Nada. Continuei incomodada. Hoje resolvi acabar com essa chateação, e escrevi o também clássico "que que há", porque não vejo essa figura muito freqüentemente. Gostaria de saber se dei mancada, se posso pedir desculpas, se posso dizer que minha intenção foi a melhor possível ( não é justificativa, mas é o que posso fazer).
Nisso, vejo uma terrível troca de emails com aquela moça que tanto me fez sofrer no ano passado. Uma coisa tenebrosa. A cidadã cobra da outra coisas que ela própria não fez por ninguém, fala que não dá pra ter "amizade superficial"e que ela, muito nobre e fantástica, não é falsa. A mesma pessoa que dizia que eu era interesseira e depois sentava do meu lado, na minha casa, comendo a minha comida. A mãe de outra amiga, querídissima, (a que tá meio dodói mas que logo, logo, sara), observou que a pior coisa que se pode fazer no século XXI, em termos de convivência humana, é o julgamento sumário, sem recursos por parte do suposto réu; o fim do relacionamento por telefone, por email, por sinal de fumaça, ao invés dos olhos nos olhos. Ao invés do carinho, da coragem, o egoísmo, a grosseria, a falta de noção. O falar mal, o desprezar, o menosprezar. Eu vou começar uma campanha séria aqui no Meio: se você tem problema com alguém, converse. Saia pra tomar um chá. Olhe nos olhos do outro, não saia da vida de ninguém sem antes dizer o porquê, de forma sensata, pessoalmente. Seja elegante. Seja gente.
Se o seu coração está um pote até aqui de mágoa, escreva uma carta. Sim, pegue uma caneta e escreva, e guarde numa gaveta uns dois dias, enquanto isso dê uma volta num parque, faça feliz uma criança. Quando ler a carta de novo, vai achar meio ridículo a entonação da raiva, do desamor. E vai ser o início do teu esquecimento e do teu processo de perdão. Se continuar concordando com aquilo ( olha, pouquíssimas vezes na minha vida eu continuava concordando com a carta da gaveta), mande. Mas dispense o correio.
( créditos: Comunidade MPB MP3)

Monday, August 06, 2007

This is the end


Ontem, onze da noite, tomando um belo banho quente, dei com o finalzinho da maledetta. Ei-lo:



"Saio desse texto, as minhas forças, que já não eram muitas, me faltam e o sofrimento me ensinou que, mais do que autora destas páginas, fui apenas a inventariante de tantos sonhos, de tantas camadas de sentimentos e idéias presentes nas linhas tênues da ponta de prata do antigo mestre, que as portas desse labirinto se abriram, e não posso calar. Devo prosseguir nas minhas tentativas, por mais que os entraves institucionais, nessa hora da defesa e do acolhimento dessa tese na estante da biblioteca do Instituto, no meio a tantas teses, façam que minha voz fique inaudível, até para mim mesma".
Acima: Canto X, Inferno ( Punição dos hereges- eternamente encerrados em túmulos de fogo, e diálogo com Farinata). Sandro Botticelli, 1480-90. Lápis, ponta de metal e têmpera sobre pergaminho. Roma: Biblioteca Apostólica Vaticana.

Friday, August 03, 2007

A parábola dos talentos

Não sei em que lugar dos Evangelhos, tem a parábola dos talentos. Diz que um chefe deu, pra dois funcionários que se saíam muito bem, como recompensa, dois talentos ( barras) de ouro. Um funcionário, com medo da inveja alheia e da própria incapacidade, enterrou o talento no quintal. O outro fez alguns negócios, de forma previdente, e lucrou. Tempos depois, no bar da Santa Ceia, o chefe perguntou pros caras o resultado do assunto, e a moral da história é clara.

Pelo meu temperamento e educação, uma clássica educação cristã, de matriz franciscana, eu aprendi a ser humilde, a ser gentil com os outros. A não contar vantagem, a não humilhar, a não passar a perna nem tirar sarro de forma cruel do próximo. Mas, como venho discutindo comigo mesma a muito tempo, e também na minha atual terapia, tudo tem um limite. Nem Jesus Cristo conseguiu agradar a gregos e baianos, e eu tô cansada de enterrar meu talento no quintal.
Hoje fui pra Unicamp, sonada e confusa, porque tinha me esquecido do horário do dentista no CECOM e marquei cabelereira no mesmo horário. Desfeita a confusão, corri pro CECOM, e depois fui bater papo com o pessoal no IFCH. Lembrei de uma referência que o Sterzi me passou e corri com o Celo pro IA, pra pegar um livro, recente, do Georges Didi-Huberman, professor da École e atualmente um grande estudioso de umas coisas tipo panda.
Encontramos conhecidos, fomos e voltamos. Há quatro anos, toda vez que eu encontro uma certa figura, ela me lasca: ai, que há de novo pra se escrever sobre Botticelli? Ainda se fala nesse cara, credo, o que se tem de novo pra falar sobre ele.
Bom, pra mim a ignorância é assim, etimologicamente, a pessoa ignora algo, não teve acesso, não é a área dela, enfim, ela não tinha a obrigação de saber, é uma coisa. Agora, uma figura que ganha um salário mensal e que se arvora a falar sobre o assunto em cursos de graduação e pós, e me fala uma coisa dessas. Eu sempre sorria amarelo e não falava nada. Mas hoje eu desci das tamancas, porque quinze minutos antes, o pessoal me perguntou sobre a tese e eu falei, aos trancos e barrancos vai. E eu pensei na minha tese, no pouco que eu sei, mas eu sei um pouco a respeito, muito pouco, mas eu sou honesta. E aí falei, olha, qualquer um que conhece minimamente a bibliografia sobre o artista e a historiografia a respeito, sabe quanta lacuna tem, quanto se falta pra estudar. Mas falei brava.
A pessoa ser ignorante por opção, é foda. E o final da história foi lindo, a figura saiu pra ir pra biblioteca ver livros,porque teve inveja até do livro que eu acabei de pegar na biblioteca.
Mas o bom disso tudo é que tive a nítida noção de que, na maior parte do tempo, estou em algum ponto perdido de mim mesma, sofrendo. Mas que se tem gente que me inveja, realmente, estou no caminho certo. E voltei pra tese feliz e com a sensação de que, sim, infelizmente pra umas pessoas, eu falei algo de novo sobre Botticelli. Infelizmente pra outras, sou legal, blá, blá, blá. E infelizmente pra todas, sou muito feliz, apesar de todos os meus problemas, e posso ser meio coió, mas a matuta panda aqui tá com os óio aberto.

Wednesday, August 01, 2007

Foi a camélia que caiu do galho

E em meio aos meus sofrimentos e tormentos habituais e eventuais desavenças com o cotidiano e a ordem normal das coisas, melhor dizendo, shit happens all the time, tese indo aos trancos e barrancos, muito cansaço e um frio de filme de terror. Dormindo mal, vivendo mal, só hoje consegui me recompor um pouco.

E reafirmo meu titânico amor pela música popular brasileira. Reli alguns trechos de Verdade Tropical, do Caetano. Por mais que muita coisa seja pura vaidade, ego inchado mesmo, achei um desperdício o livro ter passado em brancas nuvens quando do seu lançamento. Na época, 1997, eu me esgoelava pra fazer uma monografia sobre o Tropicalismo, a partir das indicações metodológicas, vamos assim dizer, do historiador suíço Jacob Burckhardt, autor do clássico A Cultura do Renascimento na Itália ( dã? Sim, era isso mesmo. Idéia da pequena duende-mestre jedi Amnéris Maroni, mas de acordo com a temeridade da empreitada, por parte da panda que vos escreve, de fazer uma história em quadrinhos do Leviatã, sim, meus caros, de Thomas Hobbes).
Era assim. Eu podia ler o que eu quisesse sobre a Tropicália, e sobre a ditadura militar, e esperar alguns rasgos intuitivos sobre o Zeitgeist, a partir das obras dos caras. Também deveria analisar as relações entre as três "potências"burckhardtianas: a Religião, o Estado, a Cultura. Quem gosta de música popular faz isso o tempo inteiro, sem perceber: você ouve Pisa na Fulô, do Velho Lua, e lembra das modificações pelas quais passou a música nordestina, depois do programa de rádio, célebre, de Gonzagão, e pensa que leu não sei aonde que o grande cantor e compositor inovou, e muito, na engenharia de som,e ainda recorda da sua mãe te chamando de Nega Fulô e lhe dando cana pra chupar, nos ancestrais Campos dos Goytacazes. Ouve Desafinado, João Gilberto, e outra porta pra outro labirinto inesgotável se abre, tanto de considerações políticas, econômicas, afetivas, sexuais, enfim, a vida inteira, no leque moleque, como diria, mais uma vez aqui no Meio, Alceu.
Em língua inglesa, atualmente, quem faz isso na perfeição é o Nick Hornby, autor do Alta Fidelidade. Quando eu estava nos EUA, descobrindo, via Rádio Terra, the Boss Springsteen e Carmen, li comovida Hornby e suas linhas sobre Thunder Road, do maravilhoso Born to Run. A pequena panda é uma Hornby mirim do norte fluminense: as canções pra mim são tudo, o meu pão de cada dia.
Reli Caetano. Muita coisa não se gosta, mas reli e relembrei, comovida, o que Caetano escreve sobre Orlando Silva e Francisco Alves, presentes em Neguinho do Pastoreio com, respectivamente, a lindíssima A Jardineira e a controversa Ai, que Saudades da Amélia, e os outros cantores do rádio. Diz Caetano que a audiência dos programas de rádio era, basicamente, de mulheres pobres, que veneravam com a toda força de seus corações Silva, Alves, Emilinha Borba, Marlene, Nora Ney, entre outros. Tais mulheres foram chamadas, pejorativamente, de macacas de auditório, porque, como lembra Caetano de forma delicada, quando se cai na escala social, no Brasil, mais a cor da pele escurece. Música popular era coisa de mulher sofrida, pobre, que desmaiava no programa e que, na lembrança do menino Caetano, em férias no Rio, inferiores a ele, um tanto quanto constrangido por estar ali. No início do livro, porém, Caetano lembra que passou ao largo do nascente rock and roll, e que João Gilberto e a Bossa Nova, fã incondicional de Orlando Silva ( e Neguinho lasca A Jardineira, nos meus ouvidos, e realmente a voz de Orlando é algo celestial), trouxe a música popular pros ouvidos da classe média urbana,com choques e bastante sofrimento. E que, no final da década de 60, mulheres da classe média, brancas, universitárias, confessavam sem nenhum constrangimento serem suas "macacas".
Lembrei-me, com muita ternura, da minha avó paterna, mulher sofrida que queria, sem conseguir, comprar um pouco de pó facial, grande fã dos programas do rádio, e envergonhada do pai mulato. E a delicadeza da marchinha me traz perto do meu eu mais profundo, mais cintilante, mais digno e mais honesto de mim mesma, fruto do sofrimento indizível de ser mulher, e brasileira.

Saturday, July 28, 2007

O Velho Francisco

E toda mulher já ficou uma noite sem dormir, ouvindo o velho.


Anos e anos, vi meu pai, engenheiro responsável por usinas, pai de dois filhos e orgulhoso batavo descendente, se exaltar e exibir um entusiasmo juvenil pelos LPs do Francisco. Meu pai discutia horas com minha mãe, que junto com uma amiga minha, devem ser as duas mulheres nesse país a não morrerem de amores, nem terem chiliques histéricos quando se fala no nome do homem. Outro dia, inclusive, numa daquelas conversas de bar em que todos falam e todos concordam discordando, essa minha amiga declarou que não daria pro indivíduo, suscitando reações iradas de todas as presentes. Mas essa amiga depois se queimou, dizendo que daria pro Fragonard, pintor genial da corte de Luís XIV, mas um tanto quanto, digamos, suave demais. Então perdeu o crédito de mulher mais invicta do Brasil, só sobrou minha mãe mesmo.
E eu fiquei sem dormir, porque fiz algo ilegal, imoral e que engorda: baixei canções de arquivos compartilhados na internet do velho, depois de labutar tristemente na tese durante o dia. Ele não é tão velho assim, ele não é tão bonito assim, ele tem cara de gente normal. Ele durante muitos anos foi amigo do meu pai, não pega bem, eu sei, dizer que eu daria pra um dos amigos do meu pai. Fica sendo meio, assim, incesto. Também, por temperamento ( esquisito, eu sei) eu sou discreta, não me exalto ao falar de homens, não sou de gritar "lindo" nem de fazer loucuras pra dar pra alguém. Mas o velho é foda. Ele samba na lama de sapato branco, a vida veio e levou, amou daquela vez como se fosse a última, cultiva rosas e rimas achando que é muito bom pra moça que anda tão diferente. Porque eu faço todo dia tudo sempre igual. Todo dia eu penso em parar e me calo com a boca de feijão. Porque na hora do vamos ver, olhos no olhos, quero ver o que você faz.

Thursday, July 26, 2007

De qualquer forma...

Hoje acordei atrasada e fui correndo pra Unicamp. Eu e uns amigos decidimos conversar sobre possibilidades de ilustração pro Dante. Ontem, boas notícias sobre uma amiga querida que anda muito dodói, e enchi a cara num rodízio de pizza. Eu que tô tentando fazer uma dieta, a panda nunca esteve tão gordinha.

Recebi uma resposta, de um amigo querido, o Sterzi. Ele leu minha pobre e desmilingüida tese. Aliás, a tese tá terminando comigo, não o contrário. Falta tanta coisa, e eu já tô tão, tão cansada... hoje encontrei um professor querido lá pelo IFCH, e ele olhou pra mim e disse, vc tá com cara de doidinha-final-de-tese mesmo. Eu troco o nome das coisas, me comunico por trechos desconexos e faço digressões inúteis pra explicar as coisas mais óbvias. Além dos brancos, das panes que a mente da gente dá. Ontem fiquei o dia todo pra escrever uma maledetta nota de rodapé, e tem horas que dá uma tristeza grande, um vazio. Cansaço, tristeza. Preguiça de tapar os buracos ( muitos, muitos) que faltam. Todo mundo me dizia que escrever tese era punk, pesado, difícil, dolorido. Pra outras pessoas pode até não ser, mas pra mim tá sendo uma barra daquelas.
Na verdade, eu me esforço pra pensar no futuro, fazer planos, porque o presente tá chato mesmo. Sei que é assim, é normal, não se preocupem comigo. É só um desabafo.
Eu tava pensando em Nápoles, a cidade-moquifo tão querida e linda. O túmulo do Virgílio, a sala de porcelana do palácio, a pizza de queijo, manjericão e tomate e ai, que o povo come sentado na calçada na rua, os presépios. Não sei porque hoje meu combalido, cansado e triste coração foi pra Nápoles. Devo estar com vontade de cassata, sei lá.

Friday, July 20, 2007

Unicórnios, panda e Wikipédia


Hoje precisei consultar a Wikipédia italiana, pra lembrar do número da sala do Botticelli. Vejam que beleza o verbete dos Ofícios florentinos: http://it.wikipedia.org/wiki/Galleria_degli_Uffizi. Tem a lista completa das obras de todas as salas, e embaixo, todas as esculturas de artistas, escritores e poetas que ornam o corredor cinza de messer Giorgio Vasari. Muito bom o verbete.


Daí me lembrei que, sim, a pequena panda comentadora-mirim de Dante está na Wikipédia ( grande coisa, né?). Em 2003, um colega do IEL fez a boa página de publicações dos alunos do Instituto. Colaborei com os trabalhos de fim de curso do doutorado. E por increça que parível, sempre me procuram por conta desses artigos ( tem um sobre Ítalo Calvino comentador de Dante, outro sobre a representação do artista em Kafka, outro sobre monstrinhos em capitéis de igrejas românicas e outro sobre a leitura de Antônio Cândido, de Tomás Antônio Gonzaga), via email. Gente do Brasil todo, muito legal e engraçado. E por conta disso até citada em Portugual sou!


Mas enfim, por conta dos monstrinhos românicos, um rapaz me escreveu, faz um tempo, pedindo um verbete pra Wikipédia, sobre o Unicórnio:


Ficou bonitinho, tem um acréscimo final que não é meu. Gostei da imagem que o pessoal pôs, mas tem uns erros de português na citação do Leonardo. Vejam lá e se quiserem depois, comentem!


Ah, em cima, Rafael, Dama com Unicórnio, óleo s/madeira, 65x51cm, circa 1505. Na igualmente esplendorosa Galleria Borghese, Roma.


O site que mais se usa, pra imagens, é o Web Gallery of Art:http://www.wga.hu/. Húngaro, eficiente, confiável, com imagens de boa qualidade. Recomendo aos não-iniciados nas agruras da História da Arte!

Sândalo de Dândi

E o ACM morreu. Mas não quero falar sobre isso. Inimigo político desse calibre, quando morre, o mais elegante a se fazer é manter silêncio.

Também não quero falar sobre o videozinho do Marco Aurélio Garcia e do Bruno ( ver no http://napraticaateoriaeoutra.blogspot.com/ ) . Como bem disse o Celso, evidente que os caras não tão comemorando o acidente. Mas essa coisa truculenta é bem da esquerda. Hoje discuti no msn e um amigo me bateu a janelinha na cara, porque eu disse que o governo precisa fazer alguma coisa, qualquer coisa. Meu amigo me disse que "morre um monte de moto boy em SP e ninguém faz nada". E que eu era "burguesa"por pensar em acidente de avião. Como diria um cara da Arena, a esquerda tem razão mas é tão chata. E eu sou de esquerda, no sentido Norberto Bobbio.
Tristeza, frio. E eu fiquei pensando numa dessas madrugadas, ouvindo Sândalo de Dândi, do Metrô. A gente vive uma situação inédita. Durante séculos e séculos, os músicos viveram, compuseram, fizeram sucesso entre as garotas. E a gente só tem partituras, e em cada concerto eles revivem. Mas no século XX, tudo ficou registrado. Além dos músicos viverem, comporem e fazerem sucesso entre as garotas, a gente conhece tudo tim tim por tim tim. A primeira gravação de samba, 1917, Pelo Telefone, tá lá, a evolução inteira de um gênero. E gêneros que surgiram depois da vitrolinha e do i-pod: por isso que historiador atual gosta tanto de rock. Tem um professor amigo meu, que sonha em oferecer uma disciplina de História do Rock.
E todos esses registros, essa super abundância de informações, dá a impressão de saturação no ouvinte, no crítico. Que tudo já foi feito, inventado, que tudo passou, e que é coisa de gente nostálgica. Dá essa impressão. Mas não; tudo começa. Tem tanta coisa nova pra acontecer. E mesmo com tanta informação, tanta coisa do passado permanece embaixo da poeira. Tem historiador que se irrita um pouco com o fato de que 90% das coisas escapam ao seu olhar de antiquarista. Eu, ontem, depois de umas doses a mais de conhaque, fiquei tão feliz por as coisas serem assim, infinitas, infinitas.

Wednesday, July 18, 2007

Bolinho cremoso de fubá

Antes de mais nada, expresso minha tristeza e consternação por conta do acidente do avião da TAM. Que tragédia. Acompanhei a cobertura e mando meus mais profundos sentimentos às famílias enlutadas. Tenho um amigo, brilhante engenheiro que fez especialização em Transporte Aéreo na Espanha, e ele sempre me diz que é necessário, urgente, uma reforma completa do sistema aéreo brasileiro. Resta saber quantas tragédias serão necessárias pra que o pessoal tome as providências. FIquei tristíssima porque vi o nome de um antigo colega de ginásio na lista. Não tenho certeza se é ele, vou esperar uns dias pra saber.
Hoje choveu muito, muito frio, essa tristeza do acidente e eu com a tradução e tese emperradas. Na segunda-feira, encontrei rapidamente Tati, uma colega muito querida do IFCH. Tati é alagoana, e sua mãe criou seis filhos, na viuvez, com bolos finos para casamentos ( segundo ela, principalmente um bolo tipo inglês, com especiarias e sem leite, que era famoso em Maceió). Fizemos amizade há uns anos atrás, antes da viagem dela para a Itália, e ela me fez, algumas vezes, um bolo cremoso de fubá espetacular. Sabe aquele bolo que fica com um creme no meio? Aquela coisa deliciosa? E hoje eu lembrei do bolo da Tati, eu sempre esquecia de pedir a receita pra ela. Fucei na internet e me lembrei dela fazendo, anos atrás, pra mim. O que me deixava fascinada era que o bolo da Tati era mágico: ela punha tudo no liquificador. E eu achei umas receitas na internet ( inclusive no site do Olivier Anquier) e todas elas eram convergentes. Fácil, rápido, barato, irressistível, de lascar. Eu, que não tenho batedeira, fiz e salvou me dia. Voilà!
BOLO CREMOSO DE FUBÁ
1 xícara e meia de fubá mimoso
3 xícaras de açúcar
3 ovos
4 xícaras de leite
queijo ralado ( quase um pacotinho)
côco ralado ( se quiser)
2 colheres de sopa de manteiga
meia colher de sopa, rasa, de fermento
Bater tudo no liquidificador. Assadeira untada, forno baixo, dá uma assadeira grande ou um bolinho bem cheinho, na assadeira de pudim ( essa tem que ser alta, senão ele vai derramar). Chá bem forte e cobertor recém-lavado, cheirosinho a lavanda, acompanham, cafuné seria uma boa também.

Tuesday, July 17, 2007

Isso me dá...

Quebrei o dente ( o mesmo, sim, crianças) de novo no domingo. Desespero, choro e ranger dos outros dentes. Desfavorecida financeiramente de forma relativa ( ou seja, sem grana nenhuma, mas ainda morando num lugar confortável, com carro popular e fazendo três refeições quentes por dia, o que me põe no topo da pirâmide social da população mundial), não tinha um real pra pagar o dentista. No final resolvi, fiquei na pendura no dr. Cláudio, que além de dentista é santo.
Mandei pro meu orientador uma versão preliminar da tese. Por isso que anda chovendo desse jeito, até granizo estilhaçou uma vidraça, perto de casa. Ontem compromissos vários me impediram de encarar a labuta tese/tradução/ bróugui, mas hoje acordei cedíssimo pra uma consulta de tortura chinesa, ops, tratamento de periodontia ( maquininha infernal de limpar gengivas) no CECOM. Depois vim pro Celo e leio na Folha as seguintes informações:
1) Manchete do dia- "Lula se diz 'triste' com vaias no Pan": O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse, em seu programa de rádio semanal "Café com o Presidente", segundo a Folha: "É como se eu fosse convidado para o aniversário de um amigo, chegasse lá e encontrasse um grupo de pessoas que não queria a minha presença". No caso o grupo de amigos era um amigo, o prefeito César Maia, que acusa o presidente de fazer propaganda política no Pan(demônio, no caso) e do governo federal ter aparecido demais na festa. Seria como um amigo fizesse muito sucesso com as garotas na festa alheia, para Maia. Mas Lula é magnânimo: afirmou no programa que apesar da vaia, "não mudará sua conduta em relação ao Rio". Ainda bem, né? Os cariocas respiram aliviados. Conclusão: eu encarecidamente peço ao prefeito do Rio e ao presidente da República verem se eu tô na esquina, ou irem catar coquinho, ou irem pentear macacos.
2)Seção Cotidiano ( que eu sempre abro e penso, agora vamos ver as desgraças no mundo que nos rodeia)- "Jovem é acusado de agredir idoso após acidente de trânsito em SP": Filhinho de papai, de 26 desocupados e idiotas anos, pega seu Palio, presente do papai tão idiota quanto ( e meu avô diria, quem sai aos seus...)e colide o carro com o microônibus de senhor de 67 sofridos e ocupados anos. Diz a Folha que o jovem idiota, imbecil e que merecia um cacete "irritou-se com a batida e saiu aos gritos do carro, de acordo com vizinhos, e exigiu do motorista reparações pelo estrago- a traseira do carro ficou amassada". Começa o bate-boca e o corno manso-filho da puta jovem, alteradinho, chamou o idoso trabalhador de "velho maldito"e com a ajuda de seu amigo igualmente homossexual enrustido desferiu socos no senhorzinho, que caiu desmaiado no chão e que, para o desespero das testemunhas, não reagia a nada. Uma testemunha afirma que todo mundo considerou que o idoso trabalhador tivesse virado anjinho, enquanto os dois boçais saíam a toda ( o jornal esclarece que tão bonitas flores da juventude brasileira o fizeram antes da polícia chegar). Mas a polícia de Sorocaba, onde ocorreu o incidente, deu uma rara demonstração de eficiência e pegou os filhos da puta ainda no dia do ocorrido. Ouvidos, as pérolas da ostra classe média-idiota-merda brazuca afirmaram que o senhor havia machucado o dedo da moçoila, que na cadeia gostosa que precisa pegar atenderia sem desejar isso ( e com a graça de Deus e Dante Alighieri atenderá) por Shirley Vanessa, e que não estavam a 250 km por hora, enquanto o microônibus devia estar a 60. Do lado foto do senhor, com o rosto completamente ferido, no hospital.
3)Estadão, seção Pan 2007: "Lágrimas na ginástica: Jade perdeu o bronze por meio décimo".
Ontem fui tomar café na cantina do IFCH, bem na hora que a Jade errava nas paralelas e vi seu rostinho lindo chorando. Três idiotas que estavam sentados na cantina, líderes da greve estudantil passada, e que não conseguem nem pôr a mão no pé ( pela barriga de chope dos três, acho que nem ver os pés ou outras partes do corpo conseguem mais), ou pior, concatenar o lé com o cré, na minha frente afirmavam categoricamente que a ginasta Jade Barbosa, 16 anos, na sua estréia na equipe adulta de ginástica olímpica, tinha "cara de perdedora", que "não tinha entrado pra vencer", "bem se vê que é looser". Nossa, e vocês é que são os maiorais.
Isso me dá tique-tique nervoso.

Saturday, July 14, 2007

Bazar


Recolhi um monte de impressões, sensações, devaneios e dicas nos últimos dias. Vamos lá! Desculpem os alhos com bugalhos, mas é que o meu sangue ferve por vocês, como diria Sidney Magal:



1)categoria guloseima ímpar: eu cheguei aqui na casa do Celo, outro dia, e o povo estava numa discussão sobre chocolates com maior teor de cacau e menor de açúcar. Segundo as pesquisas mais recentes, esses chocolates são os mais saudáveis, e um pouquinho disso por dia ajuda no combate aos temidos radicais livres. Dona Ana comprou o Dark Chocolate da Hershey sabor cappucino, novidade no mercado. Ninguém se interessou, sobrou pra mim. Juro, vale cada real investido. O negócio é uma coisa de gostoso:



2) lembrancinha de festa de criança: Felipe e Murilo ofereceram pipas coloridas pros amiguinhos que participaram da festa dos dois. Uma graça, a caixa cheia de pipas e as rabiolas em saquinhos, do lado. A gente esquece que pipa existe, é barato e lindo de viver.


3)achei no 4shared uma pasta com músicas celtas, medievais, renascentistas, uma beleza total. Consegui contatar a responsável pelo Orkut, a Aline, que de forma super simpática, prestativa e carinhosa, cedeu o link pra gente. Aproveitem, tem coisa valiosa, como música de gaita de fole escocesa, música feita a partir de reconstrução de instrumentos de época, ou seja, pérolas musicais inesquecíveis, e mais uma vez muitíssimo obrigada à Aline:

http://www.4shared.com/dir/763689/4b59b5af/MP3.html


4)falando em compartilhamento musical, um dos melhores do Orkut é sem sombra de dúvida o da comunidade Marchinhas de Carnaval. Graças aos sempre prestativos e diligentes colaboradores, a gente acha de tudo, até a marchinha do Varre Varre Vassourinha do Jânio. Graças ao sr. Raimundo Floriano, lenda viva e a quem também mandei meus efusivos agradecimentos, a gente tem esse fantástico acervo de marchinhas, sambas e tudo o mais de Carnaval. Gente, esse é a pasta imperdível que me salvou a vida no início do ano. E mais música rara, legal e de qualidade pra todos:



5) objeto do desejo: meu e da Táta, que acaba de abrir um blog novo ( http://bankofbostonbeauty.blogspot.com/) a impossivelmente linda Karim Raschid High. O designer famoso assinou, há um tempo atrás, pra Grendene, essa maravilha em plástico. Na época ( tipo um ano e meio, dois anos atrás) totalmente sem grana, deixei pra comprar depois. Esquece. A garotada que compra Melissa não gostou, os caras arquivaram esse arrojo, fiquei a ver navios. De vez em quando procuro em vão no Mercado Livre. Quem ver uma dessas acima, número 38, qualquer cor, favor guardar peloamordedeus.






Friday, July 13, 2007

Cabelo no pente

Eu também quero, quero pisar na fulô, me diz o Alceu.


Essa semana foi lasqueira. Trabalhei horrores, e tive uma tristeza funda, daquelas fundas mesmo, as que já viraram a gente, sabe? Tipo, que viraram tão parte da gente, que a gente acostuma com a dor. Uma tristeza que vem do passado, e se repete no presente.
Mas tudo bem, tive alegrias pequenas que no final, no saldo bancário do meu coração, não me deixaram no vermelho. Hoje consegui até ir ao centro, pagar as contas que deu pra pagar, fazer a mini-faxina que deu pra fazer, e agora preciso, por questão de sobrevivência, retomar a tradução e a tese. Estou mais em paz, apesar dessa supracitada tristeza e da grana curta. Estou mais no centro. Estou mais eu. Entre mortos e feridos, se salva o que se pode, e se vive com o que se tem, a comida na panela, e eu aqui com você, e o cabelo no pente.

Tuesday, July 10, 2007

O Continente, Carlos Gardel, Dizionario Portoghese-Italiano e memórias

Esses dias li de uma sentada O Continente I, o primeiro tomo da série do Tempo e o Vento, do Veríssimo.

Tão bonitas as sagas de Ana Terra e do capitão Rodrigo... eu li Incidente em Antares há muitos anos, adorei, e lá está Martim Terra, o sociológo que abala as mentes de Antares, da família dos Terra Cambará de Santa Fé, e seu sobrado antigo, com um recém-nascido enterrado no porão, e a magra e de olhos azeviche Maria Valéria, com seus bolinhos de coalhada. Tanto em Antares quanto em Santa Fé, Proust aparece o tempo inteiro, nos cheiros, sabores e no vento que acaricia os pampas. Bonito à beça. Não vi a minissérie da Globo, mas colocar o Tarcísio Meira de capitão Rodrigo é covardia, apesar da música da abertura ser a linda Passarim. Enfim, não pude parar de ler. Foi engraçado, eu tive vontade de ler O Tempo e o Vento, cheguei na casa do Celo, dona Ana ia levar pra um sebo a coleção inteira, meio sujinha por ter ficado esquecida na estante. Quem sabe depois do Veríssimo me animo a ler Proust, outro projeto antigo, ou termino de ler Os Sertões, há tantos anos esperando o fim.
Estou em outra tradução italiano-portoghese, daí só dá eu com il vecchio Carlo Parlagreco pra cima e pra baixo. Fico tão envergonhada, porque meu italiano é de miséria, mas no final sou tradutora sempre com trabalho à vista, e publicada. Vai entender, a pequena neta de holandeses no final fala e entende a língua da nonna emprestada, da querida dona Ofélia, lá do Cambuci.
Alguém na comunidade da Antena Um, do Rio, lembra de Por Una Cabeza, do Gardel. Tão lindo Perfume de Mulher, assisti os dois. Gostei mais do original com o Gassman, claro, mas o Al Pacino não faz feio. Lembrei de um amigo querido, gaúcho ( esse de Vacaria), que não vejo há muitos anos, ele próprio personagem da saga do Tempo e o Vento. Esse meu amigo, ex-seminarista, estava na Argentina, trabalhando como vigia num hospital psiquiátrico e estudando Sociologia. E na madrugada do dia 24 de abril de 1976, ouviu no rádio a notícia do golpe militar, na guarida do hospital, sentindo frio. Eu tenho em mim tanta memória, e não só minhas.

Sunday, July 08, 2007

Fashion os olhos!

Época de desemprego, pindura, tese emperrada, lógico que dá de tudo: problema no dente, no carro, na paciência, e a última foi linda. Tinha duas calças jeans, dos últimos quatro anos. As duas resolveram pifar agora: rasgos em lugares muito íntimos, que a princípio foram ignorados, tornaram-se coisas incontornáveis. E como diria Lênin, que fazer?
Comprar calça jeans, pelo menos pra mim, sempre é um sacrifício, porque se passa do quadril fica largo nas pernas, isso se passa nas pernas, e a numeração que dança de confecção pra confecção, além da panda ser irremediavelmente gorducha para os padrões anoxéricos que hoje reinam ( tudo bem, eu exagero na comilança também), além de desfavorecida financeiramente ( leia-se pobre).
Ontem fomos, eu e Celo, no shopping. Ele pra ver um sapato, eu pra ver uma calça e uma camiseta. Queria desfilar uma camiseta nova. Mas o quê. Na Zara, na liquidação, tudo não cabia em mim, sistematicamente, e na Renner tudo cabia ( eu nasci pra ser pobre) mas tava caro: uma blusa linda, estampada, tipo quimono, quarenta pilas. E eu a zero.
Lembrei-me todavia que estou usando duas outras calças. Uma de brim, comprada a 10 reais, e outra jeans, escura, muito bonita, agarradinha ( panda num momento sexy) 10 real. No Carrefour, em momentos distintos, entre caixa de leite e pão italiano. Ué, vou no Carrefour ( pra comprar calça jeans!).
Chego lá, empolgada. Logo na entrada da seção de roupas, uma baciada das almas imensa, cheia de jeans marca Hamuche ( um dos impérios do Brás). Mas pra minha decepção, masculinas! Meio tristinha, reparo que outra baciada está cheia de cobertores fofinhos e atraentes, e de calças de moletom sem graça.
Passeio pela seção. Umas lingeries de marca boa, baratas, camisetas de algodão vagabinhas mas gostosas de usar. E fuço nas calças. Todas pequenas, pequenérrimas, meio bregas ( cheia de brilhos e trique-triques) e a partir de 39,90. Fico decepcionada, mas faço tentativas. O provador do Carrefour é uma maravilha: você entra e sai, entra e sai e ninguém te amola, ninguém da loja vem nem em seu socorro, nem em seu distúrbio.
Volto pro bacião das almas, calças masculinas a 19,90. Penso: essa numeração da Hamuche é biruta. Experimentei calças de três números e o do menor entrou. Se isso ocorre com as femininas, as masculinas... devem ser um número, dois, menores! Por isso que tão encalhadas aí. Pego algumas, rodeio a numeração, desfaço as pilhas com um cheiro gostoso de jeans novo, o índigo ainda forte. Vou pro provador e zumpit! O milagre da calça perfeita ocorre ( sim, aquele milagre, minha querida leitora, aquele milagre que nós mulheres esperamos: a calça que entra, fecha, fica bonita, você se sente interessante e tudo ao se redor se modifica, para o bem).
Lembrei de uma revista chique, dessas Vogue ou sei lá o quê, que li faz tempo. Uma moça dessas "descolada, elegante mas moderna", tipo Júlia Petit ou Fernanda Young, deu uma declaração que "sempre comprava calças jeans masculinas, etc e tal". Tudo bem que, no caso, eram as legítimas Levis, em brechós da Inglaterra, previamente desbotadas e lindas. Não é bem o que acontece comigo, mas enfim.
Ainda de quebra achei uma verde, perdida no meio da baciada, e um jeans normal, macio, gostoso, confortável. Acrescentei um tênis tipo All Star, branquinho com florzinhas ( um chuchu) e uma toalha de mesa ( afinal, eu estava no Carrefour). No caixa descobri que a danada perfeita tava ali na baciada por acaso, e custava anteriormente 64,50. Fiquei tão feliz, vocês nem imaginam.

Saturday, July 07, 2007

Das atuais letras II- A Missão

E deu no Meio primeiro!



Hoje, no Estadão, Marcelo Rubens Paiva, em sua coluna no Caderno 2, comenta a crítica de Alcir Pécora, publicada no mesmo jornal, à chamada "nova geração literária". Marcelo alterna em aplaudir o Alcir, sob a égide da necessidade, ligada à "essência do jornalismo", de polêmicas na imprensa ( e lamenta a atual "brodagem"nas letras e afins, todo mundo é bro do outro e ninguém fala nada) com uma fina ironia, ao desmembrar o artigo de Pécora como um jogo, um ludo da crítica literária ( no caso do livro da Verônica, Alcir avança quatro casas). E Marcelo Rubens Paiva encerra, a respeito de outro Marcelo, Mirisola, que lança livro hoje no atual pólo do teatro, letras e afins de São Paulo ( a velha Praça Roosevelt, onde a companhia Satyros encena o Gran Cabaret Demenzial): "Como todo bom polemista, é frágil e de bom coração. A polêmica é a máscara dos inseguros".
Diz Rubens Paiva que não se pode fazer a "crítica da crítica", porque "desequilibra a dinâmica do jogo". Bom, pelo menos nestas paragens fizemos a crítica da crítica da crítica!!!!!
Tô sem o link do artigo do cara aqui, depois posto, oquei? Abraço na dona Dirce e beijo nas crianças!

Friday, July 06, 2007

Torta de maçã da Vovó Donalda

Trabalhei duro na tese nos últimos dias, e andei postando coisas cabeça aqui, não sei se vocês repararam ( risos). Sei lá, normal, lutando bastante com os capítulos da tese, e tudo o mais. Uma semana corrida, passada na Unicamp, entre as bibliotecas e os amigos de sempre e de agora.
Hoje tinha dentista sete e meia da matina no CECOM. Lógico que, exausta, acordei às seis e desliguei o despertardor, perdendo a hora. Resolvi pifar mesmo, tão cansada estava. Geralmente no sábado eu pifo, durmo o dia inteiro, mas essa semana foi na sexta-feira mesmo: depois dizem que as lides intelequituais não cansam. Fui almoçar na minha mãe, mais sono, atendo o telefone e é um pesquisador, querendo saber minha opinião sobre instituições financeiras, vulgo bancos. Digo a ele minha pífia situação de professora e que devido à minha situação não tenho bancos em alta consideração. E Celo pede depois a torta de maçã.
Essa receita vem de um volume de culinária, da Enciclopédia dos Escoteiros-Mirins, alegria da criançada oitentista, vendida pelo Círculo do Livro ( gente, quem não esperava o próximo volume, com curiosidades. A minha seção preferida, a de Futebol com o Zé Carioca, vinha com as frases do mítico Nenen Prancha, como "Se macumba ganhasse jogo o campeonato baiano terminava sempre empatado". Quem que escreveu isso, meu Deus? Walt Disney, se soubesse).
Outro dia peguei o volume e é surreal ver Horácio e Clarabela, boi e vaca, cometendo canibalismo e louvando as virtudes dum bom bife à milanesa, enquanto patos comem frango e até feijoada. Enfim, eu li o "Para ler o Pato Donald", do Ariel Dorfman e Armand Mattelart, no primeiro ano da graduação, e todo o universo assexuado e capitalista no úrtimo do Disney perdeu a graça. Mas essa receita, da lendária torta de maçã da Vovó Donalda, é demais! Fácil de preparar, barata e é das legítimas apple pies de origem inglesa ( consultei o The Naked Chef, e o bonitinho vai por aí):
TORTA DE MAÇÃ DA VOVÓ DONALDA:
4 maçãs picadas e descascadas
1 pouco de passas, se quiser
canela em pó
2 xícaras de farinha de trigo
1 xícara e meia de açúcar
1 colher de sopa de fermento
2 colheres de sopa de manteiga derretida
3 ovos
Unte uma forma média ( tipo um pirex redondo, médio) com manteiga e coloque as maçãs. Por cima, espalhe as passas e a canela. Junte a farinha, o açúcar e o fermento e peneire. Depois coloque a mistura peneirada sobre a primeira camada. Cubra com manteiga derretida. Bata os ovos com uma colher de açúcar, coloque por cima de tudo, e leve ao forno pra assar.
O resultado é uma torta molhadinha, e uma camada intermediária fica branquinha, como num strudel. Servir com chá forte, esse sem açúcar!

Thursday, July 05, 2007

Das atuais letras

Falar em Eduardo Sterzi, poeta, ensaísta e amigo, ex-editor da revista Cactus e atual editor e colaborador do jornal K ( que revive os gloriosos tempos dos pasquins literários, como o Nicolau paranaense), pra mim é falar da Verônica Stigger, companheira-comparsa do Eduardo em tais atividades, ela mesma escritora, ensaísta, etc e tal. A Verônica lançou, pela Cosac &Naify, agora em maio, Gran Cabaret Demenzial, uma experiência literária onde mescla poesia, prosa, sátira e tragédia, com bastante coragem e contundência.
O lançamento do livro da Verônica foi acompanhado pela panda com um vestido estampadão Renner, escova no cabelo e direito a fofocas das rodas literárias campino-paulistanas. Sou suspeita pra falar dos Stigger-Sterzi, mas de qualquer forma admiro a capacidade da Verônica em criar, muitas vezes, pelo non-sense e pela escatologia, uma crítica afiada do princípio "a literatura contemporânea é sei lá entende". Verônica está na Feira de Paraty, nesse momento.

Bom, o lançamento do Cabaret foi anunciado por algumas reportagens em vários jornais, dentre as quais uma entrevista coletiva dela com outros jovens escritores e poetas, identificados pelo texto como "a nova geração" ( Folha de São Paulo, Ilustrada, 12/05/07). Em outros lugares o livro da Verônica, suas propostas e as da tal "nova geração" ( a imprensa sempre tem que rotular as coisas, pro leitor não se perder e achar que está na crista da onda) apareceram, nos últimos dois meses.


E daí no domingo, o professor Alcir Pécora, diretor do Instituto de Estudos da Linguagem aqui da Unicamp, escreveu uma crítica à parte da produção dessa tal "nova geração", incluído o livro de Verônica. No jornal, a crítica saiu junto com uma ilustração de um velhinho, numa poltrona, de costas para o espectador, jogando uma massa de livros no chão. Apropriada a ilustração, devido ao tom corrosivo do autor: começa o texto detonando o livro da filha do dramaturgo Dias Gomes. Depois, falando de Verônica, comenta que a imitação de Hilda Hist não valeria a pena, e destaca:
"O livro ostenta humor negro; pretende-se desbocado. Aspira a inteligência aguda. Não vai além da amplificação escatológica de situações banais, sem que a amplificação chegue a constituir questão, mais do que figura, ou a escatologia mais do que referência afetada. Evidencia o procedimento a narrativa de um casal de estudantes morando em cubículos, cuja situação vai sendo amplificada até a literalização escatológica do espaço mínimo. Por vezes, o humor negro e o nonsense ganham feições denuncista, como no caso do casamento inter-racial no qual a crueldade dos pais do noivo branco é castigada, assim como a beleza da noiva negra é reconhecida. Quer dizer, o humor negro se contém nos limites do admissível genérico que compõe o cenário pós-moderno. O mundo dos pretos feios e das crueldades sem castigo passa ao largo." E depois:
"Acontece que no Brasil já existe uma Hilda Hilst. É bobagem imitá-la. Mesmo porque, excessiva como é, não admite imitações que prestem: imitam-se os sestros, e deixa-se passar o essencial, que é a obsessão da franqueza e da verdade."
Bom, fazendo a crítica da crítica, ou como diriam Marx e Engels na Ideologia Alemã, a crítica da crítica da crítica. Não considerei que Verônica imite Hilda Hist. É evidente que as referências ( pra usar um termo bastante em voga nas reportagens sobre a atual produção literária) da jovem escritora passam pela bruxa Hilst, e por Leminski e tudo o mais. O non-sense, o escatológico, o humor negro, tudo isso confere. Mas acho que Verônica quer dar um passo além.
O conto ao qual Pécora se refere é uma narrativa do casamento inter-racial entre um moço branco e uma moça negra. A família do moço constrói uma festa de casamento cruel, com purgante nas bebidas, giletes nas cadeiras, e uma piscina com curto-circuito elétrico, bem como um capacho à entrada com cola super bonder, e convida "aqueles negros". O que ocorre é uma tragédia (não vou narrar aqui). E Pécora denuncia o que seria um lugar-comum pós-moderno, pretos legais- brancos filhos da puta, sendo que realidade seria mais ( "o mundo dos pretos feios e cruéis", onde estaria?). O politicamente correto é um lugar comum pós-moderno, sim. Mas na narrativa de Verônica tudo é satirizado, inclusive esse mesmo lugar comum que Pécora cai, a crítica pelo avesso ( é claro que o crítico esperto, que também aspira à inteligência aguda, detestaria a denúncia social e a reduziria ao estereótipo do politicamente correto pós moderno. O óbvio, enquanto isso A inserção do negro na sociedade de classes, do Florestan, pega poeira na estante).

Considerei que o artigo de Pécora é antipático. Coisa de gente que tá em cima e claro que não vai gostar dos novos: fácil colocar os novos no mesmo balaio e dizer ao conservador leitor do Estadão, em seu domingo sem preocupações, que nem se preocupe com as atuais tentativas dos jovens em fazer Literatura, porque tudo nessa produção é óbvio demais. Sendo que a própria crítica que faz também recai na obviedade: crítica e produção estariam empatadas. E vamos às Teses contra Feuerbach.



A bibliografia está:




Press release da Verônica na FLIP, tem um perfil dela e um artigo sobre o Cabaret, por Fabrício Carpinejar: http://flip2007.wordpress.com/veronica-stigger/



Reportagem na Folha sobre a tal atual nova geração: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1205200707.htm


E, finalmente, o artigo do Pécora:

Wednesday, July 04, 2007

Dante e seus comentadores

Hoje vim para a biblioteca do IEL, atrás do Comentário a Comédia, do Bocaccio, da tese do meu amigo e mestre dantista ( além de mestre-cuca, sua principal especialidade) Eduardo Sterzi. Parei na duas pequenas prateleiras consagradas ao tiozão narigudo, com os volumes essenciais ao estudo da vida e obra do supracitado narigudo cidadão, e consultei o The Cambridge Companion to Dante.

Lá dentro, um textinho de um de meus autores favoritos na selva oscura que são os Dante Studies, Robert Hollander, professor em Princeton e autor, dentre outros, de um lindo livro sobre o personagem Virgílio na Comédia ( que Hollander informa ser a figura da tragédia, em Dante): "Dante and his commentators". Por ser curtinho, mais informativo que analítico, li rapidinho e corri ao terceiro andar da biblioteca, anotar algumas coisitchas.
Hoje, depois de enfrentar o tratamento de periodontia no CECOM, às sete da matina, permaneci um pouco na cantina do IFCH, pra me recuperar de tão traumático evento ( inventaram uma maquininha infernal de limpar gengivas. Terrível!) e comentei sobre alguns acontecimentos recentes com Marcão, Maria e Luís Fernando. E pensei em meu amigo Sterzi, no início do meu doutorado e de como Eduardo foi 200% comigo, me emprestando textos, indicando bibliografia, dando força moral junto com Verônica, e principalmente fazendo uma lasanha espetacular. Peguei a tese do Eduardo e na lista de agradecimentos consta meu nome, como pequena seguidora-mirim dos estudiosos de Dante, os dantistas ( dantesco é um adjetivo utilizado para personagens e situações à la Dante, o que eu já vivi/ vi de monte, assim como messer Sterzi). A amizade e o amor por Dante.
Nas considerações sobre os atuais comentadores do tiozão, Hollander afirma que escolhe, como melhor, o também meu favorito Francesco Mazzoni, professor da Universidade de Florença, falecido no início desse ano, e autor do texto sobre Guido da Pisa que anda me encantando e tirando o chão. E o no final: " And last of all, I would hope that, in the next century, students of Dante will give up the intelectual arrogance and simple egotism that, I am afraid, mark so much humanistic scholarship. Scientists have long ago learned to work together, not because they are particularly nice people, but per necessitatem. They understand that complex and difficult problems require collaboration. Collaboration is not a word that may be used to describe the first six hundred years of Dante scholarship". E termina citando mais uma vez Mazzoni e sua colaboração na Enciclopedia Dantesca ( dada de presente pelo governo da Itália a Lula, e depositada na Biblioteca Nacional). E pensei, que sorte tenho eu, pequena panda-comentadora mirim e fã do tiozão!

Tuesday, July 03, 2007

A arca de Noah Kalina


O Portal Terra sempre me atualiza nas bizarrices do mundo atual, o que talvez seja um contrapeso pro século XV. E aí vi na seção "Celebridades da Internet" o projeto do fotógrafo americano Noah Kalina.


Desde 2000, quando tinha 19 anos, Noah Kalina tira uma foto sua, todos os dias. Todos os dias. Li na Wikipedia e depois vi no Youtube ( que, junto com o Google, são a Santíssima Trindade do Ciberespaço) que outra moça, Ahree Lee, havia feito o mesmo e colocado o resultado no Youtube ( tá lá também, em sua bonita face asiática). Mas Noah começou antes, e seu registro é maior, apesar de ter dito em entrevistas que Lee o inspirou a dar vazão à essa produção. De qualquer forma, o que seria uma bizarrice, pra mim virou um início de uma reflexão que achei digna da perspicácia dos meus caríssimos leitores.


É incrível ver o tempo passar, na sucessão de cortes de cabelo, barbas por fazer, roupas e cenários, no mesmo rosto impassível e de grandes olhos de Noah. Me fez lembrar os retratos antigos de Fayoum ( acima), os retratos funerários dos cristãos egípcios de grandes olhos e que venceram séculos em sua enigmática beleza. O que remete, à pequena historiadora da arte mirim, várias questões sobre o chamado gênero da retratística. Celo que anda debruçado sobre esse problema, poderia nos ajudar aqui: sempre se associou o retrato à necessidade de memória, de eternizar o efêmero por excelência, a figura humana. O retrato esteve associado aos ritos e cultos funerários, e mais tarde ao poder político. Se isso estiver correto, o projeto de Noah é bizarro, caiu no bricabraque da internet, mas me fez pensar em várias coisas.
Noah construiu uma arca, no seu próprio rosto, para enfrentar o tempo. Interessante que fez isso em plena juventude, o que me dá uma tristeza indizível. Pensei primeiro em mim, e no não-registro que fiz do meu rosto nesses anos de juventude ( ao contrário de Noah, passei anos e anos sem tirar fotos,e se as tirava era por acaso e não as guardava nem via. Empatei em obsessão com Noah, mas no sentido inverso). Depois pensei no espelho de Narciso. Mas, como nos mostrou Caravaggio, nas águas ficou eternizada a expressão embevecida do belo jovem, prestes a morrer de amor por si mesmo: na expressão concentrada e ao mesmo tempo terrível de Noah, não há embevecimento, não há piedade, não há escamoteamento. É realmente uma face de patriarca do Antigo Testamento, irônica e contundente, mas não um ícone: a face de alguém. O que também é espantoso nos retratos de Fayoum: as faces de alguém que se foi ( no caso, há séculos), e em Noah, o tempo que foge. E terminei ouvindo Bola de Meia, Bola de Gude, do Milton: há um passado no meu presente.


http://www.youtube.com/watch?v=6B26asyGKDo

http://en.wikipedia.org/wiki/Noah_Kalina

http://www.everyday.noahkalina.com/

Sunday, July 01, 2007

Vai ver que a confusão...

Esse final de semana não fiz nada de muito útil. Ontem fiquei em casa, macarrão com molho branco, brocólis e salada de alface americana, repolho roxo e maçã. Hoje foi feijuca na casa do Celo, dona Ana Maria lascando no panelão. Além dessas atividades culinárias, e dos quilos a mais na sempre rechonchuda silhueta da panda ( em fotos recentes, nunca me vi tão baranga na minha bida), do sono sem barreiras e da tristeza, fiquei baixando musiquinha.
Assim como todo mundo que tá nas comunidades de música do Orkut, comecei a usar o 4 Shared, que é melhor do que o Rapidshare e outros sites de compartilhamento de arquivos. Dentre as benesses do 4, está uma ferramenta de busca, o que permite vasculhar as pastas alheias e baixar o que você quiser. Ou seja, tá no 4, tá na mão de Deus.
Então lá vai, com o devido crédito às pessoinhas ( que não sei quem são) que colocaram esses dois links:
-Festa anos 80: todas as porcarias dos 80's brazucas. Destaquei Envelheço na Cidade, do Ira! ( meu Deus, como foi que eu esqueci dessa música! É a minha alma!) e Fui Eu, do Sempre Livre ( outra, outra!):
-Cabaço FM: olha, não sei quem pôs esse negócio aí, nem esse nome, mas é um santo que precisa ser canonizado com urgência. As verdadeiras pérolas do brega, aquelas que dóem no coração e nos ouvidos ( baixei Lindomar Castilho, Nós Somos Dois Sem Vergonhas, dentre outras):
Depois achei um blog bacanérrimo, na comu do Premeditando o Breque ( hoje Neguinho do Pastoreio tocou com vontade as supracitadas canções e mais Fim de Semana, dos caras), com tudibão da mpb, inclusive um dos discos de música sacra barroca mineira, da série do vinil que ganhei das minhas Fifa e Ju, os do Premê, e muita raridade que ainda tá em vinil ( além de CDs difícieis, como os do Egberto Gismonti). Baixei o lindo Caetano Veloso 1971. Esse blog é de outro santo, realmente imperdível:
E como diria Herbert, eu tô na esquina, eu vou na onda, pego carona na multidão;você olhou e fez que não me viu.